segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Reflexões sobre a morte não natural e a dor alheia





Refeição Cultural (indigesta)


Após quinze dias de trabalho ininterrupto, desejei um fim de semana de descanso. E um pouco de paz, porque nossa vida sindical não é um mundo de paz. E o coração carece disso, às vezes.

Estou aqui fechando o domingo, quase meia-noite. Passei o dia no velório e enterro de uma jovem menina mulher. Ela faleceu no sábado. Não resistiu ao mal da contemporaneidade: a depressão. Vinte e poucos anos de vida que se interromperam. Possibilidades que não mais.

Agora, sozinho aqui no canto com o computador, sinto um aperto no coração que não deve chegar perto daquele que a mamãe dela está sentindo. Que coisa mais não natural aquela mãe enterrando sua filha! Filha que minha esposa acompanhou por mais de vinte anos. Que lhe ensinou as letrinhas, que lhe deu o primeiro diplominha. Que a viu crescer. Virar menina moça. Fazer faculdade. Virar professorinha como aquela que lhe alfabetizou. Virar uma menina mulher.

Passei a noite e madrugada do sábado e este domingo pensando na vida. Pensando nos porquês de uma vida perdida assim. Do mundo em que vivemos hoje.

A minha impressão é que as pessoas que estão chegando nestas gerações recentes, ao que me parece, não suportam mais a dor da existência. Um não-ter-alguma-coisa; um “não” em meio a ter tudo; um amor não correspondido; uma aparência não padrão; um gosto não padrão; uma depressão ou patologia vária; p
arte das pessoas dizem faltar fé ou um deus; enfim, as coisas duras e complexas da vida complexa. A vida está escorrendo por aí nos ralos.

Estou aqui pensando na mãezinha dela. Fico pensando na minha mãezinha... Eu vivo há décadas com a dor da existência, com crises de depressão, mas sobrevivi todo esse tempo aos meus piores momentos. Eu e vários das gerações anteriores. E olhando pra trás, avalio que valeu a pena estar aqui. Já fiz muita coisa. As possibilidades foram muitas e rolaram.

Valeu a pena os livros que já li (faltam tantos ainda...); virei sindicalista alguns anos depois de uma crise de dor da existência e fiz mais de uma década de luta sindical de corpo e alma (contribuí para a classe trabalhadora); já corri cinco São Silvestres (e olha que sonho em correr uma maratona...); saltei de paraquedas; já vi meu filho passar dezesseis primaveras; tive a sorte de ter até este momento meus queridos pais vivos; já conheci locais que nunca planejei; conheci muita gente boa que faz a vida valer a pena; vi um metalúrgico virar presidente e mudar a vida de milhões de brasileiros...

Minha nossa! Essas possibilidades não existem mais para aquela menina. Não existem mais de forma integral para os pais dela, para sua irmã. Para aquele monte de gente que chorou por ela hoje. Que merda de mundo duro!

Estou com uma grande dor no peito hoje...


Pensei muito na minha vida neste fim de semana. Estou pensando ainda. Venho pensando muito na minha existência e no fazer coisas que valem a pena. Coisas que tragam satisfação a mim também. Avaliando se é maioria a quantidade de companheiros com a minha ideologia no meu espaço de luta e se ainda faço a diferença nas decisões a serem seguidas...


Semanas atrás, lendo O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, fiquei com a frase do capitão Rodrigo na cabeça, a sensação dele ao sobreviver após semanas entre a vida e a morte, ele levantou, olhou lá fora e pensou em várias possibilidades que teria novamente e pensou: estar vivo é bom!

Tem que valer a pena estar vivo. E vale a pena! As possibilidades a cada dia são imensas... de ser feliz com coisas substanciais e com coisas simples, materiais e imateriais...

A morte prematura e trágica daquela menina mulher me tocou profundamente. Que dor pra todo mundo. Não é justo pais enterrarem uma filha dessa maneira. O mundo está muito errado. Os valores estão perdidos. Mas o sistema que predomina no mundo (capitalismo) é um só há décadas e o humano é só uma coisa descartável. E por mais que as massas sofram devido ao sistema, as coisas não mudam. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.

Como vamos resgatar nossos jovens do mundo? Como vamos resgatar as gerações de hoje e amanhã para um mundo onde a depressão e as síndromes psicossomáticas não sejam algo que avassale grande porcentagem da população? Onde os valores humanos e o trabalho sejam para o bem comum e não para o endeusamento do supérfluo e vazio daqueles que toparem o jogo?

Chega! Descanse em paz menina. Desejo muita força pra sua mamãe e pra todos que te amavam. Também estou muito amargurado.



PS: imaginem só, a menina adorava Beatles... passei essas duas horas ouvindo Beatles em homenagem a ela... “Something”, “In my life”, “Let it be”, “A day in the live”, “Don’t let me down”, “And I love her”, “Lucy in the sky with diamond”, “Hey Jude”… E chorando. E tentando compreender o porquê de tudo isso...

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