domingo, 3 de maio de 2015

Para sempre Alice - O risco de não sermos mais nós mesmos


Julianne Moore interpreta linguista com Alzheimer
no auge da carreira. Poster do filme (2014).

Refeição Cultural

Sinopse do filme:

A história aborda o surgimento precoce da doença de Alzheimer numa professora de linguística ainda no auge de sua carreira, aos 50 anos de idade, e os espectadores acompanham o drama que ela e a família vivem com o avanço da doença.

Comentário e reflexões

Ver esse filme me deixou muito reflexivo. Fiquei pensando sobre a vida e sobre a minha vida. 

Em relação à existência das pessoas, pensei o quanto nós somos frágeis e o quanto pode ser em vão, de certa forma, todos os nossos planejamentos, previsões e provisões para o amanhã. Por outro lado, não podemos abrir mão disso porque o que nos caracterizou como animais racionais tem muita relação com a questão do planejamento e da previsibilidade do amanhã para a comunidade e para seus indivíduos. Um dos males da atual fase do Capitalismo, a "flexível", é justamente a perda do conceito de "tempo longo" para as coisas. Richard Sennet aborda isso em seu ensaio "A corrosão do caráter".

Em relação à minha vida, ufa, fiquei durante todo o feriado pensando sobre o meu amanhã incerto e a quantidade de coisas que eu me programei para fazer em relação aos desejos de meu próprio ser. Aquilo que não tenho conseguido fazer ao longo das décadas de minha vida por ser um proletário que vive da venda da força de trabalho desde os onze, doze anos de idade. Como, por exemplo, as dezenas de livros que sonho em ler e os desafios de esporte e viagens.

Estou com 46 anos e sei que não farei nada até próximo dos 50 anos em relação aos meus desejos e realizações pessoais, além do trabalho que estou destacado a fazer que me consome a vida diária, semanal e integral. Mas cumpro minha missão com diligência e dedicação, pois sei da importância coletiva dela.

Ver o filme e lembrar das casualidades da vida me assustou. E se amanhã acontecer comigo algo do gênero e eu deixar de ser eu mesmo? O que vai ficar?

Nesta semana, durante minhas jornadas extensas de trabalho com nível de estresse nas alturas, acabei tendo algum colapso físico que me deixou uma madrugada toda mal fisicamente, com o meu corpo cobrando os excessos de dedicação ao estresse e estive mais frágil fisicamente os dias seguintes. Agora estou só resfriado e me recuperando, mas sei que fui alertado.

Tenho uma certeza e uma clareza como a água de Bonito (MS). Sei que somos hoje o que sobrou de ontem, com toda a carga de investimentos em saúde e excessos contra o corpo e mente que fizemos, ou que nos fizeram, desde que fomos gerados. Esse corpo e mente, além das cargas genéticas, traz muita carga de trabalho pesado, hormônios mil por raivas, tristezas e outros jorros hormonais de sentimentos extremados.

A história da professora de linguística Alice Howland (Julianne Moore) me serviu para pensar por esses dias em como devo tentar fazer a minha parte em cuidar de mim mesmo porque a carga genética e os acúmulos e excessos que já trago de meu duro percurso existencial podem me pegar a qualquer momento.

Se no trabalho político, fazendo o melhor de mim até o limite, já senti a diferença absurda em relação ao apoio, companheirismo e envolvimento coletivo de quase todos que me colocaram nesta missão - porque o cenário é de dificuldades - imaginemos se eu quebrar no caminho, com quantas pessoas vou poder contar além de três ou quatro que hoje dependem de mim como esteio de família?

O filme teve neste espectador o efeito catártico que se espera da sétima arte.

Vale a pena ver.

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