domingo, 27 de abril de 2014

Lula, o filho do Brasil - Fazer política aberta e com a massa





Capítulo: "E Luiz Inácio tornou-se Lula" parte II

Aqui vou destacar as inovações que Lula trouxe para o Sindicato dos Metalúrgicos quando lá chegou nos anos 70. Primeiro Lula entrou no sindicato e depois virou presidente em 1975 e foi reeleito em 1978.

O contexto da época era de Ditadura Civil-Militar desde 1964. Recessão pesada para a classe trabalhadora. Salários de miséria que não davam sequer para alimentar a família. Frei Chico era do Partidão e Lula não tinha envolvimento com correntes políticas.

Se, por um lado, há um exagero do Lula em falar pra fazer tudo aberto e público quando os milicos e DOI-CODI e DOPS estavam de olho, por outro lado, a crítica que o Lula faz é ao modo dos comunistas e classistas de fazer tudo em cúpula ao invés de fazer o diálogo aberto e franco com a massa.


"E aí na minha cabeça começou a vir a seguinte questão: qual era a lógica de prender um cara como o Frei Chico? Qual era a lógica de prender um trabalhador pelo simples fato de ele ser contra as injustiças sociais do país? E aí, quando eu fiquei sabendo que o Frei Chico tinha sido torturado, tinha sido massacrado, aí deu até uma revolta por dentro! Um pai de família, um cara que trabalhou desde os 10 anos de idade, se ferrou a vida inteira, um cara que não tinha nada a não ser a família dele e as ideias dele, de repente chega um troglodita de um milico qualquer e manda prender esse cara? E tortura esse cara? Em nome do quê? Em nome de que ordem? Isso me criou uma revolta interior!"


"Aí eu passei a não ter medo mais. Porque se eu tivesse que ser preso pelo que eu pensava, então que eu fosse!"



DAR PUBLICIDADE, CONVERSAR COM A MASSA

"Denise: Você soube de detalhes da tortura sofrida pelo Frei Chico?

Lula: Ele me contou. Agora eu também fiquei puto com o Frei Chico. Porque o cara era vice-presidente de um sindicato, tudo o que eu fazia em São Bernardo ele poderia fazer em São Caetano. Faz uma assembleia e fala as coisas na frente de 500 pessoas, na frente de mil pessoas, na frente de 2.000! Ele não, ele preferia fazer reuniãozinha no fundo do quintal, com duas pessoas e de preferência numa sala escura para ninguém ver. Sabe aquela mania de perseguição política? Eu falava: 'Faz as coisas abertas, Frei Chico! Faz a coisa aberta: abre o salão do sindicato, convoca mil trabalhadores e esculhamba com quem tiver que esculhambar! Pelo menos, se der alguma coisa, todo mundo está vendo por que você está sendo preso'. Eu tinha divergência com ele por isso. Eles gostavam de uma reunião escondida. Eu não gostava."


FAZER AS COISAS ABERTAMENTE AJUDOU FORMAÇÃO DE LULA

"Um dia, o pessoal da oposição lá de São Bernardo me convidou para uma reunião na casa de um companheiro. Era a casa do Mário Ladeia, que depois foi vice-prefeito de São Bernardo. A gente estava reunido de noite, todo mundo assustado. Aí de repente vem um carro e pára perto do portão. Aí tem sempre alguns doentes mentais e começam: 'É a polícia! Não sei o quê, não sei o que lá...'. Todo mundo ficou deitado no chão... e nem respirava! Sabe, diziam que era a polícia... E o táxi estava descarregando passageiro e não desligava o motor do carro, obviamente. Aí, a partir daquele dia eu falei: 'O que é que eu estou fazendo para me submeter a isso? Vou ficar com essa psicose, esse medo? Assim ninguém consegue viver, me desculpem!'. Nego andava assustado na rua. Eu falava: 'Não, se eu tiver que ser preso eu vou ser preso pelo o que eu faço publicamente, abertamente. Os negos me pegam logo no sindicato'. Essas coisas ajudaram muito na minha formação."


FAZER POLÍTICA NO SINDICATO E COM OS TRABALHADORES

"O Frei Chico já me convidava para ir em reunião. Ele dizia: 'Vamos lá num apartamento em São Paulo, vai vir um companheiro do Rio de Janeiro fazer uma palestra para nós... Vamos em tal lugar...'. E eu respondia: 'Frei Chico, eu vou fazer reunião em um apartamento escondido? Para ser preso sem saber por quê? Não, Frei Chico! Se seu amigo quer conversar comigo, manda ele vir no sindicato. Eu sou o presidente do sindicato e eu atendo quem quiser falar comigo, não tem nenhum segredo'."


CHEGA DE REUNIÃO DISFARÇADA COM JORNAL EM BANCO DE PRAÇA

"Uma vez, em 1974, eu fui na praça da Matriz encontrar com um cara chamado Emílio Bonfante, ele tinha o codinome de Ivo. Era o momento das eleições de 1974. Aí eu chego na praça e sento de um lado do banco, o cara senta do outro. Cada um com um jornal na cara... [ri]. Aí o cara perguntava: 'Como é que você está vendo a situação do país?'. Eu respondia: 'Estou vendo assim, assim e assado.'. E ele: 'O que é que você acha do Marcelo Gato?'. E eu: 'Eu acho que o Marcelo Gato é um cara legal.'. E aí ficava naquela conversa, e eu dizia que também achava o outro legal. Aí, passada uma meia hora, o cara foi embora eu esperei um pouco e depois fui embora. Então eu falei para o Frei Chico: 'Frei Chico, eu não tenho a minha mãe na zona! Nem meu pai é corno!... Eu vou ficar fazendo essas reuniões assim? Não tem essa, não, Frei Chico, a partir de agora em diante quem quiser fazer reunião comigo é pública e não tem segredo'."


LULA AFIRMA QUE EXPERIÊNCIAS COM O PARTIDÃO MUDARAM SUA CABEÇA

"Tudo isso mudou a minha vida. Essas coisas e a prisão do Frei Chico para mim mudaram a minha cabeça para melhor. Até porque alguns companheiros que foram presos eu conhecia. E, do ponto de vista da agitação, eles não faziam muita coisa. Talvez tivessem feito no passado, mas não faziam nada naquele instante. Então eu ficava pensando: 'O que estas pessoas fizeram para serem presas?'. Sabe, então isso para mim foi muito bom, foi muito bom isso."


COMENTÁRIO

Este capítulo é muito interessante porque enquanto vemos Lula falar em 1993 retrospectivamente aos anos 70/80, ele está descrevendo e fazendo uma espécie de referência ao que seria a gênese de concepção e prática do movimento sindical organizado a partir da criação da Central Única dos Trabalhadores (1983), que seria criada após a Conclat (1981) como um Novo Sindicalismo de massa, classista, democrático, autônomo e organizado a partir da base.

Fazer um sindicalismo mais no dia a dia nos locais de trabalho, falando abertamente com os trabalhadores em assembleias e na porta das fábricas, é a melhor opção para politizá-los sobre todos os temas do mundo do trabalho e da vida política e cidadã como um todo.

Eu acredito muito nisso enquanto dirigente sindical e secretário de formação. Busquei fazer isso até de forma intuitiva desde que cheguei ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região em 2002. Se o sindicalista está constantemente em diálogo com os trabalhadores, ele tem respaldo e representatividade para organizar, para concordar e até para discordar da posição dos seus representados.

Pra ver como são as coisas e os contextos históricos... Hoje, 2014, temos uma democracia em construção no Brasil. Temos as mesmas conversas pequenas aqui a ali. Uma central sindical buscando tomar espaço de outra. Uma corrente tentando derrubar a outra. Grupos rivais se organizando uns contra os outros dentro das centrais e sindicatos... gente que se diz de "esquerda" aliada a grupos ultra conservadores e reacionários. Gente que se diz "combativa" e que faz cada coisa pelega que assustaria os antigos pelegos. E La Nave Va...

E também temos gente defendendo que deveria voltar a ditadura... é mole? Assisti ao depoimento do coronel reformado Malhães, que confessou para a Comissão da Verdade que eles matavam e torturavam mesmo. É chocante vê-lo falando. Ele apareceu morto nesta semana após as confissões que fez...

É isso. Na próxima postagem sobre este capítulo, irei abordar as mudanças na comunicação com os trabalhadores feita por Lula no Sindicato dos Metalúrgicos após virar presidente entre 1975 e 1981.

Tchau!

William


Bibliografia:


PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil. Apresentação de Antonio Candido. Editora Fundação Perseu Abramo. 1ª edição: dezembro de 2002. 3ª edição, 3ª reimpressão: julho de 2009.

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