terça-feira, 16 de setembro de 2008

Stanislaw Ponte Preta - um heterônimo de Sérgio Porto (2008)




Refeição Cultural - 6

Alimentei-me na literatura de José Saramago pela manhã com a leitura de Ensaio sobre a lucidez.

Li também uma reportagem sobre Sérgio Porto, criador de Stanislaw Ponte Preta. Como tento manter minha humildade em relação às lacunas culturais, digo que não sabia quem eram criador e criatura. Mesmo!! (Agora já sei alguma coisa - plantei a semente)

Acabei de ver uma informação importante sobre Saramago. Ele passará a se manifestar com opiniões através de seu sítio na internet. Temos que aproveitá-lo ao máximo.


Veja matéria de O Estadão sobre Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta:

Sérgio Porto, o retrato do presente

Livro de inéditos e dispersos, A Revista do Lalau mostra a intensa curiosidade intelectual do jornalista carioca, morto há 40 anos


Francisco Quinteiro Pires

Stanislaw Ponte Preta é herdeiro do humorista Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé. Inventor do Febeapá - Festival de Besteira que Assola o País -, Stanislaw praticou um humorismo que inspirou O Pasquim e as sacanagens obsessivas da turma do Casseta e Planeta. O Febeapá parece atemporal no Brasil, país do eterno retorno, onde as coisas mudam para ficar iguais. Stanislaw é, a uma só vez, retrato de uma época e deste presente.

Mas a edição de A Revista do Lalau (Agir, 272 págs., R$ 89,90), livro de textos inéditos e dispersos, e uma consulta ao Arquivo Biográfico Sérgio Porto na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) revelam que nem só de Stanislaw Ponte Preta é feito um Sérgio Porto (1923-1968).

"O leitor atual não tem noção da multiplicidade intelectual e do nível de curiosidade desse sujeito", diz Paulo Roberto Pires, editor da Agir. Sérgio Porto escreveu sobre cinema e música, foi cronista da noite e de futebol, além de ter trabalhado na televisão e no rádio, e elaborado scripts de shows e composições (Samba do Crioulo Doido).

A Revista do Lalau, esteticamente idealizada para se parecer com um periódico dos anos 50 (Sérgio Porto trabalhou na Cruzeiro e na Manchete), contempla essas faces do jornalista carioca, um dos responsáveis pela renovação da linguagem na imprensa. "Além de ser um inventor de tradições, ele soube traduzir nas crônicas a linguagem do morro para a classe média", diz Cláudia Mesquita.

Um dos textos de A Revista..., que traz fotos do arquivo da família, é A Pequena História do Jazz (1953), primeiro livro de Sérgio Porto. Sérgio exaltava Louis Armstrong e Pixinguinha. "Ele era conservador em termos musicais", diz Cláudia. O jornalista criticou a Bossa Nova, a Jovem Guarda e a Tropicália. Seu gosto pelo samba vem do contato com Lúcio Rangel, seu tio, e com Almirante, cujas pesquisas sobre a música brasileira são fundamentais até hoje. Sérgio, a quem se atribui a invenção do termo bossa nova, promoveu o trânsito dos artistas do morro na zona sul. Redescobriu Cartola em um lava-rápido e ajudou Nelson Cavaquinho a pagar alguns móveis. Um dos traços do seu caráter era a generosidade.

O Elefante, outro dos textos, é um conto, gênero pouco praticado pelo humorista. Ele foi censurado. "É uma alegoria contra a ditadura militar", diz Paulo Roberto Pires. Apesar de ser um defensor apaixonado de Copacabana, onde morou durante toda a vida, Sérgio Porto escreveu Garota de Ipanema, uma novela sobre o bairro vizinho. Defendia com paixão, mas não era cego. Ele não vendia a imagem de Copacabana como a princesinha do mar, segundo Cláudia. Ele era nostálgico de um tempo em que os laços afetivos eram mais bem atados, quando os vizinhos se conheciam pelo nome.

Além do calendário das certinhas do ano de 1968, A Revista do Lalau publica O Transplante, romance inacabado. Garoto Linha Dura, livro de crônicas, tem previsão de chegar às livrarias no começo do próximo ano. As certinhas do Lalau, principal feito de sua passagem pela Manchete, nasceu de uma brincadeira com o colunista social Jacinto de Thormes. Em 54, o "coleguinha" publicou uma lista das Mulheres Mais Bem Vestidas do Ano. Stanislaw Ponte Preta, para não ficar por baixo, inventou a lista das Mulheres Mais Bem Despidas do Ano. Dois anos depois, Jacinto mudou o nome para As Mais Elegantes do Ano. Aparecer entre as certinhas se tornou a ambição das vedetes da época.

A Revista do Lalau é o sétimo título lançado pela Agir. E uma oportunidade de conhecer a multiplicidade do inventor da família Ponte Preta, composta por Stanislaw, Tia Zulmira, Primo Altamirando e Rosamundo, moradores de um casarão suburbano na Boca do Mato. "Toda uma geração não o conhece", diz Ângela Porto. Uma das três filhas de Sérgio com Dirce, Ângela lembra que o sumiço das obras do pai nas livrarias começou a partir de meados dos anos 1970.

Ângela trabalhou na Fundação Casa de Rui Barbosa entre os anos 80 e 90. Doou um acervo com material variado, de cartas a textos de e sobre Sérgio Porto publicados na imprensa. "Somente um terço do que ele produziu foi publicado em livro", calcula Cláudia Mesquita. Para escrever De Copacabana a Boca do Mato, Cláudia teve de pesquisar no acervo. Como ela buscava o Sérgio por trás de Stanislaw, o arquivo era o lugar ideal, por reunir as crônicas dispersas. No lançamento da biografia, Ângela vai fazer doações inéditas: uma agenda telefônica e cartas escritas por Sérgio para a esposa e a mãe. É mais um passo para entender um homem que via a cultura como instrumento de solidariedade. Se Sérgio se resolveu com Stanislaw, agora é a posteridade que pode acertar contas com o jornalista carioca.


Frases

"Capitalismo é a exploração do homem pelo homem. Socialismo é o contrário"


''O que seria do doce de coco se não fosse o circunflexo?"


"Quanto menor o exército, maior o quepe do general"


"Política tem esta desvantagem, de vez em quando o sujeito vai preso, em nome da liberdade"


"Do jeito que a coisa vai, o terceiro sexo ainda acaba em primeiro"


TIA ZULMIRA E EU: Publicado em 1961, este livro apresenta o perfil e as histórias de Tia Zulmira, a matriarca da família Ponte Preta, à qual pertencem Primo Altamirando e Rosamundo, além de Stanislaw, que assina esta obra.


FEBEAPÁ 1, 2 e 3: O Festival de Besteira que Assola o País começou em 1966, e resultou em mais de 250 casos. Uma invenção de Stanislaw Ponte Preta para falar dos absurdos do Brasil, onde ignorância e brutalidade se misturam.


PRIMO ALTAMIRANDO E ELAS: Em 1962, Stanislaw reuniu as histórias do Primo Altamirando, parente abominável que foi expulso, aos 5 anos, do jardim de infância, por difamar São Francisco de Assis. O resto nem é bom imaginar.


ROSAMUNDO E OS OUTROS: Não há sujeito de presença tão ausente quanto Rosamundo das Mercês. Filho de Tia Zulmira com um bicheiro, ele nasceu após 10 meses de gestação. Essas histórias foram publicadas em 1963.


A CASA DEMOLIDA: As crônicas que mostram o talento literário de Sérgio Porto foram publicadas em 1958, com o título O Homem ao Lado. Feitos alguns ajustes, saiu A Casa Demolida em 63, textos arquitetados pela memória.


AS CARIOCAS: Em 1967, Sérgio Porto tentava se distinguir de Stanislaw. Esta é uma coletânea de seis novelas sobre mulheres cariocas, conhecidas pelo bairro onde vivem, como a Desinibida do Grajaú e a Desquitada da Tijuca.


A utopia de um melancólico

Para estudiosa, Sérgio Porto/Stanislaw foi pioneiro em sinalizar que Rio viraria "cidade partida"

Francisco Quinteiro Pires


Conta-se por aí que, no dia 29 de setembro de 1968, Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta chegaram juntos ao céu. Ambos sofreram um infarto na mesma hora. Segundo se imagina, estando lá em cima eles puderam acertar as contas pendentes. Uma delas era a confusão corriqueira que se fazia com os dois: Sérgio e Stanislaw eram a mesma pessoa. Que grande equívoco! Quase 40 anos após sua morte, Sérgio Porto deixa como legado a ideia de que é possível apostar na imaginação e no humor como projetos humanistas. Ele é o criador de Stanislaw Ponte Preta, personagem do qual se tornou escravo por conta do sucesso.

Essa é a opinião da historiadora Cláudia Mesquita, autora da biografia De Copacabana a Boca do Mato: O Rio de Janeiro de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta (Edições Casa de Rui Barbosa, 332 págs., R$ 20), que será lançada na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, hoje, às 17 horas. Cláudia participa de debate com Ângela Porto, uma das três filhas de Sérgio, a historiadora Isabel Lustosa e Paulo Roberto Pires, editor da Agir, que está relançando as obras do jornalista carioca. A Revista do Lalau, com textos inéditos e dispersos, chega às livrarias no fim deste mês.

Cláudia desenvolveu a tese de que, em vez de pseudônimo, Stanislaw é o heterônimo (por ter personalidade distinta) de Sérgio, com o qual sintetizou duas culturas, a da zona norte (Boca do Mato) com a da zona sul (Copacabana), e dois cariocas, o solar (o homem de praia) com o noir (o cronista da noite).

"Com o heterônimo, Sérgio Porto uniu uma cidade que começava a se tornar ?partida? pela modernização do Rio", diz Cláudia. A solidariedade, vencida pelo crescente egoísmo, deixou de ser prática cotidiana para se tornar utopia do passado. E objeto de idealização, fenômeno que permanece até hoje: os anos JK e o advento da bossa nova são lembrados como o momento exemplar de um país otimista e feliz. "Mas nem tudo era felicidade", ela diz. "Talvez a explicação para essa visão atual esteja na necessidade de se voltar ao passado para fugir do presente", arremata.

Quando Cláudia Mesquita diz que o Rio é um espaço dividido, ela se refere ao livro A Cidade Partida, do jornalista Zuenir Ventura. Durante 10 meses, ele frequentou a favela de Vigário Geral e acompanhou a mobilização da sociedade civil contra a violência, o que resultou no movimento Viva Rio. Asfalto e morro se encontravam para se aniquilar. Cláudia diz que a separação abissal entre zona sul e subúrbio, microcosmo do que ocorre em território nacional, começou com a transferência da capital para Brasília, em 1960, mesma época da criação da "cultura do carioquismo". "A mudança da capital provocou a vontade de criar uma identidade carioca, era uma compensação pela perda do status", ela explica.

Nos anos 1950, com a modernização da imprensa brasileira, os cronistas ganharam uma legitimidade inédita. "Sérgio Porto era o mais carioca dos cronistas." Mas a consolidação do carioquismo precisou de "estrangeiros": Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, (mineiros), Rubem Braga (capixaba), Nelson Rodrigues (pernambucano), entre outros.

Stanislaw Ponte Preta foi criado no Diário Carioca, em 1953, para substituir Jacinto de Thormes, um colunista social. A condição de Sérgio Porto era escrever com liberdade e sob um pseudônimo. "Achava que, acima de tudo, devia ser petulante para competir com os cronistas mundanos que, por mais importante que fosse a notícia a publicar, falavam de si mesmos antes de dar a notícia", ele explicou no prefácio de Tia Zulmira e Eu.

"Minha intenção era encontrar o Sérgio Porto por trás do Stanislaw Ponte Preta", diz Cláudia. E o que ela encontrou foi um homem lírico e nostálgico com a Copacabana onde morou a vida toda (na mesma rua e número, no 53 da Leopoldo Miguez), invadida pelos prédios com quitinetes e desbancada como bairro da moda pela "República de Ipanema". "Ele viu a modernização com angústia, com sentimento de perda." Assim ele se revelou em A Casa Demolida e As Cariocas, livros de crônicas.

De Sérgio Porto pode-se dizer o que Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, disse sobre si mesmo: ele escreveu com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. A posteridade, no entanto, está acostumada a prestar atenção somente à sua pena. Ou, para ser mais preciso, à sua Olivetti, máquina de escrever da qual tirava o olho só para pingar colírio, assim ele se referia ao excesso de trabalho, que aumentaria se não tivesse morrido, ao 45 anos, antes de o AI-5 ser instituído em dezembro de 1968. Stanislaw passou a esconder um homem cada vez mais triste e indignado com a ditadura militar, segundo Cláudia. E a boa notícia nessa história é que, depois, lá no além-mundo, Sérgio Porto promoveu outra conciliação, agora com o seu personagem. Um humanista, ele perdoou Stanislaw Ponte Preta, aquele por quem se deixou ''gostosamente destruir".


Fonte: O Estadão

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