domingo, 5 de abril de 2015

Ideologia e Contraideologia - Rousseau





Alguns excertos interessantes no capítulo que aborda Rousseau

"Do homem natural ao pacto social"


"Rousseau começa a desenvolver a tese que lhe será sempre cara: a humanidade piorou à medida que a civilização foi produzindo e reproduzindo as condições de desigualdade econômica e política que, em proporções diversas, continuam vigorando em todas as sociedades".

"Em 1753 a mesma Academia lançou novo concurso, cujo tema era a pergunta: 'Qual é a origem da desigualdade das condições entre os homens? Ela é autorizada pela lei natural?'. A resposta de Rousseau está no Discurso sobre a origem da desigualdade, que não obteve o prêmio, mas, publicado em 1755, pode ser considerado o texto-matriz do pensamento democrático radical que irá inspirar os revolucionários de 1789...".

"O pensamento de Rousseau é movido por uma paixão polêmica: acusar os males da sociedade francesa, que, por sua vez, eram justificados por uma ideologia iníqua, fundamentalmente o estilo de pensar do Antigo Regime, que cristalizava os estamentos, divinizava o poder monárquico e se mostrava indiferente à distância entre o luxo dos ricos e as carências dos pobres. Contra esse estado de violenta assimetria, mascarado pelo brilho de uma civilização refinada, o pensador esboça o quadro de uma sociabilidade ideal que ama a liberdade, a igualdade e a simplicidade dos costumes.

Percorrer a obra de Rousseau é acompanhar o processo de um homem contra uma sociedade, cujos modos de pensar contrariam tanto a imagem do homem natural como o ideal do cidadão virtuoso, que só consegue viver livre e feliz na vigência plena do pacto social..."

"O sistema político dominante nos meados do século XVIII francês é hierárquico. Os estamentos ou estados (État, termo usado desde o século XIII para designar a nobreza, o clero e o povo, o qual incluía burgueses, artífices e camponeses) eram desiguais no que tocava aos bens materiais, aos privilégios e às regalias concedidas pelo tesouro real. A desigualdade é o alvo central do Contrato Social (1762)..."


DESIGUALDADE COMO TRANSGRESSÃO ÀS LEIS NATURAIS

"No Discurso sobre a desigualdade, a existência de classes opostas é vista como transgressão das leis naturais, o que parece ser uma leitura democrática em polêmica com inflexões aristocráticas do jusnaturalismo de Grotius: 'É manifestamente contra a Lei de Natureza, seja qual for a maneira como se defina, que uma criança comande um ancião, que um imbecil conduza um homem sábio, e que um punhado de gente transborde de objetos supérfluos, ao passo que falte o necessário à multidão faminta..."


ORIGEM DAS DESIGUALDADES E ASSIMETRIAS POLÍTICAS ESTÁ NA INVENÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA

"Em outra passagem, conceitualmente mais densa, Rousseau estabelece firmes conexões entre as assimetrias políticas e a desigualdade socioeconômica:

              'Se nós seguirmos a progressão da desigualdade nessas diferentes revoluções, constataremos que o estabelecimento da Lei e do Direito de propriedade foi seu primeiro termo; a instituição da Magistratura, o segundo; que o terceiro e último foi a mudança de poder legislativo em poder arbitrário; de sorte que o estado de rico e de pobre foi autorizado pela primeira época, o de poderoso e de fraco pela segunda, e pela terceira o de Senhor e de Escravo, que é o último grau da desigualdade, e o termo no qual desembocam todos os outros, até que novas revoluções dissolvam completamente o governo, ou o aproximem da instituição legítima'.


A PROPRIEDADE PRIVADA NÃO É UM DIREITO PRIMITIVO, NÃO É ESTADO DE NATUREZA

"A propriedade privada não seria, portanto, um direito primitivo, inerente ao estado de natureza, mas uma instituição tardia, uma 'impostura' que acabaria sendo, por necessidade, legitimada pela 'sociedade civil' com todo o seu cortejo de desigualdades. Provavelmente nenhuma outra denúncia da ideologia liberal burguesa terá sido lançada, antes do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, com a mesma veemência dessa diatribe do segundo Discurso.


COMENTÁRIO

Da leitura, tiro proveito em fortalecer o que tenho definido como ideologia e os porquês de minhas posições no palco social.

Sou contrário à naturalização da desigualdade social, política e econômica. Tenho claro que fatores ideológicos e ferramentas fortíssimas de manipulação colocam nosso povo defendendo os interesses dos capitalistas. Essa manipulação atinge inclusive os componentes de nossa classe social - os trabalhadores e até nossos familiares.


LEI NÃO SE DISCUTE? E ESCRAVIDÃO?

Outra coisa que sempre tive opinião clara e que a mantenho até hoje: eu não concordo com as posições que afirmam que "lei não se discute, se cumpre". Há leis iníquas, feitas em contextos contrários à classe trabalhadora a qual pertenço e não acho que leis assim devem ser cumpridas.

Quer um exemplo: a lei da propriedade de um ser humano sobre outro (escravidão).


PL 4330 DA TERCEIRIZAÇÃO TOTAL

Quer outro exemplo: se esse congresso brasileiro da legislatura 2015/18, a mais direitosa e contrária aos trabalhadores em décadas, aprovar a terceirização total que vai ser colocada em pauta nessas semanas, sou favorável a uma completa rebelião da classe trabalhadora brasileira contra os patronatos e seus lacaios no Congresso Nacional. É a minha opinião e tenho o direito de expressá-la aqui.

É isso! Acabou o fim de feriado de Páscoa e o meu direito aos estudos e às leituras.

(Isso acaba comigo, mas sigo cumprindo meu papel social enquanto for preciso)


Bibliografia:

BOSI, Alfredo. Ideologia e Contraideologia. Companhia das Letras. 2010.

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