sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (11)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Estamos em período eleitoral no país, em agosto de 2026. O momento é propício para estudarmos um pouco de história do Brasil. 

O companheiro Zé Dirceu viveu intensamente a história política do país nas últimas seis décadas. 

Suas memórias contam aos leitores os bastidores de momentos decisivos da vida de todos nós, membros da classe trabalhadora. 

Vamos para mais um capítulo. 

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22. TEMPOS DIFÍCEIS 

Aliança com Brizola afasta o companheiro Vladimir Palmeira, enquanto o governo FHC começa a derreter

No primeiro mandato, FHC foi um trator em relação a nós da classe trabalhadora. 

Além das questões citadas pelo autor das memórias, incluo a reestruturação do Banco do Brasil, um massacre com dezenas de suicídios e 50 mil trabalhadores na rua.

"(...) A repressão à greve dos petroleiros, o apoio da mídia e a maioria no Congresso propiciaram a FHC uma hegemonia..." (p. 292)

O ano de 1996 ficou marcado pelo Massacre de Carajás, no Pará. A chacina vitimou 19 trabalhadores sem terra. Tanto o governo do estado quanto o federal eram comandados pelo PSDB.

Zé Dirceu aborda o desgaste que ele e a Articulação sofreram ao apoiarem a parceria com Brizola nas eleições do RJ em 1998, indicando Benedita da Silva a vice de Garotinho, do PDT. O diretório do PT no estado queria candidatura própria com Vladimir Palmeira.

Sobre a derrota de Lula para FHC, no primeiro turno, cita o tal "Dossiê Cayman":

"Perdemos as eleições, mas não a dignidade. Lula, Márcio Thomaz Bastos e eu nos recusamos a veicular o chamado 'Dossiê Cayman', um conjunto de documentos comprovadamente falsos criado com o objetivo de atribuir crimes inexistentes a políticos e candidatos do PSDB, nas eleições brasileiras de 1998..." (p. 299)

Comentário: obrigado, PT! Não podemos ser como os outros. 

O PT precisava mudar, diz Zé Dirceu, em relação às 3 derrotas seguidas à Presidência da República.

"Nunca tive ilusões com 1998. O ciclo de FHC não acabara e a hegemonia política e cultural das ideias neoliberais persistia. Após as derrotas de 1989, 1994 e agora de 1998, era o PT que precisava mudar." (p. 300)

Na página 301, Zé Dirceu afirma que Marta Suplicy não foi ao 2° turno em SP em 1998 por manipulação da Rede Globo, favoreceu Covas e ele disputou com Maluf. 

Eu me lembro disso. Muitos petistas e simpatizantes pregaram voto útil em Covas, manipulados contra Marta. Covas foi ao 2° turno com 74.436 votos a mais que Marta (0,44%)

O capítulo termina com uma lista de crimes da era FHC, todos ficaram sem punição, não deram em nada...

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Comentário final 

Terminei a leitura do capítulo 22 após ver Lula ser desrespeitado por quarenta minutos na bancada do JN da Rede Globo, rede esgoto. A emissora está entrevistando candidatos à presidência do Brasil. 

O PT e o presidente Lula já sabem o que essa empresa de merda faz há quarenta anos e mesmo assim seguem frequentando os estúdios e concedendo entrevistas para essa instituição porta-voz do fascismo. 

Eu estou muito puto, com raiva desse comportamento do nosso partido. O PT deveria tratar as Organizações Globo pelo que são. Não deveria ter relação alguma com essa instituição mentirosa, manipuladora e que tanto mal já fez ao país e seu povo. 

Essa é minha opinião. 

William 

27/08/26

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (2)



Refeição Cultural

"Em Ribeirão Preto encontrou o que desejava: a fazenda Arindeúva, de José Bento Junqueira. Comprou-a e logo se instalou no novo lar com toda a família, oitenta escravos e trezentos contos em dinheiro, uma fortuna naquela época."


Seguindo no livro sobre Santos Dumont, vemos que seu pai era um grande cafeicultor de São Paulo, ele possuía 500 mil pés de café, nos conta o biógrafo Fernando Jorge.

O menino Alberto aos seis anos de idade tinha um pajem chamado Flávio Aurélio Costa e Silva, um rapaz negro filho de escravos do vizinho. 

Essa era a realidade do Brasil, é a nossa história...

Júlio Verne

O garoto Alberto Santos Dumont era fascinado pelos livros de ficção científica do escritor Júlio Verne.

"(...) tinha no fascinante Júlio Verne o seu autor favorito, em cujas concepções arrojadas ele enxergava, sem alimentar a menor dúvida, 'a mecânica e a ciência do porvir', quando o homem, apenas guiado pelo seu gênio, haveria de se transformar num 'semideus'..."

Comentário: de Júlio Verne, eu só li "A volta ao mundo em 80 dias". Tenho vários livros dele em casa, ainda por serem lidos.

Um livro de Júlio Verne chamava muito a atenção do menino Alberto: "Robur, o conquistador", no qual o aparelho "Albatroz" voava pelos céus feito um navio dos ares.

Um invento da época revolucionou as brincadeiras de crianças e os transportes dos adultos: a bicicleta.

"Só em 1879, quando Alberto contava seis anos de idade, é que surgiu a primeira bicicleta, mais ou menos como nós a conhecemos hoje..."

O garoto insistiu até que conseguisse ganhar sua bicicleta aqui no Brasil.

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Comentário final 

Talvez valha a pena perguntar ao meu pai se ele se lembra desse fascínio de Santos Dumont pelos romances de ficção científica de Júlio Verne. 

O menino transformaria em realidade o aparelho Albatroz, mais pesado que o ar, com hélices, voando pelos céus do mundo.

É isso. Sigamos lendo e atuando conscientemente na política para que realidades como as da família de Santos Dumont e da elite brasileira, a casa-grande, não voltem, com os ricos tendo dezenas e dezenas de escravos...

Por isso voto em partidos e pessoas progressistas e de esquerda e não reacionários e conservadores, que querem a miséria do povo e o privilégio dos ricos de volta como no passado da escravidão. 

Em SP, estou com Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Simone 400, Haddad 13 e Lula 13.

William 

27/08/26

William 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 26 de agosto de 2026.


Ao sentir minhas dores crônicas no quadril e coluna, penso no meu pai reclamando de dores décadas atrás. A pessoa sofre sozinha, a dor é uma coisa solitária. É da pessoa e de mais ninguém. 

Sou um homem de sorte. Em rápida reflexão, fazendo uns cálculos, olhando meu percurso, concluo isso. Estar vivo até aqui foi uma oportunidade que a natureza me deu. Não tem como deixar de reconhecer que poderia ter durado bem menos no mundo.

Avaliar os erros cometidos e as coisas positivas que fiz é uma das atividades cotidianas de minhas reflexões. Tentar aprender conhecimentos novos, melhorar como ser humano e fazer algo útil à coletividade e à natureza são desejos que tenho neste momento existencial. 

Ter sido representante de meus pares do mundo do trabalho foi uma oportunidade que me definiu como pessoa. O que faço hoje e a forma como vejo o mundo são consequências da experiência de ter sido dirigente sindical bancário. 

Como diz Rubem Alves em sua crônica "O nome", o meu nome hoje é o que o mundo espera de mim, mesmo estando num buraco qualquer do mundo. Mais que isso: é o que eu exijo de mim! O que já fui me definiu até o último de meus dias. 

E assim sigo diariamente a cada amanhecer. Não posso mais tudo que já pude ser e fazer. Somos natureza. Posso ser e fazer muitas coisas ainda. Estou fazendo. Vivo, contribuo com alguma coisinha na vida de algumas pessoas. 

Eu me sensibilizo com cada tragédia pessoal que ouço ou fico sabendo. Gostaria que as pessoas fossem felizes e sofressem menos. Por isso, inclusive, ainda me coloco ao lado das pessoas que lutam contra o capitalismo e a exploração das pessoas de minha classe social, a classe trabalhadora. 

É isso. Não escrevi sobre minhas leituras e sobre o filme que vi ontem, Odisseia, mas escrevi o que estou pensando e sentindo neste momento da vida e do mundo. 

ELEIÇÕES 

Em SP, voto Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Simone 400, Haddad 13 e Lula 13.

William 

22h52


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Muito lentamente, vou conhecer a história de Alberto Santos Dumont, o inventor do avião. 

O senhor Palmério, meu pai, leu nos anos setenta, a biografia dele, e até hoje o livro está na estante de meus pais. 

Meu pai e muita gente da geração dele eram inventores e "solucionadores" de problemas cotidianos naquele mundo sem as plataformas digitais (big techs) que fizeram da espécie humana reles baterias dessa Matrix emburrecedora de humanos. 

Ler é um ato revolucionário, uma tentativa de salvar o cérebro humano e nossa humanidade. 

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Capítulo 1 - O menino que gostava dos balões, das máquinas e dos pássaros 

Um leitor humanista do século XXI tem que lidar com os fatos históricos e com suas descrições a partir do acesso disponível sobre aquele assunto. Ao ler, cabe a ele filtrar as informações. 

Estou interessado na biografia do inventor brasileiro Alberto Santos Dumont. Meu interesse é por saber que meu pai, décadas atrás, leu a biografia e tinha interesse na história do inventor do avião. 

A forma como o biógrafo e escritor do livro, Fernando Jorge, narra essa história é uma escolha dele e não dos leitores. Temos que lidar com isso. 

Eu não gosto da forma como o autor descreve a escravidão naturalizando o ato indigno praticado por séculos como um mero fator de produção. É repugnante o que nossa espécie fez com os seus semelhantes. 

"(...) Alentados escravos africanos impulsionavam os lenhos à vara, contra a correnteza do rio, enquanto o próprio Henrique navegava sobre uma barcaça feita de canoas emparelhadas e travadas..." 

Henrique é o pai de Santos Dumont, um "empreendedor" do século XIX. Li no capítulo uma descrição épica de grandes homens brancos exploradores de minas de ouro e pedras preciosas, construtores de estradas de ferro, tudo à base de escravizados africanos, para chegar ao nascimento de Alberto Santos Dumont, o sexto filho de oito rebentos, em 20/07/1873.

COMENTÁRIO FINAL 

Essa é a origem do grande brasileiro que mudou a história da sociedade humana com seu maior invento, o avião. 

O mundo era assim: humanos escravizados usados como fatores de produção como bois, cavalos, burros etc.

O mundo pode ser de outra forma, ou pode voltar a ser assim (reacionários defendem a volta ao passado de privilégios de alguns humanos), com a escravidão sendo naturalizada... tudo depende de nós, percebem?

É sobre isso as eleições e a democracia...

William 

24/08/26

domingo, 23 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (10)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Enquanto leio o capítulo 21 das memórias do Zé Dirceu, reflito sobre a atualidade complexa do calendário eleitoral brasileiro em 2026.

O líder petista está nos contando os bastidores do partido nos anos noventa e quem viveu aquele período como cidadão politizado - letrado politicamente - vai relembrando o quão miserável é esse país da casa-grande e da elite canalha, mancomunada com a imprensa golpista e com um judiciário subserviente aos donos do poder e do dinheiro. 

Isso não muda! Não mudou! Não sei se mudará um dia, pois fazendo as coisas do mesmo jeito, os resultados não serão diferentes. 

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21. LULA TOMA AS RÉDEAS DO PT

A decisão de enfrentar FHC e os escândalos dos tucanos, colocados debaixo do tapete, com a ajuda da mídia 

Zé Dirceu nos conta como se deu o 10° Encontro do partido. Nos revela que Lula chamou ele para se colocar à disposição de ser presidente do PT. 

"Mas qual não foi minha surpresa ao encontrar um Lula decidido a tomar as rédeas da direção do PT. No primeiro momento, ele começou a se explicar ou mesmo a se 'desculpar' sobre a questão Covas e a falta total de apoio à minha campanha, diariamente 'sabotada' pelo entourage lulista (...) Susto maior tomei ao ouvir de Lula a proposta de me apoiar em uma candidatura à presidência do partido..." (p. 273)

Depois, lemos que a direção do PT, após o 10° Congresso, definiu claramente a orientação e os objetivos do partido: "transformar e consolidar o PT como instituição. Afirmar a vocação do partido para o poder, abri-lo para as alianças e para poder governar, assumir nossos governos e conquistar, ao governar, a adesão da maioria do eleitorado e da sociedade..." (p. 276)

Comentário: fica claro para as amigas e amigos leitores, sejam simpatizantes ou não ao PT, que desde essa época, 1995, o partido não é movimento nem frente, não existe só pra marcar posição, como muitos partidos de esquerda. O PT quer governar e entregar direitos à sociedade com a realidade que temos nas bases sociais, o PT compõe e faz alianças, se não fizer isso, não governa.

O capítulo é longo, são vinte páginas de história. Me lembrei de muitas passagens que Zé Dirceu conta no livro. Exemplos: compra de votos para a reeleição de FHC, as privatizações criminosas, o Caso da "Pasta cor-de-rosa", o Caso Sivam etc.

"Era a velha tática tucana - amplamente benéfica aos rentistas e ao capital externo - de juros altos, câmbio valorizado, inflação baixa, déficit público. Privatizações, importações, abertura comercial e financeira. Crescimento medíocre e aumento do desemprego." (p. 289)

Comentário: e antes que os leitores falem do compromisso do 3° governo Lula com a questão fiscal e teto de gastos, insinuando que o Lula seria a mesma coisa que liberais tipo FHC, basta lembrar que os tucanos tinham maiorias no Congresso, assim como os golpistas Temer e Bolsonaro. O PT nunca teve essa condição no parlamento.

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COMENTÁRIO FINAL 

Enfim, já estamos sofrendo interferência violenta nas eleições brasileiras de 2026. 

Além da mídia comercial canalha, temos uma justiça eleitoral parcial, é minha leitura e de boa parte da mídia progressista, e temos interferência pesada das big techs e do governo fascista de Trump.

Está claro que há uma operação Lava Jato 2 em andamento, protegendo o candidato do clã Bolsonaro e uma utilização da justiça para prejudicar Lula, através de uma perseguição escandalosa a seu filho Fábio Luís, apelidado pela mídia golpista "Lulinha".

Enquanto enfrentamos esses desafios de manipulação da opinião pública e eleitores, ainda tem o fogo amigo dos "esquerdistas", como nos ensinou Vladímir Ilitch Lênin, em seu clássico texto de 1920: "Esquerdismo, doença infantil do comunismo" (comentário aqui).

Seguimos nas lutas, não há outra alternativa. 

ELEIÇÕES 

Em SP, voto e peço votos a Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Tebet 400, Haddad 13 e Lula 13.

William 

23/08/26

sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Diário e reflexões


Paralisação no BB Verbo Divino. Foto: Sindicato 

Refeição Cultural

Sexta-feira, 21 de agosto de 2026.


ELEIÇÕES 

O calendário de campanha das eleições brasileiras teve início nesta semana. Serão eleições duríssimas para nós da classe trabalhadora e das classes subalternas e populares, a base da pirâmide econômica da sociedade.

Na minha leitura, baseada na experiência política que adquiri ao organizar e representar os trabalhadores por muitos anos, as eleições serão as mais complicadas desde a redemocratização do país e vigência da Constituição Federal de 1988. 

Há uma guerra explícita contra a reeleição do presidente Lula e para que o Congresso Nacional não seja renovado com uma representação maior do povo pobre e trabalhador. Os donos do poder farão de tudo para manter a maioria esmagadora de parlamentares vinculados a eles.

Em SP, voto Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Tebet 400, Haddad 13 e Lula 13. 

Se vocês, leitores do blog, puderem, participem da campanha e me ajudem a pedir votos aos nossos candidatos e candidatas.

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CAMPANHA SALARIAL DOS BANCÁRIOS

Ontem, participei da paralisação nacional da categoria bancária. Estive com as companheiras e companheiros do Sindicato na concentração do Banco do Brasil da Verbo Divino, na região Sul da cidade. A participação dos trabalhadores foi excelente!

Na próxima semana, o Comando Nacional dos Bancários se reunirá novamente com os banqueiros e esperamos que os bancos façam propostas que atendam às reivindicações da categoria.

À noite, estive no aniversário da companheira Deise Recoaro, militante com quem aprendi muito no movimento sindical. Encontrei muita gente querida, amigas e amigos de longas jornadas de lutas.

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LEITURAS E ESTUDOS

Estou tentando ler e estudar diariamente. É só lendo e exercitando nosso cérebro, verdadeiro criador de tudo, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis, que podemos seguir evoluindo como seres humanos e como seres incompletos que somos, como ensina o professor Paulo Freire.

Li Machado de Assis e as memórias de José Dirceu. No final desta sexta-feira, li em voz alta o conto "Entre santos", de 1886, do Bruxo do Cosme Velho.

Sigamos lutando por um mundo melhor.

William

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um apólogo - Machado de Assis



Refeição Cultural

Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1° de março de 1895 (com o título "A agulha e a linha") e depois reunido no livro de contos Várias histórias, em 1895.

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UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde  me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

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COMENTÁRIO DO BLOG

Este conto breve é muito interessante! Na primeira publicação, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis o chamou de "A agulha e a linha", segundo o estudioso John Gledson. Quando a narrativa foi reunida em livro, o escritor a denominou "Um apólogo".

Apólogo é uma narrativa moral, um texto com personagens inanimados que ganham voz e ação (prosopopeia) e participam da história contada.

Nesta história que nos mostra a disputa de vaidade entre a agulha e a linha, debatendo entre elas qual seria mais importante, podemos observar que ambas têm seu valor no trabalho de coser as roupas que depois serão usadas pelos humanos em ocasiões diversas. 

No entanto, uma acabou "vencendo" o debate, como acontece hoje nas disputas alimentadas em redes antissociais que dominam o universo humano neste momento da história. 

Uma não realizaria o trabalho sem a outra na história. Linha sem agulha ou agulha sem linha demonstra a importância do trabalho conjunto. 

Poderíamos usar essa narrativa moral em diversos exemplos de nossa vida em sociedade. Precisamos uns dos outros. 

Uma obra pública financiada com recursos do governo federal e do estado ou município só saem do papel pela ação de ambos. Porém, governos locais usam omitir do povo a ação decisiva do governo federal.

Enfim, o conto machadiano, o apólogo, é mais atual que nunca, se pensarmos no cenário das eleições brasileiras de 2026. 

Lula recuperou o país após a tragédia bolsonarista, organizou a economia e está financiando estados e municípios em obras importantes. E os prefeitos e governadores, sem caráter ou ética, omitem essa informação por motivos políticos. 

Sigamos lendo literatura de qualidade e melhorando nossa interpretação do mundo. 

William 

18/08/26

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Instantes (12h37)



Refeição Cultural

LEITURAS E REFLEXÕES 


O que ler pela manhã de segunda-feira? 

Primeiro, li as nove postagens que escrevi sobre a leitura do livro de memórias do Zé Dirceu. Os textos estão bons. Relembram a mim o que chamou minha atenção e convidam eventual leitor(a) a ler o livro. 

Que mais? É preciso ler... enquanto tenho olhos, um cérebro funcional, e mãos firmes.

Peguei o livro de John Gledson com os 50 contos de Machado de Assis. Hei de terminar os inumeráveis livros iniciados e nunca finalizados...

Li o conto "Adão e Eva", de 1885. Gostei! A versão correta da história desses personagens seria outra, que Deus os teria levado ao Paraíso após resistirem às tentações do Tinhoso, através da serpente, e Deus abandonou a Terra sob o governo do Tinhoso mesmo. Tem sentido!

Os contos anteriores que li dias atrás são: "Pai contra mãe", "Missa do galo", "A cartomante" e "O diplomático". Contos excelentes! 

Até o conto mais fraquinho é bom, "O diplomático", sobre um sujeito sem atitude - Rangel, 40 anos - que perde a pretensa noiva - Joaninha, 19 anos - para um rapaz - Queirós - que a conquistou num piscar de olhos. 

Atitude é tudo na vida! Muitas vezes, padeço de falta de atitude... depois, não adianta reclamar da vida.

Eu deveria estar fazendo meus cadernos dos textos dos blogs. Procrastino, protelo e os cadernos não estão prontos, não estão salvos meus milhares de textos escritos em duas décadas. 

Minha contribuição para o mundo lá fora, a coletividade, é deveras irrelevante neste momento do viver. Deveria focar nos meus textos, só eu posso fazer isso, mais ninguém. 

É foda esses dilemas bestas que ainda enfrento. A gente é viciado em vaidades, em macaquear a realidade e alimentar ilusões... e olha que o conto machadiano nos alerta que desde Adão e Eva esse mundo mundano é governado pelo Tinhoso.

A vaidade é o pecado preferido do Tinhoso... quem não sabe disso?

William 

17/08/26

domingo, 16 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (9)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Domingo, 16 de agosto. O Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, reuniu uma multidão de gente para marcar o início da campanha de reeleição do presidente Lula. Foi um evento emocionante! Decidi não ir ao ato, vi pela Internet. 

Gostei da lembrança, nos chamados para a ato em SBC, a respeito da história: é preciso conhecer a história. Aliás, fiquei feliz ao ver, finalmente, Dona Marisa Letícia ser lembrada e homenageada em um evento do PT após o casamento de Lula com Janja. Antes tarde do que nunca, como diz o ditado popular. Afinal, é preciso conhecer e respeitar a história das pessoas que contribuíram com nossas lutas sociais e populares.

Enfim, vamos seguir na leitura das memórias do Zé Dirceu, outro militante histórico que merece todo o nosso respeito e consideração. 

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19. FORA COLLOR 

A grande questão de saber onde o PT deveria se colocar 

Muitas informações de bastidores do período. Bem interessante!

Zé Dirceu nos conta como foi o 1° Congresso do PT, as divisões e dilemas do partido. 

"A Articulação se manteve coerente com o caráter do PT, sua história e suas raízes, evitando a posição leninista e reafirmando-o na condição de partido dirigente aberto à interlocução democrática na sociedade. Mas rejeitando a proposição idealista de partido reduzido à função de disputar projetos na sociedade."

Aqui um ponto importante: vejo companheiros hoje que se afastaram do PT e estão cheios de elogios a partidos como o PSOL, UP etc. Tudo bem! Mas talvez essas pessoas nunca tenham entendido o que é ser o Partido dos Trabalhadores. Como diz o Lula: é preciso conhecer a história!

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20. "LULA, PERDEMOS AQUI AS ELEIÇÕES DE 1994"

Como era admissível o PT, responsável pelo impeachment de Fernando Collor, lavar as mãos?

Capítulo revelador das divisões internas que o partido vivia nos anos noventa, a Articulação, corrente majoritária, passava por um momento delicado. 

"(...) A proposta brotara ainda durante o período de Collor e, para agravar o clima interno no PT, vinha acompanhada da defesa conjunta - PT, PSDB, Lula e FHC - do parlamentarismo." (p. 253)

É mole?

"Era demais para a unidade partidária. A posição da administração Itamar, a relação com o PSDB e a defesa do parlamentarismo implodiram a maioria." (idem)

E mais:

"(...) A defesa do parlamentarismo era um desastre. Lula, eu mesmo, Genoino e outros perdemos feio na consulta interna do PT. Ainda bem. O equívoco era exacerbado pela possibilidade real de Lula vencer as eleições de 1994." (p. 254)

Zé Dirceu nos conta de sua discordância em relação à posição da maioria de defender "Fora Itamar" e "Itamar é igual a Collor".

Articulação defendia o fim das tendências no PT, afirma Zé Dirceu. Ele achava isso um equívoco:

"(...) Se por um lado tencionavam o partido, por outro as tendências eram a garantia do pluralismo democrático, do debate aberto, da disputa política regrada e legalizada, da busca e construção de maioria e, às vezes, de consensos." (p. 256)

O capítulo foi muito revelador para mim, ex-dirigente sindical dos bancários. Zé Dirceu conta que no 8° encontro do partido (1993), a Articulação perdeu a maioria e as outras tendências dominaram a direção do PT.

Depois vem a história das eleições de 1994, o Plano Real e muitas outras passagens de nossa vida política. Não sabia das histórias sobre os bancários e Gushiken, que se opuseram à candidatura do Zé Dirceu a governador em 1994.

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Comentário final 

Agora que passei da metade do livro de memórias do Zé Dirceu. Como fui dirigente sindical por quase duas décadas, as histórias são as minhas histórias, são as histórias que herdei ao chegar nos anos dois mil ao movimento organizado.

É importante conhecer a história, repito o que Lula disse neste momento de início de campanha eleitoral, eu só compreendi melhor quem eu era como dirigente dos bancários da CUT e da Articulação Sindical após conhecer nossa história e saber o que NÃO éramos. 

Enfim, é melhor saber do que não saber sobre a história. 

William 

16/08/26

sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Livros com as vozes das mulheres


Lendo e aprendendo com as mulheres 

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. Porém, também lerei mais livros sobre as mulheres, mesmo que não sejam escritos por elas.

As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Criando este espaço no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento, vou sistematizando minhas experiências com as autoras, e também vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

A página estará em constante modificação, pois estará em construção permanente.

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Obras lidas e comentadas no blog em ordem cronológica:


2024

1. Canção para ninar menino grande (2018) - Conceição Evaristo (link)

2.


2025

1. Bagagem (1976) - Adélia Prado (link)

2. Cachorro velho (2005) - Teresa Cárdenas (link)

3. Pequena coreografia do adeus (2021) - Aline Bei (link)


2026

1. Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana (2024) - Aline Marcondes Miglioli (link)

2. Clandestina (2024) - Ana Corbisier (link)

3. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei (link)

4. Persépolis (HQ 2000/2003. No Brasil, 2007) - Marjane Satrapi (link)

5. Poemas e maravilhas de Marili Santos - Ano 2013 (link)

6. Yargo (1979) - Jacqueline Susann (link)

7.


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Livros que me impactaram muito:

1. O diário de Anne Frank (1947) - Org. Otto Frank e Mirjam Pressler

2. Felicidade fechada (2017) - Miruna Genoino

3. Banzeiro Òkótó (2021) - Eliane Brum

4. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei

5. Evocación (2008) - Aleida March

6. Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída (1978) - Kai Hermann e Horst Rieck

7. Lula, filho do Brasil (1996/2003) - Denise Paraná 

8.

Lendo as memórias do Zé Dirceu (8)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Hoje é sexta-feira, estamos próximos do início das eleições brasileiras a partir de domingo, 16 de agosto. Apesar de tudo que sei da realidade, um quadro bastante adverso contra nós do campo humanista, devo ser disciplinado naquilo a que me propus: ler diariamente e continuar me fazendo humano, ganhando saberes e tentando ser menos ignorante. 

Viveremos nas próximas semanas um aumento exponencial da destruição da mente humana, já alterada cotidianamente pela captura de máquinas de corporações capitalistas em guerra contra a humanidade: as big techs e os homens por trás delas. As desinformações e dissonância cognitiva em escala industrial estão desfazendo o ser humano em sua essência. 

As pessoas ao nosso redor estão sendo alteradas em suas essências - em todas as idades - e estão se tornando zumbis sob o comando de IAs, algoritmos e criações de inimigos imaginários para serem utilizadas como marionetes em benefício de seus manipuladores. Tudo normalizado como algo irreversível: ideologia da classe dominante. 

Meu corpo dá sinais de que não sou mais a pessoa que fui. Estou avaliando a mim mesmo, o que posso ainda e o que não dou conta mais. Não vou ao lançamento da campanha de Lula e dos candidatos do campo progressista no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Hoje não sei avaliar como estarei daqui alguns meses. Tudo bem. Estou lendo e escrevendo, de forma honesta e militante. Compartilho o que sei e o que estudo, aqui no blog.

Como não sou determinista, faço o que acho que tem que ser feito e o que posso, avaliação só minha e de mais ninguém. Só a pessoa sabe de si mesma. Hoje, por exemplo, consigo imaginar as dores que meu pai dizia sentir vinte anos atrás... ninguém compreendia suas dores e ele sofria sozinho, de mal-humor e escanteado do convívio por ter se tornado "chato". Pois é...

Vamos ler as memórias do Zé Dirceu, ali tem muita história, minha e de todos vocês.

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18. O ERRO DE LULA

O jogo pesado da política brasileira, no inesquecível ano de 1989

"(...) Fora o grave erro nosso de recusar a presença de Ulysses no palanque de Lula. Para além dos votos perdidos, era imperdoável porque, no segundo turno, não se recusa apoios, ainda mais em se tratando de Ulysses e do PMDB que, como o PSDB, nada exigiam de Lula e do PT. Uma tragédia, uma burrice, mais do que um erro político. Até hoje me penitencio de não ter me oposto à decisão de Lula e do partido." (p. 239)

O capítulo é extraordinário! Um filme! Fui lendo e relembrando os acontecimentos relatados por Zé Dirceu. Eu estava em São Paulo, tinha entre 18 e 20 anos de idade. Já era bancário do Unibanco da Raposo Tavares nas famosas greves de 1988/89. Fiz greve e conheci o pessoal do Sindicato. 

É de dar nojo e gera muita indignação conhecer os detalhes contados pelo autor a respeito das manipulações criminosas feitas contra Lula e o PT nas eleições de 1989.

Zé Dirceu relembrou os casos absurdos montados contra Lula/PT (p. 236 e 237):

O de Miriam Cordeiro, que acusou Lula de mandar ela abortar Lurian. O autor afirma que ela recebeu 156 mil dólares para inventar essa história. Tanto a filha quanto a mãe de Miriam, avó de Lurian, desmentiram o caso.

A manipulação do sequestro do empresário Abílio Diniz, tentando vincular os sequestradores ao PT. Zé Dirceu aponta Orestes Quércia, governador de SP, e Luiz Antônio Fleury Filho, Secretário de Segurança, como responsáveis pelas acusações mentirosas. Às vésperas do 2° turno, chegaram a vestir camisas do PT nos bandidos para anunciar em rede nacional a invenção fraudulenta contra Lula e o PT. 

E a manipulação do debate da Rede Globo, entre Collor e Lula. 

Imaginem vocês essas manipulações! É incrível como Lula e o Partido dos Trabalhadores resistem a tantos crimes praticados pelas elites e donos do poder nessas décadas de existência! É muito pesado o que fazem contra nós!

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Comentário final 

É muita história registrada neste livro do Zé Dirceu!

Estou descobrindo detalhes de acontecimentos que já vivi e estudei e nunca soube dos bastidores.

E vamos viver tempos dificílimos nesses meses finais de 2026. Seremos borbardeados impiedosamente pelas mentiras e manipulações dos inimigos do país e da classe trabalhadora. Uma guerra!

Aqui é o palco do destino das Américas e o governo bandido dos Estados Unidos vai fazer o possível para transformar o Brasil num quintal gerido por vassalos do império bárbaro. 

É isso!

William 

14/08/26

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (7)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


É muito interessante ler sobre a nossa história e descobrir coisas do passado que não sabíamos ainda. 

Eu tenho minha formação política a partir dos bancários da CUT. Entrei na categoria em 1988. A politização deste trabalhador que vos fala durou décadas. Só passei a entender o movimento quando virei sindicalista a partir de 2002.

As memórias do Zé Dirceu estão numa parte dos anos oitenta (capítulo 16), uma década de ouro dos movimentos sociais do Brasil. Por mais que tenha estudado o período, descubro novidades na leitura a todo instante. 

Sigamos lendo e aprendendo. Não estamos acabados, somos seres incompletos, nos ensina Paulo Freire. 

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16. ERROS E ACERTOS 

O PT não acreditava na vitória de Luiza Erundina nas eleições para a Prefeitura de São Paulo 

Meu primeiro voto de trabalhador com 18 anos de idade foi em Luiza Erundina. Morava no Rio Pequeno. Foi quando parei de pegar ônibus pendurado na porta.

"Fomos às eleições não sem problemas e divisões na escolha de candidatos. Na cidade de São Paulo, Luiza Erundina, forte liderança popular, ligada às lutas nos bairros, eleita vereadora em 1982 e candidata a vice de Eduardo Suplicy, em 1985, venceu a prévia contra Plínio de Arruda Sampaio, este apoiado por nós, Lula, eu e grande parte do comando da Articulação." (p. 220)

Eu não sabia dessa história. Imagino que o partido parou de realizar prévias, que são mais democráticas, por causa de momentos como esse, nos quais a base diverge da direção. 

Zé Dirceu termina o capítulo (p. 224) abordando a luta contra o desejo de poderes abusivos de promotores e procuradores dos ministérios públicos de investigar e acusar, inconstitucional segundo ele. Os legislativos derrotaram essas pretensões, até que o STF deu esses super-poderes a eles, criando uma casta sem controle de ninguém. 

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17. CAMINHANDO

Prévias, o grande risco no caminho das vitórias eleitorais 

Zé Dirceu nos conta como foram as gestões petistas nas prefeituras eleitas em 1988, equívocos, dilemas e sucessos. Cita POA (RS) como referência no "modo petista de governar", destacando o orçamento participativo.

Também avalia as contradições comuns de governar, as diferenças entre ser partido e ser governo. 

"(...) Mas era preciso distinguir. Governo e PT são ambas instâncias do Estado, mas partem de universos diferentes. O governo representa o interesse da sociedade, de classes, é verdade, enquanto o PT exprime interesse do coletivo, da maioria partidária e de nossa base social, os trabalhadores e excluídos." (p. 229)

Ao falar sobre o risco das prévias, me lembrei dos ensinamentos que tive na Articulação Sindical da CUT, por mais de duas décadas. Se não alcançamos o consenso progressivo e votamos direto, sem tentativas de acordos, todos perdem, porque saímos divididos, rachados. Zé Dirceu aborda um pouco isso no capítulo. 

"Prévias ou encontros? A designação dos nomes para concorrer sempre é traumática quando não há maiorias e principalmente políticas, programas que balizem as escolhas e resoluções. E quando se apresentam interesses de grupos ou de pessoas, tudo fica mais difícil, por mais legítimos que sejam." (p. 229)

Capítulo muito bom!

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Comentário final 

Enquanto leio as memórias do Zé Dirceu, vou relembrando uma vida política que tive e vou refletindo sobre o presente e o futuro. 

Eu pensei que ao sair da representação eletiva dos trabalhadores, abrindo mão de disputas de poder e incentivando a renovação, eu teria participação de outras formas nas instâncias, partilhando experiências. Isso não aconteceu. 

Agora invento diariamente algum sentido para mim mesmo. Procuro na leitura e na escritura formas de ser útil à sociedade humana, pois o que aprendo, compartilho de forma gratuita. Dá trabalho manter este blog, acreditem. 

Sigamos lendo e escrevendo. 

William 

13/08/26