domingo, 22 de setembro de 2013

A hora da estrela – Clarice Lispector (1977)




A hora da estrela – Clarice Lispector (1977)

Literatura Brasileira


Passagens do texto

ESCREVER PARA OBTER RESPOSTAS

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

                Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

                Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever (...) Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo...


NA RUA, DE RELANCE, A PERDIÇÃO NO ROSTO DE UMA NORDESTINA

                “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina...

                “(...) A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e de chuva caindo...

                “(...) Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério...


PERGUNTAR QUEM SOU PROVOCA NECESSIDADE

                “(...) Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu?’ cairia estatelada e em cheio no chão. É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto...

                “Mas desconfio que toda essa conversa é feita apenas para adiar a pobreza da história, pois estou com medo. Antes de ter surgido na minha vida essa datilógrafa, eu era um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito na minha literatura. As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer...

                “É. Parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o que quero, não sou um profissional – e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela...


ESCREVO PORQUE A FORMA FAZ O CONTEÚDO

                “Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de ‘força maior’, como se diz nos requerimentos oficiais, por ‘força de lei’...


A ETERNIDADE É ESTE MOMENTO

                “Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento...


A LEMBRANÇA DA INFÂNCIA É SEMPRE BOA

                “Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.

                O pior momento de sua vida era neste dia ao fim da tarde: caía em meditação inquieta, o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha saudade de quando era pequena – farofa seca – e pensava que fora feliz. Na verdade por pior a infância é sempre encantada, que susto...


UM LUXO DE MACABÉA

                “E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser...


NÃO SOU UM ACASO PORQUE ESCREVO

                “(...) Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser um apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato...


PRAZER NA COLEÇÃO DE ANÚNCIOS

                “Mas tinha prazeres. Nas frígidas noites, ela, toda estremecente sob o lençol de brim, costumava ler à luz de vela os anúncios que recortava dos jornais velhos do escritório. É que fazia coleção de anúncios...


A QUEM ACUSAR PELO FATO DE... A MOÇA EXISTIR

                “(...) A moça é uma verdade da qual eu não queria saber. Não sei a quem acusar mas deve haver um réu...


SÓ TINHA A GRANDE FOME (COMEU GATO FRITO NA INFÂNCIA...)

                “Esqueci de dizer que às vezes a datilógrafa tinha enjoo para comer. Isso vinha desde pequena quando soubera que havia comido gato frito. Assustou-se para sempre. Perdeu o apetite, só tinha a grande fome. Parecia-lhe que havia cometido um crime e que comera um anjo frito, as asas estalando entre os dentes. Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam...


O PRAZER DE EXPERIMENTAR A SOLIDÃO UMA VEZ NA VIDA

                “(...) Então, no dia seguinte, quando as quatro Marias cansadas foram trabalhar, ela teve pela primeira vez na vida uma coisa a mais preciosa: a solidão. Tinha um quarto só para ela. Mal acreditava que usufruía o espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou num ato de absoluta coragem, pois a tia não a entenderia. Dançava e rodopiava porque ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! Usufruía de tudo, da arduamente conseguida solidão, do rádio de pilha tocando o mais alto possível, da vastidão do quarto sem as Marias...


POR QUE MACABÉA?

                “- E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
                - Macabéa.
                - Maca, o quê?
                - Béa, foi ela obrigada a completar.
                - Me desculpe mas até parece doença, doença de pelo.
                - Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo. – Parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor: - Pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...


OLÍMPICO JESUS... “JESUS” DOS QUE NÃO TÊM PAI

                “- Olímpico de Jesus Moreira Chaves, mentiu ele porque tinha como sobrenome apenas o de Jesus, sobrenome dos que não têm pai. Fora criado por um padrasto que lhe ensinara o modo fino de tratar pessoas para se aproveitar delas e lhe ensinara como pegar mulher...


METALÚRGICO E DATILÓGRAFA – UM CASAL DE CLASSE

                “Olímpico de Jesus trabalhava de operário numa metalúrgica e ela nem notou que ele não se chamava de ‘operário’ e sim de ‘metalúrgico’. Macabéa ficava contente com a posição social dele porque também tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhasse menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico eram alguém no mundo. ‘Metalúrgico e datilógrafa’ formavam um casal de classe...


VÍTIMAS DO MUNDO: UNS INOCENTES, OUTROS COM A SEMENTE DO MAL

                “(...) Casariam ou não? Ainda não sei, só sei que eram de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão.

Não, menti, agora vi tudo: ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si a dura semente do mal, gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais vida do que ela que não tinha anjo de guarda...


JÁ EM 1977, A DESCRIÇÃO DOS “MÉDICOS BRASILEIROS” QUE, EM 2013, ENVERGONHARAM O BRASIL CONTRA O PROGRAMA “MAIS MÉDICOS” DO GOVERNO FEDERAL (DO PT), POR CONTRATAR MÉDICOS ESTRANGEIROS DISPOSTOS A ATENDEREM POBRES

                “Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar dinheiro e nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento e achava a pobreza uma coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando lidar com eles. Eles eram para ele o rebotalho de uma sociedade muito alta à qual também ele não pertencia. Sabia que estava desatualizado na medicina e nas novidades clínicas mas para pobre servia. O seu sonho era ter dinheiro para fazer exatamente o que queria: nada...


BREVE COMENTÁRIO

Reli a obra pela terceira vez. Foi o último livro de Clarice Lispector antes de sua morte em 1977. Não conheço as outras obras da autora, mas esta é muito intensa.

A história da moça nordestina Macabéa é algo muito real para os brasileiros que têm mais de quarenta anos de idade e que, ainda na adolescência nos anos oitenta, presenciaram a exploração desgraçada de uma pequena elite branca mancomunada com as forças policiais e a estrutura da lei de manutenção do status quo, estrutura colonial esta que somente mudou de donos entre os séculos XVI e XXI, mas que não se alterou em relação à exploração de pobres e miseráveis, povos negros, índios e mestiços, bem como europeus e orientais trazidos para a lavoura e a indústria, enfim, filhos e frutos dos explorados ou dos exploradores com as populações exploradas (bastardos) e não detentores de propriedades e heranças.

O povo brasileiro é uma grande conjunção de gente explorada e que sempre esteve por sua própria conta e risco, em meio a 5% de abastados com o controle de todo o Estado e as terras, protegidos por uma estrutura social montada por essa pequena elite para que nada se alterasse ao longo dos séculos.

São personagens de histórias como essa que buscam demonstrar o que é o povo brasileiro. São Macabéa(s), Riobaldo(s) Tatarana, Policarpo(s) Quaresma, Macunaíma(s), Quincas(s) Borba, e tantos outros brasileiros sem terras, sem dinheiro e sem heranças, que se viraram para sobreviverem, como meus pais e mais milhões por aí.

Pequenas histórias como esta – pequenas em volume – têm a capacidade de (explosão) como diz a autora na voz de Rodrigo S. M.

Para completar minha imersão na história desta brasileirinha Macabéa, vou agora assistir ao filme baseado na obra, feito em 1985...


Bibliografia

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Editora Rocco. RJ 1999. Texto estabelecido por Marlene Gomes Mendes (Dra. em Literatura Brasileira pela USP/Profª de Crítica Textual da UFF)






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