quinta-feira, 16 de julho de 2015

"O que eu purgava era ranço nervoso, sobra da esquentação..."


Entardecer, o lusco-fusco em Brasília, Planalto Central.
Foto: William Mendes

"Contei ao Jõe o que eu estava sentindo estúrdio; se não era agouramento? E ele me apaziguou: que anjo aviso não vinha desse jeito, antes era uma certeza que minava fininha, de dentro da ideia da gente, sem razoado nem discussão. O que eu purgava era ranço nervoso, sobra da esquentação curtida nas horas de tiroteio. - 'Comigo, assim, depois de cada forte fogo, me dá esse porém. É uma coceira na mente, comparando mal. Faz regular uns seis anos, que estou na jagunçagem, medo de guerra não conheço; mas, na noite, passado cada fogo, não me livro disso, essa desinquietação me vem...' "

(Riobaldo Tatarana com Jõe Bexiguento. Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira, 19ª edição)


O meu dia de hoje começou antes do dormir dele, lá na madrugada. Na véspera, tive um dia de grande estressamento. Sangue nas têmporas. Tive uma noite de não descanso. "o que eu purgava era ranço nervoso". Acordei tarde e com "uma coceira na mente".

Na Ditec BB DF. 16/7/15
Depois de trabalhar com textos e estudos pela manhã, tive uma tarde boa conversando com trabalhadores que represento, debatemos a nossa Caixa de Assistência. Esse fato melhorou meu "ranço nervoso" da véspera.

Voltando pra casa, já no lusco-fusco do entardecer - nunca igual de Brasília -, ainda tinha uma "sobra da esquentação curtida nas horas do tiroteio" da véspera.

Não tinha outro jeito que não fosse calçar um tênis, por um calção e sair para correr na noite, sem pressa e pra queimar aquilo no sangue.

As pernas estavam pesadas. Mas corri 47 minutos pelas alamedas e arvoredos frescos da noite candanga. Só assim me livrei daquela "desinquietação" que me veio no dia anterior.

São muitas coisas ocorrendo e a gente tá cuidando da missão que nos foi dada. Mas tá complicado ver o que vem por aí no meu país, pro meu povo.

"medo de guerra não conheço" como diz Jõe Bexiguento... mas dá uma dó danada do que vai virar meu país e a vida do meu povo.

William Mendes

Nenhum comentário: