terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Leitura do poema O Rio - João Cabral de Melo Neto





O Rio

ou

Relação da viagem
que faz o Capibaribe
de sua nascente
à cidade do Recife (1953)


Refeição Cultural

Hoje tive a felicidade de ler a obra O Rio, de João Cabral de Melo Neto. É fantástica! A personagem é nada mais nada menos que o Rio Capibaribe nos contando seu percurso desde a nascente até o mar.

Enquanto vamos lendo, vamos nos identificando, vamos nos emocionando com tudo o que o Rio vê e nos conta, as misérias, os retirantes, a destruição causada pelos usineiros. Só de comentar aqui no blog, já nos arrepiamos.

Que momento para a leitura de João Cabral! Nosso querido e sofrido País está de novo entregue a golpistas e exploradores de nossa terra e nossa gente. Eu recomendo muito aos amig@s leitores a leitura deste poema de 1953.

Eu ganhei este livro com algumas obras de João Cabral em um dos cursos de formação que organizamos na época em que estava na Contraf. Agradeço novamente ao Alex pelo excelente presente que me deu!

Segue abaixo algumas passagens que me tocaram muito.


O RIO (1953)

"Da lagoa da Estaca a Apolinário

Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).

(...)"

Assim começa a aventura do Rio Capibaribe rumo ao mar...


"Do riacho das Éguas ao ribeiro do Mel

(...)
Entretanto a paisagem,
com tantos nomes, é quase a mesma.
A mesma dor calada,
o mesmo soluço seco,
mesma morte de coisa
que não apodrece mas seca.

(...)"

O Rio vai encontrando a mesma paisagem, o mesmo sofrimento desde a nascente até a chegada a Recife.


"Terras de Limoeiro

Vou na mesma paisagem
reduzida à sua pedra.
A vida veste ainda
sua mais dura pele.
Só que aqui há mais homens
para vencer tanta pedra,
para amassar com sangue
os ossos duros desta terra.
E, se aqui há mais homens,
esses homens melhor conhecem
como obrigar o chão
com plantas que comem pedra.
Há aqui homens mais homens
que em sua luta contra a pedra
sabem como se armar
com as qualidades da pedra.

(...)"

Reflexão: há que se alimentar das pedras e da qualidade das pedras...


"O trem de ferro

(...)
Diversa da dos trens
é a viagem que fazem os rios:
convivem com as coisas
entre as quais vão fluindo;
demoram nos remansos
para descansar e dormir;
convivem com a gente
sem se apressar em fugir.

(...)"

Fiquei pensando na minha natureza política: sair da burocracia e conviver com as gentes, como o Rio.


"Descoberta da Usina

(...)
Vira usinas comer
as terras que iam encontrando;
com grandes canaviais
todas as várzeas ocupando.
O canavial é a boca
com que primeiro vão devorando
matas e capoeiras,
pastos e cercados;
com que devoram a terra
onde um homem plantou seu roçado;
depois os poucos metros
onde ele plantou sua casa;
depois o pouco espaço
de que precisa um homem sentado;
depois os sete palmos
onde ele vai ser enterrado.

(...)"

Esse é o mal da exploração predatória desde o início em nossa ex colônia brazil pelo mesmo 1% dono de tudo.


"Encontro com a Usina

Mas na Usina é que vi
aquela boca maior
que existe por detrás
das bocas que ela plantou;
que come o canavial
que contra as terras soltou;
que come o canavial
e tudo o que ele devorou;
que come o canavial
e as casas que ele assaltou;
que come o canavial
e as caldeiras que sufocou.
Só na Usina é que vi
aquela boca maior,
a boca que devora
bocas que devorar mandou.

Na vila da Usina
é que fui descobrir a gente
que as canas expulsaram
das ribanceiras e vazantes;
e que essa gente mesma
na boca da Usina são os dentes;
que mastigam a cana
que a mastigou enquanto gente;
que mastigam a cana
que mastigou anteriormente
as moendas dos engenhos
que mastigavam antes outra gente;
que nessa gente mesma,
nos dentes fracos que ela arrenda,
as moendas estrangeiras
sua força melhor assentam.

(...)"

O Rio Capbaribe vai chegando a Recife... e com ele o povo retirante.


"De São Lourenço à Ponte de Prata

(...)
Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra comigo a gente
que comigo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram comigo rios
a quem o mar chamou,
entra comigo a gente
que com o mar sonhou,
e também retirantes
em quem só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
a mais triste que já baixou,
a gente que a usina,
depois de mastigar, largou.

(...)"

E o Rio segue contando o que vê chegando ao final de seu percurso...


"De Apipucos à Madalena

(...)
Um velho cais roído
e uma fila de oitizeiros
há na curva mais lenta
do caminho pela Jaqueira,
onde (não mais está)
um menino bastante guenzo
de tarde olhava o rio
como se filme de cinema;
via-me, rio, passar
com meu variado cortejo
de coisas vivas, mortas,
coisas de lixo e de despejo;
viu o mesmo boi morto
que Manuel viu numa cheia,
viu ilhas navegando,
arrancadas das ribanceiras.

(...)"

O Rio Capibaribe vê o próprio poeta João Cabral em sua margem. O mesmo Rio que Manuel Bandeira já versava na Evocação do Recife...

      [ "Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu

      E nos pegões da ponte do trem de ferro
      os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras"]


"Dos Coelhos ao cais de Santa Rita

(...)
Rio lento de várzea,
vou agora ainda mais lento,
que agora minhas águas
de tanta lama me pesam.
Vou agora tão lento,
porque é pesado o que carrego:
vou carregado de ilhas
recolhidas enquanto desço;
de ilhas de terra preta,
imagem do homem aqui de perto
e do homem que encontrei
no meu comprido trajeto
(também a dor desse homem
me impõe essa passada de doença,
arrastada, de lama,
e assim cuidadosa e atenta).

(...)"

Assim como o Rio, vamos lentos e pesados pelo fardo que carregamos nesta quadra da história de nosso País...


"Tudo o que encontrei
na minha longa descida,
montanhas, povoados,
caieiras, viveiros, olarias,
mesmo esses pés de cana
que tão iguais me pareciam,
tudo levava um nome
com que poder ser conhecido.
A não ser esta gente
que pelos mangues habita:
eles são gente apenas
sem nenhum nome que os distinga;
que os distinga na morte
que aqui é anônima e seguida.
São como ondas de mar,
uma só onda, e sucessiva..."


Ao fim da leitura do poema, estamos de olhos úmidos, lágrima grossa com a mesma consistência que o Capibaribe que chegou ao mar: grosso de lama e pesar.

William


Post Scriptum:

Estava pensando, enquanto li este poema hoje, eu acompanhava mais uma reunião de trabalho na entidade de saúde que participo como gestor eleito pelos associados. Pode ser que quando estiver em outra época, em outras paragens, eu dê voz às paredes da entidade para que elas, assim como o Capibaribe, falem por si mesmas, tudo que viram por anos e anos nas duras discussões entre gestores eleitos e indicados.


Bibliografia:

MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina e outros poemas. Alfaguara. Rio de Janeiro. Direitos da Objetiva 2007.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Leitura de Fausto, de Goethe


A edição que li de Fausto.

"FAUSTO

- Como é teu nome?

MEFISTÓFELES

- Essa pergunta me parece frívola, por parte de quem tem tanto desprezo pelas palavras, que sempre se afasta das aparências, e que olha sobretudo o âmago dos seres.

FAUSTO

- Entre vós outros, meus senhores, pode-se facilmente adivinhar a vossa natureza de acordo com os vossos nomes, e é o que se torna conhecido claramente, quando sois chamados inimigos de Deus, sedutores, mentirosos. Pois bem. Quem és tu?

MEFISTÓFELES

- Uma parte daquela força que ora quer o mal e ora faz o bem.

FAUSTO

- Que significa esse enigma?

MEFISTÓFELES

- Sou o espírito que nega sempre; e com justiça: pois tudo que existe merece ser destruído, e seria melhor, portanto, se não existisse. Assim, tudo que chamais de pecado, destruição, em suma, o que se considera o mal, eis o meu elemento.

FAUSTO

- Chamas-te de parte, e ei-te bem inteiro diante de nós.

MEFISTÓFELES

- Vou dizer-te a modesta verdade. Se o homem, esse mundozinho de loucura, se considera, ordinariamente, como formando um todo, sou, por minha vez, uma parte da parte que existia no começo de tudo, uma parte daquela escuridão que deu começo à luz orgulhosa que, agora disputa com sua mãe, a Noite, sua antiga posição e o espaço que ela ocupava; o que de nada lhe vale, porque, apesar de seus esforços, ela só consegue aflorar à superfície dos corpos que a detêm; ela brota da matéria, por onde escorre e que colore, mas basta um corpo para deter-lhe a marcha. É lícito, pois, esperar que ela não dure muito tempo, ou que se aniquile com os próprios corpos.

FAUSTO

- Agora, já conheço as tuas honrosas funções; não podes aniquilar a massa, e te prendes aos detalhes.

MEFISTÓFELES

- E, para falar com franqueza, não tenho feito grande coisa: o que se opõe ao nada, o algo, esse mundo material, embora tenha me esforçado, não pude desorganizá-lo até agora; em vão lancei contra ele ondas, tempestades, terremotos, incêndios; o mar e a terra continuaram tranquilos. Nada temos a ganhar com essa maldita semente, origem dos animais e dos homens. Quantos eu não tenho enterrado! E sempre circula um sangue fresco e novo. Eis a marcha das coisas; é de enlouquecer. Mil germes avançam do ar, da água, como da terra, no seco, no úmido, no frio, no quente. Se eu não tivesse reservado para mim o fogo, coisa alguma teria de minha parte..."

(Fausto, Goethe)


Refeição Cultural

Terminei a leitura de Fausto, de Johann Wolfgang Goethe. Pela leitura crítica que fiz, o autor alemão passou praticamente a vida inteira revisando esta obra. A tradução que li é baseada no chamado Fausto primitivo, mais próxima dos anos 1770.

Esta edição é ilustrada pelas litografias de Eugène Delacroix.

Já estava muito pensativo com o fim da leitura da obra de Victor Klemperer (ler AQUI) sobre a linguagem do Terceiro Reich, período em que o povo alemão vendeu sua alma a Hitler e ao nazismo.

Eu havia lido Fausto quando era adolescente e meu entendimento foi o possível para a idade. Ao reler obras clássicas, além dos tempos serem outros, nós somos outra pessoa, outro leitor.


Fausto tenta seduzir Margarida. Litografia de Eugène Delacroix.

Após o fim da leitura, saí para correr e caminhar um pouco. Refleti que preciso ler algo mais leve nestes dias longe das guerras do meu trabalho político de gestor de autogestão em saúde porque a gente fica bastante deprê ao aprofundar o conhecimento de mundo que já temos.

Por outro lado, é impossível desligar a chave do conhecimento que temos. A vida de um militante político é diferente da vida das demais pessoas justamente por nossa formação teórica e prática no enfrentamento das questões sociais para as quais nos dispusemos a lidar desde cedo.

Já fiz aqui neste blog grandes reflexões e estudos de livros lidos. Mas confesso que neste momento de minha vida não posso sentar e me debruçar numa análise técnica ou crítica dos livros que estou lendo como já fiz de outras vezes. Levaria tempo e estou com outras tarefas na atualidade.

O que posso e devo fazer é deixar a referência de leitura, se vale a pena ou não sugerir aos leitores e amig@s que nos acompanham. Aprendi uma verdade no curso de Letras que se renova para mim cada vez que termino uma leitura clássica: é melhor ler os clássicos que não ler os clássicos. O conhecimento novo a partir da leitura nos engrandece. 

É isso. Mais um clássico da literatura universal.

Vamos para as próximas leituras em busca de conhecimento e reflexão para o viver.

William


Post Scriptum:

Para se ter uma ideia do que estou fazendo em meus dias de folga, estou revisando dezenas de textos de meus dois blogs, o de trabalho e o de cultura. Os textos e reflexões não deixam de ser um registro de meu percurso como cidadão do mundo em vários anos de militância social e cultural.

sábado, 7 de janeiro de 2017

LTI - A Linguagem do Terceiro Reich, Victor Klemperer (1947)


(atualizado às 9:48h de 08/1/17)



Refeição Cultural

"A língua conduz o meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais inconscientemente eu me entregar a ela. O que acontece se a língua culta tiver sido constituída ou for portadora de elementos venenosos? Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar"


Victor Klemperer, LTI


Acabei a leitura do livro do filólogo alemão Victor Klemperer (1881-1960). A obra é uma das raras contribuições em forma de testemunho de sobreviventes do nazismo. Este livro traz uma característica a mais, pois ele é o mais profundo estudo filológico e linguístico sobre as mudanças na língua alemã desde a ascensão de Adolf Hitler em 1933 e durante todo o 3º Reich.

Esta obra é profunda, é reveladora. Mostra a técnica utilizada por Hitler e Goebbels, Ministro da Propaganda, para conduzir toda a nação alemã ao nazismo.

Eu vi este livro um certo dia quando flanava por uma livraria paulista no ano de 2010. Na hora peguei o volume, li a capa e as abas e fiquei tomado de curiosidade. Desde então, comecei a ler, com a dificuldade que sempre tive de pouco tempo disponível para leituras pessoais.

Eu não consegui avançar rapidamente, porque cada capítulo de suas mais de 400 páginas me deixava passado, perplexo, sem reação para ler muitos capítulos na mesma sentada. Foi desta forma que fui me apropriando dos ensinamentos de Victor Klemperer, porque o objetivo da confecção da obra era a educação e a contribuição ao povo alemão para "desnazificar" a língua alemã após a catástrofe do 3º Reich entre 1933-45.

Ao mesmo tempo em que adquiri o livro e passei a manuseá-lo, a partir de 2010, fui me apercebendo do que ocorria em meu país, o Brasil dos governos do Partido dos Trabalhadores, primeiro Lula da Silva e depois Dilma Rousseff, em relação às estratégias de comunicação e linguagem dos empresários donos dos meios midiáticos, em monopólio e propriedade cruzada, que chamamos de Partido da Imprensa Golpista (PIG). As semelhanças das técnicas nazistas e da mídia empresarial não são mera coincidência. Nunca foram!

O livro é tão profundo que seria muito difícil eu fazer postagens com citações e comentários como gosto de fazer. Até fiz algumas, é só clicar na aba direita do blog na categoria "Victor Klemperer" que tem algumas citações.

O que é possível é deixar para vocês a sugestão de leitura, como acontece quando entramos em uma curso acadêmico. Eu me lembro de um professor, o PC, de meu primeiro curso superior em Ciências Contábeis (FEAO/FITO) que dizia que na USP o que tínhamos eram listas de referências de leitura e bibliografias a cumprir para discutir em sala de aula. Depois entrei no curso de Letras na FFLCH/USP e experimentei o que ele havia nos dito anos antes.

Quando entrei em férias, dias atrás, decidi pegar e terminar o livro de Klemperer. Li as oitenta páginas que faltavam. Novamente, fiquei passado, perplexo, triste, atento à realidade como alguém que percebe o que está acontecendo em meu mundo, em meu País.

Estamos vivendo num Brasil que sofreu Golpe de Estado em 2016. Os golpistas envolvidos na máquina estatal, dos três poderes, estão em conluio com os seus parceiros empresários dos meios de comunicação cartelizados e de mesma propriedade. O massacre totalitário das comunicações de todos os veículos de massa nos dá náuseas e quase nos destroem. Eu resisto porque tenho formação de vida para isso. Mas é muito difícil.

É verdade que tenho poucos dias para leituras de autoconhecimento antes de retornar ao cotidiano de trabalho, mas é interessante como a vida nos põe as leituras nas mãos. Estou nos dias de leituras "fáusticas".

Eu fui procurar um livro dias atrás, e não encontrando o que procurava, me encontrou o "Fausto" de Goethe. Peguei para ler e vou terminar nos próximos dois dias. O mito do homem que vende a sua alma ao diabo é muito antigo. As reflexões no livro de Victor Klemperer não deixam de ser um estudo de caso sobre isso. Eu acabei saindo hoje e fui comprar "Doutor Fausto", obra monumental do alemão Thomas Mann, lançada também em 1947, abordando o tema: como o povo alemão pôde vender sua alma ao nazismo?

A sociedade humana vai avançando no tempo e neste ponto da história humana estamos vendo novamente a ascensão das ideias e ideais de direita, fascistas, do domínio ideológico de uns poucos indivíduos (1%) sobre todos os demais bilhões no mundo (99%).

Enfim, peço a licença aos nossos leitores amig@s para sugerir a leitura desta obra do sobrevivente do nazismo Victor Klemperer. É boa leitura para aquel@s que gostam do tema de comunicação e linguagem, meios midiáticos e técnicas de convencimento de massas, linguística, política, propaganda e áreas afins.

Sabem de uma coisa? Eu estou muito focado em reler, corrigir, diagramar, categorizar e organizar minhas milhares de postagens em blog, feitas em mais de uma década, porque sempre acreditei em partilhar conhecimento e opiniões de maneira gratuita, como forma de dialogar com o mundo civilizado. Quando vejo que centenas de pessoas do mundo acessam nossos textos, sinto uma responsabilidade imensa em tudo o que escrevo e opino.

Abraços,

William


EXCERTOS:

COMO PERDOAR OS INTELECTUAIS DE TODAS AS ÁREAS DO CONHECIMENTO QUE ADERIRAM AO NAZISMO?

"Durante todos esses anos, principalmente nas semanas em Falkenstein, repeti para mim mesmo a pergunta para a qual não consigo encontrar resposta até hoje: como foi possível que intelectuais perpetrassem tamanha traição à cultura, à civilização e à humanidade? os agentes da Gestapo eram bestas humanas, apesar de terem patentes de oficiais; é preciso ter paciência com gente desse tipo, que vai continuar existindo. Mas uma pessoa culta como esse historiador da literatura! Atrás dele me vem à memória uma fila de literatos, poetas, jornalistas, acadêmicos. Traição por todo lado..."

USAR PALAVRAS QUE ANESTESIAM E DEIXAM A MASSA SEM CAPACIDADE DE PENSAR

"Hitler conhece com terrível precisão a psicologia da massa que é incapaz de desenvolver um raciocínio próprio e deve permanecer nessa condição. A palavra estrangeira impressiona e é tanto mais imponente quanto menos compreendida for; nesse caso, desconcerta e anestesia, sobreponde-se ao pensamento..."


Bibliografia:

KLEMPERER, Victor. LTI - A Linguagem do Terceiro Reich. Editora: Contraponto. 1ª edição, 2009.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Diário e reflexões - 050117



Noite de luar em Brasília.

Olá amig@s leitores,

Estou em minha primeira semana de férias de meu trabalho de gestor eleito da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Felizmente, precisei de poucas horas nesta semana acompanhando nossa equipe de trabalho na Cassi. Eu sou grato pela excelente equipe de profissionais que temos.

A gente tenta se desligar um pouco do mundo do trabalho e da política durante esses dias, mas é muito difícil.

Bom, estou me esforçando para caminhar e correr para ver se recupero um pouco da saúde e condição física, abaladas por causa da rotina que levo em defesa da entidade de saúde e dos associados que representamos.

Estou lendo o livro "Fausto" do alemão Goethe. A estória mitológica do homem que vendeu a alma ao diabo é bem propícia para o mundo em caos em que nos pegamos nesta fase do mundo humano. 


Janeiro é um mês de muito verde em Brasília.

Continuo relendo minha produção de textos nos blogues que mantenho. Já reli, diagramei e categorizei dezenas de postagens entre 2013 e 2016 nestes dias de férias. Encontrei muito texto bom. Levo muito a sério meu desejo de partilhar conhecimento e contribuir com reflexões sobre o mundo que vivemos.

Assisti com a família a alguns filmes. Vi alguns episódios de séries. Estou para escrever sobre o anime Death Note. Cheguei ao episódio 26 e fiquei pensativo sobre o que já vi: o mal está vencendo a batalha. A série foi recomendação de meu filho.

É impossível não ficar triste com a destruição de nosso querido País e dos direitos dos trabalhadores e do povo brasileiro por parte dos golpistas que tomaram o Brasil de assalto e estão cometendo crimes de lesa-pátria todos os meses, desde abril de 2016, em favor de corporações estrangeiras e alguns capitalistas que residem aqui (mas odeiam o Brasil e o povo daqui).

Se eu não estivesse no front de batalha pelos direitos em saúde de meus colegas bancários na autogestão que administro, muito provavelmente estaria envolvido nestas causas de nosso País. Foi assim quase que minha vida toda.

É isso,

William

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A igreja do Diabo, conto de Machado de Assis, de 1883


Apresentação do blog

"Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada..."


Às vezes, as estórias e as literaturas nos escolhem a nós. Eu fui procurar um livro numa pilha de uns trezentos em casa e não achando o que queria, achou-me o Fausto, de Goethe. Peguei pra ler.

Aí, nesta manhã, catei a esmo um livro com cinquenta contos de Machado. Estou no meio dele. Inicio um conto e lá está a citação de Fausto...

Caramba! Uns chamam isso de coincidência, acaso. Outros, dão sentido esotérico ou místico ao caso.

A verdade é que o mundo anda um lugar do Diabo. Isso estamos vivendo.

A questão da venalidade vale muito a pena ver a explicação do Diabo, para refletirmos sobre os valores que imperam em nosso mundo cão. 

Outra questão comentada pelo Diabo é a solidariedade, grave obstáculo às causas do demo.

Leiam o conto de Machado. Ele foi escrito em 1883, mas sua atualidade poderia nos dizer que publicaram na semana passada, aqui no Brasil.

Abraços, William




(Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, 12 de fevereiro de 1883. Depois foi reunido por Machado de Assis no livro "Histórias sem data", em 1884)



CAPÍTULO PRIMEIRO

DE UMA IDEIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. 

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. 

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul. 


CAPÍTULO II 

ENTRE DEUS E O DIABO 

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor. 

— Que me queres tu? perguntou este. 

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos. 

— Explica-te. 

— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros... 

— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura. 

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece? 

— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor. 

— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental. 

— Vai. 

— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra? 

— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja? 

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse: 

— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura... 

— Velho retórico! murmurou o Senhor.

— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos... 

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo. 

— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez? 

— Já vos disse que não. 

— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão? 

— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega. 

— Negas esta morte? 

— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los... 

— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai! 

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra. 


CAPÍTULO III 

A BOA NOVA AOS HOMENS 

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas. 

— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... 

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada. 

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. 

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. 

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele. 

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria. 


CAPÍTULO IV 

FRANJAS E FRANJAS 

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo. 

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros. 

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse: 

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Fim.


Fonte: as obras de Machado são de domínio público.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

É urgente salvar o Brasil e os brasileiros da mídia empresarial





Sob o chavão de "liberdade de imprensa", um termo sério em sua origem, mas apropriado criminosamente na contemporaneidade por empresários bilionários de corporações globais para subjugar populações e soberanias dos países a seus meios totalitários de comunicação de massa, o Brasil e o povo brasileiro estão sendo destruídos de maneira quase irremediável, no presente e no futuro.

O Brasil já é um ornitorrinco quando se fala em Democracia e República. Podemos até falar também em relação ao "Capitalismo". Falamos em poder do povo num País que em sua história tem mais golpes de estado e derrubadas de governos do que períodos onde governa quem o povo elegeu. 

Falamos em coisa pública num País que em cinco séculos de exploração de elites várias, nunca teve de fato a separação da coisa privada e da coisa pública. Os governos das elites sempre estenderam seus bens privados se apropriando do público. Um País governado por coronéis, "doutores" e indicados por eles. Na minha opinião, a Casa Grande.

E o que dizer sobre se entender um país capitalista, se fomos os últimos a abolir a escravidão e passarmos décadas sem distribuição mínima de renda do trabalho para que os trabalhadores consumissem os bens produzidos?

O mundo e as sociedades vão mudando com o passar do tempo e hoje o Planeta Terra é hegemonizado pela tecnologia da "informação". As "pessoas" jurídicas suplantaram o poder dos Estados Nacionais e os poderes atuais dos donos dos conglomerados de comunicação os transformaram em deuses e donos do mundo. Donos de nossa vida e nossa pauta.

Eu mal posso começar a desenvolver com profundidade minhas ideias a respeito do tema porque minhas ocupações profissionais e de representação são outras (área da gestão de saúde). Se estivesse na condição de acadêmico e estudioso do tema, adoraria dedicar minha luta contra o totalitarismo da mídia empresarial. Eu já fui dirigente eleito por trabalhadores responsável por setor de comunicação em uma confederação - a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf). 

Tive a felicidade de estudar o tema, de me envolver e participar dos movimentos que lutam e reivindicam regulamentação da mídia no Brasil e sei que o verdadeiro poder de dominação do mundo atual é de quem detém estes meios de comunicação de massa.

O golpe de estado aplicado no Brasil no ano de 2016, mais uma vez teve a liderança e o planejamento central a partir de magnatas da comunicação brasileira como os irmãos Marinho, a família Civita, os Frias e os Mesquita. Como a oposição política e partidária aos governos federais do Partido dos Trabalhadores não teve capacidade de propor nada que dialogasse com o povo brasileiro em mais de uma década, coube aos donos da comunicação concentrada (inconstitucional) se estabelecerem como oposição aos governos do PT e aos programas e avanços históricos para o povo brasileiro.

Quando isso ficou claro, esses meios de comunicação empresarial, o chamado 4º poder, passaram a ser chamados por nós do campo progressista e contra-hegemônico de Partido da Imprensa golpista (PIG).

Iniciamos o "Ano Novo" sem haver ano novo. O ano da destruição do Brasil e da democracia brasileira, 2016, seguirá todos os dias por um longo tempo, em relação às pautas colocadas pelos golpistas, o tal 1% dos donos de tudo (corporações globais e rentistas).

Na minha opinião, é urgente que as lideranças nacionais do campo progressista definam uma estratégia consistente para bloquear essa máquina totalitária desses empresários do PIG.

Essa máquina de manipulação ideológica envenenou o povo brasileiro. Criou uma cultura de ódio e intolerância que não será revertida tão cedo. Mas há que se começar a combater essa máquina totalitária de manipulação.

É isso que penso. Poderia alongar as reflexões entrando na exemplificação de eventos sociais brasileiros que relaciono como efeitos oriundos dessa máquina de destruição do Brasil e dos brasileiros, mas paro por aqui.

O povo e as entidades de representação do povo, que já não estejam sob domínio e influência desses donos de toda a mídia golpista, precisam enfrentar e tomar para si os meios de comunicação, principalmente os de concessão pública, porque o direito à informação é um direito humano.

William
Cidadão brasileiro