sábado, 20 de abril de 2019

O Capital - Ainda o fetichismo da mercadoria no modo de produção capitalista




Refeição Cultural

"O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas do homem representem, normalmente, relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza. A estrutura do processo vital da sociedade, isto é, do processo da produção material, só pode desprender-se do seu véu nebuloso e místico no dia em que for obra de homens livremente associados, submetida a seu controle consciente e planejado. Para isso, precisa a sociedade de uma base material ou de uma série de condições materiais de existência, que, por sua vez, só podem ser o resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento." (Pág. 101, O Capital, Karl Marx, 1867 - o sublinhado é do blog)



Ao reler as quinze páginas da parte d'O Capital em que Marx fala do fetiche da mercadoria - "O fetichismo da mercadoria, seu segredo" -, a gente fica refletindo sobre um monte de coisas. (postagem anterior AQUI)


Outro dia, um colega de leituras me contou que na faculdade a turma dele estudou o ano todo O Capital e o professor disse aos alunos que entender a questão do fetichismo da mercadoria era algo importante. Me deu um certo alivio saber que o tema é espinhoso mesmo.


Os exemplos que Marx nos dá das diversas formas de produção material em determinadas sociedades ou comunidades baseadas na divisão social do trabalho, além da forma atual predominante, a do modo de produção capitalista, em que o objetivo da produção material é a produção de mercadorias, nos faz refletir que certos objetivos que perseguimos ao longo de nossa vida de representação e organização social da classe trabalhadora não são objetivos impossíveis, irreais ou utópicos; pelo contrário, são factíveis.


É possível nos organizarmos enquanto sociedade e enquanto seres livres de formas associativas e ou cooperativas para a produção material de tudo que necessitamos para nossa vida e respeitando a individualidade de cada participante daquele sistema social. É possível. Já foi prática comum de diversos povos e coletividades ao longo da história humana.


Num dos exemplos, a divisão social do trabalho se dá numa indústria patriarcal rural:


"Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos - lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura etc. - são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família, que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. Diferenças de sexo e de idade e as condições naturais do trabalho, variáveis com as estações do ano, regulam sua distribuição dentro da família e o tempo que deve durar o trabalho de cada um de seus membros." (p. 99)


Noutro exemplo, Marx cita associativismo e cooperativismo de homens livres:

"Suponhamos, finalmente, para variar, uma sociedade de homens livres, que trabalham com meios de produção comuns e empregam suas múltiplas forças individuais de trabalho, conscientemente, como força de trabalho social. Reproduzem-se aqui todas as características do trabalho de Robinson (personagem Robinson Cruzoé, citado antes), com uma diferença: passam a ser sociais, ao invés de individuais. Todos os produtos de Robinson procediam de seu trabalho pessoal, exclusivo, e, por isso, eram, para ele, objetos diretamente úteis. Em nossa associação, o produto total é um produto social.  Uma parte desse produto é utilizada como novo meio de produção. Continua sendo social. A outra parte é consumida pelos membros da comunidade. Tem, portanto, de ser distribuída entre eles. O modo dessa distribuição variará com a organização produtiva da sociedade e com o correspondente nível de desenvolvimento histórico dos produtores..." (Pág. 100)


Reflexões

Vejam, amig@s leitores, tanto nesta citação acima, quanto na primeira que fiz como epígrafe da postagem, temos uma referência à palavra "desenvolvimento". Lembrei-me de nosso lema no movimento dos trabalhadores brasileiros durante os governos democráticos e populares de Lula e o 1º de Dilma, pouco tempo atrás, quando defendíamos o "desenvolvimento com distribuição de renda".

Níveis de desenvolvimento e condições de produção material de uma determinada sociedade são fatores importantes para a definição de que tipo de sociedade humana queremos para nós. 

Na epigrafe que citei, Marx fala em "relações racionais entre homens", inclusive racional em relação à natureza (pensem na questão contemporânea da sustentabilidade!); ele chama o processo de produção material de "vital"; ainda em relação ao processo da produção material Marx nos lembra da necessidade da livre associação entre os homens para tal; por fim, afirma a necessidade de um processo de desenvolvimento para se alcançar uma base material satisfatória.

Profundo, não?

A condição de produção material de uma sociedade tem influência sobre as diversas dimensões sociais dessa mesma sociedade. A situação de momento dos componentes de uma sociedade humana não é algo regido por leis naturais; as coisas não são como são porque têm que ser assim (por exemplo: má distribuição de bens e renda). A condição de momento dos componentes de uma sociedade não é como a lei da gravidade ou qualquer outra das ciências físicas, químicas e da natureza.

Nós somos o reflexo do mundo em que vivemos. Mas nós podemos alterar o mundo em que vivemos para sermos novamente reflexo daquele mundo novo em que vivemos.

As produções materiais das sociedades humanas ao longo da história da humanidade não tiveram como objetivo serem mercadorias como no modelo de produção capitalista, dentro do que Marx explica como valores de uso e valores de troca.

Com o avançar da leitura de O Capital, espero que vá ficando cada vez mais claro aquilo que já aprendi ao longo da existência como algo que não favorece a nossa vida de trabalhadores: os bens da nossa produção humana serem tratados como mercadorias.

Não é correto saúde ser tratada como mercadoria; educação ser tratada como mercadoria; direitos elementares à existência dos seres humanos serem tratados como mercadorias. Isso não é correto!


Síntese da reflexão

A produção material e a divisão social do trabalho em uma coletividade humana (com laços comuns como uma determinada nação, um Estado, uma sociedade) não precisam estar organizadas na forma capitalista de produção de mercadorias para suprir as necessidades humanas.

É isso, por enquanto!

William
Um leitor


Post Scriptum:

As postagens anteriores sobre a leitura de O Capital podem ser acessadas AQUI.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Relembrando A Montanha Mágica - Thomas Mann




Refeição Cultural

"O segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é: o terror." (Naphta, personagem de A Montanha Mágica)


Eu tive o privilégio de ler entre 2008 e 2009 esta obra monumental do escritor alemão Thomas Mann. A obra foi publicada em 1924, após a 1ª Guerra Mundial, mas o autor começou a escrevê-la no início da década de dez. O livro narra a história de um jovem chamado Hans Castorp, que passa um longo tempo nas altas e nevadas montanhas em Davos, na Suíça, cuidando de uma tuberculose.

Uma das temáticas que mais me chamaram a atenção na obra foi a questão das reflexões a respeito da subjetividade do tempo. Ao longo da minha existência, o tempo tem sido um fator de incômodo ao pensar na existência humana, na vida no planeta, no Universo. O tempo pode ser longo, pode ser curto. Muito mais que o tempo cronológico apurado através das leis da física, o tempo subjetivo é algo que fascina e ao mesmo tempo incomoda e assusta a todos nós humanos.

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"Lia-se avidamente nos alpendres de repouso e nas sacadas particulares do Sanatório Internacional Berghof - sobretudo entre os novatos e os pensionistas de curto prazo, pois os pacientes que ali permaneciam por muitos meses ou mesmo por vários anos, havia muito que tinham aprendido a matar o tempo sem distrações nem esforços intelectuais e a deixá-lo atrás graças a um virtuosismo interior. Declaravam até que era uma falta de habilidade, própria de sarrafaçais, essa de se agarrar à leitura. Quando muito admitiam que um livro repousasse sobre os joelhos ou na mesinha, o que já era suficiente para as pessoas sentirem-se abastecidas..." (p. 366)
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A minha edição da Nova Fronteira (2006) tem quase mil páginas, com tradução de Herbert Caro e apresentação de Antonio Cicero. É fascinante!

O livro tem passagens profundas de debates filosóficos em voga. E tem questões triviais que nos tocam, como a passagem abaixo. Eu não gosto de ler livros emprestados - nem de bibliotecas, nem de conhecidos - porque eu tenho por hábito meter o rabisco e anotações nos livros que leio.

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"Tratava-se de livros de anatomia, fisiologia, biologia, redigidos em vários idiomas - alemão, francês, inglês - e que lhe tinham sido remetidos um belo dia pelo livreiro do lugar, evidentemente porque Hans Castorp os encomendara por sua própria iniciativa e clandestinamente, durante um passeio que dera até 'Platz' (...) Joachim perguntou por que Hans Castorp, se desejava ler esse tipo de literatura, não o pedira emprestado ao dr. Behrens, que certamente dispunha de um rico sortimento. Mas Hans Castorp replicou que preferia possuir os livros, e que a leitura era bem diferente quando o livro lhe pertencia; além disso, gostava de sublinhar e assinalar certos trechos a lápis. Durante horas a fio, Joachim ouvia do compartimento de sacada do primo o ruído da espátula que ia abrindo as folhas." (p. 368)
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Thomas Mann era um homem de seu tempo, um alemão de seu tempo naquele início de século XX. Vemos nas personagens encerradas naquelas montanhas por longo tempo as visões do mundo que surgia do século XIX e que culminariam na destruição total da civilização ocidental através das guerras mundiais. Veja abaixo uma passagem sobre a questão da ciência e da vida:

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"Que era a vida? Ninguém sabia. Ninguém conhecia o ponto donde brotava a natureza, e no qual ela se acendia. A partir desse ponto, nada havia na vida que não estivesse motivado ou o estivesse apenas insuficientemente; mas a própria vida parecia não ter motivo. A única coisa que se podia, talvez, afirmar a seu respeito, era que a sua estrutura devia ser de tal modo evoluída que não tinha, nem de longe, igual no mundo inanimado. Entre o pseudópode da ameba e o animal vertebrado, a distância era insignificante, desprezível, em comparação com aquela que existe entre o fenômeno mais simples da vida e a outra parte da natureza que nem sequer mereceria ser qualificada de morta, uma vez que era inorgânica. Pois a morte não era senão a negação lógica da vida; entre esta, porém, e a natureza inanimada abria-se um abismo por cima do qual a ciência em vão se empenhava em lançar uma ponte..." (p. 370)
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Interessante. Eu peguei o livro na estante porque reli uma curta postagem minha no blog (junho de 2008), onde comentava que estava lendo a obra de Mann. Reli, então, algumas passagens do episódio "Pesquisas", contido no capítulo 5. Reli também a apresentação de Antonio Cicero.

Amig@s leitores, é impressionante a sensação nítida de déjà vu que senti ao refletir que vivemos hoje o clima de intolerância e ódio estimulado que o mundo viveu nas décadas iniciais do século XX, e que levou à guerra que destruiria a Europa e mataria milhões de pessoas.

O final da história de Hans Castorp me levou à catarse, fiquei emocionado e arrepiado de forma que nunca me esqueci. Só de manusear a obra novamente, senti a mesma coisa.

O mundo em que vivemos hoje, o mundo da mentira que passou a ser a forma de vivência, que passou a ser aceita pelas pessoas de forma cínica, de forma burra, de forma inocente e o fim do papel das instituições políticas, sociais e estatais que regularam o mundo do pós guerras mundiais, como a ONU e um determinado estado de bem estar social, com respeito à alteridade e com freios e contrapesos, vai nos levar a uma terceira guerra envolvendo diversos países e povos, e creio que o mundo humano não sairá o mesmo como ainda saiu das duas primeiras guerras.

É isso! Quem não tiver lido ainda A Montanha Mágica, o momento mundial é muito propício para o contato com a obra de Thomas Mann, que é um romance de ficção, mas que nos leva a reflexões profundas sobre a realidade material.

William
Um leitor

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Marx - O fetichismo da mercadoria




Refeição Cultural

Com este tema do fetichismo da mercadoria, estou fechando a leitura do primeiro capítulo do volume I de O Capital, Crítica da Economia Política (1867). 

A minha leitura deste clássico não é apressada e o importante é o esforço para compreender o ensinamento de Marx. Não à toa, peguei o livro nestes dias e reli as 90 páginas que já havia lido.

Por curiosidade, assisti também ao filme O jovem Karl Marx (2017), com direção de Raoul Peck. Gostei do filme. Vale a pena ver.

Enfim, hoje sei um pouco mais sobre Marx e O Capital do que sabia meses atrás. Minha compreensão dos conceitos de valor de uso, valor de troca e mercadoria no modo de produção capitalista é melhor do que antes. Então, estou menos ignorante no tema. Isso é bom.

Vejam, vendo pelo índice, ainda me falta mais de uma centena de páginas para chegar ao tema da mais-valia. É mole? Após estudar sobre a "Mercadoria", agora vem "O processo de troca", depois vários tópicos sobre "Dinheiro"; a segunda parte vai falar da transformação do dinheiro em capital e só na terceira parte virá o tema da mais-valia.

Repito o que já disse em outras postagens sobre esta leitura de O Capital: não posso dizer que sou marxista, pois não tenho embasamento para isso. As postagens são como fichamentos de leitura, eu transcrevo trechos do próprio autor, faço as citações. É para estudo e releituras rápidas. O que não me impediu de ler quase 100 páginas de novo.

Amig@s leitores, posso dizer que vale a pena comprar o livro, é barato, e compensa sair do mundo das fake news e ler algumas horas por semana obras clássicas como essa. No mínimo não se perde nada e, por outro lado, pode-se ganhar muito com o conhecimento novo.

Isso sim seria uma forma de saber algo para não ser um idiota, parafraseando um sujeito que se diz astrólogo e filósofo, e que faz sucesso por escrever bobagens sem pé nem cabeça e enganar zilhões de desavisados por aí.

Leiam as obras clássicas, obras que influenciaram o pensamento mundial ao longo do desenvolvimento das sociedades. É o que penso.

William
Um leitor


O FETICHISMO DA MERCADORIA: SEU SEGREDO

Segundo Marx, a mercadoria tem um caráter misterioso. Em O Capital, já encontrei passagens descritas por ele de forma irônica, é bem interessante. Vejam essa, quando ele explica que uma mesa, após ser criada a partir da madeira, com trabalho humano, continua sendo de madeira:

"Mas, logo que se revela mercadoria, transforma-se em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável. Além de estar com os pés no chão, firma sua posição perante as outras mercadorias e expande as ideias fixas de sua cabeça de madeira, fenômeno mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria." (p. 93)

Em seguida, Marx reforça que não importa o tipo de mercadoria nem a habilidade humana que a produziu (tecelão, alfaiate etc), importa que as mercadorias são feitas por força de trabalho humano. E "Por fim, desde que os homens, não importa o modo, trabalhem uns para os outros, adquire o trabalho uma forma social".

Seguimos com o mistério das mercadorias: "A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho". (p. 94)

O filósofo faz uma analogia entre a visão do olho e o que vemos, para nos mostrar que o olho reflete a imagem externa das coisas que vê para o nosso cérebro. E continua:

"Há uma relação física entre coisas físicas. Mas a forma mercadoria e a relação de valor entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, nada têm a ver com a natureza física desses produtos nem com as relações materiais dela decorrentes."

Marx nos explica que o produto do trabalho humano - mercadoria no modo de produção capitalista -, ganha uma espécie de autonomia que não lhe caberia porque as relações deveriam ser entre os homens e não entre as coisas:

"Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Para encontrar um símile, temos de recorrer à região nebulosa da crença. Aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres humanos. É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias. Chamo a isso de fetichismo, que está sempre grudado aos produtos do trabalho, quando são gerados como mercadorias. É inseparável da produção de mercadorias." (p. 94)

O filósofo nos informa que o conjunto dos trabalhos particulares forma a totalidade do trabalho social. "Em outras palavras, os trabalhos privados atuam como partes componentes do conjunto do trabalho social, apenas através das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores".

Nesse modelo de produção para troca temos: "relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas, e não como relações sociais diretas entre indivíduos em seus trabalhos".

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"A igualdade completa de diferentes trabalhos só pode assentar numa abstração que põe de lado a desigualdade existente entre eles e os reduz ao seu caráter comum de dispêndio de força humana de trabalho, de trabalho humano abstrato." (p. 95)
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Marx escreve no século XIX, numa época em que várias áreas das ciências sequer existiam. Mesmo assim, ele é muito assertivo em suas afirmações. Vejam essa que ele faz a respeito da linguagem, muito antes das concepções da linguística:

"O valor não traz escrito na fronte o que ele é. Longe disso, o valor transforma cada produto do trabalho num hieróglifo social. Mais tarde, os homens procuram decifrar o significado do hieróglifo, descobrir o segredo de sua própria criação social, pois a conversão dos objetos úteis em valores é, como a linguagem, um produto social dos homens." (p. 96)


SEGREDO OCULTO

Marx segue analisando a mercadoria, o valor da mercadoria e as relações de troca.

"Nas eventuais e flutuantes proporções de troca dos produtos desses trabalhos particulares, impõe-se o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção, que é a lei natural reguladora (...) A determinação da quantidade do valor pelo tempo do trabalho é, por isso, um segredo oculto sob os movimentos visíveis dos valores relativos das mercadorias."


DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO NÃO É CRIAÇÃO DO CAPITALISMO

No início do livro O Capital, Marx já havia dito que a divisão social do trabalho não era uma criação do capitalismo, que, no entanto, precisa dela para a produção das mercadorias.

"No conjunto formado pelos valores de uso diferentes ou pelas mercadorias materialmente distintas, manifesta-se um conjunto correspondente dos trabalhos úteis diversos - classificáveis por ordem, gênero, espécie, subespécie e variedade -, a divisão social do trabalho. Ela é condição para que exista a produção de mercadorias, embora, reciprocamente, a produção de mercadorias não seja condição necessária para a existência da divisão social do trabalho." (p. 64, sublinhado meu)

Naquele momento, citou uma comunidade indiana como exemplo.

Nesta parte de considerações finais do capítulo I que trata da "Mercadoria" ele retoma vários conceitos. Aqui está falando a respeito de propriedades coletivas e trabalhos coletivos ou em comum.

"Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos - lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura etc. - são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família, que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. Diferenças de sexo e de idade e as condições naturais do trabalho, variáveis com as estações do ano, regulam sua distribuição dentro da família e o tempo que deve durar o trabalho de cada um de seus membros." (p. 99)


PARA OS BURGUESES SÓ HÁ UM MODO CORRETO DE PRODUÇÃO: O DELES

Ainda nestas páginas finais do capítulo, em que Marx faz avaliações diversas - econômicas, políticas, históricas etc -, gostei desta nota que cito abaixo, tirada de sua obra de resposta à obra de Proudhon:

"Os economistas têm uma maneira de proceder singular. Para eles só há duas espécies de instituições, as artificiais e as naturais. As do feudalismo são instituições artificiais; as da burguesia, naturais. Equiparam-se, assim, aos teólogos, que classificam as religiões em duas espécies. Toda religião que não for a sua é uma invenção dos homens; a sua é uma revelação de Deus - Desse modo, havia história, mas, agora, não há mais." (nota 33, p. 103)


COM A PALAVRA, AS MERCADORIAS

O capítulo termina com as mercadorias dando a opinião delas, diante de tantas questões que Marx coloca para serem respondidas por burgueses e seus economistas e seguidores.

O filósofo fecha assim a questão do fetichismo da mercadoria:

"Sem maior avanço nesta análise, limitamo-nos a ilustrar com mais alguns elementos o fetichismo da mercadoria. Se as mercadorias pudessem falar, diriam: 'Nosso valor de uso pode interessar aos homens. Não é nosso atributo material. O que nos pertence como nosso atributo material é nosso valor. Isto é o que demonstra nosso intercâmbio como coisas mercantis. Só como valores de troca estabelecemos relações umas com as outras'." (p. 104)


Post Scriptum:

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domingo, 14 de abril de 2019

Leitura: São Bernardo (1934) - Graciliano Ramos





Refeição Cultural

"Quanto ao comunismo, lorota. Não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico."


Ao reler postagens no meu blog, dei com uma sobre uma crítica literária de João Luiz Lafetá sobre a obra-prima de Graciliano Ramos, São Bernardo, publicado em 1934. A crítica está na edição que tenho do livro, da Editora Record, Rio de Janeiro, 2002. (ler AQUI)

Amig@s, da leitura da postagem com a crítica fui à leitura da obra. Peguei o livro na estante na manhã de sábado e só parei quando terminei a leitura à noite. 

Impressionante! Fui vendo na figura do personagem principal, Paulo Honório, narrador da sua história no romance, a figura representativa de parte significativa do povo brasileiro, que teimamos em não reconhecer, em não aceitar.

Paulo Honório é a parcela do povo brasileiro que votou nesta coisa execrável que representa o bolsonarismo, o coronelismo, a casa grande, a burguesia vira-lata desta ex-colônia de exploração. Aliás, colônia novamente.

Paulo Honório é a parcela do povo que votou em Paula, vencedora da edição 19 do Big Brother Brasil (BBB), das Organizações Globo. 61% dos telespectadores votaram em uma pessoa com ideias racistas, com postura de intolerância à alteridade, segundo disseram os analistas da imprensa.

O contexto ficcional de São Bernardo e de Paulo Honório é o nosso mundo real Brasil que teimamos por um tempo - os pequenos intervalos de "democracia" - em não aceitar como nossa característica, que teimamos em disfarçar como se fôssemos povo cordial. Não somos! Nunca fomos! (somos passivos e não-reativos, moles; mas não somos cordiais, bonzinhos)

Nós mesmos, esse povo que não reage ao mandonismo, ao poder da casa grande, que somos manipulados e que defendemos os donos do poder, somos perfeitamente representados pelos personagens empregados de Paulo Honório. Os mansos, os cornos, os puxa-sacos, os açoitados. Os que se deitam juntos. Os que vão embora quando podem.

Eu fiquei surpreso com a obra, ao lê-la no Brasil pós golpe de 2016, pós prisão política do presidente Lula, pós destruição da economia do país pela Lava Jato, pós eleição de Jair Bolsonaro. Minha nossa, que retrato do Brasil! (e o livro foi feito há quase um século!)

Essa é uma característica das grandes obras de ficção. Quando são boas, são universais, são atemporais. Nos encontramos nelas quando lemos.

Desejo pelo menos que o final da obra São Bernardo aconteça por essas bandas do brasil-colônia também. Afinal, quem sabe o amanhã seja diferente e traga alguma esperança para o lado de cá da casa grande, onde está a massa miserável.

Apresento a seguir, uma seleção que considero representativa da ficção, e representativa da vida real, apesar de ser impossível à linguagem reproduzir a realidade, conforme aprendemos na linguística.

William
um leitor

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Uma narrativa seca, rude.


São Bernardo - Graciliano Ramos

Quem narra a história?

"Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor."

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"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."


Narrar, descrever, contar algo é sempre uma escolha, um recorte de interesses, um ponto de vista, uma construção de cenário

"Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo caminho dá na venda."

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"As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor..."

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"Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras..."


Cultivar a ilusão (ideologia)

"- A gente se acostuma com o que vê. E eu desde que me entendo, vejo eleitores e as urnas. Às vezes suprimem os eleitores e as urnas: bastam livros. Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão. E todos se interessam."


Brasil, uma terra possuída, de gente possuída, tudo é propriedade, coisa, bicho

O coronelismo na política, desde sempre:

"Que diabo diria ele contra mim na folha? Não sendo funcionário público, as minhas relações com o partido limitavam-se a aliciar eleitores, entregar-lhes a chapa oficial e contribuir para música e foguetes nas recepções do governador."

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Negociando um casamento:

"Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que veio sem que nenhum rabo-de-saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar.
  A que eu conhecia era a Rosa do Marciano, muito ordinária. Havia conhecido também a Germana e outras dessa laia. Por elas eu julgava todas. Não me sentia, pois, inclinado para nenhuma: o que eu sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de S. Bernardo."

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"- Quanto a mim, acho que em questões de sentimento é indispensável haver reciprocidade. (diz Madalena)
- Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia."

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Ao espancar seu empregado Marciano:

"Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.
- Ninharia, filha. Está você aí se afogando em pouca água. Essa gente faz o que se manda, mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.
- Por que?
- Eu sei lá. Foi vontade de Deus. É um molambo.
- Claro. Você vive a humilhá-lo.
- Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, já ele era molambo.
- Provavelmente porque sempre foi tratado a pontapés.
- Qual nada! É molambo porque nasceu molambo..."

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Ao desprezar a história de vida da professora Madalena, em relação à sua propriedade S. Bernardo:

"- Acha pouco? É porque você não sabe o esforço que isso custou. Maior que o seu para obter S. Bernardo. E o que é certo é que d. Glória não me troca por S. Bernardo.
   Vaidade. Professorinhas de primeiras letras a escola normal fabricava às dúzias. Uma propriedade como S. Bernardo era diferente."

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De como olham o mundo a partir da casa grande:

"Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes...

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A forma de mercadoria com que trata a senhora de quase cem anos que o criou, quando ele mandou buscá-la para acomodá-la na fazenda:

"- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocês, vou falar a padre Silvestre. É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem."

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Ao contar aos leitores, que tem relações sexuais com a esposa de um de seus capatazes:

"O Marciano conheceria as minhas relações com a Rosa? Não conhecia. Tive sempre o cuidado de mandá-lo à cidade, a compras, oportunamente. E talvez não quisesse conhecer. Também se podia admitir que fosse dotado de pouca penetração."


A insuperável cultura do preconceito de ontem e de hoje

Alguns exemplos:

"(...) abrequei a Germana, cabritinha sarará danadamente assanhada, e arrochei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto..."

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"De repente conheci que estava querendo bem à pequena. Precisamente o contrário da mulher que andava imaginando - mas agradava-me, com os diabos. Miudinha, fraquinha. D. Marcela era bichão. Uma peitaria, um pé-de-rabo, um toitiço."

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"Realmente, uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, não ia encostar-se àqueles brutos escuros, sujos, fedorentos a pituim."

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"Mulher não vai com carrapato porque não sabe qual é o macho."

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"- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra."


A religião, o papel da religião neste mundo da exploração... (não confundir fé com religião)

"A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível."

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"- Aí padre Silvestre tem razão, concordou Gondim. A religião é um freio."


Comunismo, sempre o papel do comunismo na boca do proprietário, do padre, do poder instituído

"Sim senhor! Conluiada com o Padilha e tentando afastar os empregados sérios do bom caminho. Sim senhor, comunista! Eu construindo e ela desmanchando."

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"Comunista, materialista. Bonito casamento!"

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"- Nada disso, asseverou padre Silvestre. Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome."

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"- Eu não. Estou quieto, no meu canto. Agora achar que o governo é mau, eu acho. Que há urgências de reforma, há. Quanto ao comunismo, lorota, não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico."


As referências ao filho, propriedade que não gosta

O filho desprezado pelo narrador, nem sequer teve seu nome revelado na história. Nas poucas vezes em que foi citado, foi mais uma coisa como todas as outras de propriedade dele.

"Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradáveis, que eu fingia não compreender. Via a barriga crescer-lhe..."

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"O pequeno berrava como bezerro desmamado. Não me contive: voltei e gritei para d. Glória e Madalena:
- Vão ver aquele infeliz. Isso tem jeito?"

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"E o pequeno continuava a arrastar-se, caindo, chorando, feio como os pecados. As perninhas e os bracinhos eram finos que faziam dó. Gritava dia e noite, gritava como um condenado, e a ama vivia meio doida de sono. Às vezes ficava roxo de berrar, e receei que estivesse morrendo quando padre Silvestre lhe molhou a cabeça na pia. Com a dentição encheu-se de tumores, cobriram-no de esparadrapos: direitinho uma rês casteada..."

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"Bocejava. Cada bocejo de quebrar queixo. Vida estúpida! É certo que havia o pequeno, mas eu não gostava dele. Tão franzino, tão amarelo!"


Bibliografia:

Ramos, Graciliano. São Bernardo. 74ª edição. Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Texto e Discurso em Língua Espanhola (II) - O problema dos gêneros discursivos (Bakhtin)



Mikhail Bakhtin, imagem da Wikipedia.

Refeição Cultural

Leitura do texto de Bakhtin destacando pontos que achei importantes. A postagem contém textos em português e espanhol.

Estou fazendo esta matéria na faculdade com o professor Adrián. O cara é muito bom. Qualquer equívoco conceitual nas postagens é de minha responsabilidade. 

Volto a lembrar o que disse na primeira postagem (ler AQUI) e também o caráter deste blog: meu intuito é partilhar conhecimento dentro do conceito wiki (What I Know is), sem nenhum interesse econômico-financeiro.


El problema de los géneros discursivos

M. Bajtin


1. Planteamiento del problema y definición de los géneros discursivos


- A língua como base das diversas esferas das atividades humanas: 

"Las diversas esferas de la actividad humana están todas relacionadas con el uso de la lengua..."


- Os enunciados como realização das diversas possibilidades de uso das línguas:

"El uso de la lengua se lleva a cabo en forma de enunciados (orales y escritos) concretos y singulares que pertenecen a los participantes de una u otra esfera de la praxis humana."


- Os enunciados refletem: 

"Contenido temático; estilo verbal (recurso léxico, fraseológico y gramatical) y composición o estructuración."


- Gêneros discursivos:

"Cada esfera del uso de la lengua elabora sus tipos relativamente estables de enunciados a lo que denominamos géneros discursivos."


- Por haver infinitos tipos de discursos escritos e orais, poderia-se imaginar não ser possível analisar e definir parâmetros para os tipos de discursos.


- Um dos gêneros que se estuda há muito tempo são os gêneros literários. Mas o enfoque era sempre literário e artístico e não nos tipos de enunciados que têm uma natureza verbal (linguística) comum. Também se estudou desde a antiguidade os gêneros retóricos. Depois passaram a estudar os gêneros discursivos.


- Enfim, faltava-se estudar a natureza linguística comum dos enunciados.


- Gêneros discursivos primário (simples) e secundário (complexos) são bem diferentes:

"(...) tal diferencia no es funcional. Los géneros discursivos secundarios (complejos) - a saber, novelas, dramas, investigaciones científicas de toda clase, grandes géneros periodísticos, etc. - surgen en las condiciones de comunicación cultural más compleja, relativamente más desarrolada y organizada, principalmente escrita: comunicación artística, científica, sociopolítica, etc."


- A natureza dos enunciados é muito importante no estudo dos gêneros discursivos:

"El menosprecio de la naturaleza del enunciado y la indiferencia del discurso llevan, en cualquier esfera de la investigación lingüística, al formalismo y a una abstración excesiva, desvirtúan el carácter histórico de la investigación, debilitan el vínculo del lenguaje con la vida."


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"El lenguaje participa en la vida a través de los enunciados concretos que lo realizan, así como la vida participa del lenguaje a través de los enunciados."
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- Todo enunciado pode refletir a individualidade do falante ou do escritor, mas nem todo gênero consegue absorver essa individualidade. O gênero literário é o mais produtivo nesse sentido.


- Alguns gêneros discursivos requerem padronização na linguagem como documentos oficiais, ordens militares etc.


- O vínculo orgânico e indissolúvel entre o estilo e o gênero:

"El estilo está indisolublemente vinculado a determinadas unidades temáticas y, lo que es más importante, a determinadas unidades composicionales."

"El estilo entra como elemento en la unidad genérica del enunciado."


- História da sociedade e história da língua:

"Los enunciados y sus tipos, es decir, los géneros discursivos, son correas de transmisión entre la historia de la sociedad y la historia de la lengua."


2. El enunciado como unidad de la comunicación discursiva. Diferencia entre esta unidad y las unidades de la lengua (palabra y oración)

- Desde os estudos linguísticos do século XIX adiante se coloca em segundo plano ou como algo acessório a função comunicativa da língua:

"Se propusieron y continúan proponiéndose otros enfoques de las funciones del lenguaje, pero lo más característico de todos sigue siendo el hecho de que se subestima, si no se desvaloriza por completo, la función comunicativa de la lengua que se analiza desde el punto de vista del hablante, como si hablase solo sin una forzosa relación con otros participantes de la comunicación discursiva."


- O processo complexo, multilateral e ativo da comunicação discursiva ainda hoje enfrenta distorções em sua análise:

"En la lingüística hasta ahora persisten tales ficciones como el “oyente” y “el que comprende” (los compañeros del “hablante”), la “corriente discursiva única”, etc. Estas ficciones dan un concepto absolutamente distorsionado del proceso complejo, multilateral y activo de la comunicación discursiva."

"Así, pues, toda comprensión real y total tiene un carácter de respuesta activa y no es sino una fase inicial y preparativa de la respuesta (cualquiera que sea su forma). También el hablante mismo cuenta con esta activa comprensión preñada de respuesta: no espera una  comprensión pasiva, que tan sólo reproduzca su idea en la cabeza ajena, sino que quiere una contestación, consentimiento, participación, objeción, cumplimento, etc. (los diversos géneros discursivos presuponen diferentes orientaciones etiológícas, varios objetivos discursivos en los que hablan o escriben)."


- O enunciado como elo em uma cadeia de enunciados, de declarações:

"Todo enunciado es un eslabón en la cadena, muy complejamente organizada, de otros enunciados."


- As fronteiras, os limites, de um enunciado enquanto unidade de comunicação discursiva se definem pela entrada do outro sujeito discursivo, seja ele quem for:

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"Las fronteras de cada enunciado como unidad de la comunicación discursiva se determinan por el cambio de los sujetos discursivos, es decir, por la alternación de los hablantes. Todo enunciado, desde una
breve réplica del diálogo cotidiano hasta una novela grande o un tratado científico, posee, por decirlo así, un principio absoluto y un final absoluto; antes del comienzo están los enunciados de otros, después del final están los enunciados respuestas de otros (o siquiera una comprensión silenciosa y activa del otro, o, finalmente, una acción respuesta basada en tal tipo de comprensión). Un hablante termina su enunciado para ceder la palabra al otro o para dar lugar a su comprensión activa como respuesta. El enunciado no es una unidad convencional sino real, delimitada con precisión por el cambio de los sujetos discursivos, y que termina con el hecho de ceder la palabra al otro, una especie de un dixi silencioso que se percibe por los oyentes [como señal] de que el hablante haya concluido."
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- Diferença entre oração e enunciado:

"(...) es necesario explicar previamente el problema de la oración como unidad de la lengua, a diferencia del enunciado como unidad de la comunicación discursiva."


"(...) La oración como unidad de la lengua carece de todos esos atributos: no se delimita por el cambio de los sujetos discursivos, no tiene un contacto inmediato con la realidad (con la situación extraverbal) ni tampoco se relaciona de una manera directa con los enunciados ajenos; no posee una plenitud del sentido ni una capacidad de determinar directamente la postura de respuesta del otro hablante, es decir, no provoca una respuesta. La oración como unidad de la lengua tiene una naturaleza gramatical, límites gramaticales, conclusividad y unidad gramaticales. (Pero analizada dentro de la totalidad del enunciado y desde el punto de vista de esta totalidad, adquiere propiedades estilísticas.) Allí donde la oración figura como un enunciado entero, resulta ser enmarcado en una especie de material muy especial. Cuando se olvida esto en el análisis de una oración, se tergiversa entonces su naturaleza (y al mismo tiempo, la del enunciado, al atribuirle aspectos gramaticales)."


- Características constitutivas dos enunciados como unidades da comunicação discursiva que os diferenciam das unidades da língua (palavra e oração):

1. A alternância dos sujeitos discursivos

"Así, pues, el cambio de los sujetos discursivos que enmarca al enunciado y que crea su masa firme y estrictamente determinada en relación con otros enunciados vinculados a él, es el primer rasgo constitutivo del enunciado como unidad de la comunicación discursiva que lo distingue de las unidades de la lengua."

2. A conclusividade do enunciado

"El carácter concluso del enunciado representa una cara interna del cambio de los sujetos discursivos; tal cambio se da tan sólo por el hecho de que el hablante dijo (o escribió) todo lo que en un momento dado y en condiciones determinadas quiso decir. Al leer o al escribir, percibimos claramente el fin de un enunciado, una especie del dixi conclusivo del hablante. Esta conclusividad es específica y se determina por criterios particulares. El primero y más importante criterio de la conclusividad del enunciado es la posibilidad de ser contestado."

E mais:

"Este carácter de una totalidad conclusa propia del enunciado, que asegura la posibilidad de una respuesta (o de una comprensión tácita), se determina por tres momentos o factores que se relacionan entre
sí en la totalidad orgánica del enunciado: 1] el sentido del objeto del enunciado, agotado; 2] el enunciado se determina por la intencionalidad discursiva, o la voluntad discursiva del hablante; 3] el enunciado posee
formas típicas, genéricas y estructurales, de conclusión."

3. As formas estáveis de gênero do enunciado:

"Pasemos al tercer factor, que es el más importante para nosotros: las formas genéricas estables del enunciado. La voluntad discursiva del hablante se realiza ante todo en la elección de un género discursivo
determinado. La elección se define por la especificidad de una esfera discursiva dada, por las consideraciones del sentido del objeto o temáticas, por la situación concreta de la comunicación discursiva, por los participantes de la comunicación, etc. En lo sucesivo, la intención discursiva del hablante, con su individualidad y subjetividad, se aplica y se adapta al género escogido, se forma y se desarrolla dentro de una forma genérica determinada. Tales géneros existen, ante todo, en todas las múltiples esferas de la comunicación cotidiana, incluyendo a la más familiar e íntima."


COMENTÁRIO:

- Em sala de aula, o professor levanta uma reflexão entre os alunos a respeito de uma afirmação de Bakhtin, de que todo falante da língua utilizaria com seguridade e destreza os gêneros discursivos, mesmo não os conhecendo ou tendo estudado eles. (sublinhado do blog)

"Nos expresamos únicamente mediante determinados géneros discursivos, es decir, todos nuestros enunciados posen unas formas típicas para la estructuración de la totalidad, relativamente estables.
Disponemos de un rico repertorio de géneros discursivos orales y escritos. En la práctica los utilizamos con seguridad y destreza, pero teóricamente podemos no saber nada de su existencia. Igual que el Jourdain de Molière, quien hablaba en prosa sin sospecharlo, nosotros hablamos utilizando diversos géneros sin saber de su existencia. Incluso dentro de la plática más libre y desenvuelta moldeamos nuestro discurso de acuerdo con determinadas formas genéricas, a veces con características de cliché, a veces más ágiles, plásticas y creativas (también la comunicación cotidiana dispone de géneros creativos). Estos géneros discursivos nos son dados casi como se nos da la lengua materna, que dominamos libremente antes del estudio teórico de la gramática. La lengua materna, su vocabulario y su estructura gramatical, no los conocemos por los diccionarios y manuales de gramática, sino por los enunciados concretos que escuchamos y reproducimos en la comunicación discursiva efectiva con las personas que nos rodean. Las formas de la lengua las asumimos tan sólo en las formas de los enunciados y junto con ellas. Las formas de la lengua y las formas típicas de los enunciados llegan a nuestra experiencia y a nuestra conciencia conjuntamente y en una estrecha relación mutua. Aprender a hablar quiere decir aprender a construir los enunciados (porque hablamos con los enunciados y no mediante oraciones, y menos aun por palabras separadas)."


- Aqui podemos anotar um exemplo dado em classe, a respeito do enunciado acima, polêmico em parte:

Sobre a suposta habilidade, seguridade e destreza que os falantes da língua teriam mesmo que não soubessem teoricamente disso, não podemos dizer, por exemplo, na área de atividade humana "educação", no gênero "seminário", que a segurança e destreza são as mesmas num seminário proferido pelo professor em comparação a um seminário proferido por um grupo de alunos.


"(...) y al oír el discurso ajeno, adivinamos su género desde las primeras palabras..."

- No rádio, por exemplo, em poucos segundos é possível que o ouvinte perceba de qual gênero se trata na transmissão: futebol, notícias do trânsito, comercial, horóscopo etc.


- Os gêneros dos discursos já estão disponíveis para os falantes de determinada língua, no seu cotidiano. E outros podem surgir com regularidade. Bakhtin ao dizer que os falantes têm a iniciativa da comunicação discursiva, mas que a realização dos enunciados não são pura criação do falante, ele cita Saussure de forma crítica, ao falar sobre isso.

"Toda una serie de los géneros más comunes en la vida cotidiana son tan estandarizados que la voluntad discursiva individual del hablante se manifiesta únicamente en la selección de un determinado género y en la entonación expresiva. Así son, por ejemplo, los breves géneros cotidianos de los saludos, despedidas, felicitaciones, deseos de toda clase, preguntas acerca de la salud, de los negocios, etc."

e

"Así, pues, un hablante no sólo dispone de las formas obligatorias de la lengua nacional (el léxico y la gramática), sino que cuenta también con las formas obligatorias discursivas, que son tan necesarias para una intercomprensión como las formas lingüísticas. Los géneros discursivos son, en comparación con las formas lingüísticas, mucho más combinables, ágiles, plásticos, pero el hablante tiene una importancia normativa: no son creados por él, sino que le son dados. Por eso un enunciado aislado, con todo su carácter individual y creativo, no puede ser considerado como una combinación absolutamente libre de formas lingüísticas, según sostiene, por ejemplo, Saussure (y en esto le siguen muchos lingüistas), que contrapone el “habla” (la parole), como un acto estrictamente individual, al sistema de la lengua como fenómeno puramente social y obligatorio para el individuo. La gran mayoría de los lingüistas comparte -si no teóricamente, en la práctica- este punto de vista: consideran que el “habla” es tan sólo una combinación individual de formas lingüísticas (léxicas y gramaticales), y no encuentran ni estudian, de hecho, ninguna otra forma normativa."


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Gênero discursivo e expressividade: "escogemos palabras según su especificación genérica. El género discursivo no es una forma lingüística, sino una forma típica de enunciado; como tal, el género incluye una expresividad determinada propia del género dado. Dentro del género, la palabra adquiere cierta expresividad típica. Los géneros corresponden a las situaciones típicas de la comunicación discursiva, a los temas típicos y, por lo tanto a algunos contactos típicos de los significados de las palabras con la realidad concreta en sus circunstancias típicas."
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- Aspectos das palavras: a palavra de ninguém, a palavra dos outros e a minha palavra.

"Los significados neutros (de diccionario) de las palabras de la lengua aseguran su carácter y la intercomprensión de todos los que la hablan, pero el uso de las palabras en la comunicación discursiva siempre depende de un contexto particular. Por eso se puede decir que cualquier palabra existe para el hablante en sus tres aspectos: como palabra neutra de la lengua, que no pertenece a nadie; como palabra ajena, llena de ecos, de los enunciados de otros, que pertenece a otras personas; y, finalmente, como mi palabra, porque, puesto que yo la uso en una situación determinada y con una intención discursiva
determinada, la palabra está compenetrada de mi expresividad."



- A oração como unidade da língua possui certa entonação, mas não entonação expressiva, que se dá sempre no nível do enunciado na comunicação discursiva.

"Así, pues, el momento expresivo viene a ser un rasgo constitutivo del enunciado. El sistema de la lengua dispone de formas necesarias (es decir, de recursos lingüísticos) para manifestar la expresividad, pero la lengua misma y sus unidades significantes (palabras y oraciones) carecen, por su naturaleza, de expresividad, son nuestras."



- Aspectos que definem o enunciado, seu estilo e sua composição:

"En resumen, el enunciado, su estilo y su composición, se determinan por el aspecto temático (de objeto y de sentido) y por el aspecto expresivo, o sea por la actitud valorativa del hablante hacia el momento
temático. La estilística no comprende ningún otro aspecto, sino que sólo considera los siguientes factores que determinan el estilo de un enunciado: el sistema de la lengua, el objeto del discurso y el hablante mismo y su actitud valorativa hacia el objeto. La selección de los recursos lingüísticos se determina, según la concepción habitual de la estilística, únicamente por consideraciones acerca del objeto y sentido y de la expresividad. Así se definen los estilos de la lengua, tanto generales como individuales. Por una parte, el hablante, con su visión del mundo, sus valores y emociones y, por otra parte, el objeto de su discurso y el sistema de la lengua (los recursos lingüísticos): éstos son los aspectos que definen el enunciado, su estilo y su composición. Ésta es la concepción predominante."


- A questão do discurso distante, já existente, que acaba por gerar um diálogo com os enunciados que alguém faz na comunicação discursiva.

"El enunciado, pues, ocupa una determinada posición en la esfera dada de la comunicación discursiva, en un problema, en un asunto, etc."

e:

"en muchas ocasiones, la expresividad de nuestro enunciado se determina no únicamente (a veces no tanto) por el objeto y el sentido del enunciado sino también por los enunciados ajenos emitidos acerca del mismo tema, por los enunciados que contestamos, con los que polemizamos; son ellos los que determinan también la puesta en relieve de algunos momentos, las reiteraciones, la selección de expresiones más duras (o, al contrario, más suaves), así como el tono desafiante (o conciliatorio), etc."

e mais:

"Por más monológico que sea un enunciado (por ejemplo, una obra científica o filosófica), por más que se concentre en su objeto, no puede dejar de ser, en cierta medida, una respuesta a aquello que ya se dijo acerca del mismo objeto, acerca del mismo problema, aunque el carácter de respuesta no recibiese una expresión externa bien definida: ésta se manifestaría en los matices del sentido, de la expresividad, del estilo, en los detalles más finos de la composición. Un enunciado está lleno de matices dialógicos, y sin tomarlos en cuenta es imposible comprender hasta el final el estilo del enunciado."


- A questão das citações nos discursos:

"La entonación que aísla el discurso ajeno (y que se representa en el discurso escrito mediante comillas) es un fenómeno aparte: es una especie de trasposición del cambio de los sujetos discursivos dentro de un enunciado (...) El discurso ajeno, pues, posee una expresividad doble: la propia, que es precisamente la ajena, y la expresividad del enunciado que acoge el discurso ajeno."


- De certa forma, um enunciado sempre tem uma questão dialógica com um antes, um enunciado anterior.

"En la realidad, todo enunciado, aparte de su objeto, siempre contesta (en un sentido amplio) de una u otra manera a los enunciados ajenos que le preceden."

e:

"El enunciado no está dirigido únicamente a su objeto, sino también a discursos ajenos acerca de este último."


Fonte: Bakhtin, Mikhail. Estética de la creación verbal. Buenos Aires: Siglo XXI, 2008, (2. ed.) p. 245-290.


COMENTÁRIO FINAL

A leitura e compreensão deste texto foi trabalhosa para mim. Fiz a leitura deste capítulo em espanhol e quase que o capítulo inteiro em outra versão em português.

Os conceitos desenvolvidos aqui por Bakhtin são fundamentais para a primeira unidade da matéria, que é mais geral no programa, pois as outras unidades serão mais focadas na língua espanhola.

Além do estudo de Bakhtin, tivemos também como referência o texto "Tipos e gêneros de discurso" de Dominique Maingueneau (Análise de textos de comunicação), com algumas abordagens distintas e complementares em categorizar e classificar textos e gêneros discursivos.

Passei um bom tempo afastado desta área de conhecimento humano: linguagem, línguas e estudos literários. 

Na última década, o foco de minha atenção cognitiva foi quase todo voltado para as áreas de saúde, direitos sociais e história do mundo do trabalho, sistema financeiro, economia e política em geral.

Não está sendo fácil adaptar meu foco para essa área das letras, principalmente porque não consigo me desligar da visão política e ideológica que tenho do mundo, e sofro muito ao ver a destruição de meu país e da cidadania do povo.

Enfim, estou me esforçando para retomar o estudo das línguas e das literaturas. Se não der certo, não foi por falta de esforço deste cinquentenário que vos fala através deste blog.

William


Post Scriptum:

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