sábado, 15 de abril de 2017

Leitura: Adeus às armas (1929) - Ernest Hemingway



(texto atualizado em 29/4/17)



Refeição Cultural

"Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos - indiferentemente. Se vocês não estão em nenhuma dessas categorias, o mundo vai matar vocês, do mesmo modo. Apenas não terá pressa em fazer isso"

Eu achei esse pensamento do narrador da estória muito forte. Fiquei pensando muito nessa frase durante a leitura do livro de Hemingway e fiquei refletindo sobre o contexto atual do nosso País e do mundo neste quarto da história mundial.

Outro pensamento do personagem narrador, Henry, que antecede o citado acima, é sobre o amor e o sentimento ou não de solidão ao estar com uma pessoa ao seu lado. Também achei muito bonito.

"Naquela noite, no hotel, em nosso quarto, com o comprido corredor do outro lado da porta e nossos sapatos lá fora, um espesso tapete sobre o assoalho, com a chuva caindo e o quarto aconchegante e alegre, as luzes apagadas e a excitante maciez dos lençóis de linho, a cama tão confortável, tínhamos a sensação de estar em nossa casa; não nos sentíamos mais sozinhos, vagando pela noite à procura um do outro, sem sair do lugar. Tudo o mais tornou-se irreal. Dormíamos quando estávamos cansados e, se um acordava, acordava também o outro, e assim nenhum dos dois se sentia sozinho. Com frequência, um homem ou uma mulher tem vontade de ficar sozinho, e, se os dois se amam, um sente ciúmes desses momentos do outro, mas posso dizer com convicção que jamais sentimos isso. Podíamos até nos sentir sozinhos juntos, em relação a todos os demais. Isso só tinha me acontecido uma vez. Eu me senti sozinho acompanhado de muitas garotas - e essa é a solidão mais certa que existe. Mas nunca nos sentimos sozinhos, quando estávamos juntos, e nunca tivemos medo de nada. Sei que à noite o mundo não é o mesmo que de dia. Que as coisas que pertencem à noite não podem ser explicadas durante o dia, porque de dia não existem - a noite se torna ameaçadora para pessoas solitárias, essas que já de começo conhecem a solidão. Mas, junto a Catherine, quase não havia diferença entre noite e dia, exceto que para mim as noites eram melhores"

Declaração de amor muito bonita do jovem tenente.


REFLEXÕES

Eu me sinto bem quando completo a leitura de mais um clássico da literatura mundial. É muito bom preencher lacunas culturais.

É uma pena que no mundo em que vivo não haja espaço para sentar com amantes da literatura e da cultura e ficar horas debatendo e analisando obras clássicas. Eu gostaria muito de vivenciar momentos assim.

Talvez por isso sempre tenha sonhado em ser professor, para poder passar meus dias em locais com pessoas discutindo obras literárias e temas de conhecimento. (Mas fui parar no movimento social fazendo a luta coletiva que já fazia de forma individual desde que me entendo por cidadão do mundo)

A leitura desse livro se deu entre os dias 26 de março e 14 de abril. Confesso que o meu contexto de leitura foi dos mais difíceis. Enquanto no romance, o casal de personagens queria fugir do cenário da 1ª Guerra Mundial e encontrar um canto para viver em paz, na minha vida pessoal também queria eu encontrar um pouco de paz e a cada dia que passava mais distante ficava do alcance deste desejo.

Nesses dias de leitura tive morte na família e outras crises familiares; tive uma rotina de ataques internos na burocracia de meu trabalho; e, a cada dia, vejo o desmantelamento do meu mundo, o Brasil que ajudei a construir nos últimos vinte anos. Estamos vivendo agora sob estado de exceção, dominado por uma cleptocracia que tomou conta de todas as instituições do Estado, no pós-golpe. 

Para aqueles que se importam e que têm consciência de classe, morremos um pouco todo dia ao ver o que estão fazendo com o nosso povo e o nosso País.

Em vários momentos da obra, com o personagem e seus companheiros nos cenários de batalha, eu ficava pensando sobre a alimentação dos soldados no front nos anos da 1ª Guerra Mundial e nas demais guerras de longo prazo. Pensem na dificuldade de se fazer qualquer tipo de refeição nos cenários de guerra.

E pensar que os donos do mundo, o 1% detentor das corporações que dominaram até os países, estão a organizar guerras neste momento, estão jogando bombas por aí, destruindo democracias, pilhando Estados e patrimônios e direitos dos povos, e a perspectiva do amanhã não é de paz, é de guerra sem controle.

Triste. O final do romance também foi muito triste. Mas me lembrou a vida real.

Recomendo a leitura. Ler Hemingway é algo que vale a pena. Minha próxima leitura dele será "Por quem os sinos dobram" (1940), que até já comprei (o livro é bem volumoso). Mas tenho uns livros na frente como os que ganhei no aniversário, do Chico Buarque, e outros que já selecionei para os minutos livres de leitura.

Abraços aos amigos e amigas leitores.

William

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