quarta-feira, 29 de julho de 2026

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 29 de julho de 2026. Quarta-feira. 


10h15

Novamente, dormi menos que o suficiente. Estou madrugando sem ser esse meu hábito. Sinal ruim. O catarro e as tosses já encheram o saco. É hora de acabar essa porra de gripe.

Ainda não fiz meu exercício de memorização. Deixei pra mais tarde. O objetivo do dia é continuar a leitura da peça O pão e a pedra, que ganhei de presente de Sérgio de Carvalho e Marili Santos. O ideal é terminar a peça hoje. 

O ano é 1979, os trabalhadores voltam ao trabalho após 15 dias de greve. Foi Lula quem propôs a volta ao trabalho por 45 dias após negociar com os patrões. Os metalúrgicos aprovaram a proposta, dando um voto de confiança ao líder sindical. 

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"Arantes 

Toma seu café, rapaz. Faz como a Luísa e vira outra coisa. O contrário de nós não é o sindicato. Inimigo é quem me obriga a empilhar pedra e não me deixa ouvir música." (p. 144)

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No 2° Ato, vejo uma cena que vi por décadas no movimento sindical. Um rapaz do movimento estudantil, de um desses grupos revolucionários, se interessou por um metalúrgico - Arantes - da oposição ao Sindicato dos Metalúrgicos, do Lula, e o trabalhador o dispensou assim que ouviu o blá-blá-blá do sujeito.

Entra ano, sai ano, década, século, a gente que vive a realidade da classe trabalhadora, que já militou, que já dirigiu e estudou o movimento sindical vai adquirindo certa experiência na leitura de mundo que não nos permite ilusões e tentativas de disfarçar a realidade material e objetiva: essas divisões infinitas na esquerda só favorecem nossos inimigos. Só.

No momento, para qualquer lugar que olho e observo, só vejo o que vi por décadas: divisões, futricas, vaidades, personalismos, e foco nos defeitos do nosso lado fragmentado. Os meios para a nossa derrota são praticamente todos do inimigo. Ele tem bombas, big techs, imprime dólar, e a burguesia mais canalha e vira-lata do planeta, em espaços de poder. Nenhum país tem uma tropa quinta-coluna como a direita tem no Brasil. 

Impressões que me vieram à mente ao ler a peça do Sérgio de Carvalho e da Companhia do Latão.

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terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

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Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

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polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

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não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

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ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

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sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de julho de 2026. Terça-feira. 


07h46

Perdi o sono antes das 5h30. Dormi pouco. Era de se esperar que depois de uma semana dormindo em cama estranha, na Colônia dos Professores na Praia Grande, o corpo aproveitasse o colchão de costume para descansar. Não rolou. 

A cabeça está fervilhando com a tal biblioteca e espaço cultural que quero fazer, uma espécie de centro de documentação, um canto de cultura,  história e memória. Preciso pensar uma forma de fazer isso. Sinto que não tenho tempo sobrando para esperar. Cada dia é um dia a menos. 

Vou comer alguma coisa, fazer exercícios para a minha memória com a língua japonesa, e ler livros iniciados. Na ordem, vou terminar Leminski, depois Sérgio de Carvalho, depois Jacqueline Susan. Esses três. Depois vejo a sequência. 

Fiquei a semana toda com uma gripe fortíssima, ainda estou todo verde por dentro e com tosse. Imagino que se não tivesse tomado a vacina da gripe deste ano, estaria mais ferrado ainda. 

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15h29

"o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz 

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique "


A gripe faz a gente ficar meio merda. Assoar o nariz o tempo todo, aquele nojo, argh. A tosse deixa a gente sem paciência. 

Fui ao mercado numa leseira só. Estou lendo o Leminski. Seus poemas são seus golpes de caratê mesmo, perfeitos. 

De manhã, exercitei meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo, criando associações para memorizar desenhos de ideogramas, sons das palavras e significados.

Faz dois meses que tive descolamento do humor vítreo do olho esquerdo... o embaçamento das primeiras semanas passou, já posso dirigir. Agora convivo com as "moscas volantes". E consigo ler.

Como diz o poeta:


"não discuto

com o destino 


o que pintar 

eu assino"


É por aí, Leminski...

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23h42

A gripe segue me impedindo de praticar atividades físicas. A tosse seca deixa a gente bastante estressado e irritadiço. Mas vou melhorar.

Terminei o livro caprichos & relaxos (1983), de Leminski. Fiz postagem no blog. 

Vi o pôr do sol. Ouvi os passarinhos.

Trabalhei um pouco na sistematização de meus textos nos blogs. Tenho que ter disciplina para organizar os cadernos dos blogs e dedicar algum tempo diariamente para essa tarefa.

Vamos dormir para contribuir com a recuperação do corpo.

William

domingo, 26 de julho de 2026

Instantes (11h37)



Refeição Cultural

LEITURAS


Domingo na Colônia dos Professores de São Paulo na Praia Grande. O sol deu o ar de sua graça, depois de sumir por três dias. Minha gripe começa a diminuir, depois de três dias mals.

Estou lendo a peça "O pão e a pedra", de Sérgio de Carvalho, peça da Companhia do Latão. A obra retrada as greves dos metalúrgicos em 1979, no ABC paulista. Militares e burguesia estavam unidos no golpe contra os trabalhadores, efetivado em 1964.

A estreia da peça se deu no dia 12 de maio de 2016, o dia que o senado brasileiro afastou a presidenta Dilma Rousseff, efetivando novo golpe contra os trabalhadores (comentei aqui). O povo sentiria na pele a miséria em sua vida, como foi a carestia do povo em 1979.

Para um ex-sindicalista como eu, leituras como a peça "O pão e a pedra" são leituras que me trazem muitas lembranças e reflexões, a gente revisita as concepções e práticas sindicais que foram as matrizes político-ideológicas que balizaram décadas de condução do movimento sindical cutista. 

Particularmente, gosto de textos que me tiram do conforto. Como meu cérebro está mais adaptado ao romance ficcional, ler peças teatrais exige de mim atenção e imaginação maiores. Isso é bom, me tira da mesmice e o verdadeiro criador de tudo, o cérebro, sai fortalecido do processo de leitura. 

Colônia do Sinpro SP.

O instante é único. Não se repetirá. Então, devo ir até a praia de Caiçara, andar em sua orla, aproveitar o sol, como se fosse o instante mais importante de minha vida. Sentir o ar que respiro, olhar o céu azul, sentir o calor do sol em meu rosto. O instante seguinte, meu e do meu entorno, é o acaso, o imponderável. 

Vou andar na praia...

William 

26/07/26

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal) - Leo Ricino



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA 


"(...) e só agora, aos quarenta e sete, estou a conseguir, por um motivo muito forte, me expor e falar espontaneamente de mim, inclusivamente desse meu problema pessoal, essa gaguez que sempre me acompanhou e da qual tive vergonha durante minha vida toda. Não poucas vezes acabei sendo mais cruel, como resultado da minha não aceitação dela e pela pequenez como ser humano que projetava em minha mente perturbada. Talvez." 


Li nesta semana um livro bem interessante. Aprendi muito sobre a história portuguesa, mesmo sendo um texto de ficção: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal), edição de 2019.

O autor - Leo Ricino - nos passa de forma leve e descontraída uma versão ficcional de como teria sido a vida e os instantes finais do 8° monarca português, D. Pedro I, que governou o Reino entre 1357 e 1367. Leo utiliza sua erudição em benefício dos leitores. 

No romance, o monarca D. Pedro I, o Justiceiro, já em seu leito de morte, ganha voz e escreve de punho uma autobiografia não formal, diferente daquela que constará nos anais da história. 

Leo nos esclarece que D. Pedro I de Portugal, em sua autobiografia, quer ficar conhecido em sua totalidade, em sua essência humana, e não somente com as formalidades oficiais do cargo, quer ir além da alcunha de "Justiceiro".

E aí, se preparem, leitor e leitora, pois vocês vão descobrir as maldades e vilanias do monarca português, ditas por ele mesmo, num momento no qual ele não tem nada a perder.

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"A raiva, a ira, a revolta e a sede de vingança ofuscam a clareza do pensamento e do agir, pois as decisões tomadas nos momentos de exacerbação da força sanguínea por todo o corpo carecem de claridade. E muito agi sob esses efeitos."

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Vamos viajar no tempo e nos costumes da Corte, veremos uma versão sobre Inês de Castro, famosa e conhecida por todos que já leram Camões ou que estudaram para vestibulares. 

Durante a leitura ficcional, os leitores sentem uma curiosidade incrível de ir aos manuais de história portuguesa para compilar história e ficção. Muito estimulante o método. 

Conhecemos o professor Leo e a professora Isabel, casal de amizade cativante, na Colônia dos Professores localizada na Praia Grande (SP). 

É isso, amig@s leitores. O livro está disponível no formato digital. Vale a pena ler essa ficção com pitadas de história. 

William 

24/07/26

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Instantes (15h)



Refeição Cultural

O DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO 

Estou ouvindo um passarinho cantando na árvore. O canto é magnífico! O clima está agradável. Havia previsão de chuva, mas não choveu na Praia Grande. O passarinho é um ser inofensivo. Minha espécie, não. 

Enquanto caminho diariamente na praia, observo as pessoas e o mundo ao meu redor. Gosto de ambientes de povão. Não gosto de ambientes de gente metida a besta. As ideias que predominam são as dessa gente.

O declínio acelerado da humanidade e do único planeta habitável para uma espécie como a nossa é por causa daquela gente metida a besta que citei acima. Essa gente endinheirada do 1% é a escória da humanidade. 

Ao longo da história humana, civilizações inteiras ruíram e desapareceram por causas diversas. Algumas por esgotamento dos recursos naturais, outras pelas decisões de seus líderes e donos do poder local. 

Com a tecnologia do momento, com a interligação de praticamente todos os grupos humanos, e com o domínio de pouquíssimos humanos sobre todos os meios - comunicação global, produção energética, alimentação, armas de destruição em massa - tendemos a ruir e desaparecer. 

Sabemos os motivos da destruição do mundo, mas não queremos nos indispor com os responsáveis...

William 

23/07/26

terça-feira, 21 de julho de 2026

Leitura: Poemas e maravilhas de Marili Santos (ano 2013)



Refeição Cultural

POESIAS E MARAVILHAS LITERÁRIAS


"TRINDADE

O que faz a vida deixar de parecer feliz
e sê-la de fato, é tão ridiculamente
simples, que às vezes deixamos de olhar e sentir o óbvio."


Após mergulhar na produção cultural da professora, poeta e escritora Marili Santos, lendo suas publicações dos anos de 2011 e 2012, embarquei na viagem através de seus textos publicados em 2013. São 133 obras de artes no referido ano e mais de 500 nos três primeiros anos do blog. 

As variações nas formas poéticas e nas temáticas das composições são muito interessantes. Poemas, haicais, elegias, contos, crônicas, brocardos (que eu nem sabia o que significavam) e textos diversos compõem um verdadeiro refeitório cultural para todos os tipos de gostos e sabores. Um verdadeiro acalanto. E por falar em acalanto:

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ACALANTO

Era bem cedo quando a velha senhora separava as gemas das claras, uma a uma, jogando na vasilha de ágata as preciosas, amarelos-ouro. Ao todo eram doze somente gemas. Arrastava as chinelas para cá e para lá, em movimentos deslizantes do chão recém-encerado. Pegou o vidro e mediu no prato fundo de sempre, do açúcar mais grosso, quase cristal, ajeitando as bordas com o dorso da colher de pau. Começou a bater as gemas com o açúcar primeiro lentamente, enquanto assoviava baixinho qualquer canção, depois o fremir era intenso; a melodia acompanhava agora os movimentos rápidos que nem a velhice havia ainda levado. Com a mão desocupada apanhava bocados de farinha de trigo que eram salpicados à mistura e assim, a massa ganhava o corpo que a boa e solitária mulher queria. O ponto era o mesmo de quarenta anos, nem um grama a mais nem um a menos de trigo. Chegou. A tábua longa disposta sobre a mesa esperava a mistura pronta para ser esticada, na espessura ideal e em seguida, ser cortada pela carretilha. Untou com manteiga bem gorda. Os sequilhos agora prontos descansariam o tempo certo de ela limpar o pouco que sujou. As pernas doíam demais e a saudade também. Sentada. Vigiava. Há que se vigiar, pois assam muito rápido. O cheiro era doce e terno. Colocou a segunda fornada.

Ouviu o chamado lá de longe, eram os netos, eram os netos.

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Uma coisa que aprendi nas aulas do curso de Letras, em uma disciplina de leitura de poesias, é a importância de conhecer os significados das palavras; procurar em dicionários os sentidos e possibilidades de sentidos das palavras da língua utilizada na confecção dos textos literários e poéticos.

Para ler os textos da escritora Marili Santos achei necessário deixar de lado a preguiça comum dos leitores e ir atrás do sentido das palavras para navegar melhor por seu mar de poesias, crônicas, haicais e outras maravilhas.

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PARALAXE

Eu você

Aqui e lá

Nós sem fim

Vento sim

Mudam-se

Olho e vejo

Você não vê

Que se há de fazer?

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Imaginem se, de supetão, os leitores sabem de brocardos, senescência, criptograma, malsinar, sobre o "Olho de Hórus", paralaxe, arquilexemas e arquifonemas e palavras várias de nossa língua pátria!

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Senescência

Broto vivo
em mim
nada é velho
vivo sem fim
seiva corre
em si
essência da vida
enfim.

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Por outro lado, para variar e alternar com os poemas mais exigentes, outros são pérolas com a linguagem mais prosaica e cotidiana possível.

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QUADRINHA SOLITÁRIA

Na calada da madrugada
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!

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Enquanto degusto cada maravilha cultural da poeta Marili Santos, aprendo e reaprendo os sentidos da linguagem humana.

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CONEXOS

dita
dita-me
ditame
dito
dito-cujo
ditador

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Uma realidade comum na existência das pessoas que dedicam parte de suas vidas para nos presentear com seus textos são os momentos de pouca inspiração e de bloqueios criativos. Eu já enfrentei instantes assim diversas vezes quando precisava escrever sobre algum tema.

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SEM INSPIRAÇÃO OU... que saco!

Fico pensando
que faz o poeta
o escritor, amante
namorado, professor
cozinheiro, escultor, ator, criador
qualquer ser que depende da inspiração... precisei de sete dias para escrever essa porcaria... Deus também precisou.

Que saco!

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A simplicidade prosaica de alguns poemas, elegias, haicais e crônicas, conjugada com a perfeição do uso das palavras para dizer algo que muitas vezes nós queríamos dizer e não sabíamos como dizer, é algo que só se encontra nas tecituras dos poetas.

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APOTEOSE

Adoro ver gente
que passa pelo
abismo, dor e
provação e tudo
tudo de mais
agressivo e
mesmo assim
sabe o que é viver!

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Não é!? O eu-lírico de "APOTEOSE" disse tudo! É preciso saber viver, já dizia o poeta na música dos Titãs.

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COMENTÁRIO FINAL

Como disse no início, degustar os textos de Marili Santos em seu blog Valsa Literária é um verdadeiro banquete naquele refeitório cultural.

Aos poucos, vou conhecendo a produção poética e literária da professora e escritora. 

O que nos faz humanos é o que nos diferencia dos demais animais e seres vivos na natureza. Produzir cultura é uma das características dessa espécie única que somos.

Se vocês apreciam poesia e outras formas de manifestações culturais, visitem o blog Valsa Literária, vocês vão gostar muito.

William

O blog: https://valsaliteraria.blogspot.com

sábado, 18 de julho de 2026

As dores da infância e da maturidade (22)


Me lembro de quando tive hepatite nos anos setenta, morando no sobradinho do Rio Pequeno, na Zona Oeste de São Paulo. 

Provavelmente tive hepatite A porque a gente vivia enfrentando enchentes no bairro e água suja é uma das formas de transmissão da doença. 

A lembrança que tenho são as cólicas abdominais na região do fígado. A gente mija urina escura e fica todo amarelo, até o branco do olho fica amarelão. 

Na época, mandavam o doente comer doces. Cresci dizendo que não gosto muito de doce por isso. Tudo lenda urbana. Não há evidências sobre o benefício da prática e nem deve ser por isso que como poucos doces. 

Faz meio século que tive hepatite morando ali no sobradinho. Incrível! Como o tempo passou!

Cinquenta anos depois, estive a poucas quadras de onde nasci numa reunião do Partido dos Trabalhadores, na Avenida Rio Pequeno. 

Para fazer minha atividade física de caminhar, voltei para casa, no Continental, a pé. São 5 Km. 

As dores meio século depois são de outra natureza. São crônicas e constantes. Desgastes nos ossos do quadril e coluna.

Tudo são lembranças e a vida em andamento. Natureza.

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Instantes de uma vida 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

HQ: Persépolis - Marjane Satrapi



Refeição Cultural

"Naquele dia, aprendi uma coisa fundamental: só podemos ter dó de nós mesmos quando ainda é possível suportar a infelicidade... quando ultrapassamos esse limite, o único jeito de suportar o insuportável é rir dele." (Marjane Satrapi)


Soube pela imprensa que a autora de Persépolis faleceu em junho deste ano. O HQ é muito conceituado e traduzido para diversas línguas. Sua publicação original se deu em 4 volumes, entre 2000 e 2003. Eu não conhecia Marjane Satrapi e sua obra. 

Decidi ler esse clássico importante de Marjane, uma autobiografia, para conhecer sua história e um pouco sobre a cultura persa. Encontrei uma bela edição da Quadrinhos na Cia - Companhia das Letras -, em volume único, com tradução de Paulo Werneck.

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É PRECISO SABER PERDOAR... MAS QUEM QUER PERDÃO POR MATAR?

(Marji e sua mãe em casa, após Marji e amiguinhos planejarem linchar o filho de um assassino do regime anterior)

- Mas, mãe, o pai do Ramin matou...

- Eu sei.

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- É o pai dele! O Ramin não tem nada a ver com isso!

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- Além do mais, não sou eu nem você quem vai fazer justiça. E é preciso saber perdoar. 

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(Marji e Ramin na rua)

- Seu pai é um assassino, mas você não tem nada a ver com isso! Eu te perdoo!

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- Ele não é assassino! Ele matou uns comunistas, e os comunistas são o demônio!

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(Marji com a mãe em casa)

- Mãe, falei com o Ramin. Ele disse que o pai dele fez bem em matar os comunistas. 

- Meu Deus! Ele repete tudo o que ele ouve. Um dia ele entende...

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- É preciso saber perdoar! É preciso saber perdoar!

(Marji pensa: "eu tive a sensação de que era uma pessoa muito boa.")

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A AVÓ DOS SEIOS COM PERFUME DE JASMIM

(Na véspera da viagem, a vovó foi dormir lá em casa)

- Posso dormir com você?

- É pra isso que eu estou aqui!

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(Fiquei olhando a vovó se trocar. Toda manhã, ela colhia jasmins e punha no sutiã, para se perfumar. Quando tirava o sutiã, as flores iam caindo dos seios dela.)

(Era um espetáculo.)

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- Vovó, como você faz pra manter os peitos tão redondos, nessa idade?

- Ponho cada um numa tigela de água gelada, por 10 minutos, de manhã e à noite. 

(Era verdade. E eu já sabia que ela fazia isso. Só queria ouvi-la contar.

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- Vou sentir saudade. 

- Mas eu vou visitar você, lá. 

(Ela também estava mentindo.)

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- Olha, não quero dar uma de moralista, mas vou te dar um conselho que sempre vai ser útil pra você. 

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- Na vida, você vai encontrar muita gente idiota. Se te ferirem, pensa que é a imbecilidade deles que os leva a fazer o mal. Assim você vai evitar responder às maldades deles. Porque não tem nada pior no mundo do que a amargura e a vingança... seja sempre digna a você mesma. 

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(Eu estava sentindo o cheiro do peito da minha avó, era bom. Nunca vou esquecer aquele perfume. 

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A PIETÁ DE MARJANE COM UM CHADOR NEGRO NA CABEÇA DE MARIA 

De volta ao Irã, após 4 anos em Viena, Áustria, Marjane participa do concurso nacional para entrar na universidade e consegue uma vaga.

Ela passou maus bocados em Viena, chegou a morar na rua por meses, no inverno, e quase morreu.

Ao voltar ao país islâmico, enfrentou uma forte depressão e quase morreu durante uma crise.

Ela nos conta que ficou bem feliz com o seu desenho da Pietá, de Michelangelo, adaptada para o mundo islâmico. O desenho fez parte de sua prova de vestibular. Ela passou em Artes Graficas.

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COMENTÁRIO FINAL 

Terminei a leitura emocionado. Agora conheço o clássico Persépolis e a história de Marjane Satrapi, que faleceu muito cedo, aos 56 anos de idade. 

Conhecendo sua história através de Persépolis, eu fiquei pensando no quanto Marjane deve ter sofrido em fevereiro deste ano, já deprimida, ao saber do bombardeio da escola em Minab, que vitimou mais de uma centena de meninas iranianas.

A história de Marjane é a história de milhões de meninas e mulheres desse mundo humano injusto e dominado pela violência dos homens. 

Temos que lutar pela igualdade de direitos entre homens e mulheres e pela liberdade das mulheres em relação aos homens. 

Estamos num momento de retrocessos nos direitos fundamentais das pessoas e esse fato só nos deixa a opção de lutar pela igualdade, liberdade e justiça. 

Ler e conhecer obras como a de Marjane Satrapi é uma forma de tomar conhecimento da condição das mulheres no mundo. 

William 

17/07/26

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Os pesadelos da infância (21)


A queda no vazio sem fim é um dos pesadelos que eu tinha quando criança no sobradinho onde nasci no Rio Pequeno. É uma coisa horrível!

No entanto, os pesadelos mais tenebrosos que eu tinha naquela época eram com monstros que ficavam flutuando ao redor da minha cama. 

Me lembro do desespero que sentia ao não conseguir me mexer e sequer pedir socorro à minha irmã na cama ao lado. 

Senti muito medo com pesadelos na infância. É uma lembrança que tenho do tempo que morei no sobradinho da Rua Dr. Sérgio Ruiz de Albuquerque. 

A memória da gente é um mistério. Me lembro dos pesadelos de um tempo da infância feliz e não me lembro sequer se tinha sonhos bons ou ruins quando minha infância mudou a partir da ida para Minas Gerais. 

Pode ser que minha memória tenha apagado ou escondido em gavetas de pouco acesso os registros daqueles tempos duros que vivi após os dez anos de idade. 

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Instantes de uma vida  

terça-feira, 14 de julho de 2026

Instantes (21h57)



Refeição Cultural

LEITURAS 


Estou lendo a História em Quadrinhos (HQ) de Marjane Satrapi, uma autobiografia de uma mulher que nasceu no mesmo ano em que nasci: 1969. 

Ela nasceu no Irã, país bombardeado pelos Estados Unidos este ano. O governo norte-americano bombardeou uma escola de meninas e matou mais de 160 crianças em fevereiro. 

Quando criança, Marjane viu sua vida transformada drasticamente após a Revolução Islâmica em 1979. Também perdeu uma amiga criança num bombardeio da guerra entre o Irã e o Iraque. 

Marjane Satrapi faleceu faz poucas semanas, em 4 de junho de 2026. Soube de sua morte através da imprensa. Minha solidariedade à família e às pessoas de sua convivência. 

Marjane se estabeleceu na França e teve uma carreira reconhecida como ilustradora gráfica, desenhista, escritora, pintora, diretora e roteirista de cinema e, pelo que li, sempre foi uma mulher engajada em causas relacionadas às mulheres e às liberdades.

Me chamou a atenção a notícia de que ela havia morrido de tristeza ou algo assim. Pelo que pesquisei, ela enfrentou uma forte depressão após a perda de seu companheiro, vítima de câncer. 

Estou lendo sua obra mais famosa e reconhecida, Persépolis, quadrinhos lançados entre os anos de 2000 e 2003, em 4 volumes. Quero ler mais obras de mulheres e estou gostando muito de sua autobiografia. 

Enquanto mergulho nos quadrinhos de Marjane Satrapi, viajo pela história dela e das mulheres do Irã (e sinto a violência do mundo dos homens), viajo pela história do Irã e do mundo no qual também vivi, dos anos setenta pra cá.

Ler é uma viagem. A gente viaja com Marjane até o passado no qual eu mesmo vivi, num outro canto do mesmo e único mundo. 

Me lembro das notícias da Guerra Irã-Iraque como se fosse hoje. Enquanto eu menino andava pelas ruas do Marta Helena, em Uberlândia, os meninos iranianos da minha idade eram explodidos lá no Oriente Médio. 

Lendo, viajo ao meu passado e ao passado de nosso mundo. 

Enquanto viajo nas minhas memórias, muitas delas com momentos duros e ruins, vejo através das memórias de Marjane que todos nós somos sobreviventes e que muitos, muitos, tiveram veredas mais ou tão difíceis quantos muitos de nós. 

Que bom estar podendo ler e escrever. Enquanto lemos, refletimos e, quiçá, nos modificamos, afinal de contas, não estamos terminados, somos incompletos, como ensina o mestre Paulo Freire. 

William 

14/07/26

domingo, 12 de julho de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (1)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


O primeiro volume do livro de memórias do Zé Dirceu saiu em agosto de 2018 e eu adquiri imediatamente o meu exemplar. Quem melhor que ele para nos contar um pouco da história do Brasil, da esquerda brasileira e do Partido dos Trabalhadores?

Aquele ano foi um ano difícil para mim. Muitas mudanças em minha vida pessoal, além das mudanças na vida política do Brasil e do povo brasileiro. Quase tudo que li foi de pouca absorção. Estava tudo uma bosta!

Após ler umas duzentas páginas, interrompi a leitura. Anos depois, em 2024, já com outros contextos políticos e pessoais, reli desde o início o que havia lido em 2018 e novamente interrompi a leitura, por estar lendo diversos livros ao mesmo tempo. 

Agora, em 2026, vou ler o livro todo e vou aprender um pouco mais com o grande brasileiro Zé Dirceu. O momento de ler e aprender é agora. 

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1. SE NÃO ME FALHA A MEMÓRIA 

Porque resolvi colocar no papel as minhas vidas e a minha luta 

Zé Dirceu ganha o respeito de qualquer pessoa séria só com este capítulo inicial de suas memórias. 

Ele informa que leu mais de cem livros para estudar e pesquisar tudo que iria registrar para nós. 

Obrigado, companheiro Zé Dirceu!

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2. OS PRIMEIROS PASSOS NA POLÍTICA 

De Passa Quatro para São Paulo, um salto para enfrentar a vida como ela é

Zé Dirceu escreve magnificamente bem. Leitura muito agradável a sua. Li pela terceira vez este capítulo. 

Imaginando o jovem mineiro pelas ruas de São Paulo nos anos 60, vi também meu pai, apaixonado por essa terra de oportunidades. 

Meus pais se casaram em agosto de 1964 e eu nasci na capital paulista sob a égide do AI-5 em abril de 1969.

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3. CORAÇÃO DE ESTUDANTE

Organizando o Movimento Estudantil para enfrentar a ditadura militar

Capítulo bem legal! Zé Dirceu nos conta sobre a força de organização do movimento estudantil nos anos 60. 

Além da UNE e das UEEs, ele cita a Juventude Estudantil Católica (JEC), que já vi Frei Betto citando em seus textos.

"A segunda disputa se deu em torno da tática de lutas gerais e reivindicativas e mais uma vez vencemos. Estabelecemos uma combinação entre as reivindicações de mais verbas para a educação, reforma universitária, mais vagas, admissão e matrícula dos excedentes que, aprovados nos vestibulares, não eram matriculados por falta de vagas, com a luta contra a ditadura..." (p. 40)

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Comentário: Zé Dirceu nos lembra no texto da importância das táticas e estratégias no movimento estudantil na hora de encaminhar os objetivos traçados. Em 2002, fiz parte do movimento estudantil da FFLCH-USP que iniciou, dirigiu e encerrou uma das maiores greves de estudantes universitários do país. Foram 104 dias e, desde o início, numa salinha da Letras com 5 pessoas, disse que o foco da greve teria que ser as pautas da faculdade e não as pautas revolucionárias dos partidos dos caras na reunião. E deu certo! Conseguimos forte adesão estudantil, quase 100 professores novos e melhorias na estrutura da FFLCH.

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4. A OPOSIÇÃO E SUAS ARMAS 

Quem era quem na luta para enfrentar a ditadura militar 

"Organização político-militar e não partido, revolução socialista ou de libertação nacional, luta armada e guerrilha como principal forma de luta - crítica dura ao imobilismo e às teses do PCB, ao seu atrelamento à oposição legal, ao caminho pacífico e à burguesia nacional. Esses eram os divisores de água dentro da esquerda." (p. 51)

Comentário: o capítulo é fascinante para um militante de esquerda. Zé Dirceu descreve as infindáveis siglas e grupos da época, e aponta a eterna divisão na esquerda. Todo grupo se dividia em outros, menores... e assim, não conseguimos enfrentar a ditadura instalada no país. 

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ÀS ARMAS, CIDADÃOS!

A luta para enfrentar a ditadura, que não dava sinais de deixar o poder 

"(...) Eram intelectuais, estudiosos como Jacob Gorender, militares vividos e cultos como Apolônio, autodidatas como Marighella, leitores de Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, dos clássicos da filosofia e do marxismo." (p. 62)

Comentário: lacunas culturais incríveis as minhas aos 57 anos de idade. 

Zé Dirceu, após nos contar a história dos golpes de Estado no Brasil, promovidos pela elite canalha de sempre, conclui:

"Portanto, nada mais normal na história do Brasil do que recorrer às armas para resolver conflitos políticos e sociais. Para tomar o poder e rasgar a Constituição como em 1937, 1955, 1961 e, por fim, 1964. Nada mais brasileiro que erguer o braço armado contra a tirania, como em 1922, 1924, 1930 e 1935." (p. 68/69)

E:

"A luta armada existiu como imperativo moral e político. Por causa dos homens e mulheres que a fizeram com bravura e altíssimo sacrifício pessoal, centenas deles dando o único bem que possuíam, a vida..." (p. 71)

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Comentário final 

Estamos às vésperas de mais um processo eleitoral brasileiro, em outubro próximo. O presidente Lula se coloca à disposição para concorrer a um quarto mandato. Pela conjuntura nacional e internacional, acho imprevisível o que pode acontecer nesse futuro próximo. 

O companheiro Zé Dirceu está se tratando de um câncer, descoberto há poucas semanas. Ele está bem, otimista, e é pré-candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores de São Paulo. Estamos todos na torcida por sua recuperação e por sua eleição. É um grande homem e uma figura que sempre contribuiu para as lutas do Brasil e do povo brasileiro. 

Sigamos lendo e estudando para tentar entender a realidade e avaliar as possibilidades de alterá-la em benefício da coletividade. 

William 

12/07/26

O homem que voava (20)


Aquela novidade estava circulando entre nós. Aquele homem era demais! Superman podia voar.

Eu tinha uns nove anos de idade e acho que toda a molecada andava sonhando com a possibilidade de voar também. 

Eu subia em cima do murinho de casa e pulava como se estivesse voando.

Por sorte os muros que separavam os sobradinhos geminados tinham pouco mais de um metro de altura. 

Ao pesquisar para ajudar a memória sobre a infância, vi que o filme Superman estreou no Brasil no Natal de 1978. 

Não me lembro de tê-lo visto no cinema em São Paulo, quando estreou, mas imagino que o sucesso do filme aparecia na TV em programas e comentários. 

Fui assistir ao filme do Superman depois que nos mudamos para Uberlândia. Me lembro que vi Flash Gordon também. 

Quando terminar as lembranças da infância feliz no Rio Pequeno até os dez anos de idade, virão as lembranças duras dos onze aos dezessete em Minas Gerais...

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Instantes de uma vida

sábado, 11 de julho de 2026

Lendo e aprendendo com as mulheres



Refeição Cultural

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Na minha lista dos clássicos apareceram Jane Austen (Razão e sensibilidade), Cecília Meireles (Viagem), Adélia Prado (Bagagem), Shirley Maclaine (Minhas vidas), Margo Glantz (Las genealogías), Clarice Lispector (A hora da estrela), Conceição Evaristo (Becos da memória), Agatha Christie (O caso dos dez negrinhos), Anne Frank (O diário de Anne Frank) e só. Muito pouco! De 100 clássicos, somente 9 escritoras.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Vou criar mais uma página no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento. Enquanto vou sistematizando minhas leituras, vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

William

11/07/26

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Livro: Uma delicada coleção de ausências - Aline Bei



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA 


Sei que devo cumprir meus objetivos de ler os clássicos, sei. Entretanto, o novo sempre vem, clama por nós, leitores e amantes da leitura. 

Sem prever, li o primeiro livro de Aline Bei - O peso do pássaro morto - no ano de 2020 (comentário aqui). Gostei. 

Depois, li seu segundo romance-poesia - Pequena coreografia do adeus -, no final do ano passado (ler aqui). Gostei também. Uma nova poética, e em tempos duros para a cultura!

E então, antes de algum clássico para este momento, de alguma coisa antiga, mergulhei na terceira novidade de Aline: Uma delicada coleção de ausências

Na hora que peguei o livro na mão, já elenquei minha delicada coleção de ausências... Uma forma de memorizar o nome do livro. Foi só me lembrar de algumas ausências delicadas...

Destaco abaixo algumas reflexões poéticas que sintetizam a vida e os seres que aqui habitam. Ideias-força da poeta filósofa mulher Aline Bei.

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Nostalgia 

"Irá sentir um poema ao tempo vivido que é a nostalgia. mas é preciso que aconteça daqui a muitos anos. é preciso primeiro Esquecer, para então verdadeiramente lembrar." (p. 32)

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Nu

"ela procura na bolsa a chave do portão. quando olha para Camilo é por engano, não sabe de onde vem isto, mas nunca se deve olhar um rosto depois que a conversa acaba, senão é provável que o veja nu." (p. 81)

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Sangue "maldito"

"pois que o bom Deus a perdoasse, que lhe desse ao menos um pouco de juízo e que perdoasse também a menina, que carrega no sangue toda essa maldição." (p. 108)

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Aos filhos e netos

"aos filhos e netos, é preciso contar da própria vida conforme a deles desabrocha. é preciso esperar que o passo se alinhe, para que saibam ouvir melhor." (p. 134)

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Os segredos 

"pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio. há coisas que só não morrem (ou matam) quando mantidas longe das palavras, no escuro." (p. 156)

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Envelhecer

"talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação." (p. 159/160)

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Sorte sua se tocar o coração de duas ou três pessoas 

"Margarida ainda disse que tocar o coração de todos não é possível, nunca será o mundo quem sentirá a nossa falta. tocar duas ou três pessoas - isso é a vida dos que têm sorte." (p. 204)

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Alegria 

"é preciso cuidar da alegria também." (p. 271)

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Uma delicada coleção de ausências 

O desfecho do romance deixa a leitora e o leitor paralisados, passados... eu fiquei bolado na hora, já nas últimas páginas do enredo. Minha esposa ficou vários dias se sentindo muito incomodada com o romance. A catarse se impõe... não é esse o efeito modificador dos dramas, tragédias e comédias desde a antiguidade?

As histórias de neta, avó, e bisavó, e também a história da mãe e filha ausente se completam, se explicam, tudo se explica no desfecho que é uma metáfora da mais pura realidade em milhares de famílias desse mundão duro e perverso do universo dos homens do mundo.

Laura, Margarida, Filipa e Glória representam em suas singularidades o que enfrentam as mulheres no dia a dia do mundo, ontem, hoje, e infelizmente num longo amanhã, apesar das lutas incessantes pela ocupação de todos os espaços nos quais as mulheres desejem estar no mundo.

Por fim, a poética de Aline Bei, a ocupação de espaços nas páginas de seus livros e a particularidade de sua escrita a fazem poeta, cronista, romancista, dançarina, e de sobra, seus leitores experimentam o novo ao lerem seus livros.

O peso do pássaro morto...

Pequena coreografia do adeus...

Uma delicada coleção de ausências...

Seus três romances são obras de arte, literatura da melhor qualidade. E com a catarse para nos deixar bolados, passados, incomodados... e quiçá modificados ao final da experiência de leitura.

Que venham as próximas histórias, as substâncias narrativas com as preposições que relacionam as causas, consequências, origens e posses das coisas, como a própria vida é.

William

10/07/26


Bibliografia:

BEI, Aline. Uma delicada coleção de ausências. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025.