Refeição Cultural
"Quem lê, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando um leitor assoma à entrada de um livro, é para conhecê-lo, ou para se reconhecer a si mesmo nele? Quer o leitor que a leitura seja uma viagem de descobridor pelo mundo do poeta (designo agora por poesia, se me permite, todo o trabalho literário), ou, sem o querer confessar, suspeita que essa viagem não será mais do que um simples pisar novo das suas próprias e conhecidas veredas?" (Último caderno de Lanzarote, José Saramago)
Como quase tudo em minha vida, foi por acaso que topei com essa sabedoria citada acima do grande escritor José Saramago. No fundo, eu quase que não precisaria dizer mais nada sobre a minha relação com o livro de memórias do Zé Dirceu. É tudo isso que Saramago disse... tudo isso.
José Dirceu terminou a revisão de suas memórias em julho de 2018. Publicou a primeira edição em agosto daquele ano. Já havia enfrentado períodos na prisão. O presidente Lula havia sido preso em abril de 2018, em uma operação criminosa para a tomada do poder no Brasil. Lula ficaria naquela masmorra por 580 dias, até ser solto por ser inocente, assim como José Dirceu.
Eu acabava de voltar para São Paulo em junho de 2018, após trabalhar quatro anos em Brasília. Eu estava vivendo o meu inferno pessoal. Voltei para casa após um processo de lawfare que montaram contra mim para me tirarem da representação política, com mentiras inventadas para destruírem minha história de lutas. Arquivaram aquelas mentiras infundadas quando eu já não era nada, carta fora do baralho. Moramos os primeiros meses em SP entre caixas e sacos de mudanças num apartamento alugado, enquanto reformava nossa casa fechada há anos.
Minha Via Crucis durou bem menos que a de figuras de grandeza política como Lula, Zé Dirceu, Genoino, Gushiken e Vaccari. Durou menos que a de companheiros do movimento sindical, perseguidos em processos inventados e que passaram anos se defendendo de algo que não fizeram. Após dois anos de martírio, tendo cumprido os prazos legais de tempo de contribuição ao nosso fundo de pensão, saí do banco público para o qual dediquei o melhor de minha vida. Veio a pandemia de Covid, que aumentou o meu isolamento por um longo tempo. Foi difícil retomar a vida. A experiência serviu para admirar cada vez mais lideranças como essas que citei.
Enfim, talvez eu tenha comprado o livro do Zé Dirceu, assim que foi lançado em 2018, com todas aquelas indagações que José Saramago brilhantemente faz em suas reflexões mágicas sobre o que os leitores esperam encontrar nos livros e nas leituras que fazem.
Aquele ano foi tão difícil para mim, para nós que dedicamos a nossa vida para um Brasil e um mundo melhor, mais justo e solidário, com maiores oportunidades para a imensa maioria do povão, as gentes de onde viemos enquanto classe trabalhadora, que tudo que li naquele ano se perdeu, eu não estava prestando para nada vivendo meu pequeno inferno astral.
Cheguei a ler quase duzentas páginas das memórias do Zé Dirceu. Parei. Li outros livros. Não me lembro de nada que li naquele ano. De vez em quando recebia notícias de que eu iria enfrentar processos também, depois não mais... Veio aquela campanha política fraudulenta, sem Lula que venceria as eleições, e que colocou o clã Bolsonaro no poder. Vieram as destruições de tudo de nosso querido Brasil. Veio a pandemia... Vieram os milhares de mortos diariamente, mortes causadas por aquela gente que tomou o país por golpe.
Eu fui retomar a leitura do livro de memórias do Zé Dirceu anos depois, em 2024, com o Brasil vivendo já outro contexto, um país sobrevivente daqueles quatro anos de desgraça bolsonarista. Mas um país fraturado, cheio de feridas e cicatrizes, com tudo mudado. Li de novo umas cento e cinquenta páginas, fui em um encontro com o companheiro Zé Dirceu no diretório do PT da Lapa. Peguei seu autógrafo. Acabei não dando sequência na leitura, por outros motivos, por estar lendo compulsivamente um monte de livros.
Enfim, semanas atrás, peguei o livro de memórias do Zé e comecei a leitura desde o início, a primeira terça parte do livro eu li três vezes. E fui dando sequência na leitura, fazendo minhas postagens de comentários sobre os fatos narrados de nossa história, pois é a nossa história que está ali registrada no livro do Zé Dirceu. E cheguei ao fim da leitura emocionado. Foi uma grande experiência pessoal ler o livro do companheiro neste momento da história de nosso país e do mundo. E minha também.
Se for comparar com algum outro livro no qual eu tenha refletido e compreendido o que eu era enquanto militante e dirigente político de uma categoria profissional importante da classe trabalhadora brasileira, eu diria que o livro do Zé Dirceu foi para mim como a leitura do livro da Denise Paraná, Lula, o filho do Brasil (Ler comentário aqui). Ali, entendi quem eu era, de onde vim, o que defendia, como fazia política e qual era o meu pertencimento enquanto militante da CUT, do PT e da Articulação Sindical.
Como o livro foi uma verdadeira refeição cultural, tema principal do meu blog, eu fui postando curtas observações, sempre lembrando que o ideal é a leitura integral do livro, amigas e amigos leitores.
Meus comentários estão nos textos que fui tecendo ao longo da leitura, e o primeiro deles pode ser lido aqui e os seguintes no link de cada postagem. São 16 textos no total. Só não comentei o epílogo e os anexos, que são excelente! Recomendo a leitura.
É isso! Desejo ao companheiro Zé Dirceu sucesso em sua campanha para deputado federal, ele concorre por São Paulo com o número 1368. Fiquei muito feliz com a notícia do resultado positivo em seu tratamento contra um câncer. Saúde e vida longa, grande guerreiro do povo brasileiro!
E sigamos nas lutas para reeleger o presidente Lula e o time do Lula nas duras eleições que estamos disputando contra uma extrema-direita internacional, desejosa que tomar o Brasil de novo, como fez com o golpe de 2016 e com o bolsonarismo.
Não passarão! Vamos vencer e manter a soberania do Brasil!
Dia 4 de outubro É LULA PRESIDENTE!
William Mendes
15/09/26


















