sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Livros com as vozes das mulheres


Lendo e aprendendo com as mulheres 

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. Porém, também lerei mais livros sobre as mulheres, mesmo que não sejam escritos por elas.

As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Criando este espaço no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento, vou sistematizando minhas experiências com as autoras, e também vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

A página estará em constante modificação, pois estará em construção permanente.

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Obras lidas e comentadas no blog em ordem cronológica:


2025

1. Bagagem (1976) - Adélia Prado (link)

2. Cachorro velho (2005) - Teresa Cárdenas (link)

3. Pequena coreografia do adeus (2021) - Aline Bei (link)


2026

1. Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana (2024) - Aline Marcondes Miglioli (link)

2. Clandestina (2024) - Ana Corbisier (link)

3. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei (link)

4. Persépolis (HQ 2000/2003. No Brasil, 2007) - Marjane Satrapi (link)

5. Poemas e maravilhas de Marili Santos - Ano 2013 (link)

6. Yargo (1979) - Jacqueline Susann (link)

7.


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Livros que me impactaram muito:

1. O diário de Anne Frank (1947) - Org. Otto Frank e Mirjam Pressler

2. Felicidade fechada (2017) - Miruna Genoino

3. Banzeiro Òkótó (2021) - Eliane Brum

4. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei

5. Evocación (2008) - Aleida March

6. Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída (1978) - Kai Hermann e Horst Rieck

7. Lula, filho do Brasil (1996/2003) - Denise Paraná 

8.

Lendo as memórias do Zé Dirceu (8)



Refeição Cultural

Hoje é sexta-feira, estamos próximos do início das eleições brasileiras a partir de domingo, 16 de agosto. Apesar de tudo que sei da realidade, um quadro bastante adverso contra nós do campo humanista, devo ser disciplinado naquilo a que me propus: ler diariamente e continuar me fazendo humano, ganhando saberes e tentando ser menos ignorante. 

Viveremos nas próximas semanas um aumento exponencial da destruição da mente humana, já alterada cotidianamente pela captura de máquinas de corporações capitalistas em guerra contra a humanidade: as big techs e os homens por trás delas. As desinformações e dissonância cognitiva em escala industrial estão desfazendo o ser humano em sua essência. 

As pessoas ao nosso redor estão sendo alteradas em suas essências - em todas as idades - e estão se tornando zumbis sob o comando de IAs, algoritmos e criações de inimigos imaginários para serem utilizadas como marionetes em benefício de seus manipuladores. Tudo normalizado como algo irreversível: ideologia da classe dominante. 

Meu corpo dá sinais de que não sou mais a pessoa que fui. Estou avaliando a mim mesmo, o que posso ainda e o que não dou conta mais. Não vou ao lançamento da campanha de Lula e dos candidatos do campo progressista no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Hoje não sei avaliar como estarei daqui alguns meses. Tudo bem. Estou lendo e escrevendo, de forma honesta e militante. Compartilho o que sei e o que estudo, aqui no blog.

Como não sou determinista, faço o que acho que tem que ser feito e o que posso, avaliação só minha e de mais ninguém. Só a pessoa sabe de si mesma. Hoje, por exemplo, consigo imaginar as dores que meu pai dizia sentir vinte anos atrás... ninguém compreendia suas dores e ele sofria sozinho, de mal-humor e escanteado do convívio por ter se tornado "chato". Pois é...

Vamos ler as memórias do Zé Dirceu, ali tem muita história, minha e de todos vocês.

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18. O ERRO DE LULA

O jogo pesado da política brasileira, no inesquecível ano de 1989

"(...) Fora o grave erro nosso de recusar a presença de Ulysses no palanque de Lula. Para além dos votos perdidos, era imperdoável porque, no segundo turno, não se recusa apoios, ainda mais em se tratando de Ulysses e do PMDB que, como o PSDB, nada exigiam de Lula e do PT. Uma tragédia, uma burrice, mais do que um erro político. Até hoje me penitencio de não ter me oposto à decisão de Lula e do partido." (p. 239)

O capítulo é extraordinário! Um filme! Fui lendo e relembrando os acontecimentos relatados por Zé Dirceu. Eu estava em São Paulo, tinha entre 18 e 20 anos de idade. Já era bancário do Unibanco da Raposo Tavares nas famosas greves de 1988/89. Fiz greve e conheci o pessoal do Sindicato. 

É de dar nojo e gera muita indignação conhecer os detalhes contados pelo autor a respeito das manipulações criminosas feitas contra Lula e o PT nas eleições de 1989.

Zé Dirceu relembrou os casos absurdos montados contra Lula/PT (p. 236 e 237):

O de Miriam Cordeiro, que acusou Lula de mandar ela abortar Lurian. O autor afirma que ela recebeu 156 mil dólares para inventar essa história. Tanto a filha quanto a mãe de Miriam, avó de Lurian, desmentiram o caso.

A manipulação do sequestro do empresário Abílio Diniz, tentando vincular os sequestradores ao PT. Zé Dirceu aponta Orestes Quércia, governador de SP, e Luiz Antônio Fleury Filho, Secretário de Segurança, como responsáveis pelas acusações mentirosas. Às vésperas do 2° turno, chegaram a vestir camisas do PT nos bandidos para anunciar em rede nacional a invenção fraudulenta contra Lula e o PT. 

E a manipulação do debate da Rede Globo, entre Collor e Lula. 

Imaginem vocês essas manipulações! É incrível como Lula e o Partido dos Trabalhadores resistem a tantos crimes praticados pelas elites e donos do poder nessas décadas de existência! É muito pesado o que fazem contra nós!

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Comentário final 

É muita história registrada neste livro do Zé Dirceu!

Estou descobrindo detalhes de acontecimentos que já vivi e estudei e nunca soube dos bastidores.

E vamos viver tempos dificílimos nesses meses finais de 2026. Seremos borbardeados impiedosamente pelas mentiras e manipulações dos inimigos do país e da classe trabalhadora. Uma guerra!

Aqui é o palco do destino das Américas e o governo bandido dos Estados Unidos vai fazer o possível para transformar o Brasil num quintal gerido por vassalos do império bárbaro. 

É isso!

William 

14/08/26

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (7)



Refeição Cultural

É muito interessante ler sobre a nossa história e descobrir coisas do passado que não sabíamos ainda. 

Eu tenho minha formação política a partir dos bancários da CUT. Entrei na categoria em 1988. A politização deste trabalhador que vos fala durou décadas. Só passei a entender o movimento quando virei sindicalista a partir de 2002.

As memórias do Zé Dirceu estão numa parte dos anos oitenta (capítulo 16), uma década de ouro dos movimentos sociais do Brasil. Por mais que tenha estudado o período, descubro novidades na leitura a todo instante. 

Sigamos lendo e aprendendo. Não estamos acabados, somos seres incompletos, nos ensina Paulo Freire. 

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16. ERROS E ACERTOS 

O PT não acreditava na vitória de Luiza Erundina nas eleições para a Prefeitura de São Paulo 

Meu primeiro voto de trabalhador com 18 anos de idade foi em Luiza Erundina. Morava no Rio Pequeno. Foi quando parei de pegar ônibus pendurado na porta.

"Fomos às eleições não sem problemas e divisões na escolha de candidatos. Na cidade de São Paulo, Luiza Erundina, forte liderança popular, ligada às lutas nos bairros, eleita vereadora em 1982 e candidata a vice de Eduardo Suplicy, em 1985, venceu a prévia contra Plínio de Arruda Sampaio, este apoiado por nós, Lula, eu e grande parte do comando da Articulação." (p. 220)

Eu não sabia dessa história. Imagino que o partido parou de realizar prévias, que são mais democráticas, por causa de momentos como esse, nos quais a base diverge da direção. 

Zé Dirceu termina o capítulo (p. 224) abordando a luta contra o desejo de poderes abusivos de promotores e procuradores dos ministérios públicos de investigar e acusar, inconstitucional segundo ele. Os legislativos derrotaram essas pretensões, até que o STF deu esses super-poderes a eles, criando uma casta sem controle de ninguém. 

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17. CAMINHANDO

Prévias, o grande risco no caminho das vitórias eleitorais 

Zé Dirceu nos conta como foram as gestões petistas nas prefeituras eleitas em 1988, equívocos, dilemas e sucessos. Cita POA (RS) como referência no "modo petista de governar", destacando o orçamento participativo.

Também avalia as contradições comuns de governar, as diferenças entre ser partido e ser governo. 

"(...) Mas era preciso distinguir. Governo e PT são ambas instâncias do Estado, mas partem de universos diferentes. O governo representa o interesse da sociedade, de classes, é verdade, enquanto o PT exprime interesse do coletivo, da maioria partidária e de nossa base social, os trabalhadores e excluídos." (p. 229)

Ao falar sobre o risco das prévias, me lembrei dos ensinamentos que tive na Articulação Sindical da CUT, por mais de duas décadas. Se não alcançamos o consenso progressivo e votamos direto, sem tentativas de acordos, todos perdem, porque saímos divididos, rachados. Zé Dirceu aborda um pouco isso no capítulo. 

"Prévias ou encontros? A designação dos nomes para concorrer sempre é traumática quando não há maiorias e principalmente políticas, programas que balizem as escolhas e resoluções. E quando se apresentam interesses de grupos ou de pessoas, tudo fica mais difícil, por mais legítimos que sejam." (p. 229)

Capítulo muito bom!

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Comentário final 

Enquanto leio as memórias do Zé Dirceu, vou relembrando uma vida política que tive e vou refletindo sobre o presente e o futuro. 

Eu pensei que ao sair da representação eletiva dos trabalhadores, abrindo mão de disputas de poder e incentivando a renovação, eu teria participação de outras formas nas instâncias, partilhando experiências. Isso não aconteceu. 

Agora invento diariamente algum sentido para mim mesmo. Procuro na leitura e na escritura formas de ser útil à sociedade humana, pois o que aprendo, compartilho de forma gratuita. Dá trabalho manter este blog, acreditem. 

Sigamos lendo e escrevendo. 

William 

13/08/26

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (6)



Refeição Cultural

Ler nos dias de hoje exige da pessoa um esforço imenso, uma disciplina quase militar, porque tudo no cotidiano nos desvia do objetivo. Os donos do poder organizaram o mundo para sermos completos ignorantes e imbecis.

Eu desejo ler diariamente textos complexos, estruturados e que exigem concentração e esforço intelectual, pois percebo em mim os efeitos devastadores das big techs, mesmo não sendo um capturado das redes antissociais.

Então, vamos à leitura e ao estudo do dia. 

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14. A ESTRELA COMEÇA A BRILHAR

O manifesto dos 113: o PT é um partido e não uma frente 

O capítulo é excepcional! Zé Dirceu nos conta a respeito dos processos internos decisivos para a consolidação do PT como um partido de massas, organizado, com base social, militância e núcleos.

"(...) o fato é que as tendências eram partidos dentro do PT, e o campo sindical, popular e a esquerda independente não eram." (p. 190)

A Articulação (Manifesto dos 113) foi decisiva na história do Partido dos Trabalhadores. Nosso companheiro bancário Luiz Gushiken estava lá entre as lideranças.

Tendo como foco de mobilização popular as Diretas Já, Zé Dirceu, do Diretório Estadual de SP, ficou responsável pela formação política (p. 192). O informativo Linha Direta e a revista Teoria e Debate surgiram nessa época.

As Diretas Já não foram aprovadas por 10 votos a menos (298 de 308 necessários), com 112 ausências. 

Articulação dos 113

"(...) A articulação pôs fim à dispersão política e orgânica dos sindicalistas, lideranças populares de origem católica e a esquerda independente. (p. 200)

História pura esse capítulo e o anterior. 

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15. O BLOCO DO EU SOZINHO 

O PT rejeita a conciliação por cima, insiste nas Diretas Já e se isola

"A evidência de que algo não corria bem seria a eleição para a Constituinte exclusiva e os governos e assembleias estaduais. E a prova de fogo do partido envolveria uma combinação explosiva: o Plano Cruzado e a eleição de 1986 com um PT, apesar da articulação dos 113 e da vitória em São Paulo, carregando ainda a duplicidade entre movimento e partido, reforma e revolução, partido e frente." (p. 207)

Zé Dirceu destaca a importância do 5° encontro do partido em 1987. Os partidos dentro do partido - os grupos de vanguarda -, estavam dificultando o PT ser o que se esperava dele por parte de lideranças como Lula.

"A Articulação constituiu uma maioria de 59,4%. Elegeu Olívio Dutra como presidente nacional; eu fui eleito secretário-geral. Em 1988, Olívio Dutra elegeu-se prefeito de Porto Alegre, e Luiz Gushiken assumiu a presidência." (p. 212)

O 5° encontro contribuiu bastante para se definir a estratégia do PT para construir e não assaltar o poder, afirmou o socialismo e a conquista de governo pelo voto, de forma pacífica. (p. 211)

O PT defendeu uma Constituinte exclusiva e elegeu uma bancada pequena e combativa. 

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Comentário final 

Em 1987, eu tinha acabado de voltar para São Paulo, ainda com 17 anos, vindo de Uberlândia (MG). É muito interessante ler sobre os acontecimentos políticos que estavam se desenvolvendo enquanto minha vida de trabalhador braçal apenas seguia seu curso.

Em 1988 eu entrei no Unibanco, votei na Luiza Erundina para prefeita de São Paulo e em 1989 votei no Lula para presidente. 

O Brasil que Zé Dirceu nos mostra em suas memórias é o nosso país, é o mundo que vivi.

William 

12/08/26

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Leitura: O alienista - Machado de Assis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


A obra do escritor Machado de Assis (1839-1908) é uma das mais fascinantes da literatura brasileira. O Bruxo do Cosme Velho é basicamente um autor do século XIX, publicou durante décadas, mas também escreveu textos marcantes nos primeiros anos do século XX, incluindo romances, contos e outros gêneros. Sua obra é de domínio público.

A primeira publicação deste blog de cultura Refeitório Cultural, em dezembro de 2007, foi "O alienista" (1882), do mestre criador da Academia Brasileira de Letras. Ler o conto aqui.

O texto de Machado era classificado por boa parte da crítica como conto, porém vem sendo considerado atualmente como uma novela. O autor o denomina conto e, se tivermos dúvidas, podemos acatar o escritor e criador da narrativa e seguir considerando a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte como um conto. 

Reproduzo abaixo o texto de "Advertência" que Machado de Assis colocou no livro que reuniu contos que ele já havia publicado em folhetins. O livro Papéis Avulsos (1882) traz como primeiro conto "O alienista", que havia saído em "A Estação" entre outubro de 1881 e março de 1882.

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ADVERTÊNCIA

     Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

     Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

     Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição. 

                                        Machado de Assis

Outubro de 1882.

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COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA

A advertência do escritor Machado de Assis ao reunir os contos que compõem Papéis Avulsos me lembrou uma passagem do próprio conto "O alienista", quando o Padre Lopes aponta uma qualidade do Dr. Simão Bacamarte:

"A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

- Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a modéstia."

A modéstia...

Na advertência ao Papéis Avulsos, Machado diz aos leitores algo digno da observação e análise do Dr. Simão Bacamarte...

"O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): 'E aqui há sentido, que tem sabedoria'. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra."

O nosso escritor é modesto, cita o evangelista e diz haver sentido em seus textos reunidos, menos a sabedoria... 

Machado com certeza seria recolhido à Casa Verde naquele segundo momento no qual o Dr. Bacamarte libertou 4/5 da cidade e região recolhidos por terem algum desequilíbrio das faculdades mentais e só aqueles com perfeito equilíbrio mental estavam recolhidos ao manicômio.

Não nos esqueçamos que nosso mestre, além de modesto, era um gênio da ironia.

Pelas minhas anotações, li "O alienista" pela oitenta vez desde que conheci a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte. É leitura de prazer! De esperança na humanidade ao saber que nossa espécie pode escrever assim. 

A cada leitura, mais admiração tenho por Machado de Assis, por sua genialidade, por sua universalidade.

Todas as vezes que li este conto fiz o exercício de olhar ao meu redor e refletir sobre todas as questões colocadas sob análise na história do Dr. Simão Bacamarte, personagem que estudou a loucura sob o escrutínio da ciência. 

Estou assim, modestamente (rsrs) olhando a loucura e os mentecaptos ao meu redor. Talvez sejam todos normais e eu seja a pessoa com um (d)esequilíbrio das faculdades mentais...

William 

11/08/26

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (5)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Estamos em 2026, um mundo distante meio século daquele descrito por Zé Dirceu em seu livro de memórias. 

Entretanto, aquele mundo e este atual estão marcados pelo mesmo cenário ameaçador de nossa existência: a maior potência bélica do planeta, os EUA, planeja o domínio completo de todas as Américas.

Os métodos meio século atrás e agora são os mesmos: estabelecer governos vassalos para explorar os recursos de todo o continente. Contam sempre com quinta-colunas nos países sob ataque. Ontem e hoje, a mesma situação. 

Será que desta vez vamos resistir à tomada de poder por um governo vassalo aos EUA e de entrega de nossas riquezas? Serão semanas e meses de eleições no Brasil com uma interferência norte-americana nunca vista...

As veias da América Latina estão abertas, como nos ensinou Eduardo Galeano. O Brasil é o principal e maior alvo neste momento de luta existencial.

É preciso ter consciência e responsabilidade nesta guerra existencial para o Brasil e para os povos latino-americanos. 

Vamos ler e estudar. 

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13. NASCE UMA ESTRELA!

O ex-guerrilheiro assina a ata de fundação do Partido dos Trabalhadores 

Este capítulo é muito importante para leitores militantes que queiram entender o que é o PT e por que o partido nasceu diferente dos outros partidos e movimentos de esquerda tradicionais. 

Eu levei muito tempo já como sindicalista para entender. O livro de Denise Paraná "Lula, o filho do Brasil" foi fundamental para minha compreensão sobre o PT, a CUT e o Novo Sindicalismo. Também para entender o que era o consenso progressivo na Articulação Sindical. 

Zé Dirceu nos conta que no início ou o PT freava os diversos grupos, movimentos, frentes e partidos vanguardistas e revolucionários abrigados dentro da estrutura ou o PT jamais seria o partido que se tornou nesses mais de quarenta anos de existência. 

Só lendo para entender, nem vou fazer citações aqui.

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Comentário final 

Estou revendo e aprendendo muita coisa através das memórias do companheiro Zé Dirceu. 

Recomendo muito a leitura do livro. 

Sigamos desenvolvendo nosso cérebro e ampliando nosso conhecimento. 

William 

10/08/26


domingo, 9 de agosto de 2026

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Dia dos pais em Uberlândia


Tivemos um domingo tranquilo na casa de meus pais. A família conseguiu se organizar para almoçarmos juntos.

Minha ideia ao vir a Uberlândia era aproveitar o momento com a maior intensidade possível. - Carpe Diem!

Nesses três dias, sempre que possível, conversei com meu pai e minha mãe e com meus familiares também. 

Me preparei para ouvir as pessoas porque estamos num cotidiano capturado pelas tecnologias das big techs que roubam nossa atenção, nosso eu. 

Estando com as pessoas, evitei pegar em celular. 


Consegui ir ao Parque do Sabiá correr e andar um pouco naquele paraíso. 

Meu desejo era ter pego a estrada para fazer a romaria até Água Suja. A consciência e a responsabilidade me impediram. Não posso agir por impulso neste momento de minha vida. 

É lidar com isso e seguir adiante fazendo o que posso. Ler e escrever é algo que ainda posso fazer. Preciso recuperar a disciplina que já tive para fazer certas coisas. 

Vou tentar.

William 

09/08/26

Lendo as memórias do Zé Dirceu (4)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Hoje é domingo, dia dos pais. Estou em Uberlândia, visitando meus queridos pais. Estou reflexivo, tentando pensar soluções para questões levantadas por mim em relação ao cotidiano de minha própria existência. 

Ainda não tenho sabedoria suficiente para resolver muitas coisas. Devo perseverar nas leituras e estudos, não há outra forma prática de tentar avançar como ser humano. 

Vamos ler...

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12. O SEGREDO DE CARLOS 

Chegou o dia. "Eu não sou eu", disse o ex-guerrilheiro para a mulher 

"Ao abraçar meus pais e irmãs, uma sensação única apoderou-se de mim. Pensei: agora sim, estou em casa, na minha pátria." (p. 168)

Zé Dirceu é um escritor habilidoso. Sua narrativa nos coloca dentro da história do personagem e do próprio país. Ler suas memórias é um momento de aprendizado, sem dúvidas. 

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Comentário final 

Após ler este capítulo do livro de memórias do Zé Dirceu, acabei relendo um dos capítulos de meu livro de memórias sindicais, o capítulo 38. Avalio que seja um dos melhores textos do livro. 

O capítulo e as minhas memórias foram inspirados na leitura do livro de Aleida March, companheira de Ernesto Che Guevara. 

O livro "Evocación" me tocou profundamente e com ele acabei trazendo lembranças de minha própria formação política e ética aprendida da luta sindical. 

Textos como esses de Zé Dirceu e Aleida March, até o meu de memórias sindicais, são registros de ações, sentimentos e acontecimentos de pessoas envolvidas em processos históricos e isso é vida, é a nossa vida. 

Sempre se aprende com essas leituras. 

William 

09/08/26

sábado, 8 de agosto de 2026

Cansada de trabalhar



Refeição Cultural

Dona Dirce Mendes vai completar 80 anos de idade daqui algumas semanas. Minha mãe trabalha desde que era criança, literalmente. Desde menina já cuidava de outras crianças e fazia trabalhos domésticos. 

Conversando com ela, ouvi uma frase que me deixou pensando sobre a questão do trabalho que secularmente é destinado às mulheres nas sociedades patriarcais e sob o domínio dos homens e do dinheiro: "eu não aguento mais, queria parar de trabalhar e ter um tempo pra mim".

O Brasil tem 200 milhões de pessoas e uma das piores distribuições de riqueza do mundo. Uma porcentagem ínfima de famílias detém mais da metade da riqueza e dezenas de milhões de famílias sovrevivem em condições semelhantes à de meus pais ou com mais dificuldades ainda. 

Com a tecnologia alcançada pela espécie humana, boa parte da humanidade não terá mais trabalho e renda, pois as máquinas vão substituir pessoas por robôs e IA. O benefício auferido pela tecnologia está sendo concentrado nas mãos de poucos humanos e corporações e a imensa maioria vai acabar sem direito algum, sequer de viver.

Nem preciso pesquisar números para afirmar que parte substancial dos lares brasileiros - onde sobrevivem os 200 milhões de pessoas fazendo seus "corre" diariamente - tem idosos e ou crianças e ou pessoas com deficiência que necessitam de auxílio de outras pessoas. São dezenas de milhões de cidadãos desassistidos do básico da cidadania.

São milhões de pessoas com algum grau de deficiência, pessoas com idade avançada, pessoas com doenças degenerativas, milhões de pessoas que deveriam ter apoio externo cotidianamente. 

Se tem um trabalho humano que entendo que não deve ou não teria como ser substituído por robôs e IA é o trabalho de cuidar de pessoas, cuidar de dezenas de milhões de pessoas que para terem uma vida satisfatória e digna precisam de apoio de outras pessoas. Uma questão que nos fez sermos humanos desde que cuidávamos uns dos outros nas savanas, selvas, cavernas etc. Somos seres sociais porque precisamos uns dos outros. Não somos nada sozinhos!

Só uma parte pequena de pessoas tem dinheiro para pagar outras pessoas para auxiliar e cuidar de idosos, pessoas com deficiência, crianças e pessoas adoecidas. Difícil um lar que não tenha alguém nessas condições. E se não tiver, terá! A pessoa hoje está no "corre" com sua moto no trabalho de aplicativo, amanhã pode estar numa cadeira de rodas, ou sem mobilidade pra sempre.

Os governos e os organizadores das sociedades humanas da atualidade precisam compreender e desenvolver sistemas sociais públicos e coletivos que empreguem e treinem pessoas para cuidar de pessoas.

Sem uma sociedade humana solidária e acolhedora, na qual cuidamos uns dos outros, nossa espécie vai encerrar a participação nos ecossistemas naturais nos devorando uns aos outros, até o último de nós. Isso não é força de expressão, é sério! Ou repensamos as sociedades humanas ou já era a nossa espécie "homo sapiens" (sábios?).

A frase de minha mãe, cansada de fazer uma casa funcionar aos 80 anos - trabalhando e sem remuneração social -, tentando fazer tudo que até jovens e adultos sadios talvez não consigam, espelha a realidade de dezenas de milhões de mulheres, que cuidam sozinhas de casas, filhos, idosos, doentes, netos, e até de adultos produtivos sem ocupação ou um trabalho.

William 

08/08/26

Lendo as memórias do Zé Dirceu (3)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Sigo lendo o livro de memórias do companheiro Zé Dirceu. E sigo na torcida por sua plena recuperação do câncer descoberto recentemente. 

A morte repentina do professor Lejeune Mirhan (1956-2026), na quinta-feira 6, me deixou com uma tristeza imensa. 

Conheci pessoalmente Lejeune na Afabb-SP em dezembro, lhe dei meu livro de memórias sindicais e até conversamos sobre a possibilidade de imprimir meus livros com ele. 

Que figura inspiradora o professor Lejeune! Queria contribuir com as causas do povo como ele fez a vida toda. E que humanista! Um homem otimista e que sempre acreditou na humanidade. 

Professor Lejeune Mirhan, estará sempre presente entre nós!

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9. CLANDESTINO!

A volta ao Brasil, a angústia e o temor de passar os dias sabendo que pode ser capturado a qualquer momento 

"Repito: não foi sem sentido histórico e sem memória que elegemos a resistência armada. Foi sem sentido temporal e sem a compreensão dos erros de 1935 e dos acertos de 1961, esta é a questão." (p. 121)

Zé Dirceu avalia que sempre houve rebeliões e insurreições populares no Brasil. Cita várias no capítulo. O relato sobre os assassinatos de quase todos os companheiros é duríssimo. Volta a Cuba em 1972. 

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10. SIM, EU VOLTEI

Uma nova temporada em Cuba e a volta ao Brasil como clandestino e dono de uma alfaiataria 

Zé Dirceu nos conta a respeito de sua volta ao Brasil para viver com outra identidade até 1979. Ele viveria no Paraná como Carlos Henrique.

Ele também fala de Ana Corbisier, que viveria clandestina como Maria, em Salvador. Li o livro dela "Clandestina" e vi sua palestra ano passado.

O capítulo é um retrospecto da história do Brasil nos anos setenta. Percebe-se os cem livros que Zé Dirceu estudou para escrever suas memórias. Erudição incrível!

Até essa parte do livro, foi minha terceira leitura: 2018, 2024 e agora. 

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11. PEQUENOS NEGÓCIOS, PEQUENAS EMPRESAS 

Como o dono do Magazine do Homem virou o "Carlos da Clara"

Zé Dirceu se torna pai, nasce em 1978 José Carlos, Zeca, filho de Clara Becker. 

Ele se reaproxima de São Paulo através da família Abramo, que não via há dez anos. 

Com o fim do AI-5, a sociedade civil avança nas lutas pelo fim da ditadura, que ainda duraria muitos anos, até 1985.

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Comentário final 

As memórias do Zé Dirceu são as nossas memórias, vejo ali a vida de muita gente como a gente, vejo meus pais ali nos anos sessenta e setenta, vejo amigas e amigos do movimento sindical. Me vejo nas memórias como personagem que deu sequência às lutas do povo brasileiro nos anos oitenta, noventa e neste início de século. 

Sigamos lendo, estudando e pensando formas de contribuir para as causas coletivas e populares. 

O mundo pode ser diferente, pode ser melhor. 

William 

08/08/26

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Com os meus pais



Refeição Cultural

Estou na casa de meus pais em Uberlândia. Vim passar o final de semana com eles. Domingo é dia dos pais. 

Na região é o período da romaria a Água Suja. Meu desejo era pegar a estrada hoje, como fiz por décadas. Não tenho mais condições de andar 80 Km. Tenho que lidar com isso!

Estou com os meus pais. O momento é e deve ser único. Entre ontem e hoje, pudemos falar amenidades, lembrar do passado. Relevar o que se deveria fazer e não se faz. Viver do jeito que dá...

Já fui ao mercado pra eles, lavei a louça, consertei uma cadeira, comemos uma pizza. Vou limpar o aquário de minha mãe, vamos visitar a tia Lúcia, que não tem mais mobilidade. A pia nova ficou boa. Está pra ser entregue o fogão novo. Agora é arrumar o tanque e o telhado. 

Ao chegar a Uberlândia, soube do falecimento do professor Lejeune Mirhan e fiquei arrasado, muito triste. Estou muito reflexivo por causa desse acontecimento. Todos nós só temos o instante, o presente. 


O que é a vida? O que importa na vida? A vida humana são as relações humanas. As pessoas são mais importantes do que as coisas. 

A vida e o que importa no viver também é procurar levar uma vida como levou o professor Lejeune Mirhan. É ter como objetivo de vida fazer o bem como fazem pessoas como o presidente Lula e o Ferréz. 

Nesse tempo que me resta, gostaria de fazer algo para as pessoas e o mundo como Lejeune, Lula e Ferréz. 

Estou com os meus pais neste momento. Isso é importante. Viva a vida!

William 

07/08/26

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (2)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Estamos em agosto de 2026. Em poucos dias, as campanhas eleitorais serão iniciadas oficialmente, segundo o calendário do TSE.

Será um processo eivado de irregularidades e abusos por parte do bolsonarismo e da extrema-direita. Além da interferência dos EUA e dos sujeitos indicados na suprema corte por Bolsonaro. 

Na minha avaliação, já estamos sofrendo interferência nas eleições brasileiras para derrotar o presidente Lula e o povo brasileiro.

Retomei a leitura das memórias do Zé Dirceu, figura relevante na história do país e da esquerda brasileira. Um grande militante e quadro de nosso campo democrático.

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6. A BATALHA DA MARIA ANTÔNIA 

A verdadeira história do que aconteceu naquele dia em Higienópolis e a insanidade de um congresso da UNE em Ibiúna

Capítulo muito interessante! Me lembrei dos inúmeros rachas no movimento de esquerda, ontem e hoje. A repressão estatal vindo pra cima da resistência democrática e a militância toda dividida... isso nunca muda!

Zé Dirceu conta que o congresso da UNE em Ibiúna atrasou dois dias por causa de brigas pra definir mesa, pauta, regimento interno etc... é a esquerda que sempre vi.

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7. CABRAS MARCADOS PARA MORRER 

A angústia de viver na prisão e a desconfiança de que seriam todos fuzilados

Zé Dirceu, que esteve preso no Quartel de Quitaúna, perto de onde moro em Osasco, nos conta que o Comandante Carlos Lamarca saiu de lá (desertou pra lutar), levando armamentos e munições, para combater a ditadura militar. 

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8. VAI PRA CUBA!

A troca pelo embaixador norte-americano, o exílio, o treinamento guerrilheiro e outras aventuras 

Capítulo cheio de histórias. Zé Dirceu nos conta passagens marcantes de sua saída da prisão no Brasil, sendo ele um dos quinze militantes trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick. 

Ao falar sobre sua estadia em Cuba, senti saudades do país e seu povo. Já estive na Ilha três vezes.

Zé Dirceu citou Ana Corbisier como uma das quatro brasileiras em treinamento guerrilheiro em Cuba. A conheci recentemente e li seu livro "Clandestina".

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Estou na estrada. Vou passar o dia dos pais com o Palmério, meu velho pai, e minha mãezinha querida. 

Sigamos lutando a vida. 

William 

06/08/26


Post Scriptum

Lejeune Mirhan, presente!

Ao chegar a Uberlândia, de noite, soube do falecimento do querido professor Lejeune Mirhan, durante o dia. Pelo que consegui apurar, ele teve um infarto. Fiquei arrasado, muito triste com a notícia. Estive com Lejeune em 18/12/25, na Afabb-SP. Ainda ontem, estava satisfeito ao vê-lo de volta às lives depois de três semanas ausente. O professor estava cheio de projetos e esperanças na humanidade após a viagem à China. A vida é um instante... Professor Lejeune, presente! Nossos sentimentos aos familiares e a todas as pessoas que admiravam esse grande ser humano, comunista e defensor da educação e das causas populares. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Livro: Yargo - Jacqueline Susann



Refeição Cultural

LITERATURA

"Ah, Deus, implorei. Se for alguma coisa de Marte, não deixe que seja rastejante. Não me importo que tenha três olhos ou duas cabeças, só peço que não seja viscoso ou rasteje. Apoiei-me contra a parede e esperei."


Jacqueline Susann (1918-1974) escreveu em meados dos anos cinquenta do século passado um romance de ficção científica - Yargo (não publicado à época). 

A atriz e escritora norte-americana foi uma mulher que se destacou por sua capacidade de criação literária e por se impor como pessoa pública com opiniões próprias mesmo em sociedades tipicamente machistas e patriarcais. 

Li que ela tinha um altíssimo Quociente de Inteligência (QI), medidor muito comum naquele tempo. Como toda mulher, ela teve que ser muito firme em seus propósitos para ter uma carreira exitosa naquilo que escolheu fazer: escrever e interpretar.

Seu primeiro romance de sucesso foi O vale das bonecas (1966). Os dois romances seguintes - A máquina do amor (1969) e Uma vez só é pouco (1973) - tiveram boa acolhida dos leitores também: ela foi campeã de vendas. No Brasil, seus livros foram publicados pelo Círculo do Livro. A escritora faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de um câncer. Dois livros dela foram publicados após sua morte: Dolores (1976) e Yargo (1979).

Eu nasci em 1969 e passei a ler livros nos anos oitenta. Morava em Uberlândia (MG) e nossa família era muito humilde, éramos brasileiros típicos que lutavam diariamente para sobreviver num país violento contra os pobres e despossuídos e de impunidade aos ricos e donos do poder político. Meu primo Jorge Luiz assinava o Círculo do Livro e emprestar livros dele para ler foi uma oportunidade definidora de meus gostos naquele momento e como adulto.

Eu também dava meus jeitos de ler livros de interesse à época, ou comprando ou pegando na biblioteca da escola. Ficção científica, suspense e terror, ciências e coisas misteriosas eram alguns temas de meu interesse. Discos voadores, monstros, deuses e demônios, Triângulo das Bermudas, Atlântida, misticismo, histórias antigas de povos e civilizações etc, eu acreditava em tudo isso e lia muitos autores que abordavam esses temas.

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"Mais um líder se pôs de pé, com uma magnífica sugestão. Segundo a tradução de Sanau, a proposta dele era me fazerem uma lavagem cerebral e me mandarem de volta à Terra..."

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Foi esse rapaz que leu Yargo (1979), de Jacqueline Susann, ainda morando em Uberlândia. Aos 17 anos eu iria voltar para São Paulo, deixando meus pais em Minas Gerais. Devo ter lido dezenas de livros durante minha adolescência mineira, e alguns deles me impactaram e sem dúvida compuseram a pessoa na qual fui me transformando com o passar dos anos. Este romance de Susann foi um dos livros que nunca me esqueci, a história de Janet Cooper compôs minha memória de longo prazo. Óbvio que na memória o que ficou foi a lembrança da moça que foi abduzida na praia, sem detalhe algum.

Faz uns quinze anos, meu primo Jorge me perguntou se queria pegar alguns dos livros antigos dele, pois estava se desfazendo de tudo que era mídia de cultura em meio físico para só ter coisas digitais e virtuais. Eu escolhi livros como esse de Jacqueline Susann e, às vezes, sinto o desejo de reler um dos livros que li décadas atrás, no início de minha vida adulta, para tentar me encontrar com aquele rapaz que fui, naquele contexto, e tentar compreender como aqueles livros me caíram nos pensamentos e ideias que tinha à época. A experiência é bem interessante!

Ao decidir recentemente ler mais livros de mulheres e sobre mulheres, escritoras, poetas e políticas, pensei em alguns livros que tenho em casa, lidos ou aguardando a leitura. E o romance sobre aquela moça que foi abduzida na praia, e que ficou em minha lembrança como um livro marcante, de Jacqueline Susann, foi o escolhido dessas últimas semanas. Gostei do romance!

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"- Talvez eu possa esclarecer este desejo com um exemplo pessoal. Quando você era criança, Janet, provavelmente pensava que nunca iria para a cama, se permitissem. Quando chegava a hora, você relutava, como todas as criança, utilizando os mais diversos recursos. Contudo, agora que está mais velha e pode ficar acordada até a hora que quiser, há vezes em que recebe de bom grado o sono, e se entrega a ele voluntariamente. Assim é a morte para um yargoniano maduro."

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O livro é muito bem escrito. A autora teceu uma história que permite aos leitores, tanto da época quanto de hoje, perceberem as bases da sociedade norte-americana de meados do século vinte, os costumes e contradições, os temas em evidência naquele cenário de início de Guerra Fria e de efervescência consumista do estado de bem-estar social pós 2ª Guerra Mundial. É nítido o papel esperado das mulheres ao lado de seus maridos provedores do lar, a corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo religioso dos capitalistas em contraposição ao mundo dos ateus comunistas etc.

Aquelas décadas da segunda metade do século vinte alimentaram a imaginação de boa parte da população ocidental com a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros planetas, discos voadores, viagens no tempo e espaço, formas de se dominar a mente das pessoas, poderes paranormais e super-homens e mulheres. O jovem que fui acreditou em absolutamente tudo isso. Eu li Charles Berlitz, J. J. Benítez, Erich Von Däniken, li vários livros de terror, demônios, fantasmas...

Enfim, valeu a leitura! Hoje sou outra pessoa, outro leitor. E tenho muitos livros a ler e reler, os clássicos que não li, os novos que estão sendo lançados e os livros que merecem a releitura. Inclusive fiquei interessado nos outros romances de Jacqueline Susann.

William

05/08/26


Bibliografia:

SUSANN, Jacqueline. Yargo. Tradução: Isabel Paquet de Araripe. Círculo do Livro. São Paulo, 1979.