domingo, 31 de dezembro de 2023

Diário e reflexões - Retrospectiva 2023



Refeição Cultural - 2023

Osasco, 31 de dezembro de 2023. Domingo.


Para reflexão: que perspectivas de futuro teremos caso prevaleça a tendência nas gerações que estão chegando ao mundo de serem aculturadas para desejarem ser youtubers e "influenciadores digitais" sem conhecimento de nada, sem o sonho de serem pessoas educadas, formadas e cientistas?


RETROSPECTIVA E BALANÇO 

Como começo esta retrospectiva pessoal? Do fim para o início ou do início para o fim? Ou in medias res para chamar a atenção das leitoras e leitores? Talvez essa seja a melhor estratégia de narrativa do meu ano vivido.

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VIAGENS


Praia Grande (SP) - A primeira viagem do ano foi uma das que mais gostamos na família: passamos alguns dias da segunda quinzena de janeiro na Colônia do Sindicato dos Professores de São Paulo, Sinpro, na Vila Caiçara, Praia Grande. Desta vez, levamos o Lost, amigo do filhão, e os dias foram muito legais.

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Guarapari (ES) - Minha companheira sempre quis que eu conhecesse a cidade turística de Guarapari, no Espírito Santo. Ela ia para lá nos anos noventa e nosso filho chegou a ir também quando criança. Nossos tios ficavam numa casa bem legal no alto de uma ladeira no centrinho da cidade, entre a Praia das Castanheiras e a Praia dos Namorados. Perto também da Praia da Areia Preta. Eu não conhecia a região ainda. 

Ficamos num hotel bem de frente para a Praia dos Namorados e passamos dias bem legais, lá. Caminhei e corri quase todos os dias. Valeu a pena e vamos voltar.

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Uma viagem ao mundo de Monet

Em março, fomos ver a exposição Monet à beira d'água, no Parque Villa Lobos. A Ione adora as obras do pintor francês. A professora tinha um projeto educacional para as crianças com obras e pintores famosos e Monet sempre estava presente. Foi uma viagem o passeio!

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Uberlândia (MG) - Antes de viajar para Cuba, fui ver meus pais e familiares em Minas Gerais. Foi uma viagem rápida. Também fui me encontrar em minhas caminhadas e reflexões no Parque do Sabiá, lugar que amo. Na oportunidade, decidi visitar o Zoológico local. O Sabiá é um dos lugares que mais gosto no mundo. Sério mesmo!

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Cuba - Finalmente conheci Cuba. Fui pra Cuba! Foi uma experiência interessante! E para ser mais legal a experiência, meu filho foi comigo, foi sua primeira viagem para fora do país.

Antes da viagem, procurei ler um pouco a respeito da história da Ilha e do povo cubano. Li uma obra impactante - O homem que amava os cachorros (2009), de Leonardo Padura -, impactante tanto do ponto de vista da própria história do povo cubano após a Revolução em 1959, quanto do ponto de vista da Revolução Russa e a história de Leon Trótski. Foi difícil a leitura. Mas ela me colocou em reflexões duras a respeito do mundo humano.

Conheci um pouco da história de José Martí, grande figura humana e um dos principais pensadores da história cubana, referência na educação do país. Aliás, a leitura do livro da professora Maria Leite - Cuba insurgente - Identidade e Educação (2023), leitura terminada após a viagem a Cuba, deu clareza à minha hipótese de por que até hoje Cuba resiste ao embargo e ao capitalismo. Li o livro de Fernando Morais A Ilha (1976 e 2001) e essa leitura também me deixou em alerta para quando chegasse a Cuba em abril deste ano. 

Da permanência em Cuba por duas semanas, eu tanto fiquei impressionado e me questionando como é possível a manutenção até hoje, 65 anos depois, do regime socialista na Ilha, quanto compreendi por que até hoje o regime socialista se mantém em Cuba... pode parecer estranho afirmar isso, mas tenho a impressão de que a pedagogia da educação cubana é um dos alicerces do amor-próprio que aquele povo tem. Cubanía e Cubanidad... Os revolucionários liderados por Fidel Castro nos anos cinquenta tinham noção disso, eram martianos...

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Romaria em terras mineiras 

Em agosto, depois de alguns anos sem caminhar entre Uberlândia e Água Suja, voltei para a estrada. Antes de caminhar os quase 80 Km, fiz várias caminhadas preparatórias pela região onde nasci e vivo até hoje, Zona Oeste da Grande São Paulo. 

Antes de partir como peregrino e romeiro, tive meus momentos com a família.

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Casório nas Minas Gerais

Em outubro, a família teve nova oportunidade de visitar meus pais e familiares em Uberlândia, para fazer parte de um momento importante de nossa sobrinha Stefani, em seu casamento. Desejamos muitas felicidades ao casal.

As viagens a casa de meus pais é sempre um momento de Carpe Diem, porque a vida é o presente. 

Para todos nós, a vida é uma oportunidade e o tempo presente é o que importa. Tenho refletido sobre o tempo passado, que de fato pode ser como o futuro, do ponto de vista pessoal. Eu não tenho o tempo que passou, nem sei se tenho o tempo que não veio ainda... não tenho! 

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Jaboticabal (SP) - No final de outubro, visitamos a cidade que abrigou nosso filho por alguns anos no interior paulista. Lá fizemos amigos e até hoje temos um carinho especial por Jaboticabal e pelas pessoas queridas da cidade.

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Praia dos Carneiros (PE) - Em novembro, fizemos um passeio muito especial. Fomos passar alguns dias na Praia dos Carneiros numa pousada bem tranquila e com poucos chalés. E também fomos fora de temporada, o que contribui para que os ambientes internos e a praia estejam com pouca gente, permitindo um contato mais introspectivo com as belezas naturais do local. Foi muito bom!

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Seriemas no Parque do Sabiá. Deslumbramento!

Natal em Uberlândia (MG) - A tradicional reunião em família para a ceia de Natal foi nas Minas Gerais. Se, por um lado, os conflitos familiares enchem os nossos corações de amarguras e incertezas quanto ao futuro, por outro, este Natal foi um momento inesquecível em minha vida por causa do meu reencontro com a energia interna de meu corpo. 

Cheguei a Uberlândia tendo desistido de tentar correr a São Silvestre porque meu corpo me dava sinais de que não conseguiria percorrer os 15 Km da prova. E não é que fui três vezes ao Parque do Sabiá e realizei uma façanha incrível, trotei longas distâncias e voltei decidido a correr a prova na virada do ano. Deu tudo certo e aquele meu momento com o Sabiá me emociona demais só de recordar aqueles dias. A natureza do local me inunda e a gente se descobre ali. Obrigado Parque do Sabiá!

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LEITURAS

Durante o ano de 2023 tive a oportunidade de ler e completar a leitura de 32 livros dos mais diversos gêneros literários e discursivos. O homem que termina o ano é uma pessoa diferente daquela que iniciou a jornada da vida em janeiro. 

O esforço para ser uma pessoa melhor continua e sei que através dos livros podemos evoluir, diminuindo aquela incompletude que Paulo Freire nos explica no livro Pedagogia da autonomia.

Livros finalizados

1. A estranha vontade de um morto (2022) - Sandro Sedrez (ver aqui)

2. Torto arado (2018) - Itamar Vieira Junior (ver aqui)

3. rio pequeno (2022) - floresta (ver aqui)

4. Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006) - Roberto Buzzo (ver aqui)

5. Manifesto do Partido Comunista (1848) - Marx e Angels (ver aqui)

6. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador (2012) - André Singer (ver aqui)

7. O homem que amava os cachorros (2009) - Leonardo Padura (ver aqui)

8. A Ilha (1976 e 2001) - Fernando Morais (ver aqui)

9. A vida não é útil (2020) - Ailton Krenak (ver aqui)

10. O trono no morro (1987) - José J. Veiga (ver aqui)

11. O governo no futuro (1970) - Noam Chomsky (ver aqui)

12. A impureza da minha mão esquerda (2020) - Henry Bugalho (ver aqui)

13. A Quinta-Coluna (1938) - Ernest Hemingway (ver aqui)

14. A comédia dos erros (1591) - William Shakespeare (ver aqui)

15. A bíblia em crônicas livres (2023) - Roberto Buzzo (ver aqui)

16. Evocación (2007) - Aleida March (ver aqui)

17. Lawfare: uma introdução (2019) - Cristiano Zanin, Valeska Zanin Martis & Rafael Valim (ver aqui)

18. A megera domada (1594) - William Shakespeare (ver aqui)

19. La historia me absolverá (1953) - Fidel Castro Ruz (ver aqui)

20. Novos poemas (1948) - Carlos Drummond de Andrade (ver aqui)

21. Quatro anos das sombras (2022) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

22. Nuestra América (1891) - José Martí (ver aqui)

23. A verdade vencerá: Lula (2018) - Ivana Jinkings (ver aqui)

24. Operários sem patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001) - Lorena Holzmann (ver aqui)

25. Cuba insurgente: identidade e educação (2023) - Maria Leite (ver aqui)

26. Educação como prática da liberdade (1965) - Paulo Freire (ver aqui)

27. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado (1978) - Abdias Nascimento (ver aqui)

28. Banzeiro Òkóto: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) - Eliane Brum (ver aqui)

29. Os sertões (1902) - Euclides da Cunha (ver aqui)

30. Os mortos vivos (1979) - Peter Straub (ver aqui)

31. Greve e negociação coletiva: dimensões complementares da luta sindical (2022) - Carlindo Rodrigues Oliveira (ver aqui)

32. O Brasil voltou (2023) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

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LEITURAS CAPITAIS

Dos livros que li, alguns me deram compreensão de muitas coisas de nossa vida em sociedade. 

Não estou desvalorizando alguns dos livros que li, mas o fato é que algumas leituras e formas de arte e filmes são para entretenimento, para curtição. Outros são para nos causar impactos marcantes, modificadores do ser e do comportamento humano e social.

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LULISMO - O livro de André Singer sobre o conceito de "lulismo" foi um livro impactante para mim. Reforçou algum conhecimento que tinha e me ajudou a compreender por que as coisas são como são no Brasil. A tese de Singer mereceria uma leitura coletiva nos sindicatos, partidos de esquerda e nos movimentos sociais organizados.

Modéstia à parte, as postagens que fiz sobre a leitura do livro de Singer dão uma boa ideia do que o intelectual nos explica sobre o fenômeno. O ideal é sempre ler a obra, mas se os leitores fizerem a leitura de minhas postagens terão uma noção do que Singer defende (ver aqui).

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SOCIALISMO EM CUBA, NA URSS E O "NOVO SINDICALISMO" NO BRASIL - Outro livro impactante para mim e que ao reler a postagem sobre a leitura (ver aqui) me deixou impressionado foi o livro do escritor cubano Leonardo Padura. De novo, modéstia à parte, a postagem tenta contribuir para o debate político, é um ponto de vista honesto de quem viveu duas décadas dentro do movimento sindical. Deem uma conferida nela, comentem à vontade.

Que leitura densa! Que leitura que me fez pensar toda a minha vida sindical e de representação de classe! Enquanto lia nos primeiros meses do ano e do 3º governo Lula, ia revivendo meu dia a dia na principal corrente política da CUT, a Articulação Sindical. Livrão!

CHE GUEVARA E ALEIDA MARCH - O livro Evocación da guerrilheira e companheira de Che Guevara, Aleida March (ver aqui), foi uma das leituras que mais me impactaram no ano de 2023. Foi uma descoberta! Nunca imaginei conhecer tantas informações pessoais da figura humana Ernesto Guevara como conheci através das memórias de sua esposa. Olha, na postagem comento que o livro me marcou como a leitura do livro de Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano, um livro que me fez ver a vida de forma mais compreensível.

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AMBIENTALISMO, EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E A VIDA - Duas leituras que me trouxeram muita reflexão e desejo de mudança da maneira como o mundo está organizado e da própria vida foram as leituras de Ailton Krenak e de Eliane Brum. 

São leituras imprescindíveis às pessoas de boa vontade e desejosas de um mundo melhor para todas as espécies viventes no planeta Terra.

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ENTENDI QUE SOU ESCRITOR

Edições de livros e produções textuais em andamento:

- Um livro de memórias sindicais

- Um livro sobre o balanço do mandato eletivo na gestão da Cassi (2014-2018)

BLOGS

As publicações nos blogs começam a fazer sentido para mim em 2023 como faziam à época em que era um representante da classe trabalhadora.

A temática das reflexões nos textos produzidos e a quantidade de pessoas que tem acessado os textos me fazem ter cada dia mais responsabilidade com o que escrevo.

O blog Refeitório Cultural recebeu 168 mil acessos em 2023 - média de 14 mil acessos por mês. Avalio que é muita gente que visitou o blog! Me sinto honrado com isso.

Considerando que o blog não é um ambiente da moda atual, na qual a comunicação se dá por imagem e vídeo, 168 mil é uma quantidade respeitável de acessos para um ambiente de textos sobre cultura em geral e política.

De vez em quando recebo algum retorno de leitores e leitoras dizendo que meus textos são bons e que contribuem para as reflexões deles. Isso é gratificante e dá sentido ao esforço que faço ao escrever.

Para fazer este balanço do ano de 2023, reli os textos sobre as leituras que fiz e os textos de fechamento de mês e percebi que minhas reflexões vêm amadurecendo bastante quando comparo com os textos que releio do período inicial do blog.

Talvez por isso, e por ter pessoas lendo o que escrevo no ano e os textos da história de publicações do blog, eu comece a trabalhar meu psicológico para aceitar a ideia de que eu seja um escritor, de difícil definição do estilo, mas um escritor, ou alguém que escreve com regularidade.

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COISAS DOS HUMANOS, ANIMAIS DEMASIADAMENTE HUMANOS

Meio Ambiente

O ano de 2023 seguiu sendo de destruição do planeta Terra, da vida humana e da sociabilidade humana. Uma percepção da realidade que aprendi ao ler Eliane Brum e seu duríssimo livro Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) me pareceu muito clara: o futuro será pior que o presente. Eu nunca tinha pensado nisso! Estamos destruindo rapidamente as condições de vida no planeta.

O pior é que é verdade essa questão da destruição do planeta, penso eu, mesmo não tendo leitura determinista de futuro, como nos alerta o educador Paulo Freire ao dizer que temos que problematizar o futuro e mudar as situações ruins porque elas não são "naturais", são consequências de nossas escolhas e nosso comportamento humano. A realidade pode mudar porque somos nós que fazemos a realidade. Mas no momento, e observando as tendências, a perspectiva é de um futuro pior que o presente.

Guerras

Ucrânia e Israel, guerras por procuração dos EUA - No início de 2023, convivíamos com algumas guerras no mundo. A que se desenvolvia em solos ucraniano e russo era a que chamava a atenção da pauta das mídias hegemônicas porque se tratava de uma guerra por hegemonia global, envolvendo o império decadente dos Estados Unidos. 

Terminamos o ano com dois meses de bombardeios genocidas na Faixa de Gaza, na Palestina. Seguimos na mesma. A guerra de um país só - o governo do Estado de Israel -, de um lado, contra civis palestinos, de outro. É mais uma guerra por hegemonia global e com os EUA por trás dela. Humanos, demasiadamente humanos somos nós...

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ALGUNS OBJETIVOS E PROJETOS (TALVEZ DESEJOS)

Ao finalizar o ano de 2023 e olhar para trás e ver o que aconteceu na vida pessoal e no mundo ao redor, sinto que imaginar o amanhã é algo mais difícil que antes, o amanhã que não nos pertence, como bem nos explica o filósofo Ailton Krenak. 

Fico pensando a respeito de projetos de vida ou objetivos a perseguir e acho tudo tão estranho... quero dizer, tão instável, frágil, talvez ilusório. Não queria ter passado a vida deixando a vida me levar, e acabei passando a vida tendo a vida me levado pelos caminhos que trilhei.

Quando era um adulto jovem, tinha os objetivos básicos, à época, de ter uma casa própria, queria ter uma moto, acho que queria ter uma profissão e uma remuneração estável, queria ser erudito (algo do tipo) e queria namorar (talvez ser amado). Quase todo mundo da minha classe social tinha esses objetivos na vida. 

Me lembro de não querer trabalhar em coisas humilhantes e extenuantes, pois era essa a minha realidade na infância e adolescência sendo explorado pelos outros. Talvez por isso odiasse trabalhar e odiasse rico.

E hoje? O que uma pessoa como eu poderia esboçar mentalmente como objetivos e projetos para os próximos meses, talvez anos à frente? O que está sob meu domínio ou controle mínimo no viver cotidiano? O quê?

Percebi que não temos controle de nada, não temos. Deveria então, sabendo disso, deixar a vida me levar, com mais leveza e vivendo o momento da melhor forma possível como se não houvesse o amanhã... pois é, deveria. Mas não consigo. 

Minha natureza não facilita meu viver à toa, "gozar" essa fase da vida. Me sinto culpado por ter conseguido sair daquela condição dos trabalhos humilhantes e extenuantes. Vejo o povo de onde vim se fodendo em trabalhos humilhantes e extenuantes, explorados como escravos, e me sinto mal por isso.

Estou lendo os livros de Paulo Freire e ele fala o tempo todo sobre mudança, sobre não aceitarmos o determinismo que tentam nos vender.

Freire nos ensina que um dos papéis centrais da educação e das pessoas que lidam com a profissão de educar é perceber o mundo e mudar o mundo porque somos seres incompletos e passíveis de educação. 

A tomada de posição para mudar a realidade desfavorável das classes subjugadas e excluídas da cidadania é central na pedagogia freireana. Acho que fiz isso na fase que lutava por mim mesmo e na fase que representava pessoas de minha classe. Isso me deu um sentido no viver, mesmo olhando agora para trás, mesmo que não percebesse isso durante.

Hoje, me sinto deslocado no mundo, após todos os papéis relevantes que desempenhei como ser social, constituinte de ambientes humanos. Não sinto pertencimento em nada. Não me sinto parte de nada. Isso tem dificultado muito meu existir. E nos ambientes onde existo, não tenho influência alguma, não tenho capacidade de mudar realidades de forma dialogada.

Termino um ano calendário e entro outro ano calendário na mesma. Sem sentimento de pertencimento a algo.

Se em termos políticos tenho militado num diretório do partido no qual admiro o trabalho do presidente, o companheiro Daniel do DZ Butantã -, a realidade me lembra o tempo todo que sequer é o diretório onde me localizo pela legislação partidária. Não posso votar nas pessoas que conheço, sequer no PED, pois moro em Osasco, que dirá na vereadora Luna Zarattini e no Guilherme Boulos no ano de 2024. Não pertenço a lugar nenhum. Não tenho militância na cidade onde resido.

Imagine se for falar do movimento político que ajudei a construir por mais de duas décadas, o movimento sindical bancário. O Sindicato fez 100 anos, eu vivo o sindicato há 35 anos - sou sindicalizado desde 1988 e ainda pago mensalidade -, e sequer para um videozinho fui convidado. A Cassi fez 80 anos nestes dias e fui um dos diretores eleitos que mais defendeu a associação e os direitos dos associados, sem falsa modéstia; idem para o apagamento. A Contraf-CUT completou 18 anos, fui o responsável por apresentar a marca da nova entidade no lugar da famosa CNB e fui secretário de formação; idem ao apagamento. Alguém ou "alguéns" mandou apagar a minha foto da história dessas entidades, como ouvimos dizer na história das esquerdas no mundo.

Enfim, quais poderiam ser meus objetivos e projetos de futuro para 2024 e quiçá algum tempo mais? Ou desejos, torcida?


- Ser professor e dar aula em algum projeto voluntário em 2025, me preparar em 2024?

- Voltar a Cuba e seguir estudando experiências de sociedades não capitalistas?

- Viajar à Itália e já falar italiano quando for?

- Vai que eu descubra em mim uma forma de ainda correr uma maratona...

- Ler alguns livros, uns clássicos como, por exemplo, Os miseráveis (comecei já), Guerra e Paz, e mais alguns autores que nunca li.


De verdade, de verdade, eu tenho algumas torcidas, desejos, coisas que não dependem de mim.

Desejo que as pessoas de meus afetos tenham saúde e sobrevivam ao ano de 2024. Gostaria de ver as pessoas que amo se encontrarem, se realizarem, serem um pouco felizes. Serem humanistas e tolerantes umas com as outras.

Desejo ter saúde, não perder minha visão e não piorar minha condição de desgaste nos quadris. Gostaria de correr com regularidade. Minha vista e minhas pernas são importantes para mim. Torcer para não ter infarto, AVC e câncer.

Desejo seguir estudando e o que posso fazer neste momento para a coletividade é escrever o que aprendo e o que penso, escrever com honestidade, e tentar passar adiante o que sei de forma gratuita, porque hoje sobrevivo do meu benefício do fundo de pensão para o qual contribuí por quase três décadas.

Acho que só isso. As outras possibilidades de projetos e objetivos são referências de norte (utopia para andar adiante) não muito realizáveis, a minha vida foi sempre vivida pelos acontecimentos do dia.

Se eu conseguisse, eu esqueceria todo esse passado que sequer existe e esqueceria também tudo o que me oprime a alma e viveria a tal vida gozando o dia a dia, ligando um foda-se para os outros e para o mundo... mas isso não é da minha natureza. Gostaria de mudar isso e esquecer essa merda que me dilacera.

Mas vamos seguir o norte racional que imaginei (o lugar nenhum a se alcançar), seguir lendo e escrevendo, indo em mobilizações de rua que chamam a cidadania etc.

Ajudando quando der e não atrapalhando os outros. Mas falando o que penso, é meu dever e minha obrigação falar baseado no que conheço e penso.


William Mendes

Mais um na multidão


São Silvestre 2023 - Minha história de superação


Fui, corri, completei os 15 Km.

Refeição Cultural

E no fim, corri para fazer uma pessoa feliz, alguém com o coração apertado... eu mesmo! A sensação de concluir o percurso da prova é incrível! Desejaria a emoção a todas as pessoas do mundo!


"Daqui alguns dias teremos no Brasil mais uma edição da tradicional Corrida de São Silvestre. Queria correr a prova. Não dou conta. A natureza e a realidade são implacáveis com os seres naturais. Fui para o Sabiá conversar com o meu corpo. Corri, andei, senti minhas energias. Para me arriscar numa empreitada que exigisse a quantidade de energia que o percurso da prova exige, teria que ser algo cuja finalidade fosse um feito grandioso, que valesse para a coletividade, ou para um coração apertado; gastaria toda essa energia para salvar uma vida, para lutar contra uma injustiça, para mudar o mundo, para fazer uma pessoa feliz." (minha reflexão em 23/12/23, em Uberlândia)


No filme icônico Forrest Gump - O contador de histórias (1994), o personagem Forrest (Tom Hanks), após uma grande tristeza em relação à mulher amada, decide pegar seu tênis, calçá-lo e sair correndo para lidar com a dor que está sentindo em seu peito. Corre, corre, corre de uma ponta a outra do país, vai de um oceano ao outro e volta. Depois, quando sua amada Jenny diz que gostaria de ter estado lá com ele, Forrest diz a ela que sim, ela estava lá... é uma das cenas mais lindas do cinema que eu conheço!

São Silvestre 2009.


Uma vez eu corri a São Silvestre como o personagem Forrest... teve até pessoas que gritaram pra mim - "run Forrest, run!". Foi legal!

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11ª participação na São Silvestre

Eu não corria a São Silvestre desde 2019, ano anterior à maior pandemia que o mundo viu em um século. Nós que estamos aqui sobrevivemos ao genocídio empreendido pelo governo brasileiro à época. Infelizmente, 700 mil pessoas morreram, muitos amig@s e pessoas queridas de cada um de nós. Somos pessoas de sorte! Eu sou uma pessoa de sorte, como diz a música I'm Lucky Man, da banda The Verve. Eu sempre registro isso, porque entendo que é uma realidade.

A minha condição física após a pandemia regrediu bastante. Percebi isso.

Neste ano, tentando retomar um pouco do condicionamento físico, pensando na saúde e na qualidade de vida, voltei a praticar algum tipo de atividade física. A corrida de rua é o meu esporte favorito. Apesar de saber que tenho desgaste na estrutura do quadril, decidi retomar a caminhada e a corrida em trote leve.

Fiz um treinamento intensivo de caminhadas antes de agosto para fazer uma romaria de cerca de 80 Km (ver aqui), romaria que não fazia também desde 2019. Deu tudo certo e acabei me animando no final de setembro para voltar à São Silvestre.

Assim que me inscrevi no início de outubro, vi que a coisa seria mais complicada para mim. Fiz um planejamento para treinar nos três meses até a prova no dia 31 de dezembro e na segunda corrida do treino (8/out) senti uma contusão. Fiquei arrasado... andar 80 Km sim, correr 15 Km, não!

Repensei tudo ainda em outubro. Passei semanas me recuperando e sem poder correr. Pedalei um pouco, fiz um pouco de musculação e andei, andei, andei. Decidi que precisaria diminuir meu peso para ficar mais leve para minha estrutura física. Cortei algumas coisas que sempre comi, o pastel da feira, carnes muito gordurosas, o pãozinho, diminuí o arroz, doces e chocolates etc.

Quando voltei a correr meus trotes no meio do mês de novembro, aí foi que vi que o buraco era mais embaixo... que dificuldade da porra pra correr pequenas distâncias. Não era só a estrutura musculoesquelética que estava ruim, a cardiorrespiratória também. Ferrou geral!

Meio que desistindo sem desistir, corri três vezes em novembro, distâncias bem pequenas, só para avaliar batimento cardíaco, energia corporal, músculos e tendões das pernas etc. E segui andando bastante e emagrecendo um pouco. Corri mais duas vezes na primeira quinzena de dezembro. Diminuí 3 Kg no peso. E assim fui para o Natal com a família em Uberlândia. Já não pensava mais correr a São Silvestre neste ano.

Pq. do Sabiá, o paraíso.


Aí, em Uberlândia, tudo mudou entre os dias 22 e 26 de dezembro. Sou apaixonado pelo Parque do Sabiá! Quem não conhece precisa conhecer um dia aquele lugar. Pista de 5K, banheiros limpos em diversos pontos, água gelada, natureza impecável. Sério, acho que se eu morasse lá, até uma maratona eu ainda correria, mesmo fodido do quadril.

No feriado do Natal, decidi ir para lá nos dias 22, 24 e 26. Queria ficar algumas horas lá. Além da questão mental que se cura lá, tem a pista pra correr e caminhar.

No dia 22, me concentrei e decidi correr um pouco. A ideia era ver se corria 5K e sentir minha energia. Corri a volta e andei mais uma. Terminei relativamente bem. Mas pensei nos 15 Km e decidi não correr a São Silvestre. Foi o dia que joguei a toalha (citação acima).

Aí no dia 24, fui pro Sabiá pensando em outra estratégia de treinamento e para encontrar minha energia vital perdida. Amig@s, corri 9 Km acompanhando a pulsação e andando alguns metros sempre que estava alta, para voltar ao aceitável. Fiquei tão admirado que pensei que se tivesse mais algumas semanas, eu correria os 15K da São Silvestre.

No dia 26, antes de ir embora, acordei bem cedo, tomei um café, e fui para o Parque do Sabiá me despedir daquele paraíso. Meio pesado do café, andei rápido o 1º Km sem trotar. Depois mergulhei no trote, chuva leve, silêncio e pouca gente naquela manhã. Completei os 10K de boa. A alegria que senti internamente, só quem corre pode entender...

Chegando em São Paulo, fui retirar o Kit da prova no dia 29. Aquele clima das pessoas na maior expectativa me deu uma comichão incrível! Fiquei daquela hora em diante pensando se iria ou não para a Paulista pelo menos para correr um pouco e parar caso achasse que estava sem energia para a prova toda.

Av. São João. BB, Banespa e
Martinelli. Parte de minha vida
está ali para sempre.


Amig@s, fiz minha corrida concentrado, tranquilo, andei um pouquinho quando precisou. Curti o percurso e a festa como todo mundo curtiu. O centro de São Paulo é lindo!!!

Subi a Brigadeiro correndo a maior parte do trajeto. Cheguei com tanto arrepio e emoção no corpo que repito o que disso no início. Desejaria que todas as pessoas do mundo sentissem o quanto é gostosa a sensação que os corredores e corredoras têm quando terminam uma prova... É de encher os olhos... de alegria, não de tristeza.

É isso! Depois de uma superação dessas, a gente termina o ano sonhando até em correr provas maiores em 2024, do jeitinho que a gente pode.

Feliz Ano Novo a todas, todos e todes! A gente pode muita coisa, basta acreditar e perseverar!

William


sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

A mentira como arma letal



Opinião

Neste final de ano, tivemos a notícia de duas mortes causadas de alguma maneira por mentiras divulgadas de forma viral em redes sociais sem que as vítimas tivessem a chance de combater os efeitos causados pelas mentiras, sendo acusadas e julgadas pelos tribunais das pessoas comuns de forma impiedosa e invasora em suas vidas pessoais. Na atualidade, nem sequer existe a chance de se clamar pela presunção de inocência. Acusação feita, condenação feita. Assassinato da reputação ou até morte da vítima.

Esses processos de fake news são tão violentos e massacram tão intensamente as vítimas que muitas vezes as pessoas não conseguem resistir ao processo de aniquilamento e dor e sucumbem. Independentemente de as acusações mentirosas serem dolosas e intencionais ou involuntárias, sem dolo ou intenção, é necessário que algo seja feito formalmente pelas autoridades e pela sociedade, inclusive em relação a penalização dos responsáveis.

Uma jovem de 22 anos, Jéssica, tirou sua vida após mentiras divulgadas em redes sociais alegarem que ela teria uma relação amorosa com uma pessoa famosa. De nada valeu ela e a mãe desmentirem o fato e pedirem para serem deixadas em paz. Jéssica nasceu na pequena Araguari, cidade que frequentei quando morava em Uberlândia, Triângulo Mineiro. O pioneiro youtuber PC Siqueira, de 37 anos, tirou sua vida após um longo processo de linchamento público e cancelamento por uma acusação nunca comprovada de pedofilia. Ele foi alvo de ataques de ódio anos seguidos, até quando operou seu estrabismo foi alvo de ódio nas redes. Viveu a vida toda sob assédio e humilhações públicas.

A mentira pode ser uma das armas mais letais da humanidade. No clássico Otelo, o mouro de Veneza, de Shakespeare, mentiras intencionais para expor Desdêmona ao ciúme de Otelo fazem parte da tragédia encenada na peça do dramaturgo inglês que estudava a alma e o comportamento humano através de seus personagens e enredos.

A mentira pode matar. Essas duas tragédias na semana do Natal me apertaram o coração e me deixaram angustiado, e acabei me lembrando das mentiras que inventaram contra mim em uma das funções públicas que desempenhei ao ser representante eleito pelos trabalhadores da ativa e aposentados da comunidade do Banco do Brasil em nossa autogestão em saúde, a Cassi. Apesar da violência moral, humilhações e assédio que sofri por meses seguidos, o desfecho não foi trágico, "só" tive custo psicológico e político. Arquivaram as acusações levianas por falta de provas. Mas quem soube disso em nossa comunidade?

Acusar pessoas sem provas é algo cada dia mais grave e com consequências cada dia mais sérias e sem retorno. A sociedade e as instituições devem criar mecanismos para que isso não aconteça a ninguém. O direito à presunção de inocência e à privacidade são direitos básicos dos seres humanos. Temos que interromper essa nova forma de destruição de pessoas físicas e jurídicas através de fake news. Quem acusa alguém falsamente deve pagar pelo crime que comete.

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A mentira como ferramenta política

Uma carta "anônima" serviu de pretexto para um processo administrativo sem pé nem cabeça contra um diretor estatutário cujo mandato era absolutamente transparente e de conhecimento de todos.

O mandato que exerci em nome dos associados da Cassi entre 2014 e 2018 foi um mandato diferenciado em vários sentidos. 

Em primeiro lugar, tudo que fiz, defendi e encaminhei politicamente foi publicado na internet e em rede social para qualquer pessoa do país acompanhar em tempo praticamente real. Prestei contas por quatro anos desde o primeiro dia de mandato. Quantos representantes de pessoas fizeram isso na história até aquele período?

Minhas posições políticas e técnicas eram de conhecimento de todas as áreas dentro da autogestão e fora dela. Nunca um diretor havia estado presencialmente em todas as bases sociais da Cassi respondendo perguntas e explicando como funcionava o modelo assistencial da autogestão. Não visitei apenas bases sociais gigantes como alguns faziam antes, visitei estados pequenos para valorizar e dar igualdade de tratamento aos participantes de nosso sistema de saúde Cassi.

Para defender os interesses da Cassi e dos associados, tomei decisões que me fizeram deixar de receber dezenas de milhares de reais de PLR a que todos os bancários do banco cedidos tinham direito. Minha atitude foi uma forma política de pressionar o Banco a assumir a despesa daquela remuneração de seus funcionários e não a Cassi, uma autogestão em saúde. Esse embate político livrou a Cassi para sempre de despesas de milhões de reais, pois fiz o recurso daquele direito ser pago pelo patrocinador. Essa informação era sabida nos corredores da instituição.

Cartão corporativo - Está em evidência a questão de gastos com cartão corporativo, principalmente depois dos valores inimagináveis gastos pelo presidente do país entre 2019 e 2022. Os diretores da Cassi tinham direito a cartão corporativo quando iniciei o mandato. Era e é algo absolutamente normal numa empresa do porte da Cassi. Por decisão pessoal, guardei o cartão numa gaveta até o fim do mandato. Nunca utilizei um centavo do cartão corporativo a que tinha direito.

Quando a autogestão contingenciou algumas despesas por causa da questão histórica e recorrente em décadas de déficits orçamentários, passei a usar recursos próprios, de meus proventos, para manter o planejamento estratégico da diretoria a qual era responsável. Uma de minhas funções estatutárias como diretor de saúde era a relação com os conselhos de usuários e associados país afora. Era também o gestor das unidades regionais próprias da Cassi, tanto administrativas quanto de atendimento em saúde. Com o contingenciamento de recursos, passei a contar com apoio de entidades representativas e com meus recursos para cumprir as agendas da diretoria. Foram milhares de reais investidos no compromisso com a base social que representava.

Tenho a tranquilidade de dizer que imagino que poucos gestores da história da Cassi leram tantos documentos completos da autogestão e estudaram a história da Caixa de Assistência como eu fiz. Durante o mandato que exercemos eram milhares de páginas de súmulas e atas semanais para debater e deliberar. E mesmo cumprindo agendas nas unidades Cassi nos estados, eu lia toda a documentação. Alguns adversários políticos inventavam mentiras e ilações alegando que o diretor só trabalhava nas terças, dia das reuniões executivas, como se meu trabalho de duas ou três jornadas diárias nas regionais da Cassi e as leituras de documentos em finais de semana e noites afora não fosse trabalho. Mentiras levianas e criminosas de gente de má-fé.

A democracia e o respeito ao corpo de profissionais da Cassi foi um marco em nossa gestão. Processos seletivos transparentes com oportunidades para todos, todas e todes, gestão com paridade de gênero tendo durante nosso mandato praticamente a metade das funções gerenciais sendo exercidas por mulheres. Foram quatro anos de relações cordiais de trabalho com as equipes tanto na sede em Brasília quanto nas 27 Unidades Cassi e CliniCassi nos estados. Fui um defensor incansável das trabalhadoras e trabalhadores da Cassi.

A agenda pública que mantive do primeiro ao último dia de mandato permitiram que as lideranças dos associados, entidades sindicais e associativas e conselheiros de usuários me dessem retorno (feedback) dizendo que liam todas as postagens que fazia, mesmo sendo textos longos, técnicos e políticos sobre a Cassi. Foram mais de 650 textos e mais de meio milhão de acessos durante o mandato.

Para finalizar a descrição de alguns marcos de nossa passagem pela gestão da Cassi, desenvolvemos estudos técnicos nunca realizados que comprovaram a eficiência do modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF). Ao levar a questão do déficit do custeio da Cassi para as entidades representativas, fui um dos responsáveis pela criação de uma mesa nacional de negociação com o Banco, que resultou em receitas novas incluindo a parte patronal. E tenho orgulho de dizer que durante os quatro anos de nosso mandato nenhum direito do associado foi perdido ou reduzido. Não aceitei em hipótese alguma levar adiante propostas patronais que propunham a quebra da solidariedade no custeio de nosso sistema de saúde Cassi.

Imagino que os exemplos acima da forma como gerimos a Cassi em nome dos associados já são suficientes para as leitoras e leitores entenderem o quanto foi sem coerência com a realidade alguns gestores da Cassi aceitarem abrir um processo administrativo contra o diretor eleito a partir de uma cartinha anônima de baixíssimo nível dizendo que eu não trabalhava, que eu gastava recursos da Cassi com viagens pessoais, que as pessoas que trabalhavam comigo eram vagabundas, que eu era ditador e baixarias do tipo. E mesmo sendo algo sem pé nem cabeça, iniciaram o lawfare contra a minha pessoa.

Coincidentemente, duas semanas antes da carta "anônima" dar entrada às instâncias diretivas da autogestão em saúde, o mesmo diretor eleito havia sido tema de um pedido de processo administrativo pela parte indicada pelo patrocinador por causa dos textos informativos ao corpo social que representava, feitos em seu blog na internet. A metade eleita da gestão não concordou com o pedido de processo por entender que liberdade de opinião não pode ser criminalizada. Aliás, o patrocinador também usava seus canais de comunicação para opinar livremente sobre a Cassi e os gestores eleitos. Direitos iguais.

Dias depois da rejeição de processo administrativo contra o diretor, aparece a carta "anônima" com acusações que desafiavam a realidade pública dos fatos...

Imaginem vocês a situação que vivi durante meses. Havia uma acusação contra mim, abriram um processo administrativo contra mim, todo mundo sabia o que a carta anônima dizia e eu não tinha acesso à denúncia formalmente (só muito tempo depois me deram uma cópia). Evidente que pessoas que me respeitavam me disseram o teor das ilações. Quando advogados e advogadas passaram a me defender, me tranquilizaram pelo fato de terem tomado conhecimento do que descrevi acima, de minha vida pública e publicada, e do absurdo de eu sequer ter direito pleno à minha defesa.

O que mais doía era saber que as mentiras não tinham cabimento e, mesmo assim, a metade indicada pelo patrocinador mais uma senhora mau-caráter de nossa metade eleita aceitarem aquele documento para que eu passasse meses de martírio e humilhações. Eles sabiam que eu era inocente e nenhuma daquelas acusações tinha fundamento. Para se ter ideia dos absurdos do processo, os relatórios da auditoria me pediram para "justificar" onde estava e o que estava fazendo em uma centena de dias aleatórios dos quatro anos do mandato por não ter passado nas catracas do prédio, como se eu não fosse diretor estatutário e como se algum humano lembrasse de uma coisa dessas (meu blog me salvou desse assédio!). Um dos dias citados, eu tinha sido palestrante da Cassi em curso de formação na Unidade Cassi SP. Com certificado assinado pelo presidente da Cassi... meus advogados vendo aquilo disseram que aquele assédio sairia caro para a empresa.

A primeira parte do duro processo de assédio, eu vivenciei entre dezembro de 2017 e maio de 2018, quando se encerrou meu mandato na autogestão. Não preciso dizer que esse processo foi usado contra a minha candidatura à reeleição... as chapas concorrentes alegavam que eu não trabalhava e que tinha processo contra mim na Cassi (uso político do lawfare). A segunda parte do assédio durou de junho até abril do ano seguinte, já no governo do inelegível. Acabei saindo mais cedo do que imaginei da empresa pública para a qual dediquei a minha vida e depois tive acesso aos documentos que desaconselharam meus algozes a entrarem com ação na justiça contra a minha pessoa, porque as acusações não se sustentariam perante a justiça, não havia provas daqueles absurdos inventados contra mim. O processo foi arquivado.

Como disse, ser vítima dessas mentiras inventadas contra pessoas inocentes é algo terrível. Muitas pessoas devem ficar no limite do suportável por causa dos efeitos das ilações construídas para destruir pessoas. Algumas pessoas sucumbem e fazem algo impensável em contextos normais de estresse.

Eu confesso que suportei pacificamente e psicologicamente o que fizeram contra a minha honra e a minha história de lutas em nome da classe trabalhadora por ter tido uma formação política humanista e de esquerda no movimento sindical bancário. E porque tive o apoio das entidades sindicais e da militância que conheciam meu trabalho de toda uma vida. Imagino que muitas pessoas talvez tivessem chegado no seu limite com tanta covardia e perversidade baseadas em mentiras.

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É isso! Ver nesta semana desfechos trágicos de casos de mentiras e ilações contra pessoas me deixou triste demais e com o coração carregado por saber que qualquer pessoa inocente pode ser vítima dessas ferramentas de assassinato de reputações e destruições de vidas.

Não desejo isso para ninguém, nem para as pessoas com visões de mundo opostas à minha. Criar acusações falsas contra as pessoas não é legal. Não façam isso. Por trás dessas ondas de mentiras existe um alvo que é uma pessoa de carne e osso, um ser humano.

William


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Diário e reflexões


Corrida de 10K no Pq. do Sabiá.

Refeição Cultural

Osasco, 27 de dezembro de 2023. Quarta-feira.


98ª São Silvestre e saúde

Depois de alguns anos sem participar da corrida de São Silvestre, neste ano acabei me inscrevendo para a prova de 15 Km que acontece no último dia do ano em São Paulo. 

Foi um repente que tive após conseguir realizar minha caminhada de 80 Km lá em Minas Gerais, em agosto. Apesar da minha condição física ruim, imaginei que conseguiria me preparar para o percurso da corrida em três meses.

O fato concreto é que não deu certo adquirir o condicionamento físico para percorrer um percurso de 15 Km em trote leve, ou seja, correndo. 

Logo que iniciei a preparação em outubro, senti uma contusão na parte inferior da perna direita. Precisei ficar algumas semanas sem correr. Vi que meu sistema músculo-esquelético estava muito aquém da condição exigida para 15 Km.

Avaliei que teria que pensar uma estratégia diferente da que havia planejado: fazer umas oito corridas por mês, aumentando minha resistência paulatinamente até o dia 31 de dezembro. 

Tudo está diferente em meu corpo, essa realidade eu já sabia. Minha energia interna não é mais a mesma, tenho desgaste na estrutura do quadril, estar acima do peso também era fator prejudicial etc.

Decidi começar a andar bastante e forte durante os meses de outubro e novembro e perder um pouco de peso. Andei pra caramba! E consegui diminuir uns 3 Kg comendo menos e estando mais atento ao que comia e bebia. O pastel da feira, os dois pedaços de pizza, os pãezinhos e a quantidade de arroz, o chopp, tudo foi cortado ou diminuído.

E mantive uma série de exercícios de musculação para não perder a pouca massa magra que sobrou em mim. Fiz tudo sem exageros. Na questão da saúde não sou radical como sou nos princípios políticos. Aliás, pensando bem, sou firme nos princípios e flexível nas táticas, como se deve ser na política.

Ao voltar aos trotes, agora controlando frequência cardíaca, percebi a falta de condicionamento físico por ver minha pulsação ir às nuvens num trote lento que consideraria normal (coração vai a 180/185). Ou seja, tenho um longo caminho pela frente para correr quilômetros com uma frequência cardíaca confortável: no meu caso, seria mais ou menos entre 155 e 170 batidas por minuto.

Enfim, avaliando tudo isso, percebi que não teria como participar da São Silvestre neste ano. Avaliei não ter energia interna para correr 15 Km. Pensei comigo que a vida é assim mesmo. 

Evidente que vou lá buscar minha camiseta da prova porque os caras cobram caro pra caralho a participação formal na prova. Foram 240 reais! 240 reais! 

Na última vez que participei da prova em 2019, nem água suficiente tinha no percurso. Era desesperador ver aquela multidão com sede em um dos dias de mais de 30º de calor no verão brasileiro.

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Parque do Sabiá, Uberlândia, MG.

A MAGIA DO PARQUE DO SABIÁ 

Ao passar o Natal com familiares em Uberlândia (MG), fui para o Parque do Sabiá, dia sim, dia não. Sou apaixonado por aquele parque.

No dia 22, fui para correr um pouco e andar um pouco, sentir o parque, o cheiro da vegetação, o canto dos pássaros, o clima daquele lugar. Devagar, fiz meu trote de 5 Km. Eu já não corria essa distância fazia meses... corri a distância em 36' e continuei caminhando para descansar e sentir minha energia. Andei quase o mesmo percurso. Foram 93' em 9,34 Km. Percebi que não teria mesmo como correr a São Silvestre.

No dia 24, fui para testar minha energia e uma estratégia que imaginei: correr observando a frequência cardíaca para não me colocar em risco. Sempre que chegasse aos 180 eu andaria um pouco até voltar aos 160 e então voltaria ao trote. Vocês não imaginam a felicidade ao voltar a correr 9 Km em 68'35"... Foi incrível. Terminei com a energia controlada, cansaço razoável e sem fadiga alguma. Pensei comigo que se eu tivesse mais alguns dias como aquele, eu poderia até correr a São Silvestre.

No dia 26, mesmo sendo um pouco arriscado porque 48h não é o suficiente para descansar da carga que havia feito em 22 e 24, voltei para o parque para me despedir. Acordei bem cedo, tomei café no hotel e fui com chuva mesmo para o Sabiá.

Amig@s, com uma concentração enorme em mim mesmo, com chuvinha leve, iniciei meu trote quase caminhando o 1º Km - o peso do café da manhã rsrs - e fui para a intensidade do trote normal em seguida e, parando um pouquinho quando a pulsação estava no limite, tive energia para correr os 10 Km em 81' e terminei bem, sem fadiga e ainda viajei o dia todo sem sentir o corpo cansado. 

Foi incrível reencontrar um pouco da energia que sempre tive para atividades físicas. Mais algumas semanas nesta sequência que fiz e eu conseguiria retomar as corridas de fundo como a São Silvestre.

Pois é, vamos retirar o Kit da São Silvestre que eu quase corri...

William


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Uberlândia, 25 de dezembro de 2023.


Um Natal e Ano Novo com perspectivas de fim dos seres humanos como nós os conhecemos... Só com ações práticas poderemos interromper o fim do mundo, do nosso mundo


"(...) durante muito tempo acreditou-se que, removidos uns tantos obstáculos, como a ignorância e os sistemas despóticos de governo, as conquistas do progresso seriam canalizadas no rumo imaginado pelos utopistas, porque a instrução, o saber e a técnica levariam necessariamente à felicidade coletiva. No entanto, mesmo onde estes obstáculos foram removidos a barbárie continuou entre os homens." (Antonio Candido, em "O direito à literatura")


Uma conversa nesta semana com uma jovem atendente num estabelecimento comercial me deixou pensativo. Vi no exemplo concreto uma das hipóteses que venho pensando há tempos: reduzem-se as perspectivas de se desenvolver as potencialidades humanas. Durante nosso bate-papo ela me disse que nunca leu um livro na vida... depois corrigiu dizendo que leu um porque o nome do vilão era o nome do irmão dela. E só. Ela aparentava ter vinte e tantos anos de idade.

Converso sempre que posso com as trabalhadoras e trabalhadores em meu cotidiano. As meninas da padaria perto de casa - sempre muito jovens -, os entregadores de "aplicativos" ou motoboys - raramente vejo uma entregadora na região onde moro -, caixas de supermercados e ambulantes, motoristas de táxi ou de "aplicativos" (de novo essa palavra que invisibiliza o beneficiário do lucro pela exploração da pessoa que trabalha praticamente três turnos por dia).

Faz anos que me preocupo com a sobrecarga de trabalho da classe trabalhadora. Enquanto me desespero ao observar que as pessoas trabalham ininterruptamente do acordar ao pouco dormir, elas a cada dia que sobrevivem só em função de subempregos e trabalhos precários, mais vão reduzindo seus horizontes de possibilidades nas diversas dimensões da vida humana que poderiam nos fazer humanos na plenitude da palavra: seres com um cérebro altamente desenvolvido em milhões de anos e que só se desenvolverá se for estimulado para múltiplas tarefas.

As pessoas que trabalham com entregas para empresas de "aplicativos" trabalham até 18 horas por dia e, pelo que me contam, com raras exceções, mal conseguem pagar as despesas de aluguel e alimentação da família. É uma tragédia! É injusto! Isso não é vida! Adultos de menos de vinte anos, na faixa dos trinta e na faixa dos quarenta, uma multidão de gente, milhões de jovens e adultos que têm a rotina de fazer uma atividade insalubre e dormir. Milhões de seres humanos sem perspectivas de desenvolver as suas capacidades e habilidades humanas.

Ao conversar com a jovem atendente que nunca leu um livro na vida, quer dizer, que leu um livro na vida, vi um exemplo prático do que imaginei. Mesmo que por algum milagre essa multidão de adultos da classe trabalhadora tivesse ainda o interesse de ler um livro, essa multidão não teria a menor condição por uma questão prática: falta de tempo, cansaço, sono, falta de energia. Talvez, falta de habilidades específicas para se ler e entender um livro.

O que será da humanidade? O que será do ser humano? É justo a tendência de futuro da humanidade neste caminho no qual estamos? Se não é justo, por que seguimos nele? Por que não vejo revolta prática nas ruas e nas conversas que ainda existem entre nós? Sobre o que se conversa quando pessoas estão juntas? Na maioria das vezes, a pauta é a pauta que chega a elas plantada pelas ferramentas comunicacionais dos donos do mundo, das big techs, as tais redes (anti)sociais.

A pauta é sempre definida por alguém que tem o domínio dos meios. A gente só fica nelas: são temas para nos desviar das questões centrais. E mesmo assim, até o lado dos intelectuais da classe trabalhadora - os ideólogos e estudiosos e representantes políticos do nosso lado da classe - acaba focando suas energias criativas para o blá-blá-blá pautado pelos donos dos meios, os donos do mundo, os capitalistas e seus ideólogos ou ventríloquos ou palhaços úteis ao desvio de nossas atenções, que deveriam estar voltadas a uma estratégia de mudar o rumo das coisas, a tendência de fim do mundo e da humanidade.

Que será de nós sem uma mudança de tendência do rumo das coisas? Eu penso nisso porque não posso ficar alheio à realidade do mundo e da humanidade.

Penso que essas questões deveriam ser as nossas pautas neste Natal e fim de ano e início de um complicadíssimo ano de 2024 para o mundo. As perspectivas para os próximos doze meses do tempo na Terra são ruins, são "desafiadoras" diriam os que rejeitam falar verdades que incomodam.

Sem estabelecermos uma agenda unitária e ou com eixos unitários para lutar contra o capitalismo e a super super super exploração dos seres humanos e do planeta Terra, será difícil engajar as novas gerações a saírem de suas bolhas e mundos de prazeres imediatos - algo compreensível pois são humanos - para algo coletivo e que garanta um futuro público e coletivo para todes.

ESPÉCIE DE HOMENS E MULHERES SÁBIOS OU IGNORANTES?

O que vejo em pleno século 21, conversando com pessoas e vendo o que as pessoas fazem e observando a realidade é que o universo mental e intelectual, os conhecimentos gerais que as pessoas deveriam ter sobre o mundo e sobre a vida e sobre tudo que acumulamos ao longo de milhares de anos de cultura estão cada dia menores, as pessoas estão cada dia mais simplórias em suas ações e pensamentos e agendas de vida... há uma ignorância generalizada se estabelecendo no mundo humano no momento de maior acúmulo de conhecimento humano.

Aviso: aos que não perceberem, não estou alegando que ainda não temos alguns gênios por aí ou pessoas altamente capazes com suas habilidades diversas... não é isso. Estou falando da massa humana, do conjunto da população.

Repito a citação de abertura desta reflexão, do professor Antonio Candido, no ensaio "O direito à literatura":

"(...) durante muito tempo acreditou-se que, removidos uns tantos obstáculos, como a ignorância e os sistemas despóticos de governo, as conquistas do progresso seriam canalizadas no rumo imaginado pelos utopistas, porque a instrução, o saber e a técnica levariam necessariamente à felicidade coletiva. No entanto, mesmo onde estes obstáculos foram removidos a barbárie continuou entre os homens."

É sobre isso que estou falando!

Essa estratégia dos atuais donos dos meios e do capital em tornar as pessoas cada dia mais ignorantes não vai dar boa coisa para a humanidade e para o único planeta habitável que conhecemos.

Não teremos um mundo mais justo e viável se a esquerda e as pessoas inteligentes não voltarem a pautar e lutar pelo fim do capitalismo e pela educação pública e de qualidade em todas as suas dimensões. 

Ser a favor do modo de organização do mundo pelo capitalismo é uma burrice, é um suicídio coletivo. Tenho visto gente do nosso campo desistindo de lutar contra o capitalismo. Erro crasso!

Que comecemos essa luta nos movimentos organizados e populares já!

William

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Post Scriptum: uma antiga postagem minha sobre economia aborda essa questão das poucas oportunidades mentais no horizonte das pessoas das classes sociais sem acesso ao mínimo de condições de vida. É um excerto sobre economia que explica que "a perdição do pobre é a pobreza": veja aqui.


sábado, 23 de dezembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Uberlândia, 23 de dezembro de 2023. Dia frágil. Intolerâncias no ar...


O Parque do Sabiá é um refúgio. Pássaros tentam a sorte por lá. Peixes também. Ontem, vi um casal de seriemas perambulando pela grama. Seriemas nunca tinha visto por lá... deslumbramento! Teiús tentam a sorte. Também vi ontem três curicacas, falei oi pra elas. Estava de passagem correndo. Os pássaros-preto cantavam seus cantos de natureza. 

O Sabiá é um refúgio. A vontade é de passar horas por lá. Andar, quedar, andar, quedar, ouvir a natureza, sentir a solidão que habita o meu coração. O mundo está se transformando num lugar inóspito à vida, pelo menos à vida social. Onde há duas unidades da mesma espécie animal, a homo sapiens, há chances de rupturas, rusgas, intolerâncias. Nos tornamos seres intolerantes e intoleráveis.

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Os pais que vivem juntos há mais de meio século não se toleram mais. Pais e filhos não têm mais paciência uns com os outros. Amigos, colegas, companheiros, conhecidos, familiares... ninguém resiste a uma desavença. Tudo se resolve no grito, na expressão rude, na ruptura (cancela, bloqueia). O perdão é uma palavra que se não morta, está à beira da morte, sozinha numa cama de hospital entre lençóis brancos... até o perdão é uma palavra morrendo sozinha.

Um mundo de surdos, mesmo quando os ouvidos funcionam anatomicamente. Um mundo de cegos mesmo quando enxergam o que lhes convêm. Um mundo mudo porque todo mundo fala fala fala e ninguém se entende. A Babel da narrativa bíblica se realizou! Onde há dois, há desentendimento... uma incomunicabilidade nauseante na espécie humana. Que solidão dolorosa, que aperta o peito, que faz cachoeira nos olhos.

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É Natal no mundo ocidental. Natal... que Natal é esse no mundo humano? Natal das bombas matando os filhos de Deus na Palestina? Natal da miséria e abandono dos miseráveis na Argentina do governo eleito pelos miseráveis para trazer miséria com uma verve que convence até miseráveis que a melhor coisa é mais miséria, com muita encenação e grito e pose e retórica e algoritmo conspirando pela ampliação da mentira e da ignorância geral nas nações... Natal! Nasceu o menino Jesus numa favela e dessa vez vai ser foda sobreviver até a fase adulta.

É Natal no Brasil. Enquanto o cristão Lula se esforça para cumprir os compromissos que assumiu com o povo brasileiro cansado de tanta maldade, perversidade, miséria e destruição na longa noite que durou de 17 de abril de 2016 até 31 de dezembro de 2022, os caras da casa-grande e seus procuradores no parlamento se apropriam do orçamento público deixando claro para o Lula que não haverá recursos públicos suficientes para cumprir o que ele gostaria para saciar a fome do povo, gerar empregos e renda para os pobres e trabalhadores e fazer o país caminhar para o amanhã com um pouco mais de paz. Não haverá paz. Os tempos são de ódio e guerra e miséria. Natal...

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Daqui alguns dias teremos no Brasil mais uma edição da tradicional Corrida de São Silvestre. Queria correr a prova. Não dou conta. A natureza e a realidade são implacáveis com os seres naturais. Fui para o Sabiá conversar com o meu corpo. Corri, andei, senti minhas energias. Para me arriscar numa empreitada que exigisse a quantidade de energia que o percurso da prova exige, teria que ser algo cuja finalidade fosse um feito grandioso, que valesse para a coletividade, ou para um coração apertado; gastaria toda essa energia para salvar uma vida, para lutar contra uma injustiça, para mudar o mundo, para fazer uma pessoa feliz.

Não vale a pena me arriscar a gastar mais energia do que sinto que tenho neste momento só para uma birra pessoal. Por incrível que pareça, tenho consciência a respeito da liberdade e da responsabilidade que é só minha e de mais ninguém. Ainda tenho que me manter vivo porque ainda tenho coisas pra fazer, tenho pessoas que dependem de mim. Por mais que o mundo hoje seja o império da arrogância e da ilusão da autossuficiência, vivo ainda tenho alguma coisa por fazer por alguém.

Não vou correr a São Silvestre.

Natal! Natais...

William