Refeição Cultural
Dona Dirce Mendes vai completar 80 anos de idade daqui algumas semanas. Minha mãe trabalha desde que era criança, literalmente. Desde menina já cuidava de outras crianças e fazia trabalhos domésticos.
Conversando com ela, ouvi uma frase que me deixou pensando sobre a questão do trabalho que secularmente é destinado às mulheres nas sociedades patriarcais e sob o domínio dos homens e do dinheiro: "eu não aguento mais, queria parar de trabalhar e ter um tempo pra mim".
O Brasil tem 200 milhões de pessoas e uma das piores distribuições de riqueza do mundo. Uma porcentagem ínfima de famílias detém mais da metade da riqueza e dezenas de milhões de famílias sovrevivem em condições semelhantes à de meus pais ou com mais dificuldades ainda.
Com a tecnologia alcançada pela espécie humana, boa parte da humanidade não terá mais trabalho e renda, pois as máquinas vão substituir pessoas por robôs e IA. O benefício auferido pela tecnologia está sendo concentrado nas mãos de poucos humanos e corporações e a imensa maioria vai acabar sem direito algum, sequer de viver.
Nem preciso pesquisar números para afirmar que parte substancial dos lares brasileiros - onde sobrevivem os 200 milhões de pessoas fazendo seus "corre" diariamente - tem idosos e ou crianças e ou pessoas com deficiência que necessitam de auxílio de outras pessoas. São dezenas de milhões de cidadãos desassistidos do básico da cidadania.
São milhões de pessoas com algum grau de deficiência, pessoas com idade avançada, pessoas com doenças degenerativas, milhões de pessoas que deveriam ter apoio externo cotidianamente.
Se tem um trabalho humano que entendo que não deve ou não teria como ser substituído por robôs e IA é o trabalho de cuidar de pessoas, cuidar de dezenas de milhões de pessoas que para terem uma vida satisfatória e digna precisam de apoio de outras pessoas. Uma questão que nos fez sermos humanos desde que cuidávamos uns dos outros nas savanas, selvas, cavernas etc. Somos seres sociais porque precisamos uns dos outros. Não somos nada sozinhos!
Só uma parte pequena de pessoas tem dinheiro para pagar outras pessoas para cuidar e auxiliar idosos, pessoas com deficiência, crianças e pessoas adoecidas. Difícil um lar que não tenha alguém nessas condições. E se não tiver, terá! A pessoa hoje está no "corre" com sua moto no trabalho de aplicativo, amanhã pode estar numa cadeira de rodas, ou sem mobilidade pra sempre.
Os governos e os organizadores das sociedades humanas da atualidade precisam compreender e desenvolver sistemas sociais públicos e coletivos que empreguem e treinem pessoas para cuidar de pessoas.
Sem uma sociedade humana solidária e acolhedora, na qual cuidamos uns dos outros, nossa espécie vai encerrar a participação nos ecossistemas naturais nos devorando uns aos outros, até o último de nós. Isso não é força de expressão, é sério! Ou repensamos as sociedades humanas ou já era a nossa espécie "homo sapiens" (sábios?).
A frase de minha mãe, cansada de fazer uma casa funcionar aos 80 anos - trabalhando e sem remuneração social -, tentando fazer tudo que até jovens e adultos sadios talvez não consigam, espelha a realidade de dezenas de milhões de mulheres, que cuidam sozinhas de casas, filhos, idosos, doentes, netos, e até de adultos produtivos sem ocupação ou um trabalho.
William
08/08/26


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