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Lula na ONU
Discurso lido pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura da 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York (EUA), em 19 de setembro de 2023
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Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Dennis Francis, de Trinidad e Tobago.
É uma satisfação ser antecedido pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.
Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.
Presto minha homenagem ao nosso compatriota Sérgio Vieira de Mello e 21 outros funcionários desta Organização, vítimas do brutal atentado em Bagdá, há 20 anos.
Desejo igualmente expressar minhas condolências às vítimas do terremoto no Marrocos e das tempestades que atingiram a Líbia.
A exemplo do que ocorreu recentemente no estado do Rio Grande do Sul no meu país, essas tragédias ceifam vidas e causam perdas irreparáveis.
Nossos pensamentos e orações estão com todas as vítimas e seus familiares.
Senhoras e Senhores,
Há vinte anos, ocupei esta tribuna pela primeira vez.
E disse, naquele 23 de setembro de 2003:
"Que minhas primeiras palavras diante deste Parlamento Mundial sejam de confiança na capacidade humana de vencer desafios e evoluir para formas superiores de convivência”
Volto hoje para dizer que mantenho minha inabalável confiança na humanidade.
Naquela época, o mundo ainda não havia se dado conta da gravidade da crise climática.
Hoje, ela bate às nossas portas, destrói nossas casas, nossas cidades, nossos países, mata e impõe perdas e sofrimentos a nossos irmãos, sobretudo os mais pobres.
A fome, tema central da minha fala neste Parlamento Mundial 20 anos atrás, atinge hoje 735 milhões de seres humanos, que vão dormir esta noite sem saber se terão o que comer amanhã.
O mundo está cada vez mais desigual.
Os 10 maiores bilionários possuem mais riqueza que os 40% mais pobres da humanidade.
O destino de cada criança que nasce neste planeta parece traçado ainda no ventre de sua mãe.
A parte do mundo em que vivem seus pais e a classe social à qual pertence sua família irão determinar se essa criança terá ou não oportunidades ao longo da vida.
Se irá fazer todas as refeições ou se terá negado o direito de tomar café da manhã, almoçar e jantar diariamente.
Se terá acesso à saúde, ou se irá sucumbir a doenças que já poderiam ter sido erradicadas.
Se completará os estudos e conseguirá um emprego de qualidade, ou se fará parte da legião de desempregados, subempregados e desalentados que não para de crescer.
É preciso antes de tudo vencer a resignação, que nos faz aceitar tamanha injustiça como fenômeno natural.
Para vencer a desigualdade, falta vontade política daqueles que governam o mundo.
Senhores e senhoras,
Se hoje retorno na honrosa condição de presidente do Brasil, é graças à vitória da democracia em meu país.
A democracia garantiu que superássemos o ódio, a desinformação e a opressão.
A esperança, mais uma vez, venceu o medo.
Nossa missão é unir o Brasil e reconstruir um país soberano, justo, sustentável, solidário, generoso e alegre.
O Brasil está se reencontrando consigo mesmo, com nossa região, com o mundo e com o multilateralismo.
Como não me canso de repetir, o Brasil está de volta.
Nosso país está de volta para dar sua devida contribuição ao enfrentamento dos principais desafios globais.
Resgatamos o universalismo da nossa política externa, marcada por diálogo respeitoso com todos.
A comunidade internacional está mergulhada em um turbilhão de crises múltiplas e simultâneas: a pandemia da Covid-19; a crise climática; e a insegurança alimentar e energética ampliadas por crescentes tensões geopolíticas.
O racismo, a intolerância e a xenofobia se alastraram, incentivadas por novas tecnologias criadas supostamente para nos aproximar.
Se tivéssemos que resumir em uma única palavra esses desafios, ela seria desigualdade.
A desigualdade está na raiz desses fenômenos ou atua para agravá-los.
A mais ampla e mais ambiciosa ação coletiva da ONU voltada para o desenvolvimento – a Agenda 2030 – pode se transformar no seu maior fracasso.
Estamos na metade do período de implementação e ainda distantes das metas definidas.
A maior parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável caminha em ritmo lento.
O imperativo moral e político de erradicar a pobreza e acabar com a fome parece estar anestesiado.
Nesses sete anos que nos restam, a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles deveria se tornar o objetivo-síntese da Agenda 2030.
Reduzir as desigualdades dentro dos países requer incluir os pobres nos orçamentos nacionais e fazer os ricos pagarem impostos proporcionais ao seu patrimônio.
No Brasil, estamos comprometidos a implementar todos os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, de maneira integrada e indivisível.
Queremos alcançar a igualdade racial na sociedade brasileira por meio de um décimo oitavo objetivo que adotaremos voluntariamente.
Lançamos o plano Brasil sem Fome, que vai reunir uma série de iniciativas para reduzir a pobreza e a insegurança alimentar.
Entre elas, está o Bolsa Família, que se tornou referência mundial em programas de transferência de renda para famílias que mantêm suas crianças vacinadas e na escola.
Inspirados na brasileira Bertha Lutz, pioneira na defesa da igualdade de gênero na Carta da ONU, aprovamos a lei que torna obrigatória a igualdade salarial entre mulheres e homens no exercício da mesma função.
Combateremos o feminicídio e todas as formas de violência contra as mulheres.
Seremos rigorosos na defesa dos direitos de grupos LGBTQI+ e pessoas com deficiência.
Resgatamos a participação social como ferramenta estratégica para a execução de políticas públicas.
Senhor presidente,
Agir contra a mudança do clima implica pensar no amanhã e enfrentar desigualdades históricas.
Os países ricos cresceram baseados em um modelo com altas taxas de emissões de gases danosos ao clima.
A emergência climática torna urgente uma correção de rumos e a implementação do que já foi acordado.
Não é por outra razão que falamos em responsabilidades comuns, mas diferenciadas.
São as populações vulneráveis do Sul Global as mais afetadas pelas perdas e danos causados pela mudança do clima.
Os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera.
Nós, países em desenvolvimento, não queremos repetir esse modelo.
No Brasil, já provamos uma vez e vamos provar de novo que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável é possível.
Estamos na vanguarda da transição energética, e nossa matriz já é uma das mais limpas do mundo.
87% da nossa energia elétrica provém de fontes limpas e renováveis.
A geração de energia solar, eólica, biomassa, etanol e biodiesel cresce a cada ano.
É enorme o potencial de produção de hidrogênio verde.
Com o Plano de Transformação Ecológica, apostaremos na industrialização e infraestrutura sustentáveis.
Retomamos uma robusta e renovada agenda amazônica, com ações de fiscalização e combate a crimes ambientais.
Ao longo dos últimos oito meses, o desmatamento na Amazônia brasileira já foi reduzido em 48%.
O mundo inteiro sempre falou da Amazônia. Agora, a Amazônia está falando por si.
Sediamos, há um mês, a Cúpula de Belém, no coração da Amazônia, e lançamos nova agenda de colaboração entre os países que fazem parte daquele bioma.
Somos 50 milhões de sul-americanos amazônidas, cujo futuro depende da ação decisiva e coordenada dos países que detêm soberania sobre os territórios da região.
Também aprofundamos o diálogo com outros países detentores de florestas tropicais da África e da Ásia.
Queremos chegar à COP 28 em Dubai com uma visão conjunta que reflita, sem qualquer tutela, as prioridades de preservação das bacias Amazônica, do Congo e do Bornéu-Mekong a partir das nossas necessidades.
Sem a mobilização de recursos financeiros e tecnológicos não há como implementar o que decidimos no Acordo de Paris e no Marco Global da Biodiversidade.
A promessa de destinar 100 bilhões de dólares – anualmente – para os países em desenvolvimento permanece apenas isso, uma promessa.
Hoje esse valor seria insuficiente para uma demanda que já chega à casa dos trilhões de dólares.
Senhor presidente,
O princípio sobre o qual se assenta o multilateralismo – o da igualdade soberana entre as nações – vem sendo corroído.
Nas principais instâncias da governança global, negociações em que todos os países têm voz e voto perderam fôlego.
Quando as instituições reproduzem as desigualdades, elas fazem parte do problema, e não da solução.
No ano passado, o FMI disponibilizou 160 bilhões de dólares em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas 34 bilhões para países africanos.
A representação desigual e distorcida na direção do FMI e do Banco Mundial é inaceitável.
Não corrigimos os excessos da desregulação dos mercados e da apologia do Estado mínimo.
As bases de uma nova governança econômica não foram lançadas.
O BRICS surgiu na esteira desse imobilismo, e constitui uma plataforma estratégica para promover a cooperação entre países emergentes.
A ampliação recente do grupo na Cúpula de Joanesburgo fortalece a luta por uma ordem que acomode a pluralidade econômica, geográfica e política do século 21.
Somos uma força que trabalha em prol de um comércio global mais justo num contexto de grave crise do multilateralismo.
O protecionismo dos países ricos ganhou força e a Organização Mundial do Comércio permanece paralisada, em especial o seu sistema de solução de controvérsias.
Ninguém mais se recorda da Rodada do Desenvolvimento de Doha.
Nesse ínterim, o desemprego e a precarização do trabalho minaram a confiança das pessoas em tempos melhores, em especial os jovens.
Os governos precisam romper com a dissonância cada vez maior entre a “voz dos mercados” e a “voz das ruas”.
O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e política que hoje assola as democracias.
Seu legado é uma massa de deserdados e excluídos.
Em meio aos seus escombros surgem aventureiros de extrema direita que negam a política e vendem soluções tão fáceis quanto equivocadas.
Muitos sucumbiram à tentação de substituir um neoliberalismo falido por um nacionalismo primitivo, conservador e autoritário.
Repudiamos uma agenda que utiliza os imigrantes como bodes expiatórios, que corrói o Estado de bem-estar e que investe contra os direitos dos trabalhadores.
Precisamos resgatar as melhores tradições humanistas que inspiraram a criação da ONU.
Políticas ativas de inclusão nos planos cultural, educacional e digital são essenciais para a promoção dos valores democráticos e da defesa do Estado de Direito.
É fundamental preservar a liberdade de imprensa.
Um jornalista, como Julian Assange, não pode ser punido por informar a sociedade de maneira transparente e legítima.
Nossa luta é contra a desinformação e os crimes cibernéticos.
Aplicativos e plataformas não devem abolir as leis trabalhistas pelas quais tanto lutamos.
Ao assumir a presidência do G20 em dezembro próximo, não mediremos esforços para colocar no centro da agenda internacional o combate às desigualdades em todas as suas dimensões.
Sob o lema "Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável", a presidência brasileira vai articular inclusão social e combate à fome; desenvolvimento sustentável e reforma das instituições de governança global.
Senhor presidente,
Não haverá sustentabilidade nem prosperidade sem paz.
Os conflitos armados são uma afronta à racionalidade humana.
Conhecemos os horrores e os sofrimentos produzidos por todas as guerras.
A promoção de uma cultura de paz é um dever de todos nós. Construí-la requer persistência e vigilância.
É perturbador ver que persistem antigas disputas não resolvidas e que surgem ou ganham vigor novas ameaças.
Bem o demonstra a dificuldade de garantir a criação de um Estado para o povo palestino.
A este caso se somam a persistência da crise humanitária no Haiti, o conflito no Iêmen, as ameaças à unidade nacional da Líbia e as rupturas institucionais em Burkina Faso, Gabão, Guiné-Conacri, Mali, Níger e Sudão.
Na Guatemala, há o risco de um golpe, que impediria a posse do vencedor de eleições democráticas.
A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU.
Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz.
Mas nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo.
Tenho reiterado que é preciso trabalhar para criar espaço para negociações.
Investe-se muito em armamentos e pouco em desenvolvimento.
No ano passado os gastos militares somaram mais de 2 trilhões de dólares.
As despesas com armas nucleares chegaram a 83 bilhões de dólares, valor vinte vezes superior ao orçamento regular da ONU.
Estabilidade e segurança não serão alcançadas onde há exclusão social e desigualdade.
A ONU nasceu para ser a casa do entendimento e do diálogo.
A comunidade internacional precisa escolher:
De um lado, está a ampliação dos conflitos, o aprofundamento das desigualdades e a erosão do Estado de Direito.
De outro, a renovação das instituições multilaterais dedicadas à promoção da paz.
As sanções unilaterais causam grandes prejuízos à população dos países afetados.
Além de não alcançarem seus alegados objetivos, dificultam os processos de mediação, prevenção e resolução pacífica de conflitos.
O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo.
Continuaremos críticos a toda tentativa de dividir o mundo em zonas de influência e de reeditar a Guerra Fria.
O Conselho de Segurança da ONU vem perdendo progressivamente sua credibilidade.
Essa fragilidade decorre em particular da ação de seus membros permanentes, que travam guerras não autorizadas em busca de expansão territorial ou de mudança de regime.
Sua paralisia é a prova mais eloquente da necessidade e urgência de reformá-lo, conferindo-lhe maior representatividade e eficácia.
Senhoras e senhores,
A desigualdade precisa inspirar indignação.
Indignação com a fome, a pobreza, a guerra, o desrespeito ao ser humano.
Somente movidos pela força da indignação poderemos agir com vontade e determinação para vencer a desigualdade e transformar efetivamente o mundo a nosso redor.
A ONU precisa cumprir seu papel de construtora de um mundo mais justo, solidário e fraterno.
Mas só o fará se seus membros tiverem a coragem de proclamar sua indignação com a desigualdade e trabalhar incansavelmente para superá-la.
Muito obrigado.
"Discurso do Presidente Lula na abertura da 81ª Sessão
da Assembleia Geral das Nações Unidas
Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral,
Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh.
Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas
e delegados presentes.
Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações
Unidas.
Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi
testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências.
Senhor Presidente,
Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta
Assembleia.
Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003,
este é o momento mais crítico das Nações Unidas.
O sentimento que me move hoje é o da indignação.
A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a
de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão
baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm
exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.
Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança
que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o
Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo
direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes
potências o privilégio da insensatez.
A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de
liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a
Segunda Guerra Mundial.
Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista.
Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma
conflagração de proporções globais.
Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com
responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o
Conselho de Segurança precisam se reunir.
Não desconheço as realidades do poder.
Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos
limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo.
A guerra não é a continuação da política por outros meios. É
a falência total da política.
Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses
da pátria com os da humanidade.
Essa é a constatação de alguém que representa uma nação
amante da paz e da liberdade.
Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu
país contra um golpe de estado. É a convicção de um operário eleito três vezes
presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome.
Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas.
Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais
grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação mais precisa do
mapa-múndi.
Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o
futuro da humanidade.
Somos chamados a optar entre:
multilateralismo ou unilateralismo;
democracia ou extremismo;
soberania ou subordinação.
Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza
de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista.
Yasser Arafat e Yitzahk Rabin foram estadistas. Desafiaram o
passado para projetar um futuro de paz.
Foram derrotados pelo ódio.
Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados
pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em
Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos
atos terroristas do Hamas.
Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes
é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes.
A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser
silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam
cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses
e palestinos possam viver em segurança.
Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para
o Oriente Médio.
O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra,
quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional.
Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis,
fertilizantes e alimentos.
A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos, em
um drama humanitário que continua a ceifar vidas.
Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha.
A diplomacia é a única opção.
Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil
e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a
trabalhar pelo diálogo.
Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a
maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de
recrudescimento de tentações hegemônicas.
O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de
parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.
Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior
integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos
regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade
popular.
A democracia está novamente em xeque.
Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos
eleitorais.
A divisão do mundo em zonas de influência e investidas
neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos.
O povo venezuelano merece definir o próprio destino.
A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a
oposição de disputar eleições.
A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença
da comunidade internacional.
Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta
a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.
Senhor Presidente,
O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime
organizado.
Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas
que aterrorizam nossas comunidades.
Trabalhadores são roubados.
Mães perdem seus filhos.
Policiais não voltam para suas casas.
As pessoas estão cansadas da violência.
Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender
nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.
Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.
Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que
abastecem o crime.
Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao
Presidente dos Estados Unidos.
Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por
criminosos brasileiros no exterior.
Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à
sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está
mudando.
Criamos em Manaus o Centro de Cooperação Policial
Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança pública dos nove
países amazônicos.
Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime
organizado da história do Brasil.
Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos
ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os
magnatas do crime.
A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime
organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.
Crime organizado e corrupção andam juntos.
O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem
doer. Ninguém está acima da lei.
Senhoras e senhores,
Os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos.
A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos.
Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas
como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.
Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às
evidências da ciência. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo
descaso no enfrentamento da COVID-19.
Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que
julgávamos erradicadas.
Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna a todos
mais vulneráveis.
Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava
consolidada no centro da agenda internacional.
Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20,
foros que reúnem os maiores emissores de carbono.
É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao
negacionismo.
A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só.
As geleiras do Himalaia estão derretendo. Um Super El Niño
pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes
partes do globo.
Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis.
O Brasil vem demonstrando que é possível aliar crescimento
econômico com redução de emissões.
Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos
pesquisando o potencial de novas reservas, como as da Margem Equatorial.
Não renunciaremos à agenda ambiental. Levaremos adiante o
Mapa do Caminho para a descarbonização da economia brasileira.
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em
Belém, mostra que é possível mudar antigos paradigmas.
A floresta vale mais em pé do que destruída.
Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade
na Amazônia e atingiu o menor nível em 11 anos.
Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas
disfarçadas de apego à causa ambiental.
O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os
minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a
transição energética.
Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é
em benefício dele que serão exploradas.
O acesso a nossos minerais terá como contrapartida
obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de
tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.
Senhor presidente,
Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com
grandes riscos e oportunidades.
Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o
desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial.
Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de
neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.
Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da
ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial.
Como adverte o Papa Leão 14, “as decisões sobre tecnologia
nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade”.
Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem
para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos.
A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro.
Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo
lares.
O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.
Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para
proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.
Vamos assegurar a justa remuneração de artistas, músicos e
criadores de conteúdo audiovisual.
Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem
privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que
fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.
Senhoras e senhores,
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são alvo de
ataques de forças reacionárias, que desejam naturalizar injustiças.
A desigualdade e o subdesenvolvimento resultam de escolhas
políticas.
É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos
pagarem a sua parte.
É necessário cortar privilégios e investir em educação e
saúde gratuitas e de qualidade.
Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças. Mas
mudar não é retroceder.
Não é subtrair direitos.
Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão
feminina.
Não é recolonizar o Sul Global.
Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais
conquistas.
É criar e compartilhar soluções públicas efetivas para os
desafios do desenvolvimento por meio de um Estado democrático, forte, eficiente
e capaz.
É apostar no espírito de solidariedade e na cooperação com a
África, a Ásia e a América Latina e Caribe.
Iniciativas como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza
e o Painel Internacional sobre Desigualdade nascem dessa vontade política.
O Brasil tem pressa de se tornar uma nação desenvolvida e
socialmente justa.
Adotamos um modelo econômico que se assenta na distribuição
de renda, na geração de empregos e na valorização do salário.
Apostamos na melhoria da produtividade, na ampliação do
crédito e na construção de uma rede robusta de proteção social.
O Brasil voltou a crescer de modo sustentado. Somos o
terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.
Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos
novo recorde de exportações.
Ainda há muito a ser feito.
O mundo do trabalho está em transformação.
Pessoas idosas querem permanecer ativas. Jovens desejam
empreender.
O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar
e conviver com a família.
No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da
chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana.
Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga
doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam
pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de
trabalho.
Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou
fora de casa, viva sob a ameaça da violência.
Essa é uma causa que o mundo todo precisa abraçar.
Senhor presidente,
Ao receber o Nobel da Paz, Martin Luther King afirmou que
“aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas
para o próximo podem reconstruir”.
A ONU nasceu sob o signo da esperança.
Ao longo de oito décadas, contribuiu com a descolonização,
promoveu os direitos humanos e apoiou o desenvolvimento sustentável.
Protegeu migrantes e refugiados, condenou o racismo, o
antissemitismo e a intolerância religiosa.
Essas foram conquistas de lideranças que ocuparam este pódio
movidos pela indignação diante das injustiças de seu tempo.
Homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como
destino, o colonialismo como direito, o apartheid como sistema legítimo.
Foi dessa capacidade de dizer “não” às desigualdades que
nasceram algumas das maiores transformações que vivemos.
Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos
reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.
Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os
que nos ouvem.
No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e
brasileiros vão às urnas para definir o seu destino.
Não vão apenas eleger o presidente da República,
governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo.
Vão decidir entre democracia e negacionismo.
Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais
oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.
Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos
os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão.
Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a
interesses estrangeiros contrários ao país.
Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que
pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha.
Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto.
Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa
livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos,
atentem contra a vontade popular.
A democracia brasileira pertence aos brasileiros.
O Brasil continuará sendo um país soberano.
Ninguém...!!! Ninguém nos afastará desse caminho.
Que Deus nos abençoe a todos.
Muito obrigado.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República


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