domingo, 12 de agosto de 2018

Romaria de Uberlândia a Água Suja (MG) - Reflexões



Igreja N. Sra. da Abadia. Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Todos os anos, a região do Triângulo Mineiro vivencia entre julho e agosto uma festa popular e religiosa que envolve milhares de pessoas e que tem seu ápice no dia 15 de agosto, dia da festa de Nossa Senhora da Abadia, no pequeno município de Romaria, também conhecido pelas pessoas da região como Água Suja.

Participar desta festa religiosa é uma experiência ímpar, seja como romeiro (independente da religião que tenha ou não), seja ajudando os romeiros dando assistência ao longo de dezenas de quilômetros, dependendo de onde a pessoa saiu. Uma das questões que mais intrigam qualquer observador atento é como uma pessoa consegue percorrer distâncias absurdas à pé, não apresentando preparação física adequada.

Mesmo para o romeiro experiente, é possível afirmar que a caminhada de um ano nunca é igual à experiência do ano anterior. Nunca. Eu fiz minha primeira caminhada quando tinha uns 16 anos de idade, lá nos anos oitenta, quando morava em Uberlândia. Em 2018 fiz a caminhada aos 49 anos e confirmo o que disse: nunca é a mesma coisa.

Às vezes, chego a pensar que a tradição da Romaria na região do Triângulo Mineiro pode acabar algum dia, por diversos fatores como, por exemplo, questões econômicas e comerciais, ou mesmo políticas. Mas logo em seguida, ao participar da festa, vejo que ela segue firme e forte, independente das dificuldades para sua manutenção. Bastou ver o acostamento lotado de romeiros no sábado pela manhã, quando eu voltava de minha caminhada, para perceber que a tradição vai longe.

Neste ano, peguei a estrada na sexta-feira, saindo do Trevo de Uberlândia para Araxá, e caminhei cerca de 75 Km. Contei com a assistência de meu cunhado ao longo da jornada, e posso afirmar que ser acompanhado por alguém dando apoio faz uma diferença enorme, facilita bastante a vida do romeiro. Até porque o caminhante pode se dar ao "luxo" de não levar todos os apetrechos do romeiro na mochila nas costas.

Para a ampla maioria das pessoas que saem de suas casas para irem à pé até a cidade de Romaria os apoios ficam por conta de barracas de ajuda aos romeiros, montadas ao longo da estrada na BR 365. A mais conhecida e frequente todos os anos é a barraca da Antena, distante 47 Km do Trevo de Uberlândia para Araxá. Outras barracas também prestam apoios importantes aos romeiros, como a barraca Betânia, próxima ao Rio Araguari. Nada como chegar a uma barraca e tomar uma sopa ou comer um pãozinho com café e frutas.


Um homem na estrada, ipê amarelo
e o pensamento no filho amado.

Leituras

Ser romeiro ou fazer a romaria pode suscitar as mais diversas leituras, tanto dos próprios caminhantes quanto de seus amigos e conhecidos. O ato de caminhar dezenas de quilômetros é algo extraordinário, independente dos motivos pessoais para tal feito.

Se o caminhante pertence a uma comunidade ou região que não tem o hábito de caminhadas como essa, o romeiro pode ser considerado uma pessoa ousada, louca, forte, fraca das ideias etc. Se o romeiro é da própria região onde a tradição existe, ele é só mais um na estrada, simples assim.

Todos os anos, eu fico estupefato, intrigado, admirado com a grandeza das pessoas que fazem a caminhada. É um verdadeiro exercício de humildade para mim saber o quanto a caminhada é difícil e ver que, mesmo assim, milhares de pessoas em condições menos favoráveis que a minha completam e chegam à cidade e à igreja. É impressionante!

Neste ano, cheguei a Uberlândia com dores no quadril e na perna esquerda, dores que estão me incomodando há semanas. Receei até não conseguir fazer a caminhada. Porém, peguei a estrada e fui caminhando, caminhando, fiz os 15 Km até o Rio Araguari, depois a subidona de 10 Km após o rio, e fui dialogando com meu corpo até a Antena, quase 50 Km depois. Cheguei lá por volta de 23h e estava bem. Tomei a sopa e nem parei para cochilar um pouco, segui direto.

Tem ano que os pés dão bolhas, tem ano que não. Isso porque eu sei preparar meus pés com proteções de esparadrapos. Neste ano, já cheguei à Antena sentindo bolhas nos dois calcanhares. Paciência! Da barraca da Antena até o destino final são mais quase 30 Km. Para cada caminhante, a experiência da caminhada dá o tom. Para uns, chegar à Antena é ânimo para continuar, para outros é o ponto final, por não dar mais.

Da Antena adiante, no meu caso, é que a caminhada tem se tornado difícil nos últimos anos. O corpo cansado passa a dificultar a etapa final. Neste ano, fez um frio incomum na estrada durante a madrugada. Depois das duas horas da manhã, fez cerca de 7 graus, segundo a meteorologia. Se eu não tivesse pego uma blusa a mais, emprestada de meu cunhado, eu estava lascado.

Não tive sono na madrugada. A semana de lua minguante mudando para lua nova no dia da caminhada significa breu total na estrada sem lua. Mas o céu estrelado é impressionante. Magnífico! Zilhões de estrelas até o alvorecer. Ao percorrer a etapa final, fora da estrada, na parte de terra e mato, cerca de 8 Km, os campos congelados foram uma novidade neste ano. Não tem mais o Atalho entre os eucaliptos. Ele foi fechado pelo novo dono.

Cheguei à cidade às 8h da manhã. Mais um ano, mais uma caminhada. Junto comigo, foram chegando dezenas de romeiros. Idosos, jovens, homens, mulheres, corpos que nos fazem duvidar que aquelas pessoas poderiam caminhar dezenas de quilômetros. Caminharam. Isso nos dá uma humildade tremenda. Fui só mais um na multidão. Mas cada um de nós é único! O ser humano é incrível!

Todos os romeiros foram e são incríveis. Os que chegam caminhando, pedalando; os que não chegam caminhando porque o corpo não permitiu; os que dão assistência e apoio. Todos compõem a mesma tradição, o mesmo rito. Cada um no seu tempo e na sua possibilidade. Todos na mesma tradição da Romaria.

Ano que vem tem mais.

William Mendes
Romaria 2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Em busca da História


Luar pós eclipse de 27 de julho de 2018
a partir de meu mundo, Osasco.

Refeição Cultural

Quem sou, o que sou, porque as coisas são como são, porque vemos o mundo da forma como vemos - através de conceitos e valores que variam no tempo e no espaço, e de pessoa a pessoa -, o que aconteceu que nos levou aonde estamos neste momento da História, o que podemos aprender com as experiências do passado em todas as áreas e dimensões humanas e em relação ao próprio planeta que habitamos e suas mudanças, enfim, pensar e refletir questões como essas são evidências de que somos seres humanos e não somente animais irracionais, reles mamíferos bípedes como os demais no reino animal.

Após quase cinco décadas de existência, uma vida quase toda dedicada à sobrevivência pessoal e familiar e a lutas coletivas e movimentos sociais, tenho o desejo de abraçar uma busca por mais conhecimento humano através da História, quero ser menos ignorante nas coisas do mundo e da vida humana. Não sei ainda qual será a melhor estratégia e alternativa para alcançar esse objetivo de busca do conhecimento, mas vou achar a forma adequada para isso.

Quando criei este blog Refeitório Cultural tinha o desejo de compartilhar de forma gratuita aquilo que aprendia sobre as mais diversas áreas de conhecimento. A falta de tempo e o envolvimento cada vez maior com as lutas sociais às quais estava engajado sempre foram empecilhos para uma produção textual da forma como gostaria. Eu ainda estava sob o efeito do conceito WIKIpedia, ou seja, What I Know Is... e queria fazer a minha parte para compartilhar conhecimento humano, até com minha opinião sobre as coisas.

O mundo mudou rápido em menos de duas décadas em relação à tecnologia, ao mundo virtual, às redes sociais, à produção e distribuição de ciência e informações. Mas o resultado das mudanças, na minha opinião, é preocupante. Não vejo o mundo melhor para os seres humanos nesse início de século 21. Vejo com pessimismo o que vem por aí em relação a um mundo melhor para todos.

Meu desejo é conhecer mais sobre a História e, se for bem sucedido e me sentir menos ignorante sobre as coisas, ainda gostaria de desenvolver uma estratégia para compartilhar para outras pessoas o que aprendi.

É isso que tenho refletido recentemente.

William

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Conhecendo animes perto dos 50 anos





Refeição Cultural

Num esforço para ampliar minha capacidade de comunicação com os mais jovens, em especial com o meu filho, tenho procurado conhecer novas linguagens e meios expressivos como os animes e mangás.

Minha primeira experiência em animes foi assistir a Death Note (2006), com 37 episódios, e depois passei a assistir aos animes de Naruto (que estreou no Brasil em 2006) e atualmente está na Netflix. Os animes são sugeridos pelo meu filho e acabam sendo uma forma de vermos algo juntos. 

De um tempo pra cá, uns dois anos, passamos a ver os episódios à noite, cada um num lugar físico, mas vendo ao mesmo tempo. Foi comum assistirmos Naruto eu num lugar, meu filho noutro, e a mãe dele num terceiro lugar. Mas unidos ao longo de dezenas de episódios. Estamos terminando mais de uma centena de episódios de Naruto, praticamente só faltam alguns episódios da saga "clássica" (a parte onde os personagens ainda são pré-adolescentes).

Nestes dias de férias escolares de julho, em que estamos juntos no recesso da faculdade de meu filho, assistimos aos 13 episódios de Angel Beats (2010). No início foi difícil pegar o ritmo, a ação do anime era muito doida, mas aos poucos a estória começou a ter sentido. Ao caminhar para o fim foi ficando emocionante, e a cada episódio, o anime nos deixou mais reflexivos sobre a vida e a morte.

Em um dos episódios, em que o enredo encaminha o desfecho relativo a uma das personagens principais, Yuri (ou Yurippe), me peguei pensando no que foi a minha vida nos últimos anos e como está sendo difícil o desapego da missão que eu tinha e que movia toda a minha existência até o final de maio passado. Mas é preciso se deixar "obliterar" e seguir para outra etapa das existências.



Por fim, ainda na linguagem de animes, vimos o longa metragem Your Name (Kimi no na wa, 2016). Novamente, que produção linda, emotiva, que nos põe a refletir. A estória tem amor, tradição, medos e dilemas dos jovens, e beleza no desenho, nas paisagens, nas personagens. Bem ao estilo do diretor Makoto Shinkai, de obras como Jardim das palavras (2013), que também assistimos.

Após assistir a esses dois animes, ainda vi, de quebra, ao filme Gênio Indomável (1997). Que soco no estômago. Me lembro de ter sido muito impactado pela estória do jovem Will (Matt Damon) quando eu mesmo era um jovem revoltado no final dos noventa e início dos anos dois mil.

Como escrevi na última postagem dias atrás (ler AQUI), não sei ainda o que vou fazer com meus blogs após o fim de um ciclo de quase duas décadas de vida política e representativa como eleito por trabalhadores em mandatos sindicais e de gestão em saúde.

Essa foi minha refeição cultural. Apesar do silêncio autoimposto e pela decepção que me domina em relação ao fim da democracia brasileira e a destruição de meu país após o golpe de Estado, ainda busco um sentido para escrever.

domingo, 22 de julho de 2018

A necessidade de estudar e ser politizado para lutar pela libertação


Ler e se educar, buscar conhecimento e ter
melhores subsídios para analisar o mundo
é tarefa de qualquer um na sociedade humana.

Refeição Cultural

"- Tens de te convencer que precisas de estudar. Como serás útil depois da luta? Mal sabes ler... onde vais trabalhar?
- Fico no exército - disse Lutamos.
- E julgas que para ficar no exército não tens de estudar? Como vais aprender artilharia ou tática militar ou blindados? Precisas de Matemática, de Física...
- Ora! Eu não quero ser oficial.
- E quem vai ser oficial, então? Esses que se formam no exército tuga, sem formação política, que um dia tentarão dar um golpe de Estado? É isso que queres? Que depois da Independência haja golpes de Estado todos os anos, como nos outros países africanos? Precisamos de ter um exército bem politizado, com quadros saídos da luta de libertação. Como vamos fazer, se os guerrilheiros não querem estudar para serem quadros?

Lutamos encolheu os ombros. Contemplou o grupo de jovens que cambalhotavam por terra, suando, o suor agarrado à lama do Mayombe, e o Comandante, de tronco nu, cambalhotando também, levantando-se para em seguida rolar pelo solo, misturando explicações a encorajamentos e gritos." (Mayombe, Pepetela, 1980, Angola)


Depois de tanto tempo focado em tarefas coletivas que exigiam muito conhecimento técnico, específico e muita dedicação política, algo muito trabalhoso e de pouco reconhecimento social nos tempos que correm, o momento é de tentar readaptar o cérebro para novos aprendizados, para a volta do estímulo aos mais diversos temas culturais, sobretudo relacionados à história da humanidade e das sociedades humanas.

Os materiais e fontes de conhecimento com viés progressistas são alternativas importantes para que uma pessoa possa se informar, sem ser manipulada de forma exagerada pelas fontes de conteúdos. Qualquer texto tem a posição de sua fonte, não há texto isento ou neutro, mas há texto honesto em seu posicionamento, inclusive aqueles que se arvoram como textos "técnicos".

Livros clássicos de literatura universal e local, livros de ensaios, filosóficos e com características históricas, livros de autores contemporâneos que se coloquem contrários à ordem hegemônica do mundo capitalista dominado por corporações e seu 1% de humanos donos de tudo, revistas que deem visibilidade às causas populares, combatidas nos meios midiáticos dos donos de tudo, enfim, ter boas fontes de conteúdo sem se colocar à mercê da idiotização global a partir dos oligopólios midiáticos é possível, basta querer.

A revista CartaCapital é um exemplo de meio de informação que me agrada. Ela faz jornalismo de qualidade, traz conhecimentos gerais aos seus leitores, não tem a manipulação como objetivo central da publicação como ocorre com quase todas as revistas dos empresários donos de jornais e revistas comerciais chamados por nós da esquerda de PIG - Partido da Imprensa Golpista. 

Voltei a assinar a revista já faz algum tempo, principalmente para atender ao chamado de Mino Carta para ajudar a revista a se manter viva, porque eu não conseguia ler as edições semanais por falta de tempo e outras prioridades. Agora que li 4 edições (1009 a 1012), vi o quanto alimentei meu conhecimento geral. Recomendo aos amig@s leitores que assinem a revista, pois além de contribuir para a manutenção da mesma, a assinatura custa o mesmo que algumas cervejas no boteco. Dá até para continuar bebendo socialmente, serão só algumas garrafas ou copos a menos. Reflitam a respeito.

OPINIÃO - é necessário que os cidadãos do povo e da classe trabalhadora determinem em suas jornadas diárias de vida uma obrigação de buscar conhecimentos históricos, sobre a luta dos povos contra a subjugação de outros sobre si mesmos, de dominações e imperialismos, explorações estrangeiras, de tragédias humanas, de exemplos históricos advindos da falta de democracia, solidariedade, excesso de egoísmo, de totalitarismos vários e suas consequências para os povos do mundo. Bons romances e bons ensaios podem contribuir para esse tipo de conhecimento. 

- Jovens, por favor, busquem informações históricas! A vida não é um eterno presente contínuo, sem passado público e coletivo, como nos alerta Eric Hobsbawm no prefácio da Era dos Extremos. O que vocês podem contribuir para o presente e o amanhã coletivos deste nosso mundo, mundo vasto mundo?

Ainda estou pensando o que fazer com os meus blogs Refeitório Cultural e Categoria Bancária, blogs que alimentei com regularidade por mais de uma década como representante político de trabalhadores, que prestava conta do que fazia, pensava, defendia, e que buscava partilhar conhecimento para convencer pessoas e alterar contextos sociais. 

Talvez eu passe a atuar só com o passado, só com o ontem, e não mais com o momento presente, além de literatura, filmes e conhecimentos gerais. Estou avaliando o que fazer para não perder meu gosto pelo ato de escrever e compartilhar o que sei (ou acho que sei) e as opiniões que tenho.

Abraços,

William

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Mensagem do Presidente Lula (Preso político no Brasil pós-golpe)


(reprodução de texto com comentário do blog no final)

Foto do Instituto Lula

"Meus amigos e minhas amigas,

Chegou a hora de todos os democratas comprometidos com a defesa do Estado Democrático de Direito repudiarem as manobras de que estou sendo vítima, de modo que prevaleça a Constituição e não os artifícios daqueles que a desrespeitam por medo das notícias da Televisão.

A única coisa que quero é que a Força Tarefa da Lava Jato, integrada pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Moro e pelo TRF-4, mostrem à sociedade uma única prova material de que cometi algum crime. Não basta palavra de delator nem convicção de power point. Se houvesse imparcialidade e seriedade no meu julgamento, o processo não precisaria ter milhares de páginas, pois era só mostrar um documento que provasse que sou o proprietário do tal imóvel no Guarujá.

Com base em uma mentira publicada pelo jornal O Globo, atribuindo-me a propriedade de um apartamento em Guarujá, a Polícia Federal, reproduzindo a mentira, deu início a um inquérito; o Ministério Público, acolhendo a mesma mentira, fez a acusação e, finalmente, sempre com fundamento na mentira nunca provada, o Juiz Moro me condenou. O TRF-4, seguindo o mesmo enredo iniciado com a mentira, confirmou a condenação.

Tudo isso me leva a crer que já não há razões para acreditar que terei Justiça, pois o que vejo agora, no comportamento público de alguns ministros da Suprema Corte, é a mera reprodução do que se passou na primeira e na segunda instâncias.

Primeiro, o Ministro Fachin retirou da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal o julgamento do habeas corpus que poderia impedir minha prisão e o remeteu para o Plenário. Tal manobra evitou que a Segunda Turma, cujo posicionamento majoritário contra a prisão antes do trânsito em julgado já era de todos conhecido, concedesse o habeas corpus. Isso ficou demonstrado no julgamento do Plenário, em que quatro dos cinco ministros da Segunda Turma votaram pela concessão da ordem.

Em seguida, na medida cautelar em que minha defesa postulou o efeito suspensivo ao recurso extraordinário, para me colocar em liberdade, o mesmo Ministro resolveu levar o processo diretamente para a Segunda Turma, tendo o julgamento sido pautado para o dia 26 de junho. A questão posta nesta cautelar nunca foi apreciada pelo Plenário ou pela Turma, pois o que nela se discute é se as razões do meu recurso são capazes de justificar a suspensão dos efeitos do acordão do TRF-4, para que eu responda ao processo em liberdade.

No entanto, no apagar das luzes da sexta-feira, 22 de junho, poucos minutos depois de ter sido publicada a decisão do TRF-4 que negou seguimento ao meu recurso (o que ocorreu às 19h05m), como se estivesse armada uma tocaia, a medida cautelar foi dada por prejudicada e o processo extinto, artifício que, mais uma vez, evitou que o meu caso fosse julgado pelo órgão judicial competente (decisão divulgada às 19h40m).

Minha defesa recorreu da decisão do TRF-4 e também da decisão que extinguiu o processo da cautelar. Contudo, surpreendentemente, mais uma vez o relator remeteu o julgamento deste recurso diretamente ao Plenário. Com mais esta manobra, foi subtraída, outra vez, a competência natural do órgão a que cabia o julgamento do meu caso. Como ficou demonstrado na sessão do dia 26 de junho, em que minha cautelar seria julgada, a Segunda Turma tem o firme entendimento de que é possível a concessão de efeito suspensivo a recurso extraordinário interposto em situação semelhante à do meu [caso]. As manobras atingiram seu objetivo: meu pedido de liberdade não foi julgado.

Cabe perguntar: por que o relator, num primeiro momento, remeteu o julgamento da cautelar diretamente para a Segunda Turma e, logo a seguir, enviou para o Plenário o julgamento do agravo regimental, que pela lei deve ser apreciado pelo mesmo colegiado competente para julgar o recurso?

As decisões monocráticas têm sido usadas para a escolha do colegiado que momentaneamente parece ser mais conveniente, como se houvesse algum compromisso com o resultado do julgamento. São concebidas como estratégia processual e não como instrumento de Justiça. Tal comportamento, além de me privar da garantia do Juiz natural, é concebível somente para acusadores e defensores, mas totalmente inapropriado para um magistrado, cuja função exige imparcialidade e distanciamento da arena política.

Não estou pedindo favor; estou exigindo respeito.

Ao longo da minha vida, e já conto 72 anos, acreditei e preguei que mais cedo ou mais tarde sempre prevalece a Justiça para pessoas vítimas da irresponsabilidade de falsas acusações. Com maior razão no meu caso, em que as falsas acusações são corroboradas apenas por delatores que confessaram ter roubado, que estão condenados a dezenas de anos de prisão e em desesperada busca do beneplácito das delações, por meio das quais obtêm a liberdade, a posse e conservação de parte do dinheiro roubado. Pessoas que seriam capazes de acusar a própria mãe para obter benefícios.

É dramática e cruel a dúvida entre continuar acreditando que possa haver Justiça e a recusa de participar de uma farsa.

Se não querem que eu seja Presidente, a forma mais simples de o conseguir é ter a coragem de praticar a democracia e me derrotar nas urnas.

Não cometi nenhum crime. Repito: não cometi nenhum crime. Por isso, até que apresentem pelo menos uma prova material que macule minha inocência, sou candidato a Presidente da República. Desafio meus acusadores a apresentar esta prova até o dia 15 de agosto deste ano, quando minha candidatura será registrada na Justiça Eleitoral.

Luiz Inácio Lula da Silva
Curitiba, 3 de julho de 2018"



Comentário do blog

As arbitrariedades cometidas contra Lula já passaram dos limites, da razoabilidade e devem cessar. Não é possível que um cidadão continue sofrendo a perseguição do poder estatal por parte de grupos que pouco se importam com o povo, com a democracia e com a verdade.

Nós que acreditamos na democracia defendemos a participação política de todos os cidadãos e cidadãs e que as consequências do processo democrático sejam arcadas pelos eleitores e aceitas pelos derrotados.

Eu me coloquei à disposição dos eleitores recentemente após dedicar 4 anos de minha vida de forma absolutamente integral à defesa da causa que representava. Os eleitores fizeram outra escolha. Isso é democrático.

Mas não permitir que Lula se coloque à disposição dos eleitores para que eles decidam o que querem pra si é um absurdo, é injusto, é imoral.

É o que eu penso como cidadão.

William

sábado, 26 de maio de 2018

Não se deve condenar um inocente




Assisti novamente ao filme "12 homens e uma sentença", na versão de 1957 com Henry Fonda. Tenho me manifestado pouco publicamente, em face dos acontecimentos em que temos vivido nestes tempos difíceis. Mas quis dizer aos amigos leitores do blog que este filme é necessário nos tempos que correm.

Assisti ao filme em prantos. Na minha opinião, o filme "12 angry men" é um dos filmes mais indicados do mundo para levar cada telespectador à reflexão sobre justiça, igualdade de condições, sobre intolerância, sobre preconceitos e pré-julgamentos, sobre questionamentos às conclusões fáceis, sobre a responsabilidade de se condenar indevidamente uma pessoa, um ser humano.

O respeito aos direitos de uma pessoa, em qualquer condição que ela se encontre, seja ela do topo da pirâmide social, seja ela da base da pirâmide, tenha ela as opiniões que tiver sobre diversos temas, situe-se ela onde achar melhor no espectro político, enfim, cada um de nós é um ser humano, é uma história de vida, é uma possibilidade de presente e futuro.

Um garoto está no banco dos réus, acusado de ter assassinado o pai. Após os seis dias de julgamento no juri popular, doze homens devem se reunir numa sala e decidir se ele é culpado ou inocente. Como se trata da vida do rapaz, que pode ser absolvido ou condenado à cadeira elétrica, o juiz avisa que a decisão deve ser unânime, e que ele deve ser inocentado se houver dúvida razoável, e condenado se todos tiverem certeza de sua culpa.

Senti a necessidade de rever esse filme ao acordar neste sábado. Julgamentos e acusações, e condenações, viraram a tônica dos momentos que vivemos no Brasil. Pesos e medidas diferentes para casos semelhantes em avaliação também marcam os duros tempos. E isso está ocorrendo nos espaços públicos e privados, os tempos são de julgamentos, de condenações, de caça às bruxas, de destruição de reputações. De arbítrios.

Nós não podemos esmorecer, desanimar com toda essa crise ética e de valores que ronda nossos espaços sociais. Temos que acreditar no ser humano, na força da verdade, e lutar para que prevaleça o respeito e a justiça para todas as pessoas, todas. Se uma sociedade não acreditar mais na justiça e na solução pacífica das controvérsias, ela toda, a sociedade, irá ruir para o caos e todos perderão, independente do locus onde estejam.

Eu estou me esforçando para acreditar que é possível encontrar justiça nos homens e nas coisas dos homens. Fica difícil viver em sociedade se não acreditarmos na justiça, nas pessoas que decidem sobre a vida dos outros o tempo todo.

William (cidadão, bancário)

domingo, 13 de maio de 2018

Constatações instantâneas do Brasil





O Presidente Lula está preso.
O Paulo Preto está solto.
O Alckmin está solto.
O Serra está solto.
Aécio está solto.

A Presidenta Dilma foi impedida.
O presidente Temer refez o Brasil.
O Parente é presidente da Petrobras.

O Moro é um juiz do Brasil.
A Cármen é uma juíza do Brasil.
A Globo é uma organização do Brasil.
A Abril é uma editora do Brasil.
O Itaú é um banco do Brasil.

A Folha disse que a ditadura foi branda no Brasil.
Vários generais foram 'presidentes' do Brasil.
Presidentes autorizavam matar no Brasil.

O Vargas está morto.
O Juscelino está morto.
João Goulart está morto.

O Brasil é o país do futebol.
O Brasil é o país do Carnaval.
O Brasil é o país da Floresta Amazônica.

(O Brasil era o país do pré-sal)

O país da casa-grande.
O país das senzalas, morros, favelas.
Lula está preso: a jato.

E o povo brasileiro?
Quede o povo brasileiro?
Existe o povo brasileiro?
Brasil? Brasileiro?
?

Tem hora que dá vontade de...
Desistir?

domingo, 29 de abril de 2018

Diário e reflexões - 290418 (Há que se ter esperança e solidariedade para lutar pelo justo)


Almoço no acampamento Marisa Letícia, em solidariedade ao
presidente Lula, preso político do Estado de Exceção pós golpe.

Refeição Cultural

O mês de abril está terminando. Os tempos para mim são de mudanças.

Ao mesmo tempo em que estou sem nenhuma vontade de falar ou escrever, sinto uma obrigação de falar e de escrever. Dar testemunho, deixar registros dessa época, desse momento de nossa vida, que é pessoal e coletiva. Por isso escrevo neste blog há mais de uma década.

Estou muito decepcionado com o nosso mundo, com o locus onde vivemos como cidadão. Estou trabalhando meu eu interior para uma mudança radical de vida em poucas semanas. Vou me reinventar após quase duas décadas de envolvimento com o movimento sindical e social.

Mas diferente de décadas atrás, minha decepção com o mundo é diferente. Não é totalizadora, não me leva à depressão. Não me leva à desistência de nada. Hoje tenho uma estrutura psicológica mais preparada que no passado. Prezo por mim, sei meu valor e sei de minhas responsabilidades sociais. Por isso vou me reinventar, porque é preciso.

A vida simplesmente é e temos que fazer o que precisa ser feito. Isso vale até para nós mesmos e nossas obrigações com a sobrevivência. Tenho sonhos diversos, e energia interior para novos projetos. E sempre estarei fazendo o bem para a sociedade que habito.

Por duas décadas ajudei a construir a maior central sindical do país, a CUT. Contribuí para organizar uma das categorias mais relevantes da classe trabalhadora brasileira, a bancária. Nela, participei de mais de duas décadas de lutas dos bancários do BB, o maior e mais antigo banco público brasileiro.

Ainda lembrando os mais de vinte anos de história de lutas coletivas, também deixei minhas contribuições em uma das correntes políticas do campo sindical cutista que ajudaram a definir os rumos dos direitos dos trabalhadores brasileiros, a Articulação Sindical.

Agora encerro uma participação na história da maior autogestão em saúde do país, a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Foi um dos mandatos mais desafiadores de minha vida de representação. Temos a convicção e a tranquilidade de consciência que construímos a unidade nacional, fortalecemos o modelo assistencial e a participação social. Mantivemos todos os direitos dos associados no período.

Meu querido país Brasil, e eu amo meu país, está sendo desfeito, dizimado pelos golpistas que rasgaram a Constituição Cidadã de 1988, conquista do período posterior à ditadura civil-militar dos anos sessenta a oitenta. Estão desfazendo o patrimônio público. Os direitos históricos do povo. Na construção do golpe, como ferramenta do processo de manipulação de massas, estimularam o ódio, a intolerância e abriram a Caixa de Pandora. Poucos empresários da comunicação mandam no país, nos poderes instituídos.


"República de Curitiba": no fim da rua, o líder brasileiro e mundial
Luiz Inácio Lula da Silva está preso sem crime, numa masmorra ao
molde dos séculos passados, na volta da idade média no século 21.

Nesta semana, quando cumpri agenda de trabalho em Curitiba, senti um aperto no coração e precisava visitar o acampamento da resistência, constituído pelo povo brasileiro, para prestar solidariedade a Lula e lutar contra o absurdo da prisão política da maior figura da história recente do Brasil. O que estão fazendo com ele, encarcerado numa masmorra sem direito a visitas, mostra o momento de degeneração política, social e humana em que nos colocaram pós-golpe de 2016.

O Brasil virou uma coisa, uma terra sem lei, um local onde impera o arbítrio dos poucos poderosos e seus lacaios modernos que tomaram os espaços de poder estatal. Virou a terra de uma casta sem moral, sem ética e sem vergonha, que barbariza contra o povo, contra as massas, contra os trabalhadores e seus líderes e organizações. 

Cada um de nós, duzentos milhões de joões, está a mercê do arbítrio do poder e de processos injustos, estranhos, que não ocorreriam num Estado Democrático de Direito. Eu mesmo estou sendo vítima de processo político por ter dado o melhor de mim na defesa da entidade de saúde que geri. E nossa contribuição foi importante para a entidade no período mais difícil de sua história.

É isso. Apesar de muita coisa a dizer sobre vários acontecimentos desse momento bárbaro por que passa nosso país, chega por hoje.

Abraços aos leitores amig@s, e tenham energia e esperança. Não podemos desistir da solidariedade, da justiça, da igualdade, da liberdade, da tolerância entre os povos, da democracia e da política como solução pacífica das controvérsias, da distribuição de rendas e de um mundo mais inclusivo.

Mais uma reflexão: não podemos pactuar com o fascismo, com a violência contra o povo, contra os mais fracos. O estímulo ao fascismo já chegou aos atentados contra nós do campo da esquerda. Estão matando nosso povo. Não é justo nem admissível fatiar um país como o nosso para umas milhares de famílias, uma pequena casta, menos de 1%, e deixar à mercê da miséria total mais de duzentos milhões de brasileiros.

Pensem nisso!

William

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Diário e reflexões - 190418




Quinta-feira, fim de noite. Estou em Osasco (SP) a trabalho.

Nesta sexta-feira pela manhã participarei de mais uma apresentação para os associados da Cassi sobre o Relatório Anual 2017. A Cassi é a entidade de saúde dos funcionários do Banco do Brasil, gerida até o momento de forma paritária entre patrão e trabalhadores. A Diretoria Executiva está fazendo uma série de apresentações em seis capitais com o intuito de dar mais conhecimento aos participantes sobre a realidade da autogestão.

Começamos as apresentações em Brasília (DF) nos dias 17 e 18 e hoje estivemos com os associados em Belo Horizonte (MG). Após o contato com os participantes paulistas nesta sexta 20, iremos na próxima semana a Salvador (23), Curitiba (25) e Rio de Janeiro (26). Vim no voo lendo a história de Nelson Mandela e do povo negro sul-africano na "Longa Caminhada até a Liberdade", história contada por ele mesmo (um livro-tijolo, pelo tamanho). Por mais cansaço e sono que eu esteja sentindo, preciso muito ler nestes tempos histórias que nos inspirem a suportar a injustiça e persistir nas lutas, como a do próprio Lula, que já nos contém.

Estou terminando meu mandato eletivo na Caixa de Assistência no próximo mês. Foi o período mais intenso de minha vida de lutas e representações da classe trabalhadora. Foram 4 anos em que aproveitamos toda a nossa experiência na organização de lutas e negociações entre capital versus trabalho para não deixar as teses contrárias aos direitos dos associados prevalecerem na autogestão em saúde, 4 anos mantendo todos os direitos dos associados no cenário de crise mais dramático da história da entidade e do setor de saúde. 

Somando todos os mandatos eletivos, foram 16 anos exercendo o papel de representante dos trabalhadores. A hora é de finalizar uma longa etapa de vida pessoal e coletiva e pensar o amanhã. O amanhã neste mundo cão que se apresenta a nós povo e classe trabalhadora.

A transição para a mudança radical de vida em algumas semanas poderia ser mais simples do que está sendo. O "poderia" é uma espécie de utopia porque a vida de um representante das lutas da classe trabalhadora nunca foi simples, nem será. Um militante social coloca toda a sua vida pessoal em função das lutas coletivas, e o retorno à condição anterior depois de tantos anos não é nada simples. Fica mais complexo ainda, quando o contexto se passa no Estado de Exceção em que se encontra o Brasil, o nosso país e o nosso mundo da classe trabalhadora.

Nessas semanas que correm foi preciso buscar toda a frieza e serenidade que aprendi em quase 20 anos de enfrentamento das injustiças a que estão expostos os cidadãos e povo trabalhador ao qual eu mesmo pertenço para lidar com uma questão ignóbil, inominável, absurda, que visa prejudicar uma pessoa honesta, ética e que dedicou a vida para as lutas por um mundo mais justo e solidário, principalmente para a categoria profissional a qual pertence.

Mas se o contexto histórico por que passa o Brasil é o da inversão de valores, é o das violências várias, porque toda injustiça e iniquidade é uma violência contra a sociedade humana; se é o contexto que não tem pudor em prender sem crime a maior liderança do povo brasileiro, o homem que mais olhou para o povo na condição de Presidente na história do país, enfim, se a condição em que estamos é essa nesses tempos sombrios, qual não seria o efeito dessa ignomínia com os representantes dos trabalhadores em todos os espaços humanos, sociais e institucionais de nosso mundo Brasil?

Há que se ter força e serenidade para enfrentar as coisas indignas que estão fazendo contra o povo e suas lideranças. Minhas referências de vida são as maiores lideranças progressistas que os humanos já tiveram. Isso nos fortalece! Eu, do meu tamanho comum, olho os grandes para tê-los como exemplo de que sofreram muito mais do que gente como nós, e vemos que devemos todos resistir. Eles passarão, eu passarinho...

William

domingo, 8 de abril de 2018

Longa caminhada até a liberdade, do povo sul-africano e dos brasileiros



Líderes e biografias que nos inspiram a lutar
pela liberdade do povo.

Refeição Cultural

     "Quando recebi meu banimento, a conferência do Transvaal do CNA seria realizada no mês seguinte, e eu já havia terminado o rascunho do meu discurso presidencial. Ele foi lido para os participantes da conferência por Andrew Kunene, membro da executiva. Nesse discurso, que subsequentemente tornou-se conhecido como "A Caminhada Difícil para a Liberdade", uma frase, retirada de Jawaharlal Nehru, dizia que as massas tinham que ficar preparadas para novas formas de luta política. As novas leis e táticas do governo tornaram as antigas formas de protesto de massas - reuniões públicas, declarações à imprensa, ficar em casa - extremamente perigosas e autodestrutivas (...) 'Esses desdobramentos', escrevi, 'exigem o desenvolvimento de uma nova forma de luta política. Os velhos métodos', eu disse, eram agora 'suicidas'.
     'O povo oprimido e os opressores estão em desavença. O dia do ajuste de contas entre as forças da liberdade e as reacionárias não está muito distante. Não tenho a menor dúvida de que quando esse dia chegar a verdade e a justiça prevalecerão... Os sentimentos do povo oprimido nunca foram tão amargos. A situação extremamente difícil do povo o obriga a resistir até a morte contra as políticas nojentas dos gângsteres que dominam o nosso país. A derrubada da opressão tem sido aprovada pela humanidade e é a aspiração mais alta de todos os homens livres" (pág. 201, Longa Caminhada até a Liberdade", Nelson Mandela)


Não estou com muito ânimo para escrever em face dos últimos acontecimentos. No entanto, ter um blog me fez ter uma disciplina intelectual importante na última década. Há que se escrever, que refletir, que estudar, que compartilhar sentimentos e opiniões, porque estamos aqui.

Tenho lido lentamente a história de Nelson Mandela e da luta pela libertação de seu povo na África do Sul do regime racial da minoria branca - o Apartheid. Comecei a ler o livro no início de meu mandato na Cassi, quando ganhei ele de presente de minha companheira, e depois parei a leitura pelo excesso de trabalho. Agora retomei a leitura e ao mesmo tempo que avanço na história cronológica do livro, fico voltando ao início da vida de Mandela, do seu povo e do regime racial por parte dos africânderes.

Durante os últimos anos, registrei neste blog minhas impressões e comentários a respeito da ascensão do ódio e do fascismo no Brasil, processo desenvolvido como estratégia por parte de um segmento da sociedade, o segmento da minoria que domina este país há séculos, uma elite canalha e lesa-pátria que tem ódio do povo e das coisas do Brasil, da brasilidade, de tudo que represente o nacional e a pátria brasileira. Um pequeno segmento que se referencia nos colonizadores e imperialistas estrangeiros. Um segmento que nunca amou o país e seu povo.

Essa minoria oriunda do processo histórico brasileiro, minoria oriunda das casas-grandes, é a responsável por mais um golpe contra o povo brasileiro, um golpe contra a frágil democracia que teve instantes de vida ao longo de mais de um século de regime dito republicano. Essa minoria domina toda a estrutura de poder em nosso país, quando não com seus próprios membros e descendentes, com lacaios que se locupletam das benesses recebidas para ajudar a controlar a exploração e a manipulação do povo brasileiro, a imensa maioria de gente sem posses ou com pequenas posses.

Em dois anos de Golpe de Estado no Brasil, golpe organizado por uma casta privilegiada que inclui membros dos três poderes do Estado e donos de corporações, foram solapados direitos sociais, o patrimônio público e as principais fontes de emprego formal no país. Os empresários golpistas dos meios de comunicação envenenaram o povo brasileiro com o ódio e a intolerância, bases para qualquer regime fascista e totalitário.

Um sistema totalitário e cínico de comunicação empresarial passou a mandar no país. Define quem deve ser livre, quem deve ser preso; quem é bom, quem é ruim; quem é do bem, quem é do mal; qual política deve ser implantada, qual deve ser rejeitada. Vivemos uma ditadura de poucos donos de tudo (o 1%). A qualquer momento, qualquer pessoa e qualquer instituição pode ser a nova escolhida para a execração pública e moral de sua reputação e de sua vida e história. Basta não concordar com os donos do poder ou estar do lado com menos poder de impor a notícia ou as mentiras vendidas como verdade (fake news).

Ao ler a história do povo sul-africano e de Nelson Mandela, na longa caminhada até a liberdade e por um país que fosse para todos - os 3,5 milhões de africânderes e os 7,5 milhões de negros, indianos e mestiços -, ao refletir sobre a história do povo brasileiro e de seus bons momentos (poucos) e maus momentos por séculos, vejo que algo terá que acontecer para alterar esses tempos sombrios que entramos após o golpe de 2016. O Brasil e o povo brasileiro não resistirão por muito tempo se algo não for feito. O país pode não se recuperar jamais, a exemplo do que ocorreu com o México, que praticamente se tornou um país inexpressivo, após sua destruição por parte dos Estados Unidos.

Eu completei quase meio século de existência vivendo a infância na ditadura civil-militar, a adolescência no período neoliberal de destruição de nosso país, uma parte adulta vendo a esperança brilhar para o povo e avanços históricos acontecerem durante três mandatos presidenciais do Partido dos Trabalhadores e cheguei aos 49 anos nesta semana vendo a prisão política de um homem inocente condenado sem crimes, sem provas, para que ele não seja candidato à presidência da república do Brasil, Lula da Silva.

A leitura da história de Mandela e de seu povo, contada por ele mesmo, pode servir de referência para o nosso povo. No que ela tem de bom e de ruim. Não acho razoável que Lula siga preso como aconteceu com Mandela. Termino deixando mais uma reflexão de Nelson Mandela, nos anos 50, quando os nacionalistas africânderes recrudesceram a violência e as injustiças contra a maioria do povo africano.


É O OPRESSOR QUE DEFINE A NATUREZA DA LUTA

"A lição que aprendi com a campanha (contra a remoção do povo negro de Sophiatown em 1955) foi que no final nós não tínhamos alternativa alguma senão resistência armada e violenta. Repetidamente, havíamos utilizado todas as armas de não violência em nosso arsenal - discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, ficar em casa, prisões voluntárias - tudo em vão, pois tudo o que fazíamos era respondido com mão de ferro. Um guerreiro pela liberdade aprende da maneira mais difícil que é o opressor quem define a natureza da luta, e ao oprimido frequentemente não se deixa recurso algum senão utilizar métodos que espelham aqueles do opressor. Em certo momento, só é possível lutar contra o fogo usando fogo" (pág 206. Longa Caminhada até a Liberdade, Nelson Mandela)



domingo, 1 de abril de 2018

Simplicidade - Diário e reflexões - 010418



A simplicidade da natureza de Brasília
foi algo marcante e ficará em minha memória.

"Llaneza

                          A Haydée Lange

Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frequente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria.
Conozco las costumbres e las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad inegable,
como las piedras e los árboles."

(Jorge Luis Borges, Antología poética 1923-1977)


Refeição Cultural

Domingo, 1º de abril de 2018, Brasília (DF).

Começo a me despedir do Planalto Central, do cerrado, onde passei meus últimos quatro anos. Daqui algumas semanas volto para minha terra, o Mundo de Ozzz, Osasco (SP).

A natureza única em Brasília foi algo que me encantou profundamente nesses quatro anos que passei aqui a trabalho, como diretor de saúde na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil.

Brasília com suas estações do ano bem marcadas, as chuvas, a seca prolongada, as flores de cada época, os pássaros apaixonantes como as curicacas e o canto do urutau que aprendemos a amar. O céu mais azul do mundo! O pôr do sol de paralisar.

"Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frequente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria..."

O abrir a janela de onde morei era como ver um jardim, e acho que a beleza e a simplicidade da natureza e o canto dos pássaros, junto às luzes dos entardeceres, ficarão para sempre em minha memória.

Vim a Brasília realizar a tarefa mais desafiadora de minha vida de lutas e de representação dos trabalhadores. Por mais que soubesse do trabalho que realizamos na defesa dos associados da Cassi e no fortalecimento da própria Caixa de Assistência e seu modelo revolucionário de saúde preventiva, havia externado para as pessoas mais próximas, meses atrás, o quanto seria difícil obter condições ideais de disputa para seguir com o trabalho que vinha sendo realizado (eu conheço muito os espaços de disputa de poder...).

"Conozco las costumbres e las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo..."

Já vislumbrava a dificuldade em se obter a unidade necessária no campo progressista e de representação dos segmentos dos trabalhadores associados. Já estou nesse meio há vinte anos e sei que nas horas centrais, o que prevalece é a divisão, é o foco no poder, mais que o foco no projeto coletivo. É só ver no quadro político do Brasil na maior crise de sua história como estão se comportando as forças progressistas em relação às eleições majoritárias. Teremos quantas candidaturas do campo popular? Três ou quatro? Não adianta a história ensinar... ninguém olha ou considera a história da luta de classes!

Nos próximos dois meses, período final de registro do mandato e de prestação de contas que realizamos no blog Categoria Bancária, vou registrar tudo que for possível sobre a Cassi e as áreas que atuamos. E vou registrar minhas opiniões, afinal de contas fiz isso desde o primeiro dia e assim vou até 31 de maio de 2018. Não teria porque esconder minha avaliação sobre o resultado das eleições e o que vislumbro pela frente em relação à entidade que aprendi a amar durante o mandato.

"No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza."

Eu tenho que ir me desligando da luta em defesa da Cassi e dos associados. Conheço profundamente a realidade que enfrentamos, o que evitamos e o que se desenha adiante com a mudança de rota.

Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad inegable,
como las piedras e los árboles."

Muitos de nós que vivemos juntos a realidade inegável do setor de saúde suplementar e da Caixa de Assistência nos últimos anos, que protegemos a entidade e associados revertendo quadros adversos, não soubemos nos unir em prol de algo coletivo maior. A responsabilidade do que vier de futuro talvez sirva de reflexão às gerações seguintes das lideranças do movimento social organizado porque a história humana tem diversos exemplos de consequências advindas da falta de unidade em momentos decisivos.

Sabemos que sem os princípios basilares e os paradigmas de consenso - manter a solidariedade no sistema de custeio, fortalecer as unidades de atendimento em saúde nos Estados, a atenção primária e medicina de família e a participação social - a Caixa de Assistência não será uma Cassi para todos, como deve ser.

Ainda farei dois meses de registros no blog Categoria Bancária. Registros com simplicidade e honestidade nas opiniões e dados que vamos apontar sobre esses quatro anos de história da nossa querida Caixa de Assistência. Segue firme o meu compromisso de deixar disponível o material que produzimos sobre a Cassi e o mandato para entidades sindicais, associativas e Conselhos de Usuários.

Abraços,

William

sábado, 31 de março de 2018

Jesus não morreu pelos "nossos pecados" e sim por enfrentar o sistema


Comentário do Blog

Olá prezad@s leitores e amig@s.

Apresento abaixo um artigo que li e me identifiquei bastante com ele. Nesta Sexta-Feira Santa, 30/3/18, assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), com direção de Mel Gibson, e relembrei a sensação horrível da violência praticada contra o judeu Jesus Cristo, Na época, saí do cinema chocado (ler artigo AQUI).

Estou em um momento de "passagem" em minha vida. Vou começar outra vida após quatro anos vivendo em Brasília (DF), após viver cada segundo de minha existência me dedicando à defesa dos direitos dos associados da Caixa de Assistência (Cassi) e ao seu modelo assistencial. Isso também me deixa mais sensível ao tema "Páscoa", "Pessach" dos judeus. Terei meus ritos de passagem de uma vida para outra.

Em meus quase 49 anos de idade, será a primeira vez em quase duas décadas que não serei um representante da classe trabalhadora eleito em algum mandato. Foram 16 anos como dirigente eleito; antes disso, havia sido eleito para o 1º Conselho de Usuários da Cassi SP. A vida será bem diferente daqui adiante. Como disse, viverei minha passagem de um tipo de vida para outro.

Não me alongo. Sugiro a leitura do texto abaixo porque ele nos põe a refletir.

William

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(reprodução de matéria da Rede Brasil Atual)


O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado,
mas o interesse, a conveniência e a cobiça.
Obra: Prisão de Cristo, 1621, de Guercino.


Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema

Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel



Por: Alberto Maggi 
Tradução: Francisco Cornélio
Publicado: 31/03/2018, 10h11


Caminho pra Casa, Outras Palavras - Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios.

No entanto, basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas.

A morte de Jesus não se deve apenas a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá.

A próspera economia do templo de Jerusalém, que o tornava o banco mais forte em todo o Oriente Médio, era sustentada pelos impostos, ofertas e, acima de tudo, pelos rituais para obter, mediante pagamento, o perdão de Deus. Era todo um comércio de animais, de peles, de ofertas em dinheiro, frutos, grãos, tudo para a “honra de Deus” e os bolsos dos sacerdotes, nunca saturados: “cães vorazes: desconhecem a saciedade; são pastores sem entendimento; todos seguem seu próprio caminho, cada um procura vantagem própria” (Is 56, 11).

Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica no país, considerando o ensinamento infalível da Lei, veem Jesus perdoar os pecados a um paralítico, imediatamente sentenciam: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3). E os blasfemos devem ser mortos imediatamente (Lv 24,11-14). A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas na verdade, visa salvaguardar a economia. Para receber o perdão dos pecados, de fato, o pecador tinha que ir ao templo e oferecer aquilo que o tarifário das culpas prescrevia, de acordo com a categoria do pecado, listando detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos ou outras coisas se deveria oferecer em reparação pela ofensa ao Senhor. E Jesus, pelo contrário, perdoa gratuitamente, sem convidar o perdoado a subir ao templo para levar a sua oferta.

Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas duas palavras que, no entanto, ameaçaram desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao templo levando ofertas, nem de submeter-se a ritos de purificação, nada disso. Não, bastava perdoar para ser imediatamente perdoado…

O alarme cresceu, os sumos sacerdotes e escribas, os fariseus e saduceus ficaram todos inquietos, sentiram o chão afundar sob seus pés, até que, em uma reunião dramática do Sinédrio, o mais alto órgão jurídico do país, o sumo sacerdote Caifás tomou a decisão. “Jesus deve ser morto”, e não apenas ele, mas também todos os discípulos porque não era perigoso apenas o Nazareno, mas a sua doutrina, e enquanto houvesse apenas um seguidor capaz de propagá-la, as autoridades não dormiriam tranquilas (“Se deixarmos ele continuar, todos acreditarão nele …“, Jo 11,48). Para convencer o Sinédrio da urgência de eliminar Jesus, Caifás não se referiu a temas teológicos, espirituais; não, o sumo sacerdote conhecia bem os seus, então brutalmente pôs em jogo o que mais estava em seu coração, o interesse: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?” (Jo 11,50).

Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina.

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Alberto Maggi, biblista italiano, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontifícias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversos livros, como A loucura de Deus: o Cristo de João, Nossa Senhora dos heréticos

Francisco Cornélio, sacerdote e biblista brasileiro, é professor no curso de Teologia da Faculdade Diocesana de Mossoró (RN). Fez seu bacharelado no Ateneo Pontificio Regina Apostolorum, em Roma. Atualmente, está em Roma novamente, para o doutorado no Angelicum (Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino), onde fez seu mestrado

Fonte: Rede Brasil Atual