domingo, 13 de março de 2016

A metamorfose – Franz Kafka (1912)




LITERATURA TCHECA

“Gregor Samsa acordou naquela manhã de sonhos agitados e viu-se na sua cama transfigurado num enorme inseto. Estava deitado sobre suas costas, tão duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, pode ver o ventre curvo, castanho, dividido por pregas arqueadas, sobre o qual o cobertor, dificilmente se sustinha e estava a ponto de cair completamente. As inúmeras pernas, deploravelmente finas se comparadas com o resto do corpo, balançavam desamparadas diante dos seus olhos.

- O que me aconteceu?, pensou...”



Assim começa uma das estórias mais fantásticas e mais dramáticas da literatura clássica mundial. Fiz a leitura pela terceira vez nestes meus 46 anos. O momento por que passa meu país, do absurdo golpismo e fascismo que tomou conta do cotidiano do Brasil, nos remete a leituras que versam sobre mundos distópicos, sobre mundos dramáticos e nos remete a obras de cunho melancólico e depressivo.

Ao longo de um século, várias foram as leituras críticas e interpretativas das obras do autor tcheco Franz Kafka. Neste momento em que reli o drama de Gregor Samsa, evidenciou-me metáforas dramáticas sobre o peso de ser proletário num mundo capitalista e ainda ter que cuidar da família.


“Não parecia um sonho. Seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas bastante simples, continuava tranquilo entre as quatro paredes bem familiares. Por cima da mesa, se espalhava, aberta, uma série de amostras de tecidos – Samsa era caixeiro-viajante – e estava pendurada uma fotografia que ele, recentemente, havia recortado de uma revista ilustrada e mandara colocar numa linda moldura dourada. Exibia uma moça de chapéu e estola de pele, sentada, a estender um enorme regalo também de peles, no qual todo o seu antebraço desaparecia.”


Fica evidente a condição de Gregor Samsa, proletário. Aliás, a primeira demonstração da metáfora para o trabalho que maltrata está na reflexão de Gregor logo na segunda página, quando lamenta o quanto seu trabalho é cansativo.


“ – Ah, meu Deus! Pensou – Que trabalho cansativo escolhi. Viver viajando, dia sim, dia não. A agitação comercial é mais irritante que o próprio trabalho do escritório, além disso há a cansativa necessidade de viajar, sempre preocupado com troca de trens, fazendo refeições a qualquer hora, num convívio humano superficial que nunca se torna íntimo. Aos diabos com tudo isso!”


Aff! Se eu trocar o transporte citado por ele (trem) por avião, posso utilizar essa expressão do cansaço de viver viajando. Aliás, eu poderia ter escolhido o conforto de passar meu mandato sentado no escritório da sede da empresa que administro, mas não é de minha natureza e nem meu perfil ficar sem ir às bases sociais que represento. A consequência é dobrar as jornadas de trabalho para dar conta do dia a dia do escritório, e da agenda de viagem às bases.


Logo em seguida, Gregor imobilizado na cama como um inseto, lembra o quanto gostaria de dormir mais um pouco porque “o ser humano precisa de seu sono”. Lembra que não pode ter regalias como os comerciantes para quem vende os produtos e nem como o seu chefe, que tem que suportar falando sentado do alto de sua mesa para baixo ao lidar com Gregor. Tudo porque ele tem que trabalhar ainda uns cinco anos para pagar uma dívida de seus pais.

Por fim, ali imobilizado, começa o desespero de Gregor por sua condição porque ele vai perder o trem para o trabalho.


“Mas, e agora, o que deveria fazer? O próximo trem sairia às sete horas; para embarcar precisaria correr como louco, o mostruário ainda não estava na mala e ele mesmo não se sentia preparado e ativo. E mesmo que pegasse o trem, seria inevitável uma repreensão do chefe, pois o contínuo da firma teria esperado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado sua ausência. O contínuo era uma criatura do chefe, invertebrado e sem pensamentos próprios...”


Alguma semelhança com o que os trabalhadores vivem nos seus locais de trabalho cada vez mais degradados por assédio, condições humilhantes, e colegas puxando o tapete uns dos outros?


E a questão da dedicação total ao patrão, não querendo faltar nem quando está doente?


“E, se avisasse que estava doente? Mas isso seria desagradável e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço Gregor nunca tinha adoecido. Certamente o chefe o visitaria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais pela preguiça do filho e não aceitaria desculpas, apoiado no médico, para quem não existia doentes, só pessoas inteiramente saudáveis, mas refratárias ao trabalho. E, será que estava tão enganado, dessa vez? Certamente, com exceção de uma sonolência inútil depois de tão longo sono, Gregor sentia-se muito bem e até mesmo com uma fome especialmente forte...”


Já no início do século passado, havia a relação complicada entre alguns médicos e os capitalistas para atestarem que o empregado estava bom para trabalhar e não parar a produção.

(segue depois mais momentos e comentários sobre a obra)

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Enfim, a releitura da obra neste momento me fez sentir uma tristeza e uma certa impotência doída.

Neste momento histórico (2016), os empresários capitalistas preparam um Golpe de Estado no Brasil contra um governo e um partido que mudaram objetivamente, após a eleição de um metalúrgico nordestino em 2002, a vida de dezenas de milhões de miseráveis e de proletários, gente à margem da sociedade como, por exemplo, os milhões de brasileiros afrodescendentes em um Brasil que foi o último país a abolir a escravidão dos seres humanos de pele negra.

Os patrões, os capitalistas, parte da estrutura burguesa montada para a manutenção do status quo burguês, que inclui o poder de polícia para ser usado para controle e repressão dos proletários rebeldes e não submissos e, no mundo moderno, os donos dos meios de comunicação, que são os mesmos capitalistas donos do meios de vida e dos meios de produção, enfim, esses golpistas manipulam a população para se juntarem a eles no golpe e perseguir e aniquilar os movimentos sociais mais importantes do país e protetores dos direitos das minorias – Sindicatos, movimento rural, estudantil, partidário de esquerda.

Estamos vivendo um momento kafkiano, mas não ficcional.


William Mendes

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