quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Leitura de Raízes do Brasil de S. B. Holanda

Seguindo a leitura dessa obra descortinadora, o capítulo 3 tratará dos seguinte tópicos:

HERANÇA RURAL

-A Abolição: marco divisório entre duas épocas
-Incompatibilidade do trabalho escravo com a civilização burguesa e o capitalismo moderno
-Da Lei Eusébio à crise de 64. O caso de Mauá
-Patriarcalismo e espírito de facção
-Causas da posição suprema conferida às virtudes da imaginação e da inteligência
-Cairu e suas ideias
-Decoro Aristocrático
-Ditadura dos domínios agrários
-Contraste entre a pujança das terras de lavoura e a mesquinhez das cidades na era colonial

O autor faz uma diferença interessante:

Os portugueses não instauraram aqui uma civilização agrícola* e sim uma civilização de raízes rurais.

"É efetivamente nas propriedades rústicas que toda a vida da colônia se concentra durante os séculos iniciais da ocupação europeia: as cidades são virtualmente, se não de fato, simples dependências delas"

*por não utilizarem aqui as técnicas modernas de plantio e ferramentas disponíveis à época.

MUDANÇAS NA DÉCADA DE 1850
Além da proibição do tráfico de escravos, o período entre 51 e 55 teve um 'boom' de criação de sociedades anônimas. Refundação do Banco do Brasil, linhas telegráficas, Banco Rural e Hipotecário, estradas de ferro (Mauá).

Os partidários do Status Quo vigente são contrários às mudanças que se processavam, principalmente no que diz respeito ao fim do tráfico de escravos.

"Estes eram, naturalmente, do parecer que, em país novo e mal povoado como o Brasil, a importação de negros, por mais algum tempo, seria, na pior hipótese, um mal inevitável, em todo o caso diminuto, se comparado à miséria geral que a carência de mão-de-obra poderia produzir"

LEI EUSÉBIO DE QUEIRÓS
A partir de 1850 reduziram-se drasticamente a importação de humanos escravos para o Brasil, tanto pela lei quanto pela intensificação das atividades britânicas de repressão ao tráfico.

BANCO DO BRASIL - FUNDING: $ QUE ERA INVESTIDO NA ESCRAVIDÃO
"A própria fundação do Banco do Brasil de 1851 está, segundo parece, relacionada com um plano deliberado de aproveitamento de tais recursos (capital do comércio de humanos) na organização de um grande instituto de crédito".

Mauá pensou no funding a partir do extinto tráfico negreiro, para que os capitalistas investissem em banco de crédito - Banco do Brasil:

"Reunir os capitais que se viam repentinamente deslocados de ilícito comércio e fazê-los convergir a um centro onde pudessem ir alimentar as forças produtivas do país foi o pensamento que me surgiu na mente, ao ter a certeza de que aquele fato era irrevogável" (Visconde de Mauá, Autobiografia)

A GÊNESE DO FAVOR, CLIENTELISMO E NEPOTISMO

As raízes de grandes males do Brasil estariam na forma como era instituido o patrimonialismo e o personalismo. Ao redor do patriarca existia uma concentração de gentes - famílias, agregados e apaniguados - que criavam estreitas relações fechadas de dependência e autoproteção.

"Segundo tal concepção, as facções são constituídas à semelhança das famílias, precisamente das famílias de estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos que unem ao chefe os descendentes, colaterais e afins, além da famulagem e dos agregados de toda sorte, hão de preponderar sobre as demais considerações. Formam, assim, como um todo indivisível, cujos membros se acham associados, uns aos outros, por sentimentos e deveres, nunca por interesses ou ideias".

O ENGENHO - UM MICROCOSMO COMPLETO

"Nos domínios rurais, a autoridade do proprietário de terras não sofria réplica. Tudo se fazia consoante sua vontade, muitas vezes caprichosa e despótica. O engenho constituía um organismo completo e que, tanto quanto possível, se bastava a si mesmo".

A IDEIA DE 'FAMÍLIA' NOS ENGENHOS

"Nos domínios rurais é o tipo de família organizada segundo as normas clássicas do velho direito romano-canônico, mantidas na península Ibérica através de inúmeras gerações, que prevalece como base e centro de toda a organização. Os escravos das plantações e das casas, e não somente escravos, como os agregados, dilatam o círculo familiar e, com ele, a autoridade imensa do pater-famílias. Esse núcleo bem característico em tudo se comporta como seu modelo da Antiguidade, em que a própria palavra 'família', derivada de famulus, se acha estreitamente vinculada à ideia de escravidão, e em que mesmo os filhos são apenas os membros livres do vasto corpo, inteiramente subordinado ao patriarca, os liveri"

"Sempre imerso em si mesmo, não tolerando nenhuma pressão de fora, o grupo familiar mantém-se imune de qualquer restrição ou abalo. Em seu recatado isolamento pode desprezar qualquer princípio superior que procure perturbá-lo ou oprimi-lo".

UMA GÊNESE DA PROMISCUIDADE DO PRIVADO NO PÚBLICO

"Representando, como já se notou acima, o único setor onde o princípio de autoridade é indisputado, a família colonial fornecia a ideia mais normal do poder, da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os homens. O resultado era predominarem, em toda a vida social, sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e antipolítica, uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família".

A EXPLICAÇÃO DE NOSSA ELITE PSEUDO-ESCLARECIDA

"O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo - a verdade é que, embora presumindo o contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais - mas amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. É que para bem corresponder ao papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento de conhecimento e de ação".

(fala sério!, não é perfeito com o que temos no Brasil? Os leitores de Veja, Estadão, Folha achando que são esclarecidos e as mirians leitões, jôs soares, e os 'técnicos' imbecis que ditam as regras de economia etc)

UMA POSSÍVEL SÍNTESE (e gênese dos nossos ruralistas)

"Procurou-se mostrar no presente capítulo como, ao menos em sua etapa inicial, esse processo correspondeu de fato a um desenvolvimento da tradicional situação de dependência em que se achavam colocadas as cidades em face dos domínios agrários. Na ausência de uma burguesia urbana independente, os candidatos às funções novamente criadas recrutam-se, por força, entre indivíduos da mesma massa dos antigos senhores rurais, portadores de mentalidade e tendência características dessa classe. Toda a ordem administrativa do país, durante o Império e mesmo depois, já no regime republicano, há de comportar, por isso, elementos estreitamente vinculados ao velho sistema senhorial".

AS CIDADES COMO APÊNDICES DAS CASAS GRANDES

"No Brasil colonial, entretanto, as terras dedicadas à lavoura eram a morada habitual dos grandes. Só afluíam eles aos centros urbanos a fim de assitirem aos festejos e solenidades"

Amigos, como é fácil ver os ruralistas, os coronéis sarneis, barbalhos etc, lendo este ensaio de Sérgio Buarque de Holanda.

Bibliografia:
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

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