segunda-feira, 27 de outubro de 2008

UMA EXCURSÃO MILAGROSA - Conto de Machado de Assis

Publicado originalmente em Jornal das Famílias, 1866

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"Tenho uma viagem milagrosa para contar aos leitores, ou antes uma narração para transmitir, porque o próprio viajante é quem narra as suas aventuras e as suas impressões.

Se a chamo milagrosa é porque as circunstâncias em que foi feita são tão singulares, que a todos há de parecer que não podia ser senão um milagre. Todavia, apesar das estradas que o nosso viajante percorreu, dos condutores que teve e do espetáculo que viu, não se pode deixar de reconhecer que o fundo é o mais natural e possível deste mundo.

Suponho que os leitores terão lido todas as memórias de viagem, desde as viagens do capitão Cook às regiões polares até as viagens de Gulliver, e todas as histórias extraordinárias desde as narrativas de Edgar Poe até os contos de Mil e uma noites. Pois tudo isso é nada à vista das excursões singulares do nosso herói, a quem só falta o estilo de Swift para ser levado à mais remota posteridade.

As histórias de viagem são as de minha predileção. Julgue-o quem não pode experimentá-lo, disse o épico português. * Quem não há de ir ver as coisas com os próprios olhos da cara, diverte-se ao menos em vê-las com os da imaginação, muito mais vivos e penetrantes.

Viajar é multiplicar-se."



Mais um conto do primeiro Machado. O que vi foi uma exposição de sua erudição com muitas citações e referências bibliográficas.

Machado cita tanto a esse Maistre que, sem dúvida, terei que lê-lo um dia para compreender o que tanto lhe agrada na obra.

"Das viagens sedentárias só conheço duas capazes de recrear. A Viagem à roda do meu quarto, e a Viagem à roda do meu jardim, de Maistre e Alphonse Karr."

Outra coisa interessante no conto: Machado em seus diálogos com os leitores se saiu com uma estratégia e tanto. A certa altura o autor pede licença ao leitor e avisa que a partir dali o discurso muda da 3a pessoa para a primeira. Agora vai falar o protagonista.

"Aqui deixa de falar o autor para falar o protagonista. Não quero tirar o encanto natural que há de ter a narrativa do poeta reproduzindo as suas próprias impressões. O poeta foi, como disse, abrir a porta.

Diz ele:"


Então, é isso!
Sigo conhecendo a obra do nosso mestre maior, no ano do centenário de sua morte.

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