sábado, 27 de junho de 2026

Empinar pipas na infância: a felicidade (12)


Uma das melhores lembranças de felicidade que tenho da infância é empinar pipas. A liberdade talvez esteja associada a essa brincadeira de criança.

Para colocar uma pipa no ar a criança precisa estar na rua, praça ou no campinho. O dia tem que ser favorável, sem chuva e com vento. O garoto ou garota precisa ter a pipa e os itens necessários. 

Eu comprava peixinho numa lojinha no início da Avenida Otacílio Tomanik, do lado da padaria Cinco Quinas. Peixinho é um tipo de pipa. Também comprava ali linha, papel e até varetas japonesas ou de bambu pra fazer quadrado, uma pipa melhor.

Fico impressionado ao me lembrar que um garoto com menos de dez anos fazia suas próprias pipas, e pipas boas pra disputar relos na rua. Eu tinha minha própria técnica de estirante, rabiola com chicote de cerol, meu quadrado ou peixinho era côncavo e não achatado, pois eu tinha linha entre uma ponta e outra das varetas horizontais. Como um arco.

Naquela época, anos setenta, não se tinha a compreensão do risco do uso de cerol. Minhas pipas tinham cerol em tudo, até na rabiola e no estirante. Tinha dia que voltava pra casa com duas ou três pipas, além da minha. No relo (rélo), eu cortava e aparava. Tinha dia que eu perdia as pipas e ainda corria feito doido pelas ruas do bairro atrás de pipa cortada.

Como a minha infância foi boa empinando pipas pelas ruas e campinhos do Rio Pequeno!

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Instantes de uma vida 

Livro: Os cem melhores contos brasileiros do século - Italo Moriconi



Refeição Cultural

LITERATURA: CONTOS


Um dos livros iniciados há mais tempo e não finalizados por mim era a seleção de contos brasileiros do século vinte, organizados por Italo Moriconi. 

O livro foi lançado no ano 2000 e eu tenho a minha edição pelo menos desde 2004, por ter anotações datadas nas páginas.

Moriconi organizou os contos e autores por períodos cronológicos. A primeira parte - "De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana" - já havia lido todos os contos, alguns deles, diversas vezes. 

A segunda parte - "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos" - também havia lido. Ao retomar a leitura, estava terminando a terceira parte - "Anos 60 - Conflitos e desenredos". 

Foi desse ponto adiante que segui lendo, agora, contos já conhecidos por mim e fui sendo apresentado a contos e autores novos. 

Se minha vista permitir - tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo que me incomoda muito -, vou caminhar neste livrão até o fim. São 600 páginas. 

30/05/26

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De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana

Destaco dessa primeira seleção o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. É um dos melhores contos do Bruxo do Cosme Velho, na minha opinião. A temática é a escravidão dos povos africanos e seus descendentes no Brasil e a forma como essa violência era naturalizada naquela sociedade. 

Também tenho muita admiração pelos contos "Baleia", de Graciano Ramos, que depois se transformaria no clássico "Vidas secas". E "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto. Boa demais essa narrativa!

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Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos

De passar os olhos pelo índice de contos dos Anos 40/50, me lembrei na hora de "Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá", de Bernardo Elis. Sofri junto com os protagonistas... foda!

Destaco também "Viagem aos seios de Duília", de Aníbal Machado; "O peru de Natal", de Mário de Andrade; e "Afogado", de Rubem Braga. 

O caso com a Duília me fez pensar muito, à época, sobre a forma de lidar com as lembranças do passado. Rubem Braga nos fez sentir na pele o risco de morrer ao se aventurar no mar. E sempre recomendo o conto de Mário de Andrade a pessoas com relações paternas conflituosas. Demais essa narrativa!

Destaco ainda "Um cinturão", de Graciano Ramos. No livro de Moriconi, li o conto em 2011 e 2021. Ao relê-lo este ano (2026), no livro "Infância", fiquei muito impactado com a história do garoto. Horror!!!

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Anos 60 - Conflitos e desenredos

Da seção Anos 60, por meu gosto, e de memória, destaco "A máquina extraviada", de José J. Veiga, conto excepcional! 

Quando Moriconi organizou o livro, na virada do século, eu não havia lido ainda J. Veiga. Felizmente, em meados da segunda década deste século, peguei pra ler os livros do autor e li mais da metade da obra do escritor goiano. Ele é único!

Fernando Sabino também é excelente, seu conto "O homem nu" é muito bom.

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Anos 70 - Violência e paixão 

Gostei muito de alguns contos da seleção dos Anos 70. Os mais impactantes foram os três de Rubem Fonseca, nossa! O "Feliz ano novo" me deixou muito mal, são os acontecimentos ao redor da gente ainda hoje!

Amei o conto de Clarice Lispector! Os olhos enchem de lágrimas só de pensar no amor pela literatura. É mesmo uma "Felicidade clandestina".

Merecem meu destaque "O elo partido", de Otto Lara Resende; "A balada do falso Messias", de Moacyr Scliar; e "A maior ponte do mundo", de Domingos Pellegrini.

Ao final do conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, pensei em mim e no Sindicato, e depois em minha volta pra casa... me vi como Lulu Bergantim. 

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Anos 80 - Roteiros do corpo

Alguns contos desta seleção me incomodaram muito, ou me fizeram refletir sobre o tema abordado. Isso é muito bom! Até concluí que devo seguir lendo contos para dar a mim mesmo a oportunidade da novidade no meu cotidiano, em termos de histórias ficcionais. 

O conto de Ivan Ângelo, "Bar", foi um soco no meu queixo, fiquei muito tempo com o maxilar doído.

Na temática da luta permanente das mulheres pelo direito aos próprios corpos e vidas, gostei dos contos "Intimidade", de Edla Van Steen, "I love my husband", de Nélida Piñon, e de "Flor do cerrado", de Maria Amélia Mello. Muito bom também "Aqueles dois", de Caio Fernando Abreu.

Adorei "Obscenidades para uma dona-de-casa", de Ignácio de Loyola Brandão. 

Destaco ainda o conto de João Ubaldo Ribeiro, "O santo que não acreditava em Deus". Ao comentar sobre ele com a esposa, ela disse que tem um filme baseado na estória. 

O "Conto (não conto)", de Sérgio Sant'Anna, foi um dos melhores textos da seleção dos Anos 80.

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Anos 90 - Estranhos e intrusos

Na seleção de contos dessa década final do século vinte, alguns textos mexeram comigo também, um certo incômodo na leitura. Alguns pelo tema, outros pela forma da narrativa. 

Sérgio Sant'Anna é destaque com o conto "Estranhos". Tema bem diferente do seu "Conto (não conto)" da década anterior. Nesse de agora é sexo na veia. O outro tem uma pegada filosófica. 

O conto "Olho", de Myriam Campelo, é daqueles que a gente lê escondido, com vergonha de alguém saber que lemos aquilo, que alguém teve coragem de escrever aquilo. Me lembrei do Alberto Manguel falando sobre suas leituras infantis de livros proibidos da estante de seu pai (Uma História da Leitura).

O conto de Marina Colasanti "A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain" me deixou muito pensativo, dormi com ele e ainda penso a respeito. Mexeu comigo, me fez escrever um de meus textos da série "Instantes".

Para fechar meus destaques da seleção dos Anos 90, cito Luis Fernando Verissimo e seu pequeno e belo "Conto de verão n° 2: Bandeira Branca". De arrepiar e emocionar o leitor. Pelo menos este leitor que vos fala.

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Comentário final 

E então, duas décadas depois de iniciada a leitura de Os cem melhores contos brasileiros, na opinião de Italo Moriconi, concluí o livro. Já era tempo, né?

A crítica literária tem algumas vertentes quando se pensa o papel da literatura na sociedade humana. 

Quando fiz faculdade de Letras, li o texto do professor Antonio Candido "O direito à literatura" e fui convencido pelo mestre que a literatura é um direito humano fundamental, pois fabular nos faz humanos.

Independente da maneira como se escreve e se lê literatura - romances, contos, crônicas e demais formas de textos artísticos - as narrativas ficcionais nos agregam vivências, experiências e aprendizados que nos modificam, nos transformam em outras pessoas, ou seja, as personas ficcionais alteram nossas personas reais. Isso é bom!

Ler um livro como esse com dezenas de autoras e autores brasileiros que não conhecia ou até já tinha ouvido falar, mas que nunca havia lido nada de suas autorias nos dá uma consciência incrível do quanto sabemos pouco ou quase nada de tudo. 

Sou formado em Letras, já li bastante se comparar minha bagagem com as médias de leitores do país, mas sei que não conheço quase nada de literatura brasileira e universal.

Reconheço com humildade esse fato e me disponho a seguir lendo e escrevendo aqui sobre minhas refeições culturais, enquanto a natureza me permitir.

Claro, como defini desde o início, tudo que souber quero partilhar de forma gratuita com as pessoas. Quando se compartilha conhecimento estamos atuando para melhorar as pessoas e o mundo. 

William 

27/06/26

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A pedrada na Ione (11)


Os moleques chamaram a Telma de macaca. Estávamos brincando na frente da casa dos tios, na Rua Ricardo Cipicchia, atrás do colégio Adolfino, na pracinha do campinho. 

A maneira de defender minha irmã das ofensas foi tacar pedra nos garotos preconceituosos. Eles estavam na quadra, uns trinta metros de distância. 

A gente devia ter uns oito ou nove anos de idade. Eu era o mais novo no grupo. Ofensa ou desaforo na rua era respondido na pedrada.

O acidente foi muito rápido. Enquanto eu fiz o gesto pra tacar a pedra lá pra baixo, a Ione, que havia abaixado pra pegar uma pedra, levantou-se e ficou bem na minha frente.

Minha pedrada pegou bem no rosto dela... foi horrível! Na hora era só sangue na região do olho e depois no rosto e pescoço. 

Foi aquela correria... choro, susto de todo mundo, os adultos bravos, a Ione acolhida pra ver se machucou muito etc.

A pedrada pegou logo abaixo do olho, por sorte. Ela levou ponto lá no Pronto Socorro da Lapa, pois na farmácia do seu Paulo, na Avenida Rio Pequeno, não tinha como fazer o procedimento. 

Todo mundo ficou de castigo. Era o dia do enterro de um tio da Ione e a gente atrasou tudo.

As crianças mentiram coletivamente. Disseram que a pedrada foi de um dos meninos no campinho. Nem sei quanto tempo levou pra falarmos a verdade para os adultos. 

A infância no Rio Pequeno foi cheia de pequenos machucados sem gravidade envolvendo pedradas, latadas, dentadas, tombos de bicicletas... fomos criados na rua.

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Instantes de uma vida 

Instantes (1h55)



Refeição Cultural

A cama quentinha numa noite muito fria. O dia foi satisfatório. O mundo anda tão ruim. É bom poder ajudar e fazer algo bom. Um pastel quentinho aos trabalhadores do condomínio. Ajudar os pais. Contribuir com algum conhecimento que tenha num bate-papo com uma liderança nova de nosso sindicato. Agradar com um pãozinho a esposa que não abre mão do café com pão francês. Ler contos com histórias ficcionais impactantes. Conversar com as pessoas na feira. Fazer o esforço de malhar uma hora só porque é importante fazer isso... ainda estou enxergando, ainda ando, falo, penso e aprendo. A vida é um instante. A gente vai dormir e pode não acordar mais... um terremoto... um AVC... é bom viver e poder fazer coisas boas e coisas comuns. 

William 

26/06/26

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Futebol de botão era uma diversão (10)


O goleiro a gente fazia com caixa de fósforos, colocando pedras e areia e passava fita isolante. Depois embelezava ele colando alguma coisa de time.

Eu tinha alguns times, com modelos diferentes de formato, mais ou menos côncavos. Também tinha as palhetas que mais gostava.

De lembrança, sei que tinha Corinthians, Vasco, Coritiba e tinha as seleções do Brasil e do Peru. Os botões da seleção brasileira eram mais achatados.

Os moleques faziam até campeonato, eu não tinha o campo, mas alguém tinha. A gente usava bolinha achatada e goleiro fixo, de caixa de fósforos. Não me lembro das regras.

O que me lembro é que eu era bom jogador. Fazia muito gol, de todos os jeitos. De longe, de perto, encobrindo o goleiro etc. 

Eu tinha um jeito de chutar que retinha o jogador entre os dedos após o chute, com a palheta em pé segurada com as duas mãos. 

Que época legal! Jogar futebol de botão foi uma diversão da minha infância. 

Tudo mudou quando fui morar em Uberlândia aos dez anos. Os meninos não brincavam de nada que eu estava acostumado. 

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Instantes de uma vida 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O tombo de bicicleta (9)


Acho que o motivo foi uma ideia de jerico de apostar uma corridinha.

O que me lembro é que meu pé escapou do pedal e em fração de segundos eu estava no asfalto, todo ralado.

Pernas, joelhos, braços em carne viva, sangrando. Como ardia as feridas... fui pra casa chorando. 

Mais uma vez, a mãe me recebia em casa cheio de sangue ao voltar da rua.

O resumo do tombo de bicicleta foi a sessão de tortura após o banho: passar  Merthiolate nas feridas em carne viva. 

Minha mãe me pintou todo de Merthiolate... imaginem como gritei e chorei com cada ferida lambuzada daquele treco que ardia como fogo.

Passado o drama, minha mãe me mandou ir à Padaria Cinco Quinas pra comprar pães. 

O mais incrível, já de noite naquele dia, foi descobrir que um carocinho numa ferida acima da sobrancelha era uma pedrinha, que minha mãe tirou com a pinça...

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Instantes de uma vida 


terça-feira, 23 de junho de 2026

A dentada na cabeça (8)


A molecada estava no corredor da casa da esquina da Rua Miguel Sevílio com a Rua Adolfino Arruda Castanho, no Rio Pequeno. Jogando bola.

Era uma brincadeira mais ou menos assim: o moleque que estava na Rua Miguel Sevílio chutava a bola na parede da casa, encobrindo o murinho, tipo cruzamento na área.

Quando a bola caia no corredor onde estavam os moleques, pontuava quem pegasse a bola primeiro. Devia ter uns três ou quatro pivetes ali.

Quando a bola caiu no chão foi todo mundo pra cima dela. Eu só senti aquela dor aguda no topo da cabeça. Coloquei a mão apertando o cocuruto.

Quando tirei a mão foi aquele susto! Era só sangue já escorrendo pelo pescoço. Um moleque caiu com a boca aberta sobre mim e bateu os dentes na minha cabeça. 

Lá fui eu correndo pra casa na rua do lado, dar aquele susto na mãe ao abrir a porta cheio de sangue...

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Instantes de uma vida 


Sobre esquerdismo (3) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

Neste texto, sigo a leitura da obra de Vladimir Lênin sobre a questão do esquerdismo, recortando alguns excertos que achar interessantes. 

Ao longo de minha vida de representação política e sindical da categoria bancária, como membro da maior corrente política da Central Única dos Trabalhadores, a Articulação Sindical, sempre tive claro essa questão do esquerdismo. 

A obra de Lênin só confirma o que aprendi na prática política em mais de duas décadas de militância. 

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Capítulo VII - Deve-se participar nos parlamentos burgueses?

Lênin avalia o conteúdo de um boletim dos comunistas "esquerdistas" da Alemanha. Eles afirmam que o parlamentarismo caducou e por isso não devem tentar participar e influir naquele sistema de representação política. O ano é 1920.

O líder revolucionário russo discorda dessa leitura, diz que "Mais uma vez, constatamos que os 'esquerdistas' não sabem raciocinar".

E segue:

"(...) poderíamos assegurar sem vacilar que o parlamentarismo na Alemanha ainda não caducou politicamente, que a participação nas eleições parlamentares e na luta através da tribuna parlamentar são obrigatórias para o partido do proletariado revolucionário, precisamente para educar os setores atrasados de sua classe, precisamente para despertar e instruir a massa aldeã inculta, oprimida e ignorante."

Lênin, após criticar também os esquerdistas holandeses e suas infantilidades ao defenderem não disputar os parlamentos, enumera condições específicas da Rússia de 1917 que contribuíram para o êxito da Revolução. 

Depois afirma:

"(...) E a repetição dessas condições ou de outras semelhantes não é nada fácil. Por isso, entre outras razões, é mais difícil para a Europa Ocidental que para nós começar a Revolução socialista. Tratar de 'furtar-se' a essa dificuldade 'saltando' por cima do árduo problema de utilizar os parlamentos reacionários para fins revolucionários é pura infantilidade."

O líder russo é claro e objetivo em suas explicações. Há que se conjugar o trabalho legal de organização da classe proletária e camponesa, nos parlamentos, com a ilegal, clandestina.

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Capítulo VIII - Nenhum compromisso?

Lênin nos explica como as classes dominantes e burguesias europeias enganavam as classes populares com uma ideia de compromisso, primeiro "patriótico", durante a guerra de 1914-1918, e depois com a "Sociedade das Nações", no fundo o interesse era o de sempre, espoliar as riquezas do povo.

Fica claro, para mim, que não se deve só apostar em guerras e sim avaliar acordos táticos com outros grupos "mesmo que sejam apenas temporários", diz Lênin, e que possam dividir o inimigo.

O líder revolucionário da única Revolução que havia triunfado até ali, 1920, diz no texto o quanto seguia difícil mantê-la para o proletariado, pois a burguesia era organizada internacionalmente. Além da questão do costume, do hábito mental, dos produtores de quase tudo na própria Rússia (ideologia da classe dominante, eu diria). 

Tratado de Versailles

"Finalmente, um dos erros incontestes dos 'esquerdistas' da Alemanha consiste em sua insistência inflexível em não reconhecer o Tratado de Versailles".

Lênin tem posição firme na estratégia e foco em derrotar a burguesia e, para isso, o Tratado seria bom em questões táticas. 

"A derrubada da burguesia em qualquer dos grandes países europeus, inclusive Alemanha, é um acontecimento tão favorável para a revolução internacional que, em proveito dessa derrubada, podemos e devemos aceitar, se for necessário, uma existência mais prolongada do Tratado de Versailles. Se a Rússia pôde resistir sozinha durante vários meses ao Tratado de Brest, com proveito para a Revolução, não é nada impossível que a Alemanha Soviética, aliada à Rússia Soviética, possa suportar mais tempo com proveito para a revolução o Tratado de Versailles."

E o líder russo finaliza o capítulo alertando:

"(...) é uma tolice e nada tem de revolucionário. Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem para nada os políticos da classe revolucionária que não sabem 'manobrar', que não sabem concertar 'acordos e compromissos' a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável.".

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Comentário final 

Amigas e amigos leitores, é quase impossível não me lembrar neste exato momento brasileiro e internacional, na véspera do processo eleitoral de 2026, de certas correntes, partidos e grupos que se consideram mais à esquerda que nós, petistas e cutistas, ao ler essa obra seminal de Vladimir Lênin sobre a doença infantil do esquerdismo. 

Seguimos nas lutas!

William 

23/06/26

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Instantes (13h05)



Refeição Cultural

LEITURAS E ESCRITAS


Assim que acordei nesta segunda-feira de junho no mundo mundo vasto mundo do poeta Drummond e outros humanos mais, refleti sobre a vida e ainda na cama escrevi um pequeno texto sobre instantes de uma vida.

Li um bom artigo do jornalista José Reinaldo sobre os abusos fiscais concedidos a igrejas e que tais, benefícios fiscais em prejuízo de direitos fundamentais como saúde, educação etc (recurso público é assim, tira de um setor para outro no orçamento). Há décadas afirmo que o Brasil não é um país laico. A prova jurídica e material disso é a Constituição Federal de 1988 citar "Deus" em seu preâmbulo. Um absurdo! Respeito a fé de todas as pessoas, mas se a lei maior de um país escolhe uma religião, o país não é laico para seus cidadãos. Básico isso!

Fiz meus exercícios de aprendizagem e memorização de línguas num aplicativo do celular.

Em seguida, refleti sobre o dia, o que fazer do meu dia? Depois de décadas, não vendo mais minhas horas de trabalho. Foram quase quarenta anos sem o direito à escolha do que fazer com o meu tempo, com o meu corpo. Isso no momento no qual as pessoas têm saúde plena, os seus corpos aptos para as escolhas que queiram, via de regra, é claro! Porcentagem importante das pessoas tem graus diversos de deficiências físicas ou intelectuais, e vida ativa também, é claro! Não foi o meu caso ter alguma deficiência, só isso quis dizer.

Me levantei para o dia desejoso de acabar alguma coisa em andamento. Meus pensamentos têm me direcionado a realizar coisas que havia planejado ou desejado no passado. Aquelas que valem a pena ainda, claro. Ler livros é uma delas. A lista de desejos de leituras é do tamanho de uma vida de tartarugas ou árvores, de centenas de anos. E eu não tenho esse tempo, sequer sei se tenho dias ou meses, isso não depende só de mim. Tenho hoje o tempo que não tive, mas não tenho mais o corpo que tinha. Natureza. E ainda tem a morte de surpresa, que pega a gente num instante qualquer. 

A intenção é terminar três livros no mês, dois daqueles meus iniciados e nunca terminados, e um que apareceu de supetão, o do Lênin falando sobre o esquerdismo, a doença infantil do comunismo. O Lula disse o óbvio dias atrás, que nunca foi esquerdista, e a militância e outros mais saíram falando absurdos por aí.

Enquanto termino a leitura do livro sobre saúde suplementar, fico me questionando o porquê disso, se não lido mais com o tema. Aí respondo a mim mesmo que é porque eu não ganho nada em perder esse conhecimento que adquiri quando fui gestor de saúde eleito pela comunidade do banco público no qual trabalhei e dediquei o melhor de meus dias e saúde: aquelas horas que citei no início dessa reflexão. 

Quando estudava para concursos públicos era comum os professores e mestres dizerem que conhecimento não ocupa espaço (mas informação sozinha não é conhecimento, ok?) e que ele é cumulativo. Conheço bem mais do cérebro humano hoje, principalmente depois de ler o neurocientista Miguel Nicolelis. Sei que o cérebro é seletivo, que pode ser desenvolvido e exercitado, que é flexível ao que é demandado a ele. Por isso não quero perder o que sei e quero aprender o que não sei ainda. 

Vamos lá viver o dia. Tenho coisas a aprender.

(Eu sinto muito pelo resultado eleitoral na Colômbia. O povo ao qual pertenço enquanto classe vai sofrer muito. É uma pena estarmos sujeitos à manipulação dos donos do poder. Se as pessoas tivessem educação, seriam livres e estariam menos expostas à manipulação)

William 

22/06/26

A saudável e lúdica ação de brincar (7)


Brincar de carrinho no tapete da sala ou na calçada na frente de casa é uma lembrança saudosa da infância. 

Brinquei muito de carrinho até os dez anos de idade no sobradinho onde nasci no Rio Pequeno. 

Tenho até hoje alguns carrinhos de ferro da Matchbox, guardados como tesouros da infância, são de meados dos anos setenta. 

Nem sei direito como os carrinhos chegaram até a estante, cinquenta anos depois. Sobreviveram comigo aos duros anos infanto-juvenis.

O barquinho azul eu não tenho mais. Tenho algumas bolinhas de gude, brinquei muito de bolinhas de gude também. 

Talvez a infância que tive até os dez anos de idade, de boas lembranças, tenha me salvado de ser uma pessoa ruim.

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Instantes de uma vida 

domingo, 21 de junho de 2026

Umas boas chineladas (6)


O moleque abriu a gaveta da cômoda do quarto e começou a pegar roupas e pôr na cama.

Estava revoltado com alguma negativa do pai ou da mãe. O pirralho deveria ter uns sete ou oito anos de idade.

Na negativa, disse que iria embora daquela casa. "Vai!" ouviu. Subiu as escadinhas do sobrado e foi pegar suas roupas.

Não teve castigo dessa vez. O costume era ficar de castigo quando fazia coisa errada. Seus amigos da rua apanhavam.

O moleque metido a fujão foi colocado de bruços no colo, na mesma cama onde estavam as roupas separadas e levou umas boas chineladas.

Aquele dia mereceu as chineladas. Onde já se viu uma merda daquela...

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Instantes de uma vida 

sábado, 20 de junho de 2026

A loira do banheiro (5)


O medo era uma sensação horrível e humilhante. Como dar o braço a torcer e confessar que tinha medo?

A gente acabava dando um jeito de ir ao banheiro quando outros moleques iam. E era algo inconfessável tentar mijar rápido pra não ser o último a sair.

Acontece que sempre tinha um filho da mãe que mijava rápido e saía gritando "a loira do banheiro!", "a loira do banheiro!"...

Meu, a gente saía correndo com o pinto na mão, molhando as calças. 

Me lembro dessas correrias da loira do banheiro quando vou ao colégio Adolfino em dias de eleições. 

Quando criança a gente achava tudo enorme. O pátio da escola e o banheiro são pequenos perto do tamanho da minha lembrança.

Minha mãe subia a pé comigo para me levar de casa ao colégio Adolfino, no Rio Pequeno. Estudei lá da primeira à quarta série. Foi um tempo bom. Era feliz.

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Instantes de uma vida

Sobre esquerdismo (2) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

A importância do partido e dos sindicatos


Nesta postagem com alguns excertos do texto de Vladimir Lênin sobre a questão do Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1920), vemos um dos líderes da Revolução Russa afirmar ser estupidez abrir mão da participação nos sindicatos considerados pelegos ou sob controle de burocracias ligadas às classes dominantes. Segundo Lênin, é fundamental disputar e conquistar sindicatos para politizar e influenciar as massas da classe trabalhadora.

O mesmo diz Lênin sobre a importância de um partido bem organizado e disciplinado, com apoio e confiança das massas, para derrotar as classes dominantes, não somente as elites da burguesia mas, sobretudo, os pequenos burgueses, que são muitos e que têm o hábito e as ideias da elite. Sindicatos e partido são essenciais para fazer a disputa ideológica no seio das massas proletárias e populares.

Bem interessante as explicações de Lênin. A primeira parte de minhas anotações pode ser lida aqui.

Eu mudei palavras do português de Portugal para o português brasileiro na hora de fazer as citações.

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EXCERTOS DE LÊNIN

Capítulo V - O comunismo 'de esquerda' na Alemanha. Chefes, Partido, Classe, Massas


"Os comunistas alemães, de quem vamos falar agora, não se chamam de 'esquerdistas', mas de 'oposição de princípio', se não me engano. Mas, pelo que se segue, pode-se ver que têm todos os sintomas da 'doença infantil do esquerdismo'."

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"Todo bolchevique que tenha participado conscientemente do desenvolvimento do bolchevismo desde 1903, ou que o tenha observado de perto, não poderá deixar de exclamar imediatamente, depois de haver lido tais opiniões: 'Que velharias conhecidas! Que infantilidades de 'esquerda'!"

Comentário: Lênin vai fazer algumas citações de um panfleto do grupo que se coloca como oposição ao Partido Comunista da Alemanha da época, 1920.

O grupo faz um questionamento separando o partido e a classe proletária, a transição entre o capitalismo e o socialismo, através da ditadura do proletariado, deveria ser conduzida por um ou outro...

Lênin vai falar da importância do Partido e dos sindicatos

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"Todos sabem que as massas se dividem em classes, que só é possível opor as massas às classes num sentido; opondo-se uma esmagadora maioria (sem dividi-la de acordo com as posições ocupadas no regime social da produção) a categorias que ocupam uma posição especial nesse regime; que as classes são geralmente e na maioria dos casos (pelo menos nos países civilizados modernos), dirigidas por partidos políticos; que os partidos políticos são dirigidos, via de regra, por grupos mais ou menos estáveis, integrados pelas pessoas mais prestigiosas, influentes ou sagazes, eleitas para os cargos de maior responsabilidade e chamadas de chefes. Tudo isso é o ABC, tudo isso é simples e claro. Que necessidade havia de trocar isso por tais confusões, por essa espécie de volapuk?*" 

* Volapuk - Idioma Internacional artificial inventado por Schleyer, em 1879. (Nota de Ediciones en Lenguas Extranjeras)

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"No fim da guerra imperialista e depois dela, manifestou-se em todos os países com singular vigor e evidência o divórcio entre 'os chefes' e 'a massa'. A causa fundamental desse fenômeno foi explicada muitas vezes por Marx e Engels, de 1852 a 1892, usando o exemplo da Inglaterra. A situação monopolista, desse país originou o nascimento de uma 'aristocracia operária' oportunista, semi-pequeno burguesa, saída da 'massa'. Os chefes dessa aristocracia operária passavam-se frequentemente para o campo da burguesia, que os sustentava direta ou indiretamente. Marx foi alvo do ódio, que lhe honra, desses canalhas, por havê-los qualificado publicamente de traidores."

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"A vitória do proletariado revolucionário torna-se impossível sem a luta contra esse mal, sem o desmascaramento, a desmoralização e a expulsão dos chefes oportunistas social-traidores; essa política, exatamente, foi a aplicada pela III Internacional."

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"Negar a necessidade do Partido e da disciplina partidária: eis o resultado a que chegou a oposição. E isso equivale a desarmar completamente o proletariado, em proveito da burguesia."

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"Suprimir as classes significa não só expulsar os latifundiários e os capitalistas - isso nós fizemos com relativa facilidade - como também suprimir os pequenos produtores de mercadorias; estes, porém, não se pode expulsar, não se pode esmagar; é preciso conviver com eles, e só se pode (e deve) transformá-los, reeducá-los, mediante um trabalho de organização muito longo, lento e prudente."

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"Para fazer frente a isso, para permitir que o proletariado exerça acertada, eficaz e vitoriosamente sua função organizadora (que é sua função principal), são necessárias uma centralização e uma disciplina severíssimas no partido político do proletariado."

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"A força do hábito de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível. Sem partido férreo e temperado na luta, sem um partido que goze da confiança de tudo que exista de honrado dentro da classe, sem um partido que saiba tomar o pulso do estado de espírito das massas e influir nele é impossível levar a cabo com êxito essa luta."

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"No IX Congresso de nosso Partido (abril de 1920) houve uma pequena oposição que também se pronunciou contra a 'ditadura dos chefes', a 'oligarquia', etc. Não há, portanto, nada de surpreendente, nada de novo, nada de alarmante na 'doença infantil do 'comunismo de esquerda' entre os alemães."

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Capítulo VI - Os revolucionários devem atuar nos sindicatos reacionários?


"Obtém-se, no conjunto, um dispositivo proletário, formalmente não comunista, flexível e relativamente amplo, poderosíssimo, por meio do qual o Partido está estreitamente ligado à classe e às massas, e através do qual se exerce, sob a direção do Partido, a ditadura da classe. É claro que nos teria sido impossível governar o país e exercer a ditadura, já não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, se não houvesse a mais estreita ligação com os sindicatos, seu apoio entusiasta, seu abnegadíssimo trabalho tanto na organização econômica como na militar."

Comentário do blog: lembrando que o texto de Lênin é de 1920 e a Revolução havia ocorrido em outubro de 1917.

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"Consideramos que o contato com as 'massas' através dos sindicatos não é suficiente. No transcurso da revolução criou-se em nosso país, na prática, um organismo que procuramos manter a todo custo, desenvolver e ampliar: as conferências de operários e camponeses sem partido, que nos possibilitam observar o estado de espírito das massas, aproximarmo-nos delas, corresponder a seus desejos, promover aos postos do Estado seus melhores elementos, etc."

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"Depois, por meio desses sindicatos de indústria, será iniciada a supressão da divisão do trabalho entre os homens, a educação, instrução e formação de homens universalmente desenvolvidos e universalmente preparados, homens que saberão fazer tudo. O comunismo marcha e deve marchar para esse objetivo, que será atingido, embora somente dentro de muitos anos."

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"O desenvolvimento do proletariado, porém, não se realizou, nem podia realizar-se, em nenhum país de outra maneira senão por intermédio dos sindicatos e por sua ação conjunta com o partido da classe operária."

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"Mas sustentamos a luta contra a 'aristocracia operária' em nome das massas operárias e para colocá-las ao nosso lado; sustentamos a luta contra os chefes oportunistas e social-chauvinistas para ganhar a classe operária. Seria tolice esquecer esta verdade mais que elementar e evidente. E é essa, precisamente, a tolice cometida pelos comunistas alemães 'de esquerda', que deduzem do caráter reacionário e contrarrevolucionário dos chefetes dos sindicatos que é necessário... sair dos sindicatos!!, renunciar ao trabalho neles!!, criar formas de organização operária novas, inventadas!! Uma estupidez tão imperdoável, que equivale ao melhor serviço que os comunistas podem prestar à burguesia."

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"(...) Não atuar dentro dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência dos líderes reacionários, dos agentes da burguesia dos operários aristocratas ou operários aburguesados' (ver a carta de Engels e Marx em 1858 a respeito dos operários ingleses).

"O Comitê Executivo da III Internacional deve, na minha opinião, condenar abertamente e propor ao próximo Congresso da Internacional Comunista que condene, de modo geral, a política de não participação nos sindicatos reacionários (explicando pormenorizadamente a insensatez que essa não participação significa e o imenso prejuízo que causa à revolução proletária)

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Comentário final

Não foi preciso ler essa obra de Lênin durante minha vida de representação sindical do campo cutista para ver na prática toda essa discussão que o líder revolucionário aborda em relação aos "esquerdistas" dentro do próprio movimento comunista de sua época.

Sigamos lendo o clássico de Vladimir Lênin.

William

20/06/26

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Instantes (18h40)



Refeição Cultural

SOBRE ADAPTAÇÕES 

Enquanto fazia minha hora de exercícios na pequena academia do condomínio refletia sobre preguiça e sobre adaptação. 

Desci para a sessão de exercícios sem gana alguma, uma preguiça do caramba. A razão, no entanto, impera e devo fazer o que tem de ser feito. Lições do sindicalismo.

Não enxergo mais o mundo como via antes do descolamento do humor vítreo do olho esquerdo. O mundo agora tem umas manchas flutuantes, é menos nítido. Sei que estou em melhores condições que muita gente ainda.

Estava com preguiça de ir à feira ontem. Xô, preguiça! Fui, tomei garapa, comprei frutas e pastel pra todo mundo que pediu. 

Ler e estudar também dão preguiça na gente. Porém, se quiser seguir humano, temos que ler textos longos e complexos. As big techs estão exterminando a minha espécie homo sapiens capturando humanos com nadas por horas.

Estou vivo. Adaptação é um dos desafios diários ao acordar neste mundo, neste momento. Apesar dos acidentes naturais e não naturais, casuais, a vida de todo ser vivo segue sendo uma oportunidade, salvo raras exceções. 

Eu mesmo, por exemplo, por ter superado aqueles anos difíceis e ter seguido até aqui, já fiz coisas interessantes no percurso da existência, tanto em meu benefício, quanto em favor da coletividade. Isso é bom.

Fechando esta refeição cultural do instante, sobre adaptações, se considerar a leitura que mais tem me instigado nesses dias, diria que os contos e narrativas curtas estão em primeiro lugar. 

Não confundam meu incentivo a ler narraticas curtas e contos como contradição ao que disse acima, sobre ser bom ler textos longos e complexos. 

A crítica que fiz é sobre o vazio (nadas) que ocupa a mente humana com as bobagens das big techs para reter milhões de humanos nas redes derretendo seus cérebros. 

Ao iniciar a leitura de um conto, às vezes de 3 ou 4 páginas, talvez tenha ali o universo, uma estória que vai te dar um soco e a ferida vai te incomodar por horas, ou um prazer indescritível, semelhante a um bom prato de comida ou um bom sexo.

Estou mergulhado nos cem contos brasileiros selecionados por Italo Moriconi, muitos autores e autoras que nunca ouvi falar, e a expectativa do que vou encontrar no conto seguinte é muito interessante, diferente de ler economia, história, Lênin, ou coisas do tipo.

Talvez deva focar ler contos para buscar algo de novo no cotidiano dessa vidinha nesse mundo de merda no qual estamos enfiados. 

William 

19/06/26

O barquinho azul na enchente (4)


A água já tinha subido mais de um metro em casa. Quando chovia muito forte, o córrego do Rio Pequeno transbordava e a água subia a rua de casa e invadia tudo. 

Toda época de chuva, era enchente e perda das coisas em casa. A lembrança do barro fedido nas coisas fica gravada na memória de criança da gente.

Naquele dia de enchente, eu vi pela janela o barquinho azul flutuando naquele oceano de água barrenta em frente de casa. Comecei a gritar para meus pais pegarem o barquinho pra mim.

Era perigoso ir lá fora com água pela cintura, mas algum adulto fez a gentileza e resgatou o barquinho da inundação e me deu.

O barquinho azul ficou comigo até quando fui embora pra Uberlândia, nas Minas Gerais, após os dez anos de idade.

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Instantes de uma vida