Servir aos outros, talvez
Temos que tirar uma lesão na orelha do meu pai que pode ser um câncer de pele. É um caso recorrente na família. Pago plano de saúde da Cassi pra ele e mesmo assim não estou conseguindo resolver a questão. O plano está me deixando na mão. É uma grande frustração! Fui gestor eleito da Cassi e não esperava isso de nossa autogestão em saúde.
A casa de meus pais é antiga, cheia de problemas estruturais para serem reparados. Moro a 600 Km de distância deles. Estamos tentando fazer aos poucos os reparos. Trocamos a pia da cozinha, o tanque, consertamos o telhado da área do quintal. Minha irmã e sobrinhos têm ajudado como podem. Até meu primo nos ajudou.
Compramos um fogão novo pra minha mãe, mas não conseguimos instalá-lo ainda. Até algo simples se transforma em uma novela. Meu pai não aceitou colocarmos o botijão de gás onde era possível... estamos tentando contratar um profissional que faça a instalação do jeito que meu pai aceite.
Eu, filho do meu pai, tento entendê-lo de todas as maneiras possíveis, considerando a idade dele, as dores dele, o que ele já viveu de ruim na vida, suas frustrações, mas não é fácil compreender por que ele é tão rude com as pessoas que convivem com ele. Me coloco no lugar dele, agora que sinto parte das dores que ele tem, e fico me questionando se também ficarei como ele...
O mundo está numa etapa complicada. A sociedade humana caminha para sua autodestruição. A parcela pequena de pessoas com alguma consciência social se pergunta o que fazer para evitar a degeneração acelerada de tudo ao nosso redor. Eu me politizei bastante depois dos trinta anos de idade. Se não tivesse sobrevivido ao período que queria morrer, de menino explorado até uns trinta anos, nem estaria aqui refletindo essas coisas e sequer teria tido a oportunidade de ter feito algumas coisas úteis à coletividade como acho que fiz quando fui político e representei honestamente milhares de trabalhadores bancários.
Qual o sentido da vida? Pergunta esquisita essa. Como assim, sentido? Qual teria sido a resposta que daria se estivesse com meus quatorze anos quebrando esgoto com merda como fiz quando trabalhei para o senhor Joaquim?
Qual resposta daria quando estava em fúria e querendo matar e morrer revoltado com aquela miséria e carência que eu sentia? Amassar barata na cara no barracão onde morei, ser humilhado pelos fdp nos casarões do Umuarama quando apertava a campainha de suas casas perguntando se eu poderia lavar o carro deles por uns trocados... sentido da vida?
Hoje, aos 57 anos, tenho as respostas para todas as perguntas que fiz ao longo da caminhada até aqui. Inclusive para a badalada pergunta sobre o sentido da vida.
No fundo, sei por que meu pai é como é. Sei por que as pessoas na Cassi para as quais mandei sugestões de atendimento aos usuários idosos do plano sequer se deram ao trabalho de confirmar que receberam meu e-mail.
De verdade, se não sei, suspeito de muitas coisas, como dizia Guimarães Rosa. Os porquês dessa massa de gente do mundo-brasil onde nasci e vivi estar disposta a votar nos piores humanos que existem para representar o povo e os estados brasileiros.
Talvez o único sentido da vida de um ser humano seja servir ao outro, pois ao ser solidário e ajudar de alguma forma alguém, a pessoa talvez seja feliz naquele gesto, naquela doação, e talvez o significado daquele fazer o bem ao outro seja a própria felicidade, o amor, a boa nova. O sentido da vida.
Espero ter feito isso algumas vezes nessa caminhada por esses vales de lágrimas do mundo.
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