Refeição cultural
LEITURAS
Dando sequência à leitura do livro Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana, de Aline Marcondes Miglioli, cito alguns excertos abaixo para reforçar o interesse nos leitores do blog em adquirir a obra e lerem o estudo completo da autora.
Fiz meu fichamento sobre os capítulos 1 e 2 em uma postagem anterior (ver aqui).
Reforço, como disse na primeira postagem, que qualquer interpretação equivocada ou diferente do que a autora aponta, é de minha exclusiva responsabilidade.
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EXCERTOS
O capítulo três "O turismo enquanto setor estratégico: contradições da revolução na periferia" é dividido em duas partes: O papel do turismo na acumulação de capital e Indústria do turismo em Cuba.
O capítulo é uma verdadeira aula de economia e história. Eu nunca tinha parado para pensar o turismo como atividade econômica inserida na divisão internacional do trabalho na lógica capitalista.
"(...) A principal mudança entre a primeira e a segunda fase de execução da atividade. Ao invés de responder às demandas de hospedagem e lazer locais, a indústria do turismo após os anos 1970 passou a promover os destinos turísticos através da criação e venda de espaços 'exóticos', ou seja, inexplorados e exclusivos." (p. 112)
Após a leitura, será difícil olhar as viagens que fazemos em pacotes turísticos como víamos antes. O que eu sentia, às vezes, como um turista sendo tratado só como um consumidor qualquer de produtos enlatados, foi esclarecido pela autora. Aprendi demais com a leitura!
Aline me fez compreender até a lógica de destruir bairros inteiros e áreas públicas nas cidades como São Paulo, terra arrasada na mão do prefake atual e seus parças, quando explica as soluções capitalistas para a sobre-acumulação do capital.
"A importância do espaço geográfico enquanto uma categoria de análise no processo de acumulação de capital é evidenciado por David Harvey em Limites do capital (2013). Para o autor, a construção e reconstrução do espaço são saídas para as crises de sobre-acumulação do capital, pois estas atividades permitem empregar o capital sobre-acumulado em grandes investimentos, principalmente em capital fixo na produção do espaço, que tem como característica serem investimentos de longa maturação. Neste sentido, a construção do espaço urbano ocupa uma posição importante neste processo de ordenamento espacial da reprodução do capital, pois torna-se uma forma de atrasar ou atenuar as crises de sobre-acumulação de capital." (p. 110)
O setor de turismo veio a calhar para o capitalismo nas últimas décadas ao mudar a lógica de turismo antiga, mais regional e interna nos países, em relação ao modelo atual.
"(...) Sendo assim, o setor turístico, entendido enquanto uma atividade que pressupõe a ocupação e construção de novos espaços, representa uma frente para atenuar as crises de acumulação de capital, avançando na ocupação de novos territórios, investindo na produção ou conversão destes espaços em espaços turísticos." (p. 111)
E o modo "all inclusive", então? Essa lógica dos capitalistas donos das redes hoteleiras quebra toda a economia local ao fazer o turista consumir tudo no hotel, só para se apropriar de todos os recursos da sociedade. O ápice dessa lógica são os "navios-shopping" que cruzam os mares...
Após a primeira parte do capítulo, a aula de economia, Aline entra na parte da indústria turística em Cuba, opção tomada pelos cubanos já nos anos oitenta, mas efetivada após o fim da URSS e o período especial, como atividade econômica relevante no país.
A autora descreve a atividade econômica de turismo em Cuba desde o início do século XX, período anterior à Revolução. O turismo era uma tragédia para a classe trabalhadora. Tudo era em benefício de uma pequena parcela da elite local e para as elites norte-americanas.
Nas conclusões do capítulo, Aline avalia ter sido acertada a escolha dos cubanos pela atividade econômica de turismo como uma alternativa de entrada de divisas, apesar das contradições e desafios inerentes ao setor, inclusive ideológicos.
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Sigo na leitura.
William
24/04/26
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Post Scriptum:
CAPÍTULO 4 - A ATUALIZAÇÃO DO SOCIALISMO CUBANO E A EMERGÊNCIA DA DIFERENCIAÇÃO SOCIAL EM CUBA
"(...) No presente capítulo nós iremos abordar a principal mudança ocorrida na sociedade cubana após os anos 1990: a reorganização social - ou seja, a configuração de novos grupos sociais - e a reorganização dos indivíduos entre eles e os grupos existentes. Para que possamos compreender esse fenômeno, deveremos alçar voo sobre uma bibliografia densa que busca justificar teoricamente a existência de diferenciações sociais em Cuba." (p. 147)
A autora vai estudar as mudanças que se deram na sociedade socialista cubana após as dificuldades enfrentadas pelo governo durante o Período Especial, com o fim da URSS e o bloco socialista.
"(...) a partir do Período Especial e principalmente após ele, nos anos 2000, a academia cubana passou a identificar na sociedade dois novos fenômenos: a diferenciação social, ou seja, a existência de grupos sociais com diferentes padrões de consumo e estilos de vida, e a pobreza." (p. 147)
Ainda na introdução ao capítulo, Aline esclarece quais fontes irá usar em seus estudos, dentre elas, estudos de instituições cubanas - Instituto Nacional de Investigaciones Económicas (INIE) e Centro de Investigaciones Psicológicas y Sociológicas (CIPS) - e de organismos multilaterais - CEPAL e PNUD.
"Este capítulo tem como objetivo compreender a emergência da diferenciação social em Cuba após o Período Especial. Ele possui um conteúdo que destoa do restante dos capítulos apresentados até o momento, porque não dialoga diretamente com o mercado de imóveis. Aqui buscamos compreender o significado da pobreza em Cuba e da diferenciação social, e identificar quais são suas expressões materiais e o quanto elas se relacionam com a moradia. Ainda que indiretamente, esse ponto é essencial para o nosso debate, porque esses mesmos fenômenos se apresentam em Cuba de forma diferente do que ocorre nas economias capitalistas e, portanto, não podemos inicialmente relacionar a moradia com a pobreza ou com a riqueza, e tampouco as características da moradia com alguma classe social específica." (p. 149)
Acho um esforço grande fazer comparações das condições de vida do povo cubano com países capitalistas semelhantes, com altos níveis de carências, porque Cuba garante os principais direitos humanos ao conjunto da população: alimentação, saúde, educação, moradia, segurança e transporte.
"(...) Nesse exercício, Muruaga encontrou dificuldades para quantificar e comparar a situação de pobreza em Cuba com as dos seus vizinhos latino-americanos, pois o sistema de proteção social cubano garante alimentação, saúde, educação e habitação a toda a população, de forma que a pobreza não se revela na forma da ausência desses bens e serviços..." (p. 148)
Muruaga vai usar um conceito de "pobreza com proteção e garantias" para especificar o tipo de pobreza em Cuba.
Comentário do blog: eu acho esquisito isso para tentar comparar a Cuba embargada há décadas com países miseráveis sob o capitalismo. Mas é a minha forma de ver. Sigo na leitura.
No último parágrafo da p. 154, os estudos registram uma evidência clara do quanto os cubanos estão em melhores condições de vida em relação aos povos de países capitalistas comparados.
Depois de estudar a pobreza em Cuba, o item seguinte do capítulo vai abordar o trabalho por conta própria, modalidade de ocupação surgida nas últimas décadas.
Há uma nota de Aline, na p. 169, na qual ela reconhece que parte das fontes daquele estudo tem origem em pessoas que são oposição ao governo, inclusive de Miami.
Gostei do subitem "A estrutura social cubana e seu padrão de mobilidade social", a partir da p. 173. Aprendi coisas novas.
"Entre as contribuições iniciais ao debate, destaca-se a interpretação materialista-histórica de Karl Marx, na qual a interação entre os grupos se dá em consequência de sua relação com os meios de produção e, portanto, com sua capacidade de apropriar-se do mais-valor - produzido por seu trabalho ou pelo trabalho alheio. Uma classe, portanto, é definida em associação com os meios de produção e, por isso, é possível identificar três classes sociais no capitalismo: o trabalhador, detentor da força de trabalho; o capitalista, do capital; e o proprietário fundiário, da terra (Marx, 2017)." (p. 174)
Depois, ela cita correntes da sociologia que estudam a questão da estratificação social: o neoestruturalismo, o funcionalismo-estruturalista ou apenas funcionalismo e as abordagens weberianas. Achei bem interessante.
Nada substitui a leitura integral do livro de Aline Miglioli, estou melhorando minha compreensão sobre Cuba durante a leitura.
Cito sua conclusão do capítulo quatro:
"Em conclusão, independentemente da perspectiva teórica adotada, é possível vislumbrar que a moradia está no centro das transformações em curso em Cuba. Essas transformações têm levado à consolidação de diferenciações sociais que, por um lado, conformam lacunas sociais à equidade e, por outro lado, levam alguns grupos a ocuparem posições mais vantajosas na sociedade, principalmente no que diz respeito à vantagem para compra de produtos importados." (p. 190)
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Sigo na leitura.
William
01/05/26