terça-feira, 25 de junho de 2019

Que podemos fazer? Compartilhar experiências


Arco-íris. Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Há momentos na vida em que nos pegamos meio perdidos, andando a esmo por aí. Algumas pessoas se adaptam bem a isso e até buscam viver assim, tipo "deixa a vida me levar". Outras pessoas têm certa necessidade em ter objetivos a alcançar, em ter um certo plano de por onde ir e aonde chegar.

Quando olho para trás, vejo que quis ser do primeiro tipo, mas acabei precisando ser do segundo tipo. Certa vez, um companheiro do movimento sindical me disse que eu não tinha nada de "anarquista", que eu queria mesmo era ver as instituições da sociedade humana funcionando como deveriam funcionar.

E assim fomos sobrevivendo a vida, assim vivemos entre a adolescência e a madurez dos cinquenta anos. Fazia listas de objetivos pessoais, muitos deles coisas básicas de direitos humanos como querer ter uma casa pra morar, poder trabalhar decentemente e estudar, amar e ser amado, ter uma motocicleta etc.

Ao mesmo tempo em que as pessoas vão atrás de seus sonhos e objetivos, as pessoas vivem em sociedade, e essa relação do ser humano com o seu meio é definidora de absolutamente tudo que vai acontecer na vida, queiramos ou não. Se estivermos numa sociedade injusta, preconceituosa, autoritária, pautada pela violência e ódio, sem igualdade de oportunidades, tudo será mais difícil, se não impossível.

Ao querer trabalhar e não ter emprego, seus sonhos emperram. Ao querer estudar e não ter oportunidade por falta de vaga pública ou falta de dinheiro para a vaga particular, seus objetivos não se realizam. Ao não trabalhar e não estudar, a pessoa não terá casa, não terá bens próprios, não terá condições de amar e ser amada, não terá uma vida na plenitude do conceito.

Eu nasci num Brasil cujos governos não olhavam para o povo, para gente como nós, eram tempos de ditadura civil-militar nos anos setenta e oitenta, toda minha família era de gente tentando sobreviver na vida sem oportunidades. Os governos eram montados para cumprirem a agenda da elite, e para manterem quieta a classe trabalhadora. A ordem clara do governo e velada nos espaços privados era: não se rebelem! não se manifestem! E a elite através de seus meios acalentava os miseráveis dizendo que havia paz social.

Depois sobrevivi num Brasil cujos governos passaram a ser eleitos pelo povo. As liberdades voltaram a dar esperanças de dias melhores e futuro com mais oportunidade para todos. Os primeiros governos eleitos também preferiram cumprir a agenda da elite, mantendo uma relação secular de patrimonialismo da casa grande se beneficiando do Estado. E o povo continuou a não ser a pauta central e o objetivo dos governos nos anos noventa.

Então vivi a virada do século e do milênio e o povo escolheu governos que passaram a incluir no orçamento e nos objetivos do Estado aquilo que a carta magna de 1988, a Constituição Federal, definia como direitos dos cidadãos. Estava escrito lá que o povo tinha direitos civis, políticos e sociais. E os governos mais democráticos e populares passaram a perseguir os objetivos da CF. Por mais de uma década, o Estado foi indutor da economia e o orçamento federal com políticas públicas deu ao povo oportunidades de emprego, educação e, com isso, deu alimento, lazer e sonhos a dezenas de milhões de pessoas. Os governos do PT nos deram, sobretudo, o espírito de pertencimento em sermos brasileiros e o povo era feliz (mesmo que alguns não tivessem consciência disso).

Por praticamente duas décadas, fiz parte dessa experiência brasileira de ascensão do povo no olhar e na pauta do Estado e dos governos democráticos do PT e demais partidos progressistas e populares após o início dos anos dois mil. Virei representante eleito pelos trabalhadores em instituições sindicais e sociais de classe desde 2002 e cumpri mandatos com várias tarefas diferentes até 2018. Foi a maior e melhor experiência que um ente da classe trabalhadora pode ter: estar nas lutas pacíficas e democráticas por direitos para as pessoas comuns como nós bancários e demais segmentos de trabalhadores do povo brasileiro.

Cumpri uma espécie de quarentena de um ano sem me envolver nas discussões da comunidade Banco do Brasil após terminar o mandato na nossa entidade de autogestão em saúde, assim respeitava o processo democrático e dava um prazo razoável sem questionar as ações e decisões tomadas pelos representantes que estão à frente da gestão da Cassi. 

Da mesma forma que não me envolvi com opiniões nas questões das nossas entidades de saúde e previdência, também não me envolvi nas discussões políticas das entidades sindicais. É fato que ajudei a construir o movimento sindical bancário e classista por duas décadas e desejo muito que a classe trabalhadora consiga unidade e mobilização para barrar e reverter os ataques aos direitos históricos que vêm sendo retirados do povo trabalhador como, por exemplo, os próprios bancários da ativa e aposentados.

Acredito que a experiência que acumulei no seio do movimento sindical e social me permite contribuir de alguma forma para que os atuais representantes dos trabalhadores e eles próprios possam desenvolver novas ideias e estratégias de fortalecimento das lutas pela manutenção de nossos direitos trabalhistas, de saúde, de previdência, e todos os demais direitos civis, políticos e sociais.

Na medida de minhas possibilidades, voltarei a escrever sobre a experiência nas questões de gestão de saúde, e se for de interesse da comunidade Banco do Brasil e do movimento sindical, estou à disposição para partilhar as experiências que tivemos nas áreas de organização dos trabalhadores, formação política e de história do movimento de luta de classes. 

Hoje sou um cidadão consciente que sofre todos os dias com os ataques que são desferidos contra os trabalhadores brasileiros e suas instituições de classe e quero contribuir com as lutas sociais, apesar de não ser dirigente político ou partidário.

Abraços a tod@s,

William Mendes


Post Scriptum:

É tão desesperador ver que nosso país não vive mais em um estado democrático de direitos, que um regime de exceção tomou conta do Brasil e que as forças de ocupação dos espaços de poder podem tomar medidas arbitrárias contra qualquer cidadão, como fazem ao manter preso sem crime e sem respeito aos seus direitos constitucionais o cidadão de 73 anos Lula da Silva, que, às vezes, a gente fica sem rumo para as coisas mais triviais do cotidiano. Eu não tive cabeça sequer para fazer uma prova de faculdade hoje. Mas isso parece tão irrelevante perto do que estão fazendo com o Lula, com o povo brasileiro, com nossos direitos...

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Marx explica o dinheiro em 'O Capital'





Refeição Cultural

Confesso que sempre que abro o livro O Capital e começo a leitura neste momento da minha vida, da história do Brasil e da história do mundo, fico me perguntando qual o sentido disso, sendo que os livros clássicos da literatura mundial continuam me esperando, e o meu tempo de existência vai passando sem que eu leia mais alguns clássicos que marcaram a história das artes literárias.

Eu não sei ao certo por que não aproveito cada minuto que ainda tenho e foco em ler o que desejo há décadas. Talvez esteja comprometido para sempre com o engajamento político que tive nas últimas duas décadas com o movimento sindical, social e político nas lutas por um mundo mais justo e solidário, e isso me force a estar sempre engajado em algo, nem que seja leituras políticas que nos façam compreender por que as coisas são como são, por que deu tudo errado no Brasil, por que o povo decidiu pelo suicídio coletivo ao escolher degenerados e lesas-pátrias para governar o país após tantos avanços com os governos democráticos e progressistas do Partido dos Trabalhadores.

Eu tenho consciência que estou perdido, que estou sem rumo, que as coisas perderam o sentido para mim. O pior é ter perdido a esperança em ver o povo deixar de ser besta, alienado e tomar consciência de seu lugar e seu papel numa eventual mudança de rumo para o país, que neste momento se desfaz, enquanto o povo miserável e a ficar mais miserável ainda continua com a cara nas telas das redes sociais rolando as memes imbecilizantes tela acima, curtindo e replicando elas quando dizem o que cada um sente e pensa, independente da meme ser verdade ou não. Os humanos se perderam. O homo sapiens sapiens será extinto.

Enfim, feito o desabafo, vamos às explicações de Karl Marx sobre o dinheiro, pois são bem interessantes. Lembro aos leitores que procuro citar as falas dele mesmo, e emitir pouca opinião, ao molde de fichamento de leitura.


III. O DINHEIRO OU A CIRCULAÇÃO DAS MERCADORIAS (P. 119)

1. MEDIDA DE VALORES

Marx começa o capítulo combinando com o leitor que usará o ouro como mercadoria dinheiro para simplificar as explicações.

O ouro exercerá a função de medida universal dos valores e só por meio desta função, a mercadoria equivalente específica, se torna dinheiro.

Abaixo, citamos uma síntese básica do que isso significa, lembrando a questão central de que as mercadorias trazem em si o valor do trabalho humano.

"Não é através do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. Ao contrário. Sendo as mercadorias, como valores, encarnação de trabalho humano e, por isso, entre si comensuráveis, podem elas, em comum, medir seus valores por intermédio da mesma mercadoria específica, transformando esta em sua medida universal do valor, ou seja, em dinheiro. O dinheiro, como medida do valor, é a forma necessária de manifestar-se a medida imanente do valor das mercadorias, o tempo de trabalho."

Depois Marx nos explica que "como forma do valor, o preço ou a forma dinheiro das mercadorias se distingue da sua forma corpórea, real e tangível. O preço é uma forma puramente ideal ou mental...".

No fundo, o trabalho humano está sempre presente no valor das mercadorias.

"O valor, ou seja, a quantidade de trabalho humano contida, por exemplo, numa tonelada de ferro, é expresso numa quantidade imaginária da mercadoria ouro, que encerra quantidade igual de trabalho."

DUAS FUNÇÕES DO DINHEIRO, SEGUNDO MARX

"Medida dos valores e estalão dos preços são duas funções inteiramente diversas desempenhadas pelo dinheiro. É medida dos valores por ser a encarnação social do trabalho humano; é estalão dos preços, por ser um peso fixo de metal. Como medida de valor, serve para converter os valores das diferentes mercadorias em preços, em quantidades imaginárias de ouro; como estalão dos preços, mede essas quantidades de ouro. A medida dos valores mensura as mercadorias como valores; o estalão dos preços, ao contrário, mede as quantidades de ouro segundo uma quantidade fixa de ouro, não o valor de uma quantidade de ouro segundo o peso de outra."

Estalão quer dizer padrão, medida (standard of value). Medida dos valores é measure of value.

Marx explica que uma variação no valor do ouro não traz nenhum prejuízo à sua função de estalão dos preços: "Por mais que varie o valor do ouro, quantidades determinadas de ouro mantêm entre si a mesma proporção de valor".

Uma onça de ouro terá sempre o mesmo peso, independente do valor do ouro. O mesmo ocorre como medida de valor das mercadorias, se sobe ou desce o valor do ouro, o efeito será sobre todas as mercadorias.

O filósofo segue explicando no capítulo os usos históricos da mercadoria dinheiro citando casos desde a antiga Roma até chegar ao padrão ouro.

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NOMES MONETÁRIOS - "Os preços, ou as quantidades de ouro em que se transformam, idealmente, os valores das mercadorias, são agora expressos nos nomes de moedas, ou seja, nos nomes legalmente válidos do padrão ouro. Em vez de dizer que uma quarta de trigo é igual a uma onça de ouro, diremos, na Inglaterra, que é igual a 3 libras esterlinas, 17 xelins e 10 e 1/2 pence. Assim, as mercadorias expressam com nomes monetários, o que valem, e o dinheiro serve de dinheiro de conta quando é mister fixar o valor de uma coisa em sua forma dinheiro."
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Marx vai finalizando essa parte do capítulo deixando claro que não adianta os governos quererem aumentar a riqueza de seus estados com artimanhas contábeis dizendo que seus capitais, suas moedas, valem mais do que valem.

"O nome de uma coisa é extrínseco às suas propriedades. Nada sei de um homem por saber apenas que se chama Jacó. Do mesmo modo, todo vestígio de relação de valor desaparece dos nomes das moedas libra, táler, franco, ducado etc. A confusão que decorre do sentido misterioso atribuído a esses símbolos cabalísticos torna-se maior por expressarem os nomes das moedas valor e, ao mesmo tempo, partes alíquotas de um peso de metal, de acordo com o padrão monetário..."

Nas notas explicativas, Marx ainda cita um autor do século XVII, Petty, ao fazer ironia sobre governos que querem enganar credores e o povo alterando artificialmente o valor de suas moedas: "Se a riqueza de uma nação pudesse ser decuplicada por ato governamental, seria de estranhar que os nossos governos não tivessem, há muito tempo, decretado atos com esse objetivo".

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Lembre-se: "O preço é a designação monetária do trabalho corporificado na mercadoria".
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PREÇO

Marx faz uma longa explicação sobre a questão do preço nas mercadorias.

"Se o preço, ao revelar a magnitude do valor da mercadoria, revela a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, não decorre daí necessariamente a recíproca de que o preço, ao revelar a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, revele a magnitude do valor da mercadoria"

Isso porque, por exemplo, "Trabalho socialmente necessário de igual grandeza cristaliza-se em 1 quarta de trigo e em 2 libras esterlinas (cerca de meia onça de ouro). As duas libras esterlinas são a expressão monetária da magnitude de valor de 1 quarta de trigo, ou seu preço. Admitamos que as circunstâncias elevem sua cotação a 3 libras esterlinas, ou compilam-na a cair a 1 libra; então, 1 libra esterlina é uma expressão demasiadamente baixa da magnitude do valor do trigo, e 3 libras, uma expressão alta demais, mas, apesar disso, são os preços do trigo, pois, primeiro, são sua forma de valor e, segundo, indicam sua relação de troca com o dinheiro. Não se alterando as condições de produção, em outras palavras, não se modificando a força produtiva do trabalho, deve-se continuar despendendo para a reprodução de uma quarta de trigo o mesmo tempo de trabalho social. Esta circunstância não depende da vontade do produtor do trigo, nem da dos outros donos de mercadorias. A magnitude do valor da mercadoria expressa uma relação necessária entre ela e o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, relação que é imanente ao processo de produção de mercadorias..."

Essa parte é importante para a compreensão do que Marx explica sobre a relação preço e valor das mercadorias. Por isso, é necessário citar o trecho todo. Segue:

"Com a transformação da magnitude do valor em preço, manifesta-se essa relação necessária através da relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria dinheiro, de existência extrínseca à mercadoria com que se permuta. Nessa relação, pode o preço expressar tanto a magnitude do valor da mercadoria quanto essa magnitude deformada para mais ou para menos, de acordo com as circunstâncias. A possibilidade de divergência quantitativa entre preço e magnitude de valor, ou do afastamento do preço da magnitude de valor é, assim, inerente à própria forma preço. Isto não constitui um defeito dela, mas torna-a a forma adequada a um modo de produção em que a regra só se pode impor através de média que se realiza, irresistivelmente, através da irregularidade aparente."

HONRA E CONSCIÊNCIA TÊM PREÇO?

No fim, Marx fala até de coisas que, no modo de produção capitalista, podem receber preço, mesmo não tendo valor quantificável, como honra, consciência etc.

A questão vem bem a calhar para o momento em que vivemos.

É isso! Abraços aos leitores e leitoras.

William

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Post Scriptum: postagens anteriores sobre 'O Capital' estão aqui em ordem da mais recente para as mais antigas.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Cassi e Cassems têm muitos êxitos a compartilhar



Boa participação dos bancários do Mato Grosso do Sul
nos debates de saúde dos trabalhadores,
Atenção Primária e prevenção. (2016)
 

Opinião

"Com o crescimento exponencial do custo assistencial, temos apenas um caminho a seguir, que é intensificar essa verticalização do atendimento, ou seja, a criação das nossas estruturas nos polos regionais, ter o hospital de Campo Grande e criar os nossos centros de diagnóstico, porque grande parte de nossas despesas assistenciais estão nesses dois setores: hospitais e diagnósticos" (Ricardo Ayache, Presidente da Cassems, no livro comemorativo dos 15 anos da entidade, lançado em 2016)


A Cassi, Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, é a maior e mais antiga entidade de saúde no formato de autogestão do país. Ela foi criada em 1944 pelos trabalhadores do também mais antigo e maior banco público do país. Ao longo de mais de sete décadas de existência, passou por diversas crises comuns ao setor de saúde e só resistiu a elas porque pertence aos bancários, que sempre se envolveram com participação democrática e tolerante e venceram os desafios colocados. 

A hora é de arregaçar as mangas, construir unidade e pertencimento e reencontrar o caminho do equilíbrio e da sustentabilidade, sem perder sua essência inclusiva e solidária e seu modelo assistencial para seguir cuidando de centenas de milhares de participantes. Pela experiência que tive ao andar pelo país por 4 anos ouvindo associados e suas lideranças, acredito que é possível encontrar uma saída que traga mais recursos para a Caixa para avançar no modelo de Atenção Primária, ESF e mais serviços próprios, evitando gastos desnecessários na rede credenciada do mercado.

A Cassems, Caixa de Assistência dos Servidores do Estado do Mato Grosso do Sul, foi criada em 2001 e hoje é uma das mais importantes e exitosas entidades de saúde no formato de autogestão, tanto do povo sul-mato-grossense como de todo o país. A Cassems cuida de quase 200 mil vidas e suas experiências no setor podem e devem ser analisadas pelas demais associações e autogestões mantidas no formato solidário e cooperativo pelos próprios trabalhadores. A Cassi foi o modelo de referência para a criação da Cassems, dentre as opções que foram a debate entre os servidores e o Estado. A maioria não optou em contratar planos no mercado. Acertaram!

Terminei a leitura do livro comemorativo do aniversário de quinze anos da entidade - Cassems 15 anos - Autogestão em saúde: um sonho possível -, livro escrito por Eronildo Barbosa da Silva. Eu tive o privilégio de visitar e conhecer a Cassems em 3 oportunidades, inclusive na inauguração do Hospital Cassems Campo Grande (em 2016), um feito fantástico e acertado da gestão dos servidores sul-mato-grossenses. Durante o período em que estive nos debates de gestão da Cassi, expressei minha opinião de que vale a pena avaliar as experiências de verticalização da autogestão dos servidores do Mato Grosso do Sul.

Li nestes dias dois textos interessantes a respeito de soluções para a sustentabilidade do setor de saúde suplementar. Um deles, do senhor presidente do Conselho Deliberativo da Cassi, apresentando preocupações pertinentes a respeito da busca de soluções para a Caixa de Assistência, e outro sobre a Amil, do grupo UnitedHealth, falando a respeito da queda de braço da operadora com o setor hospitalar por causa dos custos impagáveis do modelo fee for service (conta aberta). Como os textos abordam temas pertinentes, dedicarei um texto específico para deixar comentários e contribuições, apenas a título de sugestões para reflexões.

Para o texto não ficar longo, apresento a seguir algumas experiências exitosas que a Cassi e a Cassems e seus associados já vivenciaram em suas missões de cuidar da saúde dos trabalhadores e de seus familiares, experiências que podem alavancar todo o setor de autogestão do país, que cuida de quase 5 milhões de vidas, de forma suplementar ao Sistema Único de Saúde. 

A Cassi faz atenção primária e medicina de família em estrutura própria verticalizada para mais de 180 mil pessoas em todo o território nacional desde a reforma estatutária de 1996 (estrutura com ótimo custo benefício). A despesa assistencial desse grupo cuidado pela ESF é bem menor que a do grupo de participantes não cuidados ainda pela ESF/CliniCassi. A Cassems verticalizou sua estrutura de saúde para atender no interior do Estado e enfrentar o mercado privado. Tem 10 hospitais e estruturas auxiliares. Agora implantou Atenção Primária e médicos de família. Tem unidades móveis de atendimento para as cidades do interior. A Cassi poderia avaliar essas experiências estruturais.

Solidariedade é essencial em saúde e previdência

Não existe sistema de saúde e de previdência que funcione sem a solidariedade na sua forma de custeio, de forma mutualista e intergeracional. As primeiras faixas contributivas devem sustentar as últimas faixas contributivas nos sistemas de arrecadação. Caso contrário, os mais idosos serão expulsos por impossibilidade de pagamento. E os novos também não conseguiriam pagar caso fosse cobrado deles por uso como uma doença grave ou acidente. Todos cuidam de todos, em algum momento o participante vai precisar da solidariedade dos demais.

A Cassi nasceu sendo solidária e se manteve solidária ao longo de sua história. Os desequilíbrios entre receitas e despesas no sistema nunca tiveram na solidariedade um dos motivos. 90% das despesas assistenciais da Cassi são geradas na compra de serviços de saúde no mercado privado. A questão central no uso dos recursos do sistema deve ser comprar no mercado só o que for necessário, e da melhor forma possível, como a Amil vem tentando fazer com os seus prestadores de serviços hospitalares: estabelecendo risco compartilhado nos procedimentos médicos na hora da remuneração ou por pacotes. Essa é uma discussão da área de relação entre a autogestão e os prestadores no mercado.

Já na questão do modelo assistencial, no qual a Cassi é vanguarda desde os anos noventa, o que se tem claro é que a autogestão dos funcionários do Banco do Brasil precisa ampliar a escala de cobertura do modelo. O que vimos dentro da gestão é que mesmo a Cassi tendo um dos maiores segmentos de participantes com mais de 60 anos no setor de saúde suplementar, mostramos em números em boletins e matérias que a despesa assistencial desses participantes cresce menos na Cassi que a despesa das primeiras faixas etárias porque o público com mais de 60 anos é prioritário no cuidado pela ESF (Estratégia Saúde da Família), Atenção Primária (APS) e programas de saúde para crônicos.

Enfim, vamos estimular a discussão fraterna e respeitosa de ideias na comunidade Banco do Brasil, fortalecer as instituições de representação da ativa e dos aposentados, inclusive os conselhos de usuários e os atuais representantes e lideranças dos associados e trabalhadores e encontrar soluções para a Cassi. É o melhor para todos, inclusive para o patrocinador Banco do Brasil.

Abraços a tod@s,

William Mendes


Post Scriptum: leia aqui o texto anterior sobre a Cassi.

sábado, 15 de junho de 2019

Releituras - História de lutas bancárias (jun/2014)


Encadernações dos blogs de prestação de contas
de alguém que representava a classe trabalhadora.

Há 5 anos, as pautas da classe trabalhadora eram de reivindicações de avanços e novas conquistas e não de defesa contra retrocessos (havíamos retirado de pauta o PL da Terceirização em 2013). Com unidade, objetivos comuns e participação social é possível retomar o caminho da esperança em dias melhores


Ao longo de todo o nosso mandato de representação da classe trabalhadora na entidade de autogestão em saúde dos bancários do Banco do Brasil, atuei cotidianamente de maneira a manter a proximidade entre o eleito e os representados. Em termos de prestação de contas, escrevi centenas de matérias para as entidades representativas e para os trabalhadores em dois blogs, um de cultura e outro de trabalho, informando e pautando o nosso lado da classe para as lutas que representava.

Durante a primeira quinzena de junho de 2014, fiz oito postagens, duas no Refeitório Cultural e seis no Categoria Bancária. Reler os textos é sempre um exercício interessante para relembrar o que nós da comunidade Banco do Brasil e povo trabalhador brasileiro estávamos vivendo, o que sonhávamos, o que defendíamos e os problemas e desafios que enfrentávamos.

Em linhas gerais, havíamos tomado posse na autogestão em saúde e nosso compromisso era aproximar a Caixa de Assistência aos associados da ativa e aposentados e às suas entidades representativas. Era lutar pela manutenção da solidariedade e pela ampliação do modelo de Atenção Integral e Estratégia Saúde da Família. O cenário interno da entidade já era bem difícil por déficits recorrentes e estagnação do modelo assistencial, mas saímos a campo para cumprir essa tarefa de apresentar a entidade aos seus donos, os trabalhadores.

Participei do 25º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil em São Paulo e conseguimos fortalecer as pautas aprovadas em relação aos temas de saúde e gestão em saúde. A ESF, a Atenção Integral e a manutenção da solidariedade foram reivindicações consensuais no principal fórum da comunidade BB (ler aqui).

Eu me despedi da coordenação da Comissão de Empresa dos Funcionários do BB, órgão de assessoria da Contraf-CUT, para me dedicar com exclusividade à gestão em saúde. 

As reivindicações aprovadas nas áreas de remuneração, previdência, saúde, organização do movimento, papel do Banco do Brasil, todas eram muito positivas e indicavam que os trabalhadores queriam mais. Também foi aprovado que todos deveriam se engajar nas discussões eleitorais daquele ano porque governos e legislativos mais ou menos progressistas e afinados com as pautas da classe trabalhadora fazem toda a diferença na vida real e material do povo brasileiro.

Enfim, as oito matérias que reli permitem relembrar que o povo brasileiro pode voltar a ser feliz e ter esperanças por dias melhores. Já vivemos isso há pouco tempo.

Abraços aos amig@s e leitores que por aqui passarem.

William

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Unidade e participação na defesa da Cassi


Centenas de bancári@s associad@s da Cassi debatem soluções
 para a entidade na IX Conferência de Saúde em SP (2017).

Opinião

Os trabalhadores do Banco do Brasil construíram ao longo de dois séculos de existência da instituição pública uma história ímpar de lutas unitárias em defesa de direitos civis, políticos e sociais. 

O papel desse segmento social foi tão importante que poderíamos citar participação dessa categoria em quase todas as lutas que geraram direitos do povo brasileiro que vigoraram por décadas, até serem atacados por governos elitistas e contrários ao povo como, por exemplo, esses últimos surgidos após o golpe de Estado perpetrado em 2016.

As associações de classe do início do século vinte que depois se transformariam em sindicatos de trabalhadores da categoria bancária são exemplos de participação sindical dos bancários mais antigos do Brasil. As caixas de previdência (Previ) e de assistência à saúde (Cassi) são exemplos de vanguardismos que viraram referência para os trabalhadores e empresas públicas e privadas brasileiras. Associações atléticas, de aposentados, de pessoas com deficiência e muitas outras fazem parte dessa história da comunidade Banco do Brasil.

Diversas conjunturas e contextos políticos, econômicos e sociais ao longo da história trouxeram desafios enormes para os trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil. As dificuldades foram sendo vencidas ao longo de décadas com muita participação democrática, com discussão de ideias, com urbanidade e tolerância às divergências, com mobilização e construção de consensos e com negociações entre trabalhadores e direção do Banco, independente do governo que está no poder no momento do processo negocial. Um detalhe: é inegável que alguns governos e grupos de poder mais à direita não negociam com trabalhadores.

Vivemos um desses momentos de grandes desafios da comunidade Banco do Brasil. A hora é de fazermos o que mais sabemos fazer em nossa história de lutas: construir unidade em torno de bandeiras centrais para defender nossos direitos e nossas entidades. Para isso é necessário retomarmos ritos básicos que permitam a construção de propostas que unifiquem a comunidade de trabalhadores do BB.

Uma dificuldade precisa ser superada de imediato: a aparente divisão interna entre as diversas forças representativas da comunidade de trabalhadores da ativa e aposentados desta instituição bicentenária. O momento exige que as entidades representativas sejam fortalecidas através de maior participação social e maior pertencimento por parte de associados da Cassi e da Previ nas discussões sindicais e de direitos da categoria bancária, uma das mais antigas, importantes e com histórico de lutas unitárias.

A experiência mais que centenária da comunidade Banco do Brasil nos mostra que é possível vencer o desafio de construir uma solução para reequilibrar a Caixa de Assistência, com a manutenção de direitos e deveres dos associados e do patrocinador, e fortalecer a Cassi para lidar com o desafio de atender ao conjunto dos associados, dependentes e familiares a partir do Sistema de Atenção Integral à Saúde pelas próximas décadas. Na minha opinião, a manutenção da solidariedade no sistema é fundamental.

Mas a solução só virá de forma coletiva, com maior empoderamento e pertencimento por parte dos trabalhadores da ativa e aposentados e também por parte da direção do patrocinador. Essa parceria tem a melhor perspectiva de sucesso e longevidade porque a Cassi é importante para todos. Uma Cassi forte terá melhores condições para enfrentar as dificuldades que já existem na compra de serviços de saúde no mercado da rede prestadora de serviços privados. E entendo que a Cassi pode ser menos dependente do mercado em alguns segmentos de atendimento em saúde, verticalizando um pouco mais.

Entidades representativas e Conselhos de Usuários poderiam e deveriam se reunir mais neste período posterior à última consulta ao corpo social e recomeçar o processo de busca de solução. Democracia é sempre a melhor alternativa de solução pacífica das questões humanas.

Abraços a tod@s,

William Mendes

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O Capital - Ainda o processo de troca (Marx)




Refeição Cultural


Na postagem anterior (ler AQUI) anotei alguns excertos do capítulo sobre o processo de troca. 

A leitura deste clássico O Capital está sendo feita na medida de minhas possibilidades e não tenho pressa em sua conclusão. É uma leitura de curiosidade pessoal. Não vou prestar contas a ninguém nem represento mais pessoas e meu blog tem hoje o papel inicial de compartilhar conhecimentos e opiniões com quem vier a visitá-lo.

Marx segue explicando a diferença do valor de uso e do valor das mercadorias no processo de troca: "Um objeto útil só poder se tornar valor de troca depois de existir como não valor de uso, e isto ocorre quando a quantidade do objeto útil ultrapassa as necessidades diretas do seu possuidor".

Para se trocar, alienar coisas, é necessário independência. Aquele que aliena coisas precisa ser proprietário delas, de forma independente em relação às coisas da comunidade em que está.

"As coisas são extrínsecas ao homem e, assim, por ele alienáveis. Para a alienação ser recíproca, é mister que os homens se confrontem, reconhecendo, tacitamente, a respectiva posição de proprietários particulares dessas coisas alienáveis e, em consequência, a de pessoas independentes entre si. Essa condição de independência recíproca não existe entre os membros de uma comunidade primitiva, tenha ela a forma de uma família patriarcal, de uma velha comunidade indiana ou de um estado inca etc. A troca de mercadorias começa nas fronteiras da comunidade primitiva, nos seus pontos de contato com outras comunidades ou com membros de outras comunidades..." (p.112)

Com o passar do tempo, começa-se a produzir as coisas para além da necessidade de seus valores de uso e com objetivo de troca.

"Na troca direta de produtos, cada mercadoria é, para seu possuidor, meio de troca; para seu não possuidor, equivalente, mas só enquanto for, para ele, valor de uso."

Conforme vão se avolumando a quantidade de produtores e de mercadorias a serem trocadas, gera-se a necessidade de uma mercadoria com equivalência geral naquele ambiente de trocas.

"Um intercâmbio em que os possuidores de mercadorias trocam seus artigos por outros diferentes, comparando-os, não poderia jamais funcionar se nele não houvesse determinada mercadoria eleita, pela qual se trocam as diferentes mercadorias de diferentes possuidores e com a qual se comparam como valores. Essa mercadoria especial, tornando-se o equivalente de outras mercadorias diferentes, recebe imediatamente, embora dentro de estreitos limites, a forma de equivalente geral ou social..."

A forma de equivalência geral vai ser determinada de acordo com cada ambiência social, poderia ser uma mercadoria destacada na comunidade como, por exemplo, gado.

Com o desenvolvimento das trocas de mercadorias, uma em especial se fixou nesse papel de equivalente geral: a forma dinheiro.

"Os povos nômades são os primeiros a desenvolver a forma dinheiro, porque toda a sua fortuna é formada por bens móveis, diretamente alienáveis, e seu gênero de vida os põe constantemente em contato com comunidades estrangeiras, induzindo-os à troca dos produtos."

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"Os homens, frequentes vezes, fizeram de seu semelhante, na figura do escravo, a primitiva forma dinheiro, mas nunca utilizaram terras para esse fim. Essa ideia só podia aparecer numa sociedade burguesa já desenvolvida."
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Ao final do capítulo, temos explicações sobre as propriedades naturais e as funções monetárias nos metais preciosos ouro e prata, que farão o papel de mercadoria na forma dinheiro.

"'Embora ouro e prata não sejam, por natureza, dinheiro, dinheiro, por natureza, é ouro e prata', conforme demonstra a coincidência entre suas propriedades naturais e suas funções monetárias".

DINHEIRO, MERCADORIA UNIVERSAL

"Sendo todas as mercadorias meros equivalentes particulares do dinheiro, e o dinheiro o equivalente universal delas, comportam-se elas em relação ao dinheiro, como mercadorias especiais em relação à mercadoria universal".

Mas Marx problematiza a seguir a questão do próprio valor da mercadoria na forma dinheiro.

"Sabe-se que ouro é dinheiro, sendo, portanto, permutável com todas as outras mercadorias, mas nem por isso se sabe quanto valem, por exemplo, 10 quilos de ouro. Como qualquer mercadoria, o dinheiro só pode exprimir sua magnitude de valor de modo relativo em outras mercadorias. Seu próprio valor é determinado pelo tempo de trabalho exigido para sua produção e expressa-se na quantidade (que cristalize o mesmo tempo de trabalho) de qualquer outra mercadoria."

O próximo capítulo vai seguir nas questões sobre o dinheiro e a circulação de mercadorias.

Para ler as postagens anteriores sobre O Capital é só clicar AQUI. A ordem será da mais recente para a mais antiga postagem.

Abraços aos leitores que leram esta postagem.

William

sexta-feira, 31 de maio de 2019

310519 - Diário e reflexões - 15M, 30M e 365 dias




Refeição Cultural

As manifestações lideradas pelos estudantes e professores que ocuparam as ruas do Brasil nos dias 15 e 30 de maio foram dois momentos importantes em uma longa jornada de lutas em defesa da educação pública brasileira e em defesa de outros direitos da cidadania como, por exemplo, a luta pela manutenção da previdência pública. Fazer parte dessas manifestações foi gratificante.

Como disse hoje de manhã na TV 247 o jornalista Breno Altman, do site Ópera Mundi, as manifestações foram exitosas dentro do contexto em que se enquadram como formas de resistência aos ataques desferidos pelo novo regime contra o direito a educação pública e universal. No entanto, se considerássemos como uma luta de boxe o embate entre o regime bolsonarista e o povo brasileiro contrário a ele, as manifestações 15M e 30M seriam como socos bem aplicados no adversário, mas isso não significa em absoluto o fim da luta, muito menos vitória. Serão longos rounds e o povo precisará acumular muitos socos bem aplicados como esses dois para acumular forças contra o fascismo de cunho ultraliberal. A elite brasileira lesa-pátria está unida e tem comando internacional para entregar a previdência e o resto do patrimônio nacional aos donos do mundo, alguns banqueiros americanos e seus satélites.

Hoje completa um ano que deixei de representar a classe trabalhadora através de mandatos eletivos. Minha última experiência na representação popular foi na entidade de saúde dos bancários do Banco do Brasil. Foi uma experiência muito intensa, na qual trabalhei entre 8 e 16 horas por dia, praticamente durante os 4 anos de mandato. Nunca havia dormido tão pouco em minha vida, nunca havia enfrentado os representantes do sistema capitalista de forma tão permanente durante os dias do ano. Nunca havia enfrentado em minha vida de representação tanta falta de conhecimento, intolerância e ingratidão por parte de segmentos dos trabalhadores da ativa e aposentados. 

Somada essa última experiência de representação à ingratidão do povo brasileiro em relação à Lula, ao PT e às esquerdas progressistas, povo que é majoritariamente pobre, negro e mestiço e do gênero feminino, povo que elegeu grupos e humanos que não têm a classe trabalhadora como foco e prioridade, somado tudo isso, ainda não superei meu desacorçoo em relação ao ser humano. Hoje, vendo as cisões e rachas no movimento sindical organizado, do qual fiz parte por cerca de duas décadas, não sinto estímulo algum para me engajar em alguma frente de luta popular sabendo que teria que escolher lados e grupos nos quais militei em unidade por tanto tempo. O ódio inoculado no povo brasileiro como estratégia de destruição da esquerda e das políticas dos governos do PT chegou ao seio do movimento organizado. Todos perdem com isso. Todos.

Ao retomar depois dos 50 anos os estudos de línguas, linguagens e comunicação e ter contato novamente com as teorias linguísticas e discursivas e saber que a base da linguagem verbal é a comunicação entre os seres humanos, e pensar o quanto ando sem vontade de interação com os seres humanos que foram influenciados por sistemas totalitários de manipulação comportamental, fica cada vez mais difícil de escrever e falar o que penso. Não represento ninguém e de certa forma falamos para quase ninguém. Não tem sentido escrever opiniões sobre algo e o texto ser lido por alguns nobres leitores. As merdas feitas pelos nossos adversários, com as técnicas modernas, são vistas, ouvidas e redistribuídas por milhões de seres.

Apesar de tudo, sempre estarei na torcida pelo meu lado da classe, a classe trabalhadora mundial. Odeio o capitalismo, odeio os representantes desse sistema. Não me importo se vierem as guerras que alimentam esse sistema de exploração da imensa maioria dos seres humanos por uma ínfima parcela deles.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

270519 - Diário e reflexões - Tempus Fugit


Imagem da internet.

Refeição Cultural

Estava pensando a respeito das expressões latinas memento mori, memento vivere e carpe diem quando vi na internet a imagem de uma moeda com essas expressões. Junto a elas, vemos uma ampulheta ao centro onde o tempo escorre, da vida para a morte, com a expressão tempus fugit. Fiquei impressionado pela profundidade da imagem e pelos significados contidos nela.

Após ver a imagem, li a respeito dos significados das expressões em questão e outros conceitos que vieram com a leitura como, por exemplo, o estoicismo. Todos trazem reflexões a respeito de como lidar com a vida, com a morte, com o cotidiano; como encarar tristezas e frustrações, como aproveitar melhor o tempo indeterminado que temos de existência, que pode ser longa, que pode ser breve. Como ter a humildade de se lembrar que todos somos mortais, mesmo aqueles que estão por cima em determinado momento.

A existência humana tem pelo menos duas dimensões perceptíveis em seu cotidiano, por sermos dotados de características evolutivas distintas dos demais seres vivos: além de lidarmos com o aqui e o agora, usamos nosso cérebro para o ontem e o amanhã. Temos a relação com o mundo exterior em que habitamos e temos a relação conosco mesmo, para dentro de nós. Ambas dimensões são extremamente complexas e com relação de dependência para uma existência satisfatória.

Em algum momento de nossa existência passamos a perceber mais a questão da passagem do tempo, do tempo que voa ou "foge"; ou talvez nunca percebamos o tempo, dependendo do estado de consciência ou do tempo de existência mesmo. 

A percepção do tempo sempre esteve presente em minha existência. Quando olho para o ontem, quando vejo na memória meus tempos vividos, e quando tento me lembrar da sensação e percepção daqueles tempos, percebo como era tensa a minha relação com cada tempo de insatisfação que vivia: na infância; na adolescência; na fase adulta das últimas décadas.

Aqui e agora, percebo mais ainda que o tempo foge, voa; escoa. Ao mesmo tempo em que a consciência adquirida com as décadas de existência quer o carpe diem, o memento vivere, o corpo que habito, marcado com toda a história das dores e labores que carrega, vai me lembrando do memento mori, que o tempo é implacável na existência dos seres vivos. Tempus fugit...

As escolhas que passamos a fazer nessas condições do aqui e agora vão ficando cada vez mais difíceis porque tempus fugit. Olhamos para fora e olhamos para dentro e vemos tanta incompletude, tanta coisa a se fazer, e tanto tempo que seria necessário... 

Difíceis são as escolhas a serem feitas em nossa única existência. Os tempos lá fora são de total destruição de tudo que ajudamos a construir em décadas. O tempo cá dentro deveria ser de busca de um pouco de paz.

Paz parece ser algo tão distante! Seja lá fora; seja cá dentro.

William

segunda-feira, 20 de maio de 2019

200519 - Diário e reflexões - Visão do Paraíso


Natureza morta - adormecida  - e céu azul.
Foto de William Mendes, 03/7/16, DF.

Refeição Cultural

"Não se quis, com efeito, mostrar o processo de elaboração, ao longo dos séculos, de um mito venerando, senão na medida em que, com o descobrimento da América, pareceu ele ganhar mais corpo até ir projetar-se no ritmo da História..." (sobre o mito de um suposto Paraíso Terreal, Holanda explicando sua obra)


Li o prefácio à segunda edição, de 1968, e o primeiro capítulo "Experiência e fantasia", da obra "Visão do Paraíso", de Sergio Buarque de Holanda, publicado pela primeira vez em 1959. Estou coletando informações para escrever um trabalho de faculdade sobre as manifestações e pontos de vista dos ibéricos, sobretudo os espanhóis, em relação ao período de conquista das Américas.

Texto muito interessante o de Holanda. Para mim, foram esclarecidas algumas dúvidas. Eu achava que Colombo não havia feito referências textuais em seus escritos de viagens a um suposto Éden ou Paraíso Perdido na terra. É que não acabei de ler ainda os textos relativos às quatro viagens. O primeiro é gigante e de leitura meio chata e repetitiva. Holanda diz que na terceira viagem Colombo faz referência a esse Paraíso das escrituras sagradas da fé católica.

"Ao chegar diante da costa do Pária, esse pressentimento, que aparentemente animara ao genovês desde que se propusera alcançar o Oriente pelas rotas do Atlântico, acha-se convertido para ele, e talvez para os seus companheiros, numa certeza inabalável que trata de demonstrar com requintes de erudição. Assim, na carta onde narra aos Reis Católicos as peripécias da terceira viagem ao Novo Mundo - 'outro mundo', nas suas próprias expressões, propõe-se seriamente, logo que tenha mais notícias a respeito, mandar reconhecer o sítio abençoado onde viveram nossos primeiros pais."

O ensaio de Holanda é muito interessante em diversas questões como, por exemplo, ao explicar a relação mais pragmática dos navegadores e escritores portugueses em relação ao maravilhoso, ao suposto evento metafísico. Os portugueses já tinham no século XV longa experiência em se lançarem ao mar rumo ao desconhecido, sendo os continentes africano e asiático os objetivos daquelas décadas do século XV.

"O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável da literatura de viagens na era dos grandes descobrimentos marítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ou porque a longa prática das navegações do Mar Oceano e o assíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque o fascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seus cuidados, sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem a esperança deles..."

Enfim, conhecimentos interessantes adquiridos nessas leituras que estou fazendo nesta semana.

William

sexta-feira, 17 de maio de 2019

170519 - Diário e reflexões - Anacronismos


Veredas uspianas.
Foto de William Mendes.

Refeição Cultural

Os tempos são de capitalismo selvagem. Cada vez mais, menos homens têm toda a riqueza existente no planeta, e mais gente não tem nada, sequer para se manter viva. A ciência e tecnologia não foram usadas para o bem comum, e sim para concentrar bens nas mãos de uns poucos.

Os tempos são de tristeza, tempo de desemprego para a classe trabalhadora; tempo de retirada dos direitos da cidadania; tempo de desfazimento de um país de futuro promissor que foi colônia e buscava sua independência e se viu entregue novamente a outro império - sem sequer haver resistência.

Os tempos são de constrangimentos, tempo em que todo aquele que se importa com o outro se sente mal ao ver um pai que não pode pagar um pastel de feira a sua filha; tempo em que a miséria geral faz você se sentir um privilegiado por ter coisas básicas como casa, carro, comida, contas em dia.

Parte de nós é gente anacrônica, fora de seu tempo. Gente que defende distribuição de renda; que preferiria investimento em educação pública ao invés de armas e presídios; que acredita na inclusão do pobre no orçamento do Estado como parte da solução para a economia do país; que defende a tributação maior dos mais abastados.

Em alguns espaços, sei que estou meio fora de meu tempo. Noutros, minhas ideias e sentimentos carregam a certeza do acerto, em meio a uma onda de pestilência que invadiu o organismo social.

Retomar os estudos acadêmicos aos 50 anos faz você se sentir meio deslocado nos espaços juvenis. Fazer o que? Nos 20 anos anteriores dediquei cem por cento de minha vida a representação dos trabalhadores. Neste instante, não consigo me concentrar para fazer um trabalho escolar com prazo dado porque minha cabeça não desliga dos acontecimentos do país. Talvez tenha errado em querer voltar.

Por outro lado, em tempos de trumpismo, bolsonarismo, ascensão do fascismo, fake news como notícia e informação, ódio e intolerância enquanto regras de convivência social, cada um por si e dane-se o outro, e outras merdas do tipo, eu pertenço ao grupo de seres humanos que se situa no espectro político da esquerda, que defende a liberdade, a igualdade, a fraternidade, que é contra o preconceito e a discriminação de qualquer segmento social, que deseja o fim do modo de produção capitalista e que quer um mundo mais inclusivo e sustentável, mais cooperativo, com respeito ao ser humano e à natureza (enfim, mais comunista e socialista).

Ando me sentindo bem deslocado no mundo. Tem hora que dá vontade de pedir para o trem parar e saltar do vagão. Mas o trem é a vida e eu não desisto dela não. Mudemos a rota do trem, então.

William


Post Scriptum:

Caixa de Assistência (Cassi) - Hoje, fui ao terminal de autoatendimento do Banco do Brasil e depositei o meu voto como cidadão da comunidade de associados da Cassi e Previ, entidades de saúde e previdência dos trabalhadores da ativa e aposentados do maior banco público do país. Está havendo uma consulta sobre mudanças estatutárias na Caixa de Assistência. Foi uma sensação estranha. Depois de quase 20 anos de representação deste segmento social, onde participei da construção de quase todas as questões de direitos dos bancários da ativa e aposentados desta comunidade, foi a primeira vez que votei em algo que não participei da construção, não opinei, não decidi durante o processo. Após passar quatro anos lutando pelos associados, pela Cassi e seu modelo assistencial e por seus funcionários - lutando como uma mãe que defende a vida de seu filho -, e pelo respeito a escolha dos associados no processo eleitoral de 2018, decidi desde então não mais me manifestar publicamente sobre essa entidade tão querida por todos nós. Desejo que os associados e suas entidades representativas, a Caixa de Assistência e o patrocinador encontrem o caminho do fortalecimento e perenidade da autogestão mais importante do país, e que ela continue sendo uma Caixa de Assistência que acolha a tod@s.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

130519 - Diário e reflexões - Cristóvão Colombo


Flores nas veredas uspianas.
Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Literatura Hispano-Americana: conquista e colônia

"La nacionalidad es un destino: un destino cargado de penas que han de purgarse y de glorias que han de ganarse, de dejaciones que duelen como pecados y de irredentismos que chisporrotean como esperanzas." (Ignacio B. Anzoátegui)


Um dos eixos temáticos da matéria é conhecer e analisar os documentos existentes - cartas, diários, relatos - sobre o período das invasões europeias às Américas, conhecidas por nós como período dos "descobrimentos". Cristóvão Colombo é um dos personagens que estudamos.

Colombo realizou quatro viagens às Américas. A epígrafe que coloquei na abertura está no prólogo de uma edição que apresenta as quatro viagens de Colombo, e o organizador da edição - Ignacio B. Anzoátegui -, nos informa que há dúvidas sobre a origem do navegador, se de Gênova ou da Galícia, mas que diz importar pouco a questão da origem para as façanhas que o destino reservou a Colombo.

O começo do relato é como um termo de compromisso. Colombo diz aonde vai e o que pretende, demonstra sua lealdade aos reis de Espanha e parte com três embarcações - Santa Maria (a Galega), Pinta e Niña.

"Vine a la villa de Palos, que es puerto de mar, adonde armé yo tres navíos muy aptos para semejante fecho, y partí del dicho puerto muy abastecido de muy muchos mantenimientos y de mucha gente de la mar, a 3 días del mes de agosto del dicho año en un viernes, antes de la salida del sol con media hora, y llevé el camino de las islas de Canaria de Vuestras Altezas, que son en la dicha mar océana, para de allí tomar mi derrota y navegar tanto que yo llegase a las Indias, y dar la embajada de Vuestras Altezas a aquellos príncipes y cumplir lo que así me habían mandado; y para esto pensé de escribir todo este viaje muy puntualmente de día en día todo lo que hiciese y viese y pasase, como adelante se verá..."

Minha leitura a respeito das viagens de Colombo está sendo feita em duas edições diferentes. Uma organizada por Consuelo Varela e outra por Ignacio B. Anzoátegui. Os textos são gigantes, é claro. Minha leitura está baseada em algumas passagens dos diários. É possível sentir o que foram as expedições e os eventos de chegada e permanência às terras desconhecidas a oeste da Europa a partir do século XV.

Colombo tinha dois controles de navegação, um com as milhas verdadeiras rumo a oeste, e outro com valores menores para não assustar sua tripulação. Lembramos que ao navegar a oeste depois dos pontos conhecidos por todos o destino era uma aposta.

Li a respeito da história de Colombo na Wikipedia em espanhol, estou lendo os diários da primeira viagem, entre 1492 e 1493 e revi o filme "1492, a conquista do paraíso" (1992), dirigido por Ridley Scott. Além disso, vi um programa espanhol sobre Colombo - "El enigma Cristóbal Colón". Já tivemos aula sobre o tema, no início do curso.

História é sempre um tema instigante, ainda mais no contexto em que estudo Letras, Língua e História.

William

quinta-feira, 9 de maio de 2019

090519 - Diário e reflexões - Que aprendi hoje?



Relva florida na USP.
Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Texto e Discurso em Língua Espanhola

Todo dia é dia de aprender algo novo. De reaprender algo, melhorando ou revendo conceitos. De ser menos ignorante que o instante anterior ao aprendizado. E, ao aprender algo novo, sermos mais conscientes e menos manipuláveis. 

Não por acaso, o regime fascista tem na destruição total da educação pública e autônoma um pilar de seu projeto de poder, porque ao eliminar as oportunidades de crescimento intelectual através de uma educação emancipadora, facilita-se a destruição do país e dos direitos do povo pela manipulação e desagregação das classes populares e trabalhadoras: dividir para governar.

Na aula de hoje, lemos um conto argentino para identificarmos as questões de linguagem que estamos estudando neste semestre. A temática desses dias é sobre objetos de discurso, referenciação, correferenciação, categorização e recategorização. 

O tema não é fácil para mim, pois tenho dificuldade em gramática, desde sempre, principalmente sintaxe. Em linhas gerais, nesta questão de rede referencial na linguagem vemos como os objetos de discurso são retomados ao longo do texto a partir de sua primeira aparição, seja por pronomes, por outras palavras, por frases e orações etc.

O conto que lemos é de Rodolfo Walsh - Esa mujer -, publicado pela primeira vez em 1965. O autor foi jornalista e escritor argentino, militante de esquerda, assassinado em 1977 pela ditadura civil-militar em seu país e é dado como desaparecido até hoje (li na Wikipedia sobre ele). Sem citar nome próprio, a personagem de quem se fala nos remete a Eva Perón e, por conseguinte, ao peronismo e ao golpe militar que destituiu Perón em 1955.

Além de aprender um pouco mais sobre o tema das referências textuais e suas retomadas ao longo do texto, o conteúdo da aula aguçou em mim a curiosidade para saber mais sobre o peronismo e Evita. Ademais de gostar muito de história geral e de literatura, tenho bastante afinidade pelas questões do mundo da classe trabalhadora, como o sindicalismo.

Eu não sabia da história do corpo embalsamado de Evita, que estava em exposição na sede da central sindical pela afinidade que ela tinha com a classe operária. O corpo de Evita sumiu após o golpe de Estado, e só se descobriu o paradeiro quase duas décadas depois.

É isso. Todo dia é dia para aprendermos algo novo, mesmo quando já passamos de meio século de existência.

William

domingo, 5 de maio de 2019

O Capital - O processo de troca (Karl Marx)




Refeição Cultural

"O dinheiro é um cristal gerado necessariamente pelo processo de troca, e que serve, de fato, para equiparar os diferentes produtos do trabalho e, portanto, para convertê-los em mercadorias. O desenvolvimento histórico da troca desdobra a oposição, latente na natureza das mercadorias, entre valor de uso e valor..." (P. 111, O Capital)


Retomando a leitura de Marx, agora do capítulo dois de O Capital, que trata na primeira parte da mercadoria e dinheiro, vamos nos acostumando com o estilo do filósofo, que por vezes é bastante irônico ao descrever fatos e apresentar ideias. Ele chega a dar vida e voz às mercadorias em seus textos como se fossem personagens de um romance.

"Não é com seus pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria. Temos, portanto, que procurar seus responsáveis, seus donos..."

Marx nos lembra que as mercadorias são coisas; coisas com valores de uso e valores. Como mercadorias serão trocadas, alienadas mediante consentimento e vontade de seus proprietários, gerando relações econômicas e jurídicas.

"Os papéis econômicos desempenhados pelas pessoas constituem apenas personificação das relações econômicas que elas representam, ao se confrontarem."

Para o proprietário, sua mercadoria não tem valor de uso direto; ele a leva ao mercado e lá ela é valor de uso para o comprador. O valor de uso para o proprietário é o fato de sua mercadoria ser depositária de valor, meio de troca.

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"Todas as mercadorias são não valores de uso para os proprietários, e valores de uso, para os não proprietários."
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Mas como as mercadorias têm de mudar de mãos, elas têm de realizar-se como valores, antes de poderem realizar-se como valores de uso.

E também tem a questão do trabalho humano inserido no valor das mercadorias:

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"Só através da troca se pode provar que o trabalho é útil aos outros, que seu produto satisfaz necessidades alheias."
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Em relação à questão que já lemos no capítulo anterior, sobre valor relativo e valor equivalente, temos que:

"Todo possuidor de mercadoria considera cada mercadoria alheia equivalente particular da sua, e sua mercadoria, portanto, equivalente geral de todas as outras mercadorias."

Mas todos pensam assim, aí está o problema. Depois nos é explicado que "apenas a ação social pode fazer de determinada mercadoria equivalente geral".


ANTROPOMORFISMO - Marx brinca com características e aspectos humanos nas descrições sobre a mercadoria.

"Igualitária e cínica de nascença, está sempre pronta a trocar corpo e alma com qualquer outra mercadoria, mesmo que esta seja mais repulsiva do que Maritornes."

E aqui vemos quão culto era Karl Marx, ao citar cientistas, filósofos, economistas, escritores e personagens de obras clássicas. Ele cita uma personagem de Cervantes, do Dom Quixote de La Mancha.

Segundo a Wikipedia, Maritornes é uma personagem da obra que era "...ancha de cara, llana de cogote, de nariz roma, del un ojo tuerta y del otro no muy sana. Verdad es que la gallardía del cuerpo suplía las demás faltas: no tenía siete palmos de los pies a la cabeza, y las espaldas, que algún tanto le cargaban, la hacían mirar al suelo más de lo que ella quisiera."

Por fim, ao explicar a questão da equivalência, Marx explica o papel do dinheiro que citamos no epigrama que começa a postagem. Ele diz que os produtos do trabalho se convertem em mercadorias no mesmo ritmo em que determinada mercadoria se transforma em dinheiro.

Paro a postagem por aqui e retomamos depois. Para ler as anteriores, clique AQUI.

Abraços, 

William
Um leitor


sábado, 4 de maio de 2019

Leitura - La invención del "Quijote" (F. Ayala)


Texto de Ayala está na edição da Alfaguara,
comemorativa do IV centenário da obra.

Refeição Cultural

Releitura do texto crítico de Francisco Ayala sobre a obra máxima de Miguel de Cervantes, Don Quijote de La Mancha (1605-1615).

O texto começa assim:

"Quien se proponga considerar el proceso de creación de la prodigiosa figura literaria de don Quijote, hará bien en detenerse, ante todo, a medir el alcance del siguiente hecho: para el lector actual, el protagonista de la novela - o, mejor dicho, la pareja protagonista - posee una existencia anterior al texto mismo. Don Quijote y Sancho constituyen ante él, en efecto, dos presencias inmediatas, dos seres ficticios de quienes ha oído hablar antes que hubiera pensado siquiera en ponerse a leer su historia, dos hombres cuya imagen ha visto reproducida muchas veces, cuyo carácter le es familiar, y algunos de cuyos hechos le han sido referidos o conoce como proverbiales..."

Ayala levanta questões de criação literária muito interessantes. 

Importante lembrar aos leitores que o clássico Dom Quixote passou por diversos tipos de interpretação ao longo de quatro séculos. A obra foi compreendida corretamente como sátira aos romances de cavalaria, comuns naquela época; mas teve também por parte de críticos e leitores interpretações das mais variadas formas, principalmente no período romântico, quando se viam sentidos metafóricos nas figuras do Quixote e de Sancho.

Com o passar do tempo, houve também uma inversão de percepção na leitura da obra. Para os leitores do século XVII, o cenário e o cotidiano descritos nas aventuras do cavaleiro manchego eram reconhecidos pelos leitores, tinham verossimilhança com o dia a dia deles. O que chamava a atenção dos leitores pelo ineditismo e loucura eram justamente as figuras estrambóticas de Dom Quixote e Sancho Pança.

Passados séculos de existência da obra, hoje o que nos é "comum" e conhecido são justamente as figuras dos protagonistas, mesmo para a imensa maioria de pessoas que nunca leu o clássico, e nos custa acreditar que o cenário e o cotidiano descritos no romance cervantino eram um espelho da realidade do século XVII.

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"El texto de 1615 cuenta ya con el conocimiento que el lector tiene de sus protagonistas como entes dotados de existencia autónoma. Y, en verdad, la posición de ese lector de 1615 frente al Quijote es esencialmente idéntica a la del lector actual, en contraste con la de aquel que en 1605 comenzara a leer las palabras: 'En un lugar de la Mancha...' Don Quijote existía ahora por sí mismo; Cervantes había operado con pleno éxito la creación de su héroe."
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Enfim, a releitura deste texto crítico reavivou em mim a figura fantástica do Quixote e de seu mais que encantador escudeiro, Sancho Pança.

Obra eterna. Chorei e ri muito quando li Dom Quixote.

William


Post Scriptum:

Leiam AQUI os comentários que fiz da leitura do texto de Ayala em 2008.