Refeição Cultural
"luxo saber
além destas telhas
um céu de estrelas" (ideolágrimas)
Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas.
Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade.
Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).
É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985.
Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.
Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé.
Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro.
Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!
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Golpes certeiros de Leminski:
caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)
"(...)
quem está por fora
não segura
um olhar que demora" (p. 17)
*
"a árvore é um poema
não está ali
para que valha a pena
está lá
ao vento porque trema
ao sol porque crema
à lua porque diadema
está apenas" (p. 27)
*
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polonaises
"aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar
o mar
não parou
pra ser olhado
foi mar
pra tudo quanto é lado" (p. 50)
*
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não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase
"poema na página
mordida de criança
na fruta madura" (p. 67)
*
"en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas" (p. 77)
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ideolágrimas
" hoje à noite
até as estrelas
cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)
*
"verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida" (p. 102)
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sol-te
"eu te fiz
agora
sou teu deus
poema
ajoelha
e
me
adora"
(p. 136)
*
*
Comentário final
Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.
Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski.
Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.
Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.
William
28/07/26



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