segunda-feira, 22 de junho de 2026

Instantes (13h05)



Refeição Cultural

LEITURAS E ESCRITAS


Assim que acordei nesta segunda-feira de junho no mundo mundo vasto mundo do poeta Drummond e outros humanos mais, refleti sobre a vida e ainda na cama escrevi um pequeno texto sobre instantes de uma vida.

Li um bom artigo do jornalista José Reinaldo sobre os abusos fiscais concedidos a igrejas e que tais, benefícios fiscais em prejuízo de direitos fundamentais como saúde, educação etc (recurso público é assim, tira de um setor para outro no orçamento). Há décadas afirmo que o Brasil não é um país laico. A prova jurídica e material disso é a Constituição Federal de 1988 citar "Deus" em seu preâmbulo. Um absurdo! Respeito a fé de todas as pessoas, mas se a lei maior de um país escolhe uma religião, o país não é laico para seus cidadãos. Básico isso!

Fiz meus exercícios de aprendizagem e memorização de línguas num aplicativo do celular.

Em seguida, refleti sobre o dia, o que fazer do meu dia? Depois de décadas, não vendo mais minhas horas de trabalho. Foram quase quarenta anos sem o direito à escolha do que fazer com o meu tempo, com o meu corpo. Isso no momento no qual as pessoas têm saúde plena, os seus corpos aptos para as escolhas que queiram, via de regra, é claro! Porcentagem importante das pessoas tem graus diversos de deficiências físicas ou intelectuais, e vida ativa também, é claro! Não foi o meu caso ter alguma deficiência, só isso quis dizer.

Me levantei para o dia desejoso de acabar alguma coisa em andamento. Meus pensamentos têm me direcionado a realizar coisas que havia planejado ou desejado no passado. Aquelas que valem a pena ainda, claro. Ler livros é uma delas. A lista de desejos de leituras é do tamanho de uma vida de tartarugas ou árvores, de centenas de anos. E eu não tenho esse tempo, sequer sei se tenho dias ou meses, isso não depende só de mim. Tenho hoje o tempo que não tive, mas não tenho mais o corpo que tinha. Natureza. E ainda tem a morte de surpresa, que pega a gente num instante qualquer. 

A intenção é terminar três livros no mês, dois daqueles meus iniciados e nunca terminados, e um que apareceu de supetão, o do Lênin falando sobre o esquerdismo, a doença infantil do comunismo. O Lula disse o óbvio dias atrás, que nunca foi esquerdista, e a militância e outros mais saíram falando absurdos por aí.

Enquanto termino a leitura do livro sobre saúde suplementar, fico me questionando o porquê disso, se não lido mais com o tema. Aí respondo a mim mesmo que é porque eu não ganho nada em perder esse conhecimento que adquiri quando fui gestor de saúde eleito pela comunidade do banco público no qual trabalhei e dediquei o melhor de meus dias e saúde: aquelas horas que citei no início dessa reflexão. 

Quando estudava para concursos públicos era comum os professores e mestres dizerem que conhecimento não ocupa espaço e que ele é cumulativo. Conheço bem mais do cérebro humano hoje, principalmente depois de ler o neurocientista Miguel Nicolelis. Sei que o cérebro é seletivo, que pode ser desenvolvido e exercitado, que é flexível ao que é demandado a ele. Por isso não quero perder o que sei e quero aprender o que não sei ainda. 

Vamos lá viver o dia. Tenho coisas a aprender.

(Eu sinto muito pelo resultado eleitoral na Colômbia. O povo ao qual pertenço enquanto classe vai sofrer muito. É uma pena estarmos sujeitos à manipulação dos donos do poder. Se as pessoas tivessem educação, seriam livres e estariam menos expostas à manipulação)

William 

22/06/26

A saudável e lúdica ação de brincar (7)


Brincar de carrinho no tapete da sala ou na calçada na frente de casa é uma lembrança saudosa da infância. 

Brinquei muito de carrinho até os dez anos de idade no sobradinho onde nasci no Rio Pequeno. 

Tenho até hoje alguns carrinhos de ferro da Matchbox, guardados como tesouros da infância, são de meados dos anos setenta. 

Nem sei direito como os carrinhos chegaram até a estante, cinquenta anos depois. Sobreviveram comigo aos duros anos infanto-juvenis.

O barquinho azul eu não tenho mais. Tenho algumas bolinhas de gude, brinquei muito de bolinhas de gude também. 

Talvez a infância que tive até os dez anos de idade, de boas lembranças, tenha me salvado de ser uma pessoa ruim.

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Instantes de uma vida 

domingo, 21 de junho de 2026

Umas boas chineladas (6)


O moleque abriu a gaveta da cômoda do quarto e começou a pegar roupas e pôr na cama.

Estava revoltado com alguma negativa do pai ou da mãe. O pirralho deveria ter uns sete ou oito anos de idade.

Na negativa, disse que iria embora daquela casa. "Vai!" ouviu. Subiu as escadinhas do sobrado e foi pegar suas roupas.

Não teve castigo dessa vez. O costume era ficar de castigo quando fazia coisa errada. Seus amigos da rua apanhavam.

O moleque metido a fujão foi colocado de bruços no colo, na mesma cama onde estavam as roupas separadas e levou umas boas chineladas.

Aquele dia mereceu as chineladas. Onde já se viu uma merda daquela...

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Instantes de uma vida 

sábado, 20 de junho de 2026

A loira do banheiro (5)


O medo era uma sensação horrível e humilhante. Como dar o braço a torcer e confessar que tinha medo?

A gente acabava dando um jeito de ir ao banheiro quando outros moleques iam. E era algo inconfessável tentar mijar rápido pra não ser o último a sair.

Acontece que sempre tinha um filho da mãe que mijava rápido e saía gritando "a loira do banheiro!", "a loira do banheiro!"...

Meu, a gente saía correndo com o pinto na mão, molhando as calças. 

Me lembro dessas correrias da loira do banheiro quando vou ao colégio Adolfino em dias de eleições. 

Quando criança a gente achava tudo enorme. O pátio da escola e o banheiro são pequenos perto do tamanho da minha lembrança.

Minha mãe subia a pé comigo para me levar de casa ao colégio Adolfino, no Rio Pequeno. Estudei lá da primeira à quarta série. Foi um tempo bom. Era feliz.

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Instantes de uma vida

Sobre esquerdismo (2) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

A importância do partido e dos sindicatos


Nesta postagem com alguns excertos do texto de Vladimir Lênin sobre a questão do Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1920), vemos um dos líderes da Revolução Russa afirmar ser estupidez abrir mão da participação nos sindicatos considerados pelegos ou sob controle de burocracias ligadas às classes dominantes. Segundo Lênin, é fundamental disputar e conquistar sindicatos para politizar e influenciar as massas da classe trabalhadora.

O mesmo diz Lênin sobre a importância de um partido bem organizado e disciplinado, com apoio e confiança das massas, para derrotar as classes dominantes, não somente as elites da burguesia mas, sobretudo, os pequenos burgueses, que são muitos e que têm o hábito e as ideias da elite. Sindicatos e partido são essenciais para fazer a disputa ideológica no seio das massas proletárias e populares.

Bem interessante as explicações de Lênin. A primeira parte de minhas anotações pode ser lida aqui.

Eu mudei palavras do português de Portugal para o português brasileiro na hora de fazer as citações.

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EXCERTOS DE LÊNIN

Capítulo V - O comunismo 'de esquerda' na Alemanha. Chefes, Partido, Classe, Massas


"Os comunistas alemães, de quem vamos falar agora, não se chamam de 'esquerdistas', mas de 'oposição de princípio', se não me engano. Mas, pelo que se segue, pode-se ver que têm todos os sintomas da 'doença infantil do esquerdismo'."

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"Todo bolchevique que tenha participado conscientemente do desenvolvimento do bolchevismo desde 1903, ou que o tenha observado de perto, não poderá deixar de exclamar imediatamente, depois de haver lido tais opiniões: 'Que velharias conhecidas! Que infantilidades de 'esquerda'!"

Comentário: Lênin vai fazer algumas citações de um panfleto do grupo que se coloca como oposição ao Partido Comunista da Alemanha da época, 1920.

O grupo faz um questionamento separando o partido e a classe proletária, a transição entre o capitalismo e o socialismo, através da ditadura do proletariado, deveria ser conduzida por um ou outro...

Lênin vai falar da importância do Partido e dos sindicatos

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"Todos sabem que as massas se dividem em classes, que só é possível opor as massas às classes num sentido; opondo-se uma esmagadora maioria (sem dividi-la de acordo com as posições ocupadas no regime social da produção) a categorias que ocupam uma posição especial nesse regime; que as classes são geralmente e na maioria dos casos (pelo menos nos países civilizados modernos), dirigidas por partidos políticos; que os partidos políticos são dirigidos, via de regra, por grupos mais ou menos estáveis, integrados pelas pessoas mais prestigiosas, influentes ou sagazes, eleitas para os cargos de maior responsabilidade e chamadas de chefes. Tudo isso é o ABC, tudo isso é simples e claro. Que necessidade havia de trocar isso por tais confusões, por essa espécie de volapuk?*" 

* Volapuk - Idioma Internacional artificial inventado por Schleyer, em 1879. (Nota de Ediciones en Lenguas Extranjeras)

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"No fim da guerra imperialista e depois dela, manifestou-se em todos os países com singular vigor e evidência o divórcio entre 'os chefes' e 'a massa'. A causa fundamental desse fenômeno foi explicada muitas vezes por Marx e Engels, de 1852 a 1892, usando o exemplo da Inglaterra. A situação monopolista, desse país originou o nascimento de uma 'aristocracia operária' oportunista, semi-pequeno burguesa, saída da 'massa'. Os chefes dessa aristocracia operária passavam-se frequentemente para o campo da burguesia, que os sustentava direta ou indiretamente. Marx foi alvo do ódio, que lhe honra, desses canalhas, por havê-los qualificado publicamente de traidores."

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"A vitória do proletariado revolucionário torna-se impossível sem a luta contra esse mal, sem o desmascaramento, a desmoralização e a expulsão dos chefes oportunistas social-traidores; essa política, exatamente, foi a aplicada pela III Internacional."

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"Negar a necessidade do Partido e da disciplina partidária: eis o resultado a que chegou a oposição. E isso equivale a desarmar completamente o proletariado, em proveito da burguesia."

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"Suprimir as classes significa não só expulsar os latifundiários e os capitalistas - isso nós fizemos com relativa facilidade - como também suprimir os pequenos produtores de mercadorias; estes, porém, não se pode expulsar, não se pode esmagar; é preciso conviver com eles, e só se pode (e deve) transformá-los, reeducá-los, mediante um trabalho de organização muito longo, lento e prudente."

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"Para fazer frente a isso, para permitir que o proletariado exerça acertada, eficaz e vitoriosamente sua função organizadora (que é sua função principal), são necessárias uma centralização e uma disciplina severíssimas no partido político do proletariado."

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"A força do hábito de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível. Sem partido férreo e temperado na luta, sem um partido que goze da confiança de tudo que exista de honrado dentro da classe, sem um partido que saiba tomar o pulso do estado de espírito das massas e influir nele é impossível levar a cabo com êxito essa luta."

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"No IX Congresso de nosso Partido (abril de 1920) houve uma pequena oposição que também se pronunciou contra a 'ditadura dos chefes', a 'oligarquia', etc. Não há, portanto, nada de surpreendente, nada de novo, nada de alarmante na 'doença infantil do 'comunismo de esquerda' entre os alemães."

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Capítulo VI - Os revolucionários devem atuar nos sindicatos reacionários?


"Obtém-se, no conjunto, um dispositivo proletário, formalmente não comunista, flexível e relativamente amplo, poderosíssimo, por meio do qual o Partido está estreitamente ligado à classe e às massas, e através do qual se exerce, sob a direção do Partido, a ditadura da classe. É claro que nos teria sido impossível governar o país e exercer a ditadura, já não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, se não houvesse a mais estreita ligação com os sindicatos, seu apoio entusiasta, seu abnegadíssimo trabalho tanto na organização econômica como na militar."

Comentário do blog: lembrando que o texto de Lênin é de 1920 e a Revolução havia ocorrido em outubro de 1917.

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"Consideramos que o contato com as 'massas' através dos sindicatos não é suficiente. No transcurso da revolução criou-se em nosso país, na prática, um organismo que procuramos manter a todo custo, desenvolver e ampliar: as conferências de operários e camponeses sem partido, que nos possibilitam observar o estado de espírito das massas, aproximarmo-nos delas, corresponder a seus desejos, promover aos postos do Estado seus melhores elementos, etc."

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"Depois, por meio desses sindicatos de indústria, será iniciada a supressão da divisão do trabalho entre os homens, a educação, instrução e formação de homens universalmente desenvolvidos e universalmente preparados, homens que saberão fazer tudo. O comunismo marcha e deve marchar para esse objetivo, que será atingido, embora somente dentro de muitos anos."

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"O desenvolvimento do proletariado, porém, não se realizou, nem podia realizar-se, em nenhum país de outra maneira senão por intermédio dos sindicatos e por sua ação conjunta com o partido da classe operária."

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"Mas sustentamos a luta contra a 'aristocracia operária' em nome das massas operárias e para colocá-las ao nosso lado; sustentamos a luta contra os chefes oportunistas e social-chauvinistas para ganhar a classe operária. Seria tolice esquecer esta verdade mais que elementar e evidente. E é essa, precisamente, a tolice cometida pelos comunistas alemães 'de esquerda', que deduzem do caráter reacionário e contrarrevolucionário dos chefetes dos sindicatos que é necessário... sair dos sindicatos!!, renunciar ao trabalho neles!!, criar formas de organização operária novas, inventadas!! Uma estupidez tão imperdoável, que equivale ao melhor serviço que os comunistas podem prestar à burguesia."

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"(...) Não atuar dentro dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência dos líderes reacionários, dos agentes da burguesia dos operários aristocratas ou operários aburguesados' (ver a carta de Engels e Marx em 1858 a respeito dos operários ingleses).

"O Comitê Executivo da III Internacional deve, na minha opinião, condenar abertamente e propor ao próximo Congresso da Internacional Comunista que condene, de modo geral, a política de não participação nos sindicatos reacionários (explicando pormenorizadamente a insensatez que essa não participação significa e o imenso prejuízo que causa à revolução proletária)

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Comentário final

Não foi preciso ler essa obra de Lênin durante minha vida de representação sindical do campo cutista para ver na prática toda essa discussão que o líder revolucionário aborda em relação aos "esquerdistas" dentro do próprio movimento comunista de sua época.

Sigamos lendo o clássico de Vladimir Lênin.

William

20/06/26

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Instantes (18h40)



Refeição Cultural

SOBRE ADAPTAÇÕES 

Enquanto fazia minha hora de exercícios na pequena academia do condomínio refletia sobre preguiça e sobre adaptação. 

Desci para a sessão de exercícios sem gana alguma, uma preguiça do caramba. A razão, no entanto, impera e devo fazer o que tem de ser feito. Lições do sindicalismo.

Não enxergo mais o mundo como via antes do descolamento do humor vítreo do olho esquerdo. O mundo agora tem umas manchas flutuantes, é menos nítido. Sei que estou em melhores condições que muita gente ainda.

Estava com preguiça de ir à feira ontem. Xô, preguiça! Fui, tomei garapa, comprei frutas e pastel pra todo mundo que pediu. 

Ler e estudar também dão preguiça na gente. Porém, se quiser seguir humano, temos que ler textos longos e complexos. As big techs estão exterminando a minha espécie homo sapiens capturando humanos com nadas por horas.

Estou vivo. Adaptação é um dos desafios diários ao acordar neste mundo, neste momento. Apesar dos acidentes naturais e não naturais, casuais, a vida de todo ser vivo segue sendo uma oportunidade, salvo raras exceções. 

Eu mesmo, por exemplo, por ter superado aqueles anos difíceis e ter seguido até aqui, já fiz coisas interessantes no percurso da existência, tanto em meu benefício, quanto em favor da coletividade. Isso é bom.

Fechando esta refeição cultural do instante, sobre adaptações, se considerar a leitura que mais tem me instigado nesses dias, diria que os contos e narrativas curtas estão em primeiro lugar. 

Não confundam meu incentivo a ler narraticas curtas e contos como contradição ao que disse acima, sobre ser bom ler textos longos e complexos. 

A crítica que fiz é sobre o vazio (nadas) que ocupa a mente humana com as bobagens das big techs para reter milhões de humanos nas redes derretendo seus cérebros. 

Ao iniciar a leitura de um conto, às vezes de 3 ou 4 páginas, talvez tenha ali o universo, uma estória que vai te dar um soco e a ferida vai te incomodar por horas, ou um prazer indescritível, semelhante a um bom prato de comida ou um bom sexo.

Estou mergulhado nos cem contos brasileiros selecionados por Italo Moriconi, muitos autores e autoras que nunca ouvi falar, e a expectativa do que vou encontrar no conto seguinte é muito interessante, diferente de ler economia, história, Lênin, ou coisas do tipo.

Talvez deva focar ler contos para buscar algo de novo no cotidiano dessa vidinha nesse mundo de merda no qual estamos enfiados. 

William 

19/06/26

O barquinho azul na enchente (4)


A água já tinha subido mais de um metro em casa. Quando chovia muito forte, o córrego do Rio Pequeno transbordava e a água subia a rua de casa e invadia tudo. 

Toda época de chuva, era enchente e perda das coisas em casa. A lembrança do barro fedido nas coisas fica gravada na memória de criança da gente.

Naquele dia de enchente, eu vi pela janela o barquinho azul flutuando naquele oceano de água barrenta em frente de casa. Comecei a gritar para meus pais pegarem o barquinho pra mim.

Era perigoso ir lá fora com água pela cintura, mas algum adulto fez a gentileza e resgatou o barquinho da inundação e me deu.

O barquinho azul ficou comigo até quando fui embora pra Uberlândia, nas Minas Gerais, após os dez anos de idade.

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Instantes de uma vida

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Sobre esquerdismo (1) - Lendo Lênin



Refeição Cultural

Dias atrás, o presidente Lula disse a um grupo de líderes do G7, e a conversa foi captada pelos microfones, que nunca foi "esquerdista" e essa afirmação gerou algum tipo de discussão a respeito da questão.

Eu tenho a minha leitura sobre o sentido do que Lula disse, por minha experiência política de décadas de representação como dirigente da classe trabalhadora, como cutista e como petista.

Motivado por isso, acabei tendo a curiosidade de ler uma obra que nunca li de Vladimir Lênin: Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de 1920.

Para entender Lula e o Novo Sindicalismo que surgiu nos anos setenta, e consequentemente a CUT e o PT, um dos livros que mais contribuíram para minha compreensão foi o da jornalista Denise Paraná, Lula, filho do Brasil, editado pela Perseu Abramo em 2003. A primeira edição foi em 1996 pela Editora Xamã.

Enfim, enquanto leio o livro de Lênin, vou recortando alguns trechos que acho interessantes. Já li até o capítulo 4.

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EXCERTOS DE LÊNIN

Os poucos recortes que fiz abaixo são dos capítulos I a IV, com os títulos:

I - Em que sentido podemos falar do significado internacional da Revolução Russa?

II - Uma das condições fundamentais do êxito dos Bolcheviques

III - As principais etapas da história do Bolchevismo

IV - Quais foram os inimigos que o Bolchevismo enfrentou, dentro do movimento operário, para poder crescer, fortalecer-se e temperar-se?


“É possível que os revolucionários russos já tivessem derrubado o czar há muito tempo se não fossem obrigados a lutar, ao mesmo tempo, contra o aliado deste, o capital europeu.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“Como Karl Kautsky escrevia bem, há dezoito anos!” (idem)

Comentário: Lênin diz isso em referência a uma avaliação que Kautsky fez em 1902. A frase que citei acima é dele.

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A NECESSIDADE DA DITADURA DO PROLETARIADO

“A ditadura do proletariado é a guerra mais severa e implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia, cuja resistência está decuplicada, em virtude de sua derrota (mesmo que em apenas um país), e cuja potência consiste não só na força do capital internacional, na força e na solidez das relações internacionais da burguesia, como também na força do costume, na força da pequena produção.” (idem)

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“infelizmente, continua a haver no mundo a pequena produção em grande escala, e ela cria capitalismo e burguesia constantemente, todo dia, a toda hora, através de um processo espontâneo e em massa. Por tudo isso, a ditadura do proletariado é necessária, e a vitória sobre a burguesia torna-se impossível sem uma guerra prolongada, tenaz, desesperada, mortal; uma guerra que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e uma vontade única.” (idem)

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“a centralização incondicional e a disciplina mais severa do proletariado constituem uma das condições fundamentais da vitória sobre a burguesia.” (idem)

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COMO MANTER A DISCIPLINA DO PARTIDO, DO MOVIMENTO E DO PROLETARIADO?

“A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como é ela comprovada? Como é fortalecida? Em primeiro lugar, pela consciência da vanguarda proletária e por sua fidelidade à revolução, por sua firmeza, seu espírito de sacrifício, seu heroísmo.” (idem)

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“Segundo, por sua capacidade de ligar-se, aproximar-se e, até certo ponto, se quiserem, de fundir-se com as mais amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias.” (idem)

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“Finalmente, pela justeza da linha política seguida por essa vanguarda, pela justeza de sua estratégia e de sua tática políticas, com a condição de que as mais amplas massas se convençam disso por experiência própria.” (idem)

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OS REVOLUCIONÁRIOS DE INTERNET ("DE BOCA")

“E se os bolcheviques conseguiram tal resultado foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente e expulsaram os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas organizações sindicais, cooperativas, nas organizações de socorros mútuos e outras semelhantes, por mais reacionárias que sejam.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“os bolcheviques. Estes nunca teriam conseguido eliminar os mencheviques, caso não houvessem aplicado uma tática justa, combinando o trabalho ilegal com a utilização obrigatória das "possibilidades legais". Na mais reacionária das Dumas, os bolcheviques conquistaram toda a bancada operária.” (idem)

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“a república 'operária-camponesa' soviética é melhor que qualquer república democrático-burguesa, parlamentar. Sem essa preparação prudente, minuciosa, sensata e prolongada não teríamos podido alcançar nem manter a vitória; de Outubro de 1917.” (idem)

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OS PEQUENO-BURGUESES

“0 pequeno-burguês 'enfurecido' pelos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenômeno social comum a todos os países capitalistas. São por demais conhecidas a inconstância e a esterilidade dessas veleidades revolucionárias, assim como a facilidade com que se transformam rapidamente em submissão, apatia, fantasias, e mesmo num entusiasmo 'furioso' por essa ou aquela tendência burguesa 'em moda'.” (idem)

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“Em 1908, os bolcheviques 'de esquerda' foram expulsos de nosso partido, em virtude de seu empenho em não querer compreender a necessidade de participar num 'parlamento' ultrarreacionário. Os 'esquerdistas', entre os quais havia muitos excelentes revolucionários que depois foram (e continuam sendo) honrosamente membros do Partido Comunista, apoiavam-se, principalmente, na feliz experiência do boicote de 1905.” (de “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” por “Vladimir Ilitch Ulianov Lênin, UTL”)

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“0 boicote dos bolcheviques ao 'parlamento' em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinação das formas de luta legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares. Mas transportar cegamente, por simples imitação, sem espírito crítico, essa experiência a outras condições, a outra situação, é o maior dos erros” (idem)

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COMENTÁRIO FINAL

Até aqui na leitura, eu fiquei pensando nas entrevistas de Lula para a jornalista Denise Paraná, lá no início dos anos noventa.

Lula não era um "esquerdista" e esse foi um dos motivos pelos quais seu irmão Frei Chico, um "esquerdista", e seus companheiros pensaram na possibilidade de Lula entrar no movimento sindical dos metalúrgicos.

Me marcou muito como estudioso do movimento sindical cutista e como militante do PT ver o Lula dizer que aquele movimento sindical e partidário que estava surgindo no final dos anos setenta e início dos oitenta tinha claro o que NÃO queria como referência: nem a URSS, nem a China, nem Cuba, não queriam saber de partido único, de movimento sindical atrelado ao partido e ao governo e que não podia fazer greve etc.

Enfim, sigamos na leitura.

William

18/06/26

Usar cerol era comum nos anos 70 (3)


A linha ficava estendida entre os postes de fios da rua de casa no Rio Pequeno. A gente derramava o produto na palma da mão e ia passando na linha. 

O segredo era a linha ficar com um cerol bem fininho pra cortar qualquer coisa. Tinha linha com cerol até nas rabiolas.

Minhas pipas tinham um "chicote" no fim da rabiola, uma última fitinha depois de um metro de linha com cerol.

Na hora de cortar as pipas adversárias, eu debicava por cima delas e meu chicote cortava a linha adversária. Lá ia embora a pipa dos outros.

Eu devia ter entre oito e dez anos e já fazia cerol, fazia em casa Quadrado, Peixinho e Maranhão, tipos de pipa, e passava horas empinando na rua. 

Vivia com os dedos cortados. Que loucura isso, relembrando hoje, décadas depois. Linhas com cerol são um perigo, e causam acidentes fatais.

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Instantes de uma vida

quarta-feira, 17 de junho de 2026

100 clássicos da literatura universal



Refeição Cultural

LITERATURA


Com a lista de obras citadas abaixo, completei a contagem de 100 clássicos da literatura universal, obras que tive a oportunidade de ler ao longo da vida.

Nesta sequência, me lembrei de romances e narrativas que, de alguma forma, abordam a temática da morte na primeira dezena de livros e, na segunda parte, listei um clássico em cada país de origem de seu autor.

Como disse na lista anterior com 20 clássicos (comentário aqui), compreendi que o mais difícil será ler a lista de desejos de leitura que tenho pela frente, a começar pelos livros que já adquiri nessa jornada de leitor. 

Quando cheguei a São Paulo em 1987, de volta à terra natal depois de passar sete anos em Uberlândia (MG), onde cresci, trouxe na mochila praticamente algumas roupas e mais nada. Nada de livros ou coisas que ocupassem muito espaço na casa coletiva na qual morei, de minha avó Deolinda.

Já tinha o hábito da leitura, mas o tempo disponível para ler era pouco e o cansaço me dominava, pois a prioridade era a sobrevivência com a venda de minhas horas de trabalho e a dedicação ao estudo formal.

Até me fixar numa casa própria, em 1999, morei em mais de uma dezena de lugares em doze anos. Toda hora era mudança de um canto para o outro e nas mudanças quanto mais coisa pra carregar, pior.

Mesmo assim, de pouco em pouco, de desejo em desejo, fui comprando um livro aqui, outro ali, em bancas, sebos e livrarias e hoje tenho livros suficientes para ler por um bom tempo. Sem contar que para um leitor todo dia é dia de desejo novo de livro.

Eis a lista que completa minha centena de textos que para mim são obras clássicas em alguma dimensão do mundo da cultura e conhecimento humano:


81. Romeu e Julieta - Shakespeare

82. A morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói

83. Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto

84. Crônica de uma morte anunciada - Gabriel García Márquez

85. Madame Bovary - Gustave Flaubert

86. O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura

87. Carrie, a estranha - Stephen King

88. Os mortos vivos - Peter Straub

89. O Diário de Anne Frank - Otto H. Frank e Mirjan Pressler

90. As intermitências da morte - José Saramago

91. Noturno do Chile - Roberto Bolaño

92. Primo Basílio - Eça de Queiroz

93. Os dublinenses - James Joyce

94. Fausto - Goethe

95. Sagarana - João Guimarães Rosa

96. Lazarillo de Tormes - anônimo 

97. A mulher de trinta anos - Honoré de Balzac

98. Kolstomer (História de um cavalo) - Liev Tolstói

99. A Ilha - Fernando Morais 

100. O caçador de pipas - Khaled Hosseini

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Fiquei contente em enumerar uma centena de obras que li e que são referências em dimensões culturais de todos nós que apreciamos literatura, ciências sociais e conhecimento humano.

Estou trabalhando minha memorização e já que foi interessante fixar na memória uma centena de livros, pretendo continuar fazendo listas de obras que já li e que ainda vou ler e seguir exercitando meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo, como nos ensina o neurocientista e escritor Miguel Nicolelis.

Sigamos lendo em busca de mais conhecimento e autoconhecimento para podermos contribuir de alguma forma para a sociedade humana, para a coletividade e para a busca de uma convivência sustentável com o nosso planeta Terra.

William

17/06/26

A pipa no fio e o curto-circuito (2)


Minha pipa havia enroscado no fio em frente de casa. Tentei tirar ela com jeitinho, de forma delicada. 

Depois de um tempo tentando, sem sucesso e frustrado com a perda, passei a puxar a linha com toda força, pra ela arrebentar mesmo.

Em uma fração de segundos, foi só explosão e faíscas e aquele cheiro horrível... saí correndo pra me esconder atrás de um carro estacionado.

Acho que os puxões na linha da pipa fizeram os fios de energia encostarem um no outro e bum!

Foi um susto da porra! Ao ver minha mãe e vizinhos saindo das casas, saí do esconderijo com aquela cara de cu e devo ter ficado de castigo.

Minha mãe não me batia, me punha de castigo.

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Instantes de uma vida

A pedrada no Peninha (1)


A gente estava no campinho, não me lembro se jogando bola ou empinando pipa.

O córrego do Rio Pequeno separava o nosso campinho do campinho do outro lado, onde brincavam outros moleques. 

Teve uma guerrinha de pedradas. Nunca me esqueço que estava olhando para o Peninha quando ele foi acertado bem na testa. 

O cortezinho que abriu, primeiro ficou branco, e depois o sangue veio. A gente colocou a mão na testa do Peninha e saiu correndo com ele pra casa.

Guardo a lembrança desse dia, a pedrada, a testa com o corte, o sangue. Que será do Peninha? Quem mais esteve no campinho aquele dia?

Brinquei até os dez anos naquelas ruas do Rio Pequeno. Depois fui embora. Tenho lembranças boas dessa fase da vida. 

Cada criança ali teve um destino, uma vida. A existência é assim.

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Instantes de uma vida

terça-feira, 16 de junho de 2026

Livro: Uma abelha na chuva - Carlos de Oliveira

Carlos de Oliveira
(10/08/21-01/07/81)


Refeição Cultural

LITERATURA 


Relendo um artigo meu dias atrás, vi nele uma citação a um livro de literatura portuguesa de meados do século passado, de Carlos de Oliveira, livro do qual não me lembrava do enredo. As obras literárias são assim, umas nos deixam marcas e lembranças, outras não. Não há um livro de Samarago, por exemplo, do qual tenha me esquecido do enredo. Talvez pelo estilo ou tema tratado pelo autor, vai saber.

Só por curiosidade, procurei e encontrei Uma abelha na chuva, de 1953, em meus guardados da faculdade de Letras e comecei a ler a história de Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, casal principal de protagonistas do enredo do romance de Carlos de Oliveira. 

Li rapidamente a metade do romance numa só sentada e posso afirmar que ele é bem escrito, a história tem questões sociais interessantes apresentadas aos leitores da época, e de hoje também, se considerar o pano de fundo da trama: a vida num vilarejo de Portugal, país dominado pela igreja católica, por uma nobreza falida e pelo ditador António Salazar, país ainda em luta por manter colônias africanas, e em franca decadência econômica. Esse era o cenário no qual foi publicado o livro.

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RELIGIÃO E PODER 

Uma das questões que me levaram a reflexões ao reler este romance é a forma como a religião e seus doutrinadores interferem e definem a vida coletiva numa comunidade humana qualquer. 

Apesar do tema central do romance ser a decadência de Portugal, a religião está ali impregnada em tudo que é decadente, as relações, as instituições, as pessoas... em tudo. E isso é de uma atualidade incrível! 

A religião neste momento da história humana, terceira década do século XXI, é uma das principais ferramentas de manipulação de massas pela extrema-direita e pelos homens do poder mundial, que contam com exércitos e máquinas que definem o comportamento de milhões de vítimas dos algoritmos das big techs, tecnologias inexistentes no passado.

Quando lemos literatura e história e acessamos cotidianos existentes em diferentes lugares e épocas podemos perceber o poder imenso de sentimentos como ódio, medo e fé, principalmente quando são utilizados por canalhas manipuladores em posição de poder.

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UMA ABELHA NA CHUVA 

O casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres vive numa região rural. O casamento deles é um arranjo entre um filho de comerciante bem-sucedido com uma filha da fidalguia falida. Silvestre é um banana e D. Maria uma frustrada com o marido que seu pai lhe arranjou. 

Outros personagens completam o enredo que demonstra a decadência de uma sociedade. O padre, Abel, é um agregado da casa do casal: vê pecados o dia todo e não diz nada. As más línguas dizem que "sua irmã", D. Violante, seria uma amante. Silvestre, "um homem gordo, baixo, de passo molengão", tem um irmão na África, um aventureiro mulherengo. A propriedade rural tem um cocheiro, Jacinto, o "ruivo", e outros empregados, como o mestre António, que perdeu a visão, e sua filha Clara.

Terminada a releitura, considero o romance muito bom. A história tem humor, tem momentos de tensão e final imprevisível. O autor português utiliza as técnicas modernas do romance, alterna momentos em primeira e terceira pessoa, utiliza fluxo de pensamento, acelera e desacelera o tempo da narrativa com sumários etc.

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DITOS POPULARES E ADÁGIOS 

Gostei dos ditos populares e dos adágios de D. Violante. Minha avó Deolinda era especialista em frases prontas para qualquer tema conversado.

Vejam esses ditos e adágios constantes do capítulo VIII:

"- Quando Deus queria do norte chovia"

"- (...) se as orações dos cães chegassem ao céu choviam ossos"

"- (...) Noiva serôdia, nem miolo nem côdea"

"- (...) boda e mortalha no céu se talha"

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COMENTÁRIO FINAL 

"- Nem rei nem papa à morte escapa" (ainda D. Violante)


A cultura nos leva ao conhecimento, ao autoconhecimento e à transformação. Leitura é uma das formas de acesso à cultura. A leitura de livros é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, pois ler textos longos nos exercita a concentração e a reflexão. 

Enquanto li A abelha na chuva, refleti sobre várias coisas do mundo atual, mesmo tendo o livro sido publicado há mais de setenta anos. Os temas abordados no enredo estão aí, ao nosso redor, pautando nossa agenda de vida. Religião, política, relações humanas, propriedade e bens materiais, condição das mulheres, das classes exploradas etc.

É sempre bom ler um livro, amigas e amigos leitores do blog. 

Sigamos lendo. Se nem rei, nem papa, à morte escapa, quem dirá eu, um simples ex-bancário que deu a sorte de chegar até aqui sobrevivendo à juventude, ao ódio e às situações que a vida nos apresenta cotidianamente. Ainda estou por aqui, então sigamos lendo.

William 

16/06/26

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Garrincha - Alegria do povo



Refeição Cultural

Garrincha - Alegria do povo (Brasil, 1962)

Dirigido por Joaquim Pedro de Andrade

Sinopse: A trajetória de Garrincha revela o futebol como catarse para as frustrações do povo. O ídolo inalcançável é desconstruído para expor a realidade cruel dos "contratos escravos" e a falta de direitos, entrelaçando a dor humana aos dribles e gols icônicos do craque. 


Vi no Mubi um documentário muito bom sobre o craque Garrincha. Nas imagens em preto e branco de época, vemos o Brasil dos anos de JK e Jango.

A sinopse do streaming poderia ser melhor. O que vi no documentário não é exatamente o que a sinopse anuncia, não vi a questão dos contratos. Mas o documentário é bom.

Duas coisas me chamaram a atenção: 

1. As imagens das expressões dos torcedores nos estádios de futebol nos anos 50 e 60 são impressionantes. É o nosso povo, a nossa gente odiada pela elite brasileira. 

2. Os dribles de Garrincha, o jogador das pernas tortas. Os defensores adversários diziam que conseguiriam pará-lo porque ele driblava sempre para a direita... e ele passava por todo mundo. Incrível!

Valeu a pena ver Garrincha em sua simplicidade de homem do povo brasileiro. 

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Post Scriptum

Aquele povo brasileiro que vi nos estádios de futebol dos anos 50 e 60 não pode mais frequentá-los, pois as atuais "arenas" cobram ingressos que custam até o salário do mês dos torcedores apaixonados por futebol. E os dribles e a criatividade dos jogadores e do futebol brasileiro já eram... agora os meninos são levados do país crianças e lá fora são "engessados" em esquemas táticos que tiram a liberdade do jogador fazer o que Garrincha e Pelé fizeram com a bola dominada.

William 

15/06/26

domingo, 14 de junho de 2026

Com nova lista, agora são 80 clássicos


Flores e livros: gosto!

Refeição Cultural

LITERATURA 


Ao refletir sobre obras que considero clássicas em seu gênero, época ou temática, desta vez foquei na seleção histórias que tenham crianças ou adolescentes, sejam através de personagens das narrativas ou como público-alvo, ou ainda que de alguma forma tenham importância no universo infanto-juvenil como, por exemplo, o clássico de Dee Brown sobre os povos originários da América do Norte: a história é passada de geração em geração, desde a mais tenra idade.

O fato interessante é que aos poucos vou me aproximando da centena de clássicos que estabeleci lá no passado que gostaria de ler, na minha lista de objetivos a perseguir, feita perto dos vinte anos, um pouco mais, talvez. Como a vida toda foi de obrigações imediatas, ou seja, a sobrevivência deste proletário que se expressa através do blog, nunca havia parado para enumerar obras que eu considero uma leitura clássica em sua área.

Agora percebo que a lista infindável, que não teria fim e quase irrealizável para uma vida humana é a de livros que gostaria de ler e não li ainda e que provavelmente nunca chegarei perto de um número razoável de leituras do que me faltam ler. Fazer o que, né?

Uma coisa legal na definição dessas listas de clássicos que já li é que estou memorizando tudo que já selecionei. Ao elencar mais vinte, agora serão oitenta obras que cito e que tenho na memória. É uma forma de exercitar meus neurônios, a essência do que sou, local onde reside meu eu, minha persona.

Enfim, eis abaixo mais alguns livros que já tive a oportunidade de ler até aqui.


61. As Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

62. O Mágico de Oz - L. Frank Baum

63. O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

64. Fernão Capelo Gaivota - Richard Bach

65. A Revolução dos Bichos - George Orwell

66. Capitães da Areia - Jorge Amado

67. A volta ao mundo em 80 dias - Júlio Verne

68. A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - Jorge Amado

69. O Grande Mentecapto - Fernando Sabino

70. O Menino no Espelho - Fernando Sabino

71. Enterrem meu coração na curva do rio - Dee Brown

72. O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder

73. O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger

74. As Aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain

75. Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade

76. Memórias Sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade

77. A Língua de Eulália - Marcos Bagno

78. O Ateneu - Raul Pompéia

79. Lolita - Vladimir Nabokov

80. Os Cavalinhos de Platiplanto - José J. Veiga


Com a próxima lista, se me lembrar de mais vinte obras, completarei a tão sonhada centena de clássicos da literatura universal ou clássicos em suas áreas de referência.

A lista anterior pode ser lida aqui.

William

14/06/26