quinta-feira, 30 de abril de 2026

Artigo: Dá para ter esperança?



Refeição Cultural

Opinião


Dá para ter esperança?

Entre ontem e hoje, o povo brasileiro sofreu duas derrotas importantes no Congresso Nacional. Na verdade, o povo sequer sabe disso. Parte do povo sabe dos jogos e resultados das partidas de futebol do Palmeiras, do Flamengo e do Corinthians na Libertadores da América. E de outros times importantes, é claro! Teve rodada dos campeonatos sul-americanos no meio de semana.

Nas sessões de ontem, 29 de abril, e hoje, 30 de abril, os parlamentares do Congresso Nacional rejeitaram a indicação de Jorge Messias a uma vaga do Supremo Tribunal Federal, indicação de atribuição constitucional do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Derrubaram também o veto de Lula à Lei de Dosimetria, uma lei feita para anistiar os políticos e outros sujeitos condenados por tentaram um golpe de Estado após a derrota eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022. O ápice da tentativa de golpe ocorreu no dia 8 de janeiro de 2023.

Dentre as diversas versões do que teria ocorrido entre ontem e hoje no Congresso Nacional, ouve-se que as votações que rejeitaram Jorge Messias a ocupar vaga no STF e a anulação do veto do presidente Lula a tal lei que funciona como anistia a golpistas contaram com traições no campo dos chamados aliados ao presidente Lula. Além de gente que mudou de lado por achar conveniente, também circulam informações que teria rolado muita ameaça por parte de algumas lideranças das duas casas, Senado e Câmara.

Muitas pessoas de nosso campo - a esquerda e um espectro de gente que se diz progressista e democrata - estão fechando o mês com o coração apertado, com uma tristeza diante desse cenário que se apresenta no parlamento nacional. Ouvi gente querida dizer que sentiu vontade de chorar diante do gozo daquela canalha toda que compõe uma parte do Congresso.

Infelizmente, também tem gente de nosso campo - esquerda - que está vivendo uma espécie de prazer por ver o governo ser derrotado naquela antiga e sabida postura de se ver confirmadas as suas "leituras" de que Lula, Haddad e nosso governo e o PT são "neoliberais", de centro ou centro-direita blá blá blá. As palavras que esses companheiros de nosso espectro político usam são, às vezes, as mesmas que nossos adversários e inimigos usam: "o petismo", "a esquerda institucional", "esquerda domesticada" ou denominações do tipo. A poucos meses das eleições é o momento para isso?

DÁ PARA TER ESPERANÇA?

Eu entendo que sim. 

Fui aprendendo depois de muito tempo de militância política que uma pessoa de esquerda não deve perder a esperança. Não deve.

Cito dois momentos por me lembrar deles como se fossem hoje.

Em 2014, nas eleições presidenciais, entramos no segundo turno numa situação complicada, as informações e o sentimento após o primeiro turno eram bastante desanimadores. Parecia que Dilma perderia as eleições para Aécio Neves. Naquele curto espaço de tempo, o segundo turno, nós tivemos a capacidade de mudar a tendência e o cenário. Foi lindo e inesquecível! Viramos o jogo e ganhamos a eleição. Dilma Rousseff foi reeleita.

Em 2022, nas eleições presidenciais, os golpistas no poder desde o golpe de Estado em 2016, tinham tanta certeza da vitória, que nunca na história mundial um grupo produziu tanta prova material contra si mesmo como o bolsonarismo fez. Gastaram bilhões do dinheiro público para permanecerem no poder. Parecia impossível que aquela gente saísse da estrutura do poder. Mas nós mudamos o jogo, contra tudo e contra todos daquela parcela fascista e facínora da sociedade brasileira. Vencemos a eleição e Lula foi eleito com uma pequena margem de votos para o seu terceiro mandato.

Dá para ter esperança.

Nós temos coração e temos algo que só nós temos: objetivos de melhorar a vida do povo brasileiro, uma gente incrível, uma maioria de gente simples que sofreu a vida toda porque o Brasil não foi feito para atender às necessidades e direitos do povo e sim para uma pequena parcela de privilegiados. 

Nós estamos do lado certo da história humana e isso faz toda a diferença.

Dá para ter esperança e o nosso papel diário e seguir tentando fazer a coisa certa por um país melhor para o conjunto da população. Isso começa todos os dias quando acordamos.

Nós podemos vencer essa minoria fascista e lesa-pátria.

Tem muita gente boa do nosso lado, tem muita juventude chegando do nosso lado, tem muita gente experiente se colocando à disposição de seguir lutando conosco.

Cada um de nós pode contribuir de alguma forma para melhorar o Brasil e a vida do povo, lutando contra essa gente de direita e "conservadora", que querem conservar privilégios de uns poucos fdp.

William

30/04/26


Post Scriptum: e por falar em gente boa, de esquerda, que vale a pena, que sempre lutou e esteve do lado certo da história da luta de classes, faleceu hoje o companheiro Daniel Gaio, grande liderança da categoria bancária, empregado da Caixa Federal, dirigente nacional de nossas entidades cutistas. Gaio é um exemplo de por qual motivo vale a pena lutar e ter esperança. Companheiro Daniel Gaio, presente! A gente segue por aqui lutando por um Brasil e um mundo do trabalho melhor para o conjunto da população!

Leituras Capitais - Na mira



Refeição cultural

CartaCapital nº 1410


NA MIRA

Alexandre de Moraes continua um alvo ambulante e a incógnita contamina as relações em Brasília


O bom jornalismo tem como premissa não brigar com os fatos, informar os acontecimentos como eles são. Gosto do jornalismo do grupo CartaCapital pela escola que Mino Carta e suas equipes representam. Por ser leitor e apoiador da revista, me sinto à vontade para tecer críticas quando acho necessário fazê-las.

A imagem escolhida pela revista para ser capa da edição 1410 ficou horrível, não condiz com a linha editorial de CartaCapitalEla me lembrou aquelas capas que o grupo Abril sempre fez contra o presidente Lula. 

O título e o tema poderiam ter sido ilustrados com uma imagem menos apelativa do que a escolhida pela revista. Fica registrada minha crítica pontual.


As matérias e artigos da edição 

Este leitor comentador deve estar naqueles dias de rabugice porque virou a cara para vários textos da edição...

CÍRCULO VICIOSO (Maria Rita Kehl)

"Muitos assediadores não nutrem real desejo pelas vítimas, apenas buscam vingar-se de rejeições anteriores. O resultado desse comportamento é mais repulsa e desprezo"

Sou admirador da psicanalista e escritora, e achei que o texto ia bem na abordagem complexa do tema, mas aí...

"(...) Triste ver um homem negro, certamente vítima de racismo estrutural que assola a sociedade brasileira, envolvido em um caso como esse, contra uma colega que também é negra." (p. 21)

Ela decide ilustrar a tese dela citando o caso em aberto do ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, que ainda está sob apuração. 

A articulista o condena antecipadamente ao citá-lo como exemplo da forma como nunca se deveria fazer num estado democrático de direito... francamente! Que merda isso!

O tema da violência de gênero é sério demais para seguirmos nesse simplismo de se condenar antecipadamente (e na maioria das vezes para sempre e de forma irremediável) qualquer pessoa física ou jurídica que sofra alguma denúncia de assédio sem o devido processo legal concluído. 

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Para finalizar meu azedume com alguns textos, Paulo Gala, no artigo "Os desequilíbrios da China" (p. 37), me pareceu aqueles "economistas" dos jornalões da casa-grande. A China tá crescendo, mas mas mas... 

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Gostei dos textos das seções "Reportagem de capa", "Seu País" e "Economia". Me atualizei sobre a corrida eleitoral deste ano com as matérias sobre as negociações políticas no Nordeste e Minas Gerais. 

DO POÇO AO POSTO (p. 38)

"Por que o Brasil precisa retomar o controle da distribuição de combustíveis"

O texto está muito bom, esclarecedor, sobre as consequências da privatização da cadeia produtiva do petróleo. A análise é assinada por Pedro Uczai, deputado federal (PT/SC).

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Na seção "Nosso Mundo" li assustado as notícias sobre o avanço insano do fundamentalismo religioso naquele país beligerante do norte, governado pelo Nero da atualidade. 

COPA DO MUNDO 

Dois textos abordam o torneio de futebol que será realizado no país que invadiu a Venezuela e sequestrou seu presidente para roubar o petróleo do povo daquele país e que bombardeou o Irã sem respeitar qualquer regra internacional sobre guerras e bombardeou uma escola de crianças, matando quase duzentas meninas.

Um texto fala sobre o preço abusivo de qualquer coisa relacionada a ver os jogos ao vivo.

Outro texto, o artigo do Afonsinho, fala da Copa nos Estados Unidos e fala de tudo, tudo, só não faz nenhuma menção a boicotes ou críticas pelo fato de o evento mundial ser realizado naquela merda de país agressor.

Nada contra o Afonsinho. Na verdade, nenhum jornalista que conheço, que fale e ou goste de futebol, falou nada sobre boicotar e ou não participar da competição por ser no país que sempre exigiu boicote contra outros países em competições internacionais... ninguém falou nada contra a Copa ser nos Estados Unidos!!! 

NOJO!!! HIPOCRISIA!!! Não vi um jornalismo progressista ou democrata ou adjetivo do tipo defender boicote à Copa nos EUA. Nenhum!

Francamente!

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CAMINHAR, SEMPRE

Para fechar a leitura de forma positiva, o artigo do doutor Drauzio Varella "Caminhar, sempre" (p. 57) traz notícias excelentes! 

"Um estudo da revista inglesa The Lancet comprova que dar ao menos 7 mil passos por dia reduz em 47% a mortalidade por qualquer causa"

Amig@s leitores, minha apreensão por estar com problemas na minha estrutura de locomoção é por saber disso e ter na corrida e caminhada atividades vitais para mim, vitais!

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É isso! Leitura feita!

William 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Brasil, 29 de abril de 2026.


"Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração." 

(Poema de sete faces, CDA)


O mês de abril vai terminando com um clima instável... com um ar de incerteza ao redor dos seres viventes desse nosso mundo mundo vasto mundo. O sol apareceu, mas de repente a luz deu lugar às nuvens, e as sombras dominaram o período. O que vem por aí? O que nos reserva o amanhã?

Estamos sob ares imprevisíveis... não temos controle de quase nada. O clima clima pode nos surpreender de um instante para o outro, um fenômeno da natureza pode mudar a vida de muita gente, de muitas espécies, a nossa vida. Se morre numa enxurrada parado no trânsito de São Paulo.

O clima político está desenhado para aqueles poucos que sabem ler mais que palavras, que leem nas entrelinhas, que leem nas coisas ao redor, e que sabem ler história. A história não se repete, mas serve de referência, e com a referência e o contexto do momento, se pode prever o que vem por aí. Talvez evitar o pior...

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O escriba deste blog antigo quer e não quer escrever, quer e não quer falar, quer e não quer se envolver com as coisas do mundo, afinal ele é uma coisa do mundo, uma vida vivida em meio ao mundo mundo vasto mundo, e mesmo não se chamando Raimundo, vaga por aí, e sem rima alguma.

Já fiz alguma coisa na vida. Tive carências, tristezas, muita raiva, ódio mesmo, mas também amei, superei coisas impeditivas do querer viver. Já tive minhas fases (minhas sete faces?), já poetei sobre elas, já digeri sobre a infância, a adolescência, a vida adulta jovem, a vida madura no melhor da produção intelectual, e já encontrei as respostas a questões existenciais que havia formulado nessas fases da vida vivida e percorrida. Encontrei as respostas! 

Na fase do momento - a pessoa de agora, que pisa num outro rio sendo outra pessoa - fiquei procurando o que fazer ou o que não fazer, no que dar sentido ou a compreensão plena de que não há sentidos, e que sem haver sentidos, nós esses bichos exóticos do mundo mundo vasto mundo, que até rimamos mundo com Raimundo... enfim, talvez o sentido seja escolher o que fazer e não fazer para dar um certo sentido no próprio existir.

O que vou fazer ou tentar fazer nos próximos dias e semanas e meses do viver estando por aqui no mundo mundo vasto mundo? Não se recupera ou se volta no tempo. Não se volta a ser o que um dia se foi. Acho difícil fazer o que queria fazer, não fiz, e talvez pudesse fazer agora. Não dá! É outro rio, outra pessoa.

A passagem do tempo, essa percepção que o bicho humano tem, é inescapável. O que quis ou não, o que vivi ou não, de certa forma, não existe... existe em mim, que posso não existir num instante... não existe a não ser que se registre para além de minhas células e átomos. E olhe lá! (uma bomba ou um cancelamento apaga tudo!)

Eu existo? Existi? Os fatos, e atos, e acontecimentos, e as coisas feitas, e sentimentos nos quais me envolvi, vivi, construí, senti, existem? Vão existir amanhã? Não há controle de nada. Não há.


"Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.

Ponteei viola, guiei forde

e aprendi nas mesas dos bares

que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham

e todas as virtudes se negam."

(Também já fui brasileiro, CDA)


Já refleti sobre fazer volume por aí. Já guiei forde e já ponteei viola... aprendi nas mesas dos bares da vida. Não sei se ainda quero essas coisas depois que os bares se fecharam pra mim.


"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,

sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual."

(Elegia 1938, CDA)


Como diz o poeta, é um mundo caduco. Quiçá eu seja um caduco num mundo caduco.

Por mais que eu pratique laboriosamente os gestos universais, minhas formas e ações não encerram nenhum exemplo... (isso diz tudo para mim na atualidade!)

É nesse momento que estou neste dia de derrotas para o governo Lula, de livros descartados no lixo em Osasco, de bombas apagando gente e história por aí, de big techs manipulando meus pares ao meu redor...

Não sei se quero ou faz diferença ir a lugar nenhum, fazer volume em algum lugar.

Will i am (mas...)

29/04/26

domingo, 26 de abril de 2026

Livros no lixo em Osasco


Os Lusíadas, edição de 1982,
resgatado do lixo décadas atrás

Livros no lixo em Osasco

Segundo matérias na imprensa, milhares de unidades dos 39 mil livros da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em Osasco, foram jogados no lixo na semana mundial do livro... uma perda irreparável para a história de Osasco e para o mundo da cultura. 

Nenhuma matéria da imprensa de direita, a velha mídia golpista e manipuladora, citou o nome e o partido do prefeito responsável por essa tragédia, esse ato de destruição do patrimônio cultural da cidade e do Brasil. 

O prefeito de Osasco, responsável pela destruição de parte do acervo de livros da Biblioteca Monteiro Lobato, é Gerson Pessoa (Podemos), conhecido na cidade como o cunhado e sucessor do ex-prefeito Rogério Lins (Podemos), responsável por fechar a biblioteca em 2020.

Este livro com bolor teve mais sorte
que os livros da biblioteca de Osasco

Rogério Lins é aliado do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), foi seu secretário de esportes e lazer até recentemente. Dizem que saiu do cargo para ser candidato nas eleições deste ano.

Ricardo Nunes é aliado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), pai do senador pré-candidato a presidência Flávio Bolsonaro (PL).

Os Lusíadas, edição de 1982, foi salvo por
um jovem leitor, hoje morador de Osasco

Essa gente de direita odeia cultura, educação, livros... essa gente atua politicamente para que a população nunca acesse livros, educação e cultura. 

Essa gente vai pedir seu voto em outubro deste ano. Se você é leitor ou leitora, aprecia cultura e arte, lembre-se o que esse pessoal da direita faz com livros...


Livro resgatado no lixo

Quarenta anos atrás, o jovem leitor que criaria este blog passava por uma rua no bairro Rio Pequeno, onde morava em São Paulo, quando viu diversos livros numa pilha de lixo na calçada. Não podendo resgatar todos eles, salvou Os Lusíadas, de Camões. 

O livro tinha fungos e bolores, mas foi cuidado, lido, e até hoje está na estante de sua biblioteca. 

Salvem os livros, salvem a cultura e as artes! Votem com consciência em outubro de 2026.

William Mendes 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sobre Cuba II: lendo Aline Marcondes Miglioli



Refeição cultural

LEITURAS 

Dando sequência à leitura do livro Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana, de Aline Marcondes Miglioli, cito alguns excertos abaixo para reforçar o interesse nos leitores do blog em adquirir a obra e lerem o estudo completo da autora. 

Fiz meu fichamento sobre os capítulos 1 e 2 em uma postagem anterior (ver aqui).

Reforço, como disse na primeira postagem, que qualquer interpretação equivocada ou diferente do que a autora aponta, é de minha exclusiva responsabilidade.

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EXCERTOS 

O capítulo três "O turismo enquanto setor estratégico: contradições da revolução na periferia" é dividido em duas partes: O papel do turismo na acumulação de capital e Indústria do turismo em Cuba. 

O capítulo é uma verdadeira aula de economia e história. Eu nunca tinha parado para pensar o turismo como atividade econômica inserida na divisão internacional do trabalho na lógica capitalista. 

"(...) A principal mudança entre a primeira e a segunda fase de execução da atividade. Ao invés de responder às demandas de hospedagem e lazer locais, a indústria do turismo após os anos 1970 passou a promover os destinos turísticos através da criação e venda de espaços 'exóticos', ou seja, inexplorados e exclusivos." (p. 112)

Após a leitura, será difícil olhar as viagens que fazemos em pacotes turísticos como víamos antes. O que eu sentia, às vezes, como um turista sendo tratado só como um consumidor qualquer de produtos enlatados, foi esclarecido pela autora. Aprendi demais com a leitura!

Aline me fez compreender até a lógica de destruir bairros inteiros e áreas públicas nas cidades como São Paulo, terra arrasada na mão do prefake atual e seus parças, quando explica as soluções capitalistas para a sobre-acumulação do capital.

"A importância do espaço geográfico enquanto uma categoria de análise no processo de acumulação de capital é evidenciado por David Harvey em Limites do capital (2013). Para o autor, a construção e reconstrução do espaço são saídas para as crises de sobre-acumulação do capital, pois estas atividades permitem empregar o capital sobre-acumulado em grandes investimentos, principalmente em capital fixo na produção do espaço, que tem como característica serem investimentos de longa maturação. Neste sentido, a construção do espaço urbano ocupa uma posição importante neste processo de ordenamento espacial da reprodução do capital, pois torna-se uma forma de atrasar ou atenuar as crises de sobre-acumulação de capital." (p. 110)

O setor de turismo veio a calhar para o capitalismo nas últimas décadas ao mudar a lógica de turismo antiga, mais regional e interna nos países, em relação ao modelo atual. 

"(...) Sendo assim, o setor turístico, entendido enquanto uma atividade que pressupõe a ocupação e construção de novos espaços, representa uma frente para atenuar as crises de acumulação de capital, avançando na ocupação de novos territórios, investindo na produção ou conversão destes espaços em espaços turísticos." (p. 111)

E o modo "all inclusive", então? Essa lógica dos capitalistas donos das redes hoteleiras quebra toda a economia local ao fazer o turista consumir tudo no hotel, só para se apropriar de todos os recursos da sociedade. O ápice dessa lógica são os "navios-shopping" que cruzam os mares...

Após a primeira parte do capítulo, a aula de economia, Aline entra na parte da indústria turística em Cuba, opção tomada pelos cubanos já nos anos oitenta, mas efetivada após o fim da URSS e o período especial, como atividade econômica relevante no país. 

A autora descreve a atividade econômica de turismo em Cuba desde o início do século XX, período anterior à Revolução. O turismo era uma tragédia para a classe trabalhadora. Tudo era em benefício de uma pequena parcela da elite local e para as elites norte-americanas.

Nas conclusões do capítulo, Aline avalia ter sido acertada a escolha dos cubanos pela atividade econômica de turismo como uma alternativa de entrada de divisas, apesar das contradições e desafios inerentes ao setor, inclusive ideológicos.

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Seguimos na leitura. 

William 

24/04/26

Instantes



Sexta-feira. 

9h06. Poderia decidir hoje viajar para a China, em um grupo organizado pelo professor Lejeune Mirhan. O valor investido e a programação estão muito bons. Vi um chamado dele alertando para o prazo final de adesão. Refleti. Não vou pra China.

Estou meio mequetrefe, azedo. Faz quase duas semanas que fiz cirurgia na língua e ainda não consigo comer direito, mastigar coisas sólidas, duras. Que saco! Imagino quem tem problemas mais sérios que esse meu, imagino quem sente dor de verdade, não essa dorzinha incômoda que sinto, que foda deve ser... estou azedo!

Ontem, caminhei 11 Km em ritmo acelerado. Dias atrás, foram 8 Km. Por mais que saiba que meu quadril, meu corpo, estão sofrendo os efeitos da natureza e do tempo, e da genética e do percurso hard que percorri, a natureza da identidade da gente insiste em querer correr, fazer longas caminhadas, desafiar distâncias blá-blá-blá. Insistência também é nosso nome...

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21h48

Li mais um capítulo do livro Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana, da professora de economia Aline Marcondes Miglioli, um capítulo abordando a indústria do turismo sob a ótica do capitalismo (comentários aqui). É encantador ler e sair da leitura com reflexões e novos conhecimentos! Dificilmente verei o turismo que eu e a maioria de vocês fazemos com os mesmos olhos que via antes da leitura da autora.

Comecei a leitura da nova edição da revista CartaCapital, que recebi hoje. É uma leitura triste, são notícias sobre a realidade do Brasil e do mundo. A verdade factual entristece a gente.

Aí, meia hora atrás, estava vendo uma aula de meu amigo professor de português, Sérgio Gouveia, analisando um poema de Drummond, um de meus poetas favoritos, e fiquei admirado com a facilidade com a qual ele interpretava o poema "Elegia 1938", antes de entrar na parte da aula sobre orações subordinadas adjetivas e outras questões gramaticais. Cara, que facilidade o Gouveia tem para ler e decifrar um poema do Drummond, autor cujos poemas considero exigentes, alguns de difícil compreensão.

I'm a lucky man... Refleti que a vida, de certa forma, tratou de abrir veredas e caminhos que eu não planejei. No fim, eu não fui professor de português. Orações subordinadas, metonímias, metáforas... as veredas foram minha salvação. Olhando para trás, imagino que eu não teria dado certo como professor... gramática sempre me pareceu física quântica (que deve ser mais fácil, rsrs). Porém, é certo que tentei ser um sindicalista dedicado à classe trabalhadora que representava. 

Admirável a habilidade humana de educar e transmitir conhecimentos...

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(hoje, efetivamente, estou bolado com a questão da leucoplasia oral que descobri meses atrás e as consequências até agora, duas cirurgias para retirar as lesões na língua. Passei o dia com receios em relação a essa questão...)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Leituras Capitais - Ao Deus-dará



Refeição cultural

CartaCapital n° 1409 


AO DEUS-DARÁ

Após anos de governos desastrosos, só uma força-tarefa nacional salva o Rio de Janeiro


Tenho de forma intencional evitado perder minha saúde lendo as más notícias do mundo (tipo ficar por conta disso). Mesmo assim, alerto que não sou um alienado político. Sou leitor do mundo ao meu redor. Experiência. 

Porém, voltando de viagem internacional, peguei uma edição de CartaCapital para ler: qualidade jornalística!

Me chamaram a atenção, pela argumentação e questões abordadas, os artigos de Aldo Fornazieri (p. 9), Paulo Nogueira Batista Jr. (p. 35) e a matéria de Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo (p. 38). Dá gosto ler bons textos! 

MÁQUINAS DE PENSAR? (p. 38)

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - Seu avanço oculta o monopólio de dados e ajuda a bloquear o pensamento (Back e Belluzzo)

"Onde o cérebro gasta mais energia e conexões é no ato de ler e pensar, e depois escrever no papel. Esse é o movimento da inteligência. Ao digitar e consultar a IA, seria a morte da inteligência."

Perfeito! Cristalino! Há tempos, reflito que temos que salvar a humanidade, o cérebro e a possibilidade de inteligência que vem conosco ao nascer. Temos que salvar a humanidade das big techs, dessas máquinas destruidoras dos seres humanos. 

Leiam o texto, recomendo!

ANTISSEMITISMO E ANTISSIONISMO (p. 35)

"O ponto central é a confusão perigosa que os sionistas, poderoso lobby transnacional, tenta fazer entre os dois fenômenos" (Paulo Nogueira)

Texto sintético, claro e preciso! Vale muito a leitura!

GUERRA IMORAL (p. 9)

"Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e Israel" (Fornazieri)

O artigo desnuda toda a hipocrisia envolvida no tema feito "sensivel" pelos canalhas apoiadores e apoiadoras desses senhores da guerra e dos assassinatos em massa nos tempos atuais. 

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As reportagens estão muito boas na revista, e esses artigos já valeram a edição!

Sigo lendo...

William 

21/04/26 (23h59)


Post Scriptum (22/04/26):

A revista inteira está excelente! Todas as seções contêm matérias que agregam informações relevantes aos leitores. Recomendo a leitura, edição em papel ou na página da revista. 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Viagem a Cuba IV (2026)


Pôr do sol em Havana, a partir do
restaurante La Divina Pastora

Refeição cultural 

Após um primeiro dia de muitas visitas a museus e equipamentos públicos que resgatam a história do povo cubano e de sua Revolução libertadora do jugo imperialista (ler aqui), o dia seguinte de nossa caravana solidária de brasileiros seria pegando a estrada para conhecermos Viñales.

Antes de terminar o primeiro dia de programação sociopolítica, nossa caravana passou pela famosa Praça da Revolução por meia hora, mais para contemplarmos a imensidão do ambiente, conhecido por receber multidões de cubanos para ouvir os discursos de Fidel Castro e para eventos importantes em Havana como, por exemplo, o 1° de maio.

Na praça, nosso grupo se encantou
com os carros dos anos cinquenta

Após o jantar no restaurante La Divina Pastora, onde apreciamos música cubana ao vivo, fomos ver a cerimônia do "Cañonazo", uma encenação teatral que rememora séculos da história de Havana, época na qual os portões da cidade eram fechados às 21h para só reabrirem na manhã seguinte. Havana era rodeada de muralhas. Fiz postagem sobre o tema, é só clicar aqui.

Música cubana no restaurante
La Divina Pastora

No 3° dia de nossa programação sociopolítica organizada pela Amistur, agência cubana de turismo, pegamos a estrada para Viñales, município de Pinar del Río, distante 180 Km de Havana, indo no sentido ocidental da ilha. As estradas estavam vazias pela falta de combustível causada pelo bloqueio criminoso dos Estados Unidos. 

Construção típica da propriedade
produtora de tabaco


Plantação de tabaco

Após três horas de viagem, nossa primeira agenda foi visitar uma produção de tabaco e charutos. A região de Pinar del Río é uma área rural cujo principal produto comercial é o tabaco. Viñales tem cerca de 28 mil habitantes.

Local onde as folhas são maturadas

Folhas de tabaco em espera

Mesmo para um não fumante, o odor é bom!

Eis aí um produto cubano...

Durante a visita, vimos as plantações, as folhas em processo de secagem, os paióis onde as folhas passam pelo período de maturação e também vimos o preparo de um charuto, disponibilizado para apreciação das pessoas da caravana interessadas em experimentar o tabaco cubano.

Cuba...

HISTÓRIA

Faço uma breve contextualização histórica: antes da Revolução liderada por Fidel Castro nos anos cinquenta, todos os imóveis urbanos e as terras produtivas de Cuba pertenciam a um pequeno grupo de latifundiários e proprietários, grande parte, aliás, norte-americanos. Era exceção alguém da classe trabalhadora ter sua própria moradia.

A amplíssima maioria do povo cubano, milhões de homens, mulheres, crianças e idosos, não tinham nada - moradia, emprego, alimentação, educação, saúde, etc - nada! As pessoas viviam em cortiços nas cidades e em bohíos nas áreas rurais (cabanas com telhados de palha e paredes de tábuas de palmeira).

Uma das primeiras medidas após a vitória do Exército Rebelde em 1° de janeiro de 1959 foi fazer reforma urbana e agrária editando um conjunto de leis relacionadas a moradias, aluguéis e direito popular às terras nas quais as pessoas trabalhavam.

Ruas da simpática cidade de Viñales

Ao visitarmos Cuba neste momento dramático da história, de asfixia econômica criminosa com atos ilegais dos Estados Unidos, colocando a ilha e seu povo sem acesso a qualquer forma de combustível, essencial para o funcionamento da vida cotidiana, temos que ter clareza das consequências dessa maldade na vida das pessoas, inclusive em seus aspectos psicológicos.

Boa parte dos veículos em circulação
são elétricos, motos e triciclos

Há meses Cuba não recebe petróleo importado, afetando absolutamente tudo no país. Imaginem vocês o Brasil no dia seguinte sem acesso a combustível fóssil e o não funcionamento de nada no país, pois aqui e no mundo a matriz energética que faz a vida cotidiana funcionar é com base em combustíveis fósseis, petróleo, gás e carvão.

Pessoas estão morrendo em hospitais por falta de energia elétrica, o governo não tem conseguido exercer os programas sociais que fazem parte dos direitos da cidadania por falta de recursos, o petróleo é necessário para quase tudo na ilha, pois no mundo moderno não se vive sem energia. Cuba tem investido em painéis solares como alternativa, mas é um longo processo ainda.

E mesmo assim, o acolhimento do povo cubano aos turistas em geral e a nosso grupo, ao longo da estadia na ilha, foi admirável, saímos encantados com um povo que só quer ser feliz, interagir com os povos do mundo e levar a vida deles do jeito que acharem melhor.

Enfim, essas são algumas reflexões a partir da experiência de ter voltado a Cuba com um grupo de brasileiros e brasileiras tão solidários e irmanados na mesma causa de apoiar nossos irmãos da maior das ilhas antilhanas.

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Vista do Mirador de los Jazmines

VALES E MOGOTES NA PAISAGEM

Ainda na programação do 3º dia em Cuba, visitamos o Mural da Pré-história - uma pintura gigante em um mogote - e a Cueva del Indio - uma caverna com um lago na superfície -, passeios muito agradáveis na região de Viñales. 

Mural da Pré-história

Seguem abaixo algumas fotos da nossa visita à caverna chamada Cueva del Indio.

Subindo...

Descendo...

Uma linda estalagmite

Passeio de barco na caverna


Mogotes são morros ou colinas típicas da região, normalmente de calcário, mármore ou dolomita, são estruturas sedimentares que podem ter tamanho e altura de montanhas. A paisagem em volta é plana, são os vales da região de Pinar del Río.

Um hotel sem turistas (o bloqueio!)
e os mogotes ao fundo do vale


Durante o passeio, almoçamos e finalizamos a visita à região no Mirador de los Jazmines, onde tivemos a oportunidade de vislumbrar o vale com as culturas e os mogotes.

Estávamos a 6700 Km do RJ (Brasil)

MAIS UM DIA DE HISTÓRIA E CULTURA CUBANAS

Voltamos para Havana e jantamos no hotel Copacabana.

Foi um dia excelente na programação de nossa caravana solidária.

Amigas e amigos leitores do blog, não deixem de visitar Cuba, além de ser uma experiência pessoal incrível, vocês vão contribuir muito com o país e seu povo hospitaleiro e altivo.

A companheira Telma Araújo, que organizou nosso grupo, está organizando um grupo para agosto, Cuba comemora neste ano o centésimo aniversário de nascimento do Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz e serão várias comemorações no período.

William

20/04/26 

domingo, 19 de abril de 2026

Sobre Cuba: lendo Aline Marcondes Miglioli



Refeição cultural

LEITURAS

Fiz um curso de extensão universitária em 2025 chamado "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", ministrado por professores e professoras de conceituadas universidades públicas brasileiras. 

Aline Marcondes Miglioli foi uma das professoras do curso e após a aula dela adquiri seu livro sobre Cuba: "Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana". Li alguns capítulos ano passado e ao voltar de Cuba, dias atrás, decidi me debruçar sobre o livro de Aline.

Para fixar melhor a leitura, farei registro de algumas citações nesta e noutras postagens. O objetivo é puramente de estudos e reflexões. Qualquer interpretação da leitura é de minha exclusiva responsabilidade. 

William 

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EXCERTOS

"Ao longo deste livro busca-se responder à seguinte pergunta: o que mudou na forma de habitar a cidade e na organização dos estratos de classe em Cuba após a abertura do mercado de moradias? A hipótese inicial sobre a qual constituiu-se o objetivo deste trabalho é de que, com a abertura do mercado de moradias, houve uma transformação na estrutura socioclassista cubana com a criação de mais um estrato de classe e de um caminho de ascensão social, assim como de novas formas de ocupação da cidade de Havana pelos diferentes estratos de classe." (1. Introdução, p. 15)

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"Nas páginas a seguir serão narrados os fatos históricos cuja compreensão é fundamental e indispensável para a apresentação do nosso objeto de estudo -o mercado de moradia atual. Sendo assim, o objetivo deste capítulo é traçar o caminho entre a Reforma Urbana realizada em 1960 e a abertura do mercado de moradias." (2. Revolução Cubana e Reforma Urbana, p. 22)

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Na página 27, Aline explica o histórico da falta de moradias populares em Havana antes da Revolução Cubana: o foco do mercado e do governo eram "habitações de luxo da burguesia".

"O desamparo estatal, o alto preço dos aluguéis e o desinteresse privado pela construção de moradias acessíveis à classe trabalhadora eram os três pilares do problema habitacional em Cuba nesse período." (p. 28)

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O que unificava grupos de oposição contra o ditador Batista nos anos cinquenta? 

A luta por autonomia e independência, o problema do latifúndio e as lutas por direitos sociais e de cidadania para os trabalhadores.

"Em suma, a agenda que conduziu à Revolução Cubana configurava-se inicialmente como a agenda de uma revolução burguesa nacional, assentada sobre a autodeterminação e os direitos democráticos burgueses." (p. 31)

Aline cita o conceito de "homem natural" de José Martí:

"O homem natural é o sujeito e o destino da formação nacional cubana, a qual só pode realizar-se sobre uma organização social autóctone, ou seja, liberta das influências dos colonizadores." (p. 32)

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Na página 33 há uma boa síntese do governo provisório de Manuel Urritia após o triunfo da Revolução. Este representava a burguesia, enquanto o PCR e o MR26-7 representavam os interesses das classes populares. 

Fidel rompe com a pequena burguesia:

"A partir do acirramento das contradições internas do Governo Provisório, Fidel Castro, como representante do Exército Rebelde, rompeu com a pequena burguesia, mas a pressão popular levou-lhe a assumir o governo, um governo revolucionário com compromisso de promover as mudanças que o pacto de classes não permitiria. Encerrou-se assim a etapa de conciliação democrática e, com ela, a possibilidade de acordos com os EUA." (p. 34)

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Reforma Urbana, de 1960:

"O processo de reforma urbana incidiu sobre cinco eixos: a moradia, o uso e aproveitamento do espaço, o trânsito, a densidade populacional e a responsabilidade administrativa pelo ordenamento urbano." (p. 35)

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"A escolha pela propriedade privada como resposta ao problema habitacional pode ser atribuída ao vislumbre da pequena propriedade como destino do hombre natural, deixado como herança pelo pensamento de José Martí (Trefftz, 2011)." (p. 39)

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A professora Aline vai explicando ao longo do primeiro capítulo do livro, segundo a opinião dela, os acertos e erros cometidos pelo governo cubano nas primeiras décadas de gestão socialista do país. 

O leitor toma conhecimento sobre os debates econômicos da época - "O Grande Debate", que contrapunham dois modelos - (SOF) x (CE) -, sendo um deles o preferido por Ernesto Che Guevara (SOF). 

Também vamos vendo a evolução na questão do direito universal à moradia, objetivo estatal prejudicado no tempo pela priorização do esforço produtivo na tentativa de produções recordes de cana-de-açúcar.

Deixo algumas citações abaixo só para ilustrar o conteúdo do capítulo:

"A história econômica do Período Revolucionário, que vai de 1959 até a atualidade, pode ser dividida em três períodos históricos: o primeiro inicia-se em 1960 e vai até 1989 e é identificado pela aproximação com a URSS e com os países do bloco socialista; o segundo é marcado pelo fim da URSS em 1990 e o 'reajuste' da estratégia de desenvolvimento ao novo contexto geopolítico e se estende até 2010; por fim, o período atual que inicia-se em 2011 é marcado pelo processo de Actualización del modelo Económico y Social." (p. 44)

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"A crítica feita por Guevara ao sistema de CE incide principalmente sobre o problema da propriedade dos meios de produção no socialismo. Guevara se indagava sobre o sentido da venda de mercadorias entre as empresas socialistas, visto que elas são parte de uma mesma propriedade, a propriedade social." (p. 46)

e

"(...) Guevara rechaçava a ideia de incentivo material aos trabalhadores e advogava que o uso dos incentivos materiais deveria ser secundário frente aos incentivos morais de edificação e construção do Homem Novo, nome dado ao novo sujeito histórico do socialismo cubano.' (p. 47)

e

"(...) Sendo assim tem-se em debate duas propostas para o período de transição socialista, marcado ou pela preponderância da solidificação moral e construção dos valores e identidade do homem novo, ou pela construção dos mesmos através do desenvolvimento das forças produtivas (Pericás, 2004; Guevara, 1987c)." (p. 48)

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Abaixo, a autora aborda as escolhas econômicas após a Revolução Cubana:

"Voltando-nos para as estratégias de desenvolvimento das forças produtivas, em 1960 foi traçada uma política econômica com objetivo de romper com o subdesenvolvimento e a dependência e consolidar as bases de uma economia socialista a partir de três mudanças: (i) acabar com o latifúndio e a monoexportação açucareira, substituindo-a pela diversificação da produção e pela soberania alimentar; (ii) superar a condição de economia exportadora a partir da substituição de importações; (iii) implementar o planejamento econômico como principal forma de organização da economia." (p. 49)

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ANOS OITENTA

Em meados dos anos oitenta, Fidel Castro, lança o programa Rectificación de Errores (RE), devido aos acontecimentos que vinham ocorrendo na URSS, como a Perestroika e a aproximação soviética com os Estados Unidos. 

"(...) Fidel Castro publicou em 1986 o programa conhecido como Rectificación de Errores (RE), cujo objetivo era promover uma autocrítica coletiva das medidas adotadas nos últimos anos por influência da URSS e resgatar os valores morais da Revolução Cubana." (p. 64)

e

"A RE também preocupou-se em recuperar o caráter coletivo e moralizante do trabalho e, para tanto, reduziu os incentivos materiais e aumentou os incentivos morais para o trabalho, aprofundando a coletivização e estabelecendo maior controle sobre o mercado de trabalho. Esperava-se, assim, aumentar a produtividade através do fortalecimento da disciplina, da diminuição da corrupção nos centros de trabalho e da redução do excedente de mão de obra em alguns setores." (p. 65)

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PERÍODO ESPECIAL 

Aline descreve nas páginas seguintes aos anos oitenta, as consequências econômicas, políticas e sociais em Cuba após o fim da URSS no início dos anos noventa. Também aponta os problemas relativos ao tema do livro: o setor de moradias e imóveis. 

"Em suma, no que compete à moradia, a década de 1990 correspondeu à queda na quantidade construtiva de novos imóveis. No que diz respeito à economia, as transformações pelas quais Cuba passou durante o Período Especial alteraram de forma significativa a composição das suas forças produtivas. Devido à paralisação da produção sucroalcooleira pela falta de insumos, o setor primário rebaixou sua participação no produto total; em contraposição, devido ao estímulo ao setor turístico, o setor terciário incrementou seu peso na composição setorial da economia. Como consequência, houve mudanças no balanço de pagamentos, com aumento da participação das importações e das operações em moeda conversível. Houve também uma mudança nas relações de propriedade dos meios de produção, com incremento do trabalho privado após a introdução do TCP e das UBPCs e atualmente 12% do total de empregados são trabalhadores cuentapropia, que, se somados aos trabalhadores em cooperativas, totalizam 23% de empregos não estatais (ONEI, 2018)." (p. 74)

TCP é trabalho por conta própria e UBPC é Unidade Básica de Produção Cooperativa. O estudo é até 2019, período de produção dos estudos da autora. 

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MUDANÇAS APÓS 2011

Aline descreve as mudanças na legislação que trata das moradias e demais imóveis e também as atualizações relativas ao mundo do trabalho promovidas pelo governo cubano. 

Um resumo:

"O direito de herança pode ser considerado como o último passo jurídico para reconhecimento do direito de propriedade privada da moradia e, portanto, como último passo para sua transformação em mercadoria. Quando da aprovação da diretriz 297 do documento de atualização do modelo de socialismo cubano, a moradia já possuía o status de propriedade privada. No entanto, desde então, garantiu-se o direito de herança e o seu valor de troca, completando seus requisitos enquanto mercadoria." (p. 86)

e

"Os decretos que foram publicados após 2011 também incidem em outro aspecto caro à LGV* e à Reforma Urbana: o da transformação da moradia em um espaço econômico. A Reforma Urbana havia mostrado-se contrária à utilização da moradia enquanto meio de vida, referindo-se à atividade rentista pré-revolucionária. No entanto, o trabalho cuentapropia é muitas vezes realizado no espaço doméstico: sapatarias, lojas, cafeterias, restaurantes e o aluguel de quartos para estrangeiros são exemplos destas atividades. Sendo assim, a legislação urbana precisou ser modificada para alcançar a legislação trabalhista, que já permitia o uso comercial da casa para atividades do trabalho autônomo." (p. 87)

* Ley General de las Viviendas

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PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO ATUAL DE MORADIAS 

Aline se debruça sobre todas as atualizações da legislação até o momento dos seus estudos para descrever a situação da questão da moradia.

Uma situação ficou clara para mim, leitor: com o recrudescimento do bloqueio, o foco do governo passou a ser os direitos humanos básicos, ou seja, alimentação, saúde e educação. 

"(...) Neste contexto, desde os anos 1990, outros bens e serviços públicos de maior importância para a população foram priorizados, tais como a alimentação, a saúde pública e a educação." (p. 89)

e

"O acesso aos materiais de construção é um dos principais problemas na construção de moradias em Cuba atualmente. Ele deriva da restrição à importação de produtos estrangeiros - pelo bloqueio norte-americano ou pela falta de recursos - e da baixa qualidade dos produtos nacionais." (p. 90)

A autora faz um excelente fechamento do capítulo a partir da página 99, mas cito abaixo um excerto anterior à conclusão que também resume o tema da moradia em Cuba:

"Retomando as proposições da Reforma Urbana adotada em 1960, que estabeleciam como terceira e última etapa do processo de reforma a estatização e a gratuidade completa da provisão habitacional, o cenário atual difere-se muito do cenário programado. Atualmente existem diversas vias para obter-se uma moradia, que pode ser comprada no mercado, ser construída por esforço próprio ou adquirida do Estado. Ainda assim, nestes sessenta anos desde a aplicação da Reforma Urbana manteve-se a proibição à produção comercial de moradias e apenas aqueles que possuem a intenção de construção para uso próprio podem fazê-lo. Neste ínterim, também modificaram-se as formas de intervenção estatal, pois além da construção e distribuição de novas moradias, o Estado também oferece subsídios, apoio técnico e regula o mercado de materiais de construção civil, a construção por auto-esforço e o mercado de moradias." (p. 98/99)

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Fim da primeira parte da leitura. 

Repito que o intuito deste fichamento é puramente para estudos deste leitor. 

Estive três vezes em Cuba nos últimos quatro anos e meu interesse pelo país, por seu povo e por sua história só aumenta. 

Sigamos apoiando o povo cubano e lutando por uma sociedade humana que supere a lógica destrutiva do capitalismo. 

William 

19/04/26

quinta-feira, 16 de abril de 2026

16 de abril


16 de abril


O mês das muitas significações

nas minhas veredas percorridas

vividas corridas sobrevividas.


O mês dos aniversários...

Aniversários nascimentos

das pessoas das veredas,

das instituições da minha vida.


O mês do nosso Sindicato.

O mês da Caixa de Previdência.

O mês que golpearam a Dilma.

Abril o mês dos nascimentos.


Aniversário do nosso Sindicato

para o qual dediquei minha vida.

Aniversário do fundo de pensão

que meus pares criaram e sustentam (nos)


Abril... 

16 de abril...

Estamos aqui...

Mais uma cirurgia na língua...

Sigo escrevendo, lendo, sobrevivendo.


Que venham os meses de abril...


William

Viagem a Cuba III (2026)


Museu da Revolução


Refeição cultural

O primeiro dia de nossa programação sociopolítica em Havana incluiu visitas a museus imprescindíveis para turistas que desejam conhecer a história de Cuba e de seu povo altivo e libertário, principalmente no que diz respeito às motivações para a Revolução Cubana. 


MUSEU DA REVOLUÇÃO E MEMORIAL GRANMA

A primeira visita que fizemos foi ao Museu da Revolução e às áreas ao redor do palácio principal, que inclui o Memorial Granma. 


O edifício está em reforma e não havia visitas internas, mas a Amistur conseguiu autorização para que adentrássemos ao pátio central do edifício, que já foi o Palácio Presidencial até o período de Fulgencio Batista. 


A guia do museu nos contou a história da Revolução e eventos que envolveram aquele edifício. 


Em março de 1957, estudantes do Diretório Revolucionário 13 de Março (DR-13-M) invadiram o local na tentativa de eliminar o ditador Batista e faleceram durante seu ato heroico. As marcas de balas do combate estão até hoje nas paredes do edifício. 


A emoção tomou o coração de todos quando nos vimos diante do iate Granma preservado no Memorial que reúne artefatos dos dias de lutas pela libertação do povo cubano do jugo imperialista. 


Um grupo de jovens revolucionários liderados por Fidel Castro saíram do México em 1956 em uma pequena embarcação e chegaram à ilha para levar adiante o sonho de José Martí de ver Cuba livre e independente. 


MEMORIAL DA DENÚNCIA

Outro local importante para se conhecer em Havana é o Memorial da Denúncia, inaugurado em 14 de agosto de 2017, em um belíssimo edifício que abrigava antes o Ministério do Interior. 


Nossa caravana da solidariedade a Cuba, composta por 22 pessoas, foi acolhida pela equipe responsável pelo Memorial, que nos apresentou informações relevantes sobre os ataques terroristas sofridos pelo povo cubano desde 1959, quando a população apoiou os jovens de ideais martianos que libertaram o país. 


Centenas de tentativas de assassinato do Comandante Fidel Castro, atentado a bomba em avião cubano com dezenas de mortes, a invasão da Baía dos Porcos, lançamento de pragas nas produções de alimentos na ilha, atentados a bomba em Cuba promovidos com apoio norte-americano etc. 

E depois acusam os cubanos... que só exportam solidariedade!


O turista descobre durante a visita informações que não chegam até nós pelas mídias hegemônicas como, por exemplo, o caso das 14 mil crianças cubanas levadas aos Estados Unidos, sem os pais, nos anos iniciais da Revolução, com o apoio da igreja católica local, que apoiou a ditadura de Batista.


Foi a terceira vez que visitei o Memorial e espero voltar a ele sempre que estiver em Cuba. 


CENTRO FIDEL CASTRO RUZ

Outro local de grande significado para o povo cubano e para os turistas é o Centro Fidel Castro Ruz. Ali vemos o sentido claro do ensinamento de José Martí: "Ser cultos é a única maneira de ser livres".


A emoção pelo discurso que ouvimos da jovem responsável pelo Centro Fidel Castro Ruz, ainda nas escadarias do edifício, levou alguns de nós às lágrimas. 

Fidel, em porcelana

Ela nos recebeu com alegria e explicou os desafios de sua geração para seguir com os avanços alcançados pela Revolução Cubana. 


O local oferece aos visitantes salas modernas e interativas com a história de Fidel Castro e de seus companheiros e companheiras de lutas pela libertação do país e implantação de uma sociedade sonhada por figuras históricas como José Martí, Máximo Gomes, Antonio Maceo, Mariana Grajales e demais cubanos que deram a vida pela independência de Cuba. 


O Centro Fidel Castro conta com 4 visitas guiadas por dia e tem uma página na Internet de fácil navegação para se fazer uma visita virtual. 


HISTÓRIA E CULTURA 

Nosso primeiro dia em Havana foi muito intenso, repleto de história e cultura, a caravana solidária de brasileiros e brasileiras conheceu as lutas seculares por liberdade e independência de um povo que só quer ser feliz e viver a vida sem interferência de ninguém. 


Ainda visitamos a Praça da Revolução e a Fortaleza San Carlos de la Cabañha, onde assistimos à cerimônia do "Cañonazo", mas conto depois essas aventuras.

Amigas e amigos leitores do blog, visitem Cuba! A nossa companheira Telma Araújo está organizando um novo grupo para agosto deste ano. Vale muito a pena realizar o sonho de ir a Cuba.

William 

16/04/26