domingo, 25 de outubro de 2015

Uma história da leitura - excertos e reflexões



Este livro vale a pena.

Refeição Cultural

Domingo. Estou em Brasília (DF) para recuperar o fôlego da longa semana de trabalho, que só terminou quando cheguei ao final do sábado em casa, vindo de outros estados.

Além de querer silêncio, isolamento e nenhum contato com gente, folheei dois livros: Uma história da leitura (1996) de Alberto Manguel e Don Quijote de La Mancha (1605/1615) de Miguel de Cervantes.

A vida é lutar diariamente pela própria sobrevivência e por algo que valha a pena, porque a vida é dura. Soube do resultado final no sábado das negociações salariais entre bancários do Banco do Brasil e a direção do banco e fiquei com grande tristeza por não ver nela proposta de aportes para a nossa Caixa de Assistência, que administro como diretor eleito. Que dizer? Vida que segue na segunda-feira. Para mim, não muda nada a minha gana em realizar os projetos que defendemos que focam o modelo assistencial e a promoção de saúde. 

Evidente que não vindo aportes por parte do banco como resultado da luta e mobilização na campanha salarial, todas as partes envolvidas terão que achar solução para o déficit do Plano de Associados, no instante seguinte a uma provável aprovação das proposta negociadas entre bancários e seus sindicatos e o patrão Banco do Brasil.

Enfim, somente nos livros e nas caminhadas e corridas é que encontro algum respiro pro viver.

Seguem alguns excertos muito legais do capítulo "Primórdios", que está na parte três do livro e que conta um pouco da origem da escrita e do ato de ler. Eu digo mais, que conta a história da comunicação humana, a qual eu não tenho dúvida que tem papel fundamental em qualquer sociedade humana, na disputa de como ela se organiza e na forma como grupos se estabelecem na disputa de hegemonia nos espaços sociais e nas estruturas de poder constituídas.

Eu recomendo a compra do livro e o deleite em sua leitura.


PRIMÓRDIOS

"No verão de 1989, dois anos antes da guerra do Golfo, fui ao Iraque para ver as ruínas da Babilônia e da Torre de Babel. Era uma viagem que eu ansiara muito fazer. Reconstruída entre 1899 e 1917 pelo arqueólogo alemão Robert Koldewey, Babilônia fica a cerca de 65 quilômetros de Bagdá - um enorme labirinto de paredes cor de manteiga que foi outrora a cidade mais poderosa da Terra, perto de um monte de argila que os guias turísticos dizem ser tudo o que resta da torre que Deus amaldiçoou com o multiculturalismo..."

(...)

"Ali (ou pelo menos não muito longe dali), têm afirmado os arqueólogos, começou a pré-história do livro. Em meados do quarto milênio a.C., quando o clima do Oriente Médio tornou-se mais fresco e o ar mais seco, as comunidades agrícolas do Sul da mesopotâmia abandonaram suas aldeias dispersas e reagruparam-se em torno de centros urbanos maiores que logo se tornaram cidades-estados..."


INVENÇÃO DA ESCRITA: PROVÁVEL MOTIVO COMERCIAL

"Com toda a probabilidade, a escrita foi inventada por motivos comerciais, para lembrar que um certo número de cabeças de gado pertencia a determinada família ou estava sendo transportado para determinado lugar. Um sinal escrito servia de dispositivo mnemônico: a figura de um boi significava um boi, para lembrar ao leitor que a transação era em bois, quantos bois estavam em jogo e, talvez, os nomes do comprador e do vendedor. A memória, nessa forma, é também um documento, o registro de tal transação."


TABULETAS ESCRITAS

"O inventor das primeiras tabuletas escritas deve ter percebido as vantagens que essas peças de argila ofereciam sobre manter a memória no cérebro: primeiro, a quantidade de informação armazenável nas tabuletas era infinita (...); segundo, para recuperar a informação as tabuletas não exigiam a presença de quem guardava a lembrança."


E aqui Manguel nos revela O NASCER DA ESCRITA

"De repente, algo intangível - um número, uma notícia, um pensamento, uma ordem - podia ser obtido sem a presença física do mensageiro, magicamente, podia ser imaginado, anotado e passado adiante através do espaço e do tempo."


CONSEQUÊNCIAS DA INVENÇÃO DA ESCRITA

"Desde os primeiros vestígios da civilização pré-histórica, a sociedade humana tinha tentado superar os obstáculos da geografia, o caráter final da morte, a erosão do esquecimento. Com um único ato - a incisão de uma figura sobre uma tabuleta de argila -, o primeiro escritor anônimo conseguiu de repente ter sucesso em todas essas façanhas aparentemente impossíveis."


NASCE O LEITOR

"Mas escrever não é o único invento que nasceu no instante daquela primeira incisão: uma outra criação aconteceu no mesmo momento. Uma vez que o objetivo do ato de escrever era que o texto fosse resgatado - isto é, lido -, a incisão criou simultaneamente o leitor..."

(...)

"O escritor era um fazedor de mensagens, criador de signos, mas esses signos e mensagens precisavam de um mago que os decifrasse, que reconhecesse seu significado, que lhes desse voz. Escrever exigia um leitor..."

(...)

"Somente quando o escritor abandona o texto é que este ganha existência."

(...)

"Toda escrita depende da generosidade do leitor."

Manguel termina essa parte da invenção da escrita e do nascer do leitor com uma frase muito legal:

"Desde os primórdios, a leitura é a apoteose da escrita"


COMENTÁRIO DO BLOG

Este livro, que conheci quando entrei na Faculdade de Letras na USP em 2001, virou um livro de cabeceira, para ser um dos que eu levaria para uma ilha ou para o isolamento - daquelas famosas perguntas "quais livros você levaria se tivesse que ir para uma ilha...".

É isso!

William Mendes
Um leitor

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