domingo, 22 de março de 2026

O difícil é a realização de si mesmo


Talvez o instante de maior relevância no dia de ontem, deste cidadão que escreve, tenha sido a esmola para aquele senhor no farol com os seus cachorros. 

Faz tempo que ele sobrevive pelas ruas com seus fiéis amigos. Ele está cada dia mais curvado, mancando, definhando. Seu olhar ainda está em minha memória. 

A condição daquele senhor demonstra a falência da sociedade humana.

O tempo que disponibilizei para fazer chegar donativos diversos aos irmãos e irmãs cubanos nas últimas semanas também tem a sua relevância ética e social. Todos nós humanos deveríamos fazer isso. Nem todos fazem algo por outras pessoas.

No entanto, minha cabeça está num turbilhão de pensamentos... as ideias vão ao passado, imaginam um eventual futuro, voltam para o presente. Penso em mim e penso no mundo ao meu redor... e fica uma pergunta estranha martelando lá dentro da cabeça: e eu? 

O que posso fazer por mim mesmo? Ainda

William 

22/03/26

sábado, 21 de março de 2026

Como um beija-flor lutando contra um incêndio na floresta


A Rede Globo já iniciou novo golpe contra a democracia, o povo brasileiro e o Partido dos Trabalhadores. O presidente Lula e a legenda do PT já são pauta e agenda da organização golpista. Os verdadeiros criminosos serão desaparecidos da pauta e agenda midiática. 

No campo da "esquerda" o quadro é o de sempre... sempre! Dividir para governar (para a direita governar).

Nas eleições do Conselho de Administração da Caixa Federal, a candidata apoiada pela confederação cutista e por ampla maioria das entidades associativas dos empregados ficou em 2° lugar. Os apoiadores do vencedor se vangloriam de terem derrotado "a máquina" da confederação cutista... e vi gente de "esquerda" apoiando o fulano. Que porra esquisita é essa!

Nas eleições da autogestão em saúde dos funcionários do Banco do Brasil tem uma chapa cujo candidato a diretor de saúde é bolsonarista e defensor do uso de cloroquina para não pegar Covid-19 (tem vídeo gravado e tals). Enquanto isso, a "esquerda" se dividiu em duas chapas que defendem modelos parecidos de gestão em saúde (sem cloroquina, imagino). Num mundo no qual a metade dos humanos já está perdida e a outra metade está em disputa, vai saber o que vai dar o resultado das eleições. Pode dar cloroquina pra todo mundo.

Na Comissão da Mulher do Congresso Nacional a escolha da presidência abriu uma discussão inesgotável em todos os espectros da política sobre a liderança escolhida. O foco das discussões não são os homens e mulheres de direita que compõem a comissão...

Aí, para finalizar, recebo de um amigo querido um vídeo da maldita plataforma de streaming Brasil Paralelo para apreciar comentários sobre o Oscar 2026 (plataforma conhecida por reescrever a história humana com mentiras, com ilações e com muito dinheiro vindo de algum lugar). O vídeo não é ruim, devo dizer. É até engraçado. Mas é da Brasil Paralelo...

Seguirei fazendo a minha modesta parte de beija-flor levando água no bico para apagar o incêndio na floresta (como reza certa lenda e como escreveu meu pai um dia). A perspectiva não é de sucesso, mas levo a gota de água. 

Estou levando uma gota de água a Cuba e aos irmãos cubanos. A vida é atitude, gestos e uma oportunidade única de fazer e sentir. 

William 

21/03/26

sexta-feira, 20 de março de 2026

Não desistam, a vida vale a pena!


Das memórias mais antigas relativas aos sonhos e desejos, me lembro que queria ter uma casa própria, uma moto, e uma pessoa que amasse. Tão básico!

Me lembro de chorar (homens choram) em vários trabalhos braçais que exerci. Na bicicleta pesada, tomando chuva pra entregar remédio; naquele primeiro dia na obra, quebrando concreto com ponteiro, talhadeira e marreta. 

Só entendi que a vida valia (valeu) a pena muito depois do tempo no qual não queria viver. 

Amei. Fui amado. Tive moto. Casa. Fiz algo para além de mim mesmo. Tentei levar uma vida que não prejudicasse as pessoas e a minha classe social.

A sociedade humana está numa situação ruim. O planeta Terra também. É fato.

Se tivesse relevância alguma leitura que tenho da vida, diria ao meu filho, aos jovens, às mulheres, aos amigos, aos políticos bem-intencionados, que a vida humana vale a pena, a vida é uma oportunidade. 

Não desistam de suas vidas, não desistam do bem coletivo, não desistam de serem felizes. Não desistam de nosso único planeta, nossa casa.

William 

20/03/26

quinta-feira, 19 de março de 2026

Falar ou calar, eis a questão


Por muito tempo falei. Até mais do que deveria. Tempos depois, o silêncio. Agora o dilema: falar ou calar. 

Depois de tanto tempo de silêncio, falei recentemente. Ainda soube falar. Falei o que penso sobre certos assuntos.

Falar ou calar... (de verdade, eu nem sei se poderei falar num provável amanhã...)

William 

19/03/26

terça-feira, 17 de março de 2026

O sentido da vida (21)



O prazer da corrida como sentido do viver

Final da tarde. O dia foi de muito calor, mais de trinta graus. O verão se despede e anuncia o outono. As ruas cheias de folhas caídas. O final de tarde e início de noite mexiam com os hormônios e fluidos do antigo corredor.

A natureza, a passagem do tempo e as veredas percorridas deixaram sequelas em seu corpo. O quadril e sua estrutura musculoesquelética perderam a capacidade de percorrer grandes distâncias correndo. Até os pés doíam ao serem mais exigidos.

Aquela tarde, o lusco-fusco chegando, a temperatura amena, os pássaros se preparando para o repouso, tudo atiçava o ex-corredor para um trote no parque.

Colocou o tênis, pegou sua água, saiu para as ruas do mundo lá fora.

Começou o trote leve, leve, pisada quase flutuada, para não impactar muito sua estrutura avariada pelo tempo e pelos caminhos já deixados para trás.

Além da pisada, concentrou-se também na respiração. E no batimento cardíaco, para não exagerar no esforço.

O prazer veio, então. Passou por várias corredoras e corredores ganhando também as ruas naquele fim de tarde de verão.

A sensação de poder fazer algo que sempre amou na vida é indescritível... a vida também é isso... o prazer de uma simples corrida num final de tarde de verão.

O prazer da corrida como sentido do viver...

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segunda-feira, 16 de março de 2026

Vendo filmes (XXXIV)



Refeição Cultural

A EFEMERIDADE DA VIDA HUMANA


Quatro filmes me deixaram pensativo nesses dias, quatro filmes muito diferentes em suas temáticas e enredos, mas que me chamaram a atenção para uma questão: a efemeridade da vida humana. 

As histórias do professor Marcelo ("O agente secreto"), do lenhador Robert ("Sonhos de trem") e do autor de peças teatrais William ("Hamnet") são histórias de todos nós, homens e mulheres do mundo, de hoje e de ontem. 

A história do andarilho Chris McCandless ("Na natureza selvagem") é a história de pessoas que não se encaixam na sociedade humana dominada pela lógica da posse supérflua de coisas, coisas e mais coisas, mercadorias inúteis do fetiche capitalista. 

Uma história se passa nos anos setenta, durante a ditadura no Brasil, outra se passa um século antes, ainda na expansão para o Oeste, nos Estados Unidos, e uma terceira se passa lá na Inglaterra, séculos atrás. 

A história do jovem McCandless é a mais recente, é do tempo da minha adolescência, no início dos anos noventa do século XX. 

O que é a vida humana se a compararmos com a natureza e seus elementos? 

Podemos existir por muito ou pouco tempo, fazer coisas grandes e importantes ou nada de relevância histórica, nossa lembrança pode permanecer por um breve tempo ou por um pouco mais de tempo. No entanto, estamos fadados ao esquecimento, ao desaparecimento. 

A vida e a existência são assim mesmo. E tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada! O difícil é aceitar essa nossa pequeneza diante do mundo, da natureza em si.

Ainda estou bolado, pensando nessa questão da efemeridade natural da vida, a partir das histórias das personagens dos filmes. 

Sabedores dessa realidade, deveríamos viver de maneira mais consciente, sorvendo o que importa sem desvios de atenção para coisas irrelevantes. 

E o pior é que não fazemos isso. E a vida passa e não fizemos ou sentimos o que poderia ser feito ou sentido...

A vida é breve, é um instante, mesmo quando se vive algumas décadas... um instante. 

E como estamos vivendo? O que temos priorizado na vida? Já fizemos algo hoje que valha a pena?

Nunca se sabe se ao sair de casa um galho vá cair em nossa cabeça e o fim seja aquele instante. 

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FILMES


O agente secreto (2025)

Direção: Kleber Mendonça Filho. Com: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido e elenco.

Sinopse:

Ambientado no Recife, no final dos anos setenta, período de exceção da ditadura no Brasil, o filme conta a história de Marcelo, professor universitário - cujo nome verdadeiro é Armando - que retorna à terra natal após conflitos com um industrial poderoso que paga assassinos de aluguel para perseguir o professor. Marcelo quer encontrar seu filho, que está com os avós, e viver a sua vida e ser feliz.

Comentário:

A cena inicial do filme já me transportou para o passado no qual cresci: policiais bandidos e abusadores tentando receber propina dos cidadãos no cotidiano do Brasil dos anos setenta e oitenta (e ainda hoje). 

Mesmo sendo pobre de pele branca, tomei enquadro dos desgraçados da polícia desde pequeno...

Com os cidadãos afrodescendentes é mil vezes pior, a vida do pobre não vale nada para a polícia da casa-grande: matam o povo periférico mais do que se mata nas guerras. A maioria dos negros e descendentes ocupam as bases da pirâmide social. 

Gostei muito do filme! O que se passou com Armando, ou Marcelo, ser vítima de algum poderoso por qualquer motivo banal, é o retrato do Brasil do passado e do presente. 

Nossa vida pode encontrar o fim só pela casualidade de se cruzar o caminho de um fdp desses, caras do 1% ou do exército dessa casta canalha, que odeia o povo e o Brasil.

Quem nunca ouviu falar do perigo do guarda da esquina... 

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Sonhos de trem (2025)

Direção e roteiro: Clint Bentley. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história de Robert Grainier, um lenhador do início do século XX nos Estados Unidos, desde sua adolescência, união com Gladys Olding, com quem constitui família, e suas jornadas e ausências de casa para ganhar o sustento cortando árvores centenárias para a construção de trilhos de trem rumo ao Oeste.

Comentário:

De todos os filmes dos quais teço impressões, "Sonhos de trem" é o de maior temática sobre a brevidade da vida, na minha opinião. 

Num instante, estamos e não estamos mais aqui, somos e não somos mais. 

Num instante, uma árvore com centenas de anos de existência perde a vida, morta por uns minúsculos seres com ferramentas cortantes lá no rés do chão. 

Num instante, um galho de uma árvore centenária cai na cabeça de um ser minúsculo lá no rés do chão e lá se vai a vida, num instante. 

Num instante, um incêndio pode por fim a inumeráveis formas de vida... e das cinzas novas formas de vida podem surgir. Outras vidas nunca mais serão as mesmas após um grande incêndio.

Somos natureza, somos seres quase invisíveis em nossas existências, assim somos nós. Robert é uma existência única, sua esposa e filha também, eu e vocês somos existências únicas. 

Todos somos passageiros do mesmo trem, o trem da vida, o trem da brevidade da vida. 

E todos temos nossos sonhos. E os sonhos nos movem por esses trilhos e caminhos...

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Hamnet: a vida antes de Hamlet (2025)

Direção: Chloé Zhao. Com: Jessie Buckley, Paul Mescal e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história do casal Shakespeare, o nascimento dos filhos, a morte do filho Hamnet ainda pequeno, e o drama que essa perda trouxe à família. A tragédia inspirou o dramaturgo a escrever uma de suas peças mais famosas, Hamlet.

Comentário:

A interpretação brilhante de Jessie Buckley como Agnes Hathaway, esposa de William Shakespeare, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz da Academia em 2026. Incrível sua performance, sem dúvida. O prêmio foi merecido.

No entanto, o filme me levou às lágrimas por uma questão sempre muito pessoal, naquilo que mais toca a cada um de nós: a morte e o sentido da vida. No meu caso, a lembrança do dilema dramático do personagem Hamlet, da clássica peça de Shakespeare. 

Ser ou não ser, eis a questão...

A reflexão completa do personagem é desconhecida por aqueles que ainda não conhecem a peça, Hamlet vive sob intensa dor ao saber das traições em família que levaram à morte seu pai. A dor lancinante aumenta ao ver sua mãe esposa de seu tio.

O filme me trouxe reflexões sobre a brevidade da vida, sobre o ser e estar por aqui ou não, me lembrou a difícil superação de não querer ser e estar por aqui por longos anos e pelas oportunidades surgidas por ter sido e ter estado por aqui nas últimas décadas... ser ou não ser... dormir, acordar, talvez sonhar...

Shakespeare, Hamlet, Hamnet... valem a pena!

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Na natureza selvagem (2007)

Direção: Sean Penn - Trilha sonora de Eddie Vedder

Com: Emile Hirsch (Chris), Jena Malone (irmã), Kristen Stewart ("crush"), William Hurt (pai), Marcia Gay Harden (mãe), e elenco. 

Sinopse:

Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na Universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, ao invés de partir para uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para a caridade, livrar-se de seus pertences e viajar rumo ao Alasca.

Comentário:

Quando vi pela primeira vez o filme baseado na história real de Chris McCandless, dirigido por Sean Penn, a partir do livro de Jon Krakauer, fiquei impactado por muito tempo. 

McCandless nasceu um ano antes de mim e no início dos anos noventa estava em sua busca pessoal por liberdade, autoconhecimento e fuga de uma sociedade humana capitalista, toda ela baseada nas posses de coisas, coisas, coisas. Ele estava de saco cheio de relacionamentos humanos tóxicos e interesseiros e queria se isolar na natureza selvagem do Alasca. 

Na mesma idade e na mesma época, eu procurava respostas para as mesmas perguntas.

Ao rever o filme duas décadas depois, já sabendo da descoberta feita por "Alex Supertramp", o nome que McCandless adotou em seus tempos de andarilho, fiquei pensando em muitas coisas, muitas. 

A lição a respeito da felicidade verdadeira ser alcançada através dos relacionamentos humanos, algo que Chris compreendeu a partir da vivência de sua jornada e também pela leitura de grandes autores como, por exemplo, Tolstoi - e o livro "Felicidade conjugal" -, me pegou de jeito desde o instante que tomei conhecimento da história do jovem andarilho.

"Happiness only real when shared"... (é isso mesmo! é verdade isso! e nesse sentido, posso dizer que fui feliz... os momentos mais marcantes de minha vida foram ao lado de alguém)

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É isso, termina aqui mais um texto da série de comentários sobre filmes que me trazem reflexões sobre a vida.

O comentário anterior pode ser lido aqui

William Mendes 

16/03/26

domingo, 15 de março de 2026

Livro: Infância - Graciliano Ramos



Refeição Cultural 

LITERATURA


"Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero." (G. RAMOS, "Um cinturão", p. 32)


Graciliano Ramos tinha 53 anos de idade quando publicou o livro Infância, em 1945. É um livro duro, sem meias palavras. A infância do personagem foi muito dura, de violência gratuita no cotidiano. A criança do romance é ele mesmo, o garoto que nasceu em 1892 no agreste de Alagoas.

São 39 capítulos de memórias do personagem adulto que conta sua infância no interior do Nordeste nos últimos anos do século XIX e início do século XX. 

O adulto narrador do romance é um escritor maduro e com uma obra de referência na literatura brasileira: Graciliano Ramos. Porém, as memórias do escritor, na forma de romance, são as memórias de todos nós, são universais.

A crítica literária tem longa história de estudos sobre discursos narrativos que mesclam realidade e ficção em obras literárias. Toda memória tem um quê de ficção porque preenchemos lacunas e damos sentidos a ela.

A técnica literária e a capacidade ímpar de Graciliano Ramos em mergulhar leitores em suas memórias da infância nos faz ver em cada capítulo - que para mim são contos - as nossas histórias pessoais e cotidianas da infância e adolescência.

Fui escrevendo minhas impressões enquanto ainda lia o romance, antes de finalizar os 39 capítulos. Não queria que a leitura acabasse... As histórias do livro são como as passagens da bíblia para as pessoas religiosas. O ideal seria ter a obra à cabeceira da cama. Cada parágrafo é uma lição, uma reflexão, um prazer ao ler texto bem escrito.

Certa vez, enquanto era aluno de Letras, fiz um poema abordando três autores que me influenciavam naquele momento (com uns trinta anos de idade): Caeiro, Drummond e Graciliano Ramos (ler aqui). Dizia que, ao final de meu desenvolvimento com a escrita, queria chegar à técnica literária de Ramos. O que desejava ser como escritor é o que leio em Infância. Demais!

As histórias da leitura e dos leitores, como nos contou magnificamente Alberto Manguel (um exemplo aqui) são únicas ao longo dos tempos. O personagem de Infância nos conta que até os nove anos de idade, seguia sem conseguir ler e entender o sentido dos textos. Sendo a história do escritor, vemos que aquela criança se tornou um dos melhores escritores do país.

Após ler mais algumas histórias - a do capítulo "Fernando" é fascinante -, avancei para as últimas cinco do livro. Repito: o romance-bíblia deveria ficar na cabeceira da cama para sempre. Queria escrever assim!

(E pensar que quis ser literato e professor, até entrei em uma faculdade de Letras e as veredas da vida me levaram a ser sindicalista...)

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"Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa - e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo." ("A criança infeliz", p. 237)

Esse era o método de ensino no país no início do século XX...

Amigos leitores, cada conto (capítulo) é uma história comum a inumeráveis crianças do Brasil e do mundo, do passado e do presente...

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Infância (1945) foi marcante para mim, foi uma leitura de reencontro com Graciliano Ramos. Uma leitura de descoberta e de compreensão a respeito do escritor que sempre admirei e do qual eu não conhecia seu passado, seu ambiente de aculturamento e formação.

O posfácio "Graciliano Ramos e o Sentido do Humano", de Octavio de Faria, que faz parte da minha edição do livro, ampliou ainda mais a minha compreensão a respeito da poética do escritor.

Um dos livros impactantes em minha vida, que me levou inclusive a escrever uma crônica relativa à minha infância e adolescência, é justamente Angústia (1936), considerado por Octavio de Faria, a obra principal de Graciliano Ramos. 

Ao ler o livro no início dos anos dois mil e após entrar na faculdade de Letras, me lembrei de meus dias de ajudante de encanador ao ler as reflexões do personagem Luís da Silva (ler aqui).

Eu já havia tido o privilégio de ler Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), além de Angustia. Cheguei a escrever em um poema que meu sonho era alcançar o estilo Graciliano Ramos de escrever após uma suposta evolução na produção literária. Utopia! G. Ramos é único!

Ao ler Infância, neste momento de meu viver, compreendi a obra toda de Graciliano Ramos. Agora vejo claramente Fabiano e toda a dureza do enredo de Vidas Secas. Como não entender Paulo Honório, de São Bernardo?

Ao terminar a leitura demorada de Infância, porque lia um capítulo ou conto e parava, concluí que a minha natureza psicológica é mais Graciliano Ramos que qualquer outro autor pelo qual nutro admiração. 

Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade são deuses para mim, assim como Graciliano Ramos. Mas quando olho para a minha vida, o meu percurso da infância até aqui, sou Graciliano. E minha infância até os dez anos foi o inverso da dele, mas a adolescência minha... foi a infância dele: miséria e violências sociais.

Não tenho outra opção em minha vida torta de leitor repleto de lacunas culturais a não ser ler Memórias do Cárcere (1953), do autor espelho de minha psicologia, daquilo que se costuma chamar alma. 

Espero que dê certo completar o percurso dos romances do mestre Graciliano Ramos. Ele teria muito que escrever para nós, quando faleceu no auge de sua produção, como aconteceu a Guimarães Rosa.

Viva a literatura!

William

quinta-feira, 12 de março de 2026

Diário e reflexões - Sou natureza e a vida é uma ordem



Refeição Cultural

Osasco, 12 de março de 2026. Quinta-feira.


SOU NATUREZA E A VIDA É UMA ORDEM

Nas últimas duas semanas, vivi dias que me fizeram recordar o que fui um dia. Em Brasília, passei dias nos locais de trabalho do Banco do Brasil conversando com os trabalhadores a respeito das eleições sindicais locais. Na grande São Paulo, revivi meus tempos de diálogo com a categoria bancária que representei por bastante tempo. Dessa vez, a eleição em pauta é a da nossa autogestão em saúde, na qual fui diretor eleito um dia.

Eu dediquei o melhor momento de minha vida adulta à representação da classe trabalhadora. Isso me deu um sentido na vida que eu não havia encontrado até então. A mudança daquele papel social para o seguinte foi difícil, pelo contexto no qual o desligamento se deu. Busquei outros sentidos do viver, assim como fiz da adolescência até aquela novidade de me pegar dirigente sindical de uma hora para outra. A vida é dar sentido ao viver, é o que penso.

Farei uma viagem nos próximos dias. A viagem também será uma oportunidade de dar sentidos ao viver: estarei num lugar especial - Cuba -, com pessoas solidárias e com ideias de mundo melhores que algumas que erram pela Terra. Quando voltar, estarei de novo buscando sentidos para os dias, meses, alvoradas e crepúsculos de um mundo em desfazimento total.

A vida em sociedade estará cada dia mais incerta, e com isso a nossa vida estará cada vez mais incerta também. A morte e a mudança de perspectiva social serão constantes ameaças em um mundo dominado por extremistas fascistas com poder de destruição e morte e com povos com pouca capacidade de reação.

O amanhã não será melhor... isso é desalentador. Mas devemos seguir lutando pela vida, pelas maiorias miseráveis e alienadas, não podemos desistir do mundo e das vidas. 

Ter adquirido o conhecimento que adquiri nas veredas que percorri na vida me torna responsável pelo mundo que está aí. Edward Said nos ensinou o papel ético daqueles que têm conhecimento. É a ética dos intelectuais.

O pessimismo da razão invade minha consciência... mas minha formação humana e de esquerda, fruto da minha trajetória sindicalista, me coloca firme na caminhada da vida e da luta pela mudança. O sol nascerá daqui algumas horas e a vida e a luta seguem.

William

sábado, 7 de março de 2026

Instantes (21h29) - Lutar e perseverar num mundo sem direitos



Refeição Cultural

Na academia do condomínio, o usuário anterior do aparelho apertou com tanta força o parafuso que regula o encosto da cadeira que os usuários seguintes - homens e mulheres - não poderiam mais regulá-lo. O sujeito não tem o menor respeito pelos outros...

A energia acabou e voltou algumas vezes. O fornecimento de energia elétrica na grande São Paulo está cada dia pior. O serviço é privatizado. O governador de São Paulo, da extrema-direita, privatizou também a água. As pessoas na maior cidade do país estão sem água e energia elétrica a todo momento. E aqui nem tem embargo dos Estados Unidos como ocorre em Cuba...

A cidade de São Paulo e sua população estão largadas à própria sorte. O prefeito reeleito segue fazendo uma gestão semelhante à que fez quando herdou a cadeira do prefeito eleito e morto por câncer meses depois de assumir (não havia gestão e não há). Não há zeladoria, não se tem um olhar para as pessoas. Não se tem licitação para obra alguma, e se tem ela cheira a coisa estranha. Os parças financiadores de campanha mandam em tudo.

Vivemos assim: pessoas sem educação ao nosso redor; sem serviços básicos que prestam; sem governos locais que se preocupam com o povo.

E ainda lidamos com a epidemia de violência e assassinatos de mulheres...

Para registrar o instante, tem o Trump e os Estados Unidos, tem Netanyahu e Israel. Tem as bombas e assassinatos de crianças e mulheres e idosos executados por esses sujeitos. Tem os sequestros e assassinatos de líderes políticos de outros países.

Esses são os tempos...

E quase me esqueci de registrar que a casa-grande e sua mídia canalha estão a todo vapor para impedir Lula de ser reeleito, manipulando o povo como nunca antes... essa gente não merece viver. Mas estão por aí f. o conjunto do povo brasileiro.

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No entanto, temos os jovens, e as crianças, e a ciência que também cura, e pessoas que amam, que são solidárias, que cuidam e que abraçam com carinho...

Temos que perseverar e seguir e lutar para salvar as pessoas e o mundo. Ainda podemos educar e partilhar os conhecimentos que acumulamos ao longo de nossa história humana.

William

07/03/26

terça-feira, 3 de março de 2026

O sentido da vida (20)



Preservar a história coletiva dos trabalhadores


O momento histórico é de tráfego de bombas no céu, bombas que matam crianças, civis e autoridades políticas de países. 

Momento de mortes que atestam o baixo valor da vida no mundo onde tudo é mercadoria. Fim dos direitos. 

Ser do sexo feminino, ter pele não branca, ser periférico e pobre: perfis com baixo valor no capitalismo vigente. Risco alto de morte.

O sentido da vida talvez seja lutar para seguir vivendo para compartilhar a esperança na luta coletiva, na história da luta de classes. 

Passar dias nos locais de trabalho compartilhando com os novos trabalhadores o que todos já construíram juntos é uma razão para viver.

Salvar a humanidade tão incrível enquanto espécie e enquanto possibilidades é um sentido para a vida.

É necessário viver... e seguir lutando.

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