segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Leitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

Leitura do capítulo 4.

O SEMEADOR E O LADRILHADOR

-A fundação de cidades como instrumento de dominação
-Zelo urbanístico dos castelhanos: o triunfo completo da linha reta
-Marinha e interior
-A rotina contra a razão abstrata. O espírito da expansão portuguesa. A nobreza nova do Quinhentos
-O realismo lusitano
-Papel da igreja

ANEXOS AO CAPÍTULO

1. VIDA INTELECTUAL NA AMÉRICA ESPANHOLA E NO BRASIL

UNIVERSIDADES E IMPRENSA NA AMÉRICA ESPANHOLA, nota 10!; NA PORTUGUESA, nota zero!

"Em todas as principais cidades da América espanhola existiam estabelecimentos gráficos por volta de 1747, o ano em que aparece no Rio de Janeiro, para logo depois ser fechada, por ordem real, a oficina de Antônio Isidoro da Fonseca".

Estima-se em 150 mil diplomados em toda a América espanhola para o período colonial, pois desde o século XVI havia universidades em quase todos os países colonizados por eles. Já o número de graduados da colônia portuguesa em Coimbra é ridículo.

"Os entraves que ao desenvolvimento da cultura intelectual no Brasil opunha a administração lusitana faziam parte do firme propósito de impedir a circulação de ideias novas que pudessem pôr em risco a estabilidade de seu domínio".

2. A LÍNGUA-GERAL EM SÃO PAULO

Li este anexo hoje - aniversário de 456 de São Paulo -. O texto nos fala dos bandeirantes, da maneira meio-matriarcal que prevaleceu aqui nos primeiros séculos pois os homens estavam sempre em suas "missões" desbravadoras de adentrar às terras do oeste para caçar e aprisionar índios para mão de obra - o que trouxe a expansão dos limites geográficos brasileiros estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. Enquanto isso, suas mulheres - a maioria índias ou mamalucas - mantinham as coisas nas vilas paulistas e o idioma de comunicação era a língua dos gentios e não a portuguesa.

Em uma interpretação pessoal sobre a leitura, eu diria, seguindo a linha diferenciadora do autor entre as colonizações portuguesa e castelhana, que os portugueses tiveram efetivo sucesso por serem mais flexíveis à terra colonizada em geral - seja topograficamente, seja na relação de conquista e submissão dos povos aqui presentes. Primeiro se comunicaram na língua do gentio, para depois estabelecer a língua portuguesa só lá na 1a metade do século XVIII.

Abaixo algumas citações:

"Atraindo periodicamente para o sertão distante parte considerável da população masculina da capitania, o bandeirismo terá sido uma das causas indiretas do sistema quase matriarcal a que ficavam muitas vezes sujeitas as crianças antes da idade da doutrina e mesmo depois"

O governador Antônio Pais de Sande, fala em relatório sobre as mulheres paulistas: "formosas e varonis, e he costume alli deixarem seus maridos á sua disposição o governo das casas e das fazendas".

A GENTE PAULISTA LARGA O TUPI E PASSA AO PORTUGUÊS NA 1a METADE DO XVIII

"De modo que o processo de integração efetiva da gente paulista no mundo da língua portuguesa pode dizer-se que ocorreu, com todas as probabilidades, durante a primeira metade do século XVIII".

COMENTÁRIO: Isso deve ser um horror para a elite paulista! Na verdade, tudo indica que eles gostariam que esse processo fosse direto para a língua inglesa, muito mais chique! Aliás, elite tão desinformada que gostaria de ser - E AINDA QUEREM - ser colônia dos falantes do inglês, ao invés dos ibéricos, como se isso nos fizesse alguma diferença enquanto povo brasileiro. Deixo aqui só um excerto de Daniel Defoe sobre a origem dos ingleses.

"Así pues, de una Mezcla de todas clases surgió,
esa cosa Heterogénea llamada Un inglés:
engendrado en raptos ansiosos y furiosas Lujurias,
entre un Bretón Pintado y un Escocés:
Cuyos descendientes aprendieron pronto a inclinar la cabeza
y a uncir sus Bueyes al Arado Romano:
De donde surgió una Raza Híbrida,
sin nombre ni Nación, Idioma o Fama.
En cuyas Venas calientes brotaron
rápidamente nuevas Mezclas,
combinaciones de un Sajón y un Danés.
Mientras que sus Hijas Fecundas,
con la complacencia de sus Padres,
recibían a todas las Naciones con Lujuria Promiscua.
Esta Progenie Nauseabunda contenía directamente
la Sangre bien extractada de los Ingleses [...]"

(Daniel Defoe, The True-Born Englishman. In: Anderson, Benedict. Comunidades Imaginadas. Fondo de Cultura Económica)

COMENTÁRIO 2: Todas as origens são iguais e todos os humanos valem a mesma coisa: VALEM MUITO COMO SERES HUMANOS. Cada ser humano é único e por isso valioso.

DIFERENÇA DAS LAVOURAS NO SUDESTE X NORDESTE

"Ao oposto do que sucedeu, por exemplo, no Nordeste, as terras apropriadas para a lavoura do açucar ficavam, em São Paulo, a apreciável distância do litoral, nos lugares de serra acima - pois a exígua faixa litorânea, procurada a princípio pelo europeu, já estava em parte gasta e imprestável para o cultivo antes de terminado o século XVI. O transporte de produtos da lavoura através das escarpas ásperas da Paranapiacaba representaria sacrifício quase sempre penoso e raramente compensador"

PORTUGUESES: SERTÃO ADENTRO, TORDESILHAS ALONGADO... EM TUPI

"Mas se é verdade que, sem o índio, os portugueses não poderiam viver no planalto, com ele não poderiam sobreviver em estado puro. Em outras palavras, teriam de renunciar a muitos dos seus hábitos hereditários, de suas formas de vida e de convívio, de suas técnicas, de suas aspirações e, o que é bem mais significativo, de sua linguagem. E foi, em realidade, o que ocorreu".

E o autor conclui:

"O que ganharam ao cabo, e por obra dos seus descendentes mestiços, foi todo um mundo opulento e vasto, galardão insuspeitado ao tempo do Tratado de Tordesilhas. O império colonial lusitano foi descrito pelo historiador R. H. Tawney como 'pouco mais do que uma linha de fortalezas e feitorias de 10 mil milhas de comprido'. O que seria absolutamente exato se se tratasse apenas do império português da era quinhentista, era em que, mesmo no Brasil, andavam os colonos arranhando as praias como caranguejos. Mas já no século XVIII a situação mudará de figura, e as fontes de vida do Brasil, do próprio Portugal metropolitano, se transferem para o sertão remoto que as bandeiras desbravaram".


Bibliografia:
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, 26ª edição, 27ª reimpressão 2007.

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