quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Instantes (13h13)



Refeição Cultural

QUE COISA É O MUNDO?


"- O mundo, redarguiu o canário com ar de professor, é uma loja de Belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego: o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira." 

Eis que descubro nos contos machadianos um canário marxista, ensinando a um animal mamífero bípede, com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, um humano, sobre a realidade material e concreta da vida.

Machado de Assis publicou o conto "Ideias de canário" em 1895, na Gazeta de Notícias. O conto está reunido por John Gledson em seu livro de 50 contos selecionados do Bruxo do Cosme Velho. 

Eu fiquei impressionado com a lição de materialismo histórico por parte do pássaro personagem, de Machado de Assis, ao sujeito que apreciava pássaros, Macedo, e que vivenciou o caso extraordinário de interagir com um canário deveras sábio. 

À medida que a realidade material mudava, o canário respondia ao sujeito que lhe indagava: "(...) que pensas deste mundo? Que coisa é o mundo?"

Se nossas amigas e amigos leitores tiverem a sabedoria do canário machadiano, perceberão que coisa é o mundo, que mundo é esse que estamos neste momento histórico...

Banco Master, Vorcaro, Flávio Bolsonaro, Trump, André Mendonça, Igreja Lagoinha, BETS, Faria Lima, Rede Globo, big techs, manipulação em massa das pessoas, bilionários corruptos, Tarcísio de Freitas... o mundo, o mundo. Que mundo é esse?

Tirem os olhos das telas, das redes antissociais, dos gatinhos, dos anzóis que pescam o tempo e a atenção de vocês... e olhem ao redor, o mundo. 

E no final da história, a lição final do canário:

"- Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima."

Caramba!

Me lembrei também do mundo da personagem Tereza, de 77 anos, do filme reflexivo "O último azul" (2025), de Gabriel Mascaro.

Como vemos o mundo?

William Mendes

23/09/26

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Lula na ONU em 2023 e 2026


Lula na ONU em 2026 - Foto: Stuckert


Opinião

O DESTINO DO BRASIL

O presidente Lula fez hoje, 22/09/26, um discurso histórico na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Lula é o principal estadista de nossa época, eu diria que é o único. Um orgulho a todos nós brasileiros. Lula poderia estar gozando de sua aposentadoria após décadas de serviços prestados ao nosso país, mas a responsabilidade com seu povo e com o Brasil o chamou a se colocar à disposição em 2022 e agora em 2026.

Quando Lula assumiu o 3º mandato presidencial, em 2023, sofreu uma tentativa de Golpe de Estado nos primeiros dias, em 8 de janeiro. Os golpistas foram liderados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e o processo penal que o condenou a 27 anos de cadeia revelou que os golpistas planejaram matar o presidente Lula, seu vice Alckmin e o ministro da Suprema Corte Alexandre de Morais.

Antes de se colocar à disposição do povo brasileiro mais uma vez em 2022, Lula havia passado 580 dias numa masmorra em Curitiba, foi um preso político, encarcerado ilegalmente ao ser julgado por um juiz considerado parcial pela Corte Suprema do país. A operação que montaram contra Lula, "Lava Jato", levou à morte sua companheira Marisa Letícia, além de outras perdas familiares irreparáveis.

Lula é o nosso presidente do Brasil, o estadista que fez um discurso histórico na ONU, um discurso firme, duro, que apontou os crimes que os governos dos Estados Unidos e de Israel estão cometendo e que a comunidade internacional não está reagindo, inclusive a ONU, criada após a 2ª Guerra Mundial para a solução pacífica das controvérsias entre países e povos do mundo.

Eu li o discurso do presidente Lula em 2023, ao levar o Brasil de volta ao mundo, à civilidade, com o fim daquele desgoverno do clã Bolsonaro, e li o discurso de Lula feito hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas. 

Se for para resumir, eu diria que o governo Lula fez algo muito difícil num período tão curto de tempo, e nas condições reais do cenário político do Congresso Nacional. Ele reverteu em menos de 4 anos mal feitos que fizeram o Brasil retroceder décadas em todas as dimensões que se medem o bem-estar e a qualidade de vida de uma sociedade.

Lula tirou o Brasil de novo do Mapa da Fome, reverteu o desmatamento do governo do "passa a boiada", conseguiu avanços no emprego, na renda do povo, na educação e infraestrutura, fez o quase impossível na saúde e na Farmácia Popular, Lula enfrentou com soberania as ameaças de Donald Trump, que conta com traidores da pátria para prejudicar o Brasil e os brasileiros.

Daqui alguns dias, em 4 de outubro, brasileiras e brasileiros vão às urnas para eleger o Presidente da República, governadores, homens e mulheres ao Senado e Congresso Nacional e assembleias legislativas. Os eleitores vão escolher o destino do Brasil, de verdade, O DESTINO DO BRASIL: CIVILIZAÇÃO E DEMOCRACIA OU BARBÁRIE E AUTORITARISMO. 

O time do presidente Lula, candidaturas vinculadas ao que significa Lula, ou seja, a soberania, os direitos sociais, a democracia, o amor e a solidariedade, definirão um futuro com boas expectativas para o conjunto do povo brasileiro.

A outra candidatura, a do clã Bolsonaro, e todas as pessoas ligadas a essa gente, significam talvez o desfazimento do país que lutamos para ter nas últimas décadas, lutas históricas do povo e de estadistas que pensavam no povo brasileiro. A extrema-direita e o fascismo bolsonarista é o ódio, a misoginia, a xenofobia, e o privilégio de poucos e a miséria de milhões.

Cada um de nós tem o destino do Brasil em nossas mãos até dia 4 de outubro.

Vamos firmes eleger Lula Presidente e as candidaturas do time do Lula, a soberania do Brasil e uma vida melhor para o povo de forma geral.

William Mendes


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Lula na ONU

Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 78ª Assembleia da ONU

Discurso lido pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura da 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York (EUA), em 19 de setembro de 2023


Publicado em 19/09/2023, 11h14 - Atualizado em 19/09/2023, 11h18

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Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Dennis Francis, de Trinidad e Tobago.

É uma satisfação ser antecedido pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.

Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.

Presto minha homenagem ao nosso compatriota Sérgio Vieira de Mello e 21 outros funcionários desta Organização, vítimas do brutal atentado em Bagdá, há 20 anos.

Desejo igualmente expressar minhas condolências às vítimas do terremoto no Marrocos e das tempestades que atingiram a Líbia.

A exemplo do que ocorreu recentemente no estado do Rio Grande do Sul no meu país, essas tragédias ceifam vidas e causam perdas irreparáveis.

Nossos pensamentos e orações estão com todas as vítimas e seus familiares.

Senhoras e Senhores,

Há vinte anos, ocupei esta tribuna pela primeira vez.

E disse, naquele 23 de setembro de 2003:

"Que minhas primeiras palavras diante deste Parlamento Mundial sejam de confiança na capacidade humana de vencer desafios e evoluir para formas superiores de convivência”

Volto hoje para dizer que mantenho minha inabalável confiança na humanidade.

Naquela época, o mundo ainda não havia se dado conta da gravidade da crise climática.

Hoje, ela bate às nossas portas, destrói nossas casas, nossas cidades, nossos países, mata e impõe perdas e sofrimentos a nossos irmãos, sobretudo os mais pobres.

A fome, tema central da minha fala neste Parlamento Mundial 20 anos atrás, atinge hoje 735 milhões de seres humanos, que vão dormir esta noite sem saber se terão o que comer amanhã.

O mundo está cada vez mais desigual.

Os 10 maiores bilionários possuem mais riqueza que os 40% mais pobres da humanidade.

O destino de cada criança que nasce neste planeta parece traçado ainda no ventre de sua mãe.

A parte do mundo em que vivem seus pais e a classe social à qual pertence sua família irão determinar se essa criança terá ou não oportunidades ao longo da vida.

Se irá fazer todas as refeições ou se terá negado o direito de tomar café da manhã, almoçar e jantar diariamente.

Se terá acesso à saúde, ou se irá sucumbir a doenças que já poderiam ter sido erradicadas.

Se completará os estudos e conseguirá um emprego de qualidade, ou se fará parte da legião de desempregados, subempregados e desalentados que não para de crescer.

É preciso antes de tudo vencer a resignação, que nos faz aceitar tamanha injustiça como fenômeno natural.

Para vencer a desigualdade, falta vontade política daqueles que governam o mundo.

Senhores e senhoras,

Se hoje retorno na honrosa condição de presidente do Brasil, é graças à vitória da democracia em meu país.

A democracia garantiu que superássemos o ódio, a desinformação e a opressão.

A esperança, mais uma vez, venceu o medo.

Nossa missão é unir o Brasil e reconstruir um país soberano, justo, sustentável, solidário, generoso e alegre.

O Brasil está se reencontrando consigo mesmo, com nossa região, com o mundo e com o multilateralismo.

Como não me canso de repetir, o Brasil está de volta.

Nosso país está de volta para dar sua devida contribuição ao enfrentamento dos principais desafios globais.

Resgatamos o universalismo da nossa política externa, marcada por diálogo respeitoso com todos.

A comunidade internacional está mergulhada em um turbilhão de crises múltiplas e simultâneas: a pandemia da Covid-19; a crise climática; e a insegurança alimentar e energética ampliadas por crescentes tensões geopolíticas.

O racismo, a intolerância e a xenofobia se alastraram, incentivadas por novas tecnologias criadas supostamente para nos aproximar.

Se tivéssemos que resumir em uma única palavra esses desafios, ela seria desigualdade.

A desigualdade está na raiz desses fenômenos ou atua para agravá-los.

A mais ampla e mais ambiciosa ação coletiva da ONU voltada para o desenvolvimento – a Agenda 2030 – pode se transformar no seu maior fracasso.

Estamos na metade do período de implementação e ainda distantes das metas definidas.

A maior parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável caminha em ritmo lento.

O imperativo moral e político de erradicar a pobreza e acabar com a fome parece estar anestesiado.

Nesses sete anos que nos restam, a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles deveria se tornar o objetivo-síntese da Agenda 2030.

Reduzir as desigualdades dentro dos países requer incluir os pobres nos orçamentos nacionais e fazer os ricos pagarem impostos proporcionais ao seu patrimônio.

No Brasil, estamos comprometidos a implementar todos os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, de maneira integrada e indivisível.

Queremos alcançar a igualdade racial na sociedade brasileira por meio de um décimo oitavo objetivo que adotaremos voluntariamente.

Lançamos o plano Brasil sem Fome, que vai reunir uma série de iniciativas para reduzir a pobreza e a insegurança alimentar.

Entre elas, está o Bolsa Família, que se tornou referência mundial em programas de transferência de renda para famílias que mantêm suas crianças vacinadas e na escola.

Inspirados na brasileira Bertha Lutz, pioneira na defesa da igualdade de gênero na Carta da ONU, aprovamos a lei que torna obrigatória a igualdade salarial entre mulheres e homens no exercício da mesma função.

Combateremos o feminicídio e todas as formas de violência contra as mulheres.

Seremos rigorosos na defesa dos direitos de grupos LGBTQI+ e pessoas com deficiência.

Resgatamos a participação social como ferramenta estratégica para a execução de políticas públicas.

Senhor presidente,

Agir contra a mudança do clima implica pensar no amanhã e enfrentar desigualdades históricas.

Os países ricos cresceram baseados em um modelo com altas taxas de emissões de gases danosos ao clima.

A emergência climática torna urgente uma correção de rumos e a implementação do que já foi acordado.

Não é por outra razão que falamos em responsabilidades comuns, mas diferenciadas.

São as populações vulneráveis do Sul Global as mais afetadas pelas perdas e danos causados pela mudança do clima.

Os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera.

Nós, países em desenvolvimento, não queremos repetir esse modelo.

No Brasil, já provamos uma vez e vamos provar de novo que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável é possível.

Estamos na vanguarda da transição energética, e nossa matriz já é uma das mais limpas do mundo.

87% da nossa energia elétrica provém de fontes limpas e renováveis.

A geração de energia solar, eólica, biomassa, etanol e biodiesel cresce a cada ano.

É enorme o potencial de produção de hidrogênio verde.

Com o Plano de Transformação Ecológica, apostaremos na industrialização e infraestrutura sustentáveis.

Retomamos uma robusta e renovada agenda amazônica, com ações de fiscalização e combate a crimes ambientais.

Ao longo dos últimos oito meses, o desmatamento na Amazônia brasileira já foi reduzido em 48%.

O mundo inteiro sempre falou da Amazônia. Agora, a Amazônia está falando por si.

Sediamos, há um mês, a Cúpula de Belém, no coração da Amazônia, e lançamos nova agenda de colaboração entre os países que fazem parte daquele bioma.

Somos 50 milhões de sul-americanos amazônidas, cujo futuro depende da ação decisiva e coordenada dos países que detêm soberania sobre os territórios da região.

Também aprofundamos o diálogo com outros países detentores de florestas tropicais da África e da Ásia.

Queremos chegar à COP 28 em Dubai com uma visão conjunta que reflita, sem qualquer tutela, as prioridades de preservação das bacias Amazônica, do Congo e do Bornéu-Mekong a partir das nossas necessidades.

Sem a mobilização de recursos financeiros e tecnológicos não há como implementar o que decidimos no Acordo de Paris e no Marco Global da Biodiversidade.

A promessa de destinar 100 bilhões de dólares – anualmente – para os países em desenvolvimento permanece apenas isso, uma promessa.

Hoje esse valor seria insuficiente para uma demanda que já chega à casa dos trilhões de dólares.

Senhor presidente,

O princípio sobre o qual se assenta o multilateralismo – o da igualdade soberana entre as nações – vem sendo corroído.

Nas principais instâncias da governança global, negociações em que todos os países têm voz e voto perderam fôlego.

Quando as instituições reproduzem as desigualdades, elas fazem parte do problema, e não da solução.

No ano passado, o FMI disponibilizou 160 bilhões de dólares em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas 34 bilhões para países africanos.

A representação desigual e distorcida na direção do FMI e do Banco Mundial é inaceitável.

Não corrigimos os excessos da desregulação dos mercados e da apologia do Estado mínimo.

As bases de uma nova governança econômica não foram lançadas.

O BRICS surgiu na esteira desse imobilismo, e constitui uma plataforma estratégica para promover a cooperação entre países emergentes.

A ampliação recente do grupo na Cúpula de Joanesburgo fortalece a luta por uma ordem que acomode a pluralidade econômica, geográfica e política do século 21.

Somos uma força que trabalha em prol de um comércio global mais justo num contexto de grave crise do multilateralismo.

O protecionismo dos países ricos ganhou força e a Organização Mundial do Comércio permanece paralisada, em especial o seu sistema de solução de controvérsias.

Ninguém mais se recorda da Rodada do Desenvolvimento de Doha.

Nesse ínterim, o desemprego e a precarização do trabalho minaram a confiança das pessoas em tempos melhores, em especial os jovens.

Os governos precisam romper com a dissonância cada vez maior entre a “voz dos mercados” e a “voz das ruas”.

O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e política que hoje assola as democracias.

Seu legado é uma massa de deserdados e excluídos.

Em meio aos seus escombros surgem aventureiros de extrema direita que negam a política e vendem soluções tão fáceis quanto equivocadas.

Muitos sucumbiram à tentação de substituir um neoliberalismo falido por um nacionalismo primitivo, conservador e autoritário.

Repudiamos uma agenda que utiliza os imigrantes como bodes expiatórios, que corrói o Estado de bem-estar e que investe contra os direitos dos trabalhadores.

Precisamos resgatar as melhores tradições humanistas que inspiraram a criação da ONU.

Políticas ativas de inclusão nos planos cultural, educacional e digital são essenciais para a promoção dos valores democráticos e da defesa do Estado de Direito.

É fundamental preservar a liberdade de imprensa.

Um jornalista, como Julian Assange, não pode ser punido por informar a sociedade de maneira transparente e legítima.

Nossa luta é contra a desinformação e os crimes cibernéticos.

Aplicativos e plataformas não devem abolir as leis trabalhistas pelas quais tanto lutamos.

Ao assumir a presidência do G20 em dezembro próximo, não mediremos esforços para colocar no centro da agenda internacional o combate às desigualdades em todas as suas dimensões.

Sob o lema "Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável", a presidência brasileira vai articular inclusão social e combate à fome; desenvolvimento sustentável e reforma das instituições de governança global.

Senhor presidente,

Não haverá sustentabilidade nem prosperidade sem paz.

Os conflitos armados são uma afronta à racionalidade humana.

Conhecemos os horrores e os sofrimentos produzidos por todas as guerras.

A promoção de uma cultura de paz é um dever de todos nós. Construí-la requer persistência e vigilância.

É perturbador ver que persistem antigas disputas não resolvidas e que surgem ou ganham vigor novas ameaças.

Bem o demonstra a dificuldade de garantir a criação de um Estado para o povo palestino.

A este caso se somam a persistência da crise humanitária no Haiti, o conflito no Iêmen, as ameaças à unidade nacional da Líbia e as rupturas institucionais em Burkina Faso, Gabão, Guiné-Conacri, Mali, Níger e Sudão.

Na Guatemala, há o risco de um golpe, que impediria a posse do vencedor de eleições democráticas.

A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU.

Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz.

Mas nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo.

Tenho reiterado que é preciso trabalhar para criar espaço para negociações.

Investe-se muito em armamentos e pouco em desenvolvimento.

No ano passado os gastos militares somaram mais de 2 trilhões de dólares.

As despesas com armas nucleares chegaram a 83 bilhões de dólares, valor vinte vezes superior ao orçamento regular da ONU.

Estabilidade e segurança não serão alcançadas onde há exclusão social e desigualdade.

A ONU nasceu para ser a casa do entendimento e do diálogo.

A comunidade internacional precisa escolher:

De um lado, está a ampliação dos conflitos, o aprofundamento das desigualdades e a erosão do Estado de Direito.

De outro, a renovação das instituições multilaterais dedicadas à promoção da paz.

As sanções unilaterais causam grandes prejuízos à população dos países afetados.

Além de não alcançarem seus alegados objetivos, dificultam os processos de mediação, prevenção e resolução pacífica de conflitos.

O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo.

Continuaremos críticos a toda tentativa de dividir o mundo em zonas de influência e de reeditar a Guerra Fria.

O Conselho de Segurança da ONU vem perdendo progressivamente sua credibilidade.

Essa fragilidade decorre em particular da ação de seus membros permanentes, que travam guerras não autorizadas em busca de expansão territorial ou de mudança de regime.

Sua paralisia é a prova mais eloquente da necessidade e urgência de reformá-lo, conferindo-lhe maior representatividade e eficácia.

Senhoras e senhores,

A desigualdade precisa inspirar indignação.

Indignação com a fome, a pobreza, a guerra, o desrespeito ao ser humano.

Somente movidos pela força da indignação poderemos agir com vontade e determinação para vencer a desigualdade e transformar efetivamente o mundo a nosso redor.

A ONU precisa cumprir seu papel de construtora de um mundo mais justo, solidário e fraterno.

Mas só o fará se seus membros tiverem a coragem de proclamar sua indignação com a desigualdade e trabalhar incansavelmente para superá-la.

Muito obrigado.


Fonte: Site do governo federal

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22/09/2026

Discurso do Presidente Lula

Secretaria de Comunicação Social

"Discurso do Presidente Lula na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas

Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh.

Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.

Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações Unidas.

Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências.

Senhor Presidente,

Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia.

Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas.

O sentimento que me move hoje é o da indignação.

A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.

Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez.

A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.

Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais.

Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir.

Não desconheço as realidades do poder.

Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo.

A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.

Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade.

Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade.

Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de estado. É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome.

Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas.

Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação mais precisa do mapa-múndi.

Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade.

Somos chamados a optar entre:

multilateralismo ou unilateralismo;

democracia ou extremismo;

soberania ou subordinação.

Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista.

Yasser Arafat e Yitzahk Rabin foram estadistas. Desafiaram o passado para projetar um futuro de paz.

Foram derrotados pelo ódio.

Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas.

Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes.

A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança.

Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio.

O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.

A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos, em um drama humanitário que continua a ceifar vidas.

Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha.

A diplomacia é a única opção.

Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo.

Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.

Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular.

A democracia está novamente em xeque.

Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos.

O povo venezuelano merece definir o próprio destino.

A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições.

A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional.

Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.

Senhor Presidente,

O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado.

Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades.

Trabalhadores são roubados.

Mães perdem seus filhos.

Policiais não voltam para suas casas.

As pessoas estão cansadas da violência.

Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.

Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao Presidente dos Estados Unidos.

Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.

Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está mudando.

Criamos em Manaus o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança pública dos nove países amazônicos.

Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil.

Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime.

A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.

Crime organizado e corrupção andam juntos.

O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei.

Senhoras e senhores,

Os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos.

A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos.

Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.

Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da COVID-19.

Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos erradicadas.

Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna a todos mais vulneráveis.

Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional.

Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, foros que reúnem os maiores emissores de carbono.

É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo.

A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só.

As geleiras do Himalaia estão derretendo. Um Super El Niño pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes partes do globo.

Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis.

O Brasil vem demonstrando que é possível aliar crescimento econômico com redução de emissões.

Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos pesquisando o potencial de novas reservas, como as da Margem Equatorial.

Não renunciaremos à agenda ambiental. Levaremos adiante o Mapa do Caminho para a descarbonização da economia brasileira.

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, mostra que é possível mudar antigos paradigmas.

A floresta vale mais em pé do que destruída.

Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade na Amazônia e atingiu o menor nível em 11 anos.

Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental.

O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética.

Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas.

O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.

Senhor presidente,

Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades.

Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial.

Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.

Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial.

Como adverte o Papa Leão 14, “as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade”.

Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos.

A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro.

Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares.

O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.

Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.

Vamos assegurar a justa remuneração de artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual.

Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.

Senhoras e senhores,

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são alvo de ataques de forças reacionárias, que desejam naturalizar injustiças.

A desigualdade e o subdesenvolvimento resultam de escolhas políticas.

É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte.

É necessário cortar privilégios e investir em educação e saúde gratuitas e de qualidade.

Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças. Mas mudar não é retroceder.

Não é subtrair direitos.

Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão feminina.

Não é recolonizar o Sul Global.

Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais conquistas.

É criar e compartilhar soluções públicas efetivas para os desafios do desenvolvimento por meio de um Estado democrático, forte, eficiente e capaz.

É apostar no espírito de solidariedade e na cooperação com a África, a Ásia e a América Latina e Caribe.

Iniciativas como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o Painel Internacional sobre Desigualdade nascem dessa vontade política.

O Brasil tem pressa de se tornar uma nação desenvolvida e socialmente justa.

Adotamos um modelo econômico que se assenta na distribuição de renda, na geração de empregos e na valorização do salário.

Apostamos na melhoria da produtividade, na ampliação do crédito e na construção de uma rede robusta de proteção social.

O Brasil voltou a crescer de modo sustentado. Somos o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.

Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações.

Ainda há muito a ser feito.

O mundo do trabalho está em transformação.

Pessoas idosas querem permanecer ativas. Jovens desejam empreender.

O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família.

No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana.

Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres.

Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de trabalho.

Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência.

Essa é uma causa que o mundo todo precisa abraçar.

Senhor presidente,

Ao receber o Nobel da Paz, Martin Luther King afirmou que “aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas para o próximo podem reconstruir”.

A ONU nasceu sob o signo da esperança.

Ao longo de oito décadas, contribuiu com a descolonização, promoveu os direitos humanos e apoiou o desenvolvimento sustentável.

Protegeu migrantes e refugiados, condenou o racismo, o antissemitismo e a intolerância religiosa.

Essas foram conquistas de lideranças que ocuparam este pódio movidos pela indignação diante das injustiças de seu tempo.

Homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como destino, o colonialismo como direito, o apartheid como sistema legítimo.

Foi dessa capacidade de dizer “não” às desigualdades que nasceram algumas das maiores transformações que vivemos.

Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.

Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os que nos ouvem.

No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino.

Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo.

Vão decidir entre democracia e negacionismo.

Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.

Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão.

Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.

Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha.

Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto.

Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular.

A democracia brasileira pertence aos brasileiros.

O Brasil continuará sendo um país soberano.

Ninguém...!!! Ninguém nos afastará desse caminho.

Que Deus nos abençoe a todos.

Muito obrigado.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República


Instantes (10h15)



Refeição Cultural

Escolhas...

O dia está nublado, com chuvas a qualquer momento. Vou sair. 

De transporte público vou para o centro da cidade de São Paulo fazer campanha eleitoral, conversar com as pessoas na rua e pedir voto para as candidaturas do campo progressista. A escolha é entre a civilização ou a barbárie. 

No conto de Machado de Assis, de 1991, "O caso da vara", um rapaz foge do seminário, pede acolhimento na casa de uma madrinha, e pede por misericórdia que ela interceda por ele junto ao tio e ao pai para livrá-lo do seminário. 

Escolhas...

Uma criança de onze anos, um "cria" de Sinhá Rita, que vivia da exploração de meninas negras que produziam para ela renda, crivo e bordado, com castigo de vara se não produzissem a meta do dia, vai pedir a Damião, o jovem seminarista que pediu misericórdia à madrinha, que interceda por ela quando chega a hora do castigo...

Qual será a escolha de Damião? Quem pede misericórdia será misericordioso?

Escolhas...

Eu vou pra rua pedir voto pela civilização e pela democracia, contra a barbárie. 

William Mendes 

22/09/26

domingo, 20 de setembro de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (7)



Refeição Cultural

"O aeronauta ia dirigir a caranguejola com as mãos num guidão de bicicleta, ligado ao leme." (As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont. Fernando Jorge)


Os dirigíveis n° 4 e n° 5

O ano era 1900 e o local era Paris, França. Alberto Santos Dumont seguia firme em seu propósito de inventar um artefato com o qual pudesse navegar pelos céus. 

Alberto já havia sofrido o risco de morrer em duas experiências: na primeira (1898) uns garotos lhe salvaram ao puxarem a corda de seu balão, em queda acelerada, contra o vento como lhes pediu gritando do alto. Na segunda, com o n° 3, caiu e se cortou todo, sendo salvo por fazendeiros locais.

"(...) No gênero, algo de inédito e sensacional. Havia excluído a barquinha, colocando, no lugar desta, um selim comum de bicicleta (...) Este imbróglio sustentava o motor, o lastro, o propulsor, o tanque de petróleo e inclusive o aeronauta. Conforme disse o próprio Santos Dumont, aquela coisa intrincada lembrava uma teia de aranha." (Fernando Jorge, cap. 4)

Desta vez, por ocasião da "Grande Exposição Universal de 1900", Alberto iria ousar muito mais. Planejava fazer um artefato sem a barquinha e voar sentado num selim de bicicleta e com pedais... mas contraiu uma forte pneumonia durante os experimentos. 

O biógrafo Fernando Jorge nos descreve o ambiente da época no mundo das invenções e na disputa por quem levaria a fama do invento. Neste capítulo, ele cita o anglo-saxão Samuel Langley (EUA), que também queria voar em artefatos dirigíveis, e seu puxa-saco Wykeham, que fazia pouco caso do brasileiro Santos Dumont. Mas...

"O próprio Peter Wykeham reconhece que por ocasião da visita de Langley à França, o brasileiro já estava voando e o americano ainda não..." (idem)

No final da jornada do ano comemorativo francês e do desafio lançado por um ricaço para algum aviador dar a volta na Torre Eiffel, entre o dirigível n° 4 e o n° 5, já em meados do ano seguinte, 1901, Santos Dumont consegue realizar o feito, mas não nas condições do tal desafio, e seu n° 5 cai no parque da mansão dos Rothschild.

Alberto conhece a esposa do Conde d'Eu, conhecida dos brasileiros como Princesa Isabel, e ganhou dela uma medalhinha de São Bento, "que protege contra acidentes", como lhe explicou "A Redentora".

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COMENTÁRIO FINAL 

Finda a leitura de mais um capítulo da biografia do brasileiro Alberto Santos Dumont. 

Estou lendo este livro em homenagem ao meu pai, que o leu décadas atrás. 

A vida é complexa, principalmente nas relações humanas. Dias atrás, minha mãe me ligou reclamando do comportamento difícil de meu pai. Acabamos discutindo. Como intermediar discussões de uma relação de mais de seis décadas? Todos nós sofremos com a situação... difícil. 

Sigamos a vida. Viver é isso, é a realidade cotidiana que se impõe a todos. A gente que dê jeito de lidar com a realidade. 

William 

20/09/26

sábado, 19 de setembro de 2026

Instantes (15h52)



Refeição Cultural

LEITURAS 

"O meu adiantamento pela gravação do álbum ainda não tinha sido pago e passei por tempos difíceis - dos mais difíceis de todos. Pela primeira vez na vida, fiquei completamente sem dinheiro e tive que revirar lixeiras para encontrar algo para comer." (Born to Run, Bruce Springsteen, p. 171)


A autobiografia do cantor e compositor Bruce Springsteen foi outro livro que adquiri, tentei e não consegui ler no duríssimo ano de 2018. Memórias Volume I, do Zé Dirceu foi assim. 

O livro do companheiro Zé Dirceu só fui terminar a leitura agora, oito anos depois. Aquele ano para mim foi meio imprestável nas leituras. 

O processo de Golpe de Estado em andamento no Brasil, que colocaria Bolsonaro no poder e uma imensidade de fascistas de merda com ele, e o fim de nosso mandato de representação política, diluíram minha capacidade de ler e estudar em 2018.

Às vezes, a gente se decepciona com posicionamentos políticos pessoais de figuras públicas que gostamos. Felizmente, Bruce Springsteen tem feito forte enfrentamento ao governo fascista de Donald Trump. 

As músicas de Bruce Springsteen fizeram parte de momentos marcantes de minha vida de adulto cheio de dilemas e sentimentos agudos em relação às coisas da existência. Várias baladas dele me tocam profundamente. 

William 

19/09/26

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Livro: Zé Dirceu - Memórias Volume I



Refeição Cultural

"Quem lê, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando um leitor assoma à entrada de um livro, é para conhecê-lo, ou para se reconhecer a si mesmo nele? Quer o leitor que a leitura seja uma viagem de descobridor pelo mundo do poeta (designo agora por poesia, se me permite, todo o trabalho literário), ou, sem o querer confessar, suspeita que essa viagem não será mais do que um simples pisar novo das suas próprias e conhecidas veredas?" (Último caderno de Lanzarote, José Saramago)


Como quase tudo em minha vida, foi por acaso que topei com essa sabedoria citada acima do grande escritor José Saramago. No fundo, eu quase que não precisaria dizer mais nada sobre a minha relação com o livro de memórias do Zé Dirceu. É tudo isso que Saramago disse... tudo isso. 

José Dirceu terminou a revisão de suas memórias em julho de 2018. Publicou a primeira edição em agosto daquele ano. Já havia enfrentado períodos na prisão. O presidente Lula havia sido preso em abril de 2018, em uma operação criminosa para a tomada do poder no Brasil. Lula ficaria naquela masmorra por 580 dias, até ser solto por ser inocente, assim como José Dirceu.

Eu acabava de voltar para São Paulo em junho de 2018, após trabalhar quatro anos em Brasília. Eu estava vivendo o meu inferno pessoal. Voltei para casa após um processo de lawfare que montaram contra mim para me tirarem da representação política, com mentiras inventadas para destruírem minha história de lutas. Arquivaram aquelas mentiras infundadas quando eu já não era nada, carta fora do baralho. Moramos os primeiros meses em SP entre caixas e sacos de mudanças num apartamento alugado, enquanto reformava nossa casa fechada há anos. 

Minha Via Crucis durou bem menos que a de figuras de grandeza política como Lula, Zé Dirceu, Genoino, Gushiken e Vaccari. Durou menos que a de companheiros do movimento sindical, perseguidos em processos inventados e que passaram anos se defendendo de algo que não fizeram. Após dois anos de martírio, tendo cumprido os prazos legais de tempo de contribuição ao nosso fundo de pensão, saí do banco público para o qual dediquei o melhor de minha vida. Veio a pandemia de Covid, que aumentou o meu isolamento por um longo tempo. Foi difícil retomar a vida. A experiência serviu para admirar cada vez mais lideranças como essas que citei.

Enfim, talvez eu tenha comprado o livro do Zé Dirceu, assim que foi lançado em 2018, com todas aquelas indagações que José Saramago brilhantemente faz em suas reflexões mágicas sobre o que os leitores esperam encontrar nos livros e nas leituras que fazem.

Aquele ano foi tão difícil para mim, para nós que dedicamos a nossa vida para um Brasil e um mundo melhor, mais justo e solidário, com maiores oportunidades para a imensa maioria do povão, as gentes de onde viemos enquanto classe trabalhadora, que tudo que li naquele ano se perdeu, eu não estava prestando para nada vivendo meu pequeno inferno astral. 

Cheguei a ler quase duzentas páginas das memórias do Zé Dirceu. Parei. Li outros livros. Não me lembro de nada que li naquele ano. De vez em quando recebia notícias de que eu iria enfrentar processos também, depois não mais... Veio aquela campanha política fraudulenta, sem Lula que venceria as eleições, e que colocou o clã Bolsonaro no poder. Vieram as destruições de tudo de nosso querido Brasil. Veio a pandemia... Vieram os milhares de mortos diariamente, mortes causadas por aquela gente que tomou o país por golpe.

Eu fui retomar a leitura do livro de memórias do Zé Dirceu anos depois, em 2024, com o Brasil vivendo já outro contexto, um país sobrevivente daqueles quatro anos de desgraça bolsonarista. Mas um país fraturado, cheio de feridas e cicatrizes, com tudo mudado. Li de novo umas cento e cinquenta páginas, fui em um encontro com o companheiro Zé Dirceu no diretório do PT da Lapa. Peguei seu autógrafo. Acabei não dando sequência na leitura, por outros motivos, por estar lendo compulsivamente um monte de livros.

Enfim, semanas atrás, peguei o livro de memórias do Zé e comecei a leitura desde o início, a primeira terça parte do livro eu li três vezes. E fui dando sequência na leitura, fazendo minhas postagens de comentários sobre os fatos narrados de nossa história, pois é a nossa história que está ali registrada no livro do Zé Dirceu. E cheguei ao fim da leitura emocionado. Foi uma grande experiência pessoal ler o livro do companheiro neste momento da história de nosso país e do mundo. E minha também.

Se for comparar com algum outro livro no qual eu tenha refletido e compreendido o que eu era enquanto militante e dirigente político de uma categoria profissional importante da classe trabalhadora brasileira, eu diria que o livro do Zé Dirceu foi para mim como a leitura do livro da Denise Paraná, Lula, o filho do Brasil (Ler comentário aqui). Ali, entendi quem eu era, de onde vim, o que defendia, como fazia política e qual era o meu pertencimento enquanto militante da CUT, do PT e da Articulação Sindical.

Como o livro foi uma verdadeira refeição cultural, tema principal do meu blog, eu fui postando curtas observações, sempre lembrando que o ideal é a leitura integral do livro, amigas e amigos leitores. 

Meus comentários estão nos textos que fui tecendo ao longo da leitura, e o primeiro deles pode ser lido aqui e os seguintes no link de cada postagem. São 16 textos no total. Só não comentei o epílogo e os anexos, que são excelente! Recomendo a leitura.

É isso! Desejo ao companheiro Zé Dirceu sucesso em sua campanha para deputado federal, ele concorre por São Paulo com o número 1368. Fiquei muito feliz com a notícia do resultado positivo em seu tratamento contra um câncer. Saúde e vida longa, grande guerreiro do povo brasileiro!

E sigamos nas lutas para reeleger o presidente Lula e o time do Lula nas duras eleições que estamos disputando contra uma extrema-direita internacional, desejosa que tomar o Brasil de novo, como fez com o golpe de 2016 e com o bolsonarismo.

Não passarão! Vamos vencer e manter a soberania do Brasil!

Dia 4 de outubro É LULA PRESIDENTE!

William Mendes

15/09/26

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (16)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA


14/09/26

Faltam vinte dias para as eleições brasileiras. Temos que reeleger o presidente Lula 13 e mudar São Paulo, elegendo Fernando Haddad 13 governador para reverter a trágica gestão de Tarcísio de Freitas. 

Temos que fortalecer a luta das mulheres progressistas, por isso temos que eleger Marina 180 e Simone 400 senadoras por SP.

E é fundamental elegermos a jovem e aguerrida companheira Luna Zarattini deputada federal 1302. O presidente Lula convocou nossa vereadora paulistana Luna para mudarmos a cara do Congresso Nacional, hoje inimigo do povo. 

Também peço votos para nosso companheiro Marcolino a deputado estadual 13310. Trabalhamos juntos pelos bancários e conheço sua capacidade de conquistar direitos para o povo. Marcolino fez excelente mandato e merece ser eleito novamente. 

NOTA DE PESAR: hoje nos despedimos de duas lideranças populares que dedicaram suas vidas ao povo trabalhador e desassistido pelos poderes públicos. Arthur Henrique, ex-presidente de nossa Central Única dos Trabalhadores (CUT), faleceu em Campinas, e Maria do Carmo, a Cacá como era conhecida por nós no PT do Butantã, faleceu em São Paulo. Duas referências de todos nós que lutamos por um mundo mais justo e solidário. Arthur, presente! Cacá, presente!

Sigamos na leitura das memórias do Zé Dirceu, as memórias que ele nos conta são registros das lutas de todos nós, lutas pelo Brasil e pelo povo brasileiro. 

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32. O MENSALÃO 

Explode uma crise que sinaliza o começo do fim

O capítulo me trouxe muitas recordações daquele ano de 2005. Eu estava representando como dirigente eleito uma grande categoria profissional, os bancários, e senti na pele o clima odioso contra a esquerda, clima criado pela mídia da casa-grande. 

É absolutamente verdadeiro o que Zé Dirceu descreve sobre o papel da imprensa golpista na criação de uma crise para derrubar o primeiro presidente brasileiro oriundo da classe trabalhadora. 

Vivemos uma tentativa de blitzkrieg, uma guerra do PIG e seus comparsas na casa-grande para interromper o governo Lula. O jornalista Paulo H. Amorim lançou a expressão "PIG" para nominar o Partido da Imprensa Golpista. 

Zé Dirceu nos conta sobre as dores imensas que sofreu ao ser massacrado pelas mentiras inventadas por Roberto Jefferson (PTB) e pelo cancelamento que sofreu dentro do próprio partido. Foram tempos duríssimos.

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33. O PAPEL DO JORNAL 

A Folha de S.Paulo quer o impeachment de Lula, mas a oposição prefere deixar Lula sangrar 

Ufa! Que final duro teve este capítulo... Zé Dirceu foi pressionado a renunciar ao mandato parlamentar, eleito por 513 mil eleitores paulistas, e sua companheira Maria Rita o convence a lutar para provar sua inocência. 

Fogo amigo

Entre as páginas 439 e 441, Zé Dirceu descreve fatos que lhe dão o sentimento de que aceleraram seu processo de cassação com alguns apoios do nosso lado, do partido e do governo. 

"Porém, iniciou-se um movimento subterrâneo na Câmara, com sinais perceptíveis vindos do governo, para votar o relatório do Conselho de Ética antes do recesso parlamentar de 15 de dezembro." (p. 441)

Como militante e leitor, fico me perguntando onde Zé Dirceu encontrou e encontra tanta força para superar seus desafios... grande ser humano!

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34. VIVER PARA OUVIR 

"Zé, você foi cassado porque não comprou votos contra sua cassação"

"Era um relatório político sem nenhum fato, nenhuma prova, ato de ofício ou indício. E apenas uma testemunha me acusava, numa peça de ficção: Roberto Jefferson. 

     A Câmara me cassou sem o inquérito policial estar concluído, sem o procurador-geral da República me denunciar, e sem provas..." (p. 444)

Zé Dirceu conta aos leitores a jornada que iniciou para provar sua inocência, luta que levou vários anos para se alcançar justiça e inocência. 

Fala também sobre os ministros do Supremo, as indicações de Lula e Dilma, suas divergências e opiniões. É muito atual para o que estamos vendo na crise do STF neste momento, às vésperas das eleições de 2026.

Nosso companheiro anuncia que vai escrever um segundo livro de memórias para retratar suas lutas a partir de 2007.

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COMENTÁRIO FINAL 

A leitura das memórias do companheiro Zé Dirceu não poderia ser uma leitura rápida de minha parte. 

Vivi no mesmo Brasil descrito por ele, fui um agente político e liderança da classe trabalhadora na mesma época de parte dessas lutas descritas pelo líder político Zé Dirceu. 

Faltam agora umas 30 páginas pra finalizar esses registros da história do grande Zé Dirceu. 

Para ler um comentário geral sobre a leitura do livro é só clicar aqui.

William Mendes

sábado, 12 de setembro de 2026

O sentido da vida (22)



Servir aos outros, talvez

Temos que tirar uma lesão na orelha do meu pai que pode ser um câncer de pele. É um caso recorrente na família. Pago plano de saúde da Cassi pra ele e mesmo assim não estou conseguindo resolver a questão. O plano está me deixando na mão. É uma grande frustração! Fui gestor eleito da Cassi e não esperava isso de nossa autogestão em saúde. 

A casa de meus pais é antiga, cheia de problemas estruturais para serem reparados. Moro a 600 Km de distância deles. Estamos tentando fazer aos poucos os reparos. Trocamos a pia da cozinha, o tanque, consertamos o telhado da área do quintal. Minha irmã e sobrinhos têm ajudado como podem. Até meu primo nos ajudou. 

Compramos um fogão novo pra minha mãe, mas não conseguimos instalá-lo ainda. Até algo simples se transforma em uma novela. Meu pai não aceitou colocarmos o botijão de gás onde era possível... estamos tentando contratar um profissional que faça a instalação do jeito que meu pai aceite.

Eu, filho do meu pai, tento entendê-lo de todas as maneiras possíveis, considerando a idade dele, as dores dele, o que ele já viveu de ruim na vida, suas frustrações, mas não é fácil compreender por que ele é tão rude com as pessoas que convivem com ele. Me coloco no lugar dele, agora que sinto parte das dores que ele tem, e fico me questionando se também ficarei como ele...

O mundo está numa etapa complicada. A sociedade humana caminha para sua autodestruição. A parcela pequena de pessoas com alguma consciência social se pergunta o que fazer para evitar a degeneração acelerada de tudo ao nosso redor. Eu me politizei bastante depois dos trinta anos de idade. Se não tivesse sobrevivido ao período que queria morrer, de menino explorado até uns trinta anos, nem estaria aqui refletindo essas coisas e sequer teria tido a oportunidade de ter feito algumas coisas úteis à coletividade como acho que fiz quando fui político e representei honestamente milhares de trabalhadores bancários.

Qual o sentido da vida? Pergunta esquisita essa. Como assim, sentido? Qual teria sido a resposta que daria se estivesse com meus quatorze anos quebrando esgoto com merda como fiz quando trabalhei para o senhor Joaquim?

Qual resposta daria quando estava em fúria e querendo matar e morrer revoltado com aquela miséria e carência que eu sentia? Amassar barata na cara no barracão onde morei, ser humilhado pelos fdp nos casarões do Umuarama quando apertava a campainha de suas casas perguntando se eu poderia lavar o carro deles por uns trocados... sentido da vida?

Hoje, aos 57 anos, tenho as respostas para todas as perguntas que fiz ao longo da caminhada até aqui. Inclusive para a badalada pergunta sobre o sentido da vida. 

No fundo, sei por que meu pai é como é. Sei por que as pessoas na Cassi para as quais mandei sugestões de atendimento aos usuários idosos do plano sequer se deram ao trabalho de confirmar que receberam meu e-mail. 

De verdade, se não sei, suspeito de muitas coisas, como dizia Guimarães Rosa. Os porquês dessa massa de gente do mundo-brasil onde nasci e vivi estar disposta a votar nos piores humanos que existem para representar o povo e os estados brasileiros. 

Talvez o único sentido da vida de um ser humano seja servir ao outro, pois ao ser solidário e ajudar de alguma forma alguém, a pessoa talvez seja feliz naquele gesto, naquela doação, e talvez o significado daquele fazer o bem ao outro seja a própria felicidade, o amor, a boa nova. O sentido da vida. 

Espero ter feito isso algumas vezes nessa caminhada por esses vales de lágrimas do mundo. 

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Lendo a biografia de Santos Dumont (6)



Refeição Cultural

"E confessou, alguns anos depois, que não saberia descrever, de forma exata, 'a surpresa, a alegria, a embriaguez produzida por esse livre movimento diagonal da proa do aparelho, na ascensão ou na descida, combinado com as bruscas mudanças horizontais de direção, quando a aeronave responde a um comando do leme'. Concluiu estas considerações dizendo que os pássaros deviam experimentar a mesma sensação ao distenderem as suas longas asas e no instante em que, como setas, atravessam o firmamento." (As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, Fernando Jorge)


Em setembro de 1898, Alberto Santos Dumont conseguiu fazer uma aeronave (aeróstato) que lhe permitiu "navegar" pelos céus de Paris. 

No dia 18, o "Santos Dumont n° 1" levantou voo e se chocou com as árvores, rasgando-se. Ele havia cedido às sugestões dos outros quanto ao ponto de partida. 

Dois dias depois, ele não deu ouvidos aos palpiteiros e partiu de onde havia planejado e conseguiu sobrevoar o local que idealizou.

Quase morreu, pois perdeu sustentação da aeronave, por defeito em uma bomba de ar e perda de hidrogênio. O balão começou a dobrar-se ao meio e cair.

Enquanto caía, viu crianças empinando papagaios nas cercanias do prado de Bagatelle.


"De súbito, uma ideia varou-lhe o cérebro. Gritou a plenos pulmões para os garotos, pedindo que agarrassem a corda principal, já a roçar o solo, e a toda força corressem contra o vento.

   As crianças obedeceram e a manobra suavizou a queda, impedindo talvez um desastre fatal. O balonista salvara-se, graças aos tais meninos. Não foi à toa que Victor Hugo criou, num dos seus romances, a impressiva figura de Gavroche, que com a sua singeleza, ternura e generosidade é o símbolo do garoto parisiense." 

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COMENTÁRIO FINAL 

Que figura inspiradora! Santos Dumont é um exemplo de pessoa com inteligência, persistência e atitude ao perseguir seus sonhos, seus "por quês" como li dias atrás nas palavras da jovem navegadora Tamara Klink, ao realizar sua primeira navegação sozinha aos 23 anos de idade (comentário aqui). 

Os seres humanos são criaturas incríveis!

William 

11/09/26

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (15)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA


Quinta-feira chuvosa. Estou firme na leitura das memórias do companheiro Zé Dirceu. 

Quero acabar a leitura. Sempre que lemos grandes livros, no tamanho e no conteúdo de qualidade, chega um momento no qual queremos terminar a tarefa empreendida.

Vamos lá!

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27. QUEDA DE BRAÇO 

No meio de uma reunião convocada pelo presidente Lula, uma briga: José Dirceu versus Antônio Palocci

Primeiro ano de governo Lula e Palocci e Meirelles (BC) propõem autonomia do Banco Central. Defendiam mais juros e mais superávit.

Zé Dirceu afirma que "O poder da Fazenda era total e Palocci o exercia com maestria..." (p. 361)

As prioridades da Casa Civil eram o Bolsa Família e o Desmatamento Zero (p. 362). Informa que o Pronaf iria crescer dez vezes (p. 363).

Fortalecer o mercado interno:

"Lula foi tecendo um caminho do meio para evitar o custo social do ajuste e engendrar uma política anticíclica de novo tipo, criando demanda via Bolsa Família, crédito consignado, salário mínimo e benefícios da assistência social e previdência. Quer dizer, induzindo na prática a retomada do investimento, apesar dos altos juros e do baixo investimento público." (p. 363)

Lula forçou os bancos públicos a atenderem o pequeno, o pobre, o excluído, o trabalhador. (p. 364)

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28. DO BRASIL PARA O MUNDO 

Contra a vontade da Globo e da oposição, o Bolsa Família é um sucesso e vira notícia mundial 

Neste capítulo, Zé Dirceu relembra fatos importantes do primeiro governo Lula, com destaque para a efetivação do Bolsa Família, muito atacado pela Globo e pelas elites. 

Uma questão complexa foi a reforma da Previdência. O foco do governo era a aposentadoria dos servidores públicos, principalmente as altas aposentadorias do legislativo, do judiciário e dos militares: 

"Salta à vista a iniquidade, afora o fato de que, no INSS, são 22 milhões de beneficiados enquanto no serviço público não alcançam 2 milhões." (p. 368)

Mesmo com o foco descrito acima, Zé Dirceu afirma nas memórias que é irreal pedir uma Previdência Social sem déficit no Brasil por diversos fatores econômicos que beneficiam o andar de cima.

"Faço essa observação para me posicionar perante a reforma da Previdência do governo Lula, que encontrou forte resistência no partido, nas bancadas, na esquerda, nos sindicatos, nas universidades e no serviço público." (p. 370)

A política de aumento real do salário mínimo foi outro grande acerto do governo Lula. Participei das marchas sindicais cutistas dessa luta histórica!

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29. É GUERRA 

Os tucanos iniciam uma caminhada para desestabilizar o Governo Lula 

Zé Dirceu descreve as armações dos adversários nos primeiros anos do governo Lula. 

Destaque para a Gtech na Caixa Econômica Federal. O autor apresenta dados revelados uma década depois, aponta envolvimento de Veja (da Abril) e o bicheiro Carlos Cachoeira e Demóstenes Torres.

Também fala das contas CC5 do escândalo do Banestado. O responsável já naquela época era um tal de Sérgio Moro... não sei se vocês já ouviram falar nele... a CPI do Banestado virou pizza.

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30. O RACHA

Dividido, o Partido dos Trabalhadores perde a presidência da Câmara 

Dois petistas, Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG) disputaram a presidência da Câmara na sucessão de João Paulo Cunha (PT-SP). Deu uma merda generalizada. Severino Cavalcanti (PP) foi eleito. 

Outro destaque do capítulo: o exército afronta o governo enaltecendo o golpe e a ditadura:

"Uma nota do exército, já em outubro, com uma atitude inacreditável, justificava o golpe em nome da defesa da democracia, falseando a história, como se a ditadura tivesse sido reação a um levante armado comunista. Era a volta da doutrina da segurança nacional, do inimigo interno a serviço do movimento comunista internacional, pretexto para a tortura, crimes e violação dos direitos humanos." (p. 402)

No final do capítulo, Zé Dirceu informa que saiu do governo em novembro de 2005.

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31. "NÃO SABIA QUE TINHA TE NOMEADO MINISTRO DA DEFESA"

O dia em que ouvi essa frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de uma palestra 

Amigas e amigos leitores, o mais espantoso deste capítulo está em seu final, em uma lembrança de Zé Dirceu sobre a visita de Fidel Castro à casa de Lula em 1989. O líder revolucionário cubano, que sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinato, quase se complicou com um bife a rolê... a cena é desesperadora!

Zé Dirceu também nos conta sobre o fim da Alca, o velório de Arafat, e sua versão sobre a liderança do Brasil no Haiti. Eu nunca tinha pensado na questão sob a ótica que ele apontou.

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COMENTÁRIO FINAL 

Foram muitas lembranças e novidades advindas com a leitura dos cinco capítulos desta postagem. 

Minha representação política como dirigente da categoria bancária coincidiu com esse período abordado por Zé Dirceu: o primeiro governo Lula e alguns fatos do segundo governo. 

Espero terminar essa aventura histórica em mais um sentada. Faltam algumas dezenas de páginas. Os comentários seguintes estão aqui.

William 

10/09/26