Refeição Cultural
LEITURAS
Estou avançando na leitura do livro Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana (2024), da Editora Lutas Anticapital.
Terminei o capítulo cinco "O mercado de imóveis em Havana: estudo de caso sobre o preço das moradias". Deve ter dado muito trabalho o estudo que a autora realizou.
Vou deixar alguns excertos abaixo, para consulta rápida, mas recomendo a leitura do livro de Aline.
Falta agora o capítulo seis, que li ano passado para a aula do curso de extensão da Unesp, e as considerações finais da autora.
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EXCERTOS
Em linhas gerais, há dois tipos de cubanos emigrados aos Estados Unidos:
"A restrição das viagens dos cubano-americanos à ilha durante o governo Bush resultou na redução do turismo em Cuba e no consumo das famílias cubanas, que é em grande parte financiado pelo dinheiro e pelos produtos trazidos pelos cubano-americamos durante suas visitas. Nesse aspecto, é interessante observar a distinção entre os perfis dos cubano-americanos que emigraram entre 1959 e 1970, e aqueles que emigraram após essa data. O primeiro é composto por dissidentes da Revolução que, junto às suas famílias, foram acolhidos pelo governo norte-americano; são originários da antiga burguesia cubana e compõem o movimento anti-revolucionário sediado nos EUA. Esses emigrados não costumam viajar para Cuba, pois consideram o turismo uma forma indireta de financiamento do 'governo castrista' (Jolivet, 2018). Aqueles que emigraram após 1970, e principalmente durante o Período Especial, não o fizeram por motivações políticas, mas econômicas - ou seja, com o objetivo de juntar e enviar dinheiro para seus familiares que permaneceram em Cuba. Portanto, embora a segunda leva de emigrantes seja caracterizada como classe trabalhadora nos EUA e possua menos recursos financeiros do que a primeira, sua frequência de viagens a Cuba e o montante de dinheiro enviado à ilha é maior (Eckstein; Barberia, 2001)." (p. 207)
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Como cubanos dos EUA adquirem imóveis em Cuba:
"(...) apontam para três formas com que os cubano-americanos têm participado do mercado de moradias: comprando uma moradia para seus parentes como uma forma de ajudá-los; comprando uma casa para si através de familiares usados como 'testas de ferro'; e utilizando casamentos de fachada para adquirir o visto permanente e o direito à compra de uma moradia." (p. 210)
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As "casas capitalistas" um conceito interno de classificar imóveis em Cuba feitos antes da Revolução.
"A maioria dos imóveis (65%) anunciados entre 2013 e 2019 foi construída antes da Revolução, principalmente nas décadas de 1940 e 1950, como pode ser visto pelo gráfico 30. A importância de diferenciar as construções prévias a 1959 no mercado de imóveis levou ao desenvolvimento de um termo específico para designá-las: as casas capitalistas. Contudo, o que se convém chamar de capitalista engloba um conjunto de estilos arquitetônicos que correspondem a diferentes momentos da ocupação urbana de Havana (figura 11)." (p. 211)
Aline vai apresentar diversos tipos de construções de modelos diferentes, bem interessantes!
Para quem já esteve em Cuba como no meu caso, fica claro os modelos conforme a época e o estilo.
"O significado do termo 'casa capitalista' revela, portanto, a intenção de identificar e diferenciar essas casas construídas durante o período pré-revolucionário das construídas após a Revolução, principalmente pelo movimento de microbrigadas (ver Capítulo 2), as quais são identificadas como 'micro' no texto dos anúncios dos imóveis. Segundo a arquiteta Dania Courret em entrevista para este trabalho, a diferença entre elas diz respeito à qualidade da construção em termos dos materiais e do desenho arquitetônico empregado. As casas capitalistas são tidas como as de qualidade habitacional superior, enquanto as casas construídas pelas microbrigadas são consideradas inferiores em termos dos materiais de construção, do acabamento da obra e do desenho arquitetônico, pois este é considerado demasiado padronizado devido à técnica de construção com pré-moldados (Mathey, 1988). Observando os preços das moradias construídas antes e depois da Revolução, podemos perceber que as moradias 'capitalistas' possuem preços mais altos do que as casas construídas durante a Revolução, como demonstra o Gráfico 31." (p. 220)
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Por que trocar de moradias em Havana, Cuba?
"Sendo assim, pode-se afirmar que os elementos que levam os havaneiros a quererem trocar de moradia dizem respeito também à necessidade de adequar a habitação ao novo perfil demográfico da população, por isso, os desejos de reduzirse ou ampliarse motivam tantas trocas no mercado de imóveis. Atualmente, em Havana, é possível encontrar pessoas sozinhas, geralmente aposentados, vivendo em casas grandes que antes haviam abrigado toda a família. Sem condições físicas e financeiras para manter o imóvel grande, muitas pessoas têm o desejo de mudar-se para uma casa menor e sem tantas necessidades de manutenção, ou seja, desejam reduzirse. Por outro lado, também como consequência da demanda represada por novas moradias, existem muitas casas ocupadas por mais de um núcleo familiar. Nesse caso, o desejo de ampliarse revela a expectativa que, com a venda de um imóvel, se possa comprar duas casas ou mais para abrigar os diferentes núcleos familiares." (p. 239)
Aline também cita a dificuldade de locomoção em Havana como motivação para as pessoas se mudarem.
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A diferenciação social atualmente em Cuba:
(...) a riqueza se expressa de maneira relativa, no consumo e acesso a certos bens e serviços. Portanto, trata-se da 'riqueza do funcionário', ou seja, de um grupo social que devido aos seus salários e relações pessoais possui um padrão de consumo superior (Lima, 2021). Essa riqueza não está associada à propriedade privada, pois é permitido aos 'ricos' somente a propriedade de um automóvel, uma moradia habitacional e uma moradia de lazer. Portanto, a diferenciação social se expressa nas distinções entre o tipo e a localização da moradia, o tipo de automóvel e os acessos e consumos exclusivos, como explica Ricardo Torres Pérez (Lima, 2021)." (p. 240)
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Para concluir esse pequeno fichamento do capítulo, cito uma parte da síntese de Aline:
"Ao longo do capítulo, relacionamos o mercado de imóveis em Havana com quatro elementos que influenciam sua dinâmica e seus preços, são eles: a relação com os EUA, a tipologia do imóvel e sua adequação aos trabalhos cuentapropias, a localização do imóvel e as demandas habitacionais dos havaneiros." (p. 241)
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Agora é reler o capítulo seis sobre "A renda da terra no mercado de imóveis havaneiro e suas consequências", no qual Aline vai apresentar a Teoria do Valor em Marx (anotações da 1a leitura feitas aqui) e concluir a leitura do livro.
William
04/05/26


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