domingo, 27 de setembro de 2015

Diário - 270915



Em 2009, um certo trabalhador correndo.

Refeição Cultural

Domingo, manhã de muito calor em Brasília.

Meu desejo e minha reflexão é que deveria sair para correr e cumprir meu treinamento para estar preparado para a minha primeira meia maratona (21K), daqui a alguns dias (11/10/15).

Mas estou receoso de sair para correr porque meu corpo sentiu o cansaço de meu trabalho e o empenho que busquei conciliar nesses dois meses de treino, entre agosto e outubro. Faz umas duas semanas, senti o tendão do pé direito e de lá para cá, estou nas tentativas de corridas, focado no limite do tendão.

Neste sábado, lendo minhas anotações em meu blog, vi o quanto é antigo e recorrente esse momento que estou vivendo em relação ao esporte. Em 2008, aconteceu a mesma coisa quando me preparava para a minha segunda corrida de São Silvestre. Escrevia que não conseguia treinar pelo cansaço no trabalho, que estava sem resistência para longas distâncias etc.

Entendo que essa é a nossa vida de membro da classe trabalhadora, que tem o desejo de fazer coisas diversas - culturais, sociais, esportivas - mas que, em geral, após sua rotina de venda de sua força de trabalho, não lhe sobra muito de suas energias para as atividades várias que deseja. A vida quase que se resume na sua profissão, na sua tarefa de subsistência.

Esse sofrimento dos membros da classe trabalhadora é um sofrimento silencioso. O sistema é feito para fazer com que os trabalhadores se sintam eles próprios culpados por não estarem sempre por cima, em todas as atividades, em todos os meios sociais. Os membros da classe trabalhadora, na verdade, têm a obrigação de subsistência de si mesmos e de seus dependentes. E, no meu caso, por mais que algum crítico superficial me venha com a alegação que "sou diretor" em uma empresa, com boa remuneração, no fundo sou escriturário de banco e estou na função por um período determinado e continuo sendo o que sou, e voltarei a estar escriturário daqui um tempinho.

É uma loucura como essas coisas são montadas socialmente pelo poder hegemônico. As empresas e corporações que definem a ideologia dominante, incluem nela como os trabalhadores devem se vestir, como devem se comportar, o que devem possuir para estarem na onda, na moda, para serem aceitos em seus meios sociais etc. O que lhes pagam de salários e benefícios, por outro lado, em geral não permite que eles se adequem às exigências impostas pelo próprio sistema. Os bancos, como exemplo do setor que trabalho, exigem certas coisas de meus colegas para serem gerentes de contas ou cargos comissionados e, às vezes, depois de meus colegas nessas funções se organizarem a si e família para certo status quo, os bancos simplesmente lhes tiram a função comissionada, voltando os trabalhadores a ganharem pouco mais que o piso da categoria profissional. E vai explicar para eles que eles não são capitalistas e sim trabalhadores, bancários!

É um sistema louco (capitalismo), de uma sociedade doente, que caminha para o esgotamento dos recursos do planeta em que vivemos.

A divagação por onde me enveredei não foi vã porque o mundo todo é interligado e está conectado, apesar de sermos apenas mais um ser mamífero racional em meio a tudo isso. Qualquer merda que se faz nos cantos do mundo, eu sinto a consequência também.

Lutei tanto nos últimos quinze meses de meu novo trabalho para chegarmos no momento que chegamos, de busca de solução para a empresa em que sou gestor, e nas próximas semanas definições ocorrerão de alguma forma para seguirmos com nossas tarefas. Eu coloquei todas as minhas capacidades intelectivas e energias para organizar a melhor correlação de forças possível entre nós trabalhadores e o patrão, gestor conosco na entidade em que atuo.

Eu aprendi quando cheguei eleito no movimento social, lá no final de 2002 e início de 2003, que mobilização e greve não podem tudo, mas podem muita coisa, mudam a perspectiva de resultado numa peleja entre capital e trabalho. O que fiz em defesa da empresa que administro e em nome dos trabalhadores que represento desde o ano passado, foi organizar essa perspectiva melhor de negociação com unidade entre as entidades representativas do funcionalismo hoje em relação ao ontem, quando as discussões sobre os rumos da entidade de saúde estavam somente no âmbito interno da empresa.

Estou com a consciência leve de saber do roteiro que ajudei a construir e ao mesmo tempo estou circunspecto pela ansiedade em ver que final haverá para a solução de nossa causa pela entidade de saúde que dirigimos representando associados.

Imaginem se seria simples em meio a tudo isso que vivi o ano todo, como um dos timoneiros, ter corpo e mente disponíveis para aumentar a capacidade física em correr distâncias nas ruas de nosso mundo...

Os dias seguem, e se aproxima o dia 11/10/15. Será que o desfecho terá um final feliz como nas corridas de São Silvestre, que até o momento deu tudo certo nas sete provas em que me meti a correr? Não sei, mas o espírito persistente continua o mesmo.


William Mendes

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