segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Leitura: O Sol Também se Levanta (1926) - Hemingway





Refeição Cultural

"(...) Desejaria que Mike não tivesse tratado Cohn de maneira tão cruel. Mike, quando bebia, era mau; Brett sabia beber e Bill também. Cohn jamais se embriagava. Passado um certo limite, Mike tornava-se desagradável. Eu gostava de vê-lo magoar Cohn e, contudo, desejaria que não o fizesse, porque, em seguida, sentia repulsa de mim mesmo. E nisto consiste a moral: coisas que fazemos e das quais depois sentimos repulsa. Não, isso devia ser imoralidade, ponto de vista muito amplo..." (O Sol Também se Levanta, Hemingway)


Li novamente este romance entre os dias 11 e 14 de janeiro de 2017. Havia lido ele na juventude, décadas atrás. Diria que li numa época de desilusões, anos oitenta. Vinha vivendo nos últimos quinze anos num país e numa América do Sul que avançavam para a minha classe, a classe trabalhadora, no início deste século 21, pois vários países latino-americanos priorizavam políticas públicas para melhorias dos povos mais necessitados do Estado, em oposição ao histórico secular de governos identificados com as elites tradicionais.

A releitura deste clássico de Ernest Hemingway se deu agora em um contexto político, econômico e social no qual me foi possível sentir uma identificação incrível com certa característica de um dos personagens do enredo, o protagonista Barnes (Jake). Apesar de sua impotência ser física, por ferimento de guerra, existe na obra uma abordagem metafórica de impotência de toda uma geração perante os acontecimentos do mundo, daquele mundo pós 1ª Guerra Mundial, um mundo em crise política, econômica e social.

O pessimismo da razão não me permite esconder o quanto estou me sentindo impotente perante os acontecimentos da atualidade, tanto em meu país quanto no mundo. O bem-sucedido Golpe de Estado no Brasil e a evidente pusilanimidade do povo e, principalmente, das lideranças e entidades da sociedade civil e de trabalhadores, nos põe com uma tristeza interior que só é superada quando mentalizamos de forma militante e focada as lutas que nós mesmos estamos liderando em nome de eleitores representados em um mandato eletivo.

O mundo de 2017 aponta que menos de dez pessoas têm a riqueza de 3,5 bilhões de seres humanos. No Brasil, a mesma coisa. Menos de dez sujeitos detêm a riqueza de 100 milhões de brasileiros. Eu sou de esquerda e entendo que isso não é "normal", certo e aceitável. Não é justo. Só nos resta lutar contra isso. Em todos os momentos de nossa existência.

Outro fator comum na leitura de bons livros como este é o desejo instigado que ficamos de acabar o volume e pegar para ler os outros do mesmo autor. Meu conhecimento de Hemingway é pequeno, para quem é amante da literatura. Além deste romance, só li O Velho e o Mar (1956), ler comentário AQUI

Fiquei louco para ler Adeus às Armas (1929) e Por Quem os Sinos Dobram (1940). Até cheguei a pesquisar na internet para comprar, mas são dois volumes grandes e de difícil inclusão em minha realidade de leituras.

Enfim, um século depois do contexto da obra de Hemingway, o mundo volta a viver um período de ascensões de ideias fascistas, deformações de valores mais tradicionais de ética, moral, caráter, justiça, de republicanismo e democracia. A era é a da pós-verdade. Não nos portaremos aceitando isso no nosso dia a dia de cidadão do mundo.

William


Post Scriptum (14/04/17):

Que bom reler a postagem e poder dizer que acabei de ler "Adeus às armas" de 1929. Tenho feito um esforço sobre-humano para ler e preencher lacunas culturais em minha formação. Vou publicar postagem a respeito da obra.

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