domingo, 15 de outubro de 2017

Liberdade e consciência de classe são bases das lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores



(atualizado às 19h35 do mesmo dia)


Refeição Cultural

Domingo de descanso em Osasco. Manhã fria, a temperatura mudou de mais de 31° para 16° de um dia para o outro. São Paulo é assim.

O dia deveria ser de descanso de uma jornada intensa de trabalho e lutas pela causa que defendo há pouco mais de três anos: ser gestor eleito de uma autogestão em saúde, cujos associados são os próprios trabalhadores da empresa pública à qual pertencemos, o Banco do Brasil.

Quanto mais avançam minha idade e experiência nesta breve existência, mais sinto necessidade de autoconhecimento. Meu desejo e necessidade de estudar e de preencher todas as lacunas culturais que tenho em todas as áreas do conhecimento humano me pressionam a não querer sequer deixar o corpo físico descansar. Porque a vida é um instante e somos muito ignorantes sobre quase tudo.

Tenho maltratado meu corpo na jornada que estou empreendendo na defesa da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil e na defesa dos direitos em saúde dos trabalhadores que represento. A tarefa que percebemos que teríamos pela frente era a mais desafiadora de nossa vida de representação, quando realizamos no início do mandato o diagnóstico da situação que encontramos e planejamos os objetivos centrais a empreender em quatro anos. A Cassi era uma total desconhecida dos intervenientes do sistema em relação à sua essência.

Como disse no início, meu corpo fica me pedindo que eu durma quase que o dia todo nos finais de semana, porque estou cansado. Mas eu brigo com ele e fico acordado e tento estudar, encontrar novas ideias, explicações e experiências de nossos antepassados nas lutas sociais que possam balizar minhas estratégias em defesa das causas que defendo.

Nunca li e estudei tanto quanto nestes últimos três anos. Por mais que não tenha tempo livre porque desde o primeiro dia de mandato na Cassi trabalho ininterruptamente quase que as 24 horas do dia, porque mesmo em finais de semana, à noite, nas madrugadas, estamos usando nossa inteligência para criar estratégias de lutar contra gigantes, contra o sistema, contra a ignorância. Estudei para lutar contra o desconhecimento e a falta de consciência que podem favorecer o aniquilamento das conquistas sociais e de classe pelas quais lutamos.

Peguei para ler neste sábado um livrinho sobre Rosa Luxemburgo. Li umas cinquenta páginas, entre o sono e a atenção à esposa e filho. E também entre as tristezas que sentimos por sermos humanos e termos problemas pessoais como qualquer cidadão. Um militante de esquerda e dirigente eleito de trabalhadores não é uma máquina, é uma pessoa. 

Nesse parco tempo que li umas cinquenta páginas sobre Rosa Luxemburgo também dediquei um tempão ao meu trabalho de gestor da Cassi, pois fiz um esforço para responder participantes em diversos grupos em redes sociais (sei que não deveria fazer isso nas "folgas").


Sobre ideias de Rosa Luxemburgo

"Na questão parlamentar, Rosa Luxemburg sentia-se próxima de Friedrich Elgels, que considerava o Parlamento uma tribuna para a propaganda revolucionária, e nada mais. Para ela a sociedade só podia se emancipar se o proletariado se emancipasse. Emancipação pela prática, por uma modificação progressiva na correlação de forças, era segundo ela o único caminho que fazia sentido para a emancipação. No que Rosa Luxemburg desejava era central não o permanente crescimento numérico dos membros das organizações proletárias e dos eleitores, e sim o crescimento da autoconsciência e da capacidade de ação política. O partido devia fazer propostas à classe trabalhadora e deixar que ela decidisse, mesmo correndo o risco da rejeição, e isso tinha de ser aceito em cada caso específico."


Interessante essa visão que Rosa Luxemburgo nos dá sobre construir a autoconsciência nas pessoas participantes de um sistema social. 

Um dos objetivos centrais que empreendemos neste mandato de gestor da Caixa de Assistência foi percorrer as bases sociais da autogestão - a comunidade Banco do Brasil - e levar ao conjunto de participantes e lideranças do sistema informações básicas sobre direitos e deveres no uso da Cassi e para a tomada de decisões enquanto associados da autogestão em saúde. Eu trabalhei esse objetivo com o nome de "pertencimento".

Já que não teria condições de estar e falar com centenas de milhares de participantes do sistema Cassi ao longo do mandato, minha estratégia foi trabalhar com uma rede de conhecimento, que poderia levar o autoconhecimento aos demais usuários em sistema de teia. Foquei os Conselhos de Usuários, entidades sindicais e associativas e as lideranças do Banco do Brasil nos Estados e na Direção da empresa, o que inclui seus representantes na gestão da operadora de saúde.

A tarefa era muito desafiadora. Não havia uma cultura de informação na comunidade BB para esclarecer o que era, como funcionava, quais os problemas centrais, como resolvê-los, quais os objetivos que a Cassi tinha como missão, os deveres e obrigações de todos os intervenientes, além dos direitos. Não havia. 

Se havia cultura de informação, era algo esparso e não sistêmico. Era um trabalho voluntarioso e local de pessoas abnegadas com consciência e conhecimento a respeito da Cassi, principalmente dos funcionários das áreas de atividade-fim na sede em Brasília e nas unidades administrativas e de saúde nos Estados/DF.

Ao estar no 4° e último ano de mandato, é natural que façamos um pouco de balanço sobre os objetivos que alcançamos e os que não alcançamos, inclusive por causa de todas as dificuldades e crises que permearam todo o período.

Eu tenho um sentimento e uma leitura de que VALEU A PENA o esforço de lutar por levar mais informações de qualidade sobre o sistema de saúde Cassi e os problemas todos que o envolvem, agregando consciência e espírito de pertencimento senão ao conjunto dos participantes ao menos para as lideranças dos associados e suas entidades representativas. 

Nós vencemos uma batalha na questão do déficit entre 2014 e 2016, ao fazer o patrocinador BB colocar recursos também no sistema de saúde Cassi, junto com os associados, por não ser justo que só o lado dos trabalhadores fosse onerado. E nenhum direito social foi perdido naquela crise do déficit.


Com mais pertencimento e autoconhecimento dos trabalhadores do Sistema Cassi teremos melhores perspectivas de sustentabilidade e manutenção dos direitos em saúde

As batalhas seguem neste exato instante porque a defesa dos direitos em saúde dos trabalhadores brasileiros em suas mais diversas frentes e etapas é uma guerra, uma guerra de extermínio, onde nós somos o alvo. 

Só para situar os leitores, há riscos na existência de operadoras de saúde no modelo de autogestão por diversos fatores inviabilizantes como, por exemplo, tratamento não adequado de autogestões por parte da ANS; abusos nos valores cobrados pelo sistema privado na venda de serviços de saúde - hospitais, profissionais de saúde, materiais e medicamentos -; o sistema está sendo destruído por judicialização abusiva e irracional; risco de privatização e desmantelamento de empresas públicas que mantêm os planos de saúde em modelo autogestão. Etc, infelizmente!

Nosso papel neste pequeno espaço de luta por direitos em saúde de trabalhadores (a autogestão Cassi dentro do todo) tem sido o de informar e organizar os participantes de um magnífico sistema de autogestão baseado em Atenção Integral, com Atenção Primária (APS), medicina de família (ESF) e monitoramento de participantes acometidos de doenças crônicas e outros riscos através de programas de saúde. Já fazemos isso em mais de 180 mil pessoas do sistema Cassi. 

A partir de diversos estudos internos na Diretoria de Saúde e Rede de Atendimento, construímos neste mandato para todos da Caixa de Assistência conhecimentos que facilitam o olhar técnico dos resultados em saúde, que mostram que a Cassi é muito eficiente em relação ao seu modelo de promoção e prevenção. 

Um estudo sobre os vinculados ao nosso modelo assistencial demonstrou que esse grupo tem mais qualidade de vida e usa melhor os recursos do sistema quando precisa da rede prestadora comparado a grupo nas mesmas condições de grau de complexidade e que ainda não está na Estratégia Saúde da Família (ESF), ou seja, o grupo não vinculado usa a rede prestadora sem orientação racional da ESF. Mas preciso de recursos de investimento para ampliar a cobertura do modelo para a conjunto dos assistidos. 

Atuamos com respeito às diferenças, com muita dedicação em intercalar as milhares de horas de estudos e debates na sede da entidade, onde deliberamos semanalmente sobre a gestão, com a visita presencial à base dos trabalhadores que representamos, que na Cassi é o Brasil. Todos os meses estive prestando contas, esclarecendo, mobilizando e chamando para a luta milhares de participantes, contribuindo para a consciência de classe e valorizando a liberdade que todos devem ter.

A luta tem que seguir sempre, não esmoreçam!

Abraços,

William

domingo, 8 de outubro de 2017

Casa-grande & Senzala - O indígena na formação da família brasileira





Refeição Cultural

Aproveitei o sábado de descanso de meu mandato em defesa da autogestão em saúde e dos direitos dos trabalhadores do Banco do Brasil para estudar e refletir um pouco sobre a história de nosso querido Brasil, que vive sob Golpe de Estado desde 2016 e hoje tem parte da máquina pública dominada por gente lesa-pátria, destruindo o patrimônio público e social do povo brasileiro.

Ao acordar ainda cansado de uma semana em que dormi muito pouco como ocorreu nas anteriores, fiquei pensando em qual autor eu pegava para ler. Pensei em contos de Machado de Assis ou Guimarães Rosa, mas achei melhor pegar o Casa-grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre.

Antes, porém, li alguns artigos jornalísticos. Tem me chamado a atenção o quanto textos que deveriam ser considerados de linguagem padrão estão sendo publicados e divulgados com erros de digitação, de sintaxe, de ortografia, de concordância etc. Eu não tenho crítica a textos informais ou com dialetos em escrita não-padrão como blogs. Toda vez que reviso meus textos, por exemplo, acabo encontrando uma digitação errada ou coisa do tipo. Mas jornais e revistas e sites institucionais são outra coisa.

Eu sei da péssima qualidade do jornalismo brasileiro, mas ao ler dois artigos em jornais espanhóis, a partir de leituras na página da RAE (La Real Academia Española) vi os mesmos tipos de erros. Acredito que nossos cérebros estão se diluindo com a comunicação e a informação mundial a partir da velocidade das redes sociais. Acho que estamos ficando menos inteligentes.

Quando penso na perspectiva de estar aproveitando menos as possibilidades de minha inteligência, da minha capacidade de pensar, me exaspero e busco uma forma de pegar algo complexo para ler e estudar. Faço isso nas horas de folga, mesmo sabendo que meu trabalho de gestor em saúde já é uma mescla entre a técnica e a política, ou seja, já exige capacidade intelectiva o tempo todo.


Lendo Casa-grande & Senzala

Capítulo II - O indígena na formação da família brasileira

Iniciei neste sábado o capítulo II do ensaio de Gilberto Freyre. A leitura foi de muita curiosidade, pois não sabia de várias coisas que são narradas ali pelo autor. No entanto, me incomodam bastante as adjetivações do ensaísta ao comparar os povos de cá das terras invadidas e os povos trazidos da África com os europeus, mas fazer o que, né?

Freire apresenta sua leitura das diferenças de colonização portuguesa e espanhola nas Américas, inclusive em relação aos ingleses e demais europeus. Ao encontrar povos mais ou menos organizados em relação à cultura e às tecnologias, os espanhóis agiram de forma a exterminar maias, astecas e incas, para roubar seus minerais. Já os portugueses encontraram povos em geral mais dóceis e com culturas mais rústicas, e o primeiro período de colonização foi, via de regra, de convívio.

"Os portugueses, além de menos ardentes na ortodoxia que os espanhóis e menos estritos que os ingleses nos preconceitos de cor e de moral cristã, vieram defrontar-se na América, não com nenhum povo articulado em império ou em sistema já vigoroso de cultura moral e material - com palácios, sacrifícios humanos aos deuses, monumentos, pontes, obras de irrigação e de exploração de minas - mas, ao contrário, com uma das populações mais rasteiras do continente..."

E segue comparando os cenários diferentes encontrados por espanhóis e portugueses:

"De modo que não é o encontro de uma cultura exuberante de maturidade com outra já adolescente, que aqui se verifica; a colonização europeia vem surpreender nesta parte da América quase que bandos de crianças grandes; uma cultura verde e incipiente; ainda na primeira dentição; sem os ossos nem o desenvolvimento nem a resistência das grandes semicivilizações americanas..."

Ao enfrentar as rebeliões dos indígenas do solo brasileiro, os portugueses não precisaram exterminar completamente os povos, como fizeram os espanhóis com maias, incas e astecas.

"(...) mesmo quando acirrou-se em inimigo, o indígena ainda foi vegetal na agressão: quase mero auxiliar da floresta. Não houve da parte dele capacidade técnica ou política de reação que excitasse no branco a política do extermínio seguida pelos espanhóis no México e no Peru..."


Essas questões iniciais, mais a questão do papel das mulheres indígenas na relação com os colonizadores portugueses em solo brasileiro, vão definir de forma permanente as características dos nascidos aqui nos dois primeiros séculos de dominação portuguesa.

"Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado; no máximo de contemporização da cultura adventícia com a nativa, da do conquistador com a do conquistado. Organizou-se uma sociedade cristã na superestrutura, com a mulher indígena, recém-batizada, por esposa e mãe de família; e servindo-se em sua economia e vida doméstica de muitas das tradições, experiências e utensílios da gente autóctone..."

A geração de filhos portugueses com índias e depois com as mulheres negras vindas do continente africano, apesar de ser consequência mais de satisfação biológica que outra coisa, se mostrou estratégica com o passar do tempo naquele primeiro século de colonização portuguesa por causa da questão da necessidade de ocupação espacial do continente.

"Observou Southey que o sistema colonial português se revelara mais feliz do que nenhum outro no tocante às relações do europeu com as raças de cor; mas salientando que semelhante sistema fora antes 'filho da necessidade' do que de deliberada orientação social ou política (...) Para a formidável tarefa de colonizar uma extensão como o Brasil, teve Portugal de valer-se no século XVI do resto de homens que lhe deixara a aventura da Índia..."

Algumas explicações de Freyre nos fazem refletir bastante e olhar para nosso passado. Das conclusões do pensador, vemos a alimentação que temos hoje, as diversas formas de cultura oriundas dessa mistura de culturas distintas adaptadas para sobreviver nesta nossa terra.

"À mulher gentia temos que considerá-la não só a base física da família brasileira, aquela em que se apoiou, robustecendo-se e multiplicando-se, a energia de reduzido número de povoadores europeus, mas valioso elemento de cultura, pelo menos material, na formação brasileira..."


Leitura de Casa-grande & Senzala se dá num triste momento brasileiro do século XXI, com retrocessos sociais enormes no pós golpe

Enfim, essas citações que postei são somente pitadas de toda a curiosidade que li através das interpretações de Gilberto Freyre na primeira parte do capítulo (que é grande). 

Muitas das explicações sobre a formação social brasileira têm sentido e nos fazem compreender um pouco do que vivemos neste momento como a geração que está vendo o Brasil pós golpe se tornar mais intolerante e preconceituoso, mais desigual e injusto com os povos oriundos das senzalas ou dos quintais e arredores das casas grandes.

Após quase 13 anos de governos mais voltados para prioridades populares como os de Lula e Dilma, do Partido dos Trabalhadores, e mesmo após mais de 25 anos de conquista da Constituição Federal de 1988, dita "constituição cidadã" porque foi fruto de lutas e mobilizações sociais nos anos oitenta após mais de duas décadas de ditadura civil-militar, vemos um ataque virulento e rápido dos golpistas em destruir décadas de conquistas do povo.

Onde vamos parar? Se o povo brasileiro demorar um pouco mais para reagir e retomar o Estado e suas instituições para si, o Brasil se perderá para sempre. As entregas lesas-pátrias do patrimônio público para corporações estrangeiras estão sendo feitas a cada semana desde o golpe porque se acredita que o povo não lutará para retomar o patrimônio doado quando a democracia voltar, se voltar.

É isso! O tempo de reagir é curto, mas cadê a reação dos milhões e milhões de cidadãos que num curto espaço de tempo histórico (anos) acessaram tantas conquistas sociais e agora num tempo muito mais curto ainda (de meses) veem seus direitos sociais escoarem pelo ralo sem reação à altura, mesmo que seja através de insubordinação ou guerra civil contra os da casa grande instalados nos aparelhos do Estado (em estado de exceção) que aí está?

William
Um brasileiro


Post Scriptum:

Por falar em língua padrão e não-padrão, eu não gosto de algumas mudanças do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde 2009, que mexeu em acentos, hífen, trema e outras coisas. Quando me apetece, eu não respeito o que está determinado. Como disse acima, sei que não posso fazer isso num ofício, mas posso fazer nos meus blogs...

domingo, 1 de outubro de 2017

Leitura: Sentimento do Mundo (1940) - Carlos Drummond de Andrade




Refeição Cultural

Amanheci neste domingo de início de outubro com o desejo de ler Drummond, o poeta das coisas, da materialidade, do tempo, da vida.

Na sexta-feira, ao fechar um encontro de trabalho de funcionários de nossa Diretoria de Saúde, precisei de Drummond para expressar melhor o que eu estava sentindo sobre a Cassi, o Brasil e o mundo. Só eles, os poetas e os escritores, conseguem sintetizar os mundos através de suas poéticas de encaixe das palavras.

Eu li para meus colegas de trabalho três poemas de Drummond. Todos eles do livro Sentimento do Mundo, lançado em 1940, com o mundo em guerra mundial, os povos e os países se destruindo uns aos outros e o sentimento que predominava no mundo era o que o poeta expressa em cada um dos poemas do livro.

Apesar do clima pesado e lúgubre dos sentimentos expressos, há também uma força presente na determinação de que não adianta ficar pelos cantos esperando o mundo acabar; pelo contrário, a vida é uma ordem, a luta é a opção, sem essa de suicídios e desistências. Nossa! Nem se parece com o momento que a Cassi, o Brasil e o mundo passam na atualidade...

O primeiro poema do livro e que li para meus colegas é:


SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

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Eu recordei aos nossos funcionários que chegamos num momento em que havia uma guerra já em andamento. A nossa autogestão estava inserida num contexto dramático de déficits recorrentes motivados por diversas questões, tanto de custeio como de falta de foco no modelo assistencial, cujas perspectivas de sua operacionalização proporcionam melhor uso dos recursos e melhores resultados em saúde de sua população.

Mas se o cenário era extremamente adverso, as perspectivas e possibilidades eram imensas pelo que a própria autogestão em saúde carrega em si. Arregaçamos as mangas e nossas mãos, mãos dadas, teceram a resistência e conquistaram mais confiança e pertencimento à Cassi e ao que ela é. Viajamos o país e agregamos mãos, corações e mentes aos nossos projetos de saúde dos trabalhadores.

Li outro poema do livro Sentimento do Mundo, poema que me alimenta quando diz que os tempos não nos permitem morrer, e que a vida é uma ordem, sem mistificação. Esse é o sentimento que carrego em mim em qualquer luta que empreendo em nome da classe trabalhadora ou mesmo pessoal.


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

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Vamos de mãos dadas, em defesa da saúde e dos trabalhadores!

O momento pelo qual passa o nosso país, inclusive o mundo, nossos mundos como aquele para o qual milito na atualidade - a Caixa de Assistência - não nos permite sequer morrer. O tempo é de por mãos à massa e tecer os rudes trabalhos que temos pela frente. Nós fizemos isso em nossas tarefas, e o quadro de funcionários da Cassi foi e é fantástico no quesito fazer o que deve ser feito. Insistimos em fazer saúde, fazer promoção de saúde, fazer gestão de saúde mesmo em meio às crises.

O que nós produzimos no cenário mais adverso da história da Cassi foi graças ao quadro de funcionários da nossa autogestão; gente dedicada e apaixonada pelo que faz. Agreguei ao lado esquerdo do peito esse povo trabalhador, se somaram ao povo que já represento, os associados, e por essa gente eu desafio o mundo adversário.

O poema Mãos dadas foi o que citei para encerrar minha pequena participação no encontro de nossos funcionários analistas em gestão de saúde. Foi para lembrar que de mãos dadas, juntos e unidos, vamos longe ainda naquilo que fazemos e por aquilo que defendemos. As coisas podem parecer perdidas, mas estamos aqui e estamos nas lutas.


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem

                                      [vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por

                                      [serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
                                      [os homens presentes,
a vida presente.


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O livro Sentimento do Mundo (1940) é um livro para leitura agora, em 2017.

Todo ele fala de sentimentos tristes, de situações de morte, destruição, de desfazimento das coisas; porém, o tempo todo, o livro fala das mãos, mãos que trabalham, que produzem, que lutam.

E o tempo é de lutar, de construir, de reverter o quadro adverso que nos impuseram.

Recomendo a leitura de Drummond, ontem, hoje, amanhã.

William


Post Scriptum:

Vou ler os 23 livros de poesia de Drummond reunidos em 3 volumes que tenho. Reli em agosto "Alguma poesia" (1930), li em setembro "Brejo das almas" (1934) e vamos que vamos... conhecer é preciso!

sábado, 30 de setembro de 2017

Casa-grande & Senzala - Miscigenação ou fome os males do brasileiro?





Refeição Cultural


"A fome do homem

A fome do homem.
A fome que come o homem.
O homem com fome.

A fome de ontem.
A fome que come o homem.
A fome não some.

O homem não come.
A fome de ontem.
O homem que some."

(Poema de wmofox, pseudônimo de William Mendes)




Em relação à leitura do Prefácio do ensaio de Gilberto Freyre, ele nos aponta por onde irá seu plano de compreensão a respeito das consequências da colonização portuguesa nos primeiros séculos de conformação do povo brasileiro.

"Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor - separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura, a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família." (Página 32)


Já ouvi nos círculos intelectuais e também nos ambientes populares uma tese de que o povo brasileiro não seria boa coisa por ser fruto de miscigenação de índios, negros e portugueses. Nunca gostei da teoria e acho ela ideologizada, o que é natural na disputa de hegemonia de ideias nas sociedades. É através das narrativas dos segmentos sociais que se formam as culturas e as hegemonias.

Freyre apresenta a questão do materialismo histórico e da influência das questões de produção econômica no resultado das conformações sociais.

"Por menos inclinados que sejamos ao materialismo histórico, tantas vezes exagerado nas suas generalizações - principalmente em trabalhos de sectários e fanáticos - temos que admitir influência considerável, embora nem sempre preponderante, da técnica da produção econômica sobre a estrutura das sociedades; na caracterização da sua fisionomia moral. É uma influência sujeita a reação de outras; porém poderosa como nenhuma na capacidade de aristocratizar ou de democratizar as sociedades; de desenvolver tendências para a poligamia ou a monogamia; para a estratificação ou a mobilidade."


"É uma questão de economia, estúpidos" como se diz por aí.

Ainda que Freyre esteja falando nos anos trinta, ele comenta que mesmo que se considerasse avanços na eugenia, sem resolver as questões sociais de miséria e má distribuição da produção humana, os proletários sofreriam as influências físicas da má nutrição.

"Lembra Franz Boas que, admitida a possibilidade da eugenia eliminar os elementos indesejáveis de uma sociedade, a seleção eugênica deixaria de suprimir as condições sociais responsáveis pelos proletários miseráveis - gente doente e mal nutrida; e persistindo tais condições sociais, de novo se formariam os mesmos proletários."


Ou seja, passadas tantas décadas de discussão a respeito da fome e miséria a que são submetidos os povos de nosso querido Brasil, o que vimos entre o início dos anos dois mil e 2015, com os governos do Partido dos Trabalhadores, através das presidências de Lula e Dilma, foi a quase extinção da fome no País. Com os programas sociais implementados, saímos do mapa da fome mundial. 

E agora, com o Golpe de Estado em 2016, golpe que contou com a participação do sociólogo que apresentou este ensaio de Freyre, o senhor FHC, estamos caminhando para voltarmos ao mapa da fome e a caçada aos direitos sociais já provoca miséria e fome a milhões de proletários de nosso País.

Depois o autor vai entrar nas explicações que eu já li em Celso Furtado sobre os efeitos danosos da monocultura da cana de açúcar sobre o solo e áreas cultiváveis e a consequência maléfica da carestia de alimentos para o conjunto das populações no entorno, inclusive da casa-grande.

Mais adiante, o autor vai falar de supostas vantagens da miscigenação entre os brancos europeus e as mulheres que aqui estavam - índias e negras oriundas da escravidão.

No entanto, é importante o fato de Freyre desfazer o mito da "degeneração de raça" devido à miscigenação. Ele afirma que o problema na saúde dos povos miscigenados é a fome e a miséria.

Além da miséria e da fome, nos é lembrado também de uma herança negativa trazida pelo branco europeu: a sífilis.

"Salientam-se entre as consequências da hiponutrição a diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes; insuficiências tiróidea, hipofisária e gonadial provocadoras da velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia, não raro infecundidade. Exatamente os traços de vida estéril e de físico inferior que geralmente se associam às sub-raças: ao sangue maldito das chamadas 'raças inferiores'. Não se devem esquecer outras influências sociais que aqui se desenvolveram com o sistema patriarcal e escravocrata de colonização: a sífilis, por exemplo, responsável por tantos dos 'mulatos doentes' de que fala Roquete-Pinto e a que Ruediger Bilden atribui grande importância no estudo da formação brasileira" (Página 34)


Enfim, fica a reflexão aos amig@s leitores sobre discussões tão antigas a respeito da formação de nosso povo brasileiro.

Apesar de ser um cidadão atuante nas lutas por uma sociedade mais humana, justa e igualitária, não tem como negar a tristeza que temos sentido ao ver o grau de degradação por que passa nosso País após o golpe que ceifou a democracia e abalou as estruturas do Estado.

Conhecer nosso passado, refletir sobre ele e sobre o presente, analisando erros e acertos, é uma forma de alimentar nossa inteligência na busca por saídas alternativas ao marasmo em que nos colocamos no momento atual de crise institucional.

Abraços a tod@s,

William
Cidadão leitor

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Diário e reflexões - 240917



Flores osasquenses apreciadas durante
uma caminhada com a esposa.

Madrugada de segunda-feira. Acabou o domingo.

Lá vamos nós começar mais uma semana de lutas em nossa tarefa de gestor eleito da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Nossa vida não tem rotina, não tem refresco. O cenário em que atuamos é o mais dramático da saúde suplementar em décadas. Todos os dias enfrentamos ameaças aos direitos em saúde dos trabalhadores que representamos.

Há sinais de mais empecilhos internos na governança para dificultar o cumprimento de nossos objetivos em ampliar a cobertura do modelo assistencial da Cassi, baseado em Atenção Primária e Medicina de Família. Já não bastam as dificuldades que enfrentamos na missão de nossa autogestão porque a maior parte de nossos recursos são canalizados para pagar rede prestadora, que carrega em si todos os graves problemas brasileiros de serviços ruins, fraudes, judicialização e outras mazelas. Já fiz artigo neste domingo sobre a questão. Ler AQUI.

Não consegui ler muito neste fim de semana. Corri e caminhei no Parque Continental para ver se meu corpo resiste às tarefas que tenho pela frente. A longa semana de trabalho dormindo muito pouco me deixou bem quebrado. 

A felicidade ficou por conte de matar as saudades do filho querido, que estuda longe e nos vemos de vez em quando. Também revi grandes amigos neste fim de semana em São Paulo.

Estou com pouco tempo para trabalhar na revisão de textos em meus blogs de trabalho e de cultura. Ao reler, diagramar e imprimir para encadernar esse material, estou revendo textos e opiniões que registrei ao longo do tempo em nossa vida de lutas como representante da classe trabalhadora.

A destruição de nosso País e dos direitos do povo trabalhador após o Golpe de Estado em 2016 é tão grande e as incertezas tão angustiantes que é necessário termos muita clareza de que não há espaço para chorar ou se deprimir pelos cantos porque a luta que temos pela frente será de vida ou morte para a classe trabalhadora à qual pertencemos.

É isso! Registro feito. Vamos dormir.

William

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Leitura: A Quinta-Coluna (1938) - Ernest Hemingway


Hemingway escreveu esta peça estando em Madri
sob bombardeio dos fascistas de Franco.

Refeição Cultural

De pouco em pouco, vou conhecendo as obras do grande escritor americano Ernest Hemingway. Acabei a leitura da única peça de teatro feita por ele, em 1938, no auge da Guerra Civil Espanhola. E ele nos diz em que condições a escreveu: se encontrava no cenário da guerra, a cidade de Madri, que estava sob ataque das forças franquistas.

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"Todos os dias éramos bombardeados pelos canhões postados à retaguarda de Leganés, nos contrafortes das colinas de Garabitas, e o hotel Flórida, onde vivíamos e trabalhávamos, foi atingido por mais de trinta e oito projéteis de grande poder explosivo..." (Prefácio)
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Até o ano passado (2016), eu conhecia duas obras de Hemingway, que acabei relendo antes de começar as leituras de novos trabalhos: O velho e o mar (1952) e O sol também se levanta (1926). Neste ano, já li Adeus às armas (1929) e Por quem os sinos dobram (1940).

As postagens no Blog sobre Hemingway podem ser lidas clicando AQUI.

Muitas pessoas não sabem o que quer dizer "quinta-coluna". Eu conheci o significado quando entrei para o movimento sindical.

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"(...) A história conta que quatro colunas das forças golpistas avançaram sobre Madri e a mantiveram sob ataque. Havia, no entanto, uma força agindo dentro da cidade, transmitindo informações - indicando alvos para os bombardeios -, realizando atos de sabotagem e assassinatos. Era a chamada Quinta-Coluna, termo que passou a designar grupos ou indivíduos que atuam subrepticiamente, num país, ou num partido, a serviço de seus inimigos..." (Apresentação)
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Dias atrás, ouvi a expressão em uma declaração do Senador da República, Roberto Requião (PR), quando ele disse o que pensa do sujeito que preside a nossa Petrobras após o Golpe de Estado que o Brasil sofreu em 2016. O sujeito é um lesa-pátria e está destruindo a capacidade operacional e de investimento da empresa e está vendendo a preço vil nossas reservas de petróleo e o nosso patrimônio nacional. Requião diz que ele ou é um idiota ou um Quinta-Coluna, um infiltrado da CIA para entregar a nossa soberania nacional na área.

A edição que tenho, da Bertrand Brasil, traz dois textos de apresentação. Um de Ênio Silveira, o tradutor, e outro de Luiz Antonio Aguiar. O Prefácio do próprio Hemingway fala sobre o contexto em que ele escreveu a obra.

Guerra é guerra. Eu sempre disse minha opinião a respeito de preferir a valorização da Política em relação à guerra, para a solução das grandes questões das organizações sociais. A direita e os grandes donos do capital atuam para que a política seja enfraquecida e para que o povo seja alienado politicamente, de maneira que seja mais fácil a operação de manipulação das massas através dos aparelhos ideológicos de comunicação e cultura.

Hemingway nos lembra, em seu prefácio, da violência existente no contexto de guerra, de não-política.

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"As forças inimigas que avançavam sobre Madri não tinham o hábito de poupar seus prisioneiros. Da mesma forma, os membros da quinta-coluna que fossem apanhados dentro da cidade nas semanas iniciais da Guerra Civil eram também eliminados sumariamente. Com o correr do tempo, passaram a ser submetidos à Justiça e condenados a trabalhos forçados ou à morte, dependendo da gravidade dos crimes que houvessem cometido contra a República. Nos primeiros dias, entretanto, eram sempre fuzilados. Mereciam isso, pelas regras de luta, e por certo o esperavam." (Hemingway)
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Enfim, tenho me identificado muito com as obras deste grande autor do século 20. A leitura é recomendável para os amantes da literatura universal.

Abraços aos amig@s leitores.

William

domingo, 10 de setembro de 2017

Diário e reflexões - 100917 (autogestões de trabalhadores)



Instante crepuscular na
Capital do Brasil.

Refeição Cultural

Domingo de muito calor em Brasília, Capital do Brasil.

Senti um cansaço físico intenso neste feriado nacional de 7 de setembro. Meu corpo acaba reagindo às vezes às tristezas d'alma ao ver o que fizeram com o meu País, com o nosso povo trabalhador. Nem atividades físicas tive ânimo para fazer nestes dias.

Pensei em ler várias coisas, e acabei me direcionando para outras. Quando quero descansar de minhas lutas, de minhas tarefas como dirigente político, me pego estudando mais ainda a respeito do que fazemos, do que somos. É nossa natureza.

Estou lendo dois livros que têm relação com o meu trabalho político de defesa e fortalecimento da autogestão em saúde que administro como eleito pelos trabalhadores associados, a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, que já tem 73 anos de história de auto-organização em saúde e assistência social. 

Um dos livros é sobre a história de constituição e sucesso da Caixa de Assistência dos Servidores do Estado do Mato Grosso do Sul, a Cassems, que completou 15 anos em 2016, e nasceu sob a administração do Governador Zeca do PT, inspirada na experiência de nossa Cassi, que já era no início dos anos dois mil uma das experiências mais exitosas de autogestão em saúde do País. 

Os debates com os servidores foram muito intensos e difíceis porque parte deles, os que tinham alta remuneração salarial - "primos ricos" -, não queriam criar a autogestão, e graças ao empenho das maiorias e o desejo político da época, a Cassems se constituiu e o trabalho de pertencimento feito por ela ganhou a confiança dos servidores do Estado.

O livro tem umas 200 páginas e estou focado na leitura porque todo conhecimento que eu puder acumular na área em que atuo será importante para contribuir na luta árdua que teremos no contexto atual em salvar o sistema de autogestão em saúde, sistema que congrega cerca de 5 milhões de participantes em nosso querido Brasil e que não concorre com o SUS, porque se auto-financia com alguns incentivos fiscais e não visa lucro. Sobre a nossa autogestão, a Cassi, já venho estudando a sua história nesses últimos três anos em que sou gestor eleito.

O outro livro que peguei para ler, quase que por acaso, ao ver as minhas pilhas de livros em Osasco dias atrás, foi o Perestroika (1987), de Mikhail Gorbachev. Eu sou desconhecedor de muita coisa e não tenho vergonha em reconhecer isso. O que conheci de obras clássicas de várias áreas do conhecimento e de história estudando e lendo na última década, ou seja, quase dos quarenta anos adiante, já me mudou completamente. Por mais que goste de história, acho que conheço muito pouco sobre a maior experiência socialista que o mundo conheceu, a União Soviética.


Dois livros, 500 páginas, retratando histórias de
auto-gestões dos próprios trabalhadores.

Já li 100 páginas do livro de Gorbachev e o mais interessante é que o tempo de enunciação da narrativa é o ano de 1987. Ou seja, ele, o Secretário Geral do PCUS, a partir de 1985, fala ao seu povo e ao mundo, e percebe-se que fala aos Estados Unidos, fala sobre os projetos de reestruturação do socialismo soviético, e fala de mais democracia, transparência e participação popular nas decisões, após o Partido Comunista concluir que medidas precisavam ser tomadas para corrigir os problemas que eles identificavam em seu sistema.

Percebo nas palavras de Gorbachev uma sinceridade nas intenções do alto comando soviético em realizar mudanças que atendessem aos anseios do povo, porque os problemas identificados pelo Governo abordavam a carência de coisas básicas do dia a dia, uma atenção maior nas pessoas (além dos objetivos coletivos do Estado), uma necessidade premente de maior participação popular nas decisões dos rumos do país, e problemas sérios na economia dos anos setenta e oitenta. 

Como dirigente político que sou há mais de duas décadas, estou reconhecendo perfeitamente o diagnóstico feito pelo alto comando do Partido Comunista naquilo que a Perestroika (Reestruturação) gostaria de corrigir para ampliar o pertencimento do povo russo ao seu sistema de auto-administração e auto-determinação na gestão de um país. Vimos que a experiência soviética acabou pouco tempo depois.

O modelo de exploração capitalista vem se impondo ao mundo mesmo com suas crises, como a mais recente em 2008. Algumas corporações e poucas famílias (menos de 1%) dominam tudo no mundo, independente de país, língua, cultura, região do globo. O que parte de nós temos claro é que esse sistema não é o mais adequado para melhorar as condições de vida de todos no planeta e está destruindo as possibilidades de vida neste único ponto em nosso sistema solar capaz de abrigar vida como a nossa.

Enfim, acaba que tudo que leio e releio e reflito tem relação com o que faço, que é organizar trabalhadores para lutarem eles próprios por seus destinos, se auto-organizarem. A experiência de minha tarefa atual, defender a autogestão em saúde dos trabalhadores do maior banco público do Brasil, já me trouxe um acúmulo de conhecimento que nunca imaginei ter. E tenho a convicção que eu e nossa equipe demos contribuições vitais para superar uma das fases mais difíceis da história da autogestão Cassi e da saúde suplementar brasileira.

Abraços aos amig@s leitores,

William

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Os Incompreendidos (1959) - François Truffaut





Refeição Cultural

O filme que lançou o jovem Truffaut para uma longa carreira de sucesso como diretor de cinema do movimento que viria a ser chamado de Nouvelle Vague - Nova Onda - me tocou ao assisti-lo hoje. O encarte que tenho diz que o diretor fez 26 filmes. Entre eles está um que assisti faz tempo e gostei da adaptação: "Farenheit 451" (1966), do clássico homônimo de Ray Bradbury (ler comentário AQUI).

Por mais que os contextos tenham mudado dos anos cinquenta para o nosso mundo de hoje no século XXI, em relação aos tipos de violência contra as crianças e adolescentes, a arte desses filmes antigos nos toca.

Os filmes são mais autorais, numa época em que o cinema era só o diretor, os atores e seus personagens, o trabalho de câmera, música e fotografia, e os cenários reais, enfim, esses filmes nos tocam de maneira mais profunda que muitos dos filmes modernos feitos em animação de computador. Esta é minha opinião.

SINOPSE

Ninguém entende Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud). Em casa, ele é repreendido pelos pais. Na escola, causa problemas aos professores. A delinquência torna-se uma alternativa para o garoto. "Os incompreendidos" simboliza a desobediência às regras pregada pelo diretor francês François Truffaut (1932-1984) e seus amigos críticos de cinema. Este drama autobiográfico, feito nas ruas e longe das técnicas de estúdio, trouxe uma lufada de poesia para o cinema. Ao captar a energia rebelde da vida, o filme inaugurou a onda de modernidade da Nouvelle Vague. (Coleção Folha Cine Europeu)


Acho encantadores esses filmes em preto e branco. A fotografia e as expressões dos atores são memoráveis. 

Tem uma cena muito legal em que um grupo de crianças assiste a uma peça de teatro - Chapeuzinho Vermelho - e a câmera fica focando as expressões de cada uma delas, com medo, com espanto, torcendo para a vovozinha e a garotinha. É incrível a captura dos instantes de cada uma das crianças.

O sofrimento da personagem, uma criança enfrentando a vida sem ser amada, nos deixa com um aperto no coração. Ao mesmo tempo, não há uma vitimização da criança porque ela é destemida, arrojada e enfrenta as dificuldades apesar de seus pouco mais de 12 ou 13 anos. Em nenhum momento sentimos nela uma entrega, uma pusilanimidade perante os problemas de sua jovem vida. Me parece que hoje boa parte de nós tem menos resiliência para enfrentar de cabeça erguida os problemas do existir.

Com esse clássico do cinema europeu, completei neste ano 3 filmes de uma coleção de 25 que adquiri anos atrás e nunca parei para assistir todos eles. Já vi semanas atrás Mamãe faz cem anos (1979), do espanhol Carlos Saura (ler comentário AQUI), e O Encouraçado Potemkin (1925), do soviético Sergei Eisenstein (ler comentário AQUI).

Adquirir filmes ou clássicos remasterizados ou antes fora de circulação são das raras coisas que se aproveitam desses lixos empresariais de comunicação no Brasil, como a Folha "Ditabranda". Os filmes vieram acompanhados de dezenas de páginas de textos informativos sobre os diretores, atores e as obras em si.

É isso. Este filme de François Truffaut me fez conhecer mais sobre o diretor e o filme é marcante.

Abraços aos amig@s leitores,

William

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Artigo: Inexorável dependência - Mino Carta


Grito dos Excluídos DF 2017.


Apresentação do Blog

Os artigos do jornalista Mino Carta são sempre edificantes. Suas palavras representam via de regra o que eu sinto e penso. 

Amig@s leitores, se gostam de revistas semanais, assinem a CartaCapital, pois não tem sido fácil este jornalismo autêntico sobreviver economicamente. Assinei mesmo não tendo muito tempo para ler.

Fui ao Grito dos Excluídos do DF hoje de manhã. Aqui não há tradição de grandes participações. Vi que em São Paulo mais de 10 mil pessoas participaram do Grito de lá. Que legal!

Apesar do pessimismo da razão, nada tira de mim o otimismo da ação, da reação, da resistência; do imponderável que pode vir do povo a qualquer momento.

Abraços,

William

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A contribuição de François-René Moreaux à iconografia oficial:
depois do Grito, o príncipe é recebido em São Paulo.
Verdade histórica: o povo nem se deu conta da Independência.

Inexorável Dependência


Por Mino Carta — publicado 04/09/2017

As quadrilhas no poder confirmam o país na condição de colônia. Mas o enredo poderia ser diferente?


Há tempo, meus botões, iconoclastas à beira do sacrilégio, sustentam que nem tudo nos cardápios da Marquesa de Santos ostentava perfeitas condições de consumo. Eventuais indagações a respeito parecem despidas de sentido. Ocorre, entretanto, que um mexilhão estragado, digamos, poderia ter exercido notável influência sobre o Grito.

Sabe-se que Dom Pedro vinha de Santos depois de almoçar com a amante e, ao subir a serra no caminho de São Paulo, deu para experimentar os dissabores da digestão penosa, com consequências abaixo do umbigo.

Nas alturas do Ipiranga, próximas da cidade, um renque de bananeiras cuidou de lhe oferecer abrigo para o cumprimento da operação inevitável, embora nem sempre definitiva, em tais ocasiões. E das sombras o príncipe finalmente emergiu para proclamar a Independência.

Em paz com as entranhas, ou ainda a sofrer do aperto inconcluso? Gritou, segundo as páginas amarelecidas, "Independência ou morte!". A ser verdade factual a frase que a história coloca na boca do príncipe, ela ganha o som da irritação.

Por que propor uma alternativa tão drástica? A palavra morte ali não se justifica, mesmo se em jogo estava uma imponente briga familiar que o opunha ao pai Dom João VI. Sobra a hipótese de que a parada forçada debaixo das bananeiras tivesse sido insatisfatória.

Como se sabe, a retórica oficial no Brasil se esbalda. Claro está que nosso herói não montava o cavalo de Napoleão, como pretende o pintor francês François-René Moreaux ao retratá-lo na chegada a São Paulo. Na opinião dos meus botões, tratava-se de um muar. Na tela, o povo festeja o gesto do seu príncipe, a mostrar consciência de um triunfo há tempo almejado. No meio da festa, enxergo, oh! surpresa, um rosto talvez mulato.

No caso, a verdade factual obviamente é outra. Metade da população era de escravos, e quem não era só com o passar dos meses foi obrigado a dar-se conta da mudança, pela qual, teoricamente, o Brasil deixava de ser colônia. Não demoraria muito para tornar-se súdito do império britânico em lugar do português. Demoraria a Abolição, de fato ainda não extinta até hoje no país da casa-grande e da senzala.

Nesta moldura, figuras como Joaquim Nabuco, Machado de Assis, o Barão de Mauá e Castro Alves são empolgantes exceções. A Editora Hedra tomou a feliz iniciativa de publicar um precioso livrinho, intitulado Alencar – Cartas a Favor da Escravidão.

O autor de Iracema, a virgem índia dos lábios de mel, gostava dos românticos franceses, logorreicos e empolados, e era dado ao culto de uma Idade Média habitada por fadas e ogros. Verificamos agora que José de Alencar pode ser incluído entre os pais fundadores da República do Estado de Exceção, juntamente, entre outros, com os inquisidores do auto de fé em andamento.

Segundo Alencar, radioso seria o futuro dos Estados Unidos e Brasil escravocratas exatamente em função da presença no trabalho deste braço forte e cativo. A tese hiperbólica do escritor, fervoroso leitor de Atala, de Chateaubriand, fábula inspiradora de Iracema, é simples, conforme resume o autor do prefácio do livro da Hedra, Tâmis Parron: “Ao contrário da Antiguidade, os povos bárbaros não mais conquistam os instruídos”.

Resultado: agora, ou seja, segunda metade do século XIX, a civilização captura incultos e os põe a trabalhar com o efeito de “moralizá-los” no mais longo prazo possível. O escravo deveria elevar preces de agradecimento aos seus deuses e é certo que três séculos e meio de escravidão não bastam, longe disso, para o bom êxito da operação de “moralização”.

Alencar não conseguia imaginar o Brasil desgovernado por uma malta de desinstruídos predadores, com raras exceções, Getúlio e Lula, mais, um tanto de raspão, JK.

Alcançaram a grandeza os EUA, poderoso “irmão do Norte”, como outrora se lia nos editoriais do Estadão, pela interferência de novas forças civilizadoras, chegadas em sólidos barcos de passageiros, embora as feiticeiras de Salem retornem, imunes à fogueira, com novos nomes e semblantes.

Enquanto por aqui a casa-grande e a senzala continuam de pé. De fato, os predadores nunca se expuseram de forma tão prepotente em todos os meus 71 anos de Brasil.

O impeachment de Dilma Rousseff, com panelaços e idiotas nas ruas de uniforme canarinho, é o início da debacle conclusiva, a levar ao Estado de Exceção, ou seja, ao atoleiro em que afundamos, como diz Marcos Coimbra na sua coluna desta semana (em CartaCapital).

Não se trata de defender o governo da presidenta, que, aliás, mereceu críticas muito severas de CartaCapital, ou o PT, que no poder se portou como os demais clubes recreativos a ornar a política nativa, e não foi capaz de enfrentar a manobra golpista.

A cultura da escravidão ensina que o bom combate acontece na proporção de 50 contra 1. É a história da Guerrilha do Araguaia, empolgante pela coragem dos 80 moços que enfrentaram 10 mil soldados, mas, ao mesmo tempo, patética.

Os bravos são raros, em geral não somos de briga, a não ser que o adversário esteja em grande minoria ou careça dos meios para se defender. Mestre no assunto, o Duque de Caxias, exuberante figura da nossa interminável galeria de falsos heróis.

De exceção em exceção, as máfias no poder fazem o que bem entendem, em um país que não se fez nação. As ofensas à lei e à razão multiplicam-se ao sabor dos interesses imediatos das quadrilhas, para nos transformar em um Estado medieval e insignificante, colônia exportadora de commodities e de terra vendida, na superfície e no subsolo, a preço de liquidação.

A saída correta teria sido a convocação de eleições antecipadas. Mas como chegar a tanto se os poderes da República obedecem aos capi? Outra saída estaria na revolta popular, forte o bastante para tomar a casa-grande, mas cadê os sans-culottes? CartaCapital reconhece em Lula o único autêntico líder nacional. Mas, se o PT não existe sem seu fundador, o contrário é perfeitamente possível. Lula tem o povo e o PT é dispensável.

Se Lula for preso, conforme prevê a principal exceção deflagrada pelo golpe, a eleição de 2018, desde que se realize, não deixará de ser uma farsa trágica. Recomenda-se preparar os corações para dias ainda mais sombrios. Na próxima semana celebra-se o Dia da Independência 195 anos depois, o dia do tão falado grito que Dom Pedro liberou ao sair detrás das bananeiras. Já então era falácia.

O êxito golpista nos devolve imperiosamente aos tempos da colônia e a verdadeira festa é a da dependência. Só cabe lamentar, diante de uma situação que não vislumbra qualquer gênero eficaz de resistência.

Lamentamos também que alguns personagens dotados de respeitável inteligência, felizmente poucos, se façam de cegos, quando não apoiam o descalabro. É algo que me agasta e amargura entre o fígado e a alma.

Fonte: Carta Capital


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Diário e reflexões - 040917 (amor e pertencimento)




Refeição Cultural

Hoje é aniversário de minha querida mãe, Dirce Mendes, que completa 71 anos de idade.

Estava neste instante em meu computador, lendo uma pauta com itens extremamente complexos para serem apreciados e deliberados amanhã na reunião da Diretoria Executiva da Cassi, quando me lembrei de parar e postar um texto a respeito dessa pessoa maravilhosa e referência em minha vida.

Semana passada postei um texto (ler AQUI) em homenagem ao meu querido pai, que completou 75 anos de idade no dia 30 de agosto. Minha mãe e meu pai são referências e bases sólidas daquilo que me transformei como pessoa e cidadão do mundo.

Tenho muito que agradecer à minha mãe por ter sido aquela que me freou nos impulsos dos momentos de maior raiva do mundo por não aceitar as injustiças que vi e vivi desde a tenra adolescência. 

Se de meu pai herdei a atitude de não aceitar coisas erradas contra os mais humildes, de minha mãe herdei a paciência e a tolerância de não explodir por qualquer motivo, podendo fazer algo que não tivesse retorno das consequências.

Hoje, como pai que vive distante do filho adolescente, fico imaginando o que sofreu o coração desta mãe ao ver o filho sair de casa com menos de 18 anos em uma época em que a comunicação era tão rara e escassa. 

O que sofremos com a preocupação e as inconstâncias da vida de nosso jovem filho buscando se estabelecer no mundo, mesmo tendo comunicação instantânea, me faz pensar como coração de mãe ao longo da história da humanidade aguenta tamanha dor da distância e da espera de notícias, até das imponderáveis.

Mãe, te amo muito e a senhora segue sendo um freio para mim, mesmo tendo eu quase meio século de existência. 

Ter uma família tão querida como eu tenho, contribui na minha paciência e tolerância nas guerras que enfrento como um militante social da classe trabalhadora em frentes de batalha cada dia mais duras contra os desgraçados que avançam destruindo o povo e o mundo que represento.

Obrigado por tudo, mãezinha, e vida longa pra senhora.

William

domingo, 3 de setembro de 2017

Casa-grande & Senzala - Leitura do 1º Capítulo





Refeitório Cultural

Não foi fácil terminar o primeiro capítulo do ensaio de Gilberto Freyre (de 1933). Além de ser uma leitura lenta, complexa, eu fui metódico e li todas as notas ao final do capítulo. Para se ter uma ideia sobre a importância das notas e referências, enquanto o capítulo teve 53 páginas, as notas ocuparam 28, sendo a letra destas minúscula.

Com o Prefácio à 1ª Edição, do próprio Freyre, já tinha se dado o mesmo: foram 25 páginas de explicações sobre a obra e várias notas em 10 páginas.

Apesar da leitura cansativa, e eu só posso me dedicar a estudos assim em finais de semana, eu já acrescentei em minhas reflexões visões novas e interessantes em relação ao pensamento a respeito da formação do Brasil e do povo brasileiro. A questão da má alimentação e da fome do brasileiro ao longo dos séculos, eu já havia lido em Celso Furtado - Formação Econômica do Brasil (1959), mais na forma de comentário que de aprofundamento. Clique AQUI para postagens sobre Celso Furtado.

No entanto, ao ler a obra neste momento, no Brasil do século 21, no pós Golpe de Estado em 2016, e vendo a destruição de nosso País e do patrimônio público e dos direitos do povo, a leitura ganha uma importância maior, eu diria de resistência ao torpor em que o povo foi colocado e segue sendo mantido pelos meios empresarias de manipulação de massa.

O capítulo primeiro se chama "Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida". Me lembrei de toda a obra de Machado de Assis, onde o locus era exatamente esse no século 19. Clique AQUI para postagens sobre Machado de Assis.

Se eu tivesse fôlego, faria uma longa postagem com várias passagens que achei interessantes, mas tenho pouco tempo para isso. Fica a sugestão de leitura aos nossos amig@s leitores.


UM PAÍS DE SENHORES E ESCRAVOS

A conclusão a que chega Gilberto Freyre ao final do capítulo segue bem atual: somos um país de senhores e escravos.

"Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, como já salientamos às primeiras páginas deste ensaio, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo". (pág. 116)


MÁ ALIMENTAÇÃO, POR CAUSA DA MONOCULTURA DO AÇÚCAR, E SÍFILIS ("OS MALES DO BRASIL SÃO", PARAFRASEANDO MACUNAÍMA)

Na questão da colonização portuguesa e na ocupação exploradora de grandes espaços geográficos como foi o nosso caso, eu ainda não tinha ouvido falar, de forma tão contundente, em uma explicação que desviasse do lugar-comum pejorativo ao achincalhar o povo brasileiro por causa de sua característica miscigenação. Freyre diz que dois fatores que prejudicaram muito o povo que surgia da colonização foram a fome e a má alimentação, por causa da monocultura do açúcar, e a sífilis, trazida pelos europeus desde o início do século 16.

"Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas: o Brasil, entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado..." (pág. 110)

"Sob o ponto de vista da miscigenação foram aqueles povoadores à toa que prepararam o campo para o único processo de colonização que teria sido possível no Brasil: o da formação, pela poligamia - já que era escasso o número de europeus - de uma sociedade híbrida..." (pág. 110)

"A sifilização do Brasil resultou, ao que parece, dos primeiros encontros, alguns fortuitos, de praia, de europeus com índias. Não só de portugueses como de franceses e espanhóis. Mas principalmente de portugueses e franceses. Degredados, cristãos-novos, traficantes normandos de madeira de tinta que aqui ficavam, deixados pelos seus para irem se acamaradando com os indígenas; e que acabavam muitas vezes tomando gosto pela vida desregrada no meio de mulher fácil e à sombra de cajueiros e araçazeiros..." (pág. 111)


Enfim, como disse a vocês, gostaria de fazer várias citações, em relação à questão da fome e da má alimentação, tanto entre os escravos quanto na casa-grande, por não haver opções de alimento. É lógico que muito pior a condição na senzala.

Também tem explicações e teses sobre o porquê do Brasil não se separar em diversos países como foi no caso da América espanhola.

Meu desejo é voltar em outras postagens ainda sobre o prefácio e sobre o capítulo um, antes de continuar a leitura do livro.

Clique AQUI e leia postagem anterior sobre o livro, onde comento uma introdução feita por FHC em 2003. E clique AQUI para a primeira postagem sobre o livro.

Abraços aos leitores!

William