sábado, 16 de agosto de 2014

Romaria 2014 – Tal pai, tal filho



Pai e filho na saída para a caminhada de
75 km entre Uberlândia e Água Suja MG.

A vida é uma infinidade de casualidades e oportunidades surgidas a cada segundo na existência das pessoas. A vida também é uma soma constante entre os eventos planejados e os não planejados. As realizações das pessoas podem ocorrer tanto a partir de acontecimentos planejados quanto dos inesperados.

Eu faço uma caminhada anual de dezenas de quilômetros, há muito tempo. É um momento ímpar de introspecção, teste de resistência e obstinação, e de recarregar a bateria para mais um ano com muita energia para alcançar os objetivos aos quais me proponho. Na nossa dura existência, precisamos ter uma energia de super humano para enfrentar as atribulações do mundo hostil em que vivemos e não desistir de nada.

Semanas atrás, em uma conversa de adolescentes, meus sobrinhos e meu filho trataram entre si que iriam participar da Romaria comigo. Por diversos motivos, meus sobrinhos não puderam ir. Meu filho cismou que já que tinha posto na cabeça que iria, não iria mais mudar de ideia.

Vovô e vovó levam os filhos até o bairro Alvorada.

Eu me peguei num verdadeiro dilema em relação ao respeito pelo livre arbítrio das pessoas, inclusive daquela pessoinha que eu e minha esposa educamos. Durante os dias anteriores à viagem para Minas Gerais, conversamos bastante com nosso filho do quanto era dura a caminhada, em certo sentido perigosa sim - como a mãe afirmava (este ano teve vitima fatal por atropelamento na estrada) e que ele não tinha necessidade de levar adiante o compromisso porque os primos não iriam mais. No fim, tive que conversar com a mamãe dele e decidimos que não era correto proibi-lo de ir comigo nesta caminhada. Eu mesmo a fiz pela primeira vez antes dos 17 anos.

Por fim, chegamos a Uberlândia na noite de quarta-feira 13 (eu vindo de Brasília e meu filho de Osasco SP) para pegar a estrada na quinta-feira 14 rumo a Água Suja, distante 75 km do bairro onde saímos.


A solidão da estrada não foi total, eu tinha meu filho comigo

Eu já havia feito a caminhada com momentos de grande solidão na estrada por sair em horário e dia com poucos romeiros, mas desta vez foi algo totalmente inesperado.

Apesar de fazer a Romaria há décadas, eu não sabia que as pessoas só caminhavam até a semana anterior ao dia da festa da santa (15 de agosto). Por coincidência, eu sempre fiz na última sexta anterior ao dia 15. A surpresa desagradável foi que não havia mais barracas de ajuda aos romeiros, não havia mais a multidão de gente que também caminhava, não havia praticamente mais nada.

Imaginem se eu colocaria meu filho numa situação dessas se soubesse de antemão!

Periquitos na estrada.

Pois é, então lá estávamos já caminhando quando caiu a ficha da solidão que teríamos pela frente sem ajuda constante de barracas. Por sorte, encontramos ainda a barraca Bethânia e a barraca da Antena, que seria desativada pouco depois do horário que passamos lá. Ainda encontramos algumas boas almas que, de carro, procuravam os últimos romeiros do ano para oferecer uma água, um pãozinho, um café, uma fruta.


A caminhada de 21 horas

Saímos do bairro Alvorada às 13h. Meus pais nos levaram até lá.

A primeira referência do mapa que tenho de distâncias percorridas a partir do Trevo para Araxá é o local chamado Olhos D’água. São cerca de 8,2 Km a partir do bairro Alvorada. Chegamos lá às 14:30h.

A caminhada inteira foi feita com dicas minhas ao meu filho sobre como andar, como pisar e coisas que só romeiros experientes sabem. Eu preparei os pés do meu filho com esparadrapos com o mesmo zelo que preparo os meus. Aprender isso anos atrás equivaleu a separar as romarias entre antes do aprendizado, com bolhas e dores impossíveis, e depois do aprendizado, com os pés que nos levam em boas condições.

Caminhamos até o Rio Araguari (que chamamos de Rio das Velhas). Chegamos bem lá por volta das 16:30h. Meu filho se encantou muito com a paisagem. Durante a caminhada da tarde estivemos sob um sol escaldante e o segredo é o pé resistir sem cozinhar.

Filhão observa a estrada na descida para o Rio Araguari.

Começamos a grande subida para cruzar outros pontos de referência como o Trevo de Miranda (+ 3,7 Km), depois o antigo Posto Triângulo que está desativado (+ 7,8 Km), depois o Trevo para Araguari (+ 3,7 Km), ainda a Aliança Agro-Florestal (+ 3,2 Km) até chegar ao Posto N. Sra. Da Guia (+ 2,8 Km). Em anos anteriores, eu calculava de caminhar do Rio das Velhas até o Posto Triângulo porque era uma esticada de 11,5 Km.

Meu filho curtiu muito o entardecer e a entrada da noite na estrada. Escureceu pouco depois das seis e dez.

Mário Augusto sobre o Rio Araguari.

Descobrimos que não haveria barracas de ajuda até a Antena e nem depois dela, quando paramos na barraca Bethânia, antes do Rio das Velhas. A surpresa e o alerta foram importantes para nós porque passamos a administrar a água e o alimento que levamos para alguma emergência.

Fizemos uma longa caminhada passando direto pela referência do antigo Posto Triângulo. Como estávamos com fome, paramos num local na estrada que tinha uma iluminação (uma escola) e comemos. Ali encontramos a irmã de um dos poucos romeiros que havia na estrada. A senhora estava dando assistência para o irmão (enquanto ele andava, ela ia de carro de tantos em tantos quilômetros acompanhando ele).

Pai e filho no posto N. Sra. da Guia
depois de andar umas 8 horas.

Bem, andamos direto até o Posto N. Sra. Da Guia. Chegamos às 21:30h. Nossos pés estavam em ordem. Achamos até uns rapazes dando um caldo quente e pão aos romeiros remanescentes como nós. Percurso realizado: 37,5 Km.


A longa caminhada até a Antena

Expliquei ao meu filho que teríamos que fazer uma longa caminhada de umas 3 horas até a Antena, onde estava a única barraca remanescente e torcer para ela estar funcionando porque depois dela seria só a cidade de Água Suja.

Meu filho ligou o seu som no celular e eu não comentei com ele minha decisão, mas preferi não ligar o meu naquele momento para me concentrar totalmente nele. Também nos agasalhamos e pegamos a estrada.

A lua apareceu às 22:20h. Esta quinta-feira 14 foi final de lua cheia, mas a dona Lua foi uma graça para nós. Após as 23h nosso chão de estrada ficou mais claro e a sensação melhorou bastante para caminhar na solidão da noite.

Tomando uma sopa na barraca da Antena
depois da 1 hora da manhã.

Meu filho estava super bem e não sofreu tanto quanto os romeiros tradicionalmente sofrem para chegar à famosa Antena, “o ponto que separa os meninos dos homens” como dizem. Chegamos à 1h da manhã. Estava aberta e tinha algumas pessoas lá, umas dormindo na palha de arroz e algumas (menos de 10) tomando uma sopa ou descansando.

Ficamos mais de meia hora lá. Eu deitei uns 20 minutos na palha porque estava com muito sono. Meu filho fez massagem no seu pé esquerdo porque estava com dores. Andamos 48,5 Km.

Apesar da dor muscular no pé e perna esquerda (meu filho pode até ter titubeado, mas deu o ok) seguimos adiante para outra longa esticada de mais 12,5 Km até amanhecer.


Caminhada madrugada adentro: frio, dor e sono

Chegamos ao Posto BR, que eu conhecia como Posto Santa Fé, às 5:10h. Emocionante! Passamos muito frio na madrugada.Eu tive muito sono e ânsia de vômito por forçar o corpo com sono e meu filho tinha muita dor na perna esquerda. Cheguei a ouvir um pouco de música, mas preferi desligar para acompanhar os gemidos e reclamos de meu filho e estimulá-lo a resistir até a chegada.

Chegamos ao Atalho. Grande jovem esse Mário Augusto.

Já teve ano que eu andei delirando noite afora na estrada. Este ano eu tive a companhia de meu filho. Eu o estimulei a seguir firme até a próxima parada e falei o quanto ele estava indo bem. Ele chegou a me puxar algumas vezes quando eu andava sonâmbulo pelo acostamento dormindo andando.

Felizmente o posto estava funcionando e tomamos até um cafezinho com pão de queijo e misto quente. Cochilamos uns 20 minutos para as etapas finais. Saímos do posto às 6h. Meu filho entendeu que ele tinha que terminar porque não tinha como voltar. Andamos até ali 61 Km. Agora era andar até o Atalho, mais 6 Km.


A emoção da chegada

A última etapa da Romaria é feita muito mais com a cabeça do que com os pés. É um momento de superação, de persistência e resistência à dor.

Este ano, a caminhada foi muito diferente para mim. Eu me concentrei tanto no que tinha que fazer ao sair da casa de meus pais com o nosso bem mais precioso, nosso filho, que eu não tive sequer preocupação com o meu corpo. Ainda quando percebi que a experiência seria mais difícil porque não havia as ajudas comuns, foquei completamente em meu filho a ida e a chegada.

O Mário Augusto se mostrou um jovem muito especial. Que coisa encantadora! Reclamou da dor como um fato real e normal, mas seguiu resistindo a ela como alguém especial. Eu conheço muito sobre romeiros. E digo a qualquer pessoa que o comportamento de meu filho foi surpreendente. Ele reclamou que estava difícil, mas foi reclamação leve. Reclamava e andava. Quanta gente desiste e fica pelo caminho... o grande jovem chegou.

Mário Augusto, vitorioso em sua caminhada.
Parabéns meu filho, você é uma pessoa especial!

Saímos andando bem lentamente do Posto BR e chegamos ao Atalho às 8:20h. Paramos uns 10 minutos e seguimos para andar até chegar à cidade de Água Suja.

Meu filho pediu que batesse uma foto dele assim que chegássemos com aquele tradicional gesto de vitória. Lindo!

Chegamos às 10h da manhã de 15 de agosto de 2014. Como era o dia da festa da Santa, foi impossível entrar na igreja. Havia milhares e milhares de pessoas em filas em caracol para entrar nela. Deve ser por isso que os romeiros não vão no dia anterior à festa.

Foram 21 horas de estrada deserta. Chegamos inteiros, felizes, realizados. Acredito que chegamos diferentes. Mais fortes em todos os sentidos.


Algumas lições e sensações finais

- as próximas romarias serão sempre na sexta-feira anterior à festa da Santa porque a estrada está cheia e tem muitas ajudas no caminho. Este fato foi uma casualidade para mim que se transformou num grande problema porque eu tinha a tiracolo meu bem mais precioso, o filho, e o risco foi muito maior desta vez.

Pai e filho, dois caminhantes decididos. Romaria 2014.

- nunca na minha vida teria imaginado fazer uma caminhada dessas com meu filho. Ainda mais partindo de um desejo dele. Quando meu filho era pequeno, eu sonhava em vê-lo jovem logo para poder conversar com ele, era o desejo inverso da mãe que queria o filho sempre pequeno para o aconchego. Ele se tornou jovem e a conversa com os jovens é rara e difícil. Não é que da forma mais improvável passamos um dia todo nos ajudando e conversando sobre tudo na vida? Foi demais! É de encher os olhos d’água! Muito legal. Obrigado meu filho por sua companhia nesta caminhada!

- neste momento em que escrevo, meu filho está na sala com o primo assistindo ao filme Na natureza selvagem. Este filme nos marcou muito, tanto a mim quanto ao meu filho e às pessoas que o assistiram. No filme, o jovem Chris McCandles descobre de maneira trágica algo sobre a felicidade: ele diz “Happiness only real when shared” (a verdadeira felicidade é aquela compartilhada). Esta caminhada foi diferente para mim e acredito que para meu filho. Nossa experiência de dor, resistência, superação e alegria na chegada ao objetivo foi compartilhada.

- por falar em natureza selvagem, meu filho e eu pudemos perceber o quanto é prejudicial o avanço das áreas urbanas sobre as regiões que dividiam cidades e onde os animais tinham mais chances de sobrevivência. Além dos diversos cachorros mortos na beira da estrada, vimos animais mortos que nos surpreenderam: gavião, coruja, capivara, um guaxinim. Para não dizer que não falei das flores, vimos muitos ipês amarelos e outras flores.

Ipês amarelos, muitos ipês amarelos no caminho...

- a lição de conviver com a perda também fez parte dessa experiência. Meu filho foi fazendo suas fotos e seus vídeos. Era o seu registro dessa aventura marcante. Tanto ele quanto eu baixamos a guarda na atenção somente no ônibus da volta de Romaria para Uberlândia, porque estávamos cansados, sem dormir a mais de 30 horas. Nesse instante, a atenção baixou. Meu filho perdeu o celular dele no ônibus, quando viemos prostrados. Fiz o possível para recuperá-lo pelo valor pessoal das gravações que o jovem romeiro fez. A alma infeliz que o encontrou não quis devolvê-lo ao dono. Foi uma perda pessoal para meu filho. Mas a vida segue. O mundo é hostil. Essas lições de perdas fazem parte da existência.

- eu passei este ano por momentos muito duros. Momentos que me fizeram sofrer muito. Não entro em detalhes aqui, mas digo que renasci. Estou firme, forte, focado, não permiti que o ódio me dominasse, estou trabalhando com intensidade para alcançar os objetivos que tenho em meus compromissos profissionais, militantes e de cidadão. Sigo forte e com meus princípios intactos.

- não poderia deixar de comentar um momento inesquecível de meu dia de estrada com meu filho: os dois cantando a música “Society” do Eddie Vedder, do filme Na natureza Selvagem. Momento único em nossas vidas.

Essa é das antigas - pais e filhos em 2005.

- vendo meu pai, os problemas que ele tem, e a postura dele no lidar com a vida, não tem como não refletir que algumas coisas nós herdamos de pai pra filho, seja por genética, seja por cultura. Vendo meu pai e meu filho, sigo pensando nisso: tal pai, tal filho!

Assim seja!

2 comentários:

Arnaldo Onça disse...

Parabéns! uma aventura dessas será mesmo marcante para os dois.
Abraços
Onça

William Mendes disse...

Olá Onça, como vai?

Olha, foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida. Acho que sonhei a vida toda em ter um momento assim com meu filho e, de repente, lá estávamos nós...

Abraços