domingo, 2 de novembro de 2014

Compreender o motivo das coisas não é perdoar



Posso até fazer cara de Monalisa nos espaços de
representação social, mas eu tenho lado, estou
com os humildes e com os trabalhadores e
contra fascistas e golpistas de toda espécie.

Refeição Cultural


"A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são fáceis de superar, pois não há verdade no conhecido mas enganoso dito francês tout comprendre c'est tout pardoner (tudo compreender é tudo perdoar). Compreender a era nazista na história alemã e enquadrá-la em seu conceito histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender." (Eric Hobsbawn - Era dos Extremos)


O povo brasileiro está vivendo uma espécie de transição da construção conceitual de Sérgio Buarque de Holanda, em seu Raízes do Brasil, de que o povo brasileiro seria "cordial". Talvez estejamos caminhando para uma nova fase conceitual. Não sei que nome será fixado para o novo padrão de intolerância que está se estabelecendo na população brasileira.

Agora há linchamentos nas ruas. Pessoas e famílias são atacadas por brucutus ou hordas de pessoas por serem militantes ou simpatizantes de partidos (do PT para ser mais claro). Aumentou a intolerância contra gays, negros e nordestinos.

Com a extensão do período democrático no Brasil (pós-ditadura de 1964-85), o mais longo período até agora em nossa jovem república, as minorias tradicionalmente empoderadas - elite branca, patriarcal, católica, escravocrata e machista - que dominaram o país por cinco séculos e que perderam o poder pela via democrática após a entrada no século 21, conseguiram (ou estão conseguindo) estabelecer um novo padrão no comportamento do povo brasileiro.

Após as eleições presidenciais de 2010 entre José Serra do PSDB e Dilma Rousseff do PT houve um aumento perceptível nos níveis de intolerância ao outro, ao diferente de si, em relação à chamada diversidade de grupos. Por não apresentar programas e propostas factíveis no âmbito da política para a população brasileira, o PSDB passou a receber o apoio progressivo e programático das famílias que dominam os meios de comunicação no país, concentrados perigosamente nas mãos de alguns bilionários. Aliás, esses grupos midiáticos se fortaleceram enormemente DURANTE a ditadura civil-militar de 1964-85.

A proposta da oposição ao governo Lula da Silva (2003-2010) passou a ser uma só: interromper os mandatos do PT e seus programas sociais a qualquer custo político e ou social.

O que começou a se estabelecer em 2010 acabou por se efetivar durante e após as eleições presidenciais de 2014. O PSDB de Aécio Neves, Geraldo Alckmin, FHC, José Serra, Aloysio Nunes etc passou a ser um partido de direita e arregimentou o que há de mais retrógrado em termos de grupos com ideologia e valores fascistas. Temos agora uma direita brasileira que se apresenta como tal.

A liderança maior do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, está liderando juntamente com as maiores estrelas do partido, a incitação a golpes civis-militares. As lideranças desse partido estão convocando o povo brasileiro para manifestações pedindo impeachment da presidenta legitimamente recém-eleita, Dilma Rousseff.

Estão no silêncio (criminoso) e muitos estão apoiando a caça e perseguição de militantes do Partido dos Trabalhadores e simpatizantes e eleitores de candidatos do PT. Alguns imbecis, mais trogloditas que a média, estão atacando pessoas que usam as cores vermelhas.

É lamentável! O Brasil não será mais o mesmo... mas o Brasil e o povo brasileiro serão o quê daqui adiante? 

Agora vemos familiares e pessoas que conhecemos pedindo a volta da ditadura militar... vemos pessoas que vivem do trabalho manipuladas pelos veículos de comunicação da direita fascista (é isso mesmo, direita fascista!) berrando e urrando morte aos nordestinos; urrando a extinção de um partido e seus membros (o PT); dizendo que o povo pobre e trabalhador que vota por interesses legítimos no partido que melhorou sua vida é ignorante e burro; comunidades de médicos pregam a castração de eleitores do norte e nordeste... (que nojo de gente assim!)

Usei a frase do grande mestre Eric Hobsbawn para tecer essa minha breve refeição cultural (indigesta) porque compreender não é perdoar o que as pessoas que eu antes respeitava e agora não respeito mais estão fazendo... pregando o ódio, pregando o golpe, pregando até a eliminação física de gente como eu, que sou de esquerda sim, voto no PT e não sou corrupto (aliás, tenho comigo que corruptos são os tucanos que nunca são investigados e seus apoiadores, que, em geral, são corruptores no dia a dia civil - porque fecham os olhos para a corrupção tucana...).

Eu sou um defensor da Política como meio de realizar mudanças sociais, sem guerra, mortes e sofrimento. Mas se este é o novo Brasil e o novo povo brasileiro, paciência!

Vamos ter que conviver com isso e defender as bandeiras que sempre defendemos em prol da classe trabalhadora.

William

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