domingo, 25 de agosto de 2013

Palestra: As Letras na nossa vida




As Letras na nossa vida

O curso que nos humaniza

Participei de um bate papo com alunos de letras e outros cursos da Universidade Federal de Uberlândia nesta semana para falar sobre o tema Multifuncionalidade no cotidiano.

Foi-me solicitado abordar a experiência de ter feito o curso de Letras e que repercussões esta formação me trouxe na vida, independente de estar ou não atuando na área.

Na abertura, com a Fanny fazendo a apresentação. Fotos: Thaís Belafonte.

O convite de minha sobrinha Fanny foi uma oportunidade muito legal de voltar a conversar com estudantes de Letras. Agradeço a acolhida de todos lá, inclusive do tutor do programa Tête-à-PET Diálogos às Terças,  o Prof. Dr. José S. de Magalhães.


A decisão pelas letras teve percurso sinuoso

- fui uma criança paulista que chegou a Uberlândia aos dez anos e que trabalhou desde a infância em muitos serviços braçais. Fiquei em Minas Gerais até os dezessete anos e voltei para SP. Fiz minha primeira faculdade no curso de Ciências Contábeis (1991-94). Foram quatro anos de estudos de economia, administração, contabilidade, muita matemática. Quase nada de língua portuguesa e linguagem.

- a decisão de me formar em Contábeis ajudou bastante para ser aprovado em concurso público e virar funcionário do Banco do Brasil (1991). Passei no concurso duas vezes, e na segunda prova foi bem mais fácil por já estar cursando.

Alunos da UFU - MG
- sempre alimentei o sonho de ser professor. Duas paixões sempre me moveram na vida: esportes e literatura. Por razões conjunturais na época, decide fazer faculdade de Educação Física (1996/98). Fiz dois anos de curso e não pude concluí-lo. O curso era pago e as finanças pessoais interromperam o meu sonho de ser professor.

- mantive o desejo de atuar na área de educação e decide entrar em uma faculdade pública para não ter a decepção que tive no curso pago de Educação Física. Prestei a Fuvest e entrei na USP (2001-2011). Estive dividido na inscrição do vestibular entre os cursos de Letras e História. Decidi-me pelas Letras porque via mais oportunidades de sair do banco e atuar na área.


No meio do caminho tinha uma pedra

- após entrar no curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Usp - FFLCH -, fui convidado também a compor chapa cutista em eleição de diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Fui eleito diretor da entidade em 2002.

Mais alunos da UFU e o tutor do PET,
Prof. Dr. José S. de Magalhães.
- a partir da posse na direção do Sindicato, o curso de Letras seria percorrido de forma lenta e difícil pelas atividades de representação da categoria bancária nas lutas diárias contra as mazelas dos bancos enquanto patrões. Eu não poderia priorizar o curso de Letras em razão da gravidade diária e histórica que é a da luta de classes.

- a grade do curso de Letras na especialização de Português e Espanhol (bacharelado) foi concluída entre 2001 e 2011. Foram anos inesquecíveis de formação, de convivência com professores das áreas de português, espanhol, literaturas diversas e linguística. Foi uma oportunidade impar de acesso a roteiros de estudos nas mais diversas áreas literárias e de línguas.


O que mais marcou nas letras

- o contato com outras línguas foi decisivo para a escolha da opção de especialização. Entrei na Letras com desejo de fazer estudos de língua inglesa e portuguesa. Após contato com diversas matérias de outras línguas como um curso semestral de introdução ao espanhol, decidi-me por fazer a grade de português e espanhol.

Conversando com o pessoal do Tête-à-PET na UFU MG.

- o que foi decisivo no primeiro ano do curso – chamado “ciclo básico” - para escolher o Espanhol além do Português, foi uma matéria optativa sobre literatura latino-americana e as relações com a morte. A matéria e os textos foram bárbaros! Nunca mais tive matéria tão legal.

- outra coisa que me marcou muito no curso de Letras, foi o fim do meu preconceito linguístico, tão comum e tão presente na sociedade e no mundo acadêmico. Uma matéria feita no 1º ano abordou com leveza o tema e eu revi conceitos sobre os diversos falares e dialetos além da língua padrão.

Momento de descontração...
- alguns textos marcaram muito minha forma de ler e interpretar como, por exemplo, o texto do professor João Alexandre Barbosa (1937-2006) O leitor crítico. O texto para mim foi determinante, separando “meninos de homens”, quando se fala no foco e na atenção que devem ter os profissionais das Letras em relação ao leitor comum.


Por que não estar atuando na área

- não estou na área das Letras como professor porque ainda detenho mandatos dos trabalhadores como dirigente bancário. Sou um cidadão ligado ao movimento social e tenho que me dividir nas dimensões que todos nós temos como trabalhador, pai, estudante e ator político. Não teria como ser um bom professor e um bom dirigente sindical.

- ainda pretendo atuar na área da educação. Hoje já atuo como formador na área da representação sindical, pois sou secretário de formação da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro – Contraf-CUT.


O que o curso influenciou na minha vida

- mudei completamente a minha visão de mundo após o curso de Letras e muitas visões que tinha antes, menos humanistas e mais frias e matemáticas, mudaram com o contato com grandes autores e grandes obras.

Então, como eu ia dizendo... (olha meu sobrinho Victor lá no canto)

- o mesmo se deu com relação ao uso de línguas estrangeiras. Falar o espanhol no meu trabalho tem sido muito importante. Também conhecer a língua inglesa foi algo diferenciador nas relações com o mundo e as entidades e empresas do dia a dia da minha representação sindical. Já estive a trabalho ou passeio na Itália, Espanha, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai e sempre me virei no contato em inglês e espanhol com cidadãos do mundo.

- saber usar a linguagem adequada de acordo com o público e o local onde estou tem sido muito importante para tentar ser um bom comunicador.

- uma coisa que discuti com os estudantes foi sobre o mundo estar precisando urgentemente de mais gente das Letras do que do mundo das Exatas, das Finanças e das técnicas em geral.

Intervenções dos participantes

- os alunos e o tutor do Tête-à-PET fizeram intervenções muito legais. Foram abordadas questões sobre o mercado de trabalho na área de Letras, a falta de interesse na contemporaneidade para se seguir a carreira na área de humanas e na área da educação, sobre as mobilizações ocorridas no mês de junho no país, dentre outras questões.

Participação da turma foi muito legal.
O nosso bate papo deve ter sido legal, pois meu sobrinho Victor disse que é muito comum os alunos só esperarem o tempo mínimo para ganharem o certificado e saírem no meio do debate. E não saiu ninguém e ficamos juntos até que precisamos acabar devido ao limite de horário.



Foi uma tarde muito legal. Gostei e agradeço o convite feito pela Fanny e pelo Prof. Dr. José S. de Magalhães e pela participação dos alunos e alunas da UFU.


PS (Post Scriptum): não dei o crédito do/a autor/a das fotos porque não sei. Caso a pessoa queira, é só me dizer o nome.

PS 2: todas as fotos foram feitas pela jovem Thaís Belafonte.

5 comentários:

José disse...

Boa tarde, William
O debate foi muito produtivo. Sua experiência contribuiu sobremaneira para a formação dos alunos.
Muito obrigado.
Magalhães

William Mendes disse...

Valeu professor Magalhães! E muito obrigado pela oportunidade.

Parabéns pela sua função tão importante neste mundo - lidar com esses jovens.

Abraços,

Luann Dias de Souza disse...

William, o diálogo foi muito agregador. Seu percurso lhe proporcionou uma visão ampla sobre vários aspectos da nossa vida. Obrigado pelo diálogo, sinta-se convidado para retornar sempre! Abraços... Dias de Souza

William Mendes disse...

Olá Luann, como vai?

Mais uma vez, eu agradeço o convite e a recepção muito legal que tive de vocês.

Se tiver nova oportunidade de um bate papo com vocês, estarei à disposição.

Desejo pra ti um caminhar seguro e de realização em seu curso e na vida.

Abraços,

Stefani Saldanha disse...

Oi, tio William, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite, ficamos muito felizes e com certeza a sua experiência contribuiu de alguma maneira para todos que estavam ali, assim como contribui durante toda minha vida para mim.