Refeição Cultural
"Porque a representação é a procura do outro. É a alegria de viver o que não somos. Representar não é forjar estados, mas construir mudança." (p. 44)
Ganhei de presente, dias atrás, de Sérgio de Carvalho e Marili Santos um box com três peças teatrais da Companhia do Latão. Uma edição lindíssima!
O box contém as peças O pão e a pedra, Os que ficam, e Lugar nenhum.
Como leitor, tenho pouca experiência com peças teatrais. Li alguns clássicos de William Shakespeare e mais algumas peças, pouca coisa. Tenho muito que aprender ainda.
A peça O pão e a pedra (2016) traz em seu enredo a greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, momento de surgimento do Novo Sindicalismo, com Lula sendo uma das principais lideranças sindicais no enfrentamento à carestia e ao autoritarismo da ditadura mancomunada com as elites patronais.
Gostei muito da peça! Me lembrei um pouco de Eles não usam black-tie, de Gianfranchesco Guarniere (minha referência é o filme de Leon Hirszman). Ver a Companhia do Latão interpretando O pão e a pedra deve ser muito emocionante!
Sérgio de Carvalho faz uma apresentação no início do livro muito esclarecedora.
Me sensibilizei na hora com as informações e o contexto no qual a pré-estreia se deu, no dia 12 de maio de 2016, dia do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro. Um ato infame como foi toda a ditadura que enfrentamos por duas décadas.
O parágrafo a seguir exemplifica a pesquisa desenvolvida pelo autor dramaturgo sobre as relações entre os movimentos da época: igreja, sindicatos, estudantes etc.
"A procura de compreensão daquele momento histórico pouco conhecido, em que os religiosos realizaram uma resistência ativa à ditadura civil-militar, me aproximou, entretanto, de outras questões. A mais importante foi a da relação entre esse clero progressista e o chamado 'novo sindicalismo', que se desenvolveu e ganhou projeção nacional com as grandes greves do ABC nos anos de 1978, 1979 e 1980. Essa junção entre a igreja e o movimento de trabalhadores, tensionada pela pressão de setores intelectualizados e o movimento estudantil de esquerda, se tornaria emblemática na luta pela democratização e mudaria as coordenadas da política de esquerda no país." (p. 10)
Depois Sérgio de Carvalho nos explica os motivos da escolha da greve de 1979:
"(...) Para todos nós, fortalecia-se uma perspectiva da história: a das dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou sessenta dias. Foram quinze dias de máquinas paradas e 45 dias de 'trégua' com mobilização dentro e fora das fábricas. Ao final das contas, esta seria uma peça sobre aprendizado, o deles e o nosso..." (p. 11)
Momento mágico (e histórico)
A cena de Lula discursando sem sistema de som na assembleia do dia 13 de março de 1979, no Estádio da Vila Euclides, com sessenta mil trabalhadores, é um momento mágico na história da classe trabalhadora brasileira. Ela se dá na Primeiro ato, Cena 8, "Corais da Vila Euclides".
Destaco, porém, que não há representação do personagem Lula. Há uma ausência consciente do líder, de maneira que vivenciamos no drama as pessoas comuns tomando as decisões e fazendo o que pessoas comuns fazem.
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Comentário final
A leitura da peça e dos textos excelentes que acompanham a edição - de Mario Sergio Conti e Maria Lívia Goes - dão aos leitores uma experiência enriquecedora sobre a temática desenvolvida pela Companhia do Latão.
Realmente, a leitura é um momento cultural de muita reflexão e aprendizagem.
Recomendo a experiência às amigas e amigos leitores.
William
29/07/26
Bibliografia:
CARVALHO, Sérgio de. O pão e a pedra. São Paulo: Editora Temporal, 2019.



















