domingo, 18 de outubro de 2015

Diário - 181015



Um Por do Sol visto da janela de casa em Brasília.

Refeição Cultural


"Toda escrita depende da generosidade do leitor" (Manguel)

Este blog Refeitório Cultural tem um histórico e uma funcionalidade que foram variando ao longo do tempo. Já são quase oito anos no ar.

Eu o criei porque queria escrever sobre cultura, porque queria digitar e postar minhas aulas do curso de Letras, feito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Pensei desde o início em escrever sínteses, comentários e exegeses dos livros que sempre sonhei em ler.

Ao longo do tempo, os temas foram mudando e as funcionalidades também. O blog assumiu um papel não muito ideal de ser personalista, abrigar mais questões pessoais do que do mundo da cultura. Mas não tenho como interromper este processo. Minha vida hoje é praticamente dedicada ao trabalho e às tarefas inerentes a ele. Não me sobra tempo para ler e fazer meus comentários sobre o que li. Muito  menos para refletir sobre grandes temas da dimensão humana e escrever com a técnica adequada.

No entanto, as coisas são interessantes. Meu pai tem 73 anos e, apesar de suas dificuldades e muitos problemas de saúde, ele, com seu jeito todo esforçado de sentar em frente ao computador e se manter ativo, aprendeu a entrar em meu blog e ler o que eu escrevo. Nós temos pouco tempo para nos falarmos e moramos a centenas de quilômetros de distância. Mas com essa nova funcionalidade de meu blog, não quero demorar muito a escrever aqui, porque pelo menos meu pai vai ler.

É maluco tudo isso. Um blog pode ter várias funcionalidades. Este era para compartilhar conhecimento, opiniões e coisas da cultura. Acabou que, além disso, ele tem as pessoalidades normais e expositoras do autor, que não foge ao estilo comum da sociedade moderna do selfie e da disputa de espaço por atenção na rede mundial.

Como o blog acaba sendo um pouco um diário, um monólogo de mim para comigo mesmo, é muito interessante quando leio o que o autor (eu) escreveu para o leitor do amanhã e esse leitor no amanhã sou eu mesmo.

Eu reaprendo quando releio. Eu corrijo até erros de digitação e de gramática. Eu mudo o tipo da fonte da letra utilizada. Coloco uma imagem quando estava sem nenhuma. Faço comentários no tempo presente no próprio texto feito no passado. E, o mais importante, categorizo melhor a postagem - muito ao estilo dos "Ordenadores do Universo" do Manguel. Isso facilitará a procura no meu próprio blog, que tem quase mil e trezentas postagens.

Eu li um pouco hoje do livro de Alberto Manguel, Uma história da leitura. Li dois capítulos: o capítulo "Ordenadores do Universo" e outro capítulo que aborda a pré-história do escrever, registrar a escrita, com os antigos escribas da região da Mesopotâmia e, consequentemente, da criação do ato de ler, porque passou a ter escritos para serem lidos.

Fiquei pensando muito nisso. E lembrei que eu mesmo tenho muitos escritos para serem lidos. Escritos ao longo de décadas de vida, para serem lidos por mim mesmo, que já não sou aquele que escreveu, sou outro. No próprio blog, ler o que registrei há quase uma década é uma experiência de conhecimento pessoal diferente.

É isso. Não vou tuitar, nem por no face essa postagem. Talvez alguém leia, além de meu pai. Provavelmente eu leia daqui a cinco anos.

Willliam

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