sábado, 28 de março de 2015

Corpo Fechado... Leitura do conto de Guimarães Rosa





Refeição Cultural

Com a leitura do conto "Corpo fechado", acabei hoje o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, cuja primeira edição data de 1946. O meu volume é de 1982, adquirido em sebo. É a 25ª edição a partir de 1967, da Editora José Olympio.

Se eu disser a vocês que comecei a lê-lo em 2002 quando iniciei meu curso de Letras na USP e que só terminei a leitura do último conto em 2015, vai parecer piada. Mas não é!

Lá em 2002, li o conto "O burrinho pedrês", um dos contos mais graciosos que eu conheço. De lá para cá, tentei ler um monte de desejos literários, mas tive que ser sindicalista ao mesmo tempo que estudante de letras, e a faculdade foi ficando em segundo plano. Terminei o curso e nunca terminei (nem terminarei) as leituras sonhadas.

Foi interessante fechar agora Sagarana com o conto "Corpo fechado". A leitura me levou até a Uberlândia dos anos oitenta. Me fez recordar a infância no Bairro Marta Helena. Me lembrou o bar Choupana, de meu pai, lá na Avenida Quilombo dos Palmares. O conto me lembrou a Uberlândia das brigas de rua, minha infância e adolescência, onde era comum os desentendimentos terem desfechos na base das facadas.

O universo de Guimarães Rosa é tudo o que a gente viu, ouviu e viveu nas Minas Gerais. As crendices e contos populares. O tal sertão metafórico que é em todo lugar. O linguajar do povo com o qual cresci. Jeito gostoso de falar, de comunicar. Jeito certo de falar.

Aliás, quando olho para trás e vejo a minha caminhada, não tem como eu não pensar na ideia do "corpo fechado". Acho que sobreviver à adolescência é para aquelas e aqueles, principalmente, que têm corpo fechado. Principalmente para os homens por causa da cultura da macheza, do machismo, tão arraigado em nosso mundo há séculos.

O conto narra um causo num interior qualquer de um sujeito que passa um perrengue por causa de uma ameaça de um outro sujeito que é o terror local. Terra sem lei e sem piedade. Infelizmente o causo é atemporal porque é o que acontece exatamente agora, neste instante, aqui nos cantos do Brasil e do mundo que habitamos.

Chororô

Ai ai ai, quem me dera que as veredas do sertão de minha vida tivessem me levado para as possibilidades em lidar com a literatura e dela viver, e poder refletir e transmitir e com isso aprender e melhorar o nosso entorno pela conquista através das palavras encantadas e prenhas de outros mundos possíveis... quem me dera.

Mas minha vereda é a que caminho agora, aliás, no sertão do meu mundo só há o aqui e o agora, ao menos para quem nele se encontra. É caminhar e escolher veredas que nos levem para bons lugares.

William

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