terça-feira, 30 de junho de 2026

A pedrada na cabeça (14)


A gente estava no campinho, empinando pipa ou jogando bola, não me lembro direito. 

Sei que as provocações entre nós e os moleques do outro lado do córrego do Rio Pequeno aumentaram e começou a guerra de pedras pra lá e pra cá. 

De repente, os moleques atravessaram o córrego e vieram atrás de nós. Estávamos em menor número. O jeito foi recuar e sair correndo. 

Enquanto corríamos, era só pedra caindo na gente. Eu coloquei as mãos na cabeça como uma espécie de escudo, enquanto corria. 

Pow! Só senti a pedrada no topo da cabeça, entre os dedos. Aquela dor aguda já sinalizava que eu tinha me ferrado.

Ao tirar as mãos da cabeça, já chegando na rua de casa, vi aquela sangueira! O pescoço também estava melado de sangue. 

Mais uma vez, entrei em casa cheio de sangue, assustando minha mãe. 

---

Instantes de uma vida 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Argentina goleou o Peru e tirou o Brasil (13)


Foi um dia de merda aquele. Era um gol atrás do outro e a lembrança que ficou foi a tristeza de todo mundo ao ver o Brasil fora da final da Copa do Mundo de Futebol daquele ano.

A molecada vivia na rua jogando bola, empinando pipas, rodando peão, brincando de queimada, bolinha de gude e outras brincadeiras comuns ali nas ruas do Rio Pequeno, onde a gente morava.

Ano de Copa do Mundo, 1978 foi um dos anos dos quais me lembro de forma saudosa de minha infância no lugar onde nasci e vivi até os 10 anos de idade, quando fomos embora para Minas Gerais.

A gente jogava bola todo dia ali na travessa entre as ruas Dr. Sérgio Ruiz de Albuquerque e Adolfino Arruda Castanho, aquele pedacinho de rua - Miguel Sevílio - foi onde passamos a infância.

Naquele ano o Brasil não foi campeão do mundo. A Argentina ficou com o título roubado, na leitura de todo mundo. Mas eu brinquei muito e fui uma criança feliz no Rio Pequeno.

---

Instantes de uma vida

domingo, 28 de junho de 2026

Meus cem clássicos de literatura universal



Refeição Cultural

Cem clássicos de literatura


Teve uma época difícil de minha existência na qual inventei coisas para me agarrar à vida. Defini, então, algumas coisas materiais que gostaria de adquirir, lugares que gostaria de ir, conhecimentos que desejaria aprender e coisas do tipo. Eram muletas para me apoiar durante a caminhada por caminhos que não existiam, veredas que tomaria para abrir caminhos no viver.

Essa época não é um período curto do meu viver. Pelo contrário, essa busca de sentidos para seguir por esses vales do mundo se estende do início da adolescência, ainda criança diria, e vai até perto de uns trinta anos de idade. É uma longa jornada convivendo com a depressão e o desânimo perante um mundo duro, sem recursos adequados, num país injusto, no qual a impressão que se tem é de que estamos sempre por nossa conta, sós.

Sobrevivi até aqui - sou um homem de sorte - e se passar mais uns três anos nesse mundão em acelerada fase de destruição pela nossa espécie, poderei até me tornar um idoso, conforme define a legislação em vigor no país onde habito.

As muletas que inventei para me apoiar e seguir vivendo foram de grande ajuda, hoje tenho plena consciência disso. Com os objetivos que fui inventando para não desistir de viver, por mais bobos ou difíceis que fossem de se alcançar, peguei uma birra danada de não me deixar morrer porque tinha alguma coisa que estava perseguindo... e eu tenho uma natureza turrona, sou muito obstinado quando encasqueto com alguma coisa.

--------------------

"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs." (Pedagogia da autonomia, Paulo freire)

--------------------

Na medida em que vamos sobrevivendo e vivendo a vida, vamos mudando, vamos nos moldando, e a cada dia podemos ser pessoas melhores, como nos ensina Paulo Freire ao dizer que somos seres inconclusos, não acabados ainda. Lógico que fui sobrevivendo por diversos motivos, inclusive pelas pessoas que nos amam e que amamos, mesmo sendo egoístas como somos às vezes.

Uma das coisas que tinha na minha lista de sobrevivência era ler cem clássicos da literatura universal (risos). Imaginem, o item já era uma sacanagem - ou uma busca por salvação - porque não seria algo a se cumprir num curto espaço de tempo, meses ou anos. Somos humanos e, no fundo no fundo, somos seres de esperança. Só queremos uma coisinha para nos agarrarmos à vida. 

Fui contar e refletir sobre livros que li, dias atrás, e não é que por meus critérios de leitor, por suposto, já li uma centena de obras clássicas em suas áreas de conhecimento humano!

A novidade é que a lista de desejos de leitura é enorme, absurda de grande, teria que viver centenas de anos com condições de ler e isso é uma coisa boa, só possível porque cheguei até aqui.

Quero viver porque a vida é uma oportunidade diária, a cada amanhecer. Quero ajudar as pessoas e a natureza de alguma forma, quero contribuir de alguma maneira para livrar o mundo da destruição em andamento, com o pouquíssimo que sei e aprendi nessas décadas de caminhada pela Terra. 

Eis a lista de meus primeiros cem clássicos da literatura universal. Que venham mais centenas de livros e leituras instigantes e renovadoras.


1. El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha - Miguel de Cervantes

2. A montanha mágica - Thomas Mann

3. Ulisses - James Joyce

4. Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa

5. Os irmãos Karamazov - Fiódor Dostoiévski

6. Vidas secas - Graciliano Ramos

7. Alguma poesia - Carlos Drummond de Andrade

8. Hamlet, o príncipe da Dinamarca - William Shakespeare

9. Era dos extremos - Eric Hobsbawm

10. Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez

11. O velho e o mar - Ernest Hemingway

12. A viagem do elefante - José Saramago

13. Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

14. Decamerão - Giovanni Boccaccio

15. Razão e sensibilidade - Jane Austen

16. La Celestina - Fernando de Rojas

17. Libertinagem - Manuel Bandeira

18. O vermelho e o negro - Stendhal

19. O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

20. Adeus às armas - Ernest Hemingway

21. Odisseia - Homero

22. Os Lusíadas - Luís de Camões

23. Utopia - Thomas More

24. Macbeth - William Shakespeare

25. Otelo, o mouro de Veneza - William Shakespeare

26. Admirável mundo novo - Aldous Huxley

27. 1984 - George Orwell

28. Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

29. Metamorfose - Franz Kafka

30. A guerra dos mundos - H. G. Wells

31. O Guarani - José de Alencar

32. Senhora - José de Alencar

33. Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida

34. Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

35. Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

36. Dom Casmurro - Machado de Assis

37. Os sertões - Euclides da Cunha

38. Macunaíma - Mário de Andrade

39. Pauliceia desvairada - Mário de Andrade

40. São Bernardo - Graciliano Ramos

41. Viagem - Cecília Meireles

42. Moby Dick - Herman Melville

43. Bagagem - Adélia Prado

44. As aventuras de Robinson Crusoe - Daniel Defoe

45. Minhas vidas - Shirley Maclane

46. Mar morto - Jorge Amado

47. Las genealogías - Margo Glantz

48. O cemitério - Stephen King

49. A hora da estrela - Clarice Lispector

50. Becos da memória - Conceição Evaristo

51. Operação Cavalo de Troia - J. J. Benítez

52. Eram os deuses astronautas? - Erich Von Däniken

53. O caso dos dez negrinhos - Agatha Christie

54. Pedro Páramo - Juan Rulfo

55. A jangada de pedra - José Saramago

56. Las venas abiertas de América Latina - Eduardo Galeano

57. Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado

58. Nada de novo no front - Rene Maria Remarque

59. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway

60. A rosa do povo - Carlos Drummond de Andrade

61. As aventuras de Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

62. O Mágico de Oz - L. Frank Bawm

63. O Pequeno Príncipe - Antoine Saint-Exupéry

64. Fernão Capelo Gaivota - Richard Bach

65. A revolução dos bichos - George Orwell

66. Capitães da areia - Jorge Amado

67. A volta ao mundo em 80 dias - Júlio Verne

68. A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - Jorge Amado

69. O grande mentecapto - Fernando Sabino

70. O menino no espelho - Fernando Sabino

71. Enterrem meu coração na curva do rio - Dee Brown

72. O mundo de Sofia - Jostein Gaarder

73. O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger

74. As aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain

75. Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade

76. Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade

77. A língua de Eulália - Marcos Bagno

78. O Ateneu - Raul Pompeia

79. Lolita - Vladimir Nabokov

80. Os cavalinhos de Platiplanto - José J. Veiga

81. Romeu e Julieta - William Shakespeare

82. A morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói

83. Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto

84. Crónica de una muerte anunciada - Gabriel García Márquez

85. Madame Bovary - Gustave Flaubert

86. O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura

87. Carrie, a estranha - Stephen King

88. Os mortos vivos - Peter Straub

89. O diário de Anne Frank - Otto Frank e Mirjam Pressler

90. As intermitências da morte - José Saramago

91. Nocturno de Chile - Roberto Bolaño

92. O primo Basílio - Eça de Queiroz

93. Dublinenses - James Joyce

94. Fausto - Goethe

95. Sagarana - João Guimarães Rosa

96. Lazarillo de Tormes - Anônimo

97. A mulher de trinta anos - Honore de Balzac

98. Kolstomer (a história de um cavalo) - Liev Tolstói

99. A Ilha - Fernando Morais

100. O caçador de pipas - Khaled Rosseini


Que venham as próximas leituras! Faz um mês que tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo, uma porcaria que me fez ver pior que antes, mas ainda estou aqui, ainda posso ler, escrever, falar e caminhar.

Seguimos nas lutas! E na defesa dos direitos da classe trabalhadora e do planeta e suas diversidades!


William

28/06/26

sábado, 27 de junho de 2026

Empinar pipas na infância: a felicidade (12)


Uma das melhores lembranças de felicidade que tenho da infância é empinar pipas. A liberdade talvez esteja associada a essa brincadeira de criança.

Para colocar uma pipa no ar a criança precisa estar na rua, praça ou no campinho. O dia tem que ser favorável, sem chuva e com vento. O garoto ou garota precisa ter a pipa e os itens necessários. 

Eu comprava peixinho numa lojinha no início da Avenida Otacílio Tomanik, do lado da padaria Cinco Quinas. Peixinho é um tipo de pipa. Também comprava ali linha, papel e até varetas japonesas ou de bambu pra fazer quadrado, uma pipa melhor.

Fico impressionado ao me lembrar que um garoto com menos de dez anos fazia suas próprias pipas, e pipas boas pra disputar relos (rélos se fala) na rua. Eu tinha minha própria técnica de estirante, rabiola com chicote de cerol, e meu quadrado ou peixinho era côncavo e não achatado, pois eu tinha linha entre uma ponta e outra das varetas horizontais. Como um arco.

Naquela época, anos setenta, não se tinha a compreensão do risco do uso de cerol. Minhas pipas tinham cerol em tudo, até na rabiola e no estirante. Tinha dia que voltava pra casa com duas ou três pipas, além da minha. No relo, eu cortava e aparava. Tinha dia que eu perdia as pipas e ainda corria feito doido pelas ruas do bairro atrás de pipa cortada.

Como a minha infância foi boa empinando pipas pelas ruas e campinhos do Rio Pequeno!

---

Instantes de uma vida 

Livro: Os cem melhores contos brasileiros do século - Italo Moriconi



Refeição Cultural

LITERATURA: CONTOS


Um dos livros iniciados há mais tempo e não finalizados por mim era a seleção de contos brasileiros do século vinte, organizados por Italo Moriconi. 

O livro foi lançado no ano 2000 e eu tenho a minha edição pelo menos desde 2004, por ter anotações datadas nas páginas.

Moriconi organizou os contos e autores por períodos cronológicos. A primeira parte - "De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana" - já havia lido todos os contos, alguns deles, diversas vezes. 

A segunda parte - "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos" - também havia lido. Ao retomar a leitura, estava terminando a terceira parte - "Anos 60 - Conflitos e desenredos". 

Foi desse ponto adiante que segui lendo, agora, contos já conhecidos por mim e fui sendo apresentado a contos e autores novos. 

Se minha vista permitir - tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo que me incomoda muito -, vou caminhar neste livrão até o fim. São 600 páginas. 

30/05/26

---

De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana

Destaco dessa primeira seleção o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. É um dos melhores contos do Bruxo do Cosme Velho, na minha opinião. A temática é a escravidão dos povos africanos e seus descendentes no Brasil e a forma como essa violência era naturalizada naquela sociedade. 

Também tenho muita admiração pelos contos "Baleia", de Graciano Ramos, que depois se transformaria no clássico "Vidas secas". E "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto. Boa demais essa narrativa!

---

Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos

De passar os olhos pelo índice de contos dos Anos 40/50, me lembrei na hora de "Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá", de Bernardo Elis. Sofri junto com os protagonistas... foda!

Destaco também "Viagem aos seios de Duília", de Aníbal Machado; "O peru de Natal", de Mário de Andrade; e "Afogado", de Rubem Braga. 

O caso com a Duília me fez pensar muito, à época, sobre a forma de lidar com as lembranças do passado. Rubem Braga nos fez sentir na pele o risco de morrer ao se aventurar no mar. E sempre recomendo o conto de Mário de Andrade a pessoas com relações paternas conflituosas. Demais essa narrativa!

Destaco ainda "Um cinturão", de Graciano Ramos. No livro de Moriconi, li o conto em 2011 e 2021. Ao relê-lo este ano (2026), no livro "Infância", fiquei muito impactado com a história do garoto. Horror!!!

---

Anos 60 - Conflitos e desenredos

Da seção Anos 60, por meu gosto, e de memória, destaco "A máquina extraviada", de José J. Veiga, conto excepcional! 

Quando Moriconi organizou o livro, na virada do século, eu não havia lido ainda J. Veiga. Felizmente, em meados da segunda década deste século, peguei pra ler os livros do autor e li mais da metade da obra do escritor goiano. Ele é único!

Fernando Sabino também é excelente, seu conto "O homem nu" é muito bom.

---

Anos 70 - Violência e paixão 

Gostei muito de alguns contos da seleção dos Anos 70. Os mais impactantes foram os três de Rubem Fonseca, nossa! O "Feliz ano novo" me deixou muito mal, são os acontecimentos ao redor da gente ainda hoje!

Amei o conto de Clarice Lispector! Os olhos enchem de lágrimas só de pensar no amor pela literatura. É mesmo uma "Felicidade clandestina".

Merecem meu destaque "O elo partido", de Otto Lara Resende; "A balada do falso Messias", de Moacyr Scliar; e "A maior ponte do mundo", de Domingos Pellegrini.

Ao final do conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, pensei em mim e no Sindicato, e depois em minha volta pra casa... me vi como Lulu Bergantim. 

---

Anos 80 - Roteiros do corpo

Alguns contos desta seleção me incomodaram muito, ou me fizeram refletir sobre o tema abordado. Isso é muito bom! Até concluí que devo seguir lendo contos para dar a mim mesmo a oportunidade da novidade no meu cotidiano, em termos de histórias ficcionais. 

O conto de Ivan Ângelo, "Bar", foi um soco no meu queixo, fiquei muito tempo com o maxilar doído.

Na temática da luta permanente das mulheres pelo direito aos próprios corpos e vidas, gostei dos contos "Intimidade", de Edla Van Steen, "I love my husband", de Nélida Piñon, e de "Flor do cerrado", de Maria Amélia Mello. Muito bom também "Aqueles dois", de Caio Fernando Abreu.

Adorei "Obscenidades para uma dona-de-casa", de Ignácio de Loyola Brandão. 

Destaco ainda o conto de João Ubaldo Ribeiro, "O santo que não acreditava em Deus". Ao comentar sobre ele com a esposa, ela disse que tem um filme baseado na estória. 

O "Conto (não conto)", de Sérgio Sant'Anna, foi um dos melhores textos da seleção dos Anos 80.

---

Anos 90 - Estranhos e intrusos

Na seleção de contos dessa década final do século vinte, alguns textos mexeram comigo também, um certo incômodo na leitura. Alguns pelo tema, outros pela forma da narrativa. 

Sérgio Sant'Anna é destaque com o conto "Estranhos". Tema bem diferente do seu "Conto (não conto)" da década anterior. Nesse de agora é sexo na veia. O outro tem uma pegada filosófica. 

O conto "Olho", de Myriam Campelo, é daqueles que a gente lê escondido, com vergonha de alguém saber que lemos aquilo, que alguém teve coragem de escrever aquilo. Me lembrei do Alberto Manguel falando sobre suas leituras infantis de livros proibidos da estante de seu pai (Uma História da Leitura).

O conto de Marina Colasanti "A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain" me deixou muito pensativo, dormi com ele e ainda penso a respeito. Mexeu comigo, me fez escrever um de meus textos da série "Instantes".

Para fechar meus destaques da seleção dos Anos 90, cito Luis Fernando Verissimo e seu pequeno e belo "Conto de verão n° 2: Bandeira Branca". De arrepiar e emocionar o leitor. Pelo menos este leitor que vos fala.

---

Comentário final 

E então, duas décadas depois de iniciada a leitura de Os cem melhores contos brasileiros, na opinião de Italo Moriconi, concluí o livro. Já era tempo, né?

A crítica literária tem algumas vertentes quando se pensa o papel da literatura na sociedade humana. 

Quando fiz faculdade de Letras, li o texto do professor Antonio Candido "O direito à literatura" e fui convencido pelo mestre que a literatura é um direito humano fundamental, pois fabular nos faz humanos.

Independente da maneira como se escreve e se lê literatura - romances, contos, crônicas e demais formas de textos artísticos - as narrativas ficcionais nos agregam vivências, experiências e aprendizados que nos modificam, nos transformam em outras pessoas, ou seja, as personas ficcionais alteram nossas personas reais. Isso é bom!

Ler um livro como esse com dezenas de autoras e autores brasileiros que não conhecia ou até já tinha ouvido falar, mas que nunca havia lido nada de suas autorias nos dá uma consciência incrível do quanto sabemos pouco ou quase nada de tudo. 

Sou formado em Letras, já li bastante se comparar minha bagagem com as médias de leitores do país, mas sei que não conheço quase nada de literatura brasileira e universal.

Reconheço com humildade esse fato e me disponho a seguir lendo e escrevendo aqui sobre minhas refeições culturais, enquanto a natureza me permitir.

Claro, como defini desde o início, tudo que souber quero partilhar de forma gratuita com as pessoas. Quando se compartilha conhecimento estamos atuando para melhorar as pessoas e o mundo. 

William 

27/06/26

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A pedrada na Ione (11)


Os moleques chamaram a Telma de macaca. Estávamos brincando na frente da casa dos tios, na Rua Ricardo Cipicchia, atrás do colégio Adolfino, na pracinha do campinho. 

A maneira de defender minha irmã das ofensas foi tacar pedra nos garotos preconceituosos. Eles estavam na quadra, uns trinta metros de distância. 

A gente devia ter uns oito ou nove anos de idade. Eu era o mais novo no grupo. Ofensa ou desaforo na rua era respondido na pedrada.

O acidente foi muito rápido. Enquanto eu fiz o gesto pra tacar a pedra lá pra baixo, a Ione, que havia abaixado pra pegar uma pedra, levantou-se e ficou bem na minha frente.

Minha pedrada pegou bem no rosto dela... foi horrível! Na hora era só sangue na região do olho e depois no rosto e pescoço. 

Foi aquela correria... choro, susto de todo mundo, os adultos bravos, a Ione acolhida pra ver se machucou muito etc.

A pedrada pegou logo abaixo do olho, por sorte. Ela levou ponto lá no Pronto Socorro da Lapa, pois na farmácia do seu Paulo, na Avenida Rio Pequeno, não tinha como fazer o procedimento. 

Todo mundo ficou de castigo. Era o dia do enterro de um tio da Ione e a gente atrasou tudo.

As crianças mentiram coletivamente. Disseram que a pedrada foi de um dos meninos no campinho. Nem sei quanto tempo levou pra falarmos a verdade para os adultos. 

A infância no Rio Pequeno foi cheia de pequenos machucados sem gravidade envolvendo pedradas, latadas, dentadas, tombos de bicicletas... fomos criados na rua.

---

Instantes de uma vida 

Instantes (1h55)



Refeição Cultural

A cama quentinha numa noite muito fria. O dia foi satisfatório. O mundo anda tão ruim. É bom poder ajudar e fazer algo bom. Um pastel quentinho aos trabalhadores do condomínio. Ajudar os pais. Contribuir com algum conhecimento que tenha num bate-papo com uma liderança nova de nosso sindicato. Agradar com um pãozinho a esposa que não abre mão do café com pão francês. Ler contos com histórias ficcionais impactantes. Conversar com as pessoas na feira. Fazer o esforço de malhar uma hora só porque é importante fazer isso... ainda estou enxergando, ainda ando, falo, penso e aprendo. A vida é um instante. A gente vai dormir e pode não acordar mais... um terremoto... um AVC... é bom viver e poder fazer coisas boas e coisas comuns. 

William 

26/06/26

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Futebol de botão era uma diversão (10)


O goleiro a gente fazia com caixa de fósforos, colocando pedras e areia e passava fita isolante. Depois embelezava ele colando alguma coisa de time.

Eu tinha alguns times, com modelos diferentes de formato, mais ou menos côncavos. Também tinha as palhetas que mais gostava.

De lembrança, sei que tinha Corinthians, Vasco, Coritiba e tinha as seleções do Brasil e do Peru. Os botões da seleção brasileira eram mais achatados.

Os moleques faziam até campeonato, eu não tinha o campo, mas alguém tinha. A gente usava bolinha achatada e goleiro fixo, de caixa de fósforos. Não me lembro das regras.

O que me lembro é que eu era bom jogador. Fazia muito gol, de todos os jeitos. De longe, de perto, encobrindo o goleiro etc. 

Eu tinha um jeito de chutar que retinha o jogador entre os dedos após o chute, com a palheta em pé segurada com as duas mãos. 

Que época legal! Jogar futebol de botão foi uma diversão da minha infância. 

Tudo mudou quando fui morar em Uberlândia aos dez anos. Os meninos não brincavam de nada que eu estava acostumado. 

---

Instantes de uma vida 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O tombo de bicicleta (9)


Acho que o motivo foi uma ideia de jerico de apostar uma corridinha.

O que me lembro é que meu pé escapou do pedal e em fração de segundos eu estava no asfalto, todo ralado.

Pernas, joelhos, braços em carne viva, sangrando. Como ardia as feridas... fui pra casa chorando. 

Mais uma vez, a mãe me recebia em casa cheio de sangue ao voltar da rua.

O resumo do tombo de bicicleta foi a sessão de tortura após o banho: passar  Merthiolate nas feridas em carne viva. 

Minha mãe me pintou todo de Merthiolate... imaginem como gritei e chorei com cada ferida lambuzada daquele treco que ardia como fogo.

Passado o drama, minha mãe me mandou ir à Padaria Cinco Quinas pra comprar pães. 

O mais incrível, já de noite naquele dia, foi descobrir que um carocinho numa ferida acima da sobrancelha era uma pedrinha, que minha mãe tirou com a pinça...

---

Instantes de uma vida 


terça-feira, 23 de junho de 2026

A dentada na cabeça (8)


A molecada estava no corredor da casa da esquina da Rua Miguel Sevílio com a Rua Adolfino Arruda Castanho, no Rio Pequeno. Jogando bola.

Era uma brincadeira mais ou menos assim: o moleque que estava na Rua Miguel Sevílio chutava a bola na parede da casa, encobrindo o murinho, tipo cruzamento na área.

Quando a bola caia no corredor onde estavam os moleques, pontuava quem pegasse a bola primeiro. Devia ter uns três ou quatro pivetes ali.

Quando a bola caiu no chão foi todo mundo pra cima dela. Eu só senti aquela dor aguda no topo da cabeça. Coloquei a mão apertando o cocuruto.

Quando tirei a mão foi aquele susto! Era só sangue já escorrendo pelo pescoço. Um moleque caiu com a boca aberta sobre mim e bateu os dentes na minha cabeça. 

Lá fui eu correndo pra casa na rua do lado, dar aquele susto na mãe ao abrir a porta cheio de sangue...

---

Instantes de uma vida 


Sobre esquerdismo (3) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

Neste texto, sigo a leitura da obra de Vladimir Lênin sobre a questão do esquerdismo, recortando alguns excertos que achar interessantes. 

Ao longo de minha vida de representação política e sindical da categoria bancária, como membro da maior corrente política da Central Única dos Trabalhadores, a Articulação Sindical, sempre tive claro essa questão do esquerdismo. 

A obra de Lênin só confirma o que aprendi na prática política em mais de duas décadas de militância. 

---

Capítulo VII - Deve-se participar nos parlamentos burgueses?

Lênin avalia o conteúdo de um boletim dos comunistas "esquerdistas" da Alemanha. Eles afirmam que o parlamentarismo caducou e por isso não devem tentar participar e influir naquele sistema de representação política. O ano é 1920.

O líder revolucionário russo discorda dessa leitura, diz que "Mais uma vez, constatamos que os 'esquerdistas' não sabem raciocinar".

E segue:

"(...) poderíamos assegurar sem vacilar que o parlamentarismo na Alemanha ainda não caducou politicamente, que a participação nas eleições parlamentares e na luta através da tribuna parlamentar são obrigatórias para o partido do proletariado revolucionário, precisamente para educar os setores atrasados de sua classe, precisamente para despertar e instruir a massa aldeã inculta, oprimida e ignorante."

Lênin, após criticar também os esquerdistas holandeses e suas infantilidades ao defenderem não disputar os parlamentos, enumera condições específicas da Rússia de 1917 que contribuíram para o êxito da Revolução. 

Depois afirma:

"(...) E a repetição dessas condições ou de outras semelhantes não é nada fácil. Por isso, entre outras razões, é mais difícil para a Europa Ocidental que para nós começar a Revolução socialista. Tratar de 'furtar-se' a essa dificuldade 'saltando' por cima do árduo problema de utilizar os parlamentos reacionários para fins revolucionários é pura infantilidade."

O líder russo é claro e objetivo em suas explicações. Há que se conjugar o trabalho legal de organização da classe proletária e camponesa, nos parlamentos, com a ilegal, clandestina.

---

Capítulo VIII - Nenhum compromisso?

Lênin nos explica como as classes dominantes e burguesias europeias enganavam as classes populares com uma ideia de compromisso, primeiro "patriótico", durante a guerra de 1914-1918, e depois com a "Sociedade das Nações", no fundo o interesse era o de sempre, espoliar as riquezas do povo.

Fica claro, para mim, que não se deve só apostar em guerras e sim avaliar acordos táticos com outros grupos "mesmo que sejam apenas temporários", diz Lênin, e que possam dividir o inimigo.

O líder revolucionário da única Revolução que havia triunfado até ali, 1920, diz no texto o quanto seguia difícil mantê-la para o proletariado, pois a burguesia era organizada internacionalmente. Além da questão do costume, do hábito mental, dos produtores de quase tudo na própria Rússia (ideologia da classe dominante, eu diria). 

Tratado de Versailles

"Finalmente, um dos erros incontestes dos 'esquerdistas' da Alemanha consiste em sua insistência inflexível em não reconhecer o Tratado de Versailles".

Lênin tem posição firme na estratégia e foco em derrotar a burguesia e, para isso, o Tratado seria bom em questões táticas. 

"A derrubada da burguesia em qualquer dos grandes países europeus, inclusive Alemanha, é um acontecimento tão favorável para a revolução internacional que, em proveito dessa derrubada, podemos e devemos aceitar, se for necessário, uma existência mais prolongada do Tratado de Versailles. Se a Rússia pôde resistir sozinha durante vários meses ao Tratado de Brest, com proveito para a Revolução, não é nada impossível que a Alemanha Soviética, aliada à Rússia Soviética, possa suportar mais tempo com proveito para a revolução o Tratado de Versailles."

E o líder russo finaliza o capítulo alertando:

"(...) é uma tolice e nada tem de revolucionário. Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem para nada os políticos da classe revolucionária que não sabem 'manobrar', que não sabem concertar 'acordos e compromissos' a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável.".

---

Comentário final 

Amigas e amigos leitores, é quase impossível não me lembrar neste exato momento brasileiro e internacional, na véspera do processo eleitoral de 2026, de certas correntes, partidos e grupos que se consideram mais à esquerda que nós, petistas e cutistas, ao ler essa obra seminal de Vladimir Lênin sobre a doença infantil do esquerdismo. 

Seguimos nas lutas!

William 

23/06/26

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Instantes (13h05)



Refeição Cultural

LEITURAS E ESCRITAS


Assim que acordei nesta segunda-feira de junho no mundo mundo vasto mundo do poeta Drummond e outros humanos mais, refleti sobre a vida e ainda na cama escrevi um pequeno texto sobre instantes de uma vida.

Li um bom artigo do jornalista José Reinaldo sobre os abusos fiscais concedidos a igrejas e que tais, benefícios fiscais em prejuízo de direitos fundamentais como saúde, educação etc (recurso público é assim, tira de um setor para outro no orçamento). Há décadas afirmo que o Brasil não é um país laico. A prova jurídica e material disso é a Constituição Federal de 1988 citar "Deus" em seu preâmbulo. Um absurdo! Respeito a fé de todas as pessoas, mas se a lei maior de um país escolhe uma religião, o país não é laico para seus cidadãos. Básico isso!

Fiz meus exercícios de aprendizagem e memorização de línguas num aplicativo do celular.

Em seguida, refleti sobre o dia, o que fazer do meu dia? Depois de décadas, não vendo mais minhas horas de trabalho. Foram quase quarenta anos sem o direito à escolha do que fazer com o meu tempo, com o meu corpo. Isso no momento no qual as pessoas têm saúde plena, os seus corpos aptos para as escolhas que queiram, via de regra, é claro! Porcentagem importante das pessoas tem graus diversos de deficiências físicas ou intelectuais, e vida ativa também, é claro! Não foi o meu caso ter alguma deficiência, só isso quis dizer.

Me levantei para o dia desejoso de acabar alguma coisa em andamento. Meus pensamentos têm me direcionado a realizar coisas que havia planejado ou desejado no passado. Aquelas que valem a pena ainda, claro. Ler livros é uma delas. A lista de desejos de leituras é do tamanho de uma vida de tartarugas ou árvores, de centenas de anos. E eu não tenho esse tempo, sequer sei se tenho dias ou meses, isso não depende só de mim. Tenho hoje o tempo que não tive, mas não tenho mais o corpo que tinha. Natureza. E ainda tem a morte de surpresa, que pega a gente num instante qualquer. 

A intenção é terminar três livros no mês, dois daqueles meus iniciados e nunca terminados, e um que apareceu de supetão, o do Lênin falando sobre o esquerdismo, a doença infantil do comunismo. O Lula disse o óbvio dias atrás, que nunca foi esquerdista, e a militância e outros mais saíram falando absurdos por aí.

Enquanto termino a leitura do livro sobre saúde suplementar, fico me questionando o porquê disso, se não lido mais com o tema. Aí respondo a mim mesmo que é porque eu não ganho nada em perder esse conhecimento que adquiri quando fui gestor de saúde eleito pela comunidade do banco público no qual trabalhei e dediquei o melhor de meus dias e saúde: aquelas horas que citei no início dessa reflexão. 

Quando estudava para concursos públicos era comum os professores e mestres dizerem que conhecimento não ocupa espaço (mas informação sozinha não é conhecimento, ok?) e que ele é cumulativo. Conheço bem mais do cérebro humano hoje, principalmente depois de ler o neurocientista Miguel Nicolelis. Sei que o cérebro é seletivo, que pode ser desenvolvido e exercitado, que é flexível ao que é demandado a ele. Por isso não quero perder o que sei e quero aprender o que não sei ainda. 

Vamos lá viver o dia. Tenho coisas a aprender.

(Eu sinto muito pelo resultado eleitoral na Colômbia. O povo ao qual pertenço enquanto classe vai sofrer muito. É uma pena estarmos sujeitos à manipulação dos donos do poder. Se as pessoas tivessem educação, seriam livres e estariam menos expostas à manipulação)

William 

22/06/26

A saudável e lúdica ação de brincar (7)


Brincar de carrinho no tapete da sala ou na calçada na frente de casa é uma lembrança saudosa da infância. 

Brinquei muito de carrinho até os dez anos de idade no sobradinho onde nasci no Rio Pequeno. 

Tenho até hoje alguns carrinhos de ferro da Matchbox, guardados como tesouros da infância, são de meados dos anos setenta. 

Nem sei direito como os carrinhos chegaram até a estante, cinquenta anos depois. Sobreviveram comigo aos duros anos infanto-juvenis.

O barquinho azul eu não tenho mais. Tenho algumas bolinhas de gude, brinquei muito de bolinhas de gude também. 

Talvez a infância que tive até os dez anos de idade, de boas lembranças, tenha me salvado de ser uma pessoa ruim.

---

Instantes de uma vida 

domingo, 21 de junho de 2026

Umas boas chineladas (6)


O moleque abriu a gaveta da cômoda do quarto e começou a pegar roupas e pôr na cama.

Estava revoltado com alguma negativa do pai ou da mãe. O pirralho deveria ter uns sete ou oito anos de idade.

Na negativa, disse que iria embora daquela casa. "Vai!" ouviu. Subiu as escadinhas do sobrado e foi pegar suas roupas.

Não teve castigo dessa vez. O costume era ficar de castigo quando fazia coisa errada. Seus amigos da rua apanhavam.

O moleque metido a fujão foi colocado de bruços no colo, na mesma cama onde estavam as roupas separadas e levou umas boas chineladas.

Aquele dia mereceu as chineladas. Onde já se viu uma merda daquela...

---

Instantes de uma vida 

sábado, 20 de junho de 2026

A loira do banheiro (5)


O medo era uma sensação horrível e humilhante. Como dar o braço a torcer e confessar que tinha medo?

A gente acabava dando um jeito de ir ao banheiro quando outros moleques iam. E era algo inconfessável tentar mijar rápido pra não ser o último a sair.

Acontece que sempre tinha um filho da mãe que mijava rápido e saía gritando "a loira do banheiro!", "a loira do banheiro!"...

Meu, a gente saía correndo com o pinto na mão, molhando as calças. 

Me lembro dessas correrias da loira do banheiro quando vou ao colégio Adolfino em dias de eleições. 

Quando criança a gente achava tudo enorme. O pátio da escola e o banheiro são pequenos perto do tamanho da minha lembrança.

Minha mãe subia a pé comigo para me levar de casa ao colégio Adolfino, no Rio Pequeno. Estudei lá da primeira à quarta série. Foi um tempo bom. Era feliz.

---

Instantes de uma vida