domingo, 4 de outubro de 2015

No Brasil, o ódio vai vencendo, envenenando...


(Postagem atualizada às 00:50h de 5/10/15)

Cartaz nazista de 1939 sugerindo judeus
como ratos, passando a ideia de praga ou
peste na sociedade alemã.


Cartaz nazista de 1943 sugerindo que os
judeus eram corruptos e responsáveis pela
crise econômica da Alemanhã (a Europa
vivia grave crise econômica na época).

Refeição Cultural


E ENTÃO, O ÓDIO VAI VENCENDO A CIVILIDADE E CAMINHAMOS PARA A BARBÁRIE...

Estou com 46 anos. Passei boa parte da minha vida lidando com meu ódio contra a injustiça social, a burguesia, banqueiros, essa gente (uns 5%) que governa o mundo há séculos e explora gente como eu, da classe trabalhadora (os 95% restantes).

Passei a dominar meu ódio após entrar para o movimento sindical e converti isso em energia para representar a classe trabalhadora em espaços institucionais, através do processo democrático das eleições. Acho que isso foi muito bom para mim e para o meio social em que convivo.

Acontece que o período de aceitação da democracia (da democracia burguesa, com regras da própria burguesia) está chegando ao fim, desde as eleições de 2010 e, principalmente, a partir da 4ª derrota da direitona brasileira em 2014 para os projetos do PT, quando parte da "elite herdeira do Brasil colonial" e os seus partidos de oposição ao PT e aos projetos sociais de distribuição de renda dos governos do PT deixaram de aceitar conviver em certa pax social e avisaram que não aceitariam mais as regras e que iriam impedir o andamento do mandato da presidenta Dilma do PT.

A imprensa das famílias que chafurdaram na lama da corrupção por décadas no Brasil e participaram ativamente dos golpes institucionais ao longo do século XX conseguiu quebrar no povo os limites da civilidade. Agora se uma pessoa morre de câncer, a torcida adversária fala, escreve, grita que tomara que dê câncer em mais não sei quantos do lado adversário. A Caixa de Pandora foi aberta... agora pode tudo!

Fico vendo o que essas famílias donas da grande imprensa fizeram no Brasil alimentando e criando um clima de ódio fascista absurdo contra o PT e seus líderes e contra os milhões de cidadãos como o casal da matéria abaixo, que defendem os projetos de país e para o povo que o PT sempre teve como foco: inclusão, distribuição de renda, oportunidades às minorias com programas sociais de fato, defesa da autoestima e soberania nacional, defesa das empresas nacionais, da coisa pública nacional, dos empregos no Brasil e para os brasileiros e não tudo para os países lá fora e nada para nós.

Essa oposição criminosa, fascista, parcial, dessas famílias que dominam os meios de comunicação de massa, faz hoje com que a justiça seja INJUSTA, LESIVA, que deixe de lado crimes graves cometidos por todos para focar de forma seletiva em achar ou inventar crimes que tenham qualquer possibilidade de vinculá-los ao partido e aos líderes do PT.

E o ódio na sociedade vai crescendo. As pessoas estão envenenadas. É exatamente o clima e a história construída na Alemanha nazista pelo 3º Reich contra os judeus e os povos "inferiores" da Europa. Quando Hannah Arendt (ler AQUI) compreende nos depoimentos do julgamento do alemão Adolf Eichmann que o que os nazistas fizeram aos judeus era algo normal porque era o clima e a cultura daquela época, fica claro do que estamos falando aqui. O que a direita brasileira e a oposição ao PT estão fazendo é exatamente o que o 3º Reich fez com o povo judeu.

E eu me pergunto: aos 46 anos, tenho que voltar a ter ódio e todos os seus apetrechos contra a burguesia, a direita, contra as pessoas simples mas manipuladas que me tratarem com o mesmo ódio só porque sou contra as teses da direita, contra a corrupção da direita (essa pode porque a mídia é deles), contra a intolerância desses fascistas alimentados pela oposição... enfim, que tristeza! Será que terei que recuperar meu ódio?

Não sei se tenho energia para voltar a sentir isso. Hoje defendo a civilidade, o diálogo, a política e as eleições ao invés da violência, da guerra contra o outro até o extermínio.

E agora, José?



Fonte dos cartazes: http://www.frispit.com.br/site/o-lado-sombrio-da-propaganda/


(matéria da Folha, Mônica Bergamo, 4/10/15)

Vizinhos brigam por causa do PT e vão parar na delegacia em São Paulo

Walquíria Leão Rego tem 70 anos e mora há três décadas no mesmo edifício, numa rua pacata do bairro de Perdizes. A socióloga, que dá aulas de teoria da cidadania na Unicamp, vive no 4º andar e sempre se deu bem com seus vizinhos de baixo: o engenheiro agrônomo José Luiz Garcia, 67, a mulher dele, Marília, e a filha do casal, Ana Luisa. A jovem já deu aulas de inglês para Walquíria. A professora recebeu Marília para comer bolo e tomar chá.
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Walquíria já foi filiada ao PT. Hoje é "o que se pode chamar de eleitora fiel". O vizinho nunca gostou da legenda. Mas a diferença não era um problema. "Jamais nos desrespeitaram", diz ela.
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O clima de boa vizinhança começou a mudar há cerca de um ano, na época das eleições. Walquíria e o marido, Rubem Leão do Rego, colocaram um adesivo de Dilma no carro, um New Fiesta vermelho. Garcia, que guarda o automóvel na garagem justamente ao lado, colocou o seu: "Fora, Dilma. E leva o PT junto". "Esse adesivo já é um sinal de selvageria. Achei sintomático", diz ela.
Dilma foi reeleita e o ambiente no prédio de Perdizes azedou de vez. O engenheiro, inconformado com o resultado das eleições, que acredita terem sido fraudadas, começou a escrever dizeres contra o PT em cartazes do elevador. Um deles, da Sabesp, alertava sobre a falta de água: "A seca resiste". Garcia escreveu: "O PT também". No dia seguinte, o troco de um morador: "Desinformado".
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"Então escrevi: 'Lava Jato', diz o engenheiro. "Aí eles ficaram loucos", segue, referindo-se ao casal petista. Repreendido pela síndica, Garcia desistiu do elevador. "Criei um jornalzinho. Todos os dias eu escrevia notícias numa folha de papel: 'José Dirceu, herói do PT, preso pela segunda vez', 'Lula, lobista dos empreiteiros'. Eles [os vizinhos] tinham que ler. Foram ficando tiriricas. Mas não podiam dizer nada porque o papel estava colado dentro do meu carro."
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A tensão foi aumentando. Em 8 de março, dia do primeiro panelaço contra Dilma, o engenheiro "não se contentou em bater panelas", diz Walquíria. "Ele passou minutos gritando, num grau de agressividade, de ódio: 'Petistas filhos da puta, ladrões, corruptos'", conta Walquíria. "O que eu fiz foi gritar como todo mundo", diz Garcia.
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Em 16 de agosto, o engenheiro estava com febre e não foi à passeata contra o governo na avenida Paulista. Viu tudo pela TV e só saiu de casa para comprar remédio. Voltou da farmácia "com aquela adrenalina", diz. "E entrei no prédio gritando: 'Fora PT! Fora PT!'." O elevador abriu e dele saiu Rubem, que disse: "O senhor me respeite". Garcia diz que respondeu: "Respeito é para quem merece. O PT não merece".
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Walquíria diz que ele, na verdade, gritava: "Eu não respeito petista ladrão, corrupto, filho da puta". "Meu marido ficou lívido", afirma.
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Há duas semanas, a filha dela, Daniela, foi visitar os pais e se encontrou com Garcia na garagem do prédio. "Ela tem muito medo dele. E ficou olhando na tentativa de prever algum gesto. Ele vira e diz: 'O que está olhando, sua filha da puta?'. E mostra o dedo [médio] para ela. A Daniela pega o celular, anda na direção dele e diz: 'Faz de novo que eu quero te fotografar!'. Ele dá ré com o carro, ela tem que recuar."
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A briga foi parar na delegacia. Daniela prestou queixa dizendo que teve que "se deslocar para uma pilastra para evitar que José Luiz a atropelasse". No fim do depoimento, um investigador, Arnaldo, se aproximou. Armado, disse: "Vocês vão me desculpar. Mas o PT é mesmo o partido mais corrupto da República". Walquíria reagiu: "O senhor é um agente do Estado". E ele: "E qual é o problema de eu achar que a Dilma é uma filha da puta?".
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Garcia também foi ao 23º DP, no mesmo dia que Daniela, para dar a sua versão dos fatos. E diz que o casal agora vai ter que provar as acusações que fez. "Disseram até que eu quis matar a filha deles. Pegam um 'negocinho' e transformam num 'negocião'. É o modus operandi do PT." Ele mostra à coluna um vídeo com imagens da garagem e afirma que não colocou a vida de Daniela em risco.
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Relatado em blogs, o desentendimento despertou solidariedade de professores e até do Ministério do Desenvolvimento Social ao casal –Walquíria é autora de um livro sobre o impacto do Bolsa Família na vida das mulheres que recebem o benefício.
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"Ele não sabe nada de nossas vidas. Nunca se preocupou em saber por que votamos no PT, por que 54 milhões de pessoas votam no partido", diz Walquíria, que afirma se identificar com o projeto social da legenda, de redução das desigualdades. "Na cabeça dele, as pessoas são ignorantes ou ladras e por isso votam no PT."
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"Quando um vizinho defende um governo cleptocrata e fobiocrata, ou ele faz parte da cleptocracia ou ele é um idiota total", diz Garcia. "Não tem acordo. Eu vou passar por ele todos os dias e dizer: 'Bom dia, seu petista'?. Acabou o diálogo. Não temos outra opção, não temos como reagir. A maioria silenciosa não aguenta mais. Só que agora não é mais silenciosa."
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Ele acredita que a Operação Lava Jato deveria convencer qualquer eleitor a não votar mais no PT. "Eu digo, poxa, será que isso não é suficiente? São evidências, gente. Não são invencionices do [juiz Sergio] Moro. Se o cara não se convenceu até agora, fica difícil. Aí eu já questiono o discernimento dele."
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O engenheiro diz que leu na internet a repercussão da briga que protagoniza. "Dizem que é preciso dar um basta [no ódio político]. Eu concordo. Agora, para que seja dado um basta, eles precisam parar de roubar, né?"
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Ele se formou em agronomia pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do RJ) e depois estudou nos EUA. Hoje, dá consultorias e cuida de terras que tem em Minas Gerais. Defende a agricultura orgânica. Diz que foi de esquerda na juventude.
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"Se depois da queda do Muro de Berlim o cara não se dá conta de que o esquerdismo é uma coisa furada, é burrice. Usar camiseta do Che Guevara, você vai me desculpar! Com todos os livros mostrando que ele era um assassino sanguinário?"
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Acredita, no entanto, que a esquerda está mais forte do que nunca. "Falam de recrudescimento da direita. Mas o que está havendo é um recrudescimento do socialismo, com a China rivalizando, a Rússia. E na América Latina tem esse pessoalzinho da Bolívia, da Venezuela."
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Para ele, o Brasil não teve uma ditadura entre 1964 e 1985, e sim um "governo militar". "Nós aqui tivemos uma ditadura tropical. Tinha até Congresso e partido político. A ditadura brasileira avacalhou." Não defende, no entanto, a volta dos militares. "Mesmo porque eles acabaram. Agora são um bando comandado por um devasso, o Jaques Wagner [ministro da Defesa, de saída do cargo]. Na internet tem até fotografia dele em baile de Carnaval com duas mulheres se beijando. Isso pra mim é devassidão."
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Ele viu a imagem de Wagner na internet. "Ela [a web] possibilitou que as pessoas se informassem. Hoje você tem 'zilhões' de informações para processar. Você vê as coisas acontecendo na televisão, na internet. É evidente que isso aí gera reação."
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"Essa raiva... Raiva, não, indignação.... Como é que você separa indignação de raiva? Aí vamos entrar numa questão de semântica", diz ele para explicar o que sente.
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A "raiva" surgiu com o mensalão. "Ali foi o começo." Antes disso, já era um crítico do programa Bolsa Família. "Você já viajou pelo Brasil? Você não arruma ninguém mais para trabalhar. Ninguém quer pegar no pesado. Essa não é a receita para um país que quer se desenvolver -criar essa legião de pessoas que têm aversão ao trabalho. O Brasil está ingovernável, numa situação pré-falimentar", diz ele, encerrando a entrevista e pedindo para não ser fotografado.
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Entusiasta do Bolsa Família, a professora Walquíria credita à imprensa o fenômeno do que chama de "ódio político". "Este foi o clima que a mídia criou no país."
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Ela diz que, por isso, agora vive com medo do vizinho. "Eu não sei o que uma pessoa com esse grau de ódio político é capaz de fazer", afirma.
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Há dez dias, a professora voltou ao 23º DP com o advogado Marco Aurélio de Carvalho e o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) para pedir investigação criminal. O policial que xingou Dilma Rousseff foi chamado por seus chefes e obrigado a se desculpar.
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Já o engenheiro Garcia permanece convicto de que suas atitudes foram corretas. "Se eles querem que eu peça desculpas, eles não vão conseguir. Eu não sou culpado. Eu jamais vou pedir desculpas, entendeu? Jamais." 

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