Refeição Cultural
"Uma mulher precisa viajar. Para descobrir por si mesma aonde é capaz de chegar" (Tamara Klink)
SINGRAR OS MARES
Das façanhas da espécie humana, duas que admiro muito são voar e navegar através de artefatos criados para superar nossas limitações físicas. Voar e singrar os mares são consequências da inteligência e da coragem de algumas pessoas.
Lançar-se ao mar, partir em um oceano, expor-se às forças dos elementos da natureza é de uma ousadia que só nossa espécie poderia empreender conscientemente.
Tamara Klink tem coragem e ousadia ímpar para lançar-se sozinha ao mar. Que coragem!
A leitura de seu livro Mil milhas (2021) me fez refletir sobre um monte de questões que extrapolaram sua aventura solitária no mar.
Me fez mergulhar na natureza humana, me fez refletir sobre os tipos de pessoas que somos. Confirmou a impressão que tive de Tamara antes mesmo de ler seu livro, suas ideias.
Admiro na jovem navegadora uma qualidade extraordinária que algumas pessoas têm: a atitude de ir atrás de seus sonhos e objetivos.
Seus diários apresentam aos leitores uma garota envolvida com as questões comuns de sua idade e geração e uma mulher em busca de autoafirmação e superação de seus receios e medos.
SOBRE SER MULHER
"(...) Mas me deixam desconfortável quando me perguntam se não tenho medo de estar sozinha num barco destrancado num porto de pesca (como se fizessem um favor ao tentar me apresentar medos que eu não tenho, como se soubessem o que é o melhor para mim mais do que eu mesma). Perguntam se eu não tenho medo de ser perseguida por um barco mal-intencionado em alto-mar. Onde se ancoram todos esses pensamentos? Falas como essas, com um fundo de boa intenção, só fazem nos trancarmos em gavetas para estar a salvo das nossas ambições. Acham normal que mulheres se limitem para se proteger dos possíveis males causados por homens. Por que imaginam eles perigos que eu não vejo? Como se andar na rua devêssemos temer que objetos caíssem do céu, que fissuras abrissem crateras no asfalto, eventos possíveis, mas improváveis, que poderiam nos impedir até de ter coragem de andar. Como pode meu útero tornar-me tão mais vulnerável aos olhos dos outros?" (Tamara Klink, p. 95/96)
Essa afirmação da jovem navegadora Tamara Klink é espetacular, é libertadora! Fiquei impactado com sua assertiva.
A SOLIDÃO MODERNA
Ao final dos diários, já em casa e com a família, pais e irmãs, Tamara faz uma anotação que retrata bem o que somos enquanto sociedade humana (p. 116/117).
Ela percebeu estar só ao tentar ter a atenção de seu pai e não conseguir. Me lembrei da imagem e da frase em inglês de um livro no qual estudei nos anos noventa: "alone in the crowd".
"Precisei estar longe para descobrir quanto do meu sonho era meu e quanto dele era dos meus pais. Eu precisei estar longe para me conhecer sem eles. Longe, eu conversei com minha voz nos cafés da manhã, fui dona do meu corpo, pude vesti-lo e visitá-lo como eu quis, pude errar sem vergonha e sem pressão, pude me isolar do medo protetor materno, que tantas vezes aumentou os perigos e conteve os meus quereres. Longe, pude experimentar ser maior do que eu pensava. Longe, entendi melhor de onde vim e pude desejar voltar." (Diários: 05/10/20)
Essa passagem me encheu os olhos d'água... em seguida, ela diz a frase que coloquei na abertura do texto, que uma mulher precisa viajar, para descobrir por si mesma aonde é capaz de chegar.
O PAI
Surpreende leitoras e leitores as confissões de Tamara Klink em relação à forma como seu pai a educou: "Primeiro, faz. Só depois me liga para contar quando já tiver feito."; "Eu não vou te dar conselho nenhum. Abre o livro, o computador, e procura." (p. 119)
Caraca! A gente fica chocado com a rispidez e secura do pai também navegador, Amyr Klink, com a filha que sonha ser navegadora...
Quando ela contou ao pai que havia comprado o veleiro e faria a rota entre a Noruega e a França, ouviu: "Puxa, é uma viagem longa..." (p. 47)
Tamara escreve no diário: "Nenhum conselho, nenhum contato, nenhuma oferta, nenhuma sugestão..." (idem)
E após superar todos os desafios, a jovem navegadora chegou ao seu destino.
POEMAS E CRÔNICAS
"Me faltam palavras
Para eu sentir
O que eu sinto"
O livro tem uma seção de poemas e crônicas da navegadora e escritora que congrega emoção e reflexões filosóficas sobre a vida.
Cito duas afirmações ligadas aos direitos das mulheres e encerro a postagem sobre o livro Mil milhas, de Tamara Klink:
"Tantos são os perigos que a gente ouve quando é mulher. O mundo faz chover razões para voltarmos para semente, guardarmos as folhas crescentes, para temer brotar, florescer, semear, e então mudar do vaso para a terra infinda." (p. 153)
Outra ideia potente na página seguinte (p. 154):
"'Sozinha?'
Eles não sabem. Quando a gente se entrega inteira, quando a gente cuida de cada ponto e cada nó, a gente nunca está só. Vem conosco uma manada afoita e latente uivando para seguirmos sempre em frente."
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COMENTÁRIO FINAL
"Sonhos são coisas perigosas (...) Sem a gente perceber, os sonhos já nos são." (p. 22/23)
O livro de Tamara Klink nos conta sua primeira viagem solitária como navegadora no mar do Norte, entre a Noruega e a França, aos 23 anos de idade. Foi em 2020, quando o mundo enfrentava a pandemia de Covid-19.
A navegadora disse algo sobre liberdade que me deixou reflexivo:
"(...) Sem porto, não tem partida, só a busca contínua por qualquer lugar. Sem segurança, sem escolha, não tem como haver liberdade. É só fuga, falta de opção, tentativa de chegar sem ter saído de nada..." (p. 29)
No começo do livro, teve uma passagem do diário de Tamara que mexeu muito comigo, acabei interrompendo a leitura e voltando um tempo depois. Ela diz que a oportunidade de realizar a viagem surgiu porque tudo que fez foi baseado em seu objetivo de navegar, o "por que".
"(...) Mas o 'por que', que me fornece energia quando ela me falta, foi o que me trouxe aqui: minha ambição de navegar..." (p. 39)
Fiquei um tempo olhando para trás e procurando os meus "por ques"... foda. É bem o que já sei da minha existência.
Amigas e amigos leitores, recomendo a leitura do livro! Ele me fez pensar muito sobre temas centrais da vida.
William
07/09/26


















