quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Diários com Machado de Assis (XII)



Refeição Cultural

Osasco, 24 de fevereiro de 2022. Tarde de quinta-feira (enquanto lia a respeito de Machado de Assis e os leitores de sua época, a Rússia bombardeava a Ucrânia pela manhã. O presidente russo se encheu das palhaçadas da Otan e dos Estados Unidos. Desde o fim da União Soviética, a Otan já descumpriu quase 20 vezes o acordo de não se expandir e espremer a Rússia)


Terminei a leitura do capítulo 1 do livro de Hélio de Seixas Guimarães - Os leitores de Machado de Assis - o romance machadiano e o público de literatura no século 19. O capítulo tem duas partes: "Um preto de balaio no braço a vender romances" (ver um comentário que fiz aqui) e "O isolamento do escritor".

O fim do capítulo tem um trecho que resume o conteúdo analisado por Guimarães. 

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"Recapitulando: a percepção do público leitor como questão problemática atravessa o século 19 brasileiro, embora as explicações para a pequena circulação e repercussão da literatura nacional se transformem muito nesse período. Embora os problemas diagnosticados por Alencar, na década de 1860, e por Azevedo, na década de 1880, fossem muito semelhantes, há diferença no modo como esses escritores, emblemáticos de suas gerações, explicavam as dificuldades e se referiram ao público leitor. Num primeiro momento, supõe-se a existência de um público numeroso, mas caprichoso e indolente, como acreditavam Alencar e os primeiros românticos; num segundo momento, a pouca repercussão da literatura é associada à exiguidade do público leitor; num terceiro momento, esse público leitor passa a ser encarado como potencial consumidor de literatura, uma mudança de percepção que tem a ver com a organização da produção e comercialização dos livros." (p. 82)

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Os estudos de Hélio de Seixas são fantásticos! As informações trazidas por ele aos seus leitores são curiosas e apontam para reflexões que podemos fazer sobre o Brasil e os brasileiros ainda hoje, esse Brasil bolsonarista, aglomerado humano que nunca saiu da condição e relação de casa-grande e senzala entre o 1% e os 99%.

Um país de analfabetos no século 19 quando na Europa e nos Estados Unidos mais de 80% do povo sabia ler e escrever. Um país no qual a pequena parte alfabetizada não lia nada e não tinha um livro em casa, gente da casa-grande ou ao redor dela. Um país onde a produção de um livro custava infinitamente mais que a edição feita no exterior. E tem gente que não entende os porquês do nosso dia a dia sob o regime miliciano e do crime organizado na atualidade.

Evidente que na leitura do capítulo aumentei minhas lacunas culturais. Eu não li ainda A moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo, e nem O mulato (1881), de Aluísio de Azevedo, dois romances considerados exceções de vendas no século 19 e best sellers da época. Mas pelo menos li um dos campeões de vendas do período: Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, romance lançado primeiro em folhetins sob o pseudônimo de "um brasileiro" e depois em livro. Ao me lembrar da estória é inevitável associar o enredo e aquelas figuras com o Brasil bolsonarista de hoje.

Imaginem os dilemas dos escritores brasileiros da época: por um lado, a "burguesia" daqui não lia romances ("burguesia" em termos... aquela coisa brasileira que queria se comparar à burguesia europeia, que pelo menos lia alguma coisa). Por outro, era essa gente inculta e ignorante que financiava alguma coisa da produção e distribuição de livros nesta terra. Os escritores sabiam que tinham que escrever de forma que alguém consumisse seus textos.

Não à toa, Machado de Assis vai desenvolver ao longo de sua trajetória uma linguagem com uma ironia refinadíssima que será pouco percebida em sua época. Algo como os brasileiros produtores de cultura fizeram durante o regime civil-militar entre 1964-85 por causa da censura. Muitos estudiosos e especialistas avaliam até hoje que parte dos milicos é formada por gente muito ignorante (vejam os nossos) e na ditadura as músicas e livros e peças teatrais usavam linguagem cifrada para enganar os desgraçados que se meteram na política dando golpes na democracia brasileira.

Enfim, esse é o nosso país (até hoje). Olhem ao redor... 

William



GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Edusp, 2004.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

22022022 - Diário e reflexões (CartaCapital)



Refeição Cultural - CartaCapital 1195


ALTA-TENSÃO

Faz tempo que li a última revista CartaCapital inteira. Faz tempo! Foi no final de setembro de 2021, a edição 1173 (comentário aqui). Aliás, preciso fazer uma correção e parar de escrever "Carta Capital", já que o nome da revista é CartaCapital. Às vezes, sou meio birrento ao escrever nos meus espaços de escrita.

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MODERNISMO - As matérias destacadas na capa da revista são muito bem escritas, e nos trazem os fatos, além da opinião qualitativa do escriba, como é o caso da matéria assinada por Mino Carta na seção "Plural": "O que restou de 1922 - Semana de Arte Moderna: Mário de Andrade soube entender a necessária simbiose entre a cultura e a política". Gostei do artigo e dos relatos de Mino.

Durante a semana passada, quando se comemorou cem anos daquela "Semana de Arte Moderna" cheguei a ler nas redes sociais alguns comentários bem negativos a respeito daquele movimento e das pessoas que participaram dele. Alguns comentários esculhambavam os protagonistas do movimento. Opinião é opinião. Eu penso que o movimento foi muito importante e sou admirador de Mário de Andrade. Aliás, Macunaíma e Pauliceia Desvairada são obras fenomenais. Fenomenais!, na minha opinião.

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NEONAZISMO - Outra matéria importante da semana foi a que tratou da ascensão dos extremistas de direita, fascistas, nazistas, neonazistas et caterva no Brasil após a demonização da política do país por parte da casa-grande e seus veículos familiares de comunicação (grande imprensa, PIG, mídia empresarial e outras denominações), que apostaram no caos e na destruição para interromper os governos democráticos e populares do Partido dos Trabalhadores após a eleição de Lula em 2003. As mentiras chamadas fake news foram a pauta do PIG durante todos os anos dos governos do PT neste século.

Tirando a minha opinião no parágrafo anterior, a matéria trata do caso que chamou a atenção durante alguns dias: o do youtuber conhecido como Monark, apresentador do Flow, podcast de maior audiência do país. A matéria da seção "Seu País" à página 16 traz o tema: "O triunfo dos extremistas - Neonazismo: O discurso da 'liberdade de expressão irrestrita' apenas fortalece a atuação de gangues e dos lobos solitários".

A matéria reproduziu uma das frases ditas por Monark no programa: "Acho que o nazista tinha que ter o partido nazista, reconhecido pela lei". E um dos convidados do programa, segundo a revista, teve a seguinte postura: "Presente na bancada, o deputado Kim Kataguiri, do DEM, emendou que a Alemanha errou ao criminalizar o nazismo após o fim da Segunda Guerra Mundial.". 

"O PAVOR DE DILMA ROUSSEFF" - Pois é! Eu e todos os brasileiros vimos um deputado federal dizer no microfone do Congresso Nacional no dia 17/4/16 (sessão de votação do impeachment sem crime) que ele votava em nome do coronel Ustra, o torturador da jovem Dilma Rousseff nos anos da ditadura civil-militar... e não saiu preso, não foi processado e ali se abriram as portas do inferno para o que o Brasil se transformou.

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ELETROBRAS - Que dizer então da privatização da Eletrobras? A entrega do patrimônio nacional de centenas de bilhões de dinheiros para uns chegados da casa-grande é algo que eu não vou dizer o que penso, o que acho que se deveria fazer com essa gente.

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ARTIGOS - A edição traz artigos muito bons. Eu destaco o do Marcos Coimbra (p. 23): "Mão grande na eleição" com um destaque na entrada do texto: "Bolsonaro e sua turma vão fazer todo tipo de bandalheira para se manter no poder. Na verdade, já fazem".

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REVISTA LIDA E COMENTÁRIO FINAL

Enfim, lida a revista. Muito conteúdo! Muita informação. 

Eu registro na postagem uma impressão que mantenho faz tempo. Acho difícil acontecer o que todos nós desejamos: que tudo corra normalmente e que Lula seja eleito presidente da república em eleições normais em outubro deste ano.

Acho que há uma probabilidade importante do Lula não ser o presidente do Brasil em 2023 ou não terminar um eventual mandato caso a casa-grande e o crime organizado que tomou conta do país permitam que ele chegue ao Planalto pelas vias democráticas em outubro deste ano.

Espero estar errado. Acho que desta vez não vai rolar a conciliação que Lula e o PT gostariam de fazer com os capitalistas, como ocorreu em 2002. Os tempos são outros e a história não se repete. A democracia burguesa liberal acabou após as ferramentas tecnológicas da atualidade (redes sociais e algoritmos). Acabou e não sabemos o que pôr no lugar.

William


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Instantes



Osasco, 31 de março. Quinta. 2022. 12h20.

E nesse instante? Que sinto, que penso, que postura ter frente à vida?

Sinto um cansaço imenso, talvez cansaço da vida, por não ter ilusões em relação à sociedade humana. Penso que nunca haverá paz e fraternidade humana, não é da nossa característica histórica. Perante a vida, não vejo outra alternativa ética além da postura de me esforçar para viver de forma satisfatória em relação a mim mesmo e às pessoas que de alguma forma se relacionam comigo ou dependem de mim. 

Em relação à postura perante a vida do ponto de vista do cidadão que sou já que existo num determinado tempo e lugar, devo continuar tentando encontrar uma forma de contribuir para melhorar a sociedade humana. O período de minha existência no qual eu efetivamente contribuí para construir um mundo melhor para todos foi durante o tempo em que fui dirigente eleito da classe trabalhadora. Essa contribuição ao mundo acho que não vai se repetir, isso foi uma oportunidade que a vida me apresentou, não fui eu que corri atrás disso. 

No entanto, minha ética me cobra o tempo inteiro que eu faça algo de útil para a coletividade. Não encontrei o que fazer ainda desde que deixei de atuar na militância sindical. Não é suficiente num mundo tão miserável apenas não fazer o mal a ninguém. Isso é uma espécie de canalhice pequeno burguesa. Zilhões de isentões vivem dessas manobras psicológicas e rezas etc. Viver assim nos últimos anos tem me matado. Mas sou um pusilânime, acho que sempre fui. Sempre fui movido a projetos nos quais caí de paraquedas. E ao me pegar neles, fui bom no que fiz.

Nesse instante, me sinto um inútil para a sociedade humana. Só sou útil às relações próximas. Isso é pouco demais para viver ocupando um espaço tão disputado entre os donos do mundo e os miseráveis do mundo.

William (12h56)

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Osasco, 24 de março. Quinta-feira. 2022. 1h35 da madrugada.

Nesse instante, imagens e eventos diversos circulam por meu cérebro na forma de energia elétrica, impulsos químicos vão e vêm através das sinapses de meus 86 bilhões de neurônios. Eu sou esse amontoado de neurônios, células, microrganismos diversos, átomos, poeira, bactérias, elementos químicos da natureza. Sou tudo e sou nada. Sou o Universo, o Universo está em mim; estou no Universo, integrado em um corpo vivo chamado William. Um ser vivo com zilhões de seres vivos dentro de mim. Só sobrevivo por causa da interação que realizo com os elementos da natureza e seres vivos fora de mim.

O Alckmin agora é socialista. O socialismo é antagônico ao capitalismo. O Alckmin agora defende o fim da propriedade privada... a propriedade coletiva dos meios de produção... o fim da exploração de um monte de humanos por alguns humanos. O Alckmin é socialista para ser candidato a vice na chapa com Lula, o metalúrgico nordestino do Partido dos Trabalhadores, maior liderança política desse país e símbolo de esperança. Se Alckmin não defende as bandeiras do socialismo, isso tudo não passa de mais uma mentira do mundo da política...

Ao vencer uma partida de xadrez jogando com uma máquina, tive a certeza de que aquilo para mim é uma perda de tempo. Jogar xadrez não é uma atividade que me acrescente algo. De verdade! Nada contra quem é apaixonado por xadrez. Pelo contrário, admiro os enxadristas. Mas aquilo não é para mim. Fiquei pensando na diferença entre mim e aquela coisa. Eu gastava um tempão para avaliar o resultado da mexida de cada pedra no tabuleiro. No segundo em que eu jogava, a máquina me devolvia a vez numa mexida rapidíssima. Ela não pensa. Eu olho pra frente, ela olha pra trás. Não existe "inteligência artificial" como nos explica o neurocientista Miguel Nicolelis. Ela é programada com zilhões de movimentos e contramovimentos. Mesmo se fosse um humano jogando do outro lado, aquele jogo não mudaria nada na minha vida, nem mudaria o mundo, na minha opinião. 

Estive no velório de dona Marlene, uma vizinha nossa do condomínio. Ela faleceu entre o domingo e a terça-feira e só foi encontrada no final da tarde de ontem porque as pessoas próximas a ela a procuraram. Ela morava sozinha e tinha quase 70 anos. Muito triste. Fiquei muito pensativo com o falecimento dela. Nos cumprimentamos dias atrás. Era uma senhora muito gente boa, muito simpática. Soube do velório em cima da hora e a cerimônia duraria somente uma hora. Troquei de roupa e fui até lá prestar minha homenagem a dona Marlene. A vida é um instante. Somos muito sensíveis, muito sensíveis. 

William (2h14)

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Osasco, 12 de março. Sábado. 2022. 22h22.

Por vários instantes do dia e também de outros dias atrás, pensei numa coisa. Nessas décadas de existência, a parte mais... que palavra usaria para definir a coisa... a parte mais satisfatória de minha vida foi aquela na qual estive envolvido com as causas coletivas. 

Nesse instante, próximo de completar 53 anos, sigo na mesma de quase a vida toda: não estou nem triste, nem feliz. Não sou nem triste, nem feliz. Décadas depois de ir vivendo e sobrevivendo, um ser humano pode ser que acabe olhando para trás e se pegue avaliando a vida que teve. Acho que ando nessa fase.

Tive basicamente 2/5 de minha vida vivida em função absoluta das causas coletivas, me anulei pessoalmente para priorizar as causas nas quais me peguei envolvido e na maior parte do tempo como responsável por elas. Então 3/5 de minha vida vivi mais ou menos por mim mesmo. A primeira década como criança. Me lembro de forma saudosa dessa primeira infância.

Por mim mesmo, quis dizer em função de camelar para os outros para receber uns trocados para viver; nesse sentido, vivi como os capitalistas nos consideram, como um cavalo, um burro de carga. Não vivi pra mim. Foi a fase de alimentar meu ódio a um monte de coisas. Aos ricos, por exemplo.

Por mim, porque foi foda atravessar a vida trabalhando nuns trabalhos de merda, sendo explorado, sendo egoísta e só pensando em mim como um bruto maltratado que vê no maltratar a forma de se vingar da vida de merda da classe oprimida pelos ricos.

Engraçado como a vida é uma jornada e não um destino, como diz um refrão de uma música do Aerosmith. O viver é o que importa e não o destino final, um suposto objetivo final. Tudo que talvez eu tenha imaginado ser, não fui. E acabei sendo algumas coisas que jamais imaginei ou quis ser. E passamos a vida assim.

Vivi amores. Vivi amizades. Vivi momentos incríveis. Vivi dores intensas, de morte. Neste momento em que escrevo, lembro instantes vividos a cada música que toca nos meus fones. Quase todos os momentos marcantes vivi entrando num vagão sem destino certo e vivendo aquela viagem enquanto o trem andou.

Chorei inumeráveis vezes de raiva, de impotência, de tristeza. Chorei algumas vezes por estar vivendo momentos de felicidade indescritível. Chorei com lágrimas. Chorei com olhos secos. Mas esses 3/5 de vida vivida por mim, talvez pra mim algumas vezes, não foram instantes do viver com efeitos positivos para a coletividade, sequer para as pessoas ao meu redor. Nossa... como fiz gente chorar! Isso me dói até hoje. Só encontrei consolo nas palavras do professor Antonio Candido, que ensinou que:

"O que somos é feito do que fomos, de modo que convém aceitar com serenidade o peso negativo das etapas vencidas" (CANDIDO, Formação da Literatura Brasileira)

Os 2/3 que vivi para as causas coletivas parecem completamente diferentes dos instantes particulares de meu viver. E essa vida "útil" que tive... não gosto dessa palavra "útil", mas foi a que me veio para descrever minha vida envolvida nas causas coletivas... essa vida das causas coletivas começou de forma involuntária da mesma forma de tudo que eu não planejei e rolou. Por acaso. Foi por acaso como os amores, as amizades, os momentos incríveis.

Enfim, instantes vividos. (ao fuçar nas papeladas de nossa história sindical e nos momentos registrados no blog sindical vi que fiz algo importante em minha vida. Bem mais importante do que as coisas que fiz no meu entorno particular)

William (23h27)

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Osasco, 9 de março. Quarta-feira. Noite quente de verão. 2022. 23h29.

Instantes. Impressões. A cada dia, a cada instante, fica mais difícil olhar mídias que trazem informações, verdadeiras ou falsas, sobre qualquer coisa. Não há boas notícias para a Terra, para a classe trabalhadora, para a natureza. As máquinas e meios de desinformação e mentiras dominaram a sociedade humana. Perdeu-se a referência em tudo. A sociedade humana não pode continuar assim; não vamos longe assim. 

Em que momento nos perdemos? Não há resposta para uma pergunta mal formulada como essa. Mesmo assim, olhando friamente, não me parece que o amanhã nos trará coisas boas. E fico pensando nos jovens, nas crianças, nas pessoas que têm a vida pela frente.

É grande o sentimento de impotência que acaba por se impor em muita gente, inclusive em nós que fomos linha de frente ao organizar as massas da classe trabalhadora contra os donos do mundo, os humanos que pertencem ao grupo que alguns de nós chamam de o pessoal do 1%.

No início do ano passado, 2021, morreram mais brasileiros que as médias de anos anteriores, de Covid-19 e de outras mortes, mortes severinas. Consequências do colapso no sistema de saúde e da estratégia do regime genocida de deixar os brasileiros morrerem. As mortes são em sua imensa maioria de gente pobre, preta, mestiça, "frágil" ou adoentada, das classes "inferiores". Morrer gente da casa-grande, do tal 1% e seus capitães do mato modernos, uns 4 a 5% da elite (do atraso), é uma raridade, raridade!

Neste momento, os governos estaduais se somam ao desejo do regime genocida e decidem por liberar o uso de máscaras e flexibilizar restrições criadas por causa da transmissão do vírus da pandemia. Notem que seguem morrendo centenas de pessoas por dia. Centenas! O professor e cientista Miguel Nicolelis informa que as mortes em geral no Brasil nos meses de janeiro e fevereiro de 2022 já são iguais às desses meses em 2021, período que antecedeu o pior momento de 2021 (março e abril)... Ou seja, o que justifica a canetada dizendo que a pandemia acabou?

Fora esse apoio ao vírus Sars-Cov-2, temos a guerra na Ucrânia, guerra entre os Estados Unidos e a Rússia. É o jogo no Tabuleiro de War em disputa pelas potências nucleares e econômicas, e pessoa física é nada nesse jogo. Nada! Só importam as pessoas jurídicas.

E no Brasil temos o presidente genocida crescendo nas pesquisas eleitorais. O meu lado da classe, a parte militante, acha que Lula pode ser presidente no ano que vem. Eu não acredito que isso vá acontecer. Infelizmente! Nada vai mudar sem guerra. Que pena! E se tiver guerra, nós dos 99% ou 95% vamos nos foder. Nem armados estamos. Que foda!

Chega!

William (00h00, mais um dia começa... pra mim é fácil, se for comparar aos meus pares da classe trabalhadora, não tenho falta de nada, sou um privilegiado. Essa é a verdade!)

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Osasco, 7 de março. Segunda-feira. Calor da porra! 2022. 11h54.

Instantes quentes. Estava pensando no quanto aumentou o risco de morte das pessoas nos últimos anos. Mortes severinas, mortes matadas e mortes morridas. Mortes evitáveis.

Pessoalmente, não tenho problema em morrer. No instante seguinte da morte não terei mais sensação alguma, não serei nada, não existirei em lugar algum inventado pela mente humana. Tenho clareza disso, fui ganhando a noção clara da realidade existencial com a vivência. Querer que se lembrem da gente, por exemplo, tem relação com a vaidade, uma abstração humana.

Porém, a morte tem um efeito social porque não somos sozinhos no mundo, mesmo aquelas pessoas que estão sozinhas não são tão sós que sua morte não vá causar efeitos sociais. Até nosso corpo está aqui no mundo e o mundo vai ter que lidar com nosso corpo morto. Nossa morte altera de forma permanente a condição das pessoas que estão em nosso meio. Altera.

Quando penso na realidade da morte, tenho umas preocupações, uns lamentos. Se eu deixar de existir, algumas pessoas sentirão minha ausência porque temos relações marcadas por sentimentos humanos ancestrais como amor, carinho, amizade. Essas dores que as pessoas sentirão, essa ausência, essa saudade, nos comove, nos dá uma sensação de lamento.

Todo ser humano precisa de outros seres humanos, somos seres sociais, e temos relação de dependência com outras pessoas. Se eu deixar de existir, talvez algumas pessoas tenham dificuldades para encontrar uma forma de manutenção da condição de existência que a vida nos permitiu até aqui. Isso preocupa muito a qualquer um de nós humanos. Nos causa dor em vida a preocupação com a continuidade da vida das pessoas de nossas relações.

Por causa dessas preocupações com as pessoas de nossas relações é que nos preocupamos com a realidade que aumentou tanto as possibilidades de nossas mortes. 

Se ficar vivo mais um tempão, décadas por exemplo, eu arranjaria o que fazer tranquilamente. Ler e escrever seria uma possibilidade. Morrendo por esses tempos, altero vidas queridas.

Não acho que sou eu que estou com mania de pensar nessa realidade humana, a morte. É a realidade material do mundo capitalista em crise que nos faz pensar nas possibilidades da morte nos pegar e alterar drasticamente a vida e a realidade de diversas pessoas das relações dos mortos. 

Pensem nos riscos de morte dos ucranianos neste momento de guerra em seu território entre os Estados Unidos e a Rússia. Pensem nas outras regiões em guerra neste momento, as guerras na África que a mídia comercial não fala porque não interessa. 

Pensem na guerra no Brasil após o golpe de 2016. 100.000.000 de pessoas aqui não sabem se vão comer hoje ou amanhã. As pessoas estão morrendo de fome, de doenças evitáveis. E o 1% da casa-grande daqui e de outros países não liga a mínima pra isso.

Vocês já pararam pra refletir o quanto estamos sendo envenenados após os brasileiros e as agências americanas terem colocado o crime organizado nas instituições de poder do Brasil após 2016? Estamos envenenados de todas as formas. Só os venenos que passaram a compor tudo o que comemos... o agro é veneno! Eu sei que ao comer uma fruta, um legume, os cereais, as bebidas prontas, estou sendo envenenado... mas essas mortes por veneno não são classificadas como mortes matadas. São mortes morridas, mortes severinas (morreu de câncer, coitado...).

A maior parte de nós morre e morrerá de morte evitável. Morte severina!

Chega por hoje.

William (12h35)

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Osasco, 1º de março. Terça-feira. Feriado de Carnaval. 2022. 17h16

O instante é de muito calor. Mais de 30º. Ontem, encontrei alguns amigos dos tempos de movimento sindical. Refletimos sobre diversos temas como usávamos fazer antes. Quando fui me despedir de um dos amigos, ele me fez aquela tradicional pergunta a respeito do que a pessoa anda fazendo. Os temas da conversa foram tão variados que não havíamos falado sobre isso no bate-papo. Lendo e escrevendo em meus blogs, foi o que disse. Falei também que estava escrevendo uma espécie de "memórias" sobre os tempos de militância no movimento sindical bancário. O amigo me perguntou por que estava escrevendo sobre aquilo. Meio sem entender o motivo da pergunta, respondi que escrevia memórias porque aquilo fez parte da minha vida. "Aquilo" seria algo como a participação na luta do movimento sindical brasileiro. Fiquei pensando o porquê da pergunta. Avalio que a pergunta poderia ser uma espécie de preocupação do amigo por ele ter consideração por mim. Ele sabe de vários perrengues que passei durante os mandatos de representação eletiva. Vivemos juntos alguns momentos difíceis, de rachas no movimento e esgarçamento no tecido sindical bancário.

Tem um episódio da antiga série Arquivo X que me marcou bastante na época que o vi. O episódio (7º da 9ª temporada: Amnesia) começou com um dos agentes da série, Dogget, meio dopado dentro de um galpão numa cidade desconhecida, no México, se não me engano. Ele não tinha a menor ideia de como foi parar lá. Na trama do episódio, uma espécie de curandeiro ou feiticeiro apagou as memórias do agente. Quando Dogget se vê cara a cara com o curandeiro exigindo que ele devolvesse sua memória, o curandeiro é perverso com o agente e começa a lhe devolver justamente as lembranças amargas da morte de seu filho, um garoto ainda. O episódio é muito forte, mexe com o telespectador. A trama se desenvolve e, no final, Dogget diz ao curandeiro que ele não tinha direito de lhe tirar a memória... porque por mais dura e triste que fosse a lembrança da morte e perda de seu filho, era a memória dele e ninguém tinha o direito de lhe tirar aquilo, era a vida dele... Forte isso!

William (17h44)

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Osasco, 26 de fevereiro. Sábado de Carnaval sem Carnaval. 2022. 13h57

Acordei depois das onze horas da manhã. Havia ido dormir depois das quatro horas da manhã. Estava sonhando com algo estranho, que incomodava. Eu não me lembro bem de sonhos. Na verdade, pelo conteúdo incômodo, é como se fosse um bad dream, um pesadelo. Alguns capas (pessoas de poder) da corrente política na qual militei a vida toda insinuavam que eu estava afastado da base (que horror!). Passei a vida toda de representação eletiva muito atento a nunca descuidar do trabalho de base, mesmo quando me enfiaram em funções de burocracia e de estrutura de poder. Fui dando um jeito de responder pelas obrigações burocráticas e fui fazendo base durante os 16 anos de mandatos. Essa atitude ideológica e de concepção e prática sindical teve um preço alto, inclusive em minha saúde. Mas faria do mesmo jeito hoje. Só sei fazer política com a intensidade militante que a política da esquerda exige. A política é uma coisa complicada de se lidar quando estamos dentro dela e de se entender quando estamos fora dela. É muito compreensível os motivos pelos quais o povo cai fácil nas construções de ódio à política.

Enfim, tinha outros instantes para registrar nesta tarde de sábado, mas deixa pra lá. Uma coisa que está martelando em minha cabeça desde ontem quando a ouvi através de um youtuber (Henry Bugalho), dita por causa da questão Rússia, Ucrânia, Otan e EUA, o evento com bombas e fuga de civis de suas casas, é a questão sobre o que uma pessoa levaria de casa se tivesse que sair às pressas e deixar tudo pra trás por causa de eventos políticos como esses. Além dos documentos o que mais levar à mão? O restante que ficar será toda a sua vida material pregressa. Aí fico pensando em minhas pilhas de coisas, coisas, coisas. Nas mudanças que comecei anos atrás e que não consegui terminar até agora... puta que pariu! Como a gente não se toca nessa vida!

William (14h19)

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Osasco, 21 de fevereiro. Segunda. 2022. 22h19

Às voltas com meus processos internos, com as coisas de meu mundo doméstico, fico me perguntando por que a gente guarda tanta coisa, por que a gente tira tanta foto de tudo quanto é coisa e lugar e ocasião; por que a gente faz o que faz, eis a questão! Vaidade? Pra matar saudades? Pra registrar algo bom ou ruim ou curioso? Por não confiar na memória própria? Vai saber...

A problemática ao guardar grande volume físico ou virtual de coisas é que com o passar do tempo o espaço acaba - físico e virtual. Outra coisa: o que fazer com tudo aquilo? Ao começar a fuçar nas coisas guardadas, no espaço físico e no virtual, a gente pode realmente experimentar sentimentos de vaidade, saudades, tristeza ou alegria ou curiosidade ao rever aquelas coisas. Histórias da vida privada, da vida pública, eventos que marcaram a vida e vidas diversas.

Uma das coisas que fico pensando é a respeito da utilidade daqueles guardados. Tanto para mim quanto para outrem. Milhares de fotos de viagens a passeio... outro tanto de fotos que marcaram um mandato eletivo feito muito próximo às bases sociais que representava, uma concepção e prática sindical de raiz, "radical!", se quiser ser preciso e marcar posição política e ideológica sobre o que preservei num mandato.

Ao fuçar nas acumulações da vida sindical e profissional, a determinação de colocar a maior parte daquilo tudo num saco e mandar pra lixeira é uma determinação episódica, pusilânime, ela vem quando começo a olhar os conteúdos e desaparece depois que passei os olhos pelo que tem ali. Que difícil! Pode ser vaidade. Mas às vezes penso que pode ser amor... sim, amor. Aquilo remete à luta de classes, remete a instantes que fizeram parte do tecido histórico do que somos.

Uma pilha de Revista dos Bancários, outro tanto de Revista do Brasil, revistas Fórum, revistas Superinteressante, revistas Carta Capital...

Dezenas de quilos e pilhas de fotocópias de textos dos mais diversos autores de referência de um curso de Letras da Universidade de São Paulo... cada texto mais maravilhoso que o outro.

Matérias jornalísticas que relembram grandes lutas, grandes eventos, democracia na veia nas brigas intestinas nos congressos e encontros e assembleias que decidiam a vida de dezenas de milhares ou centenas de milhares de pessoas de uma categoria ou do mundo do trabalho.

Difícil! (22h51)

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Osasco, 19 de fevereiro. Sábado. 2022. 13h11

O instante. Picotei mais uma agenda antiga. São tantas ainda... e com muitos registros de história pessoal e coletiva. Ontem fiz uma postagem de Memórias (ver aqui) aproveitando o fato de ter recordado momentos registrados em 2009. Vamos ver se consigo avançar em alguma obrigação doméstica procrastinada há tempos. Desanimado pra isso neste sábado quente...

Teve um instante ontem que merecia um registro, mas não tive saco pra fazê-lo. Uma participante de um plano de saúde da Cassi me pediu um auxílio para tentar resolver uma dificuldade de atendimento naquele momento. Ela está grávida, tinha um exame de rotina a ser feito em um local conveniado à Cassi, o exame estava com hora marcada, ela teve que fazer jejum de várias horas. Simplesmente após horas de espera, ela ainda não tinha conseguido realizar o exame e o prestador dizia que havia algum problema de liberação do convênio médico dela. Eu sugeri que ela ligasse no 0800 ou na telemedicina, canais comuns de atendimento de convênio médico. Uma hora depois, eu perguntei se ela havia conseguido ser atendida e ela me disse que sim. Como acontece em 99% das situações semelhantes, não era culpa da Cassi, o prestador é que estava com problemas internos e várias pessoas estavam aguardando horas para serem atendidas naquela manhã. Gestantes em jejum ficaram sofrendo para serem atendidas por um consultório médico e os capitalistas donos manipulavam as vítimas culpando os convênios delas. 

O que me tira do sério é que sempre que explico isso para alguém do universo que frequento e convivo, até pessoas próximas, a primeira coisa que as pessoas dizem é que já ouviram médica tal ou médico tal dizerem que a Cassi paga mal, que a Cassi isso, que a Cassi aquilo... que saco isso! Os capitalistas mentem e as vítimas ficam do lado deles!

Mesmo eu dizendo que não é verdade, que a Cassi não paga mal os convênios (capitalistas prestadores) e que os capitalistas chamados de médicos e profissionais de saúde fazem um monte de procedimentos desnecessários, inclusive cirurgias de alto risco e caras sem necessidade, as vítimas (pacientes) seguem defendendo os capitalistas-médicos e não o nosso plano de saúde que não visa lucro, não é ou não deveria ser "empresa" como pensa a administração atual, mas enfim, mesmo as pessoas próximas a mim e conhecidas e da comunidade Banco do Brasil preferem acreditar sempre no capitalista que vende procedimentos de saúde, mesmo os desnecessários. 

Viva o capitalismo! Parabéns aos capitalistas! O mundo é de vocês! Os detentores do saber de algumas profissões, em geral reservadas à casa-grande e seus herdeiros, se aproveitam do saber da medicina, engenharia, do meio jurídico etc para fazerem de trouxas a grande massa dos 99%. E la nave va...

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Osasco, 16 de fevereiro. Quarta-feira. 2022. 23h43.

O instante público mostrado pela grande imprensa e pelas mídias sociais é a tragédia em Petrópolis. Forte chuva causou uma centena de mortes e desaparecidos. Dezenas de casas vieram abaixo com os deslizamentos. Milhares de pessoas tiveram suas vidas atingidas pela tragédia. Antes de Petrópolis (RJ), as chuvas castigaram nas últimas semanas as pessoas na Bahia, em Minas Gerais e São Paulo. Vidas perdidas por causa do capitalismo e dos capitalistas. As causas das mortes e da miséria daquela gente não foram naturais. O que as tornam naturais é a ideologia do capitalismo.

A grande imprensa não pautou a morte do garoto de nove anos assassinado por capangas por ser filho de um líder rural. O garoto foi executado a tiros enquanto se escondia embaixo da cama. As causas da morte foram o capitalismo e os capitalistas.

A pandemia de Covid-19 voltou a matar mil pessoas por dia no Brasil do bolsonarismo. Mas por falta de opção contra Lula, a imprensa grande manipula a pauta e direciona o povo brasileiro para outras pautas, outras causas e consequências. Bolsonaro e bolsonários e as mortes por Covid-19 no Brasil são causas e consequências do capitalismo e dos capitalistas.

A imprensa empresarial faz o povo de imbecil porque pode fazer isso. Não há ninguém nem força ou grupo político que impeça essa ditadura da imprensa da casa-grande e há técnicas para manipular o povo e o povo ainda ficar de amores com os manipuladores. Nossos conhecidos adoram os manipuladores e manipuladoras que apresentam a pauta que manipula. Difícil...

As pessoas estão nas ruas, sem moradia. Estão famintas. Tem muita comida por aí. Tem muita moradia desabitada para especular. Moradia e alimento no capitalismo não são moradia e alimento, são mercadorias. É o capitalismo e os capitalistas. E a ideologia deles nos meios de comunicação.

Que difícil!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Retrospectiva cultural 2021



Refeição Cultural

O ano de 2021 foi um ano de muita leitura para mim, felizmente. Li clássicos que há muito queria ler. Li muita poesia, inclusive conhecendo autores e poemas novos.

GÊNEROS DISCURSIVOS - No início do ano, imaginei que poderia escrever textos de ficção - contos -, cheguei a fazer três narrativas curtas em janeiro, mas depois não fiz mais. Meu perfil é mais para outros gêneros discursivos. 

Escrevi memórias, diários, textos políticos argumentativos e reflexivos, críticas literárias. Fiz 275 postagens neste blog de cultura. Acabei a revisão e impressão agora. Alguns textos são registros muito interessantes de leitura, de política e de vida.

ADEUS MARATONA E KUNG FU - Em relação às atividades humanas ligadas a esporte e saúde, comecei o ano acreditando que poderia continuar sonhando com algumas possibilidades de esportes como retomar o Kung Fu que interrompi no início da pandemia e treinar para correr a tão sonhada maratona (42K). Infelizmente, avalio que minha condição de saúde interrompeu para sempre esses objetivos. Meu quadril com desgaste não parece que vá melhorar e sim piorar a cada dia. Que triste isso!

BACHAREL EM LETRAS - Depois de uma vida estudantil dentro de nossa querida Universidade de São Paulo, na mais querida ainda Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), que comecei a frequentar como aluno em 2001, concluí os créditos que faltavam e me formei bacharel em Letras, com habilitações em Português e Espanhol. 

Após cursar as últimas disciplinas em 2010, não colei grau na época. Ao pedir o diploma anos depois, descobri que houve uma divergência nos créditos totais e foi preciso voltar à graduação em 2019. Frequentei a USP nos últimos dois anos e foram momentos de muito prazer por gostar tanto daquele espaço de vida e cultura, mesmo tendo finalizado as disciplinas através de aulas virtuais por causa da pandemia mundial.

Agora sou bacharel em Letras e Ciências Contábeis. Não sou especialista em nada. Sigo desejando ser um homem cultivado (conceito de Mircea Eliade). Se for possível, gostaria de ser menos ignorante e um pouco mais sábio. E sabedoria não é uma aquisição fácil, não se adquire só com erudição. Sei de minhas limitações. Enquanto viver, prometo a mim mesmo estudar e aprender o que for possível.

SOBREVIVENDO AO COVID-19 E ÀS OUTRAS MORTES SEVERINAS - Mortes pelo coronavírus saltaram de 200 mil no início do ano para mais de 600 mil no final de 2021. Os meses de março e abril foram os meses que mais se morreram pessoas no Brasil em sua história. Mortes diversas, mortes severinas.

Até meados do ano passado a incerteza sobre termos vacina para todos ou não era uma realidade. O regime genocida não queria que o povo brasileiro se vacinasse. A CPI mostrou que agentes do governo recusavam ofertas de vacinas das empresas produtoras para negociarem propinas através de outros fornecedores. Enquanto isso, nossos conhecidos morriam por consequências do Covid-19. 

Felizmente, sobrevivi nesses dois anos de pandemia mundial do coronavírus, eu e meus familiares mais próximos. Pelas condições, posso dizer que sou um privilegiado por estar vivo. Milhares de mortos também seguiam as recomendações da ciência, mas suas condições os expuseram a mais riscos (a necessidade de sobreviver como classe trabalhadora). A imensa maioria dos mortos é o povo da base da pirâmide social brasileira.

O SUSTO: no fim do ano, ao investigar uma pinta ou mancha na cabeça que cresceu e ficou esquisita, os profissionais da saúde decidiram meter a faca e arrancar aquilo. Arrancaram um pedacinho de mim quase do tamanho de um artelho de dedinho da mão. Semanas depois, os exames apontaram aquilo como carcinoma basocelular (câncer de pele!). Caraca! Não falo que sou um privilegiado! Por acaso minha condição permitiu descobrir aquilo. Parece que não ficaram resquícios dessa merda. Ufa!

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LEITURA DE LIVROS (57 OBRAS)

Janeiro

Completei a leitura de 3 livros. Para ler a postagem a respeito da leitura é só clicar na palavra "comentário" na frente de cada livro:

1 - Poemas 1913-1956 - Bertolt Brecht, 1986 (comentário)

2 - Las armas secretas - Julio Cortázar, 1959 (comentário)

3 - Aquele mundo de Vasabarros - José J. Veiga, 1982 (comentário)

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Fevereiro

Reli clássicos e terminei leituras começadas fazia tempo. A releitura de Mario Puzo foi para assistir aos 3 filmes dirigidos por Coppola e com roteiros de Puzo. Também assisti a uma versão do clássico de Kafka, O processo. O filme que vi foi dirigido por Orson Welles e estrelado por Anthony Perkins. Finalmente me empenhei e li o clássico de Flaubert, foram vinte anos de procrastinação. Dias atrás, assisti a uma versão cinematográfica do clássico de Flaubert (Direção de Claude Chabrol, com Isabelle Huppert, 1991):

4 - O processo - Franz Kafka, 1925 (comentário)

5 - Madame Bovary - Gustave Flaubert, 1856 (comentário)

6 - O chefão - Mario Puzo, 1969 (comentário)

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Março

Comecei a ler o grande clássico de Melville, Moby Dick. Li 3 livros de grande impacto psicológico pela qualidade de seus autores, livros pequenos no volume e grandes na mensagem - Conceição Evaristo, Saint-Exupéry e Plínio Marcos. No fim do mês, comecei a releitura de Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda.

7 - Becos da memória - Conceição Evaristo, 2006 (comentário)

8 - O pequeno príncipe - Saint-Exupéry, 1943 (comentário)

9 - Querô (uma reportagem maldita) - Plínio Marcos, 1976 (comentário)

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Abril

Fiz a releitura de diversos clássicos do modernismo brasileiro. Iniciei a leitura do livro do professor, cientista e neurologista Miguel Nicolelis, livro que mudaria minha visão de mundo. Comecei também a leitura da Odisseia de Homero, em versos, na excepcional tradução (ou transcriação) de Odorico Mendes. E... terminei a leitura de Moby Dick!

10 - Raízes do Brasil - Sérgio B. de Holanda, 1936 (comentário)

11 - Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade, 1924 (comentário)

12 - Pau-Brasil - Oswald de Andrade, 1924 (comentário)

13 - Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade, 1933 (comentário)

14 - Pauliceia Desvairada - Mário de Andrade, 1922 (comentário)

15 - Losango Cáqui - Mário de Andrade, 1926 (comentário)

16 - Libertinagem - Manuel Bandeira, 1930 (comentário)

17 - Moby Dick - Herman Melville, 1851 (comentário)

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Maio

Comecei a releitura de Ulysses, de James Joyce. Por estar lendo Ulysses e a Odisseia, de Homero, li vários clássicos da antiguidade.

18 - Cenas de Nova York & outras viagens - Jack Kerouac, edição de 2012 (comentário)

19 - Édipo Rei - Sófocles, 430 a.C. (comentário)

20 - A obra-prima ignorada e Um episódio durante o terror - Honoré de Balzac, séc. XIX (comentário)

21 - O conto da ilha desconhecida - José Saramago, 1998 (comentário)

22 - Antígona - Sófocles, 444 a.C. (comentário)

23 - Prometeu Acorrentado - Ésquilo, séc. V a.C. (comentário)

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Junho

As leituras de junho incluíram o bardo Shakespeare (releituras) e terminei a autobiografia do líder sul-africano Nelson Mandela. A leitura de Mandela pautou boa parte dos textos de diário e reflexões que fiz no mês. 

24 - Romeu e Julieta - William Shakespeare, 1594 (comentário)

25 - Hamleto - William Shakespeare, 1600 (comentário)

26 - Longa caminhada até a liberdade - Nelson Mandela, 2012 (comentário)

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Julho

O mês foi de leituras políticas interessantes: Florestan Fernandes, Lula, e uma excelente biografia sobre Trótski, feita por um poeta, Leminski. Foi neste mês que terminei a leitura da Odisseia de Homero na tradução de Odorico Mendes. Foi um feito para mim!

27 - O verdadeiro criador de tudo - como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos - Miguel Nicolelis, 2020 (comentário)

28 - Florestan Fernandes - vida e obra - Laurez Cerqueira, 2004 (comentário)

29 - Odisseia - Homero, século VIII a.C. (comentário)

30 - O caminho da vitória - Jesus Carlos et al., 2003 (comentário)

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Agosto

Neste mês li contos de Machado de Assis e segui com as leituras que já vinha fazendo nos meses anteriores. Comecei a reler Brás Cubas. Preenchi lacunas culturais também, desta vez com o poeta Castro Alves.

31 - Distraídos venceremos - Paulo Leminski, 1987 (comentário)

32 - Retrato do artista quando jovem - James Joyce, 1916 (comentário)

33 - Trótski - A paixão segundo a revolução - Paulo Leminski, 1986 (comentário)

34 - Espumas flutuantes - Castro Alves, 1870 (comentário)

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Setembro

O mês foi de muita leitura de Machado de Assis. Estava relendo Memórias póstumas de Brás Cubas e contos diversos.

35 - Tajá e sua gente - José J. Veiga, 1986 (comentário)

36 - Superman: entre a foice e o martelo - Mark Millar, 2003 (comentário)

37 - Ulysses - James Joyce, 1922 (comentário)

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Outubro

Neste mês, preenchi lacunas culturais muito antigas. Li os romances clássicos sobre as jovens Alice e Dorothy, a garota inglesa e a garota americana, dois ícones da cultura de seus países. Reli um best sellers de minha adolescência, um clássico de terror. Li um livro autobiográfico de um colega do BB.

38 - Câncer, eu? - Riede, 2020 (comentário)

39 - Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll, 1865 (comentário)

40 - Através do espelho e o que Alice encontrou por lá - Lewis Carroll, 1871 (comentário)

41 - O mágico de Oz - L. Frank Baum, 1900 (comentário)

42 - Horror em Amityville - Jay Anson, 1977 (comentário)

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Novembro

Tirei o mês para ler poesia. Reli os dois primeiros livros de Cecília Meireles (lidos em 2019), e depois fui lendo os livros da poeta que não conhecia ainda. Ao todo, li 7 obras dela. Reli Drummond. E li mais um livro de terror. Acabei a releitura de Brás Cubas.

43 - Espectros - Cecília Meireles, 1919 (comentário)

44 - Nunca mais... e Poema dos poemas - Cecília Meireles, 1923 (comentário)

45 - Baladas para El-Rei - Cecília Meireles, 1925 (comentário)

46 - Alguma poesia - Carlos Drummond de Andrade, 1930 (comentário)

47 - Cânticos - Cecília Meireles, 1927 (comentário)

48 - 666 O limiar do inferno - Jay Anson, 1981 (comentário)

49 - Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis, 1881 (comentário)

50 - A festa das letras - Cecília Meireles, 1937 (comentário)

51 - Brejo das Almas - Carlos Drummond de Andrade, 1934 (comentário)

52 - Morena, pena de amor - Cecília Meireles, 1939 (comentário)

53 - Sentimento do mundo - Carlos Drummond de Andrade, 1940 (comentário)

54 - Viagem - Cecília Meireles, 1939 (comentário)

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Dezembro

Pra não dizer que não registrei nada sobre esse último mês do ano de 2021, registro que vivi meu último inferno astral sindical. A direção do movimento da minha base política aprontou mais uma comigo. Como deve ser, a vida seguiu. E Drummond me deu a receita da superação mais uma vez...

55 - José - Carlos Drummond de Andrade, 1942 (comentário)

56 - As aventuras de Robinson Crusoé - Daniel Defoe, 1719 (comentário)

57 - A rosa do povo - Carlos Drummond de Andrade, 1945 (comentário)

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THE END (POR ENQUANTO)

Fim desta retrospectiva. Sobrevivi. Li. Vivi. Seguimos!

Não vou ler assim em 2022. Tenho que fazer coisas para as quais procrastinei por anos. Parece que estou me mudando há anos. Anos! Preciso acabar algumas coisas. As leituras de fôlego ficam para o caso de sobrevivermos a mais este ano. Preciso virar algumas páginas... do livro da vida.

William


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

090222 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 9 de fevereiro de 2022. Quarta-feira.


Após ler 4 livros em janeiro, decidi dar um tempo com leituras de romances e clássicos da literatura mundial. Tenho coisas a resolver que vêm sendo adiadas por uma certa comodidade e por opção de focar algo que dê prazer pessoal como a leitura. Acho que vou ter saudades de uma boa leitura por prazer.

Estou trabalhando a revisão e impressão de meus textos produzidos neste blog ano passado. São 275 postagens. A releitura me permite fazer uma retrospectiva cultural e uma avaliação pessoal. A revisão está dando muito trabalho, boa parte das postagens são reflexões e comentários sobre a leitura de mais de 50 livros e sobre a vida. Faltam ainda ler e imprimir umas 70 postagens, os últimos 3 meses e meio do ano de 2021.

Outra empreitada que precisa ser feita definitivamente neste momento de minha vida é a avaliação de milhares de papéis, documentos, revistas, livros etc, acumulados ao longo de décadas como adulto que adquiria materiais com a intenção de estudar e melhorar os conhecimentos gerais sobre o mundo e a existência. 

São coisas muito interessantes, mesmo as mais antigas. No entanto, eu sou outro, o momento é outro, o mundo é outro. Até para jogar fora ou doar alguma coisa é necessário o escrutínio de tudo aquilo. Foda! Eu quis ser poliglota, quis ser erudito, quis ser professor. Acabei sendo o que fui, um bancário, um sindicalista, um representante da classe trabalhadora. Um eterno estudante. E agora estou fora daquele mundo e boa parte daqueles materiais perderam o sentido para mim. 

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Singer e a tese do lulismo.

LULISMO EM 2010... LULISMO EM 2022. BINGO!!!

Li uma entrevista da BBC Brasil com o jornalista e cientista político André Singer, de 19/2/2010, muito interessante.

Na época, eu tinha interesse no tema como uma liderança da categoria bancária. Cheguei a ler o longo artigo de Singer sobre sua tese do lulismo. Vi muito sentido na teoria. Ainda hoje vejo sentido.

Os eleitores de Lula mudaram entre a eleição de 2002 e 2006. Os eleitores de Dilma e do PT em 2010 também já tinham características diferentes. 

Ao ler o artigo hoje, 12 anos depois, pude ver muita coerência com o Brasil que temos. Uma parte dos eleitores de Lula não é nem de esquerda, nem de direita. São pobres e remediados conservadores nos costumes, não gostam de "baderna" nem agitação, não são militantes de lutas sociais. Só querem as coisas que todos deveriam ter e um Estado que ajude as pessoas a terem esses bens de consumo.

Dá uma dó danada jogar o texto fora. Mas eu tenho zilhões de textos assim, papéis, papéis. E agora já é uma leitura só para mim, não sou representante de nada, não sou influenciador de ninguém. Nem as pessoas próximas a mim querem opinião de alguma coisa. A opinião da gente não serve mais, nem nas merdas de bolhas nas quais vivíamos na última década de algoritmos.

Mas valeu a leitura. Singer demonstra muita perspicácia em suas teorias e leituras de mundo.

No verso do texto encontrei um rascunho meu de uma palestra para bancári@s falando sobre o papel dos delegados sindicais. Contei a origem da organização da categoria bancária desde os anos oitenta etc e tal. Eu fazia muito isso. 

Feito o registro.

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BRASIL DE NAZISTAS, RACISTAS, MILICIANOS E TORTURADORES

Opinião

Sei que é inútil comentar alguma coisa sobre os fatos diários dos absurdos que passamos a viver desde o golpe de Estado em 2016. Bolsonaro está no poder porque ele foi colocado lá pela casa-grande brasileira. Ele foi colocado lá pela imprensa golpista e seus empresários. 

O golpe contra a democracia, contra o povo, contra o Brasil foi um conluio que envolveu os donos do poder: os caras que usam talheres à mesa (não são bolsonários na etiqueta) e estão nas instituições do Estado nacional. Temer e o clã Bolsonaro e toda a alcateia eleita em 2018 são frutos desse processo conduzido pela casa-grande.

O rapaz YouTuber e o deputado que fizeram apologia ao nazismo e defenderam o direito de haver um partido nazista no Brasil (Monark e o Kataguiri) são produtos do processo de destruição da política conduzido pela casa-grande brasileira. Dois anos atrás, um apresentador do SBT (Marcão do povo, em 8/4/20) defendeu que o presidente fizesse campos de concentração para os doentes por Covid-19. Falou isso no ar.

Mas o marco, o divisor de águas, da mudança do Brasil mais justo que vínhamos construindo para essa desgraça na qual estamos, ocorreu no dia da votação no Congresso Nacional do afastamento da presidenta Dilma Rousseff (17 de abril de 2016), afastada sem crime algum, mesmo tendo sido eleita com 54,5 milhões de votos. 

Dilma, mulher, mãe, cidadã brasileira, foi torturada na ditadura brasileira de 1964-85. Os depoimentos na Comissão da Verdade revelaram horrores vividos pelas vítimas de tortura. Pancadas, afogamentos, choques, estupros, atos inimagináveis feitos algumas vezes com os filhos das vítimas vendo aquilo. Ratos colocados nos órgãos genitais das mulheres. Os torturadores eram "o pavor" das vítimas. Dilma sobreviveu às torturas.

Naquele dia da votação do afastamento de Dilma, o então deputado Jair Bolsonaro pegou o microfone da Câmara Federal, em rede nacional, e disse estar votando em homenagem ao torturador Ustra, "o pavor de Dilma Rousseff". Apesar de ser inacreditável, aquele homem fez isso.

Esse criminoso não saiu preso, não foi processado, não foi excluído da vida política e pública do país. Pelo contrário, seguiu cometendo crimes como esse e por conluio de todas as instituições do Estado chegou à presidência em 2018, num processo político viciado e cheio de fraudes e ilegalidades como as fake news

Aqui estamos em fevereiro de 2022. Brasil destruído pelo golpe de 2016, depois daquela excrescência lesa-pátria da Lava Jato, depois das "eleições" de 2018; 633 mil mortos por Covid depois, cá estamos nesta situação que estamos...

Chega por hoje.

(só pra lembrar: são "ficha limpa" os bolsonaros, o Queiroz, o Moro e mais dezenas de gente dessa laia)

William


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Lembranças - Capítulo 6



2007

Ao manusear as pilhas de papéis e documentos guardados, peguei para folhear uma das diversas agendas que tenho. 

Na época, era diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, era representante da Fetec-CUT SP na Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil e também era secretário de imprensa da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, a nossa Contraf-CUT. Para completar, era estudante de Letras na Universidade de São Paulo.

Ao ver as anotações diárias na agenda, vi o quanto eu me esforçava para conseguir ler um pouco de literatura e cultura em geral, mesmo tendo uma rotina sindical que me tomava completamente a agenda de vida.

Me inscrevi em 6 disciplinas no 1º semestre da faculdade. Era sempre complicado conjugar a agenda sindical com os estudos de graduação em Letras. Felizmente, fui aprovado em todas as matérias naquele semestre.

FLC0285 - Teorias do Texto Escrito I - Fatores de Textualidade (8,3)

FLM0267 - Escrita e Argumentação em Língua Espanhola (6,0)

FLM0269 - Tópicos Contrastivos Acerca do Funcionamento da Língua Espanhola e do Português Brasileiro I (7,5)

FLM0273 - Literatura Espanhola do Século XVII (8,0)

FLM0277 - Literatura Hispano-americana: Romantismo, Modernismo e Vanguardas (8,3)

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JANEIRO DE 2007

Estive em férias a maior parte do mês. Viajei com meu filho de 10 anos para Uberlândia (MG) e deixei ele com os avós e primos e fui para Barra do Garças (MT) visitar tios e primos. Estava lendo vários livros ao mesmo tempo naquele mês: Thomas Mann, Tolstói, Dostoiévski, Cervantes. 

Através dos registros, me lembrei que o tio Zé teve um infarto e foi operado em SP: deu tudo certo. Meu pai também estava com problemas de pressão alta lá em MG, foi parar no hospital.

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PENSAMENTOS

Reflexões após ler Fernando Pessoa (Alberto Caieiro):

"Hoje, apenas seguia as instruções de Caieiro e observava ao redor... (praça de alimentação na Sta. Cruz):
- Deus! (Deus?)
- Não gostei do que vi!
Como dialogar com aquela massa?
Beleza... feiura... (tão subjetivo!)
Tribos, grupos... gente estranha!
Será que dá pra dialogar?
"

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Outra reflexão: avalio por que abandonei a música no meu dia a dia:

"A música...
Acho que compreendo por que me apartei dela: nada remexe mais meus instintos de liberdade; nada cutuca tão fundo nas possibilidades. Todas elas amainadas na opção feita do contrato social. Nem os livros fuçam tanto nesse íntimo...
"

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Reflexão sobre saber e não saber:

"Sei muito.
Sei nada.
Sei muito de algumas coisinhas.
Sei nada de quase tudo.

É assim com a gente moderna;
é assim com os técnicos:
de tudo... não são quase nada! (Wmofox)
"

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Durante os dias em Barra do Garças, estive na fazenda com o tio Léo. Matei a saudade de subir ao Cristo e ficar lá em cima ouvindo o silêncio da cidade lá embaixo, no Vale do Araguaia, vendo o rio que separa Aragarças (GO) de Barra do Garças (MT). O topo da Serra: antigamente, era uma subida sobre pedras, cascalhos e mato. Fizeram uma escadaria: 1220 degraus...

Na agenda sindical, havia ido ao Rio de Janeiro para tratar de questões relativas à Previ. Também havíamos feito um dia nacional de lutas por questões da Cassi. Dia desses, fiz uma postagem de Memórias no blog A Categoria Bancária sobre esse período. Ler aqui.

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FEVEREIRO DE 2007

CITAÇÕES

"- Señor, una golondrina sola no hace verano..." (CERVANTES, Don Quijote de La Mancha, 1605)

"Porque eu sou do tamanho do que vejo
e não do tamanho da minha altura...
" (PESSOA, Fernando [Alberto Caieiro], O Guardador de Rebanhos, VII)


Essas duas citações na agenda nos lembram bem o que somos e como podemos ser mais fortes, quando unidos nas lutas de classe. 

Sindicalizações: nesse ano de 2007 tive o privilégio de priorizar a ida às posses de funcionários novos do Banco do Brasil, para apresentar o Sindicato e nossa história de lutas. Só na primeira segunda-feira do mês, eu sindicalizei 16 colegas novos.

O viés sindical do mês de fevereiro pode ser lido aqui numa postagem de Memórias que fiz recentemente.

Pelas anotações na agenda, percebe-se que eu corria e caminhava com muita frequência; vi vários filmes no mês; estava lendo livros de peso como Don Quijote de La Mancha e A montanha mágica.

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MARÇO DE 2007

A agenda tem anotações com os detalhes sobre as negociações sindicais entre nós e a direção do Banco do Brasil sobre a PLR dos funcionários. Fiz um texto de Memórias relatando as lutas sindicais desse mês. A direção do banco impôs uma proposta de PLR com prática antissindical em relação aos colegas que participaram da greve de 2006: ler aqui.

Morte na família - A anotação triste do mês foi no dia 20, dia no qual fizemos a assembleia de avaliação da proposta de PLR do BB em nossa base sindical. Meu primo Cleiber, de Barra do Garças (MT), sofreu um acidente grave de moto. Eu havia estado com ele e família semanas antes, nas minhas férias. Meu primo faleceu em maio e eu estive no velório e enterro, ao lado de meus tios e primos.

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ABRIL DE 2007

CITAÇÃO

"- Con todo eso, te hago saber, hermano Panza, que no hay memoria a quien el tiempo no acabe, ni dolor que muerte no le consuma." (CERVANTES, Don Quijote de La Mancha)


Em termos sindicais, abril foi um mês de grandes debates políticos e organizativos na corrente política à qual eu militava - a Articulação Sindical -, foi mês de seminários e encontros que definiram estratégias para o movimento sindical bancário.

Eu tinha propostas de atividades sindicais contra o Banco do Brasil, mas as lideranças de outras bases sindicais e até companheiros de São Paulo avaliaram que não havia condições no momento de realizar boas atividades.

Como secretário de imprensa da Confederação, eu também estava envolvido com questões e pautas afeitas à secretaria. Fiz um texto de Memórias que abrange esse período. Ler aqui.

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MAIO DE 2007

CITAÇÃO

"O futuro é um carro sem motorista em alta velocidade. Você tem que ser o motorista. Você tem de planejar. Tem de decidir a direção a tomar. Quer que as decisões sejam tomadas pelos outros? Não seja apenas um passageiro." (Milo O. Frank)


Meus registros na agenda mostram que fizemos atividades sindicais por conta de questões do BB relativas à reestruturação do banco que afetavam a vida dos trabalhadores. Estive em Brasília por causa de audiência pública no Congresso Nacional. Também ocorreram atividades sindicais sobre a Emenda 3. 

Eu me ausentei alguns dias por causa do falecimento de meu primo que morava no Mato Grosso.

No final do mês voltei a Brasília para um encontro nacional dos funcionários do Banco do Brasil por conta da reestruturação.

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JUNHO DE 2007

Pelas anotações, vejo que o mês foi de lutas no BB por isonomia de direitos em relação aos funcionários antigos e aos pós 1998. Fiz dois artigos de contribuição sobre a campanha nacional dos bancários. Não estava tendo aulas na FFLCH-USP porque estávamos em greve (que acabou na assembleia de 25/6).

Luiz Gushiken - Que legal a lembrança! Que saudades! Tivemos reunião dia 18/6 no Auditório Azul do Sindicato no Edifício Martinelli com nosso Samurai, o companheiro Gushiken.

Casa própria - Outro momento memorável na vida deste trabalhador foi a anotação do dia 28/6: peguei a escritura do meu apartamento de cooperativa. Ufa! A casa própria! Paguei o ap. desde 1997. Até a moto que tinha foi vendida para comprar minha moradia.

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JULHO DE 2007

A agenda sindical era intensa no período. Nas pautas de lutas, questões relativas à reforma estatutária da Cassi, Emenda 3 contra a classe trabalhadora, plano de cargos e salários no BB, isonomia de direitos, questões da CABB, dentre outras. 

Estávamos num debate intenso sobre formas de contratação de remuneração variável na categoria bancária. Eu era contrário à proposta formulada internamente pela nossa corrente política. Puxei um longo debate na corrente e no meio sindical. Fui vencido, mas fizemos o bom combate de ideias.

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AGOSTO DE 2007

Mês de correria para nós. Além da questão da campanha dos bancários com reuniões do Sindicato, da Contraf-CUT e do Comando Nacional, eu era o responsável pela comunicação da confederação e ainda fazia reuniões com os bancários nas dependências do BB em São Paulo (OLT).

Sede nova da Contraf-CUT - No dia 24/8 foi a inauguração da sede nova da nossa confederação na Líbero Badaró, 158. Sede própria. Fiz parte dessa história! Legal!

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SETEMBRO A DEZEMBRO DE 2007

A agenda tem mais algumas anotações em setembro, reuniões políticas de campanha salarial, plenárias com bancários e dias de lutas, e depois não tem mais anotações. Parei de anotar diariamente na agenda. Acho que já começava a usar mais o blog sindical A Categoria Bancária, além de estar com agenda pesada para fazer diversas matérias na USP.

No dia 15/9, um sábado, tivemos um "encontrão", uma plenária entre a diretoria do Sindicato e uma grande quantidade de bancárias e bancários mais próximos ao dia a dia da entidade sindical e que nos ajudavam a tomar decisões sobre as estratégias e as negociações com os bancos. Eram centenas de trabalhadores cadastrados e contatados naquilo que chamamos Organização por Local de Trabalho (OLT).

A campanha dos bancários terminou em 2007 sem uma greve prolongada como em anos anteriores, foram utilizadas outras estratégias de mobilização como dias de luta, passeatas etc. No dia 28/9, por exemplo, tivemos um dia de paralisação nacional. 

Os acordos com Fenaban, BB e Caixa e outros bancos federais foram aprovados ao longo da primeira semana de outubro. Algumas bases sindicais não aprovaram todas as propostas inicialmente e só depois os acordos foram sendo fechados e assinados. Em São Paulo, por exemplo, a proposta da Caixa Federal só foi aprovada em assembleia no dia 9/10.

Em relação à dimensão sindical de minha vida no ano de 2007, fiz uma série de textos chamados Memórias no blog A Categoria Bancária, acesso ao blog aqui. Lá eu me baseei em minhas postagens e agendas sindicais do próprio blog e as Memórias estão bem mais completas. 

Aqui minhas lembranças foram mais baseadas naquilo que estava anotado em uma agenda da época. São instantes de vida e militância. 

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UM ESTUDANTE INSISTENTE

Termino essas lembranças do ano de 2007 com o registro de meu esforço no 2º semestre para avançar nas disciplinas da graduação de Letras em nossa querida Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo.

Eu sonhei em ser professor. Primeiro entrei em uma faculdade de Educação Física nos anos noventa e tive que interromper a graduação no meio do curso porque não tinha mais como pagar as mensalidades. Foi uma das maiores frustrações de minha vida.

Depois entrei na Faculdade de Letras da USP em 2001 com o mesmo intuito de ser professor. A vida se desenvolveu de outra forma. Entrei na direção do Sindicato no ano seguinte à minha aprovação no difícil vestibular da Fuvest. É evidente que minha ética me obrigou a priorizar a representação dos trabalhadores ao invés de meu curso de Letras. Todo segundo semestre eu largava por causa da campanha salarial dos bancários. 

Sabem quando foi que concluí o curso e peguei meu diploma? Faz poucos meses. Colei grau em Português e Espanhol em 2021.


Enfim, como diz um refrão da música da banda Aerosmith, na bela canção Amazing:

"Life's a journey not a destination

and I just can't tell just what tomorrow brings"


No 2º semestre de 2007 me inscrevi em 6 disciplinas e felizmente consegui aprovação em todas elas. Foi um feito modesto, mas foi um feito para mim, sendo diretor do Sindicato, representante de SP na Comissão de Empresa dos Funcionários do BB e secretário de imprensa da Contraf-CUT. 

Fui um estudante insistente!

FLC0286 - Teorias do Texto Escrito II - Argumentação e Discurso (8,5)

FLC0301 - Literatura Brasileira IV (8,0)

FLM0268 - Variedade e Alteridade na Língua Espanhola (9,4)

FLM0270 - Tópicos Contrastivos Acerca do Funcionamento da Língua Espanhola e do Português Brasileiro II (7,7)

FLM0274 - Literatura Espanhola Contemporânea (9,0)

FLM0278 - Literatura Hispano-americana Contemporânea (8,5)

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Fim de mais uma lembrança. A vida é uma jornada, não um destino.

William


Post Scriptum:

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Capítulo 2, ler aqui.

Capítulo 3, ler aqui.

Capítulo 4, ler aqui.

Capítulo 5, ler aqui.