"Discurso do Presidente Lula na abertura da 81ª Sessão
da Assembleia Geral das Nações Unidas
Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral,
Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh.
Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas
e delegados presentes.
Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações
Unidas.
Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi
testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências.
Senhor Presidente,
Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta
Assembleia.
Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003,
este é o momento mais crítico das Nações Unidas.
O sentimento que me move hoje é o da indignação.
A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a
de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão
baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm
exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.
Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança
que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o
Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo
direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes
potências o privilégio da insensatez.
A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de
liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a
Segunda Guerra Mundial.
Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista.
Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma
conflagração de proporções globais.
Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com
responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o
Conselho de Segurança precisam se reunir.
Não desconheço as realidades do poder.
Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos
limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo.
A guerra não é a continuação da política por outros meios. É
a falência total da política.
Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses
da pátria com os da humanidade.
Essa é a constatação de alguém que representa uma nação
amante da paz e da liberdade.
Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu
país contra um golpe de estado. É a convicção de um operário eleito três vezes
presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome.
Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas.
Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais
grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação mais precisa do
mapa-múndi.
Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o
futuro da humanidade.
Somos chamados a optar entre:
multilateralismo ou unilateralismo;
democracia ou extremismo;
soberania ou subordinação.
Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza
de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista.
Yasser Arafat e Yitzahk Rabin foram estadistas. Desafiaram o
passado para projetar um futuro de paz.
Foram derrotados pelo ódio.
Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados
pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em
Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos
atos terroristas do Hamas.
Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes
é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes.
A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser
silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam
cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses
e palestinos possam viver em segurança.
Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para
o Oriente Médio.
O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra,
quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional.
Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis,
fertilizantes e alimentos.
A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos, em
um drama humanitário que continua a ceifar vidas.
Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha.
A diplomacia é a única opção.
Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil
e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a
trabalhar pelo diálogo.
Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a
maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de
recrudescimento de tentações hegemônicas.
O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de
parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.
Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior
integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos
regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade
popular.
A democracia está novamente em xeque.
Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos
eleitorais.
A divisão do mundo em zonas de influência e investidas
neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos.
O povo venezuelano merece definir o próprio destino.
A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a
oposição de disputar eleições.
A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença
da comunidade internacional.
Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta
a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.
Senhor Presidente,
O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime
organizado.
Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas
que aterrorizam nossas comunidades.
Trabalhadores são roubados.
Mães perdem seus filhos.
Policiais não voltam para suas casas.
As pessoas estão cansadas da violência.
Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender
nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.
Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.
Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que
abastecem o crime.
Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao
Presidente dos Estados Unidos.
Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por
criminosos brasileiros no exterior.
Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à
sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está
mudando.
Criamos em Manaus o Centro de Cooperação Policial
Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança pública dos nove
países amazônicos.
Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime
organizado da história do Brasil.
Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos
ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os
magnatas do crime.
A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime
organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.
Crime organizado e corrupção andam juntos.
O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem
doer. Ninguém está acima da lei.
Senhoras e senhores,
Os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos.
A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos.
Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas
como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.
Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às
evidências da ciência. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo
descaso no enfrentamento da COVID-19.
Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que
julgávamos erradicadas.
Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna a todos
mais vulneráveis.
Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava
consolidada no centro da agenda internacional.
Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20,
foros que reúnem os maiores emissores de carbono.
É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao
negacionismo.
A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só.
As geleiras do Himalaia estão derretendo. Um Super El Niño
pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes
partes do globo.
Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis.
O Brasil vem demonstrando que é possível aliar crescimento
econômico com redução de emissões.
Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos
pesquisando o potencial de novas reservas, como as da Margem Equatorial.
Não renunciaremos à agenda ambiental. Levaremos adiante o
Mapa do Caminho para a descarbonização da economia brasileira.
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em
Belém, mostra que é possível mudar antigos paradigmas.
A floresta vale mais em pé do que destruída.
Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade
na Amazônia e atingiu o menor nível em 11 anos.
Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas
disfarçadas de apego à causa ambiental.
O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os
minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a
transição energética.
Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é
em benefício dele que serão exploradas.
O acesso a nossos minerais terá como contrapartida
obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de
tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.
Senhor presidente,
Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com
grandes riscos e oportunidades.
Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o
desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial.
Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de
neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.
Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da
ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial.
Como adverte o Papa Leão 14, “as decisões sobre tecnologia
nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade”.
Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem
para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos.
A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro.
Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo
lares.
O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.
Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para
proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.
Vamos assegurar a justa remuneração de artistas, músicos e
criadores de conteúdo audiovisual.
Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem
privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que
fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.
Senhoras e senhores,
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são alvo de
ataques de forças reacionárias, que desejam naturalizar injustiças.
A desigualdade e o subdesenvolvimento resultam de escolhas
políticas.
É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos
pagarem a sua parte.
É necessário cortar privilégios e investir em educação e
saúde gratuitas e de qualidade.
Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças. Mas
mudar não é retroceder.
Não é subtrair direitos.
Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão
feminina.
Não é recolonizar o Sul Global.
Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais
conquistas.
É criar e compartilhar soluções públicas efetivas para os
desafios do desenvolvimento por meio de um Estado democrático, forte, eficiente
e capaz.
É apostar no espírito de solidariedade e na cooperação com a
África, a Ásia e a América Latina e Caribe.
Iniciativas como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza
e o Painel Internacional sobre Desigualdade nascem dessa vontade política.
O Brasil tem pressa de se tornar uma nação desenvolvida e
socialmente justa.
Adotamos um modelo econômico que se assenta na distribuição
de renda, na geração de empregos e na valorização do salário.
Apostamos na melhoria da produtividade, na ampliação do
crédito e na construção de uma rede robusta de proteção social.
O Brasil voltou a crescer de modo sustentado. Somos o
terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.
Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos
novo recorde de exportações.
Ainda há muito a ser feito.
O mundo do trabalho está em transformação.
Pessoas idosas querem permanecer ativas. Jovens desejam
empreender.
O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar
e conviver com a família.
No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da
chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana.
Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga
doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam
pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de
trabalho.
Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou
fora de casa, viva sob a ameaça da violência.
Essa é uma causa que o mundo todo precisa abraçar.
Senhor presidente,
Ao receber o Nobel da Paz, Martin Luther King afirmou que
“aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas
para o próximo podem reconstruir”.
A ONU nasceu sob o signo da esperança.
Ao longo de oito décadas, contribuiu com a descolonização,
promoveu os direitos humanos e apoiou o desenvolvimento sustentável.
Protegeu migrantes e refugiados, condenou o racismo, o
antissemitismo e a intolerância religiosa.
Essas foram conquistas de lideranças que ocuparam este pódio
movidos pela indignação diante das injustiças de seu tempo.
Homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como
destino, o colonialismo como direito, o apartheid como sistema legítimo.
Foi dessa capacidade de dizer “não” às desigualdades que
nasceram algumas das maiores transformações que vivemos.
Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos
reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.
Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os
que nos ouvem.
No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e
brasileiros vão às urnas para definir o seu destino.
Não vão apenas eleger o presidente da República,
governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo.
Vão decidir entre democracia e negacionismo.
Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais
oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.
Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos
os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão.
Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a
interesses estrangeiros contrários ao país.
Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que
pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha.
Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto.
Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa
livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos,
atentem contra a vontade popular.
A democracia brasileira pertence aos brasileiros.
O Brasil continuará sendo um país soberano.
Ninguém...!!! Ninguém nos afastará desse caminho.
Que Deus nos abençoe a todos.
Muito obrigado.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República