segunda-feira, 1 de junho de 2026

Instantes de leituras



Refeição Cultural

"(...) para aquela coisa clandestina que era a felicidade." (p. 314)

No conto "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector, sobre uma menina que conseguiu emprestado o livro "As Reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato.

Comentário: fiquei pensando na felicidade clandestina pelo simples fato de poder ler... não tive muita felicidade quando não pude ler e quando pude ler e não li... talvez a felicidade seja alguma coisa clandestina mesmo.

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"Queria e já não podia contar. E não poder contar o isolava definitivamente, como se, a partir dali, tivesse mudado de lado, passado para a outra margem. Dava adeus ao que vinha sendo, a tudo que era - ao dia-a-dia, aos negócios, ao confortável cotidiano. Mas lutava. Para qualquer nova emergência, não seria apanhado desprevenido. Obsessivamente, arquivava, armazenava traço por traço do sócio, seu rosto de sempre, inesquecível, doravante inescamoteável." (p. 323)

Comentário: no conto "O elo partido", dos anos setenta, Otto Lara Resende nos apresenta um executivo que começa a ter uns lapsos de memória no seu cotidiano. O tema é muito atual por causa das inúmeras doenças neurológicas que acometem as pessoas neste início de segundo quarto de século XXI.

("Dava adeus ao que vinha sendo, a tudo que era..." - pensei na minha dificuldade de ver as letras na página por causa das manchas escuras e opacas entre mim e o mundo, fruto do descolamento de humor vítreo nesta semana... adeus ao que vinha sendo, a tudo que era... - não quero me deprimir, tenho meus textos nos blogs para finalizar a sistematização...)

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"Zequinha pegou a Magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá." (p. 336)

Ao ler o conto "Feliz ano novo", de Rubem Fonseca, uma porrada no leitor, fiquei pensando minhas teorias sobre o instante da vida, sobre o inesperado, o imponderável que vem e muda tudo num segundo, como aconteceu com as pessoas que cruzaram o caminho dos personagens do conto.

De repente se tromba com um Zequinha ou um Pereba, de repente se acorda com a vista toda fodida, sem enxergar mais, de repente um AVC ou infarto. E a vida nunca mais será a mesma...

Feliz ano novo pra vocês, amig@s leitores, pois todo dia é novo.

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"- Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais..." (p. 362)

Comentário: ao ler o conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, e após um curto diálogo em casa, fiquei um tempo pensando na minha vida. Vi em segundos as décadas de existência e as pessoas que fizeram parte do meu ambiente cultural...

Concluí que fui uma espécie de Lulu Bergantim e o Sindicato foi a prefeitura de Curralzinho na minha vida de Lulu. Independente de meus problemas, trabalhei pra caralho lá. Depois voltei pro lugar de onde vim. É isso.

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"A moça chegou com sapatinho baixo, saia curta, cabelos lisos castanhos arrumados em rabo-de-cavalo, sorriu dentes branquinhos muito pequenos, como de primeira dentição, e falou o senhor me deixa telefonar? de maneira inescapável." (p. 434)

Comentário: o conto "Bar", de Ivan Ângelo, na seleção de contos dos Anos 80, lido neste momento, no Brasil de 2026, no Brasil pós abertura da Caixa de Pandora com o Golpe de 2016 "Com o Supremo, com tudo", do Brasil revolucionado por Bolsonaro e o bolsonarismo, do Brasil da epidemia de violência de gênero, é de uma realidade estrutural incrível em relação à condição das mulheres! É como se fosse mais uma notícia cotidiana dessa epidemia macabra que assola o país... terminei a leitura querendo exterminar os homens... (e sei que não é assim que se resolve a questão).

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