domingo, 4 de outubro de 2015

Hannah Arendt - Reflexões necessárias e atuais





Refeição Cultural

O momento político por que passa nosso querido país, Brasil, após as eleições presidenciais de 2014, com o recrudescimento e ascensão dos ideais de direita e do fascismo, é muito propício para estudos e reflexões sobre a história humana como fato consumado e realidade a se observar do passado para que não se repita no presente.

As reflexões e conclusões a que chegou a filosofa Hannah Arendt após acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann sobre a banalização do mal durante a ascensão do nazismo e o advento do 3º Reich é muito acertada em minha opinião.

Seguem abaixo a sinopse do filme, uma parte em inglês que pode ser pulada e momentos marcantes do filme que anotei para postar aqui e deixar como reflexão.



SINOPSE (Wikipedia - com revelações sobre o filme)

Para Hannah Arendt (Barbara Sukowa) os Estados Unidos dos nos 50 é um sonho realizado, depois de chegar lá com seu marido Heinrich (Axel Milberg) como refugiados de um campo de concentração nazista na França. 

Nos EUA, surge a oportunidade dela cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann para a The New Yorker. Ela escreve sua avaliação sobre o caso e outros fatos desconhecidos, e a revista separa tudo em 5 artigos. Porém, aí começa o drama de sua vida, pois nos artigos mostra que nem todos que participaram dos crimes de guerra eram verdadeiros monstros, segundo ela, judeus também estavam envolvidos e ajudaram na matança dos seus iguais. 

A sociedade se volta contra ela e a New Yorker, e as críticas são tão fortes que até mesmo seus amigos mais próximos se assustam.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS (Wikipedia em inglês)

As the film opens Eichmann has been captured in South America. It is revealed that he escaped there via the "rat line" and with forged papers. Arendt, now a professor in New York, volunteers to write about the trial for The New Yorker and is given the assignment. Observing the trial, she is impressed by how ordinary and mediocre Eichmann appears. She had expected someone scary, a monster, and he does not seem to be that. In a cafe conversation in which the Faust story is raised it is mentioned that Eichmann is not in any way a Mephisto (the devil). Returning to New York, Arendt has massive piles of transcripts to go through. Her husband has a brain aneurysm, almost dying, and causing her further delay. She continues to struggle with how Eichmann rationalized his behavior through platitudes about bureaucratic loyalty, and that he was just doing his job. When her material is finally published, it immediately creates enormous controversy, resulting in angry phone calls and a falling out from her old friend Hans Jonas.

In a night out on the town with her friend, novelist Mary McCarthy, she insists that she is being misunderstood, and her critics who accuse her of "defending" Eichmann have not read her work. McCarthy broaches the subject of Arendt's love relationship many years ago with philosopher Martin Heidegger, who had collaborated with the Nazis. Arendt finds herself shunned by many colleagues and former friends. The film closes with a final speech she gives before a group of students, in which she says this trial was about a new type of crime which did not previously exist. A court had to define Eichmann as a man on trial for his deeds. It was not a system or an ideology that was on trial, only a man. But Eichmann was a man who renounced all qualities of personhood, thus showing that great evil is committed by "nobodies" without motives or intentions. This is what she calls "the banality of evil".

The film, which captures Arendt at one of the most pivotal moments of her life and career, also features portrayals of other prominent intellectuals, including philosopher Martin Heidegger, novelist Mary McCarthy, and New Yorker editor William Shawn.


Momentos marcantes do filme que nos levam a reflexões

O Mossad captura o nazista Adolf Eichmann e o leva a Jerusalém para ser julgado por seus crimes.

Hannah se candidata a ir para Jerusalém cobrir o julgamento para uma revista americana. Seu marido lhe avisa de antemão o que será o julgamento e que ela pode se decepcionar pelo que vai ver. O julgamento daquele homem será sobre o regime nazista e não sobre algum crime que ele pessoalmente tenha cometido contra alguém, os judeus, por exemplo. Mas ela decide ir assim mesmo, principalmente porque ficou retida em campos de recolhimento de judeus na França e não em campos de concentração. Ela nunca tinha visto um "monstro" nazista.

As primeiras cenas em preto e branco do julgamento de Eichmann no filme me causaram grande comoção. Fiquei pensando no que foi o nazismo e na semente do fascismo no Brasil, plantada pela imprensa golpista e pelos partidos de oposição ao governo do PT, e também no mundo, após a atual crise mundial do capitalismo (após crise do subprime em 2008), afetando os países centrais europeus.

Um personagem muito próximo a Hannah, em Jerusalém, relembra a Hannah que jovens judeus naquela época (anos 50) se envergonhavam de seus pais por eles não terem se defendido dos nazistas. Segundo esses jovens judeus da época, o sentimento de vergonha deles chegava ao ponto de uns afirmarem que só teriam sobrevivido ao holocausto "criminosos" e "prostitutas".


DEPOIMENTO DE EICHMANN SOBRE O QUE FAZIA NO SISTEMA NAZISTA

" - eu só recebia ordens... se as pessoas nos vagões iam ser mortas ou não, as ordens tinham que ser executadas".

Hannah observa atentamente a fala de Eichmann. Cada um no sistema nazista era responsável somente por etapas de processos racionais na burocracia do Estado Alemão.


O JULGAMENTO ERA DO FATO HISTÓRICO E NÃO DE AÇÕES DE UMA PESSOA

Ao falar com seu marido nos Estados Unidos por telefone, Hannah reclama do que tem observado no julgamento, no que as testemunhas de acusação e Eichmann declaram.

Seu marido relembra o que disse a ela antes de aceitar reportar o julgamento de Eichmann: o julgamento em Jerusalém seria sobre o Fato Histórico e não sobre as ações de um homem - o alemão Adolf Eichmann.


DEPOIMENTO DE EICHMANN SOBRE CONFLITOS DE CONSCIÊNCIA

Perguntado se não havia conflito de consciência, Eichmann disse que eles estavam em guerra, que havia uma hierarquia a obedecer, que era uma questão cívica, foi sim uma questão de comportamento humano.

Eichmann continua: diz que havia muita agitação, não adiantava resistir às ordens. Ele supõe que o que ocorreu tenha sido resultado da época em que todos viviam, era resultado da educação que as crianças recebiam, da ideologia que se inseminava, do serviço militar, esse tipo de coisa.


HANNAH TEM DISCUSSÃO ACALORADA COM SEUS PARES

Ela analisa que as afirmações de Eichmann têm sentido. Ele declarou no julgamento não ter nada contra judeus e que só cumpria ordens no serviço em colocar as pessoas nos trens, verificar quantidades por vagões e liberar os trens. Quando os trens partiam, sua tarefa estava terminada e realizada. Hannah diz que Eichmann era um burocrata do Estado Alemão.


PENSAR É UM ATO SOLITÁRIO

Num certo momento das reminiscências de Hannah sobre sua relação com o filósofo Heidegger, ele diz a ela quando jovem que pensar é um ato solitário.

Em aula, já nos Estados Unidos, Hannah diz que a tradição ocidental parte do pressuposto de que os piores atos que o homem pode cometer resultam do seu egocentrismo.

Hannah contesta a partir das conclusões que passou a ter após refletir sobre suas observações do julgamento de Adolf Eichmann e os crimes cometidos pelo nazismo.

Ela diz "agora sabemos que o pior mal, o mal radical, nada tem que ver com motivos humanamente compreensíveis e imorais como o egocentrismo. Ao contrário, está ligado ao fenômeno de tornar o homem supérfluo. O sistema reinante nos campos de concentração visava a convencer os prisioneiros de que eles eram supérfluos antes de serem mortos".

Hannah conclui que o alemão burocrata Eichmann era simplesmente incapaz de pensar. O povo alemão de certa forma fora levado a ser um povo autômato dentro do sistema e da ideologia nazista.


SOBRE O PAPEL DE CERTOS LÍDERES JUDEUS

Hannah observa em seus relatos que onde quer que os judeus morassem, havia sempre líderes judeus reconhecidos. E esses líderes, quase sem exceção, cooperavam de uma maneira ou outra, e por diversas razões, com os nazistas.

Ela afirma que se o povo judeu estivesse realmente desorganizado e sem qualquer liderança, teria havido caos e muita miséria, mas o número de vítimas não teria se situado entre 4,5 e 6 milhões.

O questionamento que ela faz é sobre as opções dúbias de certos chefes e líderes e não sobre culpar as vítimas. Hannah não foi compreendida assim pelos leitores de sua comunidade.


A BANALIDADE DO MAL

A principal conclusão a que chegou Hannah Arendt após muita reflexão sobre o julgamento de Adolf Eichmann e os feitos do povo alemão durante o regime nazista é que o maior mal cometido no mundo é o mal cometido por "ninguém": A BANALIDADE DO MAL NÃO PERSONIFICADO EM UMA PESSOA.

Aqui me lembrei das palavras do historiador Eric Hobsbawn na introdução da obra "Era dos Extremos", quando ele afirma que "tentar entender o regime nazista não é o mesmo que perdoar".

Ao se negar a pensar, agir como ser humano, Eichmann abdicou de ser uma pessoa, abdicou totalmente da característica que mais define o ser humano como tal: a de ser capaz de pensar.

Consequentemente, ele se tornou incapaz de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos cidadãos comuns cometessem atos cruéis numa escala monumental jamais vista.

Hannah diz que, na verdade, tratou dessas questões de forma filosófica. A manifestação do ato de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal, o belo do feio, e que ela tinha esperança de que o pensar deveria dar força às pessoas para evitar a catástrofe nos momentos difíceis, na hora da verdade.

"O mal como aprendemos é algo demoníaco, uma encarnação de satã. Mesmo com toda a boa vontade do mundo, não se percebe em Eichmann nenhuma índole diabólica ou demoníaca. Ele era incapaz de pensar", afirma Arendt.

Diz ainda: "De uma vida medíocre, desprovida de qualquer sentido ou importância, os ventos sopraram Adolf Eichmann para a história".

E conclui: "Foi por absoluta falta de reflexão, o que não tem a ver com ignorância, que o predispôs a tornar-se um dos maiores criminosos do século XX. Ele era simplesmente incapaz de pensar".


FINALIZO POSTAGEM MUITO REFLEXIVO E APREENSIVO

Eu finalizo muito reflexivo e apreensivo após revisitar e estudar os motivos e os fatos que levaram aos acontecimentos na Europa e no mundo entre os anos 20 e 40 com a ascensão do nazifascismo. 

Fico mais apreensivo ainda quando vejo os ventos reacionários e de direita que sopram no mundo pós crise de 2008, nos países periféricos e em desenvolvimento e no Brasil, com a notória construção de Golpe de Estado em andamento (Coup d'État), com a abertura da Caixa de Pandora e o aumento das intolerâncias desde as eleições presidenciais de 2010 e, principalmente, após as eleições presidenciais de 2014, que reelegeram a presidenta Dilma Rousseff (PT).

Os países árabes que sofreram interferências em suas soberanias, com influência e apoio de americanos e países europeus, afundaram no caos. 

É evidente que os países centrais e suas corporações e multinacionais estão atuando também para a instabilidade de países sul-americanos com governos eleitos mais à esquerda e contrários a entregarem às ex-metrópoles e imperialistas, o resto do patrimônio e soberania que sobrou do caos neoliberal dos anos noventa nas Américas, com a doação das empresas nacionais via privatizações. 

O petróleo é um dos motivos dos ataques ao governo brasileiro e venezuelano. A distribuição de renda para os trabalhadores e maior soberania nacional são outras opções dos governos nacionalistas da América do Sul que incomodaram os países centrais na última década.

Gostaria que meus pares da classe trabalhadora refletissem sobre aquelas reflexões a que chegou Hannah Arendt sobre os atos cruéis praticados pelos cidadãos comuns alemães contra o povo judeu durante todos aqueles anos de 3º Reich, entre 1933 e 1945. 

Isso é muito sério! Quando se perceber, pode ser tarde demais.

William Mendes

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