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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Baladas para El-Rei (1925) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
a solitude nebulosa e irreal do ambiente...

(...)

E silenciosos, como alguém que se acostuma
a caminhar sobre penumbras, mansamente,
meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma..." ("Suavíssima", p. 121/122)


E aos poucos vou conhecendo Cecília Meireles. Nesta manhã, li seu 3º livro - Baladas para El-Rei - publicado em 1925. Agora conheço 80 poemas das primeiras 3 obras da autora.

É interessante como os ensinamentos do professor Ariovaldo Vital (FFLCH-USP) não falham quando se trata de leitura de poesia. Ler o poema a primeira vez, depois ler uma segunda vez. Buscar no dicionário as palavras que não se conhece. Ver se há alguma referência externa ao poema que possa ajudar na análise e interpretação de sentidos - vida da autora, questões de época etc. Sugestões básicas para uma boa leitura de poema.

Na leitura de hoje, pesquisei a palavra "solitude" e eu não tinha uma noção boa sobre o sentido. Solitude é um isolamento voluntário e com um sentido mais positivo, enquanto solidão é um isolamento que pode causar algum tipo de dor ou tristeza, algo mais negativo no sentido.

E para fazer esta postagem revi a questão do uso da palavra "poetisa" ou "poeta" para o gênero feminino. Em termos de dicionário e Língua Portuguesa padrão, ambas estão corretas. No entanto, ideologicamente, fico com o termo "poeta" para dizer a poeta Cecília Meireles. É o termo preferido em relação às lutas de gênero.

Outra pesquisa que influenciou no entendimento de um dos poemas foi saber que a personagem "Pedrina" do poema "Para a minha morta" foi a babá de Cecília Meireles, criada com a avó materna desde os 3 anos de idade.

"PARA A MINHA MORTA

(...)

Pedrina minha, és a mais doce das memórias
para a minha alma, a vida inteira alma de criança,
amando sempre o encantamento das histórias

de Barba Azul, de Ali Babá, de um rei de França...
Pedrina minha, és a mais doce das memórias...
" (p. 124/125)

---

A leitura dos poemas de Cecília Meireles, até o momento, me trouxe uma identificação grande com o Eu-lírico. Os poemas e a autora me lembram de uma fase da vida na qual eu cria em todas as formas de misticismo.

Além disso, a poeta cria imagens magníficas em seus versos. Seus poemas encantam pela beleza das construções. Veja abaixo um exemplo de imagem poética, do poema "Oração da noite", ainda de um livro anterior dela - Nunca mais (1923):

"Acendi luzes, desdobrando espaços," (p. 54/55)

É lindo demais!

No poema "Dos pobrezinhos" (p. 117) o Eu-lírico fala para as nossas vítimas da pandemia de Covid-19 e para seus entes queridos.

"DOS POBREZINHOS

Nas tardes mornas e sombrias,
de céus pesados, mares ermos,
e horas monótonas e iguais,

eu penso logo nos enfermos,
na escuridão de enfermarias
tristes e mudas de hospitais...
" (p. 117)

---

Finalizo a postagem citando um excerto do poema que mais gostei de Baladas para El-Rei. Pensa nessa imagem contida em um dos versos do poema: "Anda em choro a folhagem..." ao falar sobre o outono.

"DO MEU OUTONO

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a
                                     [folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angústia irremediável da paisagem...
" (p. 114/115)


É isso!

Tem valido a pena conhecer a poeta Cecília Meireles.

William



Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Análise do poema "Desfile" (1945), de Drummond



A rosa do povo, de Drummond.

Refeição Cultural

DESFILE
O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Como remédio entornado
em camisa de doente;
como dedo na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.
Já não tenho cicatriz.
Vejo-me noutra cidade.
Sem mar nem derivativo,
o corpo era bem pequeno
para tanta insubmissão.
E tento fazer poesia,
queimar casas, me esbaldar,
nada resolve: mas tudo
se resolveu em dez anos
(memórias do smoking preto).
O tempo fluindo: passos
de borracha no tapete,
lamber de língua de cão
na face: o tempo fluindo.
Tão frágil me sinto agora.
A montanha do colégio.
Colunas de ar fugiam
das bocas, na cerração.
Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido.
O mundo me chega em cartas.
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância.
Mais longe, mais baixo, vejo
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu.
No quarto em forma de túnel
a luz veio sub-reptícia.
Passo a mão na minha barba.
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados.
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.
Tudo foi prêmio do tempo
e no tempo se converte.
Pressinto que ele ainda flui.
Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.
Como planta que se alonga
enquanto estamos dormindo.
Vinte anos ou pouco mais,
tudo estará terminado.
O tempo fluiu sem dor.
O rosto no travesseiro,
fecho os olhos, para ensaio.

INTRODUÇÃO

O poema "Desfile" faz parte de uma obra bastante densa do escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade: o livro A rosa do povo, que foi publicado em 1945, contendo 55 poemas. É uma obra cujos poemas são marcados por um "tempo" - tanto histórico, quanto pessoal -, como nos conta o autor na apresentação da reedição do livro em meados dos anos oitenta. Em 1984, Drummond assina contrato com a Editora Record após 41 anos de parceria com a José Olympio. Sobre a reedição, ele diz:

"Quis a Record fazê-lo voltar à situação primitiva, como obra que, de certa maneira, reflete um 'tempo', não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da II Guerra Mundial, as preocupações então reinantes são identificadas em muitos de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de ser de quem os escreveu.
Algumas ilusões feneceram, mas o sentimento moral é o mesmo – e está dito o necessário." (ANDRADE, 1998, p. 7)

O professor Antonio Candido nos ensina também em "Os elementos de compreensão" que: "Um poema revela sentimentos, ideias, experiências: um romance revela isto mesmo, com mais amplitude e menos concentração. Um e outro, valem, todavia, não por copiar a vida, como pensaria, no limite, um crítico não-literário". (CANDIDO, 1975, p. 34-36)

COMENTÁRIOS E ESCLARECIMENTOS

Algumas informações serão relevantes para complementarem a leitura do poema, leitura baseada na materialidade do texto. As informações podem fortalecer os argumentos utilizados na hora da construção das hipóteses propostas na leitura interpretativa.
Drummond estava com 43 anos quando publicou A rosa do povo, seu 5º livro de poesia. Antes, havia publicado Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940) e Poesias, contendo o poema "José" (1942).
O escritor já tinha uma carreira sólida e reconhecida à época. Era casado, tinha uma filha e morava no Rio de Janeiro, capital da República. Era funcionário público no Ministério da Educação e Saúde Pública.
Dados sobre infância e adolescência do autor podem nos interessar na interpretação do poema em análise. Drummond nasceu em 1902 em Itabira do Mato Dentro (MG). Aos 13 anos, trabalhou alguns meses como caixeiro na casa comercial de Randolfo Martins da Costa.
Em "Drummond vida e obra", anexo presente ao final da 19ª edição de A rosa do povo, publicada pela Editora Record, uma informação nos chama atenção ao dizer que a casa comercial "em retribuição a seus serviços, lhe oferece um corte de casimira" (ANDRADE, 1998, anexo à obra). A transição entre fases da vida parece marco importante na vida do Eu lírico, vemos um traço disso no verso 33: "primeira calça comprida".
Aos 14 anos, Drummond vira aluno interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Ele interrompe os estudos por problemas de saúde.
Aos 16 anos, ele está novamente enclausurado no Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo (RJ). O jovem poeta parece ter uma natureza indômita, nada dócil, pois ao fim do ano letivo de 1919 (17 anos) é expulso do colégio "em consequência de incidente com o professor de Português" (ANDRADE, 1998, anexo à obra).
No poema, o Eu lírico vai dizer nos versos 13 e 14: "o corpo era bem pequeno/para tanta insubmissão.".
Drummond muda-se para a cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, em 1934, como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, novo ministro da Educação e Saúde Pública. Já era casado, já tinha perdido um filho, que viveu alguns instantes ao nascer, e tinha uma filha, Maria Julieta, nascida em 1928.
Finalizando esta parte do comentário sobre seus dados biográficos até a publicação de A rosa do povo, temos o poeta e escritor residindo na capital federal, a cidade do Rio de Janeiro; já era um poeta reconhecido aos 43 anos de idade; após publicar por conta própria seus primeiros livros, teve o livro Poesias, custeado e editado pela Editora José Olympio, em 1942. A parceria duraria quatro décadas.
Algumas informações de época ou de léxico podem auxiliar na leitura do poema.
A palavra "derivativo", presente no verso 12, tem vários significados, segundo o dicionário de Aurélio Buarque de H. Ferreira. Destaco aquele que tem mais relevância para a leitura do poema: "ocupação ou divertimento para fazer esquecer, ou para atenuar, um pensamento triste, uma ideia fixa, ou para quebrar a monotonia de uma tarefa".
A palavra "Halley", que aparece no verso 34, remete à passagem do Cometa Halley, ocorrida em 1910. Segundo o jornal "O Paiz", edição do dia 19/05/1910, "a passagem causou grande comoção". A informação foi retirada do site da Biblioteca Nacional, na seção de "notícias", do dia 18 de maio de 2015.

A ESCOLHA DO POEMA

O professor Antonio Candido, nos ensina em O estudo analítico do poema que "O verdadeiro comentador experimenta previamente todo o encanto do poema, para em seguida aplicar-lhe os instrumentos de análise.". (CANDIDO, 1996, p. 14)
A leitura deste poema em sala de aula me deixou fascinado; minha identificação com o tema e com o Eu lírico foi imediata. Por isso escolhi este poema para análise.

LEITURA SINTÉTICA DO POEMA NO PLANO DA LINGUAGEM

O Eu lírico está deitado em seu quarto, acordado, e vê sua vida em imagens que vão fluindo diante de si, como se fosse um desfile a que assiste.
Primeiro lhe vêm imagens que simbolizam seus tempos de adolescência. Depois lhe vêm imagens anteriores, dos tempos entre a infância e a adolescência. Por fim, o Eu lírico volta ao presente, momento de avaliações e pressentimentos sobre o futuro. Feitas as reflexões, vai dormir.
O poema pode ser lido e compreendido a partir da materialidade que se apresenta aos leitores. No plano imediato da linguagem do poema, em um sentido mais literal, temos um primeiro nível de compreensão possível para o texto.
A partir do conhecimento de certos dados biográficos do poeta, é possível avançar no campo dos sentidos e captar sentimentos mais profundos no poema, sentimentos que podem ser sentidos ao lermos o conjunto de poemas que compõem A rosa do povo. Antonio Candido nos ensina em "Os elementos de compreensão" que:

"Quando nos colocamos ante uma obra, ou uma sucessão de obras, temos vários níveis possíveis de compreensão, segundo o ângulo em que nos situamos. Em primeiro, os fatores externos, que a vinculam ao tempo e se podem resumir na designação de sociais; em segundo lugar o fator individual, isto é, o autor, o homem que a intentou e realizou, e está presente no resultado; finalmente, este resultado, o texto, contendo os elementos anteriores e outros, específicos, que os transcendem e não se deixam reduzir a eles" (CANDIDO, 1975, p. 34-36)

Os comentários que incluímos nos darão suporte para a leitura que faremos de análise interpretativa.

LEITURA DO POEMA

O poema "Desfile" contém sessenta versos em estrofe única. É composto em versos livres com sete sílabas tônicas. O ritmo entre as sílabas tônicas e átonas irão variar de acordo com os blocos temáticos

PARTE 1. UMA REVISTA AO PASSADO

“O rosto no travesseiro,            01
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.”      03

A imagem de abertura do poema, construída pelo Eu lírico nesses primeiros três versos, concentra múltiplos sentidos, poderíamos chamá-la de abre alas para os diversos blocos temáticos que virão no decorrer do longo desfile de imagens que rememoram fases da vida do Eu lírico.
O Eu lírico está deitado e demonstra ao leitor - através do tempo verbal da enunciação, presente do indicativo: “escuto” -, que está consciente e chama atenção para a matéria do poema: a passagem do tempo e as fases da vida.
Como escutar no silêncio o tempo fluindo? Essa antítese cria uma imagem que nos remete a um marcador de tempo: pode ser um antigo relógio mecânico (tic tac) ou as batidas do coração; quando deitamos e nos pegamos no completo silêncio, um dos primeiros movimentos que percebemos é o do coração, do ritmo do coração.
As batidas tanto equivalem ao tempo passando, como também ao sangue fluindo a cada bater do coração. O bater do coração, o fluir do sangue: o alimento do corpo, a vida. Ou seja, no plano dos sentidos, a antítese se repete: o fluir do sangue no silêncio da batida do coração alimenta a vida, mas a vida passa, está passando; a cada batida, a cada fluir, a vida caminha para o fim.
A sonoridade do 2º verso é forte, com as consoantes /t/ e /d/ criando a sensação do bater do marcador do tempo que passa.

“Como remédio entornado    04
em camisa de doente;
como dedo na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.      09

Na sequência seguinte de versos, que poderíamos chamar de primeiro bloco do desfile de imagens da vida do Eu lírico, após o abre alas, percebemos algumas questões nas imagens: movimento e ritmo.
Tanto as aliterações quanto o encadeamento de palavras nos passam uma sensação de harmonia imitativa: "Como", "como", "como"; as sequências de consoantes /m/, /n/ e /v/ e /f/ nos passam a sensação de tempo fluindo, quase ao som de murmúrios numa viagem rumo ao passado.
E assim como o bater do coração marca o ritmo do tempo e o movimento do sangue o fluir da vida, temos nessa sequência de versos, imagens de movimentos que envolvem um corpo de jovem, ou que remetem a acontecimentos frequentes na juventude: “como dedo na penugem/de braço de namorada;” e “como vento no cabelo,”.
Ainda sobre eventos comuns na juventude, poderíamos, inclusive, considerar “Como remédio entornado/em camisa de doente;”. Nesse caso, poderia ser um xarope para alguma moléstia passageira. Nos comentários, citamos a informação que o jovem poeta Drummond chegou a interromper os estudos por causa de uma doença que lhe fez sair do colégio.
Essas duas sequências de versos, do 1 ao 3 e do 4 ao 9, vão marcar a passagem do tempo e identificar o bloco em que estamos no desfile: “fluindo: fiquei mais moço.”. O Eu lírico utilizou o gerúndio do verbo fluir no 2º e no 9º verso para movimentar o cenário do momento presente “escuto” para o pretérito: “fiquei”.
Vamos ver na sequência outro bloco passar por nós no desfile de imagens rumo ao passado.

“Já não tenho cicatriz.         10
Vejo-me noutra cidade."      11

O Eu lírico está jovem neste bloco da passagem do tempo no poema. Algumas imagens nos dão as pistas desta fase da vida do Eu: "Já não tenho cicatriz.". O advérbio "Já" remete a uma alteração de condição: tinha e não tem mais. O que teria acontecido?
O uso dos tempos verbais por parte do Eu lírico auxiliam bastante o leitor na percepção de espectador do desfile de imagens da passagem do tempo.
Na sequência anterior, dos versos 1 ao 9, vimos o Eu lírico assistir de forma consciente, deitado e acordado, à passagem do tempo através de imagens fluindo do momento presente para o passado.
Há uma sequência de equivalências no encadeamento dos versos. Na sequência, nos versos 10 e 11, ficamos sabendo que os blocos temáticos de fases da vida do Eu se darão "noutra cidade", em outros lugares, diferentes do presente da enunciação.

"Sem mar nem derivativo,    12
o corpo era bem pequeno
para tanta insubmissão."      14

Na sequência do desfile de imagens do passado, o Eu lírico reforça a mudança de cidade, agora num lugar "Sem mar" e sugere a juventude do Eu, cuja energia jovem independe de compleição física; poderíamos dizer que os jovens são como as águas dos rios com correnteza, que não se dobram às margens; ao contrário, transbordam e ultrapassam limites.
As imagens do poema vão sugerir uma antítese entre ritmo mais acelerado e menos acelerado, mais fluido e menos fluido, ritmos relacionados aos tempos de juventude em contraponto com o ritmo da vida madura.
A fluidez e a busca por agitação e movimento, que vemos entre os versos 12 e 14 será inversa nos versos da etapa final da vida, já no presente da enunciação, quando o Eu lírico fala do tempo que passou e ainda passa, mas passa com ritmo diferente: "Como sangue; talvez água/de rio sem correnteza.".

"E tento fazer poesia,                  15
queimar casas, me esbaldar,
nada resolve: mas tudo
se resolveu em dez anos
(memórias do smoking preto).”    19

Entre os versos 15 e 19, segue a sequência do bloco de desejos de aventuras e diversões, e também inquietações, que marcam a adolescência; via de regra, nas cidades do interior são menores as oportunidades tanto para se divertir quanto para se realizar nas principais dimensões da vida social: profissional, pessoal, cultural.
A dificuldade de quebrar a monotonia da vida interiorana - “Sem mar nem derivativo,” - pode ser maior ainda, se o Eu lírico não tiver plena liberdade de ir e vir para o gozo dos namoros, encontros, festas e saraus. Isso era muito comum para os alunos que estudavam em regime de internato na primeira metade do século XX.
Nada como as utopias, os sonhos e os desejos de juventude para o Eu lírico querer “fazer poesia” e “me esbaldar”. É a agitação do bater do coração e do ritmo muitas vezes alucinante do sangue nas veias dos jovens que despertam para a vida.
Temos nova antítese no verso 17: "nada" e "tudo". O Eu lírico encerra os blocos de imagens da juventude, interrompe o fluir dos desejos e utopias da adolescência de forma abrupta, marca o fim de uma época com uma conjunção adversativa "mas" entre os extremos do "nada" e do "tudo" e com um verbo no pretérito perfeito "resolveu".
A passagem por esse bloco de imagens adianta o futuro conhecido pelo Eu lírico, o "smoking" sugere um momento posterior à formatura, pós fase dos impulsos de insubmissão, de procura das aventuras e amores; um emprego e talvez um casamento, passados 10 anos, tenham feito a vida fluir para outra etapa da existência: a maturidade do presente do Eu lírico.

"O tempo fluindo: passos     20
de borracha no tapete,
lamber de língua de cão
na face: o tempo fluindo."    23

Nesse bloco do tempo, as imagens sugerem ao leitor - e espectador - a infância do Eu lírico, quiçá os blocos estejam fluindo em imagens que abranjam momentos de uma década para outra da vida.
O Eu lírico saiu da idade madura no tempo presente, viu o desfile de imagens da adolescência que apontavam para uma fase posterior, depois da formatura, e agora segue avançando para a infância - regredindo no tempo -, com um alerta:

"Tão frágil me sinto agora."     24

O verso 24 sugere uma mudança de contexto no período da infância: é possível vermos uma fase de aconchego e bem-aventurança do lar, com família e animal de estimação, para uma fase de solidão, de isolamento, em meio a gente estranha.
No momento do aconchego do lar, a harmonia imitativa presente na aliteração do verso "lamber de língua de cão" traz nas consoantes /l/ da pronúncia "lamber de língua" uma espécie de sensação sinestésica da lambida amorosa do cão.

"A montanha do colégio.            25
Colunas de ar fugiam
das bocas, na cerração.
Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido."  29

Forte essa sequência de imagens. Fica clara a tensão e o contraste com a fase anterior, no aconchego do lar. O Eu lírico está perdido, sozinho, contém as lágrimas nas horas de solidão. A sugestão nos parece de um garoto ou adolescente longe da família, num colégio interno.

O mundo me chega em cartas.   30
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância."       35

Como nos ensinou em sala de aula o Professor Ariovaldo Vidal, de Teoria Literária II, sobre os fundamentos da poesia, temos uma sequência de equivalências no poema. Confirma-se a solidão e isolamento do Eu lírico, que toma conhecimento do mundo por cartas. O cenário é dos anos dez ou pouco depois, época da comoção geral causada pela passagem do Cometa Halley (1910).
O Eu lírico parece ter chegado ao limite de suas lembranças; boa parte dos adultos se lembra de uma passagem da infância, cujas noites são martirizadas pelo pesadelo da queda sem fim na escuridão: "despenhadeiro da infância.".

"Mais longe, mais baixo, vejo     36
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu."          39

Os versos de 36 a 39 vão encerrar as etapas do desfile, a revista ao passado, a passagem dos blocos temáticos da vida do Eu lírico: a juventude e duas fases da infância, uma no aconchego do lar a outra no isolamento do colégio.
Os versos 37 e 38 e a referência ao menino sugerem a infância mais longínqua, já mergulhada e cristalizada no passado sem volta: o que passou, é passado. Resolvido está o que se tinha que resolver: O Eu lírico já nos disse lá atrás que tudo "se resolveu em dez anos.".
Do presente (v.1 a 3) para as imagens do passado (v.4 a 39), vimos o desfile de imagens, eventos e sentimentos do Eu lírico; a cada bloco temático da primeira parte do poema, o verbo "fluir" está no gerúndio, indicando movimento. O pretérito perfeito do verso 39 marca o fim do movimento no tempo.

PARTE 2. REFLEXÃO SOBRE O ONTEM E O AMANHÃ

O poema ganha uma nova dimensão dos versos 40 a 60. O Eu lírico, no presente da enunciação, e após passar em revista o tempo passado através de imagens marcantes da vida, avalia e reflete sobre as conquistas e as perspectivas do futuro.

"No quarto em forma de túnel  40
a luz veio sub-reptícia."            41

A imagem explica-se por si mesma: no final do túnel metafórico da passagem do tempo havia uma luz, que guia, ilumina e serve de referência para a chegada da travessia.

"Passo a mão na minha barba.    42
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados."            46

A sequência dos versos 42 a 46 vão repetir a sequência de metonímias que vimos no primeiro bloco de imagens do passado, entre os versos 4 a 9. Temos também encadeamentos e repetições de palavras e sons: "Tenho" quatro vezes e "experientes" duas vezes. Aliterações com as consoantes nasais /m/ e /n/.
Aprendemos com o Professor Ariovaldo que sempre que algo surpreenda no poema, que saia de uma lógica esperada – uma sequência de equivalências -, devemos observar o movimento feito pelo poeta porque ele quis dizer alguma coisa, por contraste. Ao interromper as repetições de “mãos experientes”, “calças experientes” e escolher a palavra “combinados” para “sinais”, o poeta pode ter sugerido que além do acúmulo de experiências diversas na vida, ele adquiriu também os cacoetes, as características oriundas de sua posição e classe social, como lemos no poema “A flor e a náusea”, ao dizer “Preso à minha classe e a algumas roupas,”.
Vemos novamente o belo efeito poético das metonímias: na primeira parte do poema, temos as palavras "camisa de doente", "dedo" e "cabelo" simbolizando o jovem Eu lírico; agora temos na segunda parte as palavras "cicatriz", "mãos", "calças" e "sinais" simbolizando o Eu lírico maduro, experiente, vivido.

"Se eu morrer, morre comigo   47
um certo modo de ver."            48

Após passar em revista imagens do tempo vivido, vemos um Eu lírico com plena consciência de seu olhar de mundo. Aliás, uma questão que fica em aberto para os leitores, a partir de uma análise material do poema, é sobre a ocupação do Eu: talvez ele tenha por profissão alguma função vinculada à escrita ou que traga o ponto de vista dele sobre os acontecimentos do mundo.

"Tudo foi prêmio do tempo      49
e no tempo se converte."         50

Nesse momento de reflexão do Eu lírico sobre a passagem do tempo, podemos sentir uma espécie de resignação a respeito do presente. Ele confessou pouco antes ser pessoa de posses, através da repetição - "tenho" -; venceu na vida, tem bens materiais e posição social: "Tenho sinais combinados.".
No entanto, o Eu lírico sugere a efemeridade de todas as conquistas. Todas as posses e posição social podem não significar nada, esse "tudo" pode ser "nada", bastando para isso que ele deixe de existir. É forte a tensão do poema neste momento: "Se eu morrer, morre comigo".

"Pressinto que ele ainda flui.       51
Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.
Como planta que se alonga
enquanto estamos dormindo."     55

Assim como vimos movimento e ritmo fluírem de forma acelerada nas imagens da juventude, entre os versos 4 e 9, agora o Eu lírico constrói entre os versos 52 e 55 imagens condizentes com o movimento e ritmo mais lentos da maturidade. O tempo flui como água "de rio sem correnteza." e com o ritmo lento com que crescem as plantas em vasos domésticos.

"Vinte anos ou pouco mais,       56
tudo estará terminado."             57

Uma imagem da existência não só resignada, como poderíamos dizer melancólica. Se ao passar em revista as imagens da juventude, o Eu lírico usou o verbo "resolver" para avaliar que tudo "se resolveu" no sentido de ter vencido na vida no sentido material e social, a sugestão que fica ao olhar para o futuro é bastante pessimista: de que adiantaria tudo que se conquistou se o prêmio final é a morte?

"O tempo fluiu sem dor.            58
O rosto no travesseiro,
fecho os olhos, para ensaio."    60

A reflexão iniciada nos versos anteriores prossegue, e sugere uma certa falta de sentido na vida, muitas vezes vivida de forma mecânica e automática - "O tempo fluiu sem dor." -, com certo automatismo entre as etapas a serem superadas, principalmente na adolescência e fase adulta.
O verso 59 repete a imagem do 1º verso, numa espécie de moldura das cenas passadas em revista e o verso 60 fecha o desfile, conclui as reflexões sobre a vida.
A palavra que fecha o poema – “ensaio” – cria uma tensão e um contraste com a posição passiva de quem só assiste a tudo na vida; abre-se, assim, perspectivas para o amanhã, possibilidades de mudanças, de criação de algo novo. De esperança.

ANÁLISE DO POEMA 

O TEMPO PASSA; A PALAVRA CRIA E REGISTRA

"Tudo foi prêmio do tempo
e no tempo se converte."

O título metafórico do poema "Desfile" vai ficando claro ao leitor à medida em que ele avança verso a verso, bloco a bloco das imagens do tempo que passou; não há separação em estrofes, mas há blocos temáticos até que se chega ao final do desfile, quando o Eu lírico - e poderíamos dizer o espectador - volta ao presente da enunciação e se prepara para o ensaio final.
De forma consciente, o Eu lírico passou em revista sua vida, infância e adolescência, voltando ao presente. Momentos de alegria e aconchego na tenra idade: "lamber de língua de cão/na face"; depois fragilidade e solidão na ausência do lar: "Estou perdido na névoa"; a juventude em busca de aventuras, amores, carreira: "E tento fazer poesia,/ queimar casas, me esbaldar"; por fim, a maturidade resolvida: "mas tudo/se resolveu em dez anos".
O Eu lírico tem consciência que todas essas etapas foram vencidas, que tudo se resolveu, e que tudo é finito e fugaz, pois "Vinte anos ou pouco mais,/tudo estará terminado.".
No entanto, há uma inconformidade com o sentido de tudo isso. É uma reflexão sobre o sentido da vida e sobre o tempo, que passa para todos.
O último verso, porém, sugere algo muito interessante. A palavra ensaio e o verbo ensaiar, tanto podem significar treinar, exercitar, quanto experimentar algo novo, colocar em prática algo; um ensaísta cria textos e ideias novas.
Fica para nós uma esperança: a vida pode ser algo mais que a mecânica das etapas biológicas e sociais da infância, adolescência, maturidade e velhice. Nada como experimentar, criar o novo, o belo, algo que tenha uma existência em si mesma, como a própria produção poética e literária, bem como as produções artísticas, para lidarmos com a efemeridade de uma vida humana.
No poema “Desfile” podemos ler a mensagem simbólica sugerida a nós pelo poeta: o tempo passa, a palavra cria e registra.

ANÁLISE INTERPRETATIVA

A leitura que fizemos do poema "Desfile", baseada na materialidade do texto, nos permite atingir o objetivo primário da leitura de poesia, sentir a "emoção estética" como nos diz o professor Antonio Candido, em "Os elementos de compreensão".
Como está elencado no início do trabalho, o conhecimento de alguns dados biográficos de Drummond pode contribuir para complementar e ampliar a compreensão do poema e, inclusive, a própria declaração do poeta evidencia essa possibilidade, falando sobre A rosa do povo: a obra "reflete um 'tempo', não só individual mas coletivo no país e no mundo".
Como nos ensina Candido, ao considerar os elementos não literários, como o fator individual e os fatores externos e sociais, o texto, que é um resultado, "só pode ganhar pelo conhecimento da realidade que serviu de base à sua realidade própria".
Podemos claramente ver o poeta mineiro em diversas passagens do poema em análise. Drummond já vivia e trabalhava na cidade do Rio de Janeiro, no momento de aparecimento da obra, anos quarenta. Daí a imagem de sair de uma cidade litorânea para um local "Sem mar nem derivativo,".
A infância e adolescência se passou num ir e vir entre Itabira, Belo Horizonte e Nova Friburgo. Ele estudou no Colégio Arnaldo, na capital mineira, e interrompe os estudos por problemas de saúde. Poderíamos até ver essa passagem nos versos 4 e 5: "Como remédio entornado/em camisa de doente;".
Esteve mais tarde no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, de onde seria expulso por sua natureza "insubmissa" e "anarquista", como vemos neste poema, nos versos 13 e 14 - "o corpo era bem pequeno/para tanta insubmissão." - e também no "A flor e a náusea", do mesmo livro: "Ao menino de 1918 chamavam anarquista.".
Uma década depois, nos anos trinta, Drummond já estava casado, com uma filha, trabalhando no serviço público, para o governo federal: o poeta já estava "Preso à minha classe e a algumas roupas", como o Eu lírico afirma no 1º verso de "A flor e a náusea".
Enfim, a leitura do poema ganha um acréscimo de sentidos ao ligarmos a materialidade do texto aos fatores externos a ele, não literários. Candido diz: "a compreensão da obra não prescinde a consideração dos elementos inicialmente não-literários. O texto não os anula, ao transfigurá-los e, sendo um resultado, só pode ganhar pelo conhecimento da realidade que serviu de base à sua realidade própria". (CANDIDO, 1975, p. 34-36)
Vale a pena também, comentarmos o quanto a obra é repleta de poemas nos quais o Eu lírico aborda temáticas que aparecem e se repetem no poema “Desfile”. Uma das principais é a matéria "tempo", boa parte dos poemas tratam dessa temática. Vejamos essa sequência de poemas de A rosa do povo: "Nosso tempo", "Passagem do ano", "Passagem da noite", "Uma hora e mais outra", "Nos áureos tempos", dentre outros mais.
Apesar de vários poemas na obra e talvez o poeta mesmo parecerem melancólicos e pessimistas, há sempre nos poemas de Drummond uma luz, um toque de humor, uma possibilidade de leitura com esperança, como apresentamos na leitura da palavra "ensaio" ao final da análise geral do poema, no plano de sentidos mais literal.
O “Poeta do finito e da matéria”, como se apresenta em “Consideração do poema”, nos presenteou com um poema reflexivo, que nos põe a pensar na passagem do tempo, nas dificuldades e superações da vida, e nas perspectivas que se tem pela frente. A arte poética cria e registra e complementa a vida fugaz e passageira.

BIBLIOGRAFIA:

ANDRADE, Carlos Drummond. A rosa do povo. 19ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1998.
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37ª edição, revista e ampliada. 16ª reimpressão. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2006, p. 628-645.
CANDIDO, Antonio. "Os elementos de compreensão". Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 5. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, 1º vol., p. 34-36.
CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. 3ª edição. São Paulo: Humanitas Publicações/FFLCH/USP, 1996.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

Site da Biblioteca Nacional: https://www.bn.gov.br/es/node/514 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (VII)



A rosa do povo (1945), Drummond.
(Atualizado em 20/10/19)

Refeição Cultural

Uma das disciplinas que estou cursando neste semestre na graduação em Letras na Universidade de São Paulo é Teoria Literária II. O programa da disciplina ensinada a nós pelo professor Ariovaldo Vidal tem por objetivo central "o exercício da leitura detalhada do poema, vendo o rigor da forma literária em alguns nomes da poesia brasileira moderna". Estamos estudando Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Cecília Meireles.

Para mim, cada aula sobre poesia é uma descoberta, mesmo já tendo este aluno que vos fala ultrapassado a metade de sua vida de estudos e busca de conhecimentos. Este blog não tem pretensões grandiloquentes de querer ditar normas ou regras de nada. É só lembrarmos que o objetivo dele é compartilhar reflexões literárias e filosóficas, e também aquilo que aprendo nas aulas que frequento. Não sou nenhum "caga-regras". Reafirmo essa condição aqui.

Os alunos terão que escolher um dos poemas sugeridos pelo professor para fazerem o trabalho de conclusão da disciplina. Eu escolhi o poema "Desfile" de Carlos Drummond de Andrade, contido no livro A rosa do povo, de 1945. Das sugestões dadas, escolhi o poeta ao qual tenho mais afinidade, mesmo sabendo que Drummond é um poeta que exige um bom conhecimento de seus leitores críticos.

Já ganhei muito em estar cursando a disciplina de Teoria Literária II cuja temática escolhida pelo professor foi "Leitura Analítica, Leitura da Lírica", assim como ganhei em estar cursando as outras disciplinas de línguas e literaturas que estou fazendo nesta volta à graduação em Letras para completar algumas matérias do bacharelado em Português e Espanhol. Quero aprender algo novo até completar minha outra metade da existência, que pode ser de um instante, como é a própria vida, um sopro, um suspiro.

Vou ficar nos próximos dias lendo o poema "Desfile", buscando compreendê-lo, analisando questões interessantes contidas nele, ficar refletindo sobre o poeta que tanto admiro e sobre o livro A rosa do povo, que me toca profundamente, pois é um livro tenso, dramático, característico de seu tempo, 1945. Independentemente de agradar ou não a análise final que farei para o nosso professor, cada volta ao poema será um ganho do leitor, deste leitor ao menos, e isso basta para mim.

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DESFILE

O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Como remédio entornado
em camisa de doente;
como dedo na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.
Já não tenho cicatriz.
Vejo-me noutra cidade.
Sem mar nem derivativo,
o corpo era bem pequeno
para tanta insubmissão.
E tento fazer poesia,
queimar casas, me esbaldar,
nada resolve: mas tudo
se resolveu em dez anos
(memórias do smoking preto).
O tempo fluindo: passos
de borracha no tapete,
lamber de língua de cão
na face: o tempo fluindo.
Tão frágil me sinto agora.
A montanha do colégio.
Colunas de ar fugiam
das bocas, na cerração.
Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido.
O mundo me chega em cartas.
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância.
Mais longe, mais baixo, vejo
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu.
No quarto em forma de túnel
a luz veio sub-reptícia.
Passo a mão na minha barba.
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados.
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.
Tudo foi prêmio do tempo
e no tempo se converte.
Pressinto que ele ainda flui.
Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.
Como planta que se alonga
enquanto estamos dormindo.
Vinte anos ou pouco mais,
tudo estará terminado.
O tempo fluiu sem dor.
O rosto no travesseiro,
fecho os olhos, para ensaio.


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Gente, que poema maravilhoso! Confesso que já sinto por ele uma simpatia imensa. O Eu lírico nos convida a ver seu "Desfile", mais que isso, nos instiga a assistir a outros desfiles, o desfile do nosso Eu, por exemplo, quando vai do presente ao passado e volta para cá.

Relação produtiva teremos esse poema e eu nos próximos dias.

William, um leitor.


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 1998.

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CONTINUAÇÃO DA LEITURA

O professor nos ensina que a metodologia de leitura de um poema é composta de três etapas: comentário, análise e interpretação.

Na etapa de comentários, verificamos o léxico, buscamos informações que situem melhor o contexto do poema, obra, autor, história, dentre outros fatores que se fizerem interessantes para melhor análise e interpretação do poema.

No meu entendimento, porque por mais objetivos que devam ser os comentários, uma ótica subjetiva haverá: a ótica do próprio leitor do poema. Enfim, no meu entendimento, dados biográficos do autor vão ser importantes na interpretação desse poema.

COMENTÁRIOS RELEVANTES PARA A ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DO POEMA

Algumas informações serão relevantes para complementarem a leitura que pretendo fazer do poema, leitura baseada na materialidade do poema; informações que podem fortalecer os argumentos utilizados na hora da construção das hipóteses propostas na leitura.

DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR, C. D. A.

Drummond estava com 43 anos quando publicou A rosa do povo, seu 5º livro de poesia. Antes, havia publicado Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940) e Poesias, contendo o poema "José" (1942). Já li várias vezes os três primeiros livros e gosto muito deles.

Dados sobre infância e adolescência do autor podem nos interessar na interpretação do poema em análise. Drummond nasceu em 1902 em Itabira do Mato Dentro (MG). Aos 13 anos, trabalhou alguns meses como caixeiro na casa comercial de Randolfo Martins da Costa. Na "Cronologia de vida e Obra", contida na edição que tenho da Editora Record, uma informação chama a minha atenção ao dizer que a casa comercial "em retribuição a seus serviços, lhe oferece um corte de casimira".

A transição entre fases da vida parece marco importante na vida do Eu lírico, vemos um traço disso no verso 33: "primeira calça comprida".

Aos 14 anos, Drummond vira aluno interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Ele interrompe os estudos por problemas de saúde.

Aos 16 anos, ele está novamente enclausurado no Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo (RJ). O jovem poeta parece ter uma natureza indômita, nada dócil, pois ao fim do ano letivo de 1919 (17 anos) é expulso do colégio "em consequência de incidente com o professor de Português".

No poema, o Eu lírico vai dizer nos versos 13 e 14: "o corpo era bem pequeno/para tanta insubmissão".

Drummond muda-se para a cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, em 1934, como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, novo ministro da Educação e Saúde Pública. Já era casado, já tinha perdido um filho, que viveu alguns instantes ao nascer, e tinha uma filha, Maria Julieta, nascida em 1928.

Finalizando esta parte do comentário sobre seus dados biográficos até a publicação de A rosa do povo, temos o poeta e escritor residindo na capital federal, a cidade do Rio; já era um poeta reconhecido aos 43 anos de idade; após publicar por conta própria seus primeiros livros, teve o livro Poesias, custeado e editado pela Editora José Olympio, em 1942.

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(seguimos depois...)

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (VI)


Cerejeira uspiana nas proximidades da Letras.

(Atualização em 21/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de Teoria Literária II, matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, é de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

Este é um espaço de compartilhamento gratuito de conhecimento, informações e opiniões, dentro do conceito Wiki (What I Know Is).

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Aula de 20/08/19 (Continuação)

Leitura do poema "Encomenda", de Cecília Meireles, poema que pertence à obra Vaga música (1942).

ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles, Vaga música (1942)

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As leituras de poemas em sala de aula serão de introdução para que os alunos desenvolvam a capacidade da leitura crítica. O Professor terá pouco mais que uma aula por poema, de maneira que caberá ao aluno aprofundar a capacidade de percepção com os textos críticos e estudos pessoais.

O poema em questão traz muito da poética da autora. Ele é rimado e tem 3 estrofes. A tradição clássica pesou na obra poética de Cecília Meireles.

Vemos que o poema é moderno. Ele não seria do século XIX ou anterior. É do nosso tempo. É do período posterior à vanguarda modernista.

Por que ele não seria de outros períodos e séculos anteriores? A matéria que trata é do cotidiano, é corriqueira, é matéria prosaica. É alguém que vai encomendar uma fotografia.

O Professor nos diz que os românticos faziam isso, mas eles já eram modernos.

O prosaico da cena se completa com outro plano prosaico: o plano da linguagem. Temos aqui uma forma clássica numa linguagem e tema prosaicos.

O poema é muito sugestivo, algo característico nos poemas modernos. São versos simples dotados de sugestão; imagens com algo que vai além do prosaico.

Até o Modernismo, as imagens eram mais explícitas nos poemas. Depois das vanguardas e com as novas poéticas, passaram a ser mais sugestivas.

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O Professor cita como exemplo de imagens mais sugestivas o poema de Drummond "Cota Zero" do seu primeiro livro Alguma Poesia (1930).

"COTA ZERO

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?"

COMENTÁRIO (meu, não do Professor): Ao situarmos esse poema de Drummond com o todo de Alguma Poesia, fica mais fácil compreendermos as temáticas que o poeta aborda na obra, poemas como "A rua diferente", "Poema que aconteceu", "Poema do jornal", "Sinal de apito", dentre outros, nos quais o poeta lida com a chegada do futuro que trouxe tecnologias que colocam em segundo plano os seres humanos, a velocidade das mudanças nas coisas do dia a dia, e a posição de um Eu lírico que não necessariamente exalte de forma positiva essa chegada do futuro como faziam os vanguardistas de sua época como, por exemplo, os futuristas.

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Voltando a Cecília Meireles...

O poema "Encomenda" contém 3 estrofes. E aí? A poetiza teria errado? Sentimos no poema que há algo fragmentado. O Eu lírico parece não ter esgotado o assunto. Ele poderia ter sido mais explícito após a 3ª estrofe.

Temos aqui outra característica interessante da modernidade. Os versos são rigorosos na forma, mas parecem ser parte de um todo que não está explícito ali. Marcas do tempo. Fragmentos. Esses são traços decisivos na poesia moderna.

IMPRESSÕES DOS ALUNOS

Após uma terceira leitura do poema em sala de aula, os alunos falam de suas impressões: temos a ideia de uma ausência, de uma falta ("uma cadeira vazia"). Existe uma certa tensão em relação ao tempo. A fotografia retém o tempo; o eu lírico não consegue reter o tempo. 

Vemos também no Eu lírico uma ambivalência em relação às marcas do tempo. Da mesma forma que o Eu lírico pede que o fotógrafo corrija a "testa sombria" pede também que "derrame luz na minha testa", vemos no Eu lírico o medo do artifício, do falso, e a busca de uma verdade. 

"Deixe a ruga" e "Não meta fundos de floresta/nem de arbitrária fantasia..."

Qual o tom do Eu lírico no poema? É importante tentar captar o sentimento.

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COMENTÁRIO: vou finalizar essa parte da aula e recomeçar depois. Como já disse em alguma postagem dessas sobre aulas, é difícil organizar anotações corridas em uma postagem minimamente coerente e inteligível. Cheguei num ponto das anotações no qual preciso parar para estudar alguns textos críticos para compreender algumas questões sobre figuras de linguagem e outras coisas. Sincero eu, né?

Enfim, a postagem segue depois...

William

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21/10/19, RETOMANDO A POSTAGEM DA AULA

Metáfora ou Metonímia? Quais figuras de linguagem aparecem no poema? O título "Encomenda" é metafórico ou metonímico?

Eu interrompi a postagem para estudar um texto que o professor Ariovaldo produziu para facilitar o nosso entendimento a respeito de algumas figuras de linguagem. Ele nos explica em seu texto Antítese, Oxímoro, Símile, Metáfora, Metonímia e Sinédoque.

O título

No poema de Cecília Meireles, "Encomenda" é um título metonímico, está no contexto do poema. De fato, no plano da linguagem literal temos um poema que aborda a encomenda de uma reprodução de fotografia. É um contexto prosaico e comercial. O Eu lírico vai até um estabelecimento comercial para encomendar uma fotografia e dá algumas instruções de como quer que a encomenda seja feita.

Quando o título é metafórico, o sentido está de forma alegórica, em outro plano da linguagem.

Atenção: o fato do título deste poema de Meireles ser "Encomenda" e não "Fotografia", por exemplo, já é outra coisa. Aqui já seria possível analisar e interpretar através de um estudo dos sentidos do poema.

O título é importante, ele concentra o sentido do todo. É interessante refletir e entender o título ao final da leitura do poema, mais que no início.

1ª estrofe

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

A palavra "desejo" abre o poema, no 1º verso. Se lembrarmos a relação comercial entre um cliente e um estabelecimento, teremos essa expressão nela: o que a senhora deseja? Desejo...

Na poesia tudo pode ser ambíguo. A palavra atende à camada aparente, mas também a que está em outro plano da linguagem.

O Eu lírico está falando de algo profundo, a encomenda de algo que mexe com a sua subjetividade, o desejo implica dois planos:

- o comercial, de compra e venda de um produto;
- o metafórico, que se refere à interioridade do Eu lírico.

Planos de sentido

2º verso: "como esta - o senhor vê? - como esta"

Os poemas modernos, prosaicos, têm um plano de sentido para além daquele que está explícito na linguagem aparente.

Além da reprodução do cenário da foto em si, vemos aqui o desejo de reprodução de uma condição, de um contexto que está na foto, daquela felicidade que se vê nela.

Os versos vão adentrando no plano subjetivo, mas devemos ficar atentos também ao plano mais objetivo do texto, o comercial.

A foto de modelo passa uma ideia de tempo, foto antiga, meio apagada. No presente, o Eu lírico já não é propriamente jovem, essa seria a ideia. A festa teria sido recentemente? Não parece. Poderia ser uma foto da juventude ou da infância? Talvez.

O poema tem uma construção muito interessante. O plano aparente, o plano comercial, não é interrompido, ele vai até o fim do poema. Ao mesmo tempo, a cada verso, a cada estrofe, o Eu lírico vai apresentando o que quer e o que não quer daquele instante captado na foto e que se vai reproduzir. Vemos aqui a busca do sentimento de alegria e felicidade registrado naquele momento do passado.

O professor nos falou também sobre a sonoridade da 1ª estrofe.

2ª estrofe

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


Em que sentido a 2ª estrofe amplia o sentido da 1ª?

O Eu lírico continua descrevendo ao fotógrafo como quer a fotografia. A condição atual do Eu lírico está presente na cena e não na foto antiga, que servirá de modelo.

TEMPOS VERBAIS: no 3º verso da 1ª estrofe temos o registro de um passado feliz - "em que para sempre me ria". O pretérito imperfeito dá o tom de felicidade continuada. Na 2ª estrofe temos o presente da enunciação. Os verbos são todos do presente, inclusive no imperativo, dando ordem: "derrame"; "deixe".

METONÍMIA: "testa sombria" - estranhamento. Testa está no lugar de outra palavra.

O professor nos explica que o sentido é metonímico quando se substitui um termo abstrato por um termo concreto. "testa sombria" = "olhar sombrio", "alma sombria", "pensamentos sombrios". Seria algo da interioridade do Eu lírico.

Na 2ª estrofe temos uma mudança em relação à 1ª. Nesta, sensação de eterna festa, alegria; naquela, sentimento mais sombrio, meio deprimido, contido.

SONORIDADE: "Comtenho a testa sombria" - "t" e "b" som explosivo, duro. Toda consoante nasal tem algo de fechado, interior: "m", "n", "m". A vogal "i" tônica é muito forte no final do verso, isso dá um contraste interessante.

"derrame luz na minha testa" - escolha verbal estranha. Derramar luz, algo cinestésico. Tem um sentido superior, como um batismo onde se derrama alga simbolizando o Espírito Santo.

Lembrar: quando um poema é prosaico, teremos algo de sentido superior, em outro plano de linguagem.

(segue depois...)