terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Leitura: O Rio (1953) - João Cabral de Melo Neto





O Rio

ou

Relação da viagem
que faz o Capibaribe
de sua nascente
à cidade do Recife (1953)


Refeição Cultural

Hoje tive a felicidade de ler a obra O Rio, de João Cabral de Melo Neto. É fantástica! A personagem é nada mais nada menos que o Rio Capibaribe nos contando seu percurso desde a nascente até o mar.

Enquanto vamos lendo, vamos nos identificando, vamos nos emocionando com tudo o que o Rio vê e nos conta, as misérias, os retirantes, a destruição causada pelos usineiros. Só de comentar aqui no blog, já nos arrepiamos.

Que momento para a leitura de João Cabral! Nosso querido e sofrido País está de novo entregue a golpistas e exploradores de nossa terra e nossa gente. Eu recomendo muito aos amig@s leitores a leitura deste poema de 1953.

Eu ganhei este livro com algumas obras de João Cabral em um dos cursos de formação que organizamos na época em que estava na Contraf. Agradeço novamente ao Alex pelo excelente presente que me deu!

Segue abaixo algumas passagens que me tocaram muito.


O RIO (1953)

"Da lagoa da Estaca a Apolinário

Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).

(...)"

Assim começa a aventura do Rio Capibaribe rumo ao mar...


"Do riacho das Éguas ao ribeiro do Mel

(...)
Entretanto a paisagem,
com tantos nomes, é quase a mesma.
A mesma dor calada,
o mesmo soluço seco,
mesma morte de coisa
que não apodrece mas seca.

(...)"

O Rio vai encontrando a mesma paisagem, o mesmo sofrimento desde a nascente até a chegada a Recife.


"Terras de Limoeiro

Vou na mesma paisagem
reduzida à sua pedra.
A vida veste ainda
sua mais dura pele.
Só que aqui há mais homens
para vencer tanta pedra,
para amassar com sangue
os ossos duros desta terra.
E, se aqui há mais homens,
esses homens melhor conhecem
como obrigar o chão
com plantas que comem pedra.
Há aqui homens mais homens
que em sua luta contra a pedra
sabem como se armar
com as qualidades da pedra.

(...)"

Reflexão: há que se alimentar das pedras e da qualidade das pedras...


"O trem de ferro

(...)
Diversa da dos trens
é a viagem que fazem os rios:
convivem com as coisas
entre as quais vão fluindo;
demoram nos remansos
para descansar e dormir;
convivem com a gente
sem se apressar em fugir.

(...)"

Fiquei pensando na minha natureza política: sair da burocracia e conviver com as gentes, como o Rio.


"Descoberta da Usina

(...)
Vira usinas comer
as terras que iam encontrando;
com grandes canaviais
todas as várzeas ocupando.
O canavial é a boca
com que primeiro vão devorando
matas e capoeiras,
pastos e cercados;
com que devoram a terra
onde um homem plantou seu roçado;
depois os poucos metros
onde ele plantou sua casa;
depois o pouco espaço
de que precisa um homem sentado;
depois os sete palmos
onde ele vai ser enterrado.

(...)"

Esse é o mal da exploração predatória desde o início em nossa ex colônia brazil pelo mesmo 1% dono de tudo.


"Encontro com a Usina

Mas na Usina é que vi
aquela boca maior
que existe por detrás
das bocas que ela plantou;
que come o canavial
que contra as terras soltou;
que come o canavial
e tudo o que ele devorou;
que come o canavial
e as casas que ele assaltou;
que come o canavial
e as caldeiras que sufocou.
Só na Usina é que vi
aquela boca maior,
a boca que devora
bocas que devorar mandou.

Na vila da Usina
é que fui descobrir a gente
que as canas expulsaram
das ribanceiras e vazantes;
e que essa gente mesma
na boca da Usina são os dentes;
que mastigam a cana
que a mastigou enquanto gente;
que mastigam a cana
que mastigou anteriormente
as moendas dos engenhos
que mastigavam antes outra gente;
que nessa gente mesma,
nos dentes fracos que ela arrenda,
as moendas estrangeiras
sua força melhor assentam.

(...)"

O Rio Capibaribe vai chegando a Recife... e com ele o povo retirante.


"De São Lourenço à Ponte de Prata

(...)
Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra comigo a gente
que comigo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram comigo rios
a quem o mar chamou,
entra comigo a gente
que com o mar sonhou,
e também retirantes
em quem só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
a mais triste que já baixou,
a gente que a usina,
depois de mastigar, largou.

(...)"

E o Rio segue contando o que vê chegando ao final de seu percurso...


"De Apipucos à Madalena

(...)
Um velho cais roído
e uma fila de oitizeiros
há na curva mais lenta
do caminho pela Jaqueira,
onde (não mais está)
um menino bastante guenzo
de tarde olhava o rio
como se filme de cinema;
via-me, rio, passar
com meu variado cortejo
de coisas vivas, mortas,
coisas de lixo e de despejo;
viu o mesmo boi morto
que Manuel viu numa cheia,
viu ilhas navegando,
arrancadas das ribanceiras.

(...)"

O Rio Capibaribe vê o próprio poeta João Cabral em sua margem. O mesmo Rio que Manuel Bandeira já versava na Evocação do Recife...

      [ "Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu

      E nos pegões da ponte do trem de ferro
      os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras"]


"Dos Coelhos ao cais de Santa Rita

(...)
Rio lento de várzea,
vou agora ainda mais lento,
que agora minhas águas
de tanta lama me pesam.
Vou agora tão lento,
porque é pesado o que carrego:
vou carregado de ilhas
recolhidas enquanto desço;
de ilhas de terra preta,
imagem do homem aqui de perto
e do homem que encontrei
no meu comprido trajeto
(também a dor desse homem
me impõe essa passada de doença,
arrastada, de lama,
e assim cuidadosa e atenta).

(...)"

Assim como o Rio, vamos lentos e pesados pelo fardo que carregamos nesta quadra da história de nosso País...


"Tudo o que encontrei
na minha longa descida,
montanhas, povoados,
caieiras, viveiros, olarias,
mesmo esses pés de cana
que tão iguais me pareciam,
tudo levava um nome
com que poder ser conhecido.
A não ser esta gente
que pelos mangues habita:
eles são gente apenas
sem nenhum nome que os distinga;
que os distinga na morte
que aqui é anônima e seguida.
São como ondas de mar,
uma só onda, e sucessiva..."


Ao fim da leitura do poema, estamos de olhos úmidos, lágrima grossa com a mesma consistência que o Capibaribe que chegou ao mar: grosso de lama e pesar.

William


Post Scriptum:

Estava pensando, enquanto li este poema hoje, eu acompanhava mais uma reunião de trabalho na entidade de saúde que participo como gestor eleito pelos associados. Pode ser que quando estiver em outra época, em outras paragens, eu dê voz às paredes da entidade para que elas, assim como o Capibaribe, falem por si mesmas, tudo que viram por anos e anos nas duras discussões entre gestores eleitos e indicados.


Bibliografia:

MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina e outros poemas. Alfaguara. Rio de Janeiro. Direitos da Objetiva 2007.

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