segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (5)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Estamos em 2026, um mundo distante meio século daquele descrito por Zé Dirceu em seu livro de memórias. 

Entretanto, aquele mundo e este atual estão marcados pelo mesmo cenário ameaçador de nossa existência: a maior potência bélica do planeta, os EUA, planeja o domínio completo de todas as Américas.

Os métodos meio século atrás e agora são os mesmos: estabelecer governos vassalos para explorar os recursos de todo o continente. Contam sempre com quinta-colunas nos países sob ataque. Ontem e hoje, a mesma situação. 

Será que desta vez vamos resistir à tomada de poder por um governo vassalo aos EUA e de entrega de nossas riquezas? Serão semanas e meses de eleições no Brasil com uma interferência norte-americana nunca vista...

As veias da América Latina estão abertas, como nos ensinou Eduardo Galeano. O Brasil é o principal e maior alvo neste momento de luta existencial.

É preciso ter consciência e responsabilidade nesta guerra existencial para o Brasil e para os povos latino-americanos. 

Vamos ler e estudar. 

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13. NASCE UMA ESTRELA!

O ex-guerrilheiro assina a ata de fundação do Partido dos Trabalhadores 

Este capítulo é muito importante para leitores militantes que queiram entender o que é o PT e por que o partido nasceu diferente dos outros partidos e movimentos de esquerda tradicionais. 

Eu levei muito tempo já como sindicalista para entender. O livro de Denise Paraná "Lula, o filho do Brasil" foi fundamental para minha compreensão sobre o PT, a CUT e o Novo Sindicalismo. Também para entender o que era o consenso progressivo na Articulação Sindical. 

Zé Dirceu nos conta que no início ou o PT freava os diversos grupos, movimentos, frentes e partidos vanguardistas e revolucionários abrigados dentro da estrutura ou o PT jamais seria o partido que se tornou nesses mais de quarenta anos de existência. 

Só lendo para entender, nem vou fazer citações aqui.

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Comentário final 

Estou revendo e aprendendo muita coisa através das memórias do companheiro Zé Dirceu. 

Recomendo muito a leitura do livro. 

Sigamos desenvolvendo nosso cérebro e ampliando nosso conhecimento. 

William 

10/08/26


domingo, 9 de agosto de 2026

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Dia dos pais em Uberlândia


Tivemos um domingo tranquilo na casa de meus pais. A família conseguiu se organizar para almoçarmos juntos.

Minha ideia ao vir a Uberlândia era aproveitar o momento com a maior intensidade possível. - Carpe Diem!

Nesses três dias, sempre que possível, conversei com meu pai e minha mãe e com meus familiares também. 

Me preparei para ouvir as pessoas porque estamos num cotidiano capturado pelas tecnologias das big techs que roubam nossa atenção, nosso eu. 

Estando com as pessoas, evitei pegar em celular. 


Consegui ir ao Parque do Sabiá correr e andar um pouco naquele paraíso. 

Meu desejo era ter pego a estrada para fazer a romaria até Água Suja. A consciência e a responsabilidade me impediram. Não posso agir por impulso neste momento de minha vida. 

É lidar com isso e seguir adiante fazendo o que posso. Ler e escrever é algo que ainda posso fazer. Preciso recuperar a disciplina que já tive para fazer certas coisas. 

Vou tentar.

William 

09/08/26

Lendo as memórias do Zé Dirceu (4)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Hoje é domingo, dia dos pais. Estou em Uberlândia, visitando meus queridos pais. Estou reflexivo, tentando pensar soluções para questões levantadas por mim em relação ao cotidiano de minha própria existência. 

Ainda não tenho sabedoria suficiente para resolver muitas coisas. Devo perseverar nas leituras e estudos, não há outra forma prática de tentar avançar como ser humano. 

Vamos ler...

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12. O SEGREDO DE CARLOS 

Chegou o dia. "Eu não sou eu", disse o ex-guerrilheiro para a mulher 

"Ao abraçar meus pais e irmãs, uma sensação única apoderou-se de mim. Pensei: agora sim, estou em casa, na minha pátria." (p. 168)

Zé Dirceu é um escritor habilidoso. Sua narrativa nos coloca dentro da história do personagem e do próprio país. Ler suas memórias é um momento de aprendizado, sem dúvidas. 

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Comentário final 

Após ler este capítulo do livro de memórias do Zé Dirceu, acabei relendo um dos capítulos de meu livro de memórias sindicais, o capítulo 38. Avalio que seja um dos melhores textos do livro. 

O capítulo e as minhas memórias foram inspirados na leitura do livro de Aleida March, companheira de Ernesto Che Guevara. 

O livro "Evocación" me tocou profundamente e com ele acabei trazendo lembranças de minha própria formação política e ética aprendida da luta sindical. 

Textos como esses de Zé Dirceu e Aleida March, até o meu de memórias sindicais, são registros de ações, sentimentos e acontecimentos de pessoas envolvidas em processos históricos e isso é vida, é a nossa vida. 

Sempre se aprende com essas leituras. 

William 

09/08/26

sábado, 8 de agosto de 2026

Cansada de trabalhar



Refeição Cultural

Dona Dirce Mendes vai completar 80 anos de idade daqui algumas semanas. Minha mãe trabalha desde que era criança, literalmente. Desde menina já cuidava de outras crianças e fazia trabalhos domésticos. 

Conversando com ela, ouvi uma frase que me deixou pensando sobre a questão do trabalho que secularmente é destinado às mulheres nas sociedades patriarcais e sob o domínio dos homens e do dinheiro: "eu não aguento mais, queria parar de trabalhar e ter um tempo pra mim".

O Brasil tem 200 milhões de pessoas e uma das piores distribuições de riqueza do mundo. Uma porcentagem ínfima de famílias detém mais da metade da riqueza e dezenas de milhões de famílias sovrevivem em condições semelhantes à de meus pais ou com mais dificuldades ainda. 

Com a tecnologia alcançada pela espécie humana, boa parte da humanidade não terá mais trabalho e renda, pois as máquinas vão substituir pessoas por robôs e IA. O benefício auferido pela tecnologia está sendo concentrado nas mãos de poucos humanos e corporações e a imensa maioria vai acabar sem direito algum, sequer de viver.

Nem preciso pesquisar números para afirmar que parte substancial dos lares brasileiros - onde sobrevivem os 200 milhões de pessoas fazendo seus "corre" diariamente - tem idosos e ou crianças e ou pessoas com deficiência que necessitam de auxílio de outras pessoas. São dezenas de milhões de cidadãos desassistidos do básico da cidadania.

São milhões de pessoas com algum grau de deficiência, pessoas com idade avançada, pessoas com doenças degenerativas, milhões de pessoas que deveriam ter apoio externo cotidianamente. 

Se tem um trabalho humano que entendo que não deve ou não teria como ser substituído por robôs e IA é o trabalho de cuidar de pessoas, cuidar de dezenas de milhões de pessoas que para terem uma vida satisfatória e digna precisam de apoio de outras pessoas. Uma questão que nos fez sermos humanos desde que cuidávamos uns dos outros nas savanas, selvas, cavernas etc. Somos seres sociais porque precisamos uns dos outros. Não somos nada sozinhos!

Só uma parte pequena de pessoas tem dinheiro para pagar outras pessoas para auxiliar e cuidar de idosos, pessoas com deficiência, crianças e pessoas adoecidas. Difícil um lar que não tenha alguém nessas condições. E se não tiver, terá! A pessoa hoje está no "corre" com sua moto no trabalho de aplicativo, amanhã pode estar numa cadeira de rodas, ou sem mobilidade pra sempre.

Os governos e os organizadores das sociedades humanas da atualidade precisam compreender e desenvolver sistemas sociais públicos e coletivos que empreguem e treinem pessoas para cuidar de pessoas.

Sem uma sociedade humana solidária e acolhedora, na qual cuidamos uns dos outros, nossa espécie vai encerrar a participação nos ecossistemas naturais nos devorando uns aos outros, até o último de nós. Isso não é força de expressão, é sério! Ou repensamos as sociedades humanas ou já era a nossa espécie "homo sapiens" (sábios?).

A frase de minha mãe, cansada de fazer uma casa funcionar aos 80 anos - trabalhando e sem remuneração social -, tentando fazer tudo que até jovens e adultos sadios talvez não consigam, espelha a realidade de dezenas de milhões de mulheres, que cuidam sozinhas de casas, filhos, idosos, doentes, netos, e até de adultos produtivos sem ocupação ou um trabalho.

William 

08/08/26

Lendo as memórias do Zé Dirceu (3)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Sigo lendo o livro de memórias do companheiro Zé Dirceu. E sigo na torcida por sua plena recuperação do câncer descoberto recentemente. 

A morte repentina do professor Lejeune Mirhan (1956-2026), na quinta-feira 6, me deixou com uma tristeza imensa. 

Conheci pessoalmente Lejeune na Afabb-SP em dezembro, lhe dei meu livro de memórias sindicais e até conversamos sobre a possibilidade de imprimir meus livros com ele. 

Que figura inspiradora o professor Lejeune! Queria contribuir com as causas do povo como ele fez a vida toda. E que humanista! Um homem otimista e que sempre acreditou na humanidade. 

Professor Lejeune Mirhan, estará sempre presente entre nós!

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9. CLANDESTINO!

A volta ao Brasil, a angústia e o temor de passar os dias sabendo que pode ser capturado a qualquer momento 

"Repito: não foi sem sentido histórico e sem memória que elegemos a resistência armada. Foi sem sentido temporal e sem a compreensão dos erros de 1935 e dos acertos de 1961, esta é a questão." (p. 121)

Zé Dirceu avalia que sempre houve rebeliões e insurreições populares no Brasil. Cita várias no capítulo. O relato sobre os assassinatos de quase todos os companheiros é duríssimo. Volta a Cuba em 1972. 

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10. SIM, EU VOLTEI

Uma nova temporada em Cuba e a volta ao Brasil como clandestino e dono de uma alfaiataria 

Zé Dirceu nos conta a respeito de sua volta ao Brasil para viver com outra identidade até 1979. Ele viveria no Paraná como Carlos Henrique.

Ele também fala de Ana Corbisier, que viveria clandestina como Maria, em Salvador. Li o livro dela "Clandestina" e vi sua palestra ano passado.

O capítulo é um retrospecto da história do Brasil nos anos setenta. Percebe-se os cem livros que Zé Dirceu estudou para escrever suas memórias. Erudição incrível!

Até essa parte do livro, foi minha terceira leitura: 2018, 2024 e agora. 

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11. PEQUENOS NEGÓCIOS, PEQUENAS EMPRESAS 

Como o dono do Magazine do Homem virou o "Carlos da Clara"

Zé Dirceu se torna pai, nasce em 1978 José Carlos, Zeca, filho de Clara Becker. 

Ele se reaproxima de São Paulo através da família Abramo, que não via há dez anos. 

Com o fim do AI-5, a sociedade civil avança nas lutas pelo fim da ditadura, que ainda duraria muitos anos, até 1985.

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Comentário final 

As memórias do Zé Dirceu são as nossas memórias, vejo ali a vida de muita gente como a gente, vejo meus pais ali nos anos sessenta e setenta, vejo amigas e amigos do movimento sindical. Me vejo nas memórias como personagem que deu sequência às lutas do povo brasileiro nos anos oitenta, noventa e neste início de século. 

Sigamos lendo, estudando e pensando formas de contribuir para as causas coletivas e populares. 

O mundo pode ser diferente, pode ser melhor. 

William 

08/08/26

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Com os meus pais



Refeição Cultural

Estou na casa de meus pais em Uberlândia. Vim passar o final de semana com eles. Domingo é dia dos pais. 

Na região é o período da romaria a Água Suja. Meu desejo era pegar a estrada hoje, como fiz por décadas. Não tenho mais condições de andar 80 Km. Tenho que lidar com isso!

Estou com os meus pais. O momento é e deve ser único. Entre ontem e hoje, pudemos falar amenidades, lembrar do passado. Relevar o que se deveria fazer e não se faz. Viver do jeito que dá...

Já fui ao mercado pra eles, lavei a louça, consertei uma cadeira, comemos uma pizza. Vou limpar o aquário de minha mãe, vamos visitar a tia Lúcia, que não tem mais mobilidade. A pia nova ficou boa. Está pra ser entregue o fogão novo. Agora é arrumar o tanque e o telhado. 

Ao chegar a Uberlândia, soube do falecimento do professor Lejeune Mirhan e fiquei arrasado, muito triste. Estou muito reflexivo por causa desse acontecimento. Todos nós só temos o instante, o presente. 


O que é a vida? O que importa na vida? A vida humana são as relações humanas. As pessoas são mais importantes do que as coisas. 

A vida e o que importa no viver também é procurar levar uma vida como levou o professor Lejeune Mirhan. É ter como objetivo de vida fazer o bem como fazem pessoas como o presidente Lula e o Ferréz. 

Nesse tempo que me resta, gostaria de fazer algo para as pessoas e o mundo como Lejeune, Lula e Ferréz. 

Estou com os meus pais neste momento. Isso é importante. Viva a vida!

William 

07/08/26

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (2)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Estamos em agosto de 2026. Em poucos dias, as campanhas eleitorais serão iniciadas oficialmente, segundo o calendário do TSE.

Será um processo eivado de irregularidades e abusos por parte do bolsonarismo e da extrema-direita. Além da interferência dos EUA e dos sujeitos indicados na suprema corte por Bolsonaro. 

Na minha avaliação, já estamos sofrendo interferência nas eleições brasileiras para derrotar o presidente Lula e o povo brasileiro.

Retomei a leitura das memórias do Zé Dirceu, figura relevante na história do país e da esquerda brasileira. Um grande militante e quadro de nosso campo democrático.

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6. A BATALHA DA MARIA ANTÔNIA 

A verdadeira história do que aconteceu naquele dia em Higienópolis e a insanidade de um congresso da UNE em Ibiúna

Capítulo muito interessante! Me lembrei dos inúmeros rachas no movimento de esquerda, ontem e hoje. A repressão estatal vindo pra cima da resistência democrática e a militância toda dividida... isso nunca muda!

Zé Dirceu conta que o congresso da UNE em Ibiúna atrasou dois dias por causa de brigas pra definir mesa, pauta, regimento interno etc... é a esquerda que sempre vi.

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7. CABRAS MARCADOS PARA MORRER 

A angústia de viver na prisão e a desconfiança de que seriam todos fuzilados

Zé Dirceu, que esteve preso no Quartel de Quitaúna, perto de onde moro em Osasco, nos conta que o Comandante Carlos Lamarca saiu de lá (desertou pra lutar), levando armamentos e munições, para combater a ditadura militar. 

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8. VAI PRA CUBA!

A troca pelo embaixador norte-americano, o exílio, o treinamento guerrilheiro e outras aventuras 

Capítulo cheio de histórias. Zé Dirceu nos conta passagens marcantes de sua saída da prisão no Brasil, sendo ele um dos quinze militantes trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick. 

Ao falar sobre sua estadia em Cuba, senti saudades do país e seu povo. Já estive na Ilha três vezes.

Zé Dirceu citou Ana Corbisier como uma das quatro brasileiras em treinamento guerrilheiro em Cuba. A conheci recentemente e li seu livro "Clandestina".

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Estou na estrada. Vou passar o dia dos pais com o Palmério, meu velho pai, e minha mãezinha querida. 

Sigamos lutando a vida. 

William 

06/08/26


Post Scriptum

Lejeune Mirhan, presente!

Ao chegar a Uberlândia, de noite, soube do falecimento do querido professor Lejeune Mirhan, durante o dia. Pelo que consegui apurar, ele teve um infarto. Fiquei arrasado, muito triste com a notícia. Estive com Lejeune em 18/12/25, na Afabb-SP. Ainda ontem, estava satisfeito ao vê-lo de volta às lives depois de três semanas ausente. O professor estava cheio de projetos e esperanças na humanidade após a viagem à China. A vida é um instante... Professor Lejeune, presente! Nossos sentimentos aos familiares e a todas as pessoas que admiravam esse grande ser humano, comunista e defensor da educação e das causas populares. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Livro: Yargo - Jacqueline Susann



Refeição Cultural

LITERATURA

"Ah, Deus, implorei. Se for alguma coisa de Marte, não deixe que seja rastejante. Não me importo que tenha três olhos ou duas cabeças, só peço que não seja viscoso ou rasteje. Apoiei-me contra a parede e esperei."


Jacqueline Susann (1918-1974) escreveu em meados dos anos cinquenta do século passado um romance de ficção científica - Yargo (não publicado à época). 

A atriz e escritora norte-americana foi uma mulher que se destacou por sua capacidade de criação literária e por se impor como pessoa pública com opiniões próprias mesmo em sociedades tipicamente machistas e patriarcais. 

Li que ela tinha um altíssimo Quociente de Inteligência (QI), medidor muito comum naquele tempo. Como toda mulher, ela teve que ser muito firme em seus propósitos para ter uma carreira exitosa naquilo que escolheu fazer: escrever e interpretar.

Seu primeiro romance de sucesso foi O vale das bonecas (1966). Os dois romances seguintes - A máquina do amor (1969) e Uma vez só é pouco (1973) - tiveram boa acolhida dos leitores também: ela foi campeã de vendas. No Brasil, seus livros foram publicados pelo Círculo do Livro. A escritora faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de um câncer. Dois livros dela foram publicados após sua morte: Dolores (1976) e Yargo (1979).

Eu nasci em 1969 e passei a ler livros nos anos oitenta. Morava em Uberlândia (MG) e nossa família era muito humilde, éramos brasileiros típicos que lutavam diariamente para sobreviver num país violento contra os pobres e despossuídos e de impunidade aos ricos e donos do poder político. Meu primo Jorge Luiz assinava o Círculo do Livro e emprestar livros dele para ler foi uma oportunidade definidora de meus gostos naquele momento e como adulto.

Eu também dava meus jeitos de ler livros de interesse à época, ou comprando ou pegando na biblioteca da escola. Ficção científica, suspense e terror, ciências e coisas misteriosas eram alguns temas de meu interesse. Discos voadores, monstros, deuses e demônios, Triângulo das Bermudas, Atlântida, misticismo, histórias antigas de povos e civilizações etc, eu acreditava em tudo isso e lia muitos autores que abordavam esses temas.

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"Mais um líder se pôs de pé, com uma magnífica sugestão. Segundo a tradução de Sanau, a proposta dele era me fazerem uma lavagem cerebral e me mandarem de volta à Terra..."

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Foi esse rapaz que leu Yargo (1979), de Jacqueline Susann, ainda morando em Uberlândia. Aos 18 anos eu iria voltar para São Paulo, deixando meus pais em Minas Gerais. Devo ter lido dezenas de livros durante minha adolescência mineira, e alguns deles me impactaram e sem dúvida compuseram a pessoa na qual fui me transformando com o passar dos anos. Este romance de Susann foi um dos livros que nunca me esqueci, a história de Janet Cooper compôs minha memória de longo prazo. Óbvio que na memória o que ficou foi a lembrança da moça que foi abduzida na praia, sem detalhe algum.

Faz uns quinze anos, meu primo Jorge me perguntou se queria pegar alguns dos livros antigos dele, pois estava se desfazendo de tudo que era mídia de cultura em meio físico para só ter coisas digitais e virtuais. Eu escolhi livros como esse de Jacqueline Susann e, às vezes, sinto o desejo de reler um dos livros que li décadas atrás, no início de minha vida adulta, para tentar me encontrar com aquele rapaz que fui, naquele contexto, e tentar compreender como aqueles livros me caíram nos pensamentos e ideias que tinha à época. A experiência é bem interessante!

Ao decidir recentemente ler mais livros de mulheres e sobre mulheres, escritoras, poetas e políticas, pensei em alguns livros que tenho em casa, lidos ou aguardando a leitura. E o romance sobre aquela moça que foi abduzida na praia, e que ficou em minha lembrança como um livro marcante, de Jacqueline Susann, foi o escolhido dessas últimas semanas. Gostei do romance!

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"- Talvez eu possa esclarecer este desejo com um exemplo pessoal. Quando você era criança, Janet, provavelmente pensava que nunca iria para a cama, se permitissem. Quando chegava a hora, você relutava, como todas as criança, utilizando os mais diversos recursos. Contudo, agora que está mais velha e pode ficar acordada até a hora que quiser, há vezes em que recebe de bom grado o sono, e se entrega a ele voluntariamente. Assim é a morte para um yargoniano maduro."

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O livro é muito bem escrito. A autora teceu uma história que permite aos leitores, tanto da época quanto de hoje, perceberem as bases da sociedade norte-americana de meados do século vinte, os costumes e contradições, os temas em evidência naquele cenário de início de Guerra Fria e de efervescência consumista do estado de bem-estar social pós 2ª Guerra Mundial. É nítido o papel esperado das mulheres ao lado de seus maridos provedores do lar, a corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo religioso dos capitalistas em contraposição ao mundo dos ateus comunistas etc.

Aquelas décadas da segunda metade do século vinte alimentaram a imaginação de boa parte da população ocidental com a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros planetas, discos voadores, viagens no tempo e espaço, formas de se dominar a mente das pessoas, poderes paranormais e super-homens e mulheres. O jovem que fui acreditou em absolutamente tudo isso. Eu li Charles Berlitz, J. J. Benítez, Erich Von Däniken, li vários livros de terror, demônios, fantasmas...

Enfim, valeu a leitura! Hoje sou outra pessoa, outro leitor. E tenho muitos livros a ler e reler, os clássicos que não li, os novos que estão sendo lançados e os livros que merecem a releitura. Inclusive fiquei interessado nos outros romances de Jacqueline Susann.

William

05/08/26


Bibliografia:

SUSANN, Jacqueline. Yargo. Tradução: Isabel Paquet de Araripe. Círculo do Livro. São Paulo, 1979.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Até antes: "Divagando pela vida", ele finaliza aos 67 anos, no dia de seu aniversário. Ele conseguiu mexer com computador e internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

sábado, 1 de agosto de 2026

Aos dez anos, minha vida mudou (23)


A lembrança que tenho é de falar para meus pais que se eles quisessem poderiam vender meus brinquedos pra ajudar na situação ruim que a gente estava vivendo. 

Estava no banco de trás do carro em movimento. Não sei dizer se foi na viagem definitiva para Minas Gerais, deixando para trás meu mundo. A cena é real, o contexto é suposição. 

No futuro, olharia para a primeira infância vivida no Rio Pequeno como o período no qual fui feliz. O sobradinho, os amigos e brincadeiras, nosso cachorro pequinês Leique, o colégio Adolfino. 

Tombos de bicicleta, empinar pipa, jogar bola, os cortes na cabeça com pedrada, latada e dentada, as idas na casa dos tios que moravam na Ricardo Cipicchia, atrás do Adolfino, as demais crianças da família, que eram tipo primas, tudo ficou no passado.

Com dez anos de idade, chegava com meus pais e minha irmã a Uberlândia, para começar uma nova vida. Era 1980. Nossa primeira casa foi no fundo do quintal da Dona Nenzinha. E nossa escola seria o Hortêncio Diniz, na mesma rua de casa. 

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Instantes de uma vida

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Instantes (16h54)



Refeição Cultural

O que é a vida? A resposta biológica é simples. Só um tipo de ser vivo faz pergunta parecida. Em geral, a vida só é. 

O pássaro cantando na gaiola da sacada aqui perto... essas plantas multicores ao meu redor... os insetos... os seres não visíveis a olho nu, como esses vírus, bactérias, fungos... a vida só é. 

Biologicamente, a minha vida também só é. Fui vivendo, vivendo, vivendo. Décadas. Poderia ter deixado de existir inumeráveis vezes nesse percurso de décadas de veredas, trilhas, caminhos, encruzilhadas. 

E cheguei até aqui, estou aqui, com esse pássaro na gaiola, as plantas, os insetos, esses seres microscópicos, inclusive esses que me enchem de catarro. Para todos nós, a vida é. Porque estamos vivos.

Por décadas, fiquei procurando respostas. Encontrei-as. Pensei novos questionamentos, sentidos...

Tô nesse ponto. Suspeito de muitas coisas. Vislumbro coisas terríveis adiante. A impotência por não poder mudar o que vejo adiante... me deixa...

A gente não desiste por causa dos contratos sociais, por causa daquela gaiola do nome que o Rubem Alves nos conta... por causa do que esperam da gente, grafado em tudo que vem com o seu nome...

William 

31/07/26

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Livro: O pão e a pedra - Sérgio de Carvalho



Refeição Cultural

"Porque a representação é a procura do outro. É a alegria de viver o que não somos. Representar não é forjar estados, mas construir mudança." (p. 44)


Ganhei de presente, dias atrás, de Sérgio de Carvalho e Marili Santos um box com três peças teatrais da Companhia do Latão. Uma edição lindíssima!

O box contém as peças O pão e a pedra, Os que ficam, e Lugar nenhum.

Como leitor, tenho pouca experiência com peças teatrais. Li alguns clássicos de William Shakespeare e mais algumas peças, pouca coisa. Tenho muito que aprender ainda.

A peça O pão e a pedra (2016) traz em seu enredo a greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, momento de surgimento do Novo Sindicalismo, com Lula sendo uma das principais lideranças sindicais no enfrentamento à carestia e ao autoritarismo da ditadura mancomunada com as elites patronais.

Gostei muito da peça! Me lembrei um pouco de Eles não usam black-tie, de Gianfranchesco Guarniere (minha referência é o filme de Leon Hirszman). Ver a Companhia do Latão interpretando O pão e a pedra deve ser muito emocionante!

Sérgio de Carvalho faz uma apresentação no início do livro muito esclarecedora. 

Me sensibilizei na hora com as informações e o contexto no qual a pré-estreia se deu, no dia 12 de maio de 2016, dia do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro. Um ato infame como foi toda a ditadura que enfrentamos por duas décadas. 

O parágrafo a seguir exemplifica a pesquisa desenvolvida pelo autor dramaturgo sobre as relações entre os movimentos da época: igreja, sindicatos, estudantes etc.

"A procura de compreensão daquele momento histórico pouco conhecido, em que os religiosos realizaram uma resistência ativa à ditadura civil-militar, me aproximou, entretanto, de outras questões. A mais importante foi a da relação entre esse clero progressista e o chamado 'novo sindicalismo', que se desenvolveu e ganhou projeção nacional com as grandes greves do ABC nos anos de 1978, 1979 e 1980. Essa junção entre a igreja e o movimento de trabalhadores, tensionada pela pressão de setores intelectualizados e o movimento estudantil de esquerda, se tornaria emblemática na luta pela democratização e mudaria as coordenadas da política de esquerda no país." (p. 10)

Depois Sérgio de Carvalho nos explica os motivos da escolha da greve de 1979: 

"(...) Para todos nós, fortalecia-se uma perspectiva da história: a das dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou sessenta dias. Foram quinze dias de máquinas paradas e 45 dias de 'trégua' com mobilização dentro e fora das fábricas. Ao final das contas, esta seria uma peça sobre aprendizado, o deles e o nosso..." (p. 11)

Momento mágico (e histórico)

A cena de Lula discursando sem sistema de som na assembleia do dia 13 de março de 1979, no Estádio da Vila Euclides, com sessenta mil trabalhadores, é um momento mágico na história da classe trabalhadora brasileira. Ela se dá no Primeiro ato, Cena 8, "Corais da Vila Euclides". 

Destaco, porém, que não há representação do personagem Lula. Há uma ausência consciente do líder, de maneira que vivenciamos no drama as pessoas comuns tomando as decisões e fazendo o que pessoas comuns fazem.

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Comentário final 

A leitura da peça e dos textos excelentes que acompanham a edição - de Mario Sergio Conti e Maria Lívia Goes - dão aos leitores uma experiência enriquecedora sobre a temática desenvolvida pela Companhia do Latão. 

Realmente, a leitura é um momento cultural de muita reflexão e aprendizagem.

Recomendo a experiência às amigas e amigos leitores.

William 

29/07/26


Bibliografia:

CARVALHO, Sérgio de. O pão e a pedra. São Paulo: Editora Temporal, 2019.

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 29 de julho de 2026. Quarta-feira. 


10h15

Novamente, dormi menos que o suficiente. Estou madrugando sem ser esse meu hábito. Sinal ruim. O catarro e as tosses já encheram o saco. É hora de acabar essa porra de gripe.

Ainda não fiz meu exercício de memorização. Deixei pra mais tarde. O objetivo do dia é continuar a leitura da peça O pão e a pedra, que ganhei de presente de Sérgio de Carvalho e Marili Santos. O ideal é terminar a peça hoje. 

O ano é 1979, os trabalhadores voltam ao trabalho após 15 dias de greve. Foi Lula quem propôs a volta ao trabalho por 45 dias após negociar com os patrões. Os metalúrgicos aprovaram a proposta, dando um voto de confiança ao líder sindical. 

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"Arantes 

Toma seu café, rapaz. Faz como a Luísa e vira outra coisa. O contrário de nós não é o sindicato. Inimigo é quem me obriga a empilhar pedra e não me deixa ouvir música." (p. 144)

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No Segundo ato, vejo uma cena que vi por décadas no movimento sindical. Um rapaz do movimento estudantil, de um desses grupos revolucionários, se interessou por um metalúrgico - Arantes - da oposição ao Sindicato dos Metalúrgicos, do Lula, e o trabalhador o dispensou assim que ouviu o blá-blá-blá do sujeito.

Entra ano, sai ano, década, século, a gente que vive a realidade da classe trabalhadora, que já militou, que já dirigiu e estudou o movimento sindical vai adquirindo certa experiência na leitura de mundo que não nos permite ilusões e tentativas de disfarçar a realidade material e objetiva: essas divisões infinitas na esquerda só favorecem nossos inimigos. Só.

No momento, para qualquer lugar que olho e observo, só vejo o que vi por décadas: divisões, futricas, vaidades, personalismos, e foco nos defeitos do nosso lado fragmentado. Os meios para a nossa derrota são praticamente todos do inimigo. Ele tem bombas, big techs, imprime dólar, e a burguesia mais canalha e vira-lata do planeta, em espaços de poder. Nenhum país tem uma tropa quinta-coluna como a direita tem no Brasil. 

Impressões que me vieram à mente ao ler a peça do Sérgio de Carvalho e da Companhia do Latão.

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23h59

E o dia terminou. 

Acabei a leitura da peça O pão e a pedra, do dramaturgo Sérgio de Carvalho. 

Sigo catarrento, tossindo, estressado com essa gripe que não acaba, não termina.

O app WhatsApp sugeriu aos usuários que não souberem falar, não tiverem palavras, quando forem de vocabulário precário, que peça para a sua "IA" (nem inteligente, nem artificial) que escreva e fale pelo usuário de fala empobrecida...

Eu fiquei pensando nos personagens humanos de Vidas secas, que quase não falavam por outros motivos, que o romance denuncia. 

Agora não. As big techs têm um projeto de emburrecimento e estupidificação da espécie humana, que vem perdendo sua capacidade de linguagem, e aí sugerem o remédio de usar suas "IA" para tentar se comunicar com outras pessoas humanas...

Acaba logo com isso ("IA"), senão isso acaba com o mundo.

William

Post Scriptum: nenhuma porcaria de "IA" escreve o texto que eu criei, com as palavras com sentidos denotativos e conotativos como usei. Como pode a humanidade cair numa manipulação idiota como essa?

terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

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Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

---

polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

---

não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

---


ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

---

sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26