domingo, 8 de janeiro de 2017

Leitura: Fausto (1770), de Goethe


A edição que li de Fausto.

"FAUSTO

- Como é teu nome?

MEFISTÓFELES

- Essa pergunta me parece frívola, por parte de quem tem tanto desprezo pelas palavras, que sempre se afasta das aparências, e que olha sobretudo o âmago dos seres.

FAUSTO

- Entre vós outros, meus senhores, pode-se facilmente adivinhar a vossa natureza de acordo com os vossos nomes, e é o que se torna conhecido claramente, quando sois chamados inimigos de Deus, sedutores, mentirosos. Pois bem. Quem és tu?

MEFISTÓFELES

- Uma parte daquela força que ora quer o mal e ora faz o bem.

FAUSTO

- Que significa esse enigma?

MEFISTÓFELES

- Sou o espírito que nega sempre; e com justiça: pois tudo que existe merece ser destruído, e seria melhor, portanto, se não existisse. Assim, tudo que chamais de pecado, destruição, em suma, o que se considera o mal, eis o meu elemento.

FAUSTO

- Chamas-te de parte, e ei-te bem inteiro diante de nós.

MEFISTÓFELES

- Vou dizer-te a modesta verdade. Se o homem, esse mundozinho de loucura, se considera, ordinariamente, como formando um todo, sou, por minha vez, uma parte da parte que existia no começo de tudo, uma parte daquela escuridão que deu começo à luz orgulhosa que, agora disputa com sua mãe, a Noite, sua antiga posição e o espaço que ela ocupava; o que de nada lhe vale, porque, apesar de seus esforços, ela só consegue aflorar à superfície dos corpos que a detêm; ela brota da matéria, por onde escorre e que colore, mas basta um corpo para deter-lhe a marcha. É lícito, pois, esperar que ela não dure muito tempo, ou que se aniquile com os próprios corpos.

FAUSTO

- Agora, já conheço as tuas honrosas funções; não podes aniquilar a massa, e te prendes aos detalhes.

MEFISTÓFELES

- E, para falar com franqueza, não tenho feito grande coisa: o que se opõe ao nada, o algo, esse mundo material, embora tenha me esforçado, não pude desorganizá-lo até agora; em vão lancei contra ele ondas, tempestades, terremotos, incêndios; o mar e a terra continuaram tranquilos. Nada temos a ganhar com essa maldita semente, origem dos animais e dos homens. Quantos eu não tenho enterrado! E sempre circula um sangue fresco e novo. Eis a marcha das coisas; é de enlouquecer. Mil germes avançam do ar, da água, como da terra, no seco, no úmido, no frio, no quente. Se eu não tivesse reservado para mim o fogo, coisa alguma teria de minha parte..."

(Fausto, Goethe)


Refeição Cultural

Terminei a leitura de Fausto, de Johann Wolfgang Goethe. Pela leitura crítica que fiz, o autor alemão passou praticamente a vida inteira revisando esta obra. A tradução que li é baseada no chamado Fausto primitivo, mais próxima dos anos 1770.

Esta edição é ilustrada pelas litografias de Eugène Delacroix.

Já estava muito pensativo com o fim da leitura da obra de Victor Klemperer (ler AQUI) sobre a linguagem do Terceiro Reich, período em que o povo alemão vendeu sua alma a Hitler e ao nazismo.

Eu havia lido Fausto quando era adolescente e meu entendimento foi o possível para a idade. Ao reler obras clássicas, além dos tempos serem outros, nós somos outra pessoa, outro leitor.


Fausto tenta seduzir Margarida. Litografia de Eugène Delacroix.

Após o fim da leitura, saí para correr e caminhar um pouco. Refleti que preciso ler algo mais leve nestes dias longe das guerras do meu trabalho político de gestor de autogestão em saúde porque a gente fica bastante deprê ao aprofundar o conhecimento de mundo que já temos.

Por outro lado, é impossível desligar a chave do conhecimento que temos. A vida de um militante político é diferente da vida das demais pessoas justamente por nossa formação teórica e prática no enfrentamento das questões sociais para as quais nos dispusemos a lidar desde cedo.

Já fiz aqui neste Blog grandes reflexões e estudos de livros lidos. Mas confesso que neste momento de minha vida não posso sentar e me debruçar numa análise técnica ou crítica dos livros que estou lendo como já fiz de outras vezes. Levaria tempo e estou com outras tarefas na atualidade.

O que posso e devo fazer é deixar a referência de leitura, se vale a pena ou não sugerir aos leitores e amig@s que nos acompanham. Aprendi uma verdade no curso de Letras que se renova para mim cada vez que termino uma leitura clássica: é melhor ler os clássicos que não ler os clássicos. O conhecimento novo a partir da leitura nos engrandece. 

É isso. Mais um clássico da literatura universal.

Vamos para as próximas leituras em busca de conhecimento e reflexão para o viver.

William


Post Scriptum:

Para se ter uma ideia do que estou fazendo em meus dias de folga, estou revisando dezenas de textos de meus dois blogs, o de trabalho e o de cultura. Os textos e reflexões não deixam de ser um registro de meu percurso como cidadão do mundo em vários anos de militância social e cultural.

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