Refeição Cultural
LITERATURA
“Nunca fui uma aluna exemplar, mas era esforçada: sempre tive que dar um tranco no tico e teco, porque meu cérebro demora um pouco para funcionar, mas, depois que ele pega no tranco, aí vai que vai! Das três amigas que estudavam comigo, uma delas, a Josi, era parte integrante do meu time (o das esforçadas) e as outras duas eram trabalhadas na inteligência.” (de “Um Anjo de Mochila Azul” por “Diogo Almeida”)
Ao ler o romance de Diogo Almeida, sendo companheiro de uma professora, me senti em casa na leitura das aventuras e desventuras da Francislena (Francis, por favor!) e suas amigas de profissão.
Temáticas desenvolvidas no romance: o dia a dia em sala de aula com os alunos ("os capirotos"), as dificuldades inerentes à educação em um país que não valoriza a profissão de professor(a), os perrengues de se viver ganhando um salário insuficiente e os desafios imensos relativos à condição da mulher brasileira.
“A separação foi avassaladora na minha vida. Meu Deus! Eu achei que não fosse superar! Porque, por mais insuportável que seja a pessoa, a gente acaba se acostumando com a criatura. Relacionamento é igual a banho no inverno: ruim para entrar e, depois que se acostuma, muito pior de sair. Se ver sozinha depois de um longo período com alguém é meio assustador, mas essa sensação e esse medo passam com o tempo.”
Eu sempre digo e escrevo que considero a área da educação a dimensão humana mais necessária do mundo e a profissão de professor(a) a mais importante entre todas as profissões que existem. O mundo seria outro, seria melhor, se a educação fosse prioridade de governos e famílias.
O autor desenvolveu o romance em linguagem oral e prosaica, com falares cotidianos das classes populares e de trabalhadores, fato que torna a leitura fácil e descontraída. A intenção me pareceu ser a reprodução do ambiente real do mundo do trabalho dos professores.
Uma particularidade: estou refletindo comigo mesmo os motivos para um certo desconforto que senti com o linguajar específico nas temáticas sexuais... o desconforto me deixou atento para o fato de talvez eu estar me comportando de forma antiquada no tema da sexualidade. Seria por estar ficando mais velho? Não sei. Seguirei digerindo essa refeição cultural.
“De repente, um dos alunos me abraça muito forte, um abraço que demora uns dez segundos. Na verdade, eu nem reparei muito nele durante a aula; ele é bem quieto, quase imperceptível. Ele veio com a sua mochila azul bem surradinha, me abraçou bem forte e agora diz: – Como estão a Francis e a Lena que moram dentro de você? Brigando ou unidas? Como está o seu povo interior? – Ri e vai embora!”
O livro é bom. Vale a leitura. Sobre o anjo de mochila azul, esse garoto brincalhão do romance, deixo pra vocês a descoberta.
William
11/04/26


















