sábado, 4 de julho de 2026

A professora Dona Jamila (17)


Devo ter sido um aluno bonzinho do colégio Adolfino, no Rio Pequeno. Me alfabetizei lá, nos anos setenta. 

Uma vez, a professora Dona Jamila me levou pra casa e me lembro que ela disse pra minha mãe que se tivesse filho, gostaria que ele fosse como eu.

A memória do passado é formada por fragmentos de instantes da vida. Instantes. Até o ato de lembrança do passado é feito de certa criação narrativa mental, misto de ficção e realidade. 

Machado de Assis, José Saramago e Conceição Evaristo explicaram bem esse processo de preencher lacunas para contar algo do passado. 

Escrevivências, diz Evaristo. A narrativa não é verdade, e não é mentira. O escritor completa o que falta de informação sobre um fragmento daquela história. 

Dona Jamila é a única professora que me lembro da minha fase de estudos no Adolfino, da primeira à quarta série do antigo primeiro grau ou ensino fundamental. 

Ou minha mãe me disse ou eu guardei o acontecimento sobre o que Dona Jamila teria dito sobre querer ter um filho como eu.

Tenho na lembrança que a professora tinha cabelo preto, curto, ela tinha pele clara, voz suave. A imagem pode ser verdadeira ou inventada por minha memória. 

Acho que fui um menino bonzinho, sim, até os dez anos, vividos em São Paulo. A Dona Jamila, o Adolfino, o sobradinho no Rio Pequeno, a padaria Cinco Quinas, foram reais na minha história. 

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Instantes de uma vida

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