domingo, 26 de abril de 2015

Diário - 260415





Refeição Cultural - preservando o caráter

"Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos? As condições da nova economia alimentam, ao contrário, a experiência com a deriva no tempo, de lugar em lugar, de emprego em emprego. Se eu fosse explicar mais amplamente o dilema de Rico, diria que o capitalismo de curto prazo corrói o caráter dele, sobretudo aquelas qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros, e dão a cada um deles um senso de identidade sustentável"

(A corrosão do caráter - consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Richard Sennett)


Domingo à noite. Acabou o fim de semana em Osasco SP.

Cheguei muito cansado de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, na sexta-feira à noite. Estive lá para a primeira Conferência de Saúde da Cassi deste ano. A semana foi extremada no trabalho e o desgaste psicológico me exauriu as energias.

No sábado pela manhã foi muito difícil levantar-me. Mas depois o corpo "pegou no tranco" (a frase tende a virar relíquia na língua portuguesa porque não se pode dar tranco nos carros atuais). Encontramos alguns amigos à tarde em um churrasco. Uma das coisas que fiquei pensando após isso foi no livro de Richard Sennett falando sobre a questão do caráter.


SENSO DE IDENTIDADE SUSTENTÁVEL

"O termo caráter concentra-se sobretudo no aspecto a longo prazo de nossa experiência emocional. É expresso pela lealdade e pelo compromisso mútuo, pela busca de metas a longo prazo, ou pela prática de adiar a satisfação em troca de um fim futuro..." (Sennett).

Eu sei que deveria investir um pouco mais na sanidade advinda da convivência social nas horas de lazer. Eu quase nunca vou a eventos sociais porque estou sempre escolhendo o parco tempo que me resta do trabalho (militância) para mim mesmo. Faz muitos anos que tenho jornadas de 12 horas ou mais desde que fui para a Contraf-CUT e atualmente como diretor eleito da Cassi. Quando sobra alguns minutos, durmo... tento descansar em casa com a família.


CORRENDO PARA NÃO ADOECER

Ao correr neste domingo 5 km no Parque Continental, ao lado de onde moro em Osasco, percebi que se eu ficar sem correr algumas semanas ficarei doente. O estresse que tenho durante a semana vai fazendo meu corpo pedrar, cheio de hormônios ruins, e começo a ter dores nos músculos, tendões, costas etc. Ao correr, desopilo o fígado e sai a carga ruim e oxigena a vida. Não dá pra ficar sem correr mais não, com essa vida que estou levando para cumprir até o fim a missão que me designaram...


LEITURAS QUE ALIMENTAM E ENRIJECEM O CARÁTER

Fui ler um pouquinho neste domingo. Além de umas dezenas de páginas do Sennett, li a citação do dia no livro do Eduardo Galeano, "Los hijos de los días", que ganhei do companheiro Carlão.

Vi que neste dia 26 de abril ocorreu em 1986 a catástrofe nuclear em Chernobyl, Ucrânia. Eu me lembro disso e tinha 17 anos de idade. Naquele ano, decidi deixar meus pais em Minas Gerais e voltar sozinho para São Paulo para tentar trabalhar e fazer a minha vida. 

Eu estava cansado de ser trabalhador braçal, de trabalhar sem carteira assinada, fazendo bicos, eu queria um emprego mais estável, queria uma vida que me permitisse uma narrativa, como diz Sennett. Quando passei em dois concursos ao mesmo tempo - Banco do Brasil e CET da Prefeitura de SP -, escolhi o que tinha jornada de 6 horas...

Minha nossa! Nunca quis trabalhar tanto em minha vida... olha como está a minha vida hoje... as coisas são assim!

Todos somos filhos dos dias...


SENSO DE COMUNIDADE (AO VIVO)

"Rico me disse que ele e Jeannette fizeram amizade sobretudo com pessoas que viam no trabalho, e perderam muitas delas nas mudanças dos últimos doze anos, 'embora continuemos em rede'. Ele busca nas comunicações eletrônicas o senso de comunidade  que Enrico (seu pai) mais apreciava quando assistia às reuniões do sindicato dos faxineiros, mas o filho acha as comunicações on line breves e apressadas." (Sennett)


Por fim, queria deixar registrado que foi uma vitória poder falar com quase cinquenta pessoas em Campo Grande sobre a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. O banco e seus representantes na Cassi não me liberaram a verba para realizar as conferências de saúde. Mas eu não aceitei isso e busquei na persistência pessoal e no apoio das entidades associativas do BB, como a Anabb e o Sindicato local, a forma de realizar o evento. Valeu a pena!

Eu disse para cada um dos colegas lá da nossa comunidade do funcionalismo, que eu posso até entender a importância das redes sociais virtuais, mas que nada substitui o olho no olho, o gesto, o tom de voz, a postura corporal de falar com as pessoas.

A humanidade vai sofrer muito com as consequências do esfriamento humano advindo com a vida virtual e o fim dos abraços, dos falares olho no olho. O mundo vai sofrer nas próximas décadas... (já está sofrendo).

Aos poucos que lerem essas palavras, deem um abraço humano nos seus próximos quando os encontrarem. Olhe para eles, ande olhando para a frente e não para a tela de seu mundo virtual.

William Mendes

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