sábado, 30 de maio de 2026

Livro: Clandestina - Ana Corbisier

 


Refeição Cultural

Conheci Ana Corbisier no dia 1° de outubro de 2025, em uma palestra dela em uma reunião do Diretório Zonal do PT da Lapa, Zona Oeste de São Paulo. Ela nos contou um pouco de sua participação extraordinária nas lutas emancipatórias do povo brasileiro, em geral, e das mulheres, em participar. 

Em poucos dias, li a metade do livro Clandestina, que registra parte das histórias de Ana Corbisier e das lutas contra a ditadura que havia sido implantada no Brasil pelas classes dominantes em 1964, com o apoio dos Estados Unidos. 

A cada página lida, aumenta nos leitores a admiração por essa mulher brasileira de referência para as pessoas que não aceitam conviver com a injustiça contra o povo. 

Comentário: tenho o hábito de começar dezenas de leituras ao mesmo tempo, o que acarreta a consequência de não terminar muitas delas. O livro de Ana foi mais um desses casos. Agora, meses após o início, vou finalizar a leitura. Decidi mudar a estratégia e não lerei mais vários livros ao mesmo tempo.

CLANDESTINA 

"Você já era clandestina antes de ser clandestina..."

Após um período de análise, Ana Corbisier diz que entendeu que sempre foi diferente das pessoas de seu ambiente familiar de classe média paulistana. 

O livro é intenso no conteúdo desde seu início. O poema "Setentistas", de Juan Muñiz, é profundo, nos toca no mais íntimo. 

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"Mis locos, mis valientes compañeros

Viven en mí, porfiadamente bellos

Ya nunca he de tapar este agujero:

La culpa de no haberme ido con ellos."

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Depois, vem o Prefácio de José Dirceu, com observações procedentes, como diz Ana nos agradecimentos. 

A militante revolucionária explica na Apresentação o conceito de "clandestina" e o motivo de dar a versão dela em muitas histórias já relatadas daquele período, inclusive por ela, na Comissão Nacional da Verdade e para dezenas de jovens e estudantes em seus trabalhos acadêmicos. 

"E fiquei pensando que tinha a obrigação de escrever eu, o meu, para deixar no papel muitas coisas que possam servir a outros jovens que, como eu e os da minha geração, ainda queiram mudar o mundo." (p. 20)

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Reproduzo a seguir a sinopse feita por Mayra Pascuet, para a edição do livro pela Expressão Popular. 


SINOPSE

Caro futuro leitor, não pense você que o que tem em mãos seja uma autobiografia qualquer e já explico o que quero dizer. Trata-se da narrativa de vida de uma brasileira que sempre esteve à dianteira de seu tempo, questionando, quebrando padrões culturais, sociais, familiares, pondo em xeque costumes estabelecidos e que, ao traçar sua trajetória, deixou seu legado de lutas e contribuições sociais e políticas para todos nós.

Paulista, nascida em 1941, já carregava o peso do nome da família tradicional burguesa que sempre questionou. Aos 18 anos ingressa no curso de Ciências Sociais da USP e casa-se. Três anos depois vém os 2 filhos. Sem demorar tanto vem o susto e o pesadelo do Golpe Militar de 1964. Com a luta armada vai treinar guerrilha em Cuba e volta ao Brasil Clandestina, num verdadeiro périplo passando por vários países, driblando a ditadura, tentando sobreviver e ajudar o movimento. Essa história está muito bem contada em O Tempo dos Cardos de Celso Horta. Com a anistia e no segundo casamento tem seu terceiro filho.

Poliglota, sempre leu muito, estudou muito, estimulou outras mulheres a fazerem o mesmo: formou grupos de estudos de mulheres nos anos 60, num momento em que nem participar das rodas de conversas com seus maridos nas festas era permitido; contribuiu com movimentos de moradias populares; participou da formação do Partido dos Trabalhadores (PT) nos anos 1980. Com esse olhar aguçado para as questões sociais, segue trabalhando com estudos e diagnósticos socioambientais.

Clandestina é um verdadeiro passeio pela história do Brasil, nossa história, onde em cada momento relatado de sua vida, Ana de Cerqueira Cesar Corbisier traz também a origem do que as futuras gerações herdariam de melhor, como a conquista da democracia e dos direitos sociais, muito caros para sua geração. Se hoje estamos aqui tendo a liberdade de expressão, de ir e vir e nos manifestar, podem ter certeza que foi devido a pessoas como ela.

Foi clandestina, mas nunca desistiu de lutar por sua pátria, cujo solo nem sempre foi gentil.

Que nos sirva de inspiração, e ajude a transformar (não importa o tamanho desta transformação) nossa realidade atual e futura.

E para quem teve o prazer de cruzar seu caminho (nós sabemos!), foi e sempre será um grande prazer convivê-la.

Mayra Pascuet

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LEITURA 


CARLOS MARIGHELLA

"Eu me senti muito bem com meu novo contato, especialmente depois de conhecer Carlos Marighella, que foi o líder da resistência armada à ditadura militar (1964-1985). Fiquei encantada com o 'Preto', como o chamávamos. Nos seus 60 anos, forte, alto, com aquela peruca esquisita, sua simplicidade, a atenção com todos, sua tranquilidade, tudo nele passava segurança, confiança na luta e na vitória." (p. 56)

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TÁTICA E ESTRATÉGIA 

"- Para todos os efeitos, tática é a cidade, e estratégia é o campo." (Marighella simplificando a questão para a jovem militante Ana)

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MANUAL DO GUERRILHEIRO URBANO

"(...) Datilografei muitos documentos que elaborou à época, inclusive o Mini Manual do guerrilheiro urbano, que se tornou uma obra universal, tendo sido traduzida para várias línguas, e distribuída pelos Panteras Negras nos Estados Unidos." (p. 56)

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O INIMIGO: IMPERIALISMO ESTADUNIDENSE

"Perguntado se deveríamos nos colocar contra todos os capitais estrangeiros ou concentrar nosso combate no imperialismo estadunidense, explicou que eram os ianques quem tinham as garras postas sobre o Brasil e, portanto, eram eles os inimigos principais da nossa Pátria..." (p. 57)

Comentário: essa explicação de Marighella nos anos 60/70 nos ensina muito sobre a história. Hoje, maio de 2026, os EUA são os inimigos que ameaçam a soberania do Brasil. Estão preparando algum tipo de intervenção no país por causa das eleições e pela atual política trumpista de agressão e invasão. 

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HAVANA E SALVADOR

(...) Havana e Salvador são duas faces de uma mesma moeda impressa sobre a cultura de escravizados africanos. A diferença é que os negros cubanos se rebelaram e conquistaram uma pátria de homens livres, orgulhosos de sua revolução." (p. 80)

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EXILADA, NÃO! EM TREINAMENTO REVOLUCIONÁRIO EM CUBA

"Nunca me considerei exilada. Estávamos em Cuba para fazer um treinamento militar e criar condições para voltar ao Brasil. Esta palavra, exilado, para mim não existia..." (p. 81)

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PENA DE MORTE A QUEM DISCORDAVA DA DITADURA NO BRASIL 

"Um documento das forças armadas brasileiras de que tivemos conhecimento sustentava que os 'terroristas', como eles nos chamavam, que tinham treinado em Cuba, tinham sofrido lavagem cerebral, nunca iriam mudar de ideia, e era preciso matá-los todos. Essa orientação existiu realmente, a repressão matou todos os companheiros em quem botou a mão..."

"(...) Eles mataram mesmo. E, pensando bem, acho que em um ponto eles tinham razão: nós éramos de fato irrecuperáveis, não íamos mudar de ideia. Como não mudei até hoje." (p. 82)

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MULHERES NA GUERRILHA

Ana Corbisier faz um relato importante à página 94 sobre o treinamento guerrilheiro, discordando do jornalista Luís Mir em seu livro "Revolução Impossível" (eu tenho o livro).

Os cubanos não eram contrários a participação feminina nas lutas. Ana cita, inclusive, algumas guerrilheiras destacadas como Haydeé Santamaría, Celia Sánchez e Vilma Espín. Ela própria foi treinada em Cuba. 

"(...) Essa história de TPM, menstruação, não existia. Os militares cubanos não admitiam frescura, a gente tinha que mandar ver, ir em frente. Eram bem rígidos." (p. 94)

Comentário: o livro do jornalista cubano Norberto Escalona Rodríguez - "Fidel Castro, comandante invicto (2025) - nos conta sobre o Pelotão das Marianas (ver aqui). E, na minha opinião, TPM não é frescura, é uma condição real das mulheres em determinado período. Sei que foi força de expressão de Ana, mas vale o registro. 

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REVOLUÇÃO SOCIALISTA OU LIBERTAÇÃO NACIONAL?

"Depois que voltei ao Brasil, muitos companheiros me perguntaram sobre a importância do debate do caráter da revolução brasileira - socialista ou de libertação nacional - quanto ao surgimento da dissidência do Molipo. A discussão realmente existia dentro do nosso grupo, mas nunca justificou a dissidência. (...) Alguns documentos discutidos em nosso grupo falavam realmente da necessidade de superar esta discussão, abraçando de vez a definição do caráter socialista da revolução brasileira. Mas nada disso foi além de discussão teórica." (p. 102/103)

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RETOMADA DA LEITURA 

Ao retomar a leitura e ler os capítulos "Buenos Aires" e "O último ponto", a gente percebe o quanto Ana Corbisier era destemida, ousada. 

Ela estava em Cuba e fez viagens para realizar missões que não estavam sendo realizadas por falta de agentes e por deserções. 

A missão em Pernambuco, para contatar João Leonardo, foi um exemplo de desprendimento de Ana. Após ficar sem contatos, ele recebeu a visita dela. Infelizmente, meses depois, João Leonardo morreu num tiroteio com as forças armadas na Bahia. 

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TERRA DE TODOS OS SANTOS 

Que capítulo de vida inspirador!

Ana nos conta as lutas populares empreendidas durante os anos em que morou em Salvador, Bahia.

Atitude! Essa mulher revolucionária é uma pessoa de atitude, um comportamento essencial em pessoas que enfrentam a dura realidade da vida.

Ela liderou movimentos de moradia, grupos de mulheres e fez ações revolucionárias, pois contribuiu para mudar a realidade do povo ao seu redor na segunda metade da década de setenta.

Comentário: meu problema momentâneo, de não conseguir enxergar direito (tive nesta semana um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo), não é nada perto do que Ana enfrentou na vida. Fato!

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REENCONTRO COM OS FILHOS APÓS 10 ANOS NA CLANDESTINIDADE

"A emoção ao ver meus filhos foi muito forte. Eu e minha mãe fomos buscá-los na rodoviária da cidade. Me lembro até hoje, eles tinham crescido tanto! Quando fui embora de São Paulo eles tinham 4 e 7 anos e, quando voltei, tinham 14 e 17. Tiago é maior que Rodrigo. Eu olhava, olhava, não acabava de subir o olhar. Usavam tênis, roupa estranha, bem de rapazinhos, cabelos compridos. Lá em Cuba ninguém usa cabelo comprido e só Fidel usa barba. Isso é de Fidel. De ninguém mais. E o cheiro dos meus filhos. Sou muito sensível a cheiros e o cheiro deles tinha mudado... Estranhei tudo..." (p. 175)

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PT

Nos últimos capítulos do livro, Ana Corbisier nos conta de sua história e participação na criação do Partido dos Trabalhadores, sua contribuição na gestão da prefeita Luiza Erundina, seu trabalho na Cesp e na Consulta Popular.

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COMENTÁRIO FINAL 

Como militante das causas populares e na defesa de uma sociedade mais justa e igualitária, considero histórias de vida como a da companheira Ana Corbisier inspiradoras para nós que todos os dias temos que renovar nossas energias para não desistir de lutar pelo mundo que sonhamos.

Ana Corbisier é daquelas pessoas imprescindíveis que demos a sorte de ter do nosso lado da classe trabalhadora. 

Recomendo muito a leitura do livro Clandestina, da Editora Expressão Popular. 

Sigamos nas lutas do jeito que for possível.

William 

30/05/26


Bibliografia:

CORBISIER, Ana. Clandestina. 1a edição - São Paulo: Expressão Popular, 2024.

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