Os moleques chamaram a Telma de macaca. Estávamos brincando na frente da casa dos tios, na Rua Ricardo Cipicchia, atrás do colégio Adolfino, na pracinha do campinho.
A maneira de defender minha irmã das ofensas foi tacar pedra nos garotos preconceituosos. Eles estavam na quadra, uns trinta metros de distância.
A gente devia ter uns oito ou nove anos de idade. Eu era o mais novo no grupo. Ofensa ou desaforo na rua era respondido na pedrada.
O acidente foi muito rápido. Enquanto eu fiz o gesto pra tacar a pedra lá pra baixo, a Ione, que havia abaixado pra pegar uma pedra, levantou-se e ficou bem na minha frente.
Minha pedrada pegou bem no rosto dela... foi horrível! Na hora era só sangue na região do olho e depois no rosto e pescoço.
Foi aquela correria... choro, susto de todo mundo, os adultos bravos, a Ione acolhida pra ver se machucou muito etc.
A pedrada pegou logo abaixo do olho, por sorte. Ela levou ponto lá no Pronto Socorro da Lapa, pois na farmácia do seu Paulo, na Avenida Rio Pequeno, não tinha como fazer o procedimento.
Todo mundo ficou de castigo. Era o dia do enterro de um tio da Ione e a gente atrasou tudo.
As crianças mentiram coletivamente. Disseram que a pedrada foi de um dos meninos no campinho. Nem sei quanto tempo levou pra falarmos a verdade para os adultos.
A infância no Rio Pequeno foi cheia de pequenos machucados sem gravidade envolvendo pedradas, latadas, dentadas, tombos de bicicletas... fomos criados na rua.
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Instantes de uma vida

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