sábado, 26 de maio de 2018

Não se deve condenar um inocente




Assisti novamente ao filme "12 homens e uma sentença", na versão de 1957 com Henry Fonda. Tenho me manifestado pouco publicamente, em face dos acontecimentos em que temos vivido nestes tempos difíceis. Mas quis dizer aos amigos leitores do blog que este filme é necessário nos tempos que correm.

Assisti ao filme em prantos. Na minha opinião, o filme "12 angry men" é um dos filmes mais indicados do mundo para levar cada telespectador à reflexão sobre justiça, igualdade de condições, sobre intolerância, sobre preconceitos e pré-julgamentos, sobre questionamentos às conclusões fáceis, sobre a responsabilidade de se condenar indevidamente uma pessoa, um ser humano.

O respeito aos direitos de uma pessoa, em qualquer condição que ela se encontre, seja ela do topo da pirâmide social, seja ela da base da pirâmide, tenha ela as opiniões que tiver sobre diversos temas, situe-se ela onde achar melhor no espectro político, enfim, cada um de nós é um ser humano, é uma história de vida, é uma possibilidade de presente e futuro.

Um garoto está no banco dos réus, acusado de ter assassinado o pai. Após os seis dias de julgamento no juri popular, doze homens devem se reunir numa sala e decidir se ele é culpado ou inocente. Como se trata da vida do rapaz, que pode ser absolvido ou condenado à cadeira elétrica, o juiz avisa que a decisão deve ser unânime, e que ele deve ser inocentado se houver dúvida razoável, e condenado se todos tiverem certeza de sua culpa.

Senti a necessidade de rever esse filme ao acordar neste sábado. Julgamentos e acusações, e condenações, viraram a tônica dos momentos que vivemos no Brasil. Pesos e medidas diferentes para casos semelhantes em avaliação também marcam os duros tempos. E isso está ocorrendo nos espaços públicos e privados, os tempos são de julgamentos, de condenações, de caça às bruxas, de destruição de reputações. De arbítrios.

Nós não podemos esmorecer, desanimar com toda essa crise ética e de valores que ronda nossos espaços sociais. Temos que acreditar no ser humano, na força da verdade, e lutar para que prevaleça o respeito e a justiça para todas as pessoas, todas. Se uma sociedade não acreditar mais na justiça e na solução pacífica das controvérsias, ela toda, a sociedade, irá ruir para o caos e todos perderão, independente do locus onde estejam.

Eu estou me esforçando para acreditar que é possível encontrar justiça nos homens e nas coisas dos homens. Fica difícil viver em sociedade se não acreditarmos na justiça, nas pessoas que decidem sobre a vida dos outros o tempo todo.

William (cidadão, bancário)

domingo, 13 de maio de 2018

Constatações instantâneas do Brasil





O Presidente Lula está preso.
O Paulo Preto está solto.
O Alckmin está solto.
O Serra está solto.
Aécio está solto.

A Presidenta Dilma foi impedida.
O presidente Temer refez o Brasil.
O Parente é presidente da Petrobras.

O Moro é um juiz do Brasil.
A Cármen é uma juíza do Brasil.
A Globo é uma organização do Brasil.
A Abril é uma editora do Brasil.
O Itaú é um banco do Brasil.

A Folha disse que a ditadura foi branda no Brasil.
Vários generais foram 'presidentes' do Brasil.
Presidentes autorizavam matar no Brasil.

O Vargas está morto.
O Juscelino está morto.
João Goulart está morto.

O Brasil é o país do futebol.
O Brasil é o país do Carnaval.
O Brasil é o país da Floresta Amazônica.

(O Brasil era o país do pré-sal)

O país da casa-grande.
O país das senzalas, morros, favelas.
Lula está preso: a jato.

E o povo brasileiro?
Quede o povo brasileiro?
Existe o povo brasileiro?
Brasil? Brasileiro?
?

Tem hora que dá vontade de...
Desistir?

domingo, 29 de abril de 2018

Diário e reflexões - 290418 (Há que se ter esperança e solidariedade para lutar pelo justo)


Almoço no acampamento Marisa Letícia, em solidariedade ao
presidente Lula, preso político do Estado de Exceção pós golpe.

Refeição Cultural

O mês de abril está terminando. Os tempos para mim são de mudanças.

Ao mesmo tempo em que estou sem nenhuma vontade de falar ou escrever, sinto uma obrigação de falar e de escrever. Dar testemunho, deixar registros dessa época, desse momento de nossa vida, que é pessoal e coletiva. Por isso escrevo neste blog há mais de uma década.

Estou muito decepcionado com o nosso mundo, com o locus onde vivemos como cidadão. Estou trabalhando meu eu interior para uma mudança radical de vida em poucas semanas. Vou me reinventar após quase duas décadas de envolvimento com o movimento sindical e social.

Mas diferente de décadas atrás, minha decepção com o mundo é diferente. Não é totalizadora, não me leva à depressão. Não me leva à desistência de nada. Hoje tenho uma estrutura psicológica mais preparada que no passado. Prezo por mim, sei meu valor e sei de minhas responsabilidades sociais. Por isso vou me reinventar, porque é preciso.

A vida simplesmente é e temos que fazer o que precisa ser feito. Isso vale até para nós mesmos e nossas obrigações com a sobrevivência. Tenho sonhos diversos, e energia interior para novos projetos. E sempre estarei fazendo o bem para a sociedade que habito.

Por duas décadas ajudei a construir a maior central sindical do país, a CUT. Contribuí para organizar uma das categorias mais relevantes da classe trabalhadora brasileira, a bancária. Nela, participei de mais de duas décadas de lutas dos bancários do BB, o maior e mais antigo banco público brasileiro.

Ainda lembrando os mais de vinte anos de história de lutas coletivas, também deixei minhas contribuições em uma das correntes políticas do campo sindical cutista que ajudaram a definir os rumos dos direitos dos trabalhadores brasileiros, a Articulação Sindical.

Agora encerro uma participação na história da maior autogestão em saúde do país, a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Foi um dos mandatos mais desafiadores de minha vida de representação. Temos a convicção e a tranquilidade de consciência que construímos a unidade nacional, fortalecemos o modelo assistencial e a participação social. Mantivemos todos os direitos dos associados no período.

Meu querido país Brasil, e eu amo meu país, está sendo desfeito, dizimado pelos golpistas que rasgaram a Constituição Cidadã de 1988, conquista do período posterior à ditadura civil-militar dos anos sessenta a oitenta. Estão desfazendo o patrimônio público. Os direitos históricos do povo. Na construção do golpe, como ferramenta do processo de manipulação de massas, estimularam o ódio, a intolerância e abriram a Caixa de Pandora. Poucos empresários da comunicação mandam no país, nos poderes instituídos.


"República de Curitiba": no fim da rua, o líder brasileiro e mundial
Luiz Inácio Lula da Silva está preso sem crime, numa masmorra ao
molde dos séculos passados, na volta da idade média no século 21.

Nesta semana, quando cumpri agenda de trabalho em Curitiba, senti um aperto no coração e precisava visitar o acampamento da resistência, constituído pelo povo brasileiro, para prestar solidariedade a Lula e lutar contra o absurdo da prisão política da maior figura da história recente do Brasil. O que estão fazendo com ele, encarcerado numa masmorra sem direito a visitas, mostra o momento de degeneração política, social e humana em que nos colocaram pós-golpe de 2016.

O Brasil virou uma coisa, uma terra sem lei, um local onde impera o arbítrio dos poucos poderosos e seus lacaios modernos que tomaram os espaços de poder estatal. Virou a terra de uma casta sem moral, sem ética e sem vergonha, que barbariza contra o povo, contra as massas, contra os trabalhadores e seus líderes e organizações. 

Cada um de nós, duzentos milhões de joões, está a mercê do arbítrio do poder e de processos injustos, estranhos, que não ocorreriam num Estado Democrático de Direito. Eu mesmo estou sendo vítima de processo político por ter dado o melhor de mim na defesa da entidade de saúde que geri. E nossa contribuição foi importante para a entidade no período mais difícil de sua história.

É isso. Apesar de muita coisa a dizer sobre vários acontecimentos desse momento bárbaro por que passa nosso país, chega por hoje.

Abraços aos leitores amig@s, e tenham energia e esperança. Não podemos desistir da solidariedade, da justiça, da igualdade, da liberdade, da tolerância entre os povos, da democracia e da política como solução pacífica das controvérsias, da distribuição de rendas e de um mundo mais inclusivo.

Mais uma reflexão: não podemos pactuar com o fascismo, com a violência contra o povo, contra os mais fracos. O estímulo ao fascismo já chegou aos atentados contra nós do campo da esquerda. Estão matando nosso povo. Não é justo nem admissível fatiar um país como o nosso para umas milhares de famílias, uma pequena casta, menos de 1%, e deixar à mercê da miséria total mais de duzentos milhões de brasileiros.

Pensem nisso!

William

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Diário e reflexões - 190418




Quinta-feira, fim de noite. Estou em Osasco (SP) a trabalho.

Nesta sexta-feira pela manhã participarei de mais uma apresentação para os associados da Cassi sobre o Relatório Anual 2017. A Cassi é a entidade de saúde dos funcionários do Banco do Brasil, gerida até o momento de forma paritária entre patrão e trabalhadores. A Diretoria Executiva está fazendo uma série de apresentações em seis capitais com o intuito de dar mais conhecimento aos participantes sobre a realidade da autogestão.

Começamos as apresentações em Brasília (DF) nos dias 17 e 18 e hoje estivemos com os associados em Belo Horizonte (MG). Após o contato com os participantes paulistas nesta sexta 20, iremos na próxima semana a Salvador (23), Curitiba (25) e Rio de Janeiro (26). Vim no voo lendo a história de Nelson Mandela e do povo negro sul-africano na "Longa Caminhada até a Liberdade", história contada por ele mesmo (um livro-tijolo, pelo tamanho). Por mais cansaço e sono que eu esteja sentindo, preciso muito ler nestes tempos histórias que nos inspirem a suportar a injustiça e persistir nas lutas, como a do próprio Lula, que já nos contém.

Estou terminando meu mandato eletivo na Caixa de Assistência no próximo mês. Foi o período mais intenso de minha vida de lutas e representações da classe trabalhadora. Foram 4 anos em que aproveitamos toda a nossa experiência na organização de lutas e negociações entre capital versus trabalho para não deixar as teses contrárias aos direitos dos associados prevalecerem na autogestão em saúde, 4 anos mantendo todos os direitos dos associados no cenário de crise mais dramático da história da entidade e do setor de saúde. 

Somando todos os mandatos eletivos, foram 16 anos exercendo o papel de representante dos trabalhadores. A hora é de finalizar uma longa etapa de vida pessoal e coletiva e pensar o amanhã. O amanhã neste mundo cão que se apresenta a nós povo e classe trabalhadora.

A transição para a mudança radical de vida em algumas semanas poderia ser mais simples do que está sendo. O "poderia" é uma espécie de utopia porque a vida de um representante das lutas da classe trabalhadora nunca foi simples, nem será. Um militante social coloca toda a sua vida pessoal em função das lutas coletivas, e o retorno à condição anterior depois de tantos anos não é nada simples. Fica mais complexo ainda, quando o contexto se passa no Estado de Exceção em que se encontra o Brasil, o nosso país e o nosso mundo da classe trabalhadora.

Nessas semanas que correm foi preciso buscar toda a frieza e serenidade que aprendi em quase 20 anos de enfrentamento das injustiças a que estão expostos os cidadãos e povo trabalhador ao qual eu mesmo pertenço para lidar com uma questão ignóbil, inominável, absurda, que visa prejudicar uma pessoa honesta, ética e que dedicou a vida para as lutas por um mundo mais justo e solidário, principalmente para a categoria profissional a qual pertence.

Mas se o contexto histórico por que passa o Brasil é o da inversão de valores, é o das violências várias, porque toda injustiça e iniquidade é uma violência contra a sociedade humana; se é o contexto que não tem pudor em prender sem crime a maior liderança do povo brasileiro, o homem que mais olhou para o povo na condição de Presidente na história do país, enfim, se a condição em que estamos é essa nesses tempos sombrios, qual não seria o efeito dessa ignomínia com os representantes dos trabalhadores em todos os espaços humanos, sociais e institucionais de nosso mundo Brasil?

Há que se ter força e serenidade para enfrentar as coisas indignas que estão fazendo contra o povo e suas lideranças. Minhas referências de vida são as maiores lideranças progressistas que os humanos já tiveram. Isso nos fortalece! Eu, do meu tamanho comum, olho os grandes para tê-los como exemplo de que sofreram muito mais do que gente como nós, e vemos que devemos todos resistir. Eles passarão, eu passarinho...

William

domingo, 8 de abril de 2018

Longa caminhada até a liberdade, do povo sul-africano e dos brasileiros



Líderes e biografias que nos inspiram a lutar
pela liberdade do povo.

Refeição Cultural

     "Quando recebi meu banimento, a conferência do Transvaal do CNA seria realizada no mês seguinte, e eu já havia terminado o rascunho do meu discurso presidencial. Ele foi lido para os participantes da conferência por Andrew Kunene, membro da executiva. Nesse discurso, que subsequentemente tornou-se conhecido como "A Caminhada Difícil para a Liberdade", uma frase, retirada de Jawaharlal Nehru, dizia que as massas tinham que ficar preparadas para novas formas de luta política. As novas leis e táticas do governo tornaram as antigas formas de protesto de massas - reuniões públicas, declarações à imprensa, ficar em casa - extremamente perigosas e autodestrutivas (...) 'Esses desdobramentos', escrevi, 'exigem o desenvolvimento de uma nova forma de luta política. Os velhos métodos', eu disse, eram agora 'suicidas'.
     'O povo oprimido e os opressores estão em desavença. O dia do ajuste de contas entre as forças da liberdade e as reacionárias não está muito distante. Não tenho a menor dúvida de que quando esse dia chegar a verdade e a justiça prevalecerão... Os sentimentos do povo oprimido nunca foram tão amargos. A situação extremamente difícil do povo o obriga a resistir até a morte contra as políticas nojentas dos gângsteres que dominam o nosso país. A derrubada da opressão tem sido aprovada pela humanidade e é a aspiração mais alta de todos os homens livres" (pág. 201, Longa Caminhada até a Liberdade", Nelson Mandela)


Não estou com muito ânimo para escrever em face dos últimos acontecimentos. No entanto, ter um blog me fez ter uma disciplina intelectual importante na última década. Há que se escrever, que refletir, que estudar, que compartilhar sentimentos e opiniões, porque estamos aqui.

Tenho lido lentamente a história de Nelson Mandela e da luta pela libertação de seu povo na África do Sul do regime racial da minoria branca - o Apartheid. Comecei a ler o livro no início de meu mandato na Cassi, quando ganhei ele de presente de minha companheira, e depois parei a leitura pelo excesso de trabalho. Agora retomei a leitura e ao mesmo tempo que avanço na história cronológica do livro, fico voltando ao início da vida de Mandela, do seu povo e do regime racial por parte dos africânderes.

Durante os últimos anos, registrei neste blog minhas impressões e comentários a respeito da ascensão do ódio e do fascismo no Brasil, processo desenvolvido como estratégia por parte de um segmento da sociedade, o segmento da minoria que domina este país há séculos, uma elite canalha e lesa-pátria que tem ódio do povo e das coisas do Brasil, da brasilidade, de tudo que represente o nacional e a pátria brasileira. Um pequeno segmento que se referencia nos colonizadores e imperialistas estrangeiros. Um segmento que nunca amou o país e seu povo.

Essa minoria oriunda do processo histórico brasileiro, minoria oriunda das casas-grandes, é a responsável por mais um golpe contra o povo brasileiro, um golpe contra a frágil democracia que teve instantes de vida ao longo de mais de um século de regime dito republicano. Essa minoria domina toda a estrutura de poder em nosso país, quando não com seus próprios membros e descendentes, com lacaios que se locupletam das benesses recebidas para ajudar a controlar a exploração e a manipulação do povo brasileiro, a imensa maioria de gente sem posses ou com pequenas posses.

Em dois anos de Golpe de Estado no Brasil, golpe organizado por uma casta privilegiada que inclui membros dos três poderes do Estado e donos de corporações, foram solapados direitos sociais, o patrimônio público e as principais fontes de emprego formal no país. Os empresários golpistas dos meios de comunicação envenenaram o povo brasileiro com o ódio e a intolerância, bases para qualquer regime fascista e totalitário.

Um sistema totalitário e cínico de comunicação empresarial passou a mandar no país. Define quem deve ser livre, quem deve ser preso; quem é bom, quem é ruim; quem é do bem, quem é do mal; qual política deve ser implantada, qual deve ser rejeitada. Vivemos uma ditadura de poucos donos de tudo (o 1%). A qualquer momento, qualquer pessoa e qualquer instituição pode ser a nova escolhida para a execração pública e moral de sua reputação e de sua vida e história. Basta não concordar com os donos do poder ou estar do lado com menos poder de impor a notícia ou as mentiras vendidas como verdade (fake news).

Ao ler a história do povo sul-africano e de Nelson Mandela, na longa caminhada até a liberdade e por um país que fosse para todos - os 3,5 milhões de africânderes e os 7,5 milhões de negros, indianos e mestiços -, ao refletir sobre a história do povo brasileiro e de seus bons momentos (poucos) e maus momentos por séculos, vejo que algo terá que acontecer para alterar esses tempos sombrios que entramos após o golpe de 2016. O Brasil e o povo brasileiro não resistirão por muito tempo se algo não for feito. O país pode não se recuperar jamais, a exemplo do que ocorreu com o México, que praticamente se tornou um país inexpressivo, após sua destruição por parte dos Estados Unidos.

Eu completei quase meio século de existência vivendo a infância na ditadura civil-militar, a adolescência no período neoliberal de destruição de nosso país, uma parte adulta vendo a esperança brilhar para o povo e avanços históricos acontecerem durante três mandatos presidenciais do Partido dos Trabalhadores e cheguei aos 49 anos nesta semana vendo a prisão política de um homem inocente condenado sem crimes, sem provas, para que ele não seja candidato à presidência da república do Brasil, Lula da Silva.

A leitura da história de Mandela e de seu povo, contada por ele mesmo, pode servir de referência para o nosso povo. No que ela tem de bom e de ruim. Não acho razoável que Lula siga preso como aconteceu com Mandela. Termino deixando mais uma reflexão de Nelson Mandela, nos anos 50, quando os nacionalistas africânderes recrudesceram a violência e as injustiças contra a maioria do povo africano.


É O OPRESSOR QUE DEFINE A NATUREZA DA LUTA

"A lição que aprendi com a campanha (contra a remoção do povo negro de Sophiatown em 1955) foi que no final nós não tínhamos alternativa alguma senão resistência armada e violenta. Repetidamente, havíamos utilizado todas as armas de não violência em nosso arsenal - discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, ficar em casa, prisões voluntárias - tudo em vão, pois tudo o que fazíamos era respondido com mão de ferro. Um guerreiro pela liberdade aprende da maneira mais difícil que é o opressor quem define a natureza da luta, e ao oprimido frequentemente não se deixa recurso algum senão utilizar métodos que espelham aqueles do opressor. Em certo momento, só é possível lutar contra o fogo usando fogo" (pág 206. Longa Caminhada até a Liberdade, Nelson Mandela)



domingo, 1 de abril de 2018

Simplicidade - Diário e reflexões - 010418



A simplicidade da natureza de Brasília
foi algo marcante e ficará em minha memória.

"Llaneza

                          A Haydée Lange

Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frequente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria.
Conozco las costumbres e las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad inegable,
como las piedras e los árboles."

(Jorge Luis Borges, Antología poética 1923-1977)


Refeição Cultural

Domingo, 1º de abril de 2018, Brasília (DF).

Começo a me despedir do Planalto Central, do cerrado, onde passei meus últimos quatro anos. Daqui algumas semanas volto para minha terra, o Mundo de Ozzz, Osasco (SP).

A natureza única em Brasília foi algo que me encantou profundamente nesses quatro anos que passei aqui a trabalho, como diretor de saúde na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil.

Brasília com suas estações do ano bem marcadas, as chuvas, a seca prolongada, as flores de cada época, os pássaros apaixonantes como as curicacas e o canto do urutau que aprendemos a amar. O céu mais azul do mundo! O pôr do sol de paralisar.

"Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frequente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria..."

O abrir a janela de onde morei era como ver um jardim, e acho que a beleza e a simplicidade da natureza e o canto dos pássaros, junto às luzes dos entardeceres, ficarão para sempre em minha memória.

Vim a Brasília realizar a tarefa mais desafiadora de minha vida de lutas e de representação dos trabalhadores. Por mais que soubesse do trabalho que realizamos na defesa dos associados da Cassi e no fortalecimento da própria Caixa de Assistência e seu modelo revolucionário de saúde preventiva, havia externado para as pessoas mais próximas, meses atrás, o quanto seria difícil obter condições ideais de disputa para seguir com o trabalho que vinha sendo realizado (eu conheço muito os espaços de disputa de poder...).

"Conozco las costumbres e las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo..."

Já vislumbrava a dificuldade em se obter a unidade necessária no campo progressista e de representação dos segmentos dos trabalhadores associados. Já estou nesse meio há vinte anos e sei que nas horas centrais, o que prevalece é a divisão, é o foco no poder, mais que o foco no projeto coletivo. É só ver no quadro político do Brasil na maior crise de sua história como estão se comportando as forças progressistas em relação às eleições majoritárias. Teremos quantas candidaturas do campo popular? Três ou quatro? Não adianta a história ensinar... ninguém olha ou considera a história da luta de classes!

Nos próximos dois meses, período final de registro do mandato e de prestação de contas que realizamos no blog Categoria Bancária, vou registrar tudo que for possível sobre a Cassi e as áreas que atuamos. E vou registrar minhas opiniões, afinal de contas fiz isso desde o primeiro dia e assim vou até 31 de maio de 2018. Não teria porque esconder minha avaliação sobre o resultado das eleições e o que vislumbro pela frente em relação à entidade que aprendi a amar durante o mandato.

"No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza."

Eu tenho que ir me desligando da luta em defesa da Cassi e dos associados. Conheço profundamente a realidade que enfrentamos, o que evitamos e o que se desenha adiante com a mudança de rota.

Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad inegable,
como las piedras e los árboles."

Muitos de nós que vivemos juntos a realidade inegável do setor de saúde suplementar e da Caixa de Assistência nos últimos anos, que protegemos a entidade e associados revertendo quadros adversos, não soubemos nos unir em prol de algo coletivo maior. A responsabilidade do que vier de futuro talvez sirva de reflexão às gerações seguintes das lideranças do movimento social organizado porque a história humana tem diversos exemplos de consequências advindas da falta de unidade em momentos decisivos.

Sabemos que sem os princípios basilares e os paradigmas de consenso - manter a solidariedade no sistema de custeio, fortalecer as unidades de atendimento em saúde nos Estados, a atenção primária e medicina de família e a participação social - a Caixa de Assistência não será uma Cassi para todos, como deve ser.

Ainda farei dois meses de registros no blog Categoria Bancária. Registros com simplicidade e honestidade nas opiniões e dados que vamos apontar sobre esses quatro anos de história da nossa querida Caixa de Assistência. Segue firme o meu compromisso de deixar disponível o material que produzimos sobre a Cassi e o mandato para entidades sindicais, associativas e Conselhos de Usuários.

Abraços,

William

sábado, 31 de março de 2018

Jesus não morreu pelos "nossos pecados" e sim por enfrentar o sistema


Comentário do Blog

Olá prezad@s leitores e amig@s.

Apresento abaixo um artigo que li e me identifiquei bastante com ele. Nesta Sexta-Feira Santa, 30/3/18, assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), com direção de Mel Gibson, e relembrei a sensação horrível da violência praticada contra o judeu Jesus Cristo, Na época, saí do cinema chocado (ler artigo AQUI).

Estou em um momento de "passagem" em minha vida. Vou começar outra vida após quatro anos vivendo em Brasília (DF), após viver cada segundo de minha existência me dedicando à defesa dos direitos dos associados da Caixa de Assistência (Cassi) e ao seu modelo assistencial. Isso também me deixa mais sensível ao tema "Páscoa", "Pessach" dos judeus. Terei meus ritos de passagem de uma vida para outra.

Em meus quase 49 anos de idade, será a primeira vez em quase duas décadas que não serei um representante da classe trabalhadora eleito em algum mandato. Foram 16 anos como dirigente eleito; antes disso, havia sido eleito para o 1º Conselho de Usuários da Cassi SP. A vida será bem diferente daqui adiante. Como disse, viverei minha passagem de um tipo de vida para outro.

Não me alongo. Sugiro a leitura do texto abaixo porque ele nos põe a refletir.

William

---------------------------------------------------


(reprodução de matéria da Rede Brasil Atual)


O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado,
mas o interesse, a conveniência e a cobiça.
Obra: Prisão de Cristo, 1621, de Guercino.


Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema

Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel



Por: Alberto Maggi 
Tradução: Francisco Cornélio
Publicado: 31/03/2018, 10h11


Caminho pra Casa, Outras Palavras - Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios.

No entanto, basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas.

A morte de Jesus não se deve apenas a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá.

A próspera economia do templo de Jerusalém, que o tornava o banco mais forte em todo o Oriente Médio, era sustentada pelos impostos, ofertas e, acima de tudo, pelos rituais para obter, mediante pagamento, o perdão de Deus. Era todo um comércio de animais, de peles, de ofertas em dinheiro, frutos, grãos, tudo para a “honra de Deus” e os bolsos dos sacerdotes, nunca saturados: “cães vorazes: desconhecem a saciedade; são pastores sem entendimento; todos seguem seu próprio caminho, cada um procura vantagem própria” (Is 56, 11).

Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica no país, considerando o ensinamento infalível da Lei, veem Jesus perdoar os pecados a um paralítico, imediatamente sentenciam: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3). E os blasfemos devem ser mortos imediatamente (Lv 24,11-14). A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas na verdade, visa salvaguardar a economia. Para receber o perdão dos pecados, de fato, o pecador tinha que ir ao templo e oferecer aquilo que o tarifário das culpas prescrevia, de acordo com a categoria do pecado, listando detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos ou outras coisas se deveria oferecer em reparação pela ofensa ao Senhor. E Jesus, pelo contrário, perdoa gratuitamente, sem convidar o perdoado a subir ao templo para levar a sua oferta.

Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas duas palavras que, no entanto, ameaçaram desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao templo levando ofertas, nem de submeter-se a ritos de purificação, nada disso. Não, bastava perdoar para ser imediatamente perdoado…

O alarme cresceu, os sumos sacerdotes e escribas, os fariseus e saduceus ficaram todos inquietos, sentiram o chão afundar sob seus pés, até que, em uma reunião dramática do Sinédrio, o mais alto órgão jurídico do país, o sumo sacerdote Caifás tomou a decisão. “Jesus deve ser morto”, e não apenas ele, mas também todos os discípulos porque não era perigoso apenas o Nazareno, mas a sua doutrina, e enquanto houvesse apenas um seguidor capaz de propagá-la, as autoridades não dormiriam tranquilas (“Se deixarmos ele continuar, todos acreditarão nele …“, Jo 11,48). Para convencer o Sinédrio da urgência de eliminar Jesus, Caifás não se referiu a temas teológicos, espirituais; não, o sumo sacerdote conhecia bem os seus, então brutalmente pôs em jogo o que mais estava em seu coração, o interesse: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?” (Jo 11,50).

Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina.

_____________________________

Alberto Maggi, biblista italiano, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontifícias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversos livros, como A loucura de Deus: o Cristo de João, Nossa Senhora dos heréticos

Francisco Cornélio, sacerdote e biblista brasileiro, é professor no curso de Teologia da Faculdade Diocesana de Mossoró (RN). Fez seu bacharelado no Ateneo Pontificio Regina Apostolorum, em Roma. Atualmente, está em Roma novamente, para o doutorado no Angelicum (Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino), onde fez seu mestrado

Fonte: Rede Brasil Atual

domingo, 25 de março de 2018

250318 - Diário e reflexões - O que o futuro me reserva?



Refeição Cultural

Domingo ensolarado em Brasília. Estou sozinho há semanas, longe da família. Estou aqui pensando na vida. Já li mais um pouco da história de Nelson Mandela, autobiografia de um grande líder do povo sul-africano. Ouvindo Pink Floyd, Metallica e outras bandas que gosto.

Estive envolvido nas últimas semanas na campanha das eleições da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, a maior autogestão em saúde do país. Coloquei meu nome à disposição para o processo democrático, juntamente com outras lideranças que compõem a nossa Chapa 1 Em Defesa da Cassi. As votações vão até quarta-feira, dia 28 de março, e o resultado sai após as 18 horas desse dia.

Estou terminando um mandato de quatro anos à frente da Diretoria de Saúde da entidade, e minha vida mudou completamente nesse período. Nunca me dediquei de forma tão intensa e integral ao longo de anos por uma causa como esta de defender os direitos em saúde dos associad@s e o modelo assistencial de Atenção Primária e Medicina de Família. 

Não que eu não me dedicasse com a mesma intensidade quando fui dirigente sindical eleito pelos trabalhadores, mas é que para ser o melhor representante que eu pudesse ser, sabia que teria que estudar e mergulhar nas questões técnicas da área, além de manter o punho firme que sempre tive para enfrentar patrões e capitalistas e seus representantes. A intensidade do esforço ao longo do mandato foi semelhante a tocar uma greve de 30 dias ininterruptamente por quatro anos. Minha luta foi de manhã, tarde, noite, madrugadas e finais de semana. Não poderia ser de outra forma.

O período foi de tantas mudanças que quando começamos o mandato o Brasíl não havia sofrido o golpe de Estado, as condições econômicas, políticas e sociais do país eram outras. O setor de saúde suplementar tinha mais de 52 milhões de usuários de planos de saúde. Hoje tem pouco mais de 47 milhões. Grandes do setor faliram, como a Unimed Paulistana, ou estão mal das pernas. As despesas com a compra de serviços de saúde no mercado quase cartelizado crescem cerca de 15% ao ano. As receitas dos planos de saúde não acompanham nem de perto essa conta de despesa operacional. Os patrões tentam repassar os custos somente aos trabalhadores beneficiários dos planos, tentam se ver livres dos aposentados (aqueles planos que ainda incluem aposentados), se aproveitam do desconhecimento técnico da área para estimular lugares comuns e informações equivocadas sobre a eficiência das entidades de saúde de autogestão.

No entanto, os associad@s da Cassi não perderam nenhum direito histórico em saúde. A Cassi não fez reduções de sua estrutura própria de atenção à saúde, o que seria um erro fatal, porque provamos que a estrutura própria de Atenção Primária e Medicina de Família faz mais com menos. Todo o mercado está tentando fazer o que a Cassi faz. A solução para usar melhor os recursos arrecadados pelo sistema de saúde Cassi é investir mais em promoção e prevenção, programas de saúde e monitoramento de populações assistidas ao longo do tempo. Desfizemos interpretações equivocadas e lugares comuns faladas sobre a Caixa de Assistência por total desconhecimento da área. Incomodamos bastante o outro lado da representação, a patronal.

Bom, minhas reflexões não são sobre o que fizemos pela Cassi e pelos associad@s. Estou aqui pensando no momento seguinte após o resultado das eleições. Estarei à frente da Diretoria de Saúde da Cassi no período mais desafiador de sua história ou não estarei.

Fico pensando em minha família, fico pensando em minha visão de mundo social mais justo e solidário, voltado para o povo brasileiro e não para uma pequena parcela de privilegiados (o 1% dono de tudo). Fico pensando em como aguentar tanta iniquidade, tanta injustiça contra o povo. A Cassi foi minha cachaça nestes últimos 4 anos. Não fiz outra coisa que lutar para defender a entidade e seus associados.

Amanhã cedo estarei junto aos associad@s nas bases fortalecendo a democracia na Cassi e estimulando tod@s a votarem porque a participação massiva vai fortalecer as negociações sobre o futuro da entidade e dos direitos dos trabalhadores associados.

Quinta-feira 29 verei minha família. Depois vem o feriado (ufa!). Depois vem a segunda-feira 2 de abril. E depois vêm os meses seguintes. Meu futuro será de lutas, isso eu sei, afinal de contas eu pertenço à classe trabalhadora. O que não faltam são frentes de lutas, a da Cassi que estamos preparados, e as diversas frentes de lutas por uma vida melhor das pessoas.

Boa semana a todas e todos.

William

sábado, 24 de março de 2018

Povo brasileiro terá longa caminhada até a liberdade, pela democracia e justiça social


A natureza brilha com a chuva outonal em Brasília.

Refeição Cultural

"Comecei a suspeitar de que tanto os protestos legais como os extraconstitucionais seriam impossíveis em breve. Na Índia, Gandhi havia lidado com um poder estrangeiro que em última instância era mais realista e previdente. Esse não era o caso com os africânderes na África do Sul. Resistência pacífica e não violenta é eficiente à medida que o seu oponente respeita as mesmas regras que você. Mas se um protesto pacífico é recebido com violência, sua eficácia chega ao fim. Para mim, a não violência não era um princípio moral, mas uma estratégia; não há bondade moral em se utilizar uma arma ineficiente. Mas meus pensamentos sobre este assunto ainda não haviam tomado forma, e eu havia falado cedo demais." (Nelson Mandela, sobre eventos de 1953)


Me peguei neste sábado pela manhã, 24 de março, olhando a chuva cair lá fora. Iria à padaria, mas desisti e fiquei em casa. A natureza em Brasília é exuberante nesta época do ano. Verde, verde.

Assim que a chuva passou, fiquei olhando uma revoada de andorinhas circulando pelo ar, os beija-flores nos flamboyants e patas de vaca e uma curicaca com seu longo bico fuçando na grama.

Retomei a leitura de Mandela. Sem pressa alguma. Reli os dois primeiros capítulos da parte I, Uma Infância no Interior, e depois fui dar sequência onde havia parado, lá na parte IV, A Luta é a Minha Vida. É inevitável não pensar no nosso querido país Brasil, sob novo golpe de Estado desde 2016.

Estou cansado para fazer postagens mais trabalhadas com citações e interpretações e opiniões, mas pensando a situação do país e do povo brasileiro, no meu ponto de vista haverá um recrudescimento da violência por parte daqueles que tomaram o poder, e o povo terá uma longa caminhada até a liberdade e a volta da democracia.

Desde as tais manifestações de junho de 2013, que incendiaram o país e passaram a ser manipuladas pelos donos do poder econômico, liderados pelos meios de comunicação golpistas (PIG), a repressão do Estado contra manifestações identificadas com a esquerda e os movimentos populares passou a ferir seriamente os participantes. 

O ódio foi incentivado pela mídia canalha, e percebe-se a tendência a se aceitar como "normais" milícias fascistas armadas financiadas pela direita (como nesta semana no RS, durante as caravanas do presidente Lula) para impor o terror ao povo, para acuá-lo e convencê-lo a não sair às ruas e manifestar mudanças e apoio político a líderes e causas populares.

SOLUÇÃO PACÍFICA DAS CONTROVÉRSIAS... Eu me formei politicamente no movimento sindical cutista, que me convenceu que as melhores saídas para mudar a condição de vida do povo trabalhador e mais humilde é organizá-lo para conquistar direitos nos locais de trabalho em negociações com patrões, e para disputar os processos democráticos nas estruturas do Estado burguês (com eleições para executivos e legislativos, e com muito poder concentrado no judiciário).

Me formei para acreditar em mudanças através do mundo sindical e partidário - dentro da lógica do one man, one vote -, como já pregava Mandela nos anos 50. (apesar da história da luta de classes demonstrar que a democracia só é aceita pela Casa-grande enquanto lhe é conveniente).


Na companhia de Nelson Mandela, já que
não vejo a família há semanas.

Aí veio o novo golpe em 2016 e colocou por terra todos os avanços sociais que vinham sendo conquistados pelo povo brasileiro através de processos democráticos de organização de massas, processos liderados pela CUT e demais centrais sindicais, pelo Partido dos Trabalhadores e demais partidos do campo da esquerda e popular e por movimentos progressistas em geral.

Neste momento, o brazil do golpe passa por um processo de retrocessos dos direitos do povo semelhante ao que viveu a África do Sul por décadas sob o regime nacionalista dos africânderes e o Apartheid. As injustiças do Estado (da casta que domina os poderes do Estado) já não são sequer disfarçadas. Impunidade aos amigos, a força repressora e injusta do Estado aos inimigos deles.

Sugiro a leitura deste livro autobiográfico de Nelson Mandela porque ele é inclusive muito bonito, ao conhecer a história dos povos sul-africanos.

Bom fim de semana aos amig@s,

William

segunda-feira, 19 de março de 2018

Eleições Cassi - Diário de Campanha (III)



Um olhar para este banco público tão importante para o Brasil.
Os trabalhadores têm uma obrigação histórica de fortalecer a
democracia, e os processos eleitorais nas entidades associativas
como Cassi, Previ e sindicais são exemplos de cidadania.

Olá prezad@s leitores amigos.

Nestas últimas semanas, estamos envolvidos com o processo eleitoral da maior autogestão em saúde do país, a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, onde estou terminando um mandato eletivo como Diretor de Saúde e Rede de Atendimento e estou compondo uma das chapas que concorrem para o mandato para a mesma diretoria. Somos a Chapa 1 Em Defesa da Cassi.

Durante o período de campanha, tive a oportunidade de visitar diversas cidades e conversar com muitos associados da Cassi. Meus companheiros e companheiras de chapa também estiveram em diversas cidades na agenda da campanha.

Estive em Fortaleza, Teresina, Brasília, Goiânia (e falei com lideranças de Goiás e Tocantins), João Pessoa, Recife, São Paulo, Campo Grande, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Florianópolis. Em todas essas agendas, tive a companhia de lideranças sindicais e representativas que nos apoiam. Essa é uma característica forte de nossa Chapa 1 Em Defesa da Cassi, ser a chapa que representa a unidade das principais entidades de luta dos trabalhadores.

Também tive a oportunidade de participar de 3 debates entre as chapas, e outros companheir@s da nossa chapa também estiveram em alguns debates. Estive no Rio de Janeiro, a convite do Conselho de Usuários; em Brasília, a convite da Anabb e da AABB.

Já estamos em processo de votação desde sexta-feira 16 e os associad@s têm até dia 28 de março para participarem do processo democrático. É uma das maiores eleições de entidades de trabalhadores do país. Participam do processo mais de 170 mil sócios da autogestão em saúde.

Hoje, segunda-feira 19, seguimos fazendo campanha e dialogando com os colegas do Banco do Brasil. Foram diversas reuniões com dezenas e dezenas de trabalhadores. Agradeço ao conjunto dos sindicatos que nos apoiam nas cinco regiões do país. 

Nosso compromisso com os associad@s e com suas entidades representativas é defender a nossa Cassi e os direitos dos trabalhadores associados, lutar pela manutenção da solidariedade na Caixa de Assistência, seguir fortalecendo o modelo de promoção e prevenção, através de Atenção Primária e Estratégia Saúde da Família, lutar pela manutenção do poder na gestão paritária entre associados e patrão e seguir fortalecendo a participação social e a transparência no mandato. Os trabalhadores das estatais federais precisam lutar unidos para reverterem as medidas autoritárias do governo ilegítimo, editadas em janeiro para inviabilizarem as autogestões e o acesso dos trabalhadores à saúde (Resoluções CGPAR).

Calculo que já fizemos por volta de 200 reuniões com associad@s neste período. Pedi que todos votem e fortaleçam o processo democrático. O nível de respeito entre nós nas reuniões presenciais demonstra que a comunidade BB em sua expressiva maioria é um exemplo de participação social e maturidade nas discussões do futuro das entidades que nós mesmos construímos em mais de dois séculos de existência deste banco público.

Por fim, eu desejo que o processo eleitoral na Caixa de Assistência desperte a consciência da comunidade Banco do Brasil para a necessidade de envolvimento com a política, com a boa política, porque as ameaças aos direitos históricos dos trabalhadores seguem colocando em risco um patrimônio de décadas de lutas por direitos em todas as áreas e só a luta unitária e a participação de todos poderá manter para as próximas gerações o maior banco público do país, as nossas caixas de saúde e previdência e o conjunto de direitos coletivos que bancários e trabalhadores brasileiros construíram em nossa história de classe.

Entendo que nossa participação neste processo democrático fortaleceu a Cassi e a lutas dos cidadãos trabalhadores. Daqui alguns dias, estaremos todos unidos em defesa da saúde de mais de 700 mil participantes Cassi da comunidade Banco do Brasil.

Nós da Chapa 1 Em Defesa da Cassi pedimos o voto a cada associado e associada e nos colocamos à disposição para os desafios que vêm por aí.

William


Post Scriptum (I) - Saudades da família que já não vejo há semanas. Agradeço a compreensão dela por me apoiar nas ausências por causa de minha militância política em defesa das causas que defendemos. Amo vocês.

Post Scriptum (II) - É tão triste ver a violência vencendo em nosso país. O fascismo e a intolerância dominando os espaços sociais nas cidades brasileiras. É duro ver morrerem pessoas que lutam e defendem um mundo mais justo e solidário. Não podemos desistir de lutar por democracia, justiça, igualdade, liberdade, fraternidade e oportunidades a todos, com mais distribuição de renda. E temos que insistir num mundo onde caibam todos, sem exclusão de nenhum segmento social e que todos tenham acesso aos bens comuns produzido por nós humanos.

sábado, 10 de março de 2018

Eleições Cassi - Diário de campanha (II)



Veredas candangas: às vezes, os caminhos são verdejantes;
mas onde nos levarão as veredas?
Cada escolha, um destino; cada caminho, um caminhar.
Veredas candangas: às vezes, os caminhos são secos e gris.
A vida é assim.
Caminhos a seguir, em contextos diferentes, sempre.
Onde vão nos levar os caminhos? Eis a questão!


Sábado, Brasília, DF.

Acordei com o corpo tão quebrado de cansaço que só um banho quente para me recolocar em pé. Faz parte.

Estamos no meio do processo de consulta ao corpo social da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil para eleger um(a) dos quatro diretor@s da autogestão em saúde e parte dos conselheiros deliberativos e fiscais. Faço parte de uma das quatro chapas inscritas no processo democrático da comunidade de trabalhadores do maior banco público do país.

Já foram três semanas de campanha. Fizemos um percurso grande e o corpo começa a sentir o roteiro, porque todo dia tem o cansativo ir e vir de viagem e se dorme pouco também. Já conversamos com trabalhadores associados à Cassi de diversas partes do país: Ceará, Piauí, Distrito Federal, Goiás, Tocantins, Paraíba, Pernambuco, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro.

A política e a democracia são meios desejáveis como forma de solução pacífica das controvérsias, como mediadoras para a convivência das opiniões diferentes, estabelecendo decisões que definem os rumos das coisas de interesse coletivo, e também definindo maiorias e minorias, que devem ser respeitadas, mesmo após as definições dos processos democráticos.

Eu aprendi a fazer política quando conheci o movimento estudantil e depois o movimento sindical. Minha formação política no movimento foi algo marcante em minha vida porque eu tinha pouca tolerância ao diferente, ao outro. A política melhorou a minha pessoa ao longo de duas décadas de participação no movimento dos trabalhadores.

Um dos ensinamentos da formação política que tive foi orientar minha energia e inteligência para construir unidade e consenso entre os pares da classe trabalhadora, e depois buscar conciliar saídas que trouxessem avanços para aqueles que representamos nas mesas de negociações. 

Do nosso lado, o dos trabalhadores, quanto mais se investisse tempo para construir consensos, melhor. Melhor inclusive do que simplesmente ver qual argumento/tese teria maioria e votar (ou qual "líder" tinha mais "garrafinhas"), porque se não fosse feito um esforço de convencimento do grupo, ganhava-se a votação, mas perdiam todos, pela desagregação do grupo político, pela desunião de classe. Boa parte do que tenho visto no último período tem sido isso. Sem unidades, perdem os trabalhadores.

Ao aprender essa forma de fazer política buscando o consenso progressivo ou a inclusão dos diferentes nos mesmos processos políticos para estabelecer unidade de nosso lado, o lado da classe trabalhadora, aprendi que fazer política assim nos dá melhores perspectivas para enfrentar os grandes, os maiores desafios, que estão na disputa entre capital versus trabalho, entre o 1% que manda em tudo versus os 99% que são explorados e vítimas de um mundo injusto para o lado mais fraco do estrato social.

Eu estou muito tranquilo com o resultado que for apontado nas eleições Cassi no dia 28 de março. Fiz um mandato republicano e inclusivo que está terminando no dia 31 de maio, onde atuei exatamente como aprendi a fazer política. Busquei a todos e todas durante o exercício de representação dos associados da Caixa de Assistência. Nunca discriminei ou tratei diferente nenhuma força política, liderança ou entidade representativa que existe no espectro político da comunidade Banco do Brasil. Aliás, discordei das teses dos representantes do patrão com urbanidade, porque somos colegas de banco, mas eu represento os interesses do outro lado, os trabalhadores.

O desafio daqueles que estiverem na direção da Cassi nos próximos anos será maior do que aquele que enfrentamos nos últimos quatro, que já foram desafios existenciais, porque foram quatro anos impedindo que os associados perdessem direitos, que a Cassi se desfizesse de sua essência de Caixa de Assistência solidária e inclusiva para o conjunto de trabalhadores da ativa, aposentados, pensionistas e dependentes. E ainda colocamos em alta o modelo assistencial da entidade - Atenção Integral à Saúde via Atenção Primária, Estratégia Saúde da Família, programas de saúde e CliniCassi -, modelo que vinha desacreditado em anos anteriores.

É isso, já falei demais para o cansaço que estou.

Bom fim de semana aos leitores que leram essas breves reflexões.

William


Post Scriptum: saudades da família que só verei ao final desse processo.

Post Scriptum II: Diário de campanha I (AQUI)

segunda-feira, 5 de março de 2018

Eleições Cassi - Diário de campanha



(atualizado em 20/3/18: melhoria de sintaxe)

Imagem que vi nos últimos anos trabalhando em Brasília.

Amanheci em Belo Horizonte, Minas Gerais, nesta segunda-feira 5 de março. Vamos conversar com os trabalhadores sobre as eleições na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Estamos participando do processo em uma das quatro chapas inscritas.

Março é o mês que nos faz lembrar das lutas das mulheres. Há muito que avançar e desejo sucesso na luta pela igualdade de direitos em um mundo vivendo retrocessos políticos e sociais.

Não tenho feito outra coisa nas últimas semanas que não seja conversar com bancários e bancárias da ativa e aposentados associados à Caixa de Assistência, antes de tudo pedindo que todos se envolvam no processo de consulta ao corpo social para renovação de parte da governança da Cassi, que é a única entidade de autogestão em saúde que tem a magnitude de eleger a metade da direção, sendo a outra metade indicada pelo patrão, no caso o patrocinador Banco do Brasil.

Até o momento, a campanha tem sido muito positiva com um processo de apresentação de propostas por parte das quatro chapas inscritas. Isso é fundamental porque a Cassi e os associados precisarão de muita unidade logo após as eleições para enfrentarem o momento mais difícil de sua existência de 74 anos.

Gostaria de escrever mais algumas reflexões, mas meu tempo já se esgotou e tenho que sair correndo para o café e para a rua. 

Termino essa curta postagem dizendo que estou muito tranquilo em relação ao processo eleitoral. Estamos terminando um mandato na Diretoria de Saúde e Rede de Atendimento da Cassi onde colocamos toda a nossa energia, inteligência e combatividade para enfrentar os desafios em fortalecer o modelo assistencial de Atenção Primária e Estratégia Saúde da Família, as políticas e programas de saúde da entidade e a participação social via conselhos de usuários e entidades representativas. Fizemos isso em meio a maior crise de sustentabilidade do setor de saúde e a Cassi está inserida nesta crise.

O que fizemos? Fizemos a Cassi seguir neste período, os associados não perderam nenhum direito e envolvemos o conjunto dos associados e suas entidades nas discussões sobre o futuro da entidade. Já é alguma coisa. Além de fazer o modelo assistencial ser reconhecido como o caminho a seguir.

O fato é que são imensas as dificuldades que a chapa eleita e os demais membros da governança, e sobretudo os trabalhadores associados, vão enfrentar nos próximos anos. São dificuldades existenciais porque as autogestões correm o risco de desaparecerem por causa das medidas autoritárias impostas pelo governo que ocupa a presidência do país.

Desejo boa campanha aos colegas inscritos nas quatro chapas e que a equipe eleita se integre aos que lá estão para buscarem soluções para os desafios colocados à Cassi (a eleição é de uma das 4 Diretorias e de parte dos Conselhos Deliberativo e Fiscal).

Uma coisa eu afirmo em relação ao que penso sobre a Cassi: nossa Chapa 1 Em Defesa da Cassi defende a solidariedade como princípio porque antes da Cassi para os associados existe os associados para a Cassi. Se a solidariedade for quebrada, onerando cada vez mais o trabalhador e excluindo ele do sistema Cassi (por não dar conta de pagar), o sistema vai diminuir a população que atende, que deve ser toda a população de ativos, aposentados, dependentes e pensionistas, como reza o estatuto social. E sua sinistralidade vai aumentar ficando inviável o custeio.

O governo ilegítimo editou medidas que já começam o trabalho de inviabilizar a Cassi não permitindo a entrada de novos no Plano de Associados com os direitos históricos que a comunidade de trabalhadores do Banco do Brasil conquistou em décadas de lutas. Ou derrubamos essas medidas ou fica difícil para a sustentabilidade da Cassi.

Tenho que sair e não posso continuar escrevendo. É isso!

William