domingo, 5 de julho de 2026

A morte do beija-flor (18)


Estávamos no fim da rua, perto da casa do Júnior e do Peninha, e os moleques estavam à toa, molecando. Alguns, de estilingue na mão. 

A lembrança que tenho é daquelas que ficaram pra sempre na memória. Eu tinha menos de dez anos de idade. 

Eu estava olhando o beija-flor no fio, num daqueles instantes que o bichinho para pra descansar e seguir na busca do néctar das flores. 

Desde muito pequeno desenvolvi apreço pelas coisas da natureza. Flora e fauna e os fenômenos naturais sempre capturaram a minha atenção. 

Acho que estava num desses encantamentos, capturado pela beleza do beija-flor no fio do poste de luz.

No instante em que apreciava o beija-flor, a pedrada explodiu seu peito, vinda de um moleque atrás de mim com seu estilingue na mão...

Nós seres humanos somos isso, uma imensidade de possibilidades desde a mais tenra idade. 

Uns apreciam passarinhos, outros apedrejam passarinhos, só pelo gosto de ver o bichinho cair morto.

Imagino que a criação que tive de meus pais, mais de minha mãe, desde pequeno, tenha me salvado de ser um caçador e assassinato de animais. 

Há pessoas que acabam por ter uma maldade gratuita dentro de si. Ruindade. Temos que organizar a sociedade para frear gente assim. 

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Instantes de uma vida

sábado, 4 de julho de 2026

Livro: Saúde Suplementar no Brasil - Sandro Leal Alves



Refeição Cultural

LEITURAS 


Ganhei o livro sobre saúde suplementar em 2016 ou 2017, em meu aniversário (não tenho certeza do ano). O livro foi lançado em novembro de 2015.

Na época, era gestor da CASSI, a autogestão em saúde dos funcionários do Banco do Brasil, era diretor de saúde eleito pelos associados. 

Minha formação acadêmica é em Ciências Contábeis e Letras. Havia feito curso de extensão em Economia. Também havia cursado dois anos de graduação em Educação Física. 

Por quatro anos fui gestor de saúde na CASSI e pelo tanto que li e aprendi, diria que conheço alguma coisa a respeito do tema. 

Ao longo do mandato, estudei muito a história da Caixa de Assistência, os modelos e sistemas de saúde, e o mercado brasileiro de saúde, no qual a CASSI operava e comprava serviços à época de nossa gestão. 

Em 2024, peguei o livro na estante para estudar os conceitos técnicos de saúde suplementar e me atualizar sobre o assunto, pois havia sido convidado para participar de um planejamento estratégico de uma operadora de autogestão e iria compartilhar com os administradores a experiência que adquiri ao ser gestor da CASSI. 

Li mais da metade do livro e relembrei muito do que já conhecia de meus tempos de diretor de saúde. Pelo retorno que tive dos participantes do evento, acho que atendi às expectativas daquela autogestão. 

Como estou num momento de terminar leituras de livros iniciados e não finalizados, decidi acabar de ler o livro de Sandro Leal Alves.

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SAÚDE SUPLEMENTAR NO BRASIL

A postagem que fiz sobre a leitura do livro, dois anos atrás, tem alguns apontamentos sobre conceitos técnicos e especificidades que comento a respeito da autogestão CASSI (ler aqui). É uma anotação pequena mediante a quantidade de informações da área de saúde. 

A leitura dos CAPÍTULO 1 - COMO FUNCIONA A SAÚDE SUPLEMENTAR e o CAPÍTULO 2 - REGULAÇÃO SETORIAL: TEORIA E PRÁTICA me permitiu rememorar conteúdos técnicos que dominei relativamente bem enquanto fui gestor da maior autogestão do país, a CASSI dos funcionários do Banco do Brasil. 

O que é uma operadora de saúde?

"A Lei 9.656/1998 define Operadora de Plano de Assistência à Saúde como sendo a pessoa jurídica constituída sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa, ou entidade de autogestão, que opere produto, serviço ou contrato de prestação continuada de serviços ou cobertura de custos assistenciais a preço pré ou pós-estabelecido, por prazo indeterminado, com a finalidade de garantir, sem limite financeiro, a assistência à saúde, pela faculdade de acesso e atendimento por profissionais ou serviços de saúde, livremente escolhidos, integrantes ou não de rede credenciada, contratada ou referenciada, visando a assistência médica, hospitalar e odontológica, a ser paga integral ou parcialmente às expensas da operadora contratada, mediante reembolso ou pagamento direto ao prestador, por conta e ordem do consumidor." (p. 57)

No CAPÍTULO 1, o autor apresenta as dimensões econômica e social da área, histórico, fundamentos técnicos, conceitos, instituições do setor, tipos de "produtos" e operadoras.

Para um leitor como eu, militante de esquerda, chega a ser engraçado ler o autor defendendo saúde como mercadoria, um produto como outro qualquer, como sapato ou cadeira. Ele acredita piamente nas teses liberais de livre mercado, concorrência que ajusta tudo em benefício de todos, blá-blá-blá. Faz parte, né? Temos que ler livros assim com frieza e focados no intuito de agregar conhecimentos técnicos.

No CAPÍTULO 2, Sandro Leal vai discorrer sobre falhas do mercado e do governo, regulação prudencial, tipos de coberturas, rol de procedimentos, preços e reajustes, marcos legais de regulação no Brasil etc.

Tem muita coisa interessante, me lembrei muito de meus anos de gestão na CASSI. 

Aliás, passados mais de dez anos da publicação do livro, posso dizer que a leitura do material segue válida e importante para as pessoas que atuam na gestão em saúde, pois os conceitos são bons e o que muda com o tempo são as leis e regulações.

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CAPÍTULO 3 - QUESTÕES ATUAIS 

("atuais" em 2015, quando o livro foi lançado)


Verticalização na área da saúde 

"O termo verticalização caracteriza o processo de integração das atividades de gerenciamento de planos de saúde e prestação direta de serviços médicos em uma única unidade empresarial, independentemente da direção (se para frente ou para trás) e de quem detenha o controle decisório." (p. 114/115)

O autor apresenta vantagens oriundas da verticalização:

"(...) Os ganhos da verticalização podem ser visualizados no melhor gerenciamento dos riscos e custos. Os programas de prevenção de doenças e promoção de saúde da população assistida podem ser mais bem delineados por uma estrutura integrada na medida em que a própria operadora detém o controle da logística de utilização dos serviços." (idem)

A verticalização pode ser benéfica se pensarmos o envelhecimento da população assistida pelos sistemas de saúde. 

"De fato, diante de um cenário de envelhecimento da população e transição epidemiológica, com custos crescentes, pode haver benefício em se ter maior controle sobre a rede. Considerando aspectos regulatórios como a regulação dos reajustes dos planos individuais, o aumento das coberturas obrigatórias etc este controle pode ser eficiente. A própria regulação de capital estimulou a verticalização quando da aceitação de rede própria como ativo garantidor da provisão de risco vigorou até dezembro de 2009." (p. 115)

Esse era o caso da autogestão em saúde dos servidores de Mato Grosso do Sul, CASSEMS, que tinha boa estrutura verticalizada, naquele momento, 2016, aos 15 anos de existência. Eu estudei e visitei três vezes a CASSEMS durante meu mandato de diretor da CASSI.

Outra vantagem que a CASSEMS também obteve com a verticalização no Estado de MS e que o autor cita no livro é o poder de disciplinar preços dos concorrentes na prestação de serviços de saúde. 

"(...) Outro fator de estímulo às aquisições de rede é a tentativa de redução do risco e do grau de dependência de determinados prestadores que detenham posição dominante no mercado. Neste caso, a verticalização pode gerar o benefício de disciplinar preços no mercado." (p. 115/116)


Judicialização na saúde

Outro tema que ganhou muita relevância nas últimas duas décadas foi a questão da judicialização na saúde suplementar e nas demandas ao Sistema Único de Saúde, ao ponto de ter havido uma organização do setor de oferta de serviços jurídicos especializados em demandar planos de saúde e o SUS. 

Em alguns casos, o próprio setor de saúde chega a usar a expressão "indústria da judicialização".

Após uma boa explanação sobre o tema o autor diz:

"É preciso, contudo, que se separem os conceitos. Pode ser correta a judicialização no caso em que operadoras venham a negar ou restringir procedimentos contratados e previstos na legislação. Por outro lado, há casos em que o beneficiário, processa a operadora em busca de uma cobertura que ele não tem direito, uma espécie de atalho, ou jeitinho brasileiro, para não ter que pagar a integralidade do valor da mensalidade necessária à manutenção do equilíbrio econômico do contrato. Este é o caso condenável. Mas há ainda situações que ficam no meio do caminho, de difícil interpretação. Estes são os casos mais complexos e que demandam um aprofundamento técnico para dirimi-lo." (p. 131)

Como gestor de uma autogestão em saúde de grande porte, acompanhei uma rotina estranha de decisões judiciais exigindo que a CASSI atendesse demandas completamente questionáveis à época, decisões que eram contrárias ao que previa contratos, rol de procedimentos da ANS e até exigências que não tinham o crivo da Anvisa. 

Vejam uma pesquisa que Sandro leal cita sobre as tendências dos juízes em questões de demandas de saúde:

"(...) Não custa lembrar um dos trabalhos de Armando Castelar que mostra que ao serem perguntados sobre a tensão que frequentemente existe na aplicação da lei, entre contratos que precisam ser observados, e os interesses de segmentos sociais menos privilegiados, que precisam ser atendidos, 78,8% dos 688 magistrados que responderam à questão se identificaram com a posição de que 'O juiz tem um papel social a cumprir, e a busca da justiça social justifica decisões que violem os contratos." (idem)

Legal, né? Danem-se os 500 mil participantes de um plano de saúde como, por exemplo, a CASSI se um juiz entender que uma parte importante do patrimônio do plano deva ser gasto no atendimento fora das regras para um ou dois participantes...


Práticas anticoncorrenciais de cooperativas de especialidades médicas

Outro tema que me lembro perfeitamente de ter lidado com ele na nossa autogestão em saúde foram os cartéis das cooperativas médicas. Em alguns estados brasileiros isso tinha se transformado num grande problema para os planos de saúde e seus participantes. 

"Finalmente, as Cooperativas de Especialidade foram representadas por práticas de cartel, consubstanciadas na coordenação das ações de médicos cooperados para fixar preços, impor tabelas de honorários ou organizar boicotes em negociações com as diferentes Operadoras de Saúde Complementar e hospitais." (p. 136)


O impacto na inflação médica (ou variação dos custos médico-hospitalares)

Outro item importante no capítulo de questões atuais. A chamada indústria da saúde é o único setor no qual o avanço da tecnologia não diminui custos por ganhos de produtividade e ou escala.

É o inverso. A cada dia, novas tecnologias, medicamentos e procedimentos aumentam e aumentam os custos da saúde em benefício dos capitalistas médicos e empresários e em prejuízo dos participantes de planos de saúde e governos.


Um retrato da situação do setor 

O autor apresenta dados das operadoras de saúde - medicina de grupo, cooperativas médicas e seguradoras - do período analisado, dados até 2013, e o resultado era ruim em termos de sustentabilidade. 

Como estudei muito esse tema à época (2014-2018), foi uma leitura para relembrar o que eu mesmo esclarecia aos participantes da CASSI em dezenas de apresentações em conferências de saúde e outros fóruns. 


CAPÍTULO 4 - DESAFIOS DEMOGRÁFICOS E EPIDEMIOLÓGICOS

Bem interessantes os prognósticos apresentados por Sandro como, por exemplo, envelhecimento da população, aumento de sobrepeso e obesidade, a transição epidemiológica, as doenças mais prevalentes etc.

"Para lidar com esta realidade, diversas operadoras têm programas de incentivo à promoção da saúde e prevenção da doença..." (p. 161)

A CASSI tinha entre 2014 e 2018 modelo assistencial baseado na Atenção Primária e Medicina de Família e a ANS chegou a reconhecer os programas de saúde da autogestão. 

Chegamos a desenvolver estudos inéditos no mercado de saúde comprovando a eficiência da Estratégia de Saúde da Família (ESF) na redução de internações e atendimentos em pronto socorro de pacientes vinculados (fidelizados) às equipes de família e unidades CliniCASSI.

"(...) Por outro lado, aumentou no país o índice de obesidade em todas as classes sociais. Metade da população está com excesso de peso. O aumento de peso elevou a frequência de diabete e hipertensão. Em relação aos fatores de riscos, a dieta inadequada, tabagismo, falta de atividade física, excesso de peso e obesidade, colesterol alto, hipertensão arterial e glicemia elevada são os que merecem atenção e controle..." (p. 167)

O autor nos conta na página 168 que "(...) ainda falta cuidar da obesidade, que quadruplicou entre os homens e duplicou entre as mulheres no período de 1975 a 2009."

Como diretor de saúde, era responsável na CASSI pelos exames periódicos de saúde no Banco do Brasil. Essas informações do capítulo eu via na prática ao ler resultados de EPS em quase 100 mil trabalhadores. 


CAPÍTULO 5 - COMBINANDO REGULAÇÃO COM INCENTIVOS 

Franquias e Coparticipações fortalecendo o Consumidor e preservando o Sistema

Comentário: de todo o conteúdo do livro, esse é o mais absurdo! Não vejo problema no autor ser liberal, defensor do mercado e privatista, contanto que ele seja técnico e honesto com os leitores.

O mesmo autor que no início do livro diz que há um poder desmedido dos profissionais de saúde pelo domínio do tema em relação ao restante dos interessados, no final do livro o autor insinua que o consumidor teria um poder que nunca teve ao pagar franquias e coparticipações porque assim ele teria condições de escolher melhor o que deveria ou não deveria fazer pela sua saúde, inclusive decidindo por conta própria se deve ou não fazer o que os profissionais de saúde recomendam... coisa que nem as operadoras de saúde e órgãos reguladores têm conseguido saber, o consumidor teria esse poder de decidir melhor...

Francamente, qualquer pessoa com um mínimo de inteligência se sente enganada ao ler a defesa entusiasmada do autor ao mercado privado e aos planos com altas franquias e coparticipações em prejuízo dos consumidores. Dureza!

Um verdadeiro conto de fadas em um livro técnico de saúde suplementar!

Para dar um exemplo da contradição do autor sobre o tal poder de escolha e decisão do consumidor no sistema de saúde, veja o caso das mulheres e casais na indicação de partos por cesariana, que têm custos muito maiores para as "consumidoras" e seus planos privados ou ao SUS.

"(...) As alterações comportamentais podem incluir mudanças nas recomendações médicas para pacientes assim como a extensão do diagnóstico e tratamento para produzir renda adicional a fim de alcançar o objetivo. Um exemplo citado na literatura, e bastante atual, é a indicação de cesarianas. Neste caso, a hipótese é que os obstetras utilizam de sua autoridade sobre a grávida para gerar receita." (p. 176)

Ao ler o conto de fadas do poder do consumidor em sistemas com mais franquias e coparticipações em consultas, exames e internações, nas páginas 169, 170 e 171 do livro imagina que a paciente grávida tem total poder de decidir se o médico está certo ou errado ao indicar cesariana porque está focado em "produzir renda adicional a fim de alcançar o objetivo".

Como já disse, o livro nos capítulos 1 e 2 tem muitos conceitos e abordagens interessantes, mas esse final foi de doer.

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Na questão dos modelos de pagamentos no sistema de saúde, falando a respeito do fee-for-service, tenho plena concordância com o autor. Isso é um sistema insustentável, é necessário mudar a forma de cobrança de serviços de saúde em relação aos prestadores médicos e hospitalares.

Sandro Leal cita um novo modelo que vinha sendo avaliado, o DRG - Diagnosis Related Group, que previa remuneração dos hospitais por episódio de tratamento.

Eu me lembro que estava-se discutindo um modelo de pagamento por pacotes de serviços, também na linha de grupos de procedimentos por diagnóstico: por cirurgia x, por tratamento y, etc.

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Comentário final

Enfim, terminei a leitura do livro de Sandro Leal Alves sobre Saúde Suplementar no Brasil

Ganhei a obra quando era gestor na maior autogestão do país. À época, já tinha boa parte do conhecimento abordado no livro e ao ler o volume uma década depois relembrei parte do conhecimento que adquiri na área.

A crítica específica que fiz pelo exagero do autor na defesa da implantação de franquias e coparticipações dos planos em prejuízo dos participantes não tira o mérito dos conteúdos do livro que agregam saberes técnicos a qualquer pessoa interessada em conhecer sistemas de saúde suplementar.

É isso! Mais um livro lido, neste caso um livro temático.

Sigamos lendo e aprendendo coisas novas enquanto vivemos e nos aperfeiçoamos na existência, como nos ensina o mestre Paulo Freire.

William

04/07/26


Bibliografia:

ALVES, Sandro Leal. Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Suplementar no Brasil. Rio de Janeiro: Funenseg, 2015.

A professora Dona Jamila (17)


Devo ter sido um aluno bonzinho do colégio Adolfino, no Rio Pequeno. Me alfabetizei lá, nos anos setenta. 

Uma vez, a professora Dona Jamila me levou pra casa e me lembro que ela disse pra minha mãe que se tivesse filho, gostaria que ele fosse como eu.

A memória do passado é formada por fragmentos de instantes da vida. Instantes. Até o ato de lembrança do passado é feito de certa criação narrativa mental, misto de ficção e realidade. 

Machado de Assis, José Saramago e Conceição Evaristo explicaram bem esse processo de preencher lacunas para contar algo do passado. 

Escrevivências, diz Evaristo. A narrativa não é verdade, e não é mentira. O escritor completa o que falta de informação sobre um fragmento daquela história. 

Dona Jamila é a única professora que me lembro da minha fase de estudos no Adolfino, da primeira à quarta série do antigo primeiro grau ou ensino fundamental. 

Ou minha mãe me disse ou eu guardei o acontecimento sobre o que Dona Jamila teria dito sobre querer ter um filho como eu.

Tenho na lembrança que a professora tinha cabelo preto, curto, ela tinha pele clara, voz suave. A imagem pode ser verdadeira ou inventada por minha memória. 

Acho que fui um menino bonzinho, sim, até os dez anos, vividos em São Paulo. A Dona Jamila, o Adolfino, o sobradinho no Rio Pequeno, a padaria Cinco Quinas, foram reais na minha história. 

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Instantes de uma vida

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A latada na cabeça (16)


O Vantuir estava na janela brincando com uma pedra amarrada na linha. Era um sobradinho. Lá embaixo, eu tentava pegar a pedra.

A linha estava amarrada em uma lata, era como a gente fazia pra soltar pipas. 

Naquele dia, o garoto mais novo que eu estava brincando com a lata de linha balançando uma pedra na janela. 

A casa do Vantuir era a segunda depois da minha, no sentido da casa da esquina, a do Nenê, outro colega da vizinhança. 

O Vantuir balançava a pedra pra lá e pra cá, e eu embaixo tentando pegá-la. Quando conseguia, soltava ela e a brincadeira recomeçava. 

Uma hora, eu peguei e pedra e fiquei puxando ela da mão do moleque. Ele fez força pra não soltar e eu fiz força puxando a linha. 

Pow! Foi só aquela dor aguda no topo da cabeça... lógico que a lata escapou da mão do moleque em um puxão meu...

Mãos na cabeça, dor aguda, tentei disfarçar que não havia sido nada, agachei no quintal... mas quando tirei as mãos da cabeça, aquela sangueira toda, pescoço melado de sangue. 

Lá ia eu de novo pra casa todo ensanguentado dar um susto na minha mãe e ficar de castigo.

Com a latada, eu já acumulava três cortes na cabeça antes dos dez anos. Pedrada, dentada e latada.

Minha primeira infância foi vivida nas ruas do Rio Pequeno. 

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Instantes de uma vida

quinta-feira, 2 de julho de 2026

E se...



Reflexão 


E se...

- Vimos Dilma sofrer impeachment sem crime e muitos achavam impossível chegarem a tanto.

- Vimos Lula ser preso por processos inventados, pedalinho, apartamento mequetrefe de cooperativa no Guarujá etc. 580 dias preso...

- Vimos o cara mais escroto do mundo ser eleito presidente após prenderem Lula, que ganharia a eleição. Aquele escroto que elogiou numa sessão do Congresso Brilhante Ustra, que torturou Dilma.

- Vimos o escroto passar 4 anos no poder, fazendo todos os absurdos e ilegalidades que ninguém acreditava ser possível e aceitável se fazer... o cara não tem sequer condenação pelos 700.000 mortos pela Covid. Está em casa, numa mansão, habitação que 99% do povo jamais terá.

- Vimos o clã do escroto pedir sanções contra o país, bombardear o Brasil, etc etc. Como sempre, vimos e estamos vendo os caras fazerem tudo que jamais seria sequer imaginado...

Fizeram tudo que fizeram contra nós, contra o Brasil, contra o senso comum e estão todos na boa, e organizando mais um golpe contra nós neste momento, em parceria com os EUA.

O cara que prendeu Lula está na boa. Os caras que tiraram Dilma, ofenderam ela, estão na boa. Toda a canalha do 1% está na boa.

O patrimônio roubado do país e do povo ficou por isso mesmo. O pré-sal e a Petrobras, a Eletrobras, as mortes pela Covid, as reformas contra o povo, o sequestro do orçamento do país (nosso PIB sendo gasto secretamente pra enriquecer pilantra e comprar votos). Etc

Aí eu me pergunto: o que cada um de nós vai fazer na hora que o golpe for mais uma vez executado? Qual a nossa estratégia? Quais são os nossos planos para além de ir pra rua gritar "não vai ter golpe"?

E se os EUA fizerem com o Brasil o que fizeram com a Venezuela? E se fizerem com Lula o que fizeram com Maduro? Com o Irã? Com Cuba? Vocês duvidam mesmo que isso não seria possível? Sério?

Alguém do mundo da política ainda não entendeu a nova fase da disputa de hegemonia deste século?

E se nossas eleições forem burladas como acho que serão a gente vai aceitar e falar que tudo bem, a gente tenta de novo daqui a 4 anos?

Viveremos dias insuportáveis de interferência no processo eleitoral brasileiro, interferências desproporcionais por parte dos EUA, das big techs e suas IAs - tudo aqui está nas mãos delas, tudo -, interferências do 1% da elite lesa-pátria.

Senti necessidade de desabafar aqui o que tenho refletido sobre essas coisas.

William Mendes

02/07/26

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Papai Noel passou em nossa casa (15)


Os adultos nos mandaram subir para o quarto. Se a gente não obedecesse, o Papai Noel não viria trazer presentes pra ninguém. 

As crianças subiram. Quer dizer, subiram e ficaram de orelhas atentas para ouvir quando o Papai Noel chegasse.

Nossa casa era um sobradinho pequeno em um conjunto de casas geminadas na Rua Dr. Sérgio Ruiz de Albuquerque, no Rio Pequeno. 

A escada era em curva e é claro que ao primeiro som do velhinho com os presentes, a gente iria olhar do canto da parede da escada.

Sinos badalando... hou hou hou!!! O Papai Noel estava lá na sala de casa!

Foi um tal de um querer olhar por cima do outro no canto da parede da escada... uma muvuca só! Todo mundo caiu na gargalhada, as crianças e os adultos. 

O Papai Noel saiu rapidinho de casa! Hou hou hou!!! 

Nenhum de nós viu o Papai Noel. Mas pelo menos o velhinho deixou nossos presentes e garantiu nosso Natal.

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Instantes de uma vida 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Diário e reflexões


Estive em Cuba pela 3a vez. Viva Cuba!


Refeição Cultural

Osasco, 30 de junho de 2026. Terça-feira. 


O primeiro semestre de 2026

Chegamos ao final do primeiro semestre do ano. Muita coisa aconteceu no Brasil e no mundo. Até em nossas vidas. Tudo muda o tempo todo: é a lei da natureza. 

As perspectivas de presente e futuro não são as melhores possíveis, alguns homens brancos, liderados por um laranja, querem destruir o mundo e a vida de bilhões de humanos e o próprio planeta Terra. Resta saber se nós, os bilhões vítimas, vamos permitir isso.

Nos primeiros dias do ano, o homem laranja bombardeou Caracas, matou um monte de pessoas e sequestrou o presidente da Venezuela e sua companheira para roubar o petróleo do país. Os países do mundo não fizeram nada. Não existe mais a ordem internacional que prevaleceu desde o final da 2a Guerra Mundial. Não houve - NÃO HÁ - exigência dos líderes do mundo pela libertação do presidente sequestrado. Após o bloqueio criminoso dos EUA destruir a economia da Venezuela, o povo enfrenta as consequências do pior terremoto da história do país. E ainda tem fdp que diz que o problema da Venezuela é o socialismo...

O mesmo homem laranja, em parceria com o líder político do exército sionista, que ocupa terras árabes palestinas roubadas desde 1948, bombardeou o Irã, antiga região da Pérsia, iniciando nova guerra de ocupação de territórios considerados "espaços vitais" para os impérios em expansão. Adolf Hitler, um século antes, também invadiu e bombardeou territórios alheios em busca de seu "espaço vital". Dezenas de milhões de pessoas morreram até frearem o líder nazista. As Américas todas são consideradas "espaço vital" do homem laranja. As terras do Oriente Médio são consideradas "espaço vital" dos sionistas. O Brasil é considerado "espaço vital" do homem laranja...

O povo iraniano sofreu muitas baixas e perdas materiais e humanas, mas não foi derrotado pelos exércitos dos laranjas-sionistas. A primeira bomba matou quase duzentas meninas no Irã. Os Estados Unidos do homem laranja em poucos meses, bombardeou dois países - Venezuela e Irã -, sequestrou e assassinou seus líderes políticos e, neste momento, de vergonha e humilhação internacional, sedia um torneio esportivo, a Copa do Mundo de seleções de futebol, como se nada disso tivesse acontecido. A dignidade e a ética humana foram compradas com dinheiro dos donos do mundo.

Toda aquela gente no Brasil, inclusive aquelas pessoas de "esquerda" e "progressista", que entrou na onda do movimento "não vai ter Copa" em 2014, por supostos desvios de recursos da saúde e educação em benefício de obras de infraestrutura e estádios de futebol, toda aquela gente olhou pro lado, assobiou e está curtindo a Copa da vergonha e xenofobia do Tio San, o país das guerras, sequestro e assassinatos que citei acima. 

Fechando o resumo do semestre, temos os dois indicados do clã Bolsonaro na mais alta instância da justiça do país, com poder imenso de pauta e agenda no Brasil. Os dois parças vão controlar as eleições, estão com o controle de ações centrais do STF: caso Master, desvios do INSS, o filme mais caro da história do cinema mundial, o Dark Horse, etc. Tem ainda as IA e as big techs do homem laranja. E o Partido da Imprensa Golpista, o PIG.

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Paulo Freire 

Apesar dos fatos ruins citados aqui, relacionados ao semestre que termina, temos o Paulo Freire a nos inspirar. Brasileiro que representa as possibilidades que podemos ser.

Como somos seres incompletos, não acabados, e somos seres de ação, seguimos nas lutas! Que Paulo Freire nos inspire nas atitudes e no comportamento, na forma de ver o mundo com um olhar esperançoso. 

Somos seres capazes de alterar a realidade construída pelos homens, as merdas ao nosso redor, as injustiças - que não são naturais -, e que por isso mesmo podem ser mudadas por nossas ações.

Sigamos lutando com inteligência para mudar a realidade, para transformar o mundo num lugar melhor para todas as formas de vida.

Will i am

A pedrada na cabeça (14)


A gente estava no campinho, empinando pipa ou jogando bola, não me lembro direito. 

Sei que as provocações entre nós e os moleques do outro lado do córrego do Rio Pequeno aumentaram e começou a guerra de pedras pra lá e pra cá. 

De repente, os moleques atravessaram o córrego e vieram atrás de nós. Estávamos em menor número. O jeito foi recuar e sair correndo. 

Enquanto corríamos, era só pedra caindo na gente. Eu coloquei as mãos na cabeça como uma espécie de escudo, enquanto corria. 

Pow! Só senti a pedrada no topo da cabeça, entre os dedos. Aquela dor aguda já sinalizava que eu tinha me ferrado.

Ao tirar as mãos da cabeça, já chegando na rua de casa, vi aquela sangueira! O pescoço também estava melado de sangue. 

Mais uma vez, entrei em casa cheio de sangue, assustando minha mãe. 

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Instantes de uma vida 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Argentina goleou o Peru e tirou o Brasil (13)


Foi um dia de merda aquele. Era um gol atrás do outro e a lembrança que ficou foi a tristeza de todo mundo ao ver o Brasil fora da final da Copa do Mundo de Futebol daquele ano.

A molecada vivia na rua jogando bola, empinando pipas, rodando peão, brincando de queimada, bolinha de gude e outras brincadeiras comuns ali nas ruas do Rio Pequeno, onde a gente morava.

Ano de Copa do Mundo, 1978 foi um dos anos dos quais me lembro de forma saudosa de minha infância no lugar onde nasci e vivi até os 10 anos de idade, quando fomos embora para Minas Gerais.

A gente jogava bola todo dia ali na travessa entre as ruas Dr. Sérgio Ruiz de Albuquerque e Adolfino Arruda Castanho, aquele pedacinho de rua - Miguel Sevílio - foi onde passamos a infância.

Naquele ano o Brasil não foi campeão do mundo. A Argentina ficou com o título roubado, na leitura de todo mundo. Mas eu brinquei muito e fui uma criança feliz no Rio Pequeno.

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Instantes de uma vida

domingo, 28 de junho de 2026

Meus cem clássicos de literatura universal



Refeição Cultural

Cem clássicos de literatura


Teve uma época difícil de minha existência na qual inventei coisas para me agarrar à vida. Defini, então, algumas coisas materiais que gostaria de adquirir, lugares que gostaria de ir, conhecimentos que desejaria aprender e coisas do tipo. Eram muletas para me apoiar durante a caminhada por caminhos que não existiam, veredas que tomaria para abrir caminhos no viver.

Essa época não é um período curto do meu viver. Pelo contrário, essa busca de sentidos para seguir por esses vales do mundo se estende do início da adolescência, ainda criança diria, e vai até perto de uns trinta anos de idade. É uma longa jornada convivendo com a depressão e o desânimo perante um mundo duro, sem recursos adequados, num país injusto, no qual a impressão que se tem é de que estamos sempre por nossa conta, sós.

Sobrevivi até aqui - sou um homem de sorte - e se passar mais uns três anos nesse mundão em acelerada fase de destruição pela nossa espécie, poderei até me tornar um idoso, conforme define a legislação em vigor no país onde habito.

As muletas que inventei para me apoiar e seguir vivendo foram de grande ajuda, hoje tenho plena consciência disso. Com os objetivos que fui inventando para não desistir de viver, por mais bobos ou difíceis que fossem de se alcançar, peguei uma birra danada de não me deixar morrer porque tinha alguma coisa que estava perseguindo... e eu tenho uma natureza turrona, sou muito obstinado quando encasqueto com alguma coisa.

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"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs." (Pedagogia da autonomia, Paulo freire)

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Na medida em que vamos sobrevivendo e vivendo a vida, vamos mudando, vamos nos moldando, e a cada dia podemos ser pessoas melhores, como nos ensina Paulo Freire ao dizer que somos seres inconclusos, não acabados ainda. Lógico que fui sobrevivendo por diversos motivos, inclusive pelas pessoas que nos amam e que amamos, mesmo sendo egoístas como somos às vezes.

Uma das coisas que tinha na minha lista de sobrevivência era ler cem clássicos da literatura universal (risos). Imaginem, o item já era uma sacanagem - ou uma busca por salvação - porque não seria algo a se cumprir num curto espaço de tempo, meses ou anos. Somos humanos e, no fundo no fundo, somos seres de esperança. Só queremos uma coisinha para nos agarrarmos à vida. 

Fui contar e refletir sobre livros que li, dias atrás, e não é que por meus critérios de leitor, por suposto, já li uma centena de obras clássicas em suas áreas de conhecimento humano!

A novidade é que a lista de desejos de leitura é enorme, absurda de grande, teria que viver centenas de anos com condições de ler e isso é uma coisa boa, só possível porque cheguei até aqui.

Quero viver porque a vida é uma oportunidade diária, a cada amanhecer. Quero ajudar as pessoas e a natureza de alguma forma, quero contribuir de alguma maneira para livrar o mundo da destruição em andamento, com o pouquíssimo que sei e aprendi nessas décadas de caminhada pela Terra. 

Eis a lista de meus primeiros cem clássicos da literatura universal. Que venham mais centenas de livros e leituras instigantes e renovadoras.


1. El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha - Miguel de Cervantes

2. A montanha mágica - Thomas Mann

3. Ulisses - James Joyce

4. Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa

5. Os irmãos Karamazov - Fiódor Dostoiévski

6. Vidas secas - Graciliano Ramos

7. Alguma poesia - Carlos Drummond de Andrade

8. Hamlet, o príncipe da Dinamarca - William Shakespeare

9. Era dos extremos - Eric Hobsbawm

10. Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez

11. O velho e o mar - Ernest Hemingway

12. A viagem do elefante - José Saramago

13. Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

14. Decamerão - Giovanni Boccaccio

15. Razão e sensibilidade - Jane Austen

16. La Celestina - Fernando de Rojas

17. Libertinagem - Manuel Bandeira

18. O vermelho e o negro - Stendhal

19. O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

20. Adeus às armas - Ernest Hemingway

21. Odisseia - Homero

22. Os Lusíadas - Luís de Camões

23. Utopia - Thomas More

24. Macbeth - William Shakespeare

25. Otelo, o mouro de Veneza - William Shakespeare

26. Admirável mundo novo - Aldous Huxley

27. 1984 - George Orwell

28. Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

29. Metamorfose - Franz Kafka

30. A guerra dos mundos - H. G. Wells

31. O Guarani - José de Alencar

32. Senhora - José de Alencar

33. Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida

34. Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

35. Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

36. Dom Casmurro - Machado de Assis

37. Os sertões - Euclides da Cunha

38. Macunaíma - Mário de Andrade

39. Pauliceia desvairada - Mário de Andrade

40. São Bernardo - Graciliano Ramos

41. Viagem - Cecília Meireles

42. Moby Dick - Herman Melville

43. Bagagem - Adélia Prado

44. As aventuras de Robinson Crusoe - Daniel Defoe

45. Minhas vidas - Shirley Maclane

46. Mar morto - Jorge Amado

47. Las genealogías - Margo Glantz

48. O cemitério - Stephen King

49. A hora da estrela - Clarice Lispector

50. Becos da memória - Conceição Evaristo

51. Operação Cavalo de Troia - J. J. Benítez

52. Eram os deuses astronautas? - Erich Von Däniken

53. O caso dos dez negrinhos - Agatha Christie

54. Pedro Páramo - Juan Rulfo

55. A jangada de pedra - José Saramago

56. Las venas abiertas de América Latina - Eduardo Galeano

57. Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado

58. Nada de novo no front - Rene Maria Remarque

59. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway

60. A rosa do povo - Carlos Drummond de Andrade

61. As aventuras de Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

62. O Mágico de Oz - L. Frank Bawm

63. O Pequeno Príncipe - Antoine Saint-Exupéry

64. Fernão Capelo Gaivota - Richard Bach

65. A revolução dos bichos - George Orwell

66. Capitães da areia - Jorge Amado

67. A volta ao mundo em 80 dias - Júlio Verne

68. A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - Jorge Amado

69. O grande mentecapto - Fernando Sabino

70. O menino no espelho - Fernando Sabino

71. Enterrem meu coração na curva do rio - Dee Brown

72. O mundo de Sofia - Jostein Gaarder

73. O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger

74. As aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain

75. Serafim Ponte Grande - Oswald de Andrade

76. Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade

77. A língua de Eulália - Marcos Bagno

78. O Ateneu - Raul Pompeia

79. Lolita - Vladimir Nabokov

80. Os cavalinhos de Platiplanto - José J. Veiga

81. Romeu e Julieta - William Shakespeare

82. A morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói

83. Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto

84. Crónica de una muerte anunciada - Gabriel García Márquez

85. Madame Bovary - Gustave Flaubert

86. O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura

87. Carrie, a estranha - Stephen King

88. Os mortos vivos - Peter Straub

89. O diário de Anne Frank - Otto Frank e Mirjam Pressler

90. As intermitências da morte - José Saramago

91. Nocturno de Chile - Roberto Bolaño

92. O primo Basílio - Eça de Queiroz

93. Dublinenses - James Joyce

94. Fausto - Goethe

95. Sagarana - João Guimarães Rosa

96. Lazarillo de Tormes - Anônimo

97. A mulher de trinta anos - Honore de Balzac

98. Kolstomer (a história de um cavalo) - Liev Tolstói

99. A Ilha - Fernando Morais

100. O caçador de pipas - Khaled Rosseini


Que venham as próximas leituras! Faz um mês que tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo, uma porcaria que me fez ver pior que antes, mas ainda estou aqui, ainda posso ler, escrever, falar e caminhar.

Seguimos nas lutas! E na defesa dos direitos da classe trabalhadora e do planeta e suas diversidades!


William

28/06/26

sábado, 27 de junho de 2026

Empinar pipas na infância: a felicidade (12)


Uma das melhores lembranças de felicidade que tenho da infância é empinar pipas. A liberdade talvez esteja associada a essa brincadeira de criança.

Para colocar uma pipa no ar a criança precisa estar na rua, praça ou no campinho. O dia tem que ser favorável, sem chuva e com vento. O garoto ou garota precisa ter a pipa e os itens necessários. 

Eu comprava peixinho numa lojinha no início da Avenida Otacílio Tomanik, do lado da padaria Cinco Quinas. Peixinho é um tipo de pipa. Também comprava ali linha, papel e até varetas japonesas ou de bambu pra fazer quadrado, uma pipa melhor.

Fico impressionado ao me lembrar que um garoto com menos de dez anos fazia suas próprias pipas, e pipas boas pra disputar relos (rélos se fala) na rua. Eu tinha minha própria técnica de estirante, rabiola com chicote de cerol, e meu quadrado ou peixinho era côncavo e não achatado, pois eu tinha linha entre uma ponta e outra das varetas horizontais. Como um arco.

Naquela época, anos setenta, não se tinha a compreensão do risco do uso de cerol. Minhas pipas tinham cerol em tudo, até na rabiola e no estirante. Tinha dia que voltava pra casa com duas ou três pipas, além da minha. No relo, eu cortava e aparava. Tinha dia que eu perdia as pipas e ainda corria feito doido pelas ruas do bairro atrás de pipa cortada.

Como a minha infância foi boa empinando pipas pelas ruas e campinhos do Rio Pequeno!

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Instantes de uma vida 

Livro: Os cem melhores contos brasileiros do século - Italo Moriconi



Refeição Cultural

LITERATURA: CONTOS


Um dos livros iniciados há mais tempo e não finalizados por mim era a seleção de contos brasileiros do século vinte, organizados por Italo Moriconi. 

O livro foi lançado no ano 2000 e eu tenho a minha edição pelo menos desde 2004, por ter anotações datadas nas páginas.

Moriconi organizou os contos e autores por períodos cronológicos. A primeira parte - "De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana" - já havia lido todos os contos, alguns deles, diversas vezes. 

A segunda parte - "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos" - também havia lido. Ao retomar a leitura, estava terminando a terceira parte - "Anos 60 - Conflitos e desenredos". 

Foi desse ponto adiante que segui lendo, agora, contos já conhecidos por mim e fui sendo apresentado a contos e autores novos. 

Se minha vista permitir - tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo que me incomoda muito -, vou caminhar neste livrão até o fim. São 600 páginas. 

30/05/26

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De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana

Destaco dessa primeira seleção o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. É um dos melhores contos do Bruxo do Cosme Velho, na minha opinião. A temática é a escravidão dos povos africanos e seus descendentes no Brasil e a forma como essa violência era naturalizada naquela sociedade. 

Também tenho muita admiração pelos contos "Baleia", de Graciano Ramos, que depois se transformaria no clássico "Vidas secas". E "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto. Boa demais essa narrativa!

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Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos

De passar os olhos pelo índice de contos dos Anos 40/50, me lembrei na hora de "Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá", de Bernardo Elis. Sofri junto com os protagonistas... foda!

Destaco também "Viagem aos seios de Duília", de Aníbal Machado; "O peru de Natal", de Mário de Andrade; e "Afogado", de Rubem Braga. 

O caso com a Duília me fez pensar muito, à época, sobre a forma de lidar com as lembranças do passado. Rubem Braga nos fez sentir na pele o risco de morrer ao se aventurar no mar. E sempre recomendo o conto de Mário de Andrade a pessoas com relações paternas conflituosas. Demais essa narrativa!

Destaco ainda "Um cinturão", de Graciano Ramos. No livro de Moriconi, li o conto em 2011 e 2021. Ao relê-lo este ano (2026), no livro "Infância", fiquei muito impactado com a história do garoto. Horror!!!

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Anos 60 - Conflitos e desenredos

Da seção Anos 60, por meu gosto, e de memória, destaco "A máquina extraviada", de José J. Veiga, conto excepcional! 

Quando Moriconi organizou o livro, na virada do século, eu não havia lido ainda J. Veiga. Felizmente, em meados da segunda década deste século, peguei pra ler os livros do autor e li mais da metade da obra do escritor goiano. Ele é único!

Fernando Sabino também é excelente, seu conto "O homem nu" é muito bom.

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Anos 70 - Violência e paixão 

Gostei muito de alguns contos da seleção dos Anos 70. Os mais impactantes foram os três de Rubem Fonseca, nossa! O "Feliz ano novo" me deixou muito mal, são os acontecimentos ao redor da gente ainda hoje!

Amei o conto de Clarice Lispector! Os olhos enchem de lágrimas só de pensar no amor pela literatura. É mesmo uma "Felicidade clandestina".

Merecem meu destaque "O elo partido", de Otto Lara Resende; "A balada do falso Messias", de Moacyr Scliar; e "A maior ponte do mundo", de Domingos Pellegrini.

Ao final do conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, pensei em mim e no Sindicato, e depois em minha volta pra casa... me vi como Lulu Bergantim. 

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Anos 80 - Roteiros do corpo

Alguns contos desta seleção me incomodaram muito, ou me fizeram refletir sobre o tema abordado. Isso é muito bom! Até concluí que devo seguir lendo contos para dar a mim mesmo a oportunidade da novidade no meu cotidiano, em termos de histórias ficcionais. 

O conto de Ivan Ângelo, "Bar", foi um soco no meu queixo, fiquei muito tempo com o maxilar doído.

Na temática da luta permanente das mulheres pelo direito aos próprios corpos e vidas, gostei dos contos "Intimidade", de Edla Van Steen, "I love my husband", de Nélida Piñon, e de "Flor do cerrado", de Maria Amélia Mello. Muito bom também "Aqueles dois", de Caio Fernando Abreu.

Adorei "Obscenidades para uma dona-de-casa", de Ignácio de Loyola Brandão. 

Destaco ainda o conto de João Ubaldo Ribeiro, "O santo que não acreditava em Deus". Ao comentar sobre ele com a esposa, ela disse que tem um filme baseado na estória. 

O "Conto (não conto)", de Sérgio Sant'Anna, foi um dos melhores textos da seleção dos Anos 80.

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Anos 90 - Estranhos e intrusos

Na seleção de contos dessa década final do século vinte, alguns textos mexeram comigo também, um certo incômodo na leitura. Alguns pelo tema, outros pela forma da narrativa. 

Sérgio Sant'Anna é destaque com o conto "Estranhos". Tema bem diferente do seu "Conto (não conto)" da década anterior. Nesse de agora é sexo na veia. O outro tem uma pegada filosófica. 

O conto "Olho", de Myriam Campelo, é daqueles que a gente lê escondido, com vergonha de alguém saber que lemos aquilo, que alguém teve coragem de escrever aquilo. Me lembrei do Alberto Manguel falando sobre suas leituras infantis de livros proibidos da estante de seu pai (Uma História da Leitura).

O conto de Marina Colasanti "A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain" me deixou muito pensativo, dormi com ele e ainda penso a respeito. Mexeu comigo, me fez escrever um de meus textos da série "Instantes".

Para fechar meus destaques da seleção dos Anos 90, cito Luis Fernando Verissimo e seu pequeno e belo "Conto de verão n° 2: Bandeira Branca". De arrepiar e emocionar o leitor. Pelo menos este leitor que vos fala.

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Comentário final 

E então, duas décadas depois de iniciada a leitura de Os cem melhores contos brasileiros, na opinião de Italo Moriconi, concluí o livro. Já era tempo, né?

A crítica literária tem algumas vertentes quando se pensa o papel da literatura na sociedade humana. 

Quando fiz faculdade de Letras, li o texto do professor Antonio Candido "O direito à literatura" e fui convencido pelo mestre que a literatura é um direito humano fundamental, pois fabular nos faz humanos.

Independente da maneira como se escreve e se lê literatura - romances, contos, crônicas e demais formas de textos artísticos - as narrativas ficcionais nos agregam vivências, experiências e aprendizados que nos modificam, nos transformam em outras pessoas, ou seja, as personas ficcionais alteram nossas personas reais. Isso é bom!

Ler um livro como esse com dezenas de autoras e autores brasileiros que não conhecia ou até já tinha ouvido falar, mas que nunca havia lido nada de suas autorias nos dá uma consciência incrível do quanto sabemos pouco ou quase nada de tudo. 

Sou formado em Letras, já li bastante se comparar minha bagagem com as médias de leitores do país, mas sei que não conheço quase nada de literatura brasileira e universal.

Reconheço com humildade esse fato e me disponho a seguir lendo e escrevendo aqui sobre minhas refeições culturais, enquanto a natureza me permitir.

Claro, como defini desde o início, tudo que souber quero partilhar de forma gratuita com as pessoas. Quando se compartilha conhecimento estamos atuando para melhorar as pessoas e o mundo. 

William 

27/06/26

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A pedrada na Ione (11)


Os moleques chamaram a Telma de macaca. Estávamos brincando na frente da casa dos tios, na Rua Ricardo Cipicchia, atrás do colégio Adolfino, na pracinha do campinho. 

A maneira de defender minha irmã das ofensas foi tacar pedra nos garotos preconceituosos. Eles estavam na quadra, uns trinta metros de distância. 

A gente devia ter uns oito ou nove anos de idade. Eu era o mais novo no grupo. Ofensa ou desaforo na rua era respondido na pedrada.

O acidente foi muito rápido. Enquanto eu fiz o gesto pra tacar a pedra lá pra baixo, a Ione, que havia abaixado pra pegar uma pedra, levantou-se e ficou bem na minha frente.

Minha pedrada pegou bem no rosto dela... foi horrível! Na hora era só sangue na região do olho e depois no rosto e pescoço. 

Foi aquela correria... choro, susto de todo mundo, os adultos bravos, a Ione acolhida pra ver se machucou muito etc.

A pedrada pegou logo abaixo do olho, por sorte. Ela levou ponto lá no Pronto Socorro da Lapa, pois na farmácia do seu Paulo, na Avenida Rio Pequeno, não tinha como fazer o procedimento. 

Todo mundo ficou de castigo. Era o dia do enterro de um tio da Ione e a gente atrasou tudo.

As crianças mentiram coletivamente. Disseram que a pedrada foi de um dos meninos no campinho. Nem sei quanto tempo levou pra falarmos a verdade para os adultos. 

A infância no Rio Pequeno foi cheia de pequenos machucados sem gravidade envolvendo pedradas, latadas, dentadas, tombos de bicicletas... fomos criados na rua.

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Instantes de uma vida 

Instantes (1h55)



Refeição Cultural

A cama quentinha numa noite muito fria. O dia foi satisfatório. O mundo anda tão ruim. É bom poder ajudar e fazer algo bom. Um pastel quentinho aos trabalhadores do condomínio. Ajudar os pais. Contribuir com algum conhecimento que tenha num bate-papo com uma liderança nova de nosso sindicato. Agradar com um pãozinho a esposa que não abre mão do café com pão francês. Ler contos com histórias ficcionais impactantes. Conversar com as pessoas na feira. Fazer o esforço de malhar uma hora só porque é importante fazer isso... ainda estou enxergando, ainda ando, falo, penso e aprendo. A vida é um instante. A gente vai dormir e pode não acordar mais... um terremoto... um AVC... é bom viver e poder fazer coisas boas e coisas comuns. 

William 

26/06/26

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Futebol de botão era uma diversão (10)


O goleiro a gente fazia com caixa de fósforos, colocando pedras e areia e passava fita isolante. Depois embelezava ele colando alguma coisa de time.

Eu tinha alguns times, com modelos diferentes de formato, mais ou menos côncavos. Também tinha as palhetas que mais gostava.

De lembrança, sei que tinha Corinthians, Vasco, Coritiba e tinha as seleções do Brasil e do Peru. Os botões da seleção brasileira eram mais achatados.

Os moleques faziam até campeonato, eu não tinha o campo, mas alguém tinha. A gente usava bolinha achatada e goleiro fixo, de caixa de fósforos. Não me lembro das regras.

O que me lembro é que eu era bom jogador. Fazia muito gol, de todos os jeitos. De longe, de perto, encobrindo o goleiro etc. 

Eu tinha um jeito de chutar que retinha o jogador entre os dedos após o chute, com a palheta em pé segurada com as duas mãos. 

Que época legal! Jogar futebol de botão foi uma diversão da minha infância. 

Tudo mudou quando fui morar em Uberlândia aos dez anos. Os meninos não brincavam de nada que eu estava acostumado. 

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Instantes de uma vida