quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (2)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Estamos em agosto de 2026. Em poucos dias, as campanhas eleitorais serão iniciadas oficialmente, segundo o calendário do TSE.

Será um processo eivado de irregularidades e abusos por parte do bolsonarismo e da extrema-direita. Além da interferência dos EUA e dos sujeitos indicados na suprema corte por Bolsonaro. 

Na minha avaliação, já estamos sofrendo interferência nas eleições brasileiras para derrotar o presidente Lula e o povo brasileiro.

Retomei a leitura das memórias do Zé Dirceu, figura relevante na história do país e da esquerda brasileira. Um grande militante e quadro de nosso campo democrático.

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6. A BATALHA DA MARIA ANTÔNIA 

A verdadeira história do que aconteceu naquele dia em Higienópolis e a insanidade de um congresso da UNE em Ibiúna

Capítulo muito interessante! Me lembrei dos inúmeros rachas no movimento de esquerda, ontem e hoje. A repressão estatal vindo pra cima da resistência democrática e a militância toda dividida... isso nunca muda!

Zé Dirceu conta que o congresso da UNE em Ibiúna atrasou dois dias por causa de brigas pra definir mesa, pauta, regimento interno etc... é a esquerda que sempre vi.

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7. CABRAS MARCADOS PARA MORRER 

A angústia de viver na prisão e a desconfiança de que seriam todos fuzilados

Zé Dirceu, que esteve preso no Quartel de Quitaúna, perto de onde moro em Osasco, nos conta que o Comandante Carlos Lamarca saiu de lá (desertou pra lutar), levando armamentos e munições, para combater a ditadura militar. 

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8. VAI PRA CUBA!

A troca pelo embaixador norte-americano, o exílio, o treinamento guerrilheiro e outras aventuras 

Capítulo cheio de histórias. Zé Dirceu nos conta passagens marcantes de sua saída da prisão no Brasil, sendo um dos quinze militantes trocados pelo embaixador norte-americano. 

Ao falar sobre sua estadia em Cuba, senti saudades do país e seu povo. Já estive na Ilha três vezes.

Zé Dirceu citou Ana Corbisier como uma das quatro brasileiras em treinamento guerrilheiro em Cuba. A conheci recentemente e li seu livro "Clandestina".

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Estou na estrada. Vou passar o dia dos pais com o Palmério, meu velho pai, e minha mãezinha querida. 

Sigamos lutando a vida. 

William 

06/08/26

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Livro: Yargo - Jacqueline Susann



Refeição Cultural

LITERATURA

"Ah, Deus, implorei. Se for alguma coisa de Marte, não deixe que seja rastejante. Não me importo que tenha três olhos ou duas cabeças, só peço que não seja viscoso ou rasteje. Apoiei-me contra a parede e esperei."


Jacqueline Susann (1918-1974) escreveu em meados dos anos cinquenta do século passado um romance de ficção científica - Yargo (não publicado à época). 

A atriz e escritora norte-americana foi uma mulher que se destacou por sua capacidade de criação literária e por se impor como pessoa pública com opiniões próprias mesmo em sociedades tipicamente machistas e patriarcais. 

Li que ela tinha um altíssimo Quociente de Inteligência (QI), medidor muito comum naquele tempo. Como toda mulher, ela teve que ser muito firme em seus propósitos para ter uma carreira exitosa naquilo que escolheu fazer: escrever e interpretar.

Seu primeiro romance de sucesso foi O vale das bonecas (1966). Os dois romances seguintes - A máquina do amor (1969) e Uma vez só é pouco (1973) - tiveram boa acolhida dos leitores também: ela foi campeã de vendas. No Brasil, seus livros foram publicados pelo Círculo do Livro. A escritora faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de um câncer. Dois livros dela foram publicados após sua morte: Dolores (1976) e Yargo (1979).

Eu nasci em 1969 e passei a ler livros nos anos oitenta. Morava em Uberlândia (MG) e nossa família era muito humilde, éramos brasileiros típicos que lutavam diariamente para sobreviver num país violento contra os pobres e despossuídos e de impunidade aos ricos e donos do poder político. Meu primo Jorge Luiz assinava o Círculo do Livro e emprestar livros dele para ler foi uma oportunidade definidora de meus gostos naquele momento e como adulto.

Eu também dava meus jeitos de ler livros de interesse à época, ou comprando ou pegando na biblioteca da escola. Ficção científica, suspense e terror, ciências e coisas misteriosas eram alguns temas de meu interesse. Discos voadores, monstros, deuses e demônios, Triângulo das Bermudas, Atlântida, misticismo, histórias antigas de povos e civilizações etc, eu acreditava em tudo isso e lia muitos autores que abordavam esses temas.

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"Mais um líder se pôs de pé, com uma magnífica sugestão. Segundo a tradução de Sanau, a proposta dele era me fazerem uma lavagem cerebral e me mandarem de volta à Terra..."

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Foi esse rapaz que leu Yargo (1979), de Jacqueline Susann, ainda morando em Uberlândia. Aos 18 anos eu iria voltar para São Paulo, deixando meus pais em Minas Gerais. Devo ter lido dezenas de livros durante minha adolescência mineira, e alguns deles me impactaram e sem dúvida compuseram a pessoa na qual fui me transformando com o passar dos anos. Este romance de Susann foi um dos livros que nunca me esqueci, a história de Janet Cooper compôs minha memória de longo prazo. Óbvio que na memória o que ficou foi a lembrança da moça que foi abduzida na praia, sem detalhe algum.

Faz uns quinze anos, meu primo Jorge me perguntou se queria pegar alguns dos livros antigos dele, pois estava se desfazendo de tudo que era mídia de cultura em meio físico para só ter coisas digitais e virtuais. Eu escolhi livros como esse de Jacqueline Susann e, às vezes, sinto o desejo de reler um dos livros que li décadas atrás, no início de minha vida adulta, para tentar me encontrar com aquele rapaz que fui, naquele contexto, e tentar compreender como aqueles livros me caíram nos pensamentos e ideias que tinha à época. A experiência é bem interessante!

Ao decidir recentemente ler mais livros de mulheres e sobre mulheres, escritoras, poetas e políticas, pensei em alguns livros que tenho em casa, lidos ou aguardando a leitura. E o romance sobre aquela moça que foi abduzida na praia, e que ficou em minha lembrança como um livro marcante, de Jacqueline Susann, foi o escolhido dessas últimas semanas. Gostei do romance!

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"- Talvez eu possa esclarecer este desejo com um exemplo pessoal. Quando você era criança, Janet, provavelmente pensava que nunca iria para a cama, se permitissem. Quando chegava a hora, você relutava, como todas as criança, utilizando os mais diversos recursos. Contudo, agora que está mais velha e pode ficar acordada até a hora que quiser, há vezes em que recebe de bom grado o sono, e se entrega a ele voluntariamente. Assim é a morte para um yargoniano maduro."

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O livro é muito bem escrito. A autora teceu uma história que permite aos leitores, tanto da época quanto de hoje, perceberem as bases da sociedade norte-americana de meados do século vinte, os costumes e contradições, os temas em evidência naquele cenário de início de Guerra Fria e de efervescência consumista do estado de bem-estar social pós 2ª Guerra Mundial. É nítido o papel esperado das mulheres ao lado de seus maridos provedores do lar, a corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo religioso dos capitalistas em contraposição ao mundo dos ateus comunistas etc.

Aquelas décadas da segunda metade do século vinte alimentaram a imaginação de boa parte da população ocidental com a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros planetas, discos voadores, viagens no tempo e espaço, formas de se dominar a mente das pessoas, poderes paranormais e super-homens e mulheres. O jovem que fui acreditou em absolutamente tudo isso. Eu li Charles Berlitz, J. J. Benítez, Erich Von Däniken, li vários livros de terror, demônios, fantasmas...

Enfim, valeu a leitura! Hoje sou outra pessoa, outro leitor. E tenho muitos livros a ler e reler, os clássicos que não li, os novos que estão sendo lançados e os livros que merecem a releitura. Inclusive fiquei interessado nos outros romances de Jacqueline Susann.

William

05/08/26


Bibliografia:

SUSANN, Jacqueline. Yargo. Tradução: Isabel Paquet de Araripe. Círculo do Livro. São Paulo, 1979.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Até antes: "Divagando pela vida", ele finaliza aos 67 anos, no dia de seu aniversário. Ele conseguiu mexer com computador e internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

sábado, 1 de agosto de 2026

Aos dez anos, minha vida mudou (23)


A lembrança que tenho é de falar para meus pais que se eles quisessem poderiam vender meus brinquedos pra ajudar na situação ruim que a gente estava vivendo. 

Estava no banco de trás do carro em movimento. Não sei dizer se foi na viagem definitiva para Minas Gerais, deixando para trás meu mundo. A cena é real, o contexto é suposição. 

No futuro, olharia para a primeira infância vivida no Rio Pequeno como o período no qual fui feliz. O sobradinho, os amigos e brincadeiras, nosso cachorro pequinês Leique, o colégio Adolfino. 

Tombos de bicicleta, empinar pipa, jogar bola, os cortes na cabeça com pedrada, latada e dentada, as idas na casa dos tios que moravam na Ricardo Cipicchia, atrás do Adolfino, as demais crianças da família, que eram tipo primas, tudo ficou no passado.

Com dez anos de idade, chegava com meus pais e minha irmã a Uberlândia, para começar uma nova vida. Era 1980. Nossa primeira casa foi no fundo do quintal da Dona Nenzinha. E nossa escola seria o Hortêncio Diniz, na mesma rua de casa. 

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Instantes de uma vida

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Instantes (16h54)



Refeição Cultural

O que é a vida? A resposta biológica é simples. Só um tipo de ser vivo faz pergunta parecida. Em geral, a vida só é. 

O pássaro cantando na gaiola da sacada aqui perto... essas plantas multicores ao meu redor... os insetos... os seres não visíveis a olho nu, como esses vírus, bactérias, fungos... a vida só é. 

Biologicamente, a minha vida também só é. Fui vivendo, vivendo, vivendo. Décadas. Poderia ter deixado de existir inumeráveis vezes nesse percurso de décadas de veredas, trilhas, caminhos, encruzilhadas. 

E cheguei até aqui, estou aqui, com esse pássaro na gaiola, as plantas, os insetos, esses seres microscópicos, inclusive esses que me enchem de catarro. Para todos nós, a vida é. Porque estamos vivos.

Por décadas, fiquei procurando respostas. Encontrei-as. Pensei novos questionamentos, sentidos...

Tô nesse ponto. Suspeito de muitas coisas. Vislumbro coisas terríveis adiante. A impotência por não poder mudar o que vejo adiante... me deixa...

A gente não desiste por causa dos contratos sociais, por causa daquela gaiola do nome que o Rubem Alves nos conta... por causa do que esperam da gente, grafado em tudo que vem com o seu nome...

William 

31/07/26

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Livro: O pão e a pedra - Sérgio de Carvalho



Refeição Cultural

"Porque a representação é a procura do outro. É a alegria de viver o que não somos. Representar não é forjar estados, mas construir mudança." (p. 44)


Ganhei de presente, dias atrás, de Sérgio de Carvalho e Marili Santos um box com três peças teatrais da Companhia do Latão. Uma edição lindíssima!

O box contém as peças O pão e a pedra, Os que ficam, e Lugar nenhum.

Como leitor, tenho pouca experiência com peças teatrais. Li alguns clássicos de William Shakespeare e mais algumas peças, pouca coisa. Tenho muito que aprender ainda.

A peça O pão e a pedra (2016) traz em seu enredo a greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, momento de surgimento do Novo Sindicalismo, com Lula sendo uma das principais lideranças sindicais no enfrentamento à carestia e ao autoritarismo da ditadura mancomunada com as elites patronais.

Gostei muito da peça! Me lembrei um pouco de Eles não usam black-tie, de Gianfranchesco Guarniere (minha referência é o filme de Leon Hirszman). Ver a Companhia do Latão interpretando O pão e a pedra deve ser muito emocionante!

Sérgio de Carvalho faz uma apresentação no início do livro muito esclarecedora. 

Me sensibilizei na hora com as informações e o contexto no qual a pré-estreia se deu, no dia 12 de maio de 2016, dia do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro. Um ato infame como foi toda a ditadura que enfrentamos por duas décadas. 

O parágrafo a seguir exemplifica a pesquisa desenvolvida pelo autor dramaturgo sobre as relações entre os movimentos da época: igreja, sindicatos, estudantes etc.

"A procura de compreensão daquele momento histórico pouco conhecido, em que os religiosos realizaram uma resistência ativa à ditadura civil-militar, me aproximou, entretanto, de outras questões. A mais importante foi a da relação entre esse clero progressista e o chamado 'novo sindicalismo', que se desenvolveu e ganhou projeção nacional com as grandes greves do ABC nos anos de 1978, 1979 e 1980. Essa junção entre a igreja e o movimento de trabalhadores, tensionada pela pressão de setores intelectualizados e o movimento estudantil de esquerda, se tornaria emblemática na luta pela democratização e mudaria as coordenadas da política de esquerda no país." (p. 10)

Depois Sérgio de Carvalho nos explica os motivos da escolha da greve de 1979: 

"(...) Para todos nós, fortalecia-se uma perspectiva da história: a das dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou sessenta dias. Foram quinze dias de máquinas paradas e 45 dias de 'trégua' com mobilização dentro e fora das fábricas. Ao final das contas, esta seria uma peça sobre aprendizado, o deles e o nosso..." (p. 11)

Momento mágico (e histórico)

A cena de Lula discursando sem sistema de som na assembleia do dia 13 de março de 1979, no Estádio da Vila Euclides, com sessenta mil trabalhadores, é um momento mágico na história da classe trabalhadora brasileira. Ela se dá na Primeiro ato, Cena 8, "Corais da Vila Euclides". 

Destaco, porém, que não há representação do personagem Lula. Há uma ausência consciente do líder, de maneira que vivenciamos no drama as pessoas comuns tomando as decisões e fazendo o que pessoas comuns fazem.

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Comentário final 

A leitura da peça e dos textos excelentes que acompanham a edição - de Mario Sergio Conti e Maria Lívia Goes - dão aos leitores uma experiência enriquecedora sobre a temática desenvolvida pela Companhia do Latão. 

Realmente, a leitura é um momento cultural de muita reflexão e aprendizagem.

Recomendo a experiência às amigas e amigos leitores.

William 

29/07/26


Bibliografia:

CARVALHO, Sérgio de. O pão e a pedra. São Paulo: Editora Temporal, 2019.

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 29 de julho de 2026. Quarta-feira. 


10h15

Novamente, dormi menos que o suficiente. Estou madrugando sem ser esse meu hábito. Sinal ruim. O catarro e as tosses já encheram o saco. É hora de acabar essa porra de gripe.

Ainda não fiz meu exercício de memorização. Deixei pra mais tarde. O objetivo do dia é continuar a leitura da peça O pão e a pedra, que ganhei de presente de Sérgio de Carvalho e Marili Santos. O ideal é terminar a peça hoje. 

O ano é 1979, os trabalhadores voltam ao trabalho após 15 dias de greve. Foi Lula quem propôs a volta ao trabalho por 45 dias após negociar com os patrões. Os metalúrgicos aprovaram a proposta, dando um voto de confiança ao líder sindical. 

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"Arantes 

Toma seu café, rapaz. Faz como a Luísa e vira outra coisa. O contrário de nós não é o sindicato. Inimigo é quem me obriga a empilhar pedra e não me deixa ouvir música." (p. 144)

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No Segundo ato, vejo uma cena que vi por décadas no movimento sindical. Um rapaz do movimento estudantil, de um desses grupos revolucionários, se interessou por um metalúrgico - Arantes - da oposição ao Sindicato dos Metalúrgicos, do Lula, e o trabalhador o dispensou assim que ouviu o blá-blá-blá do sujeito.

Entra ano, sai ano, década, século, a gente que vive a realidade da classe trabalhadora, que já militou, que já dirigiu e estudou o movimento sindical vai adquirindo certa experiência na leitura de mundo que não nos permite ilusões e tentativas de disfarçar a realidade material e objetiva: essas divisões infinitas na esquerda só favorecem nossos inimigos. Só.

No momento, para qualquer lugar que olho e observo, só vejo o que vi por décadas: divisões, futricas, vaidades, personalismos, e foco nos defeitos do nosso lado fragmentado. Os meios para a nossa derrota são praticamente todos do inimigo. Ele tem bombas, big techs, imprime dólar, e a burguesia mais canalha e vira-lata do planeta, em espaços de poder. Nenhum país tem uma tropa quinta-coluna como a direita tem no Brasil. 

Impressões que me vieram à mente ao ler a peça do Sérgio de Carvalho e da Companhia do Latão.

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23h59

E o dia terminou. 

Acabei a leitura da peça O pão e a pedra, do dramaturgo Sérgio de Carvalho. 

Sigo catarrento, tossindo, estressado com essa gripe que não acaba, não termina.

O app WhatsApp sugeriu aos usuários que não souberem falar, não tiverem palavras, quando forem de vocabulário precário, que peça para a sua "IA" (nem inteligente, nem artificial) que escreva e fale pelo usuário de fala empobrecida...

Eu fiquei pensando nos personagens humanos de Vidas secas, que quase não falavam por outros motivos, que o romance denuncia. 

Agora não. As big techs têm um projeto de emburrecimento e estupidificação da espécie humana, que vem perdendo sua capacidade de linguagem, e aí sugerem o remédio de usar suas "IA" para tentar se comunicar com outras pessoas humanas...

Acaba logo com isso ("IA"), senão isso acaba com o mundo.

William

Post Scriptum: nenhuma porcaria de "IA" escreve o texto que eu criei, com as palavras com sentidos denotativos e conotativos como usei. Como pode a humanidade cair numa manipulação idiota como essa?

terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

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Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

---

polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

---

não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

---


ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

---

sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de julho de 2026. Terça-feira. 


07h46

Perdi o sono antes das 5h30. Dormi pouco. Era de se esperar que depois de uma semana dormindo em cama estranha, na Colônia dos Professores na Praia Grande, o corpo aproveitasse o colchão de costume para descansar. Não rolou. 

A cabeça está fervilhando com a tal biblioteca e espaço cultural que quero fazer, uma espécie de centro de documentação, um canto de cultura,  história e memória. Preciso pensar uma forma de fazer isso. Sinto que não tenho tempo sobrando para esperar. Cada dia é um dia a menos. 

Vou comer alguma coisa, fazer exercícios para a minha memória com a língua japonesa, e ler livros iniciados. Na ordem, vou terminar Leminski, depois Sérgio de Carvalho, depois Jacqueline Susann. Esses três. Depois vejo a sequência. 

Fiquei a semana toda com uma gripe fortíssima, ainda estou todo verde por dentro e com tosse. Imagino que se não tivesse tomado a vacina da gripe deste ano, estaria mais ferrado ainda. 

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15h29

"o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz 

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique "


A gripe faz a gente ficar meio merda. Assoar o nariz o tempo todo, aquele nojo, argh. A tosse deixa a gente sem paciência. 

Fui ao mercado numa leseira só. Estou lendo o Leminski. Seus poemas são seus golpes de caratê mesmo, perfeitos. 

De manhã, exercitei meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo, criando associações para memorizar desenhos de ideogramas, sons das palavras e significados.

Faz dois meses que tive descolamento do humor vítreo do olho esquerdo... o embaçamento das primeiras semanas passou, já posso dirigir. Agora convivo com as "moscas volantes". E consigo ler.

Como diz o poeta:


"não discuto

com o destino 


o que pintar 

eu assino"


É por aí, Leminski...

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23h42

A gripe segue me impedindo de praticar atividades físicas. A tosse seca deixa a gente bastante estressado e irritadiço. Mas vou melhorar.

Terminei o livro caprichos & relaxos (1983), de Leminski. Fiz postagem no blog. 

Vi o pôr do sol. Ouvi os passarinhos.

Trabalhei um pouco na sistematização de meus textos nos blogs. Tenho que ter disciplina para organizar os cadernos dos blogs e dedicar algum tempo diariamente para essa tarefa.

Vamos dormir para contribuir com a recuperação do corpo.

William

domingo, 26 de julho de 2026

Instantes (11h37)



Refeição Cultural

LEITURAS


Domingo na Colônia dos Professores de São Paulo na Praia Grande. O sol deu o ar de sua graça, depois de sumir por três dias. Minha gripe começa a diminuir, depois de três dias mals.

Estou lendo a peça "O pão e a pedra", de Sérgio de Carvalho, peça da Companhia do Latão. A obra retrada as greves dos metalúrgicos em 1979, no ABC paulista. Militares e burguesia estavam unidos no golpe contra os trabalhadores, efetivado em 1964.

A estreia da peça se deu no dia 12 de maio de 2016, o dia que o senado brasileiro afastou a presidenta Dilma Rousseff, efetivando novo golpe contra os trabalhadores (comentei aqui). O povo sentiria na pele a miséria em sua vida, como foi a carestia do povo em 1979.

Para um ex-sindicalista como eu, leituras como a peça "O pão e a pedra" são leituras que me trazem muitas lembranças e reflexões, a gente revisita as concepções e práticas sindicais que foram as matrizes político-ideológicas que balizaram décadas de condução do movimento sindical cutista. 

Particularmente, gosto de textos que me tiram do conforto. Como meu cérebro está mais adaptado ao romance ficcional, ler peças teatrais exige de mim atenção e imaginação maiores. Isso é bom, me tira da mesmice e o verdadeiro criador de tudo, o cérebro, sai fortalecido do processo de leitura. 

Colônia do Sinpro SP.

O instante é único. Não se repetirá. Então, devo ir até a praia de Caiçara, andar em sua orla, aproveitar o sol, como se fosse o instante mais importante de minha vida. Sentir o ar que respiro, olhar o céu azul, sentir o calor do sol em meu rosto. O instante seguinte, meu e do meu entorno, é o acaso, o imponderável. 

Vou andar na praia...

William 

26/07/26

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal) - Leo Ricino



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA 


"(...) e só agora, aos quarenta e sete, estou a conseguir, por um motivo muito forte, me expor e falar espontaneamente de mim, inclusivamente desse meu problema pessoal, essa gaguez que sempre me acompanhou e da qual tive vergonha durante minha vida toda. Não poucas vezes acabei sendo mais cruel, como resultado da minha não aceitação dela e pela pequenez como ser humano que projetava em minha mente perturbada. Talvez." 


Li nesta semana um livro bem interessante. Aprendi muito sobre a história portuguesa, mesmo sendo um texto de ficção: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal), edição de 2019.

O autor - Leo Ricino - nos passa de forma leve e descontraída uma versão ficcional de como teria sido a vida e os instantes finais do 8° monarca português, D. Pedro I, que governou o Reino entre 1357 e 1367. Leo utiliza sua erudição em benefício dos leitores. 

No romance, o monarca D. Pedro I, o Justiceiro, já em seu leito de morte, ganha voz e escreve de punho uma autobiografia não formal, diferente daquela que constará nos anais da história. 

Leo nos esclarece que D. Pedro I de Portugal, em sua autobiografia, quer ficar conhecido em sua totalidade, em sua essência humana, e não somente com as formalidades oficiais do cargo, quer ir além da alcunha de "Justiceiro".

E aí, se preparem, leitor e leitora, pois vocês vão descobrir as maldades e vilanias do monarca português, ditas por ele mesmo, num momento no qual ele não tem nada a perder.

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"A raiva, a ira, a revolta e a sede de vingança ofuscam a clareza do pensamento e do agir, pois as decisões tomadas nos momentos de exacerbação da força sanguínea por todo o corpo carecem de claridade. E muito agi sob esses efeitos."

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Vamos viajar no tempo e nos costumes da Corte, veremos uma versão sobre Inês de Castro, famosa e conhecida por todos que já leram Camões ou que estudaram para vestibulares. 

Durante a leitura ficcional, os leitores sentem uma curiosidade incrível de ir aos manuais de história portuguesa para compilar história e ficção. Muito estimulante o método. 

Conhecemos o professor Leo e a professora Isabel, casal de amizade cativante, na Colônia dos Professores localizada na Praia Grande (SP). 

É isso, amig@s leitores. O livro está disponível no formato digital. Vale a pena ler essa ficção com pitadas de história. 

William 

24/07/26

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Instantes (15h)



Refeição Cultural

O DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO 

Estou ouvindo um passarinho cantando na árvore. O canto é magnífico! O clima está agradável. Havia previsão de chuva, mas não choveu na Praia Grande. O passarinho é um ser inofensivo. Minha espécie, não. 

Enquanto caminho diariamente na praia, observo as pessoas e o mundo ao meu redor. Gosto de ambientes de povão. Não gosto de ambientes de gente metida a besta. As ideias que predominam são as dessa gente.

O declínio acelerado da humanidade e do único planeta habitável para uma espécie como a nossa é por causa daquela gente metida a besta que citei acima. Essa gente endinheirada do 1% é a escória da humanidade. 

Ao longo da história humana, civilizações inteiras ruíram e desapareceram por causas diversas. Algumas por esgotamento dos recursos naturais, outras pelas decisões de seus líderes e donos do poder local. 

Com a tecnologia do momento, com a interligação de praticamente todos os grupos humanos, e com o domínio de pouquíssimos humanos sobre todos os meios - comunicação global, produção energética, alimentação, armas de destruição em massa - tendemos a ruir e desaparecer. 

Sabemos os motivos da destruição do mundo, mas não queremos nos indispor com os responsáveis...

William 

23/07/26

terça-feira, 21 de julho de 2026

Leitura: Poemas e maravilhas de Marili Santos (ano 2013)



Refeição Cultural

POESIAS E MARAVILHAS LITERÁRIAS


"TRINDADE

O que faz a vida deixar de parecer feliz
e sê-la de fato, é tão ridiculamente
simples, que às vezes deixamos de olhar e sentir o óbvio."


Após mergulhar na produção cultural da professora, poeta e escritora Marili Santos, lendo suas publicações dos anos de 2011 e 2012, embarquei na viagem através de seus textos publicados em 2013. São 133 obras de artes no referido ano e mais de 500 nos três primeiros anos do blog. 

As variações nas formas poéticas e nas temáticas das composições são muito interessantes. Poemas, haicais, elegias, contos, crônicas, brocardos (que eu nem sabia o que significavam) e textos diversos compõem um verdadeiro refeitório cultural para todos os tipos de gostos e sabores. Um verdadeiro acalanto. E por falar em acalanto:

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ACALANTO

Era bem cedo quando a velha senhora separava as gemas das claras, uma a uma, jogando na vasilha de ágata as preciosas, amarelos-ouro. Ao todo eram doze somente gemas. Arrastava as chinelas para cá e para lá, em movimentos deslizantes do chão recém-encerado. Pegou o vidro e mediu no prato fundo de sempre, do açúcar mais grosso, quase cristal, ajeitando as bordas com o dorso da colher de pau. Começou a bater as gemas com o açúcar primeiro lentamente, enquanto assoviava baixinho qualquer canção, depois o fremir era intenso; a melodia acompanhava agora os movimentos rápidos que nem a velhice havia ainda levado. Com a mão desocupada apanhava bocados de farinha de trigo que eram salpicados à mistura e assim, a massa ganhava o corpo que a boa e solitária mulher queria. O ponto era o mesmo de quarenta anos, nem um grama a mais nem um a menos de trigo. Chegou. A tábua longa disposta sobre a mesa esperava a mistura pronta para ser esticada, na espessura ideal e em seguida, ser cortada pela carretilha. Untou com manteiga bem gorda. Os sequilhos agora prontos descansariam o tempo certo de ela limpar o pouco que sujou. As pernas doíam demais e a saudade também. Sentada. Vigiava. Há que se vigiar, pois assam muito rápido. O cheiro era doce e terno. Colocou a segunda fornada.

Ouviu o chamado lá de longe, eram os netos, eram os netos.

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Uma coisa que aprendi nas aulas do curso de Letras, em uma disciplina de leitura de poesias, é a importância de conhecer os significados das palavras; procurar em dicionários os sentidos e possibilidades de sentidos das palavras da língua utilizada na confecção dos textos literários e poéticos.

Para ler os textos da escritora Marili Santos achei necessário deixar de lado a preguiça comum dos leitores e ir atrás do sentido das palavras para navegar melhor por seu mar de poesias, crônicas, haicais e outras maravilhas.

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PARALAXE

Eu você

Aqui e lá

Nós sem fim

Vento sim

Mudam-se

Olho e vejo

Você não vê

Que se há de fazer?

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Imaginem se, de supetão, os leitores sabem de brocardos, senescência, criptograma, malsinar, sobre o "Olho de Hórus", paralaxe, arquilexemas e arquifonemas e palavras várias de nossa língua pátria!

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Senescência

Broto vivo
em mim
nada é velho
vivo sem fim
seiva corre
em si
essência da vida
enfim.

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Por outro lado, para variar e alternar com os poemas mais exigentes, outros são pérolas com a linguagem mais prosaica e cotidiana possível.

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QUADRINHA SOLITÁRIA

Na calada da madrugada
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!

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Enquanto degusto cada maravilha cultural da poeta Marili Santos, aprendo e reaprendo os sentidos da linguagem humana.

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CONEXOS

dita
dita-me
ditame
dito
dito-cujo
ditador

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Uma realidade comum na existência das pessoas que dedicam parte de suas vidas para nos presentear com seus textos são os momentos de pouca inspiração e de bloqueios criativos. Eu já enfrentei instantes assim diversas vezes quando precisava escrever sobre algum tema.

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SEM INSPIRAÇÃO OU... que saco!

Fico pensando
que faz o poeta
o escritor, amante
namorado, professor
cozinheiro, escultor, ator, criador
qualquer ser que depende da inspiração... precisei de sete dias para escrever essa porcaria... Deus também precisou.

Que saco!

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A simplicidade prosaica de alguns poemas, elegias, haicais e crônicas, conjugada com a perfeição do uso das palavras para dizer algo que muitas vezes nós queríamos dizer e não sabíamos como dizer, é algo que só se encontra nas tecituras dos poetas.

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APOTEOSE

Adoro ver gente
que passa pelo
abismo, dor e
provação e tudo
tudo de mais
agressivo e
mesmo assim
sabe o que é viver!

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Não é!? O eu-lírico de "APOTEOSE" disse tudo! É preciso saber viver, já dizia o poeta na música dos Titãs.

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COMENTÁRIO FINAL

Como disse no início, degustar os textos de Marili Santos em seu blog Valsa Literária é um verdadeiro banquete naquele refeitório cultural.

Aos poucos, vou conhecendo a produção poética e literária da professora e escritora. 

O que nos faz humanos é o que nos diferencia dos demais animais e seres vivos na natureza. Produzir cultura é uma das características dessa espécie única que somos.

Se vocês apreciam poesia e outras formas de manifestações culturais, visitem o blog Valsa Literária, vocês vão gostar muito.

William

O blog: https://valsaliteraria.blogspot.com

sábado, 18 de julho de 2026

As dores da infância e da maturidade (22)


Me lembro de quando tive hepatite nos anos setenta, morando no sobradinho do Rio Pequeno, na Zona Oeste de São Paulo. 

Provavelmente tive hepatite A porque a gente vivia enfrentando enchentes no bairro e água suja é uma das formas de transmissão da doença. 

A lembrança que tenho são as cólicas abdominais na região do fígado. A gente mija urina escura e fica todo amarelo, até o branco do olho fica amarelão. 

Na época, mandavam o doente comer doces. Cresci dizendo que não gosto muito de doce por isso. Tudo lenda urbana. Não há evidências sobre o benefício da prática e nem deve ser por isso que como poucos doces. 

Faz meio século que tive hepatite morando ali no sobradinho. Incrível! Como o tempo passou!

Cinquenta anos depois, estive a poucas quadras de onde nasci numa reunião do Partido dos Trabalhadores, na Avenida Rio Pequeno. 

Para fazer minha atividade física de caminhar, voltei para casa, no Continental, a pé. São 5 Km. 

As dores meio século depois são de outra natureza. São crônicas e constantes. Desgastes nos ossos do quadril e coluna.

Tudo são lembranças e a vida em andamento. Natureza.

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Instantes de uma vida