terça-feira, 4 de junho de 2024

10 de 100 dias



10. Escrever quando a tendência é ser "youtuber" e "influencer"; os tempos são de áudio, imagem e vídeo. Porém, insistir em escrever.

Ler e escrever. Comentar sobre determinadas coisas através da linguagem escrita, com o signo linguístico inventado pelos animais humanos.

Seria essa a minha escolha para viver a vida a partir de agora, escrever?

Estudar algo e comentar através de texto? Estudar e aprender alguma forma de cultura e compartilhar minha impressão sobre ela?

Tenho perguntado a mim mesmo o que poderia fazer pelo planeta Terra, pela manutenção dos biomas e seres vivos. Minha mente deve estar ruim, pois não consegui achar ainda uma resposta.

Não tive criatividade ainda para definir o que poderia perseguir como objetivo pessoal nas próximas semanas.

Ler e escrever diariamente é uma das atividades desejadas por mim.

É isso!

William


segunda-feira, 3 de junho de 2024

9 de 100 dias



9. Baseado no que tenho refletido recentemente sobre minha vida pessoal, ainda não tenho claro o que estou perseguindo como objetivo por uma centena de dias. O que sei é que preciso lidar com sentimentos que limitam minhas potencialidades em relação ao que ainda poderia realizar enquanto sou e estou no mundo. Guardadas algumas exceções, avalio que ainda poderia ser e fazer muitas coisas, tanto para mim mesmo quanto para a coletividade humana.

E pelas condições gerais do meu existir, escrever seria talvez a coisa mais útil que eu poderia fazer para a comunidade à qual pertenço, mesmo estando neste momento com um sentimento de não pertencimento a quase nada. Querendo ou não, se parar para pensar friamente, eu pertenço a algumas abstrações mentais dessas criadas pelos animais homo sapiens.

Pertenço a uma determinada família, porque os seres humanos criaram esses conceitos nas relações sociais humanas. 

Pertenço a algumas comunidades determinadas por algo em comum, por exemplo, dos brasileiros e brasileiras. Eu pertenço àquela parte pequena dos brasileiros que trabalhou durante a vida na empresa pública Banco do Brasil e dessa "comunidade imaginada" - para usar o conceito de Benedict Anderson -, sou afiliado a diversas associações criadas pelas pessoas da comunidade de bancários do Banco do Brasil: Cassi, Previ, sindicato, associações de aposentados e atléticas etc.

Outro suposto pertencimento imaginado por mim seria ao segmento de pessoas no mundo que se entendem como pessoas de esquerda, que se identificam com supostos valores relacionados com princípios e objetivos da esquerda na sociedade humana. Os problemas dessas abstrações humanas já começam por aí: o que seria ser de esquerda hoje, tanto no Brasil quanto no mundo? Ao ver o comportamento e as proposições daqueles que entendia serem de esquerda, já não entendo mais nada... (ou entendo)

Enfim, o que poderia vislumbrar para uma centena de dias de existência em relação ao meu cotidiano e aos meus objetivos? Não posso enganar a mim mesmo nesta altura de minha vida. São necessários parcimônia e pés no chão para definir o que poderia perseguir como objetivo e depois avaliar o que rolou em minha vida nas próximas semanas, ou seja, em uma centena de dias, de 26 de maio a 2 de setembro.

Ver impresso o livro de memórias que estou editando? (e o que faria com isso?)

Ter sido "acabativo" em alguma empreitada de leitura e estudos e trilha de conhecimento?

Ter descoberto os motivos de minha perda de condição de saúde e, não sendo nada fatal, estar em processo de mudança e recuperação de alguma parte de minha saúde?

Ter avançado em algum projeto de estudo mais focado? 

Ter avançado em algum projeto de escrita no qual possa estar contribuindo com o compartilhamento gratuito de algo que sei?

Sei lá!

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Fiz algo nos últimos dias pouco comum em meu cotidiano: estive com pessoas que me fizeram rir e vi mídias de cultura que me fizeram rir e chorar. Isso é bom!

William Mendes


Leitura: Gen Pés Descalços (7) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 7


Dos volumes que já li de Gen Pés Descalços, talvez o sétimo seja o que tenha mais arcos ou pequenas histórias dentro da narrativa sobre a vida da família Nakaoka e do povo japonês no período posterior à derrota na guerra e após as duas bombas atômicas que mataram centenas de milhares de pessoas.

Já no início da história, Gen e Ryuta interrompem a busca de soluções para imprimir o livro "Fim de um verão" de Matsukichi Hirayama, contando ao mundo sobre as consequências da bomba atômica para o povo japonês. Eles precisam ajudar Noro, garoto que fugiu do reformatório com Ryuta e que queria se vingar do tio que roubou toda a herança de sua família, sendo responsável pela morte da irmã de Noro e prisão dele.

Esse arco foi resolvido graças à generosidade de Gen, um pacifista assim como toda a sua família. Da solução da história de Noro, os meninos foram atrás da impressão do livro do senhor Hirayama. Para isso, Gen procurou o senhor Bok, um coreano amigo da família Nakaoka desde antes da guerra.

O senhor Bok ajuda Gen e vemos no mangá a história dos coreanos subjugados pelos japoneses naquele período da guerra.


Neste momento da leitura, tomamos conhecimento de mais algumas informações relevantes para a história. O único que sabe ler no grupo de crianças vítimas da guerra, os amigos e protegidos de Gen, é ele mesmo, que deve estar com uns nove ou dez anos. Começa um arco aí, a leitura da história do senhor Hirayama, no livro "Fim de um verão".

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"O porto de Hiroshima, por exemplo, vivia repleto de soldados que só aguardavam o momento de serem enviados aos campos de batalha do Sul.", Gen leu no livro para os amigos. E continuou:

"Hiroshima era a cidade que sediava as divisões do exército japonês. Um lugar que prosperou como capital militar do país."

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Parte duríssima da história. Revemos toda a história e cenário do volume dois, o lançamento da bomba e as consequências dela. Cenas duras! O desenho de Nakazawa é impressionante!

Da distribuição do livro, começa um novo arco, porque era proibido aos japoneses falarem sobre a guerra e suas consequências. Os leitores vão conhecer agora os norte-americanos atuando no Japão como donos do mundo, os mesmos que ensinarão métodos de tortura aos ditadores sul-americanos nas décadas seguintes.

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NONSENSE que funciona bem com Nakazawa

Nakazawa tem uma forma muito peculiar de contar a história de seu povo, ele mescla na História em Quadrinhos violência extrema com humor, e a gente acaba entendendo o motivo de sua técnica. Neste volume, no arco dos agentes norte-americanos, os garotos em cativeiro "treinam" em si mesmos resistência às torturas que imaginaram que sofreriam em seguida. É algo nonsense, mas que dá todo o sentido naquela parte da história.

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Desse arco do cativeiro, surge outro bem legal. É a revanche! Os garotos descobrem como destruir as máquinas do inimigo com docinhos de açúcar.

O último arco do volume é muito emotivo. A mãe de Gen volta para casa, pois estava internada com a doença da bomba. O irmão mais velho dele, Kouji, também volta depois de um bom tempo sem notícias. A família está reunida novamente. 

Conhecemos a história do casamento dos pais de Gen e os duros tempos de guerra, quando o governo japonês torturava o próprio povo, quando alguém discordava da guerra e do imperador.

A mãe de Gen quer ir com a família a Kyoto e novamente vemos a humildade e determinação do garoto para conseguir os recursos para a viagem. Gen vai recolher fezes humanas para atingir seus objetivos.

Apesar do volume terminar de forma triste, vemos a determinação de Gen Nakaoka em querer falar com o chefão dos invasores norte-americanos e com o imperador do Japão sobre os efeitos da guerra e da bomba atômica.

Vamos para o oitavo volume. Como vocês perceberam, procurei falar das temáticas dos arcos sem dar spoiler sobre o que de fato aconteceu. Só lendo o mangá para conhecer os detalhes. O comentário do primeiro volume pode ser lido aqui. Os seguintes estão ao final de cada texto.

O volume seguinte, o oitavo, pode ser lido aqui.

William


domingo, 2 de junho de 2024

8 de 100 dias



8. Iniciei mais uma semana de vida neste domingo. Voltamos hoje do feriado que passamos na Colônia do Sinpro SP, na Praia Grande. Adoramos aquele lugar simples e aconchegante. E ainda tivemos o prazer da companhia de uma família de amigos professores que nos faz acreditar em sentimentos humanos que às vezes achamos perdidos para sempre: esperança, amor, amizade, bom humor, ética, atitude, e outras nobrezas da espécie humana.

No final da noite de domingo, assisti em casa a mais um filme da saga Mad Max, o Estrada da Fúria. Fiquei pensando se as ficções abordando temas sobre mundos destruídos e ambientes humanos sem sociabilidade alguma seriam ficções idealizadas por causa de previsões e estudos sobre o amanhã na Terra, causando nos espectadores um certo temor a respeito do futuro e uma certa conscientização do que estamos fazendo com o único lugar habitável no universo, ou se seriam só diversão mesmo, passatempo. Ou as duas coisas.

Estou com sono para escrever. Vou dormir. Meu desejo é encontrar algum objetivo de curto prazo que mude alguma coisa no meu cotidiano. Ainda não me veio a resposta. 

Outro desejo deste animal humano que fala através de seus registros em um blog na internet é ser útil de alguma forma para a coletividade humana no sentido de libertar as pessoas da opressão e da miséria, e da ignorância política predominante na maioria (sei que isso soou arrogante...), mesmo após tanta ciência e descobrimentos realizados pela nossa espécie.

Não encontrei respostas para esses desejos. Avaliando um pouco, me parece que qualquer contribuição que eu ainda poderia fazer seria escrevendo alguma coisa, falando alguma coisa que sei e que gostaria de compartilhar de forma gratuita com os outros. 

Durante décadas, procurei respostas para a vida, para a minha vida, para compreender a vida humana e o nosso mundo. Já encontrei as respostas, hoje compreendo as coisas.

O difícil agora é encontrar sentidos para as buscas que estou fazendo depois das respostas que encontrei sobre a vida.

William


sábado, 1 de junho de 2024

7 de 100 dias



7. Enquanto caminhava pela orla da Praia Grande, pensava nas coisas da vida. Vendo o cenário e as pessoas na paisagem, me veio à mente a questão da saúde e da não saúde, inclusive da saúde mental, e a questão do saber e do não saber.

Fiquei muito incomodado ao ver logo cedo uma matéria nas redes sociais sobre nossa autogestão em saúde, anunciando como uma grande conquista a novidade de que agora qualquer um dos 588 mil participantes do sistema pode se cadastrar numa empresa capitalista de consultas por telemedicina com psicólogos e psiquiatras... sem recomendação e orientação adequada por parte das equipes de saúde (da Estratégia de Saúde da Família) da própria Caixa de Assistência.

Aí, um leigo em gestão de saúde, em gestão de saúde do modelo assistencial que nós preconizávamos na Cassi, poderia me dizer assim: - Ué, não é uma boa notícia? Pelo que a operadora anunciou, é uma ótima notícia! Agora qualquer usuário dos planos do sistema Cassi pode fazer quantas consultas quiser com psicólogo e psiquiatra. É só criar uma conta lá na empresa conveniada e pronto. Que mal há nisso?

Eu fico admirado, mas não surpreso, na forma como as coisas se desenvolvem no mundo atual. E fico me cobrando por que eu insisto em perder meu tempo elaborando comentários sobre coisas relativas à nossa Caixa de Assistência. No fundo eu sei por que me cobro isso: porque alguém que tem conhecimento sobre algo não pode se isentar de dizer o que sabe sobre aquilo. Eu conheço a Cassi e o modelo assistencial, conheço o mercado onde ela opera e os problemas da autogestão. Não posso me calar!

A notícia sobre um convênio com uma empresa do mercado para que os participantes do sistema Cassi possam fazer consultas à vontade com seus sócios ou profissionais é uma notícia no mínimo preocupante para a sustentabilidade da operadora, para os próprios assistidos dos planos e para o modelo que a Cassi deveria perseguir caso queira sobreviver por bastante tempo. 

Sério: vendo a forma como a notícia foi dada, qualquer gestor de saúde que olha os custos do sistema saberia o que estou dizendo. É uma temeridade a notícia! É um incentivo ao gasto aberto sem resolutividade aparente e com risco de uma conta impagável para a operadora.

Mas vai entender! Isso não deveria ser problema meu, nem preocupação minha. Sei de diversas pessoas dentro da gestão da operadora que deveriam saber que nosso modelo não era para ter foco no estímulo aos participantes para fazerem suas "demandas" na rede prestadora assim como está na propaganda, ao sabor do mercado. 

Era para ser o inverso. Era para um participante da Cassi só passar por uma consulta ou exame na rede privada capitalista consumidora dos recursos do sistema Cassi caso um médico ou alguém da própria equipe de família que acompanha e monitora aquele participante sugerisse a marcação da consulta ou exame. Repito: era para toda a gestão da Cassi ter isso em mente! O que mudou tanto?

Então, por que eu estou preocupado com essa notícia esquisita, chamando os 588 mil participantes do sistema a saírem se cadastrando na tal empresa conveniada e fazendo consultas quantas vezes quiserem? A empresa vai lucrar mais com o estímulo da própria operadora que vai pagar a conta para seus usuários irem às comprar no mercado de venda de serviços de saúde. Francamente!

O mundo humano está muito esquisito. Vai saber quantas daquelas pessoas que vi por uma hora na orla da Praia Grande não são participantes dos planos de saúde da Cassi e não poderiam começar já a se cadastrarem na tal empresa e marcarem consultas com psicólogos e psiquiatras à vontade... (É a lógica do Emplasto Brás Cubas que expliquei aos usuários da Cassi quando era gestor eleito da operadora)

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Enfim, não consegui deixar para lá essa coisa martelando nas minhas ideias e consciência e incomodando meu dia. 

Apesar desse incômodo, foi excelente meu sétimo dia de uma centena de dias sendo vividos em busca de sentidos, de prazer, de amizade, de amor, de conhecimento, e de mudanças.

A foto que ilustra essa postagem é da Colônia dos Professores onde estamos neste feriado. Passamos boa parte do dia conversando com gente inteligente, alto astral, gente da classe trabalhadora e que atua com educação. 

Foi um dia feliz. Imaginem vocês que enquanto aproveitávamos o dia, aprendemos muitas coisas novas de cultura geral.

William


sexta-feira, 31 de maio de 2024

6 de 100 dias



6. Demos gargalhadas no fim da noite deste sexto dia de minha centena de dias de provável viver. Estamos na colônia de férias do Sindicato dos Professores, na Praia Grande. Estávamos com amigos jogando Master, jogo de perguntas e respostas sobre conhecimentos gerais. Enquanto jogávamos, aprendíamos sobre os mais diversos temas. Também lemos poesias hoje.

Para fechar o mês de maio, corri no cenário que ilustra esta postagem, na orla da Praia Grande. Fiz uma atividade física diminuindo o tempo que marco normalmente no percurso. Durante as corridas do mês, reduzi o tempo no percurso de 5,6K de 44' para 38'36". 

Nos próximos dias, vou fazer exames do quadril para saber como estão os meus desgastes na estrutura de locomoção. Tenho corrido com muita consciência no movimento, para fazer um trote suave. Correndo, melhoro minha condição cardiorrespiratória e circulatória.

Minha irmã está em casa, ainda sem darem a ela o diagnóstico final do que a está debilitando. A suspeita é Chikungunya, e minha irmã acabou de sofrer com uma dengue. É seguir torcendo pela recuperação da Telma.

Enfim, vamos dormir para descansar o corpo e a mente.

William


Diário e reflexões - Maio



Refeição Cultural - Maio

Praia Grande, 31 de maio de 2024. Sexta-feira.


Fechando mais um mês de existência neste pálido ponto azul. Ao reler meu registro de retrospectiva do mês passado (aqui), as questões de saúde da família e as filosofadas que fiz, vi que não houve muita diferença de um mês para o outro. Tivemos problemas de saúde na família neste mês também. Todos vivos, felizmente.

MUNDO

Em relação à sociedade humana, este foi um mês de desencanto, mesmo vendo a rede de solidariedade do povo brasileiro para ajudar os irmãos e irmãs do Rio Grande do Sul. O desencanto é com relação à tendência de futuro. O projeto da extrema-direita e do capitalismo neoliberal, que é tudo a mesma merda misturada, vem se sobrepondo a qualquer ideia alternativa à sociedade capitalista destruidora da vida na Terra: é um cenário de fim do mundo, sem um exército de libertação para nos salvar.

AUTOCONHECIMENTO

Em relação aos meus estudos e leituras, vi filmes muito bons, li mais que o mês passado, e escrevi o dobro de textos em relação ao mês anterior. A média de acessos aos textos no blog foi mantida. Ainda tenho leitoras e leitores de meus textos. É uma honra ter mais de vinte mil acessos por mês ao blog. Saibam que escrevo com muita responsabilidade e baseado naquilo que leio e estudo e nas minhas opiniões políticas e com o conhecimento de mundo que tenho.

BRASIL

Em relação ao Brasil e ao povo brasileiro, minha leitura é pessimista. O governo que elegemos para tentar reverter parte das desgraças produzidas pelos dois governos de merda que tivemos, Temer e Bolsonaro, está acuado, não tem maioria em nenhuma instância política, e não tem uma base de esquerda sindical e política que consiga influenciar e liderar massas populares para evitar a derrubada do governo. Os inimigos já contam os votos para o impeachment, e têm os votos. Por enquanto, segue a manutenção de Lula nas cordas sofrendo humilhações seguidas pelo bolsonarismo, pelo Centrão e pela casa-grande com sua mídia golpista. Isso ajuda na derrota eleitoral, caso não golpeiem Lula antes de 2026.

CUT E PT

Na minha opinião o movimento sindical e partidário deveria se apresentar com bandeiras claras de que tipo de sociedade defende, quais ideias teria para um eventual futuro humano e para o país. Quais as utopias que a CUT e o PT têm para oferecer à classe trabalhadora, aos povos despossuídos e aos segmentos que não compõem o 1% dono de tudo? Na boa, qual a diferença hoje do PT em relação aos demais partidos do país? Sobre o capitalismo, por exemplo? Sobre a terceirização? Sobre a democracia? E a CUT? Quais concepções e práticas sindicais da Central e seus sindicatos hoje são diferentes das outras forças sindicais que combatíamos no passado?

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QUAIS SÃO NOSSAS UTOPIAS? "HUMANIZAR" O CAPITALISMO?

Nós que pensamos um mundo diferente desse que está aí precisamos de lideranças que se apresentem com ideias e ações práticas (que façam o que falam, que tenham coerência) que demonstrem perspectivas de um amanhã que seja diferente do mundo feio e triste para o qual estamos caminhando.

Nossos inimigos estão nos bastidores preparando o terror para nós. Qualquer pessoa politizada com leitura de mundo consegue ver isso. Eu sei que as maiorias esmagadoras das pessoas ao nosso redor não têm visão política dos bastidores da política, porque estão no corre para sobreviver mais um dia, estão alienadas por falta de oportunidade de educação libertadora, e não se politiza uma pessoa com um toque de mágica.

E aí, o que fazer? Vamos "humanizar" o capitalismo? É isso?

William


quinta-feira, 30 de maio de 2024

5 de 100 dias



5. O que fazer numa centena de dias quando se está percebendo o mundo em processo progressivo de desfazimento? Hoje, entendo Drummond quando seus eu-líricos diziam que viver é uma ordem, viver apenas, sem mistificação. Compreendo o poeta. Viver para mim é uma necessidade (e não por mim)!

Eu posso parar as guerras em andamento? Posso interromper o extermínio do povo palestino executado pelos sionistas de Israel? Posso ajudar meus irmãos e irmãs cubanos vivendo carências materiais essenciais sob um bloqueio criminoso por parte do país mais terrorista do mundo, os Estados Unidos? 

Eu posso interromper as humilhações que os inimigos do povo e da classe trabalhadora brasileira e do país estão impondo ao presidente Lula através daquele parlamento com 400 bárbaros comprados com o dinheiro das poucas famílias bilionárias, o 1%, e comprados com o orçamento (inclusive o secreto) do país capturado por aqueles canalhas?

O que está ao meu alcance fazer para frear as injustiças e violências e ignorâncias do mundo no qual estou inserido como um dos participantes da sociedade humana? O que fazer?

Eu não sei.

Nos últimos dias, o que fiz foi me sentar com pessoas com as quais trabalhei e convivi por muito tempo e que considero como amigas para comermos uma pizza e conversarmos. 

Também estou passando uns dias com a família e com amigos na colônia dos professores do Sinpro SP na Praia Grande. Estou conversando com pessoas com as quais se pode conversar ainda. Isso é bom.

Em relação às leituras e textos em andamento, sobre a ideia de ser mais "acabativo", terminei mais um dos volumes do Gen Pés Descalços, História em Quadrinhos de Keiji Nakazawa, um mangá extraordinário que conta ao mundo a tragédia vivida pelo povo de Hiroshima, comunidade humana vítima da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos, o país mais terrorista do mundo. Li o volume sete, agora faltam três. (comentário aqui)

Enfim, não estou numa função social atualmente que me permita ou que me facilite a condição para mudar a realidade injusta e perversa da sociedade humana. Isso não é uma desculpa para não fazer nada para mudar a realidade ruim, não é. Mas ainda não me vejo pertencente a um movimento desses muda-mundo.

Se for avaliar criticamente e honestamente, diria até mesmo que os movimentos aos quais participei por um bom tempo em minha vida profissional, movimento sindical e partidário, que já tiveram força para mudar realidades da classe trabalhadora, hoje têm dificuldade para apontar um horizonte e utopias para o povo trabalhador e sem posses.

Se o Partido dos Trabalhadores não for enfático em alguma bandeira que o diferencie dos demais partidos tradicionais, dizendo aos seus filiados, militância e simpatizantes qual sua posição em relação ao capitalismo, por exemplo, terá cada dia mais dificuldade de mudar a realidade do povo trabalhador e sem posses.

É a minha opinião.

Muitas lideranças do PT querem "humanizar" o capitalismo, ao invés de deixar claro que temos que superar esse sistema destrutivo do mundo e do ser humano.

Acho isso foda! Francamente!

Bom, como a vida de todos nós está muito instável, não sabemos se as guerras tomarão conta de tudo e nosso cotidiano será invadido por uma delas, talvez seja bom estar com mais pessoas queridas nessa centena de dias que estou por aí, vivendo, sem mistificações. Conversar com amigas e amigos é bom.

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Ah, sobre a "condenação" do bárbaro Trump, que tomou conta das notícias das mídias no dia de hoje... para mim é nuvem. Nuvem. Não muda nada nos Estados Unidos e não muda nada para os palestinos, para os cubanos, para os venezuelanos, para os chineses, não muda nada em relação ao que a extrema-direita e o 1% estão organizando para inviabilizar qualquer desejo de Lula de desfazer alguns dos crimes de lesa-pátria e lesa-humanidade praticados pelos bárbaros no poder político até 2022: bolsonaristas et caterva da laia deles. Não muda nada. O que vão fazer com Lula e conosco já está traçado pelos 400 bárbaros do Parlamento. O problema é o nosso lado da classe, as nossas lideranças sindicais e partidárias. Nosso lado não está sendo organizado para reagir, resistir e lutar pela nossa ideia de mundo. Nada a ver com o merda do Trump ou o merda do Biden. Nada!

William


quarta-feira, 29 de maio de 2024

4 de 100 dias



4. Vivo um dilema pessoal sobre como levar meus dias. As circunstâncias me permitiriam gozar os dias que tenho pela frente. Gozar num sentido lhano, aproveitar os dias de vida fazendo o que gosto depois de trabalhar quase quarenta anos de minha vida.

Gosto de ler, estudar, escrever. Por décadas de vida adulta, não pude ler e estudar como gostaria porque a vida de trabalhador me consumia as energias na luta diária pela própria sobrevivência. Além de não me ver realizado como pessoa em diversos trabalhos que fiz antes de me tornar trabalhador de empresa pública de economia mista, acabei não fazendo o que pensei fazer na vida.

Quem faz o que gosta e coincide em fazer o que gosta sendo algo bom para a sociedade humana e ou para o planeta Terra deve se sentir bem. Acho que só me senti bem fazendo meu trabalho algumas vezes na vida. 

Quando olho para trás, avalio que atendi decentemente as pessoas nos quase dez anos que atuei nas agências do Banco do Brasil. Também avalio que fiz um trabalho honesto e com repercussão positiva para a vida das pessoas quando fui sindicalista e quando fui gestor de nossa Caixa de Assistência.

Desde que saí da empresa pública onde passei o maior tempo de minha vida adulta, fiz um esforço para preencher meus dias com atividades que me dessem um pouco de prazer pessoal. O tal gozo que disse no início da reflexão. Li algumas dezenas de livros, de diversos temas e áreas do conhecimento humano. E essa atividade cultural foi boa, valeu a pena. 

Entretanto, de alguma forma, esse ganho pessoal não me trouxe felicidade. A consciência do mundo ao meu redor só fez aumentar a minha infelicidade. Talvez esteja me sentindo tão infeliz quanto fui infeliz nos piores momentos do viver. 

É uma infelicidade misturada com gratidão por ser um privilegiado, uma pessoa de sorte. Eu posso fazer hoje as coisas básicas da cidadania, coisas que TODAS as pessoas deveriam poder fazer, mas meus pares da classe trabalhadora não podem. Isso me mata!

De tão deslocado, me sinto infeliz. Talvez por isso fico arrotando revoluções proletárias que sei que não ocorrerão. Talvez por isso fique puto por ver os movimentos organizados do meu lado da classe serem o que são, serem o mesmo que fui, não-revolucionários, reformistas ou conciliadores com os adversários e inimigos. E como os tempos não são mais de conciliação, descarrego minha impotência arrotando revoluções que não estão no cenário político.

Que foda! Que merda!

Ao não me sentir com pertencimento aos movimentos conciliatórios aos quais eu mesmo militei a vida toda, ao perceber que acho quase inútil despender energia convidando a classe trabalhadora para acreditar na política como ela é no Brasil e na democracia de mentira montada pelos donos do poder da casa-grande, vejo que não posso seguir vendendo ideias que acho ilusórias. 

Desde o golpe sem um tiro sequer que depôs a nossa presidenta Dilma Rousseff, uma mulher honesta, aguerrida e democrática, desde aquele fatídico dia 17 de abril de 2016, eu não acredito mais em democracia "liberal", "representativa", nos moldes das democracias do Brasil e dos Estados Unidos, que nada mais são que plutocracias. Não acredito mais nessas democracias de faz-de-conta.

Desde o impeachment de nossa presidenta Dilma, sem luta nas ruas, sem enfrentarmos aquela gente fascista odiosa e cuzona, porque fascistas são cuzões, só em bando se fazem de corajosos, mas são cuzões, desde aquela armação kafkiana "com o Supremo com tudo" eu não acreditei mais na democracia, não queria mais saber dessa mentira do voto.

Avalio que o maior erro de minha vida política foi seguir na política representativa depois daquele impeachment ridículo, com o meu lado da classe trabalhadora aos gritos de frases de autoengano "não vai ter golpe!" "não vai ter golpe!", sabendo que o golpe estava rolando e não estávamos fazendo nada efetivo para impedir o golpe, como o povo venezuelano fez quando deram o golpe em Chaves e o povo o libertou em 48 horas, percebi o quanto nós mesmos éramos também uns sonhadores (ou cuzões), ou péssimos em avaliação de conjuntura.

Eu não deveria ter participado mais de processos eleitorais depois do golpe de 2016. Eu fiz tudo que se deve fazer como representante da classe trabalhadora, mas no fundo eu sabia que os mandatos de nosso lado não eram mais respeitados pelos nossos inimigos. 

Tínhamos que pensar alternativas para lutar pela manutenção dos direitos e conquistas do povo brasileiro de forma mais contundente. Nós deixamos os inimigos abusarem tanto que viramos piada, chacota deles. Montavam lawfare contra nossas lideranças e não sofriam nada com os abusos. Depois de Dilma foi a vez de nosso companheiro Lula passar o que passou e nós de novo não impedimos o que fizeram com nossa liderança que nunca roubou uma agulha, deixamos Lula ser preso e humilhado como "ladrão". O povo tirou Chaves das masmorras em 48 horas. Nós deixamos Lula 580 dias naquela masmorra de merda em Curitiba.

Enfim, acabei lendo, estudando e escrevendo um pouco mais depois que saí de meu dia a dia na empresa pública para a qual dediquei o melhor de minha vida adulta. Mesmo assim, sinto uma coisa esquisita em ficar lendo, estudando e escrevendo e a desgraceira toda rolando ao meu redor contra o povo trabalhador que amo e respeito. Essa impotência me dilacera.

Que fazer nessa centena de dias que vai até dois de setembro (invenção minha de viver de 100 em 100 dias)? Ficar lendo, estudando e escrevendo e seguir vendo as humilhações que estão impondo a Lula naquele antro do parlamento brasileiro? Essa merda aqui não é democracia, nunca foi! Se aqueles trastes votarem a volta da escravidão ou transformarem a Amazônia e o Pantanal em pasto e cimento, a gente vai cumprir a porra da "lei"?

Vai pra casa do caralho com essa palhaçada de ficar discutindo esse lero-lero de fim de mundo imposto a nós por uma ínfima parcela de animais irracionais humanos mortais!

Essas são minhas reflexões ao final do 4º dia dos 100 dias que pensei dias atrás em ver o que faria dessa centena de dias de minha hipotética vida até dois de setembro. Sei lá se minha mente ainda é criativa para mudar o rumo de alguma coisa ao menos na minha vida.

William

terça-feira, 28 de maio de 2024

3 de 100 dias



3. Os altos e baixos da vida. À tarde, ao falar com minha mãe, soube que minha irmã querida está internada desde ontem. Ainda não nos informaram o diagnóstico. Preocupação! As últimas semanas não foram fáceis para nosso núcleo familiar. Quase todos em Uberlândia tiveram seus dias difíceis.

Na última vez em que estive em Uberlândia, dormi na casa da Telma. Ao passarmos horas conversando, disse a ela algo que tenho percebido neste momento do viver e do mundo no qual estamos enfiados. Disse que nós não nos conhecíamos. Que acho que as pessoas quase não se conhecem mais ou nunca se conheceram, mesmo quando acham que conheciam as pessoas de suas relações.

Em poucas horas, contamos um ao outro coisas de nossas vidas passadas que não tínhamos a menor ideia de que aquilo poderia ter acontecido com um e com o outro. Onde estávamos que nunca soubemos o que aconteceu com uma pessoa tão próxima a nós? Estávamos mergulhados em nossos dramas pessoais tentando sobreviver, eu acho.

Vamos torcer para que minha irmã esteja melhor amanhã.

Como disse, a vida é de altos e baixos.

Voltei agora há pouco de um encontro com amigas e amigos do trabalho. Isso é uma coisa boa se considerar que já saí do banco faz cinco anos. Fomos a uma pizzaria aqui do bairro, uma pizzaria que é ponto de encontro há muito tempo dos colegas da Agência Vila Iara do Banco do Brasil.

Noite fria. Corações quentes. Durante nossas conversas fraternas o dia a dia do banco, os filhos e família, os cotidianos de cada um, as dificuldades e as esperanças num amanhã melhor. Adorei ver as amigas do banco falando orgulhosas de seus filhos e filhas. Sempre admirei e respeitei profundamente as mulheres pelo papel organizador do mundo, independente dos papéis que estejam desempenhando. Sem elas, a sociedade humana não teria a menor chance.

Falei o quanto acho injusto o Estado no qual a coletividade vive não ter sido desenvolvido para cuidar de nossas crianças e de nossos idosos e pessoas adoecidas para dar melhor oportunidade às mulheres e homens em idade produtiva de se dedicarem às suas áreas profissionais sem ter que abrir mão delas por não terem quem cuide de seus familiares tanto na infância quanto nas fases maduras da vida.

O Brasil terá cada vez mais pessoas nas faixas etárias maiores e é uma injustiça deixar a ampla maioria do povo por sua conta e risco em relação aos seus familiares idosos ou adoecidos. O Estado nacional deveria ser organizado para estabelecer justiça social e justiça social é igualar as condições de mulheres e homens em relação às oportunidades de trabalho e vida. Em nosso país, as maiorias das mulheres cuidam sozinhas de toda a família, descendentes e ascendentes.

Fica registrada a minha admiração e o meu respeito às mulheres.

Hoje escrevi dois textos com opiniões políticas e culturais em meu blog. Espero que as leitoras e leitores gostem ou que reflitam de alguma forma a partir do que argumentei nos textos. 

É o que fiz nesse terceiro dia da centena de dias que espero viver até dois de setembro. Espero ter vivido o dia dignamente e sem ter piorado o mundo, se não tiver conseguido contribuir com nada que o melhore.

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Ah, ia me esquecendo. Recebi no final do dia, a amostra digitalizada do livro coletivo que participei sobre as mães. Ficou muito legal. Fiz lá minha contribuição, um texto para a minha mãe querida. Nossa editora, a Cleusa Slaviero, é muito boa naquilo que faz. Já imagino como vai ficar legal a edição de minhas memórias sindicais, que ela está editando. Não vejo a hora de levar o livro das mães para a minha mãe.

Essa vida humana é um instante. Estava pensando comigo mesmo. Do mesmo jeito que estamos vivos, num instante não estamos mais. Se desaparecer qualquer hora dessas, espero que só falem de mim quem me considerou de verdade.

William

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Post Scriptum:

Olha que legal a mãezinha recebendo o livro com o texto em homenagem às mães e a ela em especial. 

Leituras Capitais - Nem assim



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1311

Osasco, 28 de maio de 2024. Terça-feira.


NEM ASSIM

A matéria principal da revista nos desafia à indignação. E eu me pergunto até que grau a indignação nos move?

"Enquanto as enchentes continuam a castigar o Rio Grande do Sul, o Congresso avança no desmonte das políticas ambientais"

Amigas e amigos leitores, eu serei direto nas minhas argumentações e reflexões sobre a nossa passividade quase bovina em relação a não tomarmos atitude perante as merdas de alguns sujeitos, alguns, porque se somos 200 milhões de pessoas nesta terra e umas duas mil famílias fodem tudo e não impedimos essa gente, é porque permitimos que alguns dos 0,00alguma coisa por cento destruam o nosso mundo.

Destaques da matéria de Maurício Thuswohl:

A culpa é de quem? Passou da hora de apontar as responsabilidades de quem nega as mudanças climáticas e contribui para a devastação dos biomas brasileiros

*A tragédia gaúcha não comoveu a bancada ruralista, que mantém a ofensiva contra as leis de proteção ambiental

*O Observatório do Clima aponta 28 propostas legislativas que podem causar "danos irreversíveis aos ecossistemas"

*As big techs são coniventes com o negacionismo climático que grassa na web

Amig@s, fala sério! É o modelo de organização de nossa sociedade: o capitalismo. Não dá!

E não tem como remediar o que os poucos fizerem em benefício próprio e contra nós milhões, não tem!

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E se formássemos milícias populares de defesa da natureza, independente de limites escriturais, papéis do homem, para proteger a natureza? Esses fdp NÃO TÊM O DIREITO de destruir o NOSSO MUNDO!

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Pela lógica do capitalismo, um (1) cara pode ter o dinheiro de 100 milhões de pessoas e "comprar" uma área do tamanho de um estado e cimentar aquela área inteira. Esse mesmo 1 cara compra os parlamentares que votam a "lei" para ele cimentar a área "dele". Bastam 41 caras de uma casa e uns 342 caras da outra casa legislativa para "aprovarem" uma "lei" que permita tudo a ele.

Vocês aceitam isso? Vocês vão cumprir a "lei"?

Entendem o limite da defesa de nosso mundo em relação à suposta "lei"?

As outras matérias da seção "Capa" vão na mesma linha de denúncia de que os privilegiados no poder econômico e político, comprado pelo poder econômico, seguem impunes e dando as cartas.

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SEU PAÍS 

Aí entramos na seção "Seu País" e lá está ele o "MERCADO" (aqueles poucos fdp que citei acima) agradecidos porque a "parceira" Tebet quer tirar o reajuste dos aposentados da regra do salário mínimo...

Pqp!

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Artigo "Maquiagem corporativa". de Antonia Quintão (p. 25)

Excelente texto da presidenta do Geledés - Instituto da Mulher Negra sobre a forma como o mundo corporativo arranja desculpas para justificar a pouca ou nenhuma participação das mulheres negras em cargos de chefia.

Quando ela criticou os argumentos que usam para dizer que no continente africano já havia regime de escravidão, me lembrei na hora do episódio 2 "A guerra dos Palmares" da série "Guerras do Brasil.doc" (2019). 

Os caras lá falaram sobre isso. Na verdade, a questão de escravizar humanos por motivos culturais - dívidas, derrotas em guerras etc - desde tempos imemoriais não é a mesma lógica do sequestro e escravização dos povos africanos nos últimos séculos para fins econômicos como fatores de produção no mercantilismo e capitalismo.

Ainda na seção "Seu País"...

Temos a matéria "Asfixia financeira" que o carioca governador de São Paulo está fazendo na educação do estado. (p. 26)

"SÃO PAULO - Tarcísio de Freitas apresenta proposta orçamentária com brecha para reduzir a verba da Fapesp em até 30%", matéria de Mariana Serafini

Tristeza geral cada vez que ouço, leio e vejo o que esse bolsonarista está fazendo em nosso estado paulista. Que dureza! Como frear de forma pacífica como agimos o trator desse desgraçado?

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NOSSO MUNDO

A Europa hipnotizada (p. 40)

"O avanço da extrema-direita nas eleições de junho deve impulsionar os partidos nacionalistas em todo o continente"

Essa matéria é um alerta ao que já sabemos: o avanço contínuo dos segmentos fascistas e de ultradireita no mundo. 

Essa seção é uma das que mais gosto na revista.

Depois lemos a matéria sobre o extermínio dos palestinos por parte do governo sionista de Israel. O mundo assiste ao vivo a tomada da terra de dois milhões de pessoas sem frear a máquina assassina dos sionistas.

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PLURAL (p. 48)

Por fim, na seção sobre cultura, adorei a matéria sobre as livrarias. Leiam, está muito legal!

A reportagem de Ana Paula Sousa nos conta sobre o movimento de tentativa de ocupação das ruas por livrarias mais estilizadas e temáticas.

Bem interessante.

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Enfim, eu ganho muito quando consigo ler uma edição completa da revista CartaCapital. Como não fico lendo notícias em sites de mídias que gosto, prefiro ler de uma vez um apanhado geral da semana feito pela equipe do Mino.

É isso! A postagem anterior sobre a leitura de CartaCapital pode ser lida aqui.

William


Vendo filmes (XVII)



Refeição Cultural

Muito do que vejo, leio, ouço, sinto e percebo, olhando para o presente, para o passado e imaginando o futuro sinaliza guerra, guerra total!


Em busca de algo espiritual, alimentos culturais para a essência do que somos, animais da espécie homo sapiens, tenho feito um esforço de sair para ir ao cinema ao menos uma vez por semana. Por enquanto, pegamos uma sequência de filmes catárticos, tensos, daqueles dos quais saímos do cinema cambaleantes.

Vimos desta vez Furiosa. Na semana passada vimos Planeta dos Macacos: O Reinado, e na semana retrasada vimos Guerra Civil. Três pauladas! Comento a seguir minha impressão ao assistir a mais uma história da série Mad Max e também a saga do embate entre homens e macacos.

Sei não... essa quantidade enorme de filmes que apresentam cenários distópicos, de fim de mundo e fim de humanidade, não é à toa. Já sabemos que o que fizemos com o mundo, a emergência climática, fodeu geral a vida no planeta de agora em diante.

Minha teoria antropológica e ou sociológica, não apresentada de forma acadêmica, mas toda desenvolvida em minha mente, me diz que alteramos drasticamente e em muito pouco tempo a mente e o comportamento dos seres humanos nas duas últimas décadas. 

Com o advento das redes sociais concentradas nas mãos de meia dúzia de donos dessas ferramentas - máquinas que usaram e abusaram da neurociência e da psicologia para alterar o comportamento de bilhões de seres humanos -, avalio que não teremos boas chances de interrompermos guerras totais de agora adiante porque os humanos não são mais os mesmos seres racionais que éramos décadas antes.

Assistimos a filmes como Guerra Civil, Planeta dos Macacos e Mad Max num momento no qual um governo de um país decidiu tomar as terras de um grupo de humanos que lá viviam e para isso está exterminando aquele grupo. O genocídio é televisionado e não fizemos nada real para interromper o extermínio do povo palestino.

Assistimos a filmes como Guerra Civil, Planeta dos Macacos e Mad Max num momento no qual costuraram um acordão "com o Supremo com tudo" para livrar alguns fdp que destruíram tudo no Brasil, um juiz ladrão e agente do império que destruiu milhões de empregos e empresas, um ex-presidente e seu clã que destruiu a fauna, a cultura, a sociabilidade num país de 200 milhões de pessoas, fdp que além de enriquecerem sem comprovarem origem dos recursos, são responsáveis por dezenas de milhares de mortes por Covid-19. Não vão punir nenhum tubarão! Só bagre mesmo...

Assistimos a filmes como Guerra Civil, Planeta dos Macacos e Mad Max num momento no qual um estado foi arrasado por eventos climáticos, centenas de milhares de pessoas estão sem segurança ou certeza sobre suas vidas de agora em diante, e os fdp do poder econômico e político estão propondo entre 81 caras e mais 513 caras dividir o mais rápido possível o butim da guerra que empreenderam contra o Brasil dos 200 milhões de miseráveis. Querem fortalecer o capitalismo! Aquele 1% que detém todos os recursos, poderão comprar as praias do país e continuarão podendo cortar todas as árvores e cavucar todo o solo para encher o cu de dinheiro de alguns beneficiários do garimpo onde antes eram biomas cheios de vida. 

Eu fico pensando... se 41 caras e mais uns 342 aprovarem cimentar e asfaltar toda a Amazônia e o Pantanal, o povo do meu país vai ficar discutindo se a "lei" deve ser cumprida ou não? Um cara cimenta o chão da Amazônia e as lideranças da "esquerda" ou "ambientalistas" ficam nos fóruns digitais discutindo se isso é certo ou errado, se se cumpre a lei ou etc.

(fazer um exército e ir para lá formar uma barreira humana armada contra a destruição definitiva do bioma ninguém pensa, né!?)

É ou não é um mundo Mad Max, um Planeta dos Macacos, uma Guerra Civil? Estamos nas mãos de uns merdas do tipo Dementus ou Immortal Joe e meu lado da classe fica discutindo humanizar o capitalismo... é de morrer!

William Mendes

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FILMES

Furiosa - Uma Saga Mad Max (2024) - Direção: George Miller. Com: Anya Taylor-Joy, Chris Hemsworth, Tom Burke.

Sinopse: A jovem Furiosa cai nas mãos de uma grande horda de motoqueiros liderada por Dementus. Varrendo Wasteland, eles encontram a Cidadela, presidida por Immortan Joe. Enquanto os dois tiranos lutam pelo domínio, Furiosa logo se vê em uma batalha ininterrupta para voltar para casa. (sinopse divulgação do filme)

Comentário: um road movie do caralho! O mundo do cenário do filme é o mundo que estamos criando na vida real e que me parece que não teremos líderes capazes de interromper a trajetória coletiva rumo ao caos social e ambiental. 

A saga Mad Max marcou minha geração. Um mundo do salve-se quem puder. Dos sobreviventes do caos. Sobreviventes de um mundo com escassez de recursos energéticos, escassez de recursos básicos à vida humana como água, alimento e sociabilidade. 

Tcham! Um mundo como o mundo que estamos criando na vida real sob a hegemonia do capitalismo e de alguns poderosos donos de tudo, uns fdp que definiram destruir o planeta de todos os seres e ninguém faz nada para interromper as ações desses poucos humanos.

Sobre este episódio da saga, com enfoque na personagem Furiosa, gostei! É doidão como tem que ser um filme Mad Max. Qual líder se deve seguir, o louco da Cidadela ou o louco dos motoqueiros? Não quer seguir nenhum dos dois... sei... vive onde e como, então? Esse é um pouco do dilema daquele mundo. 

Mas por que o mundo chegou naquele momento? Por que ter que escolher entre Dementus ou Immortal Joe? Hã? O que levou o mundo até aquele cenário?

Neste momento no qual escrevo, tem um fdp propondo que uns caras com todo o dinheiro do mundo comprem os 8 mil quilômetros de praia num lugar chamado atualmente Brasil. Tem uns fdp transformando biomas do tamanho de países em pasto ou extensão de soja... e os milhões de gentes e seus pensadores ficam discutindo o sexo dos anjos, se se deve aceitar isso ou não...

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(Post Scriptum)

Mad Max: Estrada da Fúria (2015) - Direção: George Miller. Com: Tom Hardy e Charlize Theron.

Sinopse: Perseguido pelo seu passado e por gangues, Max (Tom Hardy), acredita que a melhor forma de sobreviver é não confiar [em] e depender de mais ninguém além de si próprio. Por estar capturado, e sem escolhas, ele se junta a um grupo de rebeldes que atravessa a Wasteland, numa máquina de guerra conduzida por uma imperatriz de elite, Furiosa (Charlize). Este bando está em fuga de uma Cidadela tiranizada por Immortal Joe, de quem algo insubstituível foi roubado. Desesperado com a sua perda, o líder da Cidadela reúne o seu exército e inicia uma impiedosa perseguição aos rebeldes e provoca a mais implacável guerra já vista nas estradas e desertos. (da Wikipedia, com adaptações do blog)

Comentário: amigas e amigos leitores, que legal assistir a esse filme de 2015 e ao filme Furiosa, de 2024! George Miller é um mestre do cinema! Se, por um lado, é verdade que o espectador não precisa ter visto os outros filmes da saga Mad Max para viver a experiência da história de Furiosa, por outro, ter visto Estrada da Fúria e ligar a sequência com Furiosa nos dá uma experiência muito melhor! Demais! Os dois filmes têm uma pegada alucinante, de deixar o espectador sem fôlego, apesar que Furiosa tem um pouco mais de história, de respiro. Não vou me alongar na trama para não dar spoiler. Vejam os dois filmes, se for possível!

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Planeta dos Macacos: O Reinado (2024) - Direção: Wes Ball. Com: Owen Teague, Freya Allan, Peter Macon.

Sinopse: a estória se passa numa época na qual os macacos dominam o ambiente - chimpanzés, gorilas e babuínos -, desenvolveram a linguagem articulada, a fala, e se organizam em clãs. O clã em evidência no filme aprendeu a dominar as águias e elas fazem parte do cotidiano do grupo, inclusive para a pesca. É desse clã Noa (Owen), Soona e Anaya, jovens amigos e futuro do grupo. Após ataque por outro grupo de macacos, Noa terá que libertar seu povo de um líder macaco que está escravizando sua espécie para tentar adquirir tecnologia humana, preservada numa antiga fortaleza. Os humanos que ainda existem, não falam e são como os demais animais na savana. Em sua jornada, Noa terá uma companheira inesperada, uma humana: Nova ou Mae (Freya).

Comentário: gostei do filme, assim como gostei dos filmes anteriores dessa série com décadas de existência. Homens e macacos podem conviver em paz nos mesmos ambientes e disputando a hegemonia do poder político sobre o ambiente?

Os filmes da saga Planeta dos Macacos podem até ser categorizados como puro entretenimento, mas as questões envolvidas nos fazem pensar nas tragédias e comédias gregas, cujos objetivos também incluíam o desejo de educar e mudar os espectadores, através da catarse. 

De que valeu todo o ensinamento ético daquele que seria o responsável pela ascensão dos macacos ao domínio do ambiente sobre as demais espécies, se agora macaco mata macaco, macaco escraviza macaco, macaco quer acesso às tecnologias que os humanos criaram porque ele próprio não tem capacidade para criar aquela tecnologia, enfim, se é assim que as coisas estão no cenário de Planeta dos Macacos: O Reinado, então de nada valeu os ensinamentos e esforços de Caesar no passado. 

E aí voltamos ao problema atual da humanidade: história, educação e ciência para quê? Na minha opinião, os macacos deste filme simbolizam os humanos aderentes às ideias da religião "capitalismo", religião que reúne extremistas de direita, nazifascistas, sofistas enganadores da fé alheia e hordas de gente ignorante de tudo na vida, gente que só espera o apito de algum líder para segui-lo em qualquer sandice que ele aponte (que poderíamos chamar também de "moda").

Não vou me alongar neste comentário. Registro só mais uma imagem que tenho em minhas leituras de mundo pensando a questão da saga Planeta dos Macacos, o embate entre as espécies macacos x humanos, alguma coisa parecida por uma ideia de civilização x barbárie:

No filme, os macacos são a força bruta, o físico. Os humanos são a espécie mais fraca, não podemos sair na mão com os macacos - por isso desenvolvemos ferramentas complementares à nossa fragilidade. Fico pensando os brutamontes do novo mundo de extrema-direita... fico pensando a defesa atual da ignorância, o negacionismo e a perseguição à cultura, à ciência e à educação. 

Em Planeta dos Macacos: O Reinado, não fossem as poucas personagens que conhecem a história, a cultura e a ciência, nada mudaria no desenvolvimento da história. Nem o Clã das Águias sabia da história de Caesar! Felizmente, ainda havia naquele cenário um macaco - um babuíno - que conhecia a história real dos ensinamentos de Caesar, e ainda havia um humano - Mae - que sabia como acessar a fortaleza e "como" funcionam as tecnologias dos humanos. 

Fiquei pensando nos poucos humanos capitalistas que estão destruindo o mundo - uns bostas, alguns milhares de humanos em prejuízo de bilhões de outros - e nos bolsonaristas daqui do Brasil - uma porcentagem maior de gente ignorante e perversa - destruindo nossas chances de desenvolver a ciência, a cultura e a educação... parece que estamos fodidos!

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Amigas e amigos leitores do blog, caso haja interesse em ler o comentário anterior sobre filmes, é só clicar aqui.


segunda-feira, 27 de maio de 2024

2 de 100 dias



2. Abrição de boca, bocejando sem parar. Não é nem meia-noite ainda. Cansado. Voltamos do cinema agora à noite. Terceira semana seguida que conseguimos ir ao cinema. Bom isso! Alimento cultural.

Ontem, enquanto refletia sobre minha vida, o que incluiu pensar minhas relações com o mundo e algum tipo de busca de satisfação ou entendimento pessoal, vi que me encontro num momento da vida parecido com o que vivia nas primeiras etapas da vida adulta. 

Parecido, mas diferente. Naquela época, vivia tempos de fúria, de incertezas sobre o futuro nas questões mais comezinhas do viver de um membro das classes subalternas de um dos países mais injustos e desiguais do mundo. Num determinado momento de crise, inventei um jeito de ir vivendo dia a dia. Não tinha nem trinta anos de idade. E fui vivendo.

Hoje, reflito sobre incertezas a respeito do futuro em condições diferentes das condições daquela época. Tenho certa segurança e regularidade em relação à vida social e econômica, tenho perspectivas de pagar em dia as despesas do viver. Essa condição veio após quase quarenta anos de venda de minha força de trabalho como uma pessoa que nasceu no seio das classes inferiores socialmente.

Refleti ontem sobre minha saúde. Ou melhor, sobre minha não-saúde, sobre minha condição de perda da condição de saúde. Cada roteiro de vida é único e com ele vem as consequências do percurso. Imagino que o meu percurso foi foda. Agora é hora de fazer os remendos que forem possíveis no meu tecido esgarçado.

Enquanto corria no parque, pensei em viver a cada 100 dias perseguindo algo possível de se alcançar ou realizar nesse curto espaço de tempo. Eu efetivamente não vejo com clareza como será o nosso Natal. Já escrevi sobre isso. Não quero e avalio que não posso deixar de estar com minha mãe nesta data. No entanto, sei que colocar todos juntos no mesmo local e data não será simples. 

Por mais que estejamos chegando ao meio do ano civil, pensar dezembro está meio esquisito para mim. E o mundo então? Minha visão de mundo com a formação que tenho tem me deixado desesperançoso em relação à minha espécie, a única que pode ser educada, como diz Paulo Freire. Quem quer e quem querendo pode ser educado hoje?

Se chegar ao dia dois de setembro, 100 dias a partir de ontem, o que poderia ter feito até lá? No final da reflexão de ontem, avaliei que poderia tentar ser mais "acabativo" porque sempre comecei trocentas coisas e acabei poucas delas. Acabativo...

Foi pensando nisso que peguei para acabar a coleção de dez volumes do clássico Gen Pés Descalços, mangá ou História em Quadrinho (HQ) de Keiji Nakazawa. Uma história porrada sobre a bomba atômica lançada sobre Hiroshima e os efeitos da guerra e da radiação nas vítimas, principalmente civis. Comecei a ler a história da família Nakaoka lá no final de 2022 e até agora só tinha lido cinco volumes. Decidi ler todos os que faltam em sequência e de ontem para hoje já li o volume 6 (comentário aqui).

Quem sabe assim, não tento me tornar mais acabativo nesses 100 dias de vivência neste mundo de instabilidade crescente em meu país e nos países todos deste planeta em destruição acelerada e sob comando de alguns poucos homens fdp. E que nenhum acidente vascular ou infarto ou doença ruim dê cabo de mim, torço por isso!

Não sei se vivi tudo o que poderia viver neste segundo dia de uma centena de dias. Não fiz nada que mudasse o mundo. Mas não sei se é pra tanto a minha vida. Percebi o básico: como santo de casa, não faço milagre algum. 

William


Leitura: Gen Pés Descalços (6) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 6


Retomei a leitura do clássico japonês Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa. O mangá foi lançado em 1973 e a tradução brasileira é de Drik Sada, publicado em dez volumes no Brasil a partir de 2011 pela Conrad. Ganhei a coleção de presente de meu filho.

O mangá conta a história da família Nakaoka, residente em Hiroshima, e os fatos se passam a partir de um momento anterior ao lançamento da bomba atômica e segue narrando o drama do povo japonês nos anos seguintes à derrota do Eixo na 2ª Guerra Mundial e após as duas bombas lançadas pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki.

A dramaticidade é muito impactante para os leitores, tanto pela qualidade excepcional dos traços de Nakazawa quanto pelo próprio enredo. Vale lembrar que a história é muito real, pois o autor é um sobrevivente da bomba e tinha seis anos quando Hiroshima foi destruída pelos norte-americanos. Só sobreviveram Keiji e sua mãe.

Sejamos fortes como
o trigo pisoteado.

VOLUME 6

Nesta parte da história de Gen vemos a dificuldade do povo japonês em sobreviver em um país ocupado pelo inimigo vencedor e o que impera no cotidiano é a miséria, a fome, a injustiça e a violência nas relações entre as pessoas, tanto a forma rude como são tratadas as pessoas do povo, como a maldade estabelecida no coração de quase todo mundo. O comum é o "cada um por si" e ninguém ajuda ninguém.

A ordem estabelecida é o capitalismo. Dinheiro é o deus e o salvador para tudo. Todas as relações são relações capitalistas, tudo é mercadoria. Um dos momentos mais marcantes neste volume é a decisão do pequeno Ryuta para conseguir dinheiro para salvar a mãe de Gen que precisa de atendimento médico.

Gen é uma exceção à regra, um rapazinho de bom coração e que está sempre tentando cuidar dos seus e ainda ajudar as pessoas com problemas. Os temas que são abordados no mangá são bem pesados: violência, suicídios, exploração humana e maldade gratuita são alguns deles.

Neste volume, vemos a vida cotidiana no Japão após três anos da derrota e do lançamento das bombas atômicas. O garoto Gen faz de tudo para conseguir alguns trocados para alimentar sua mãe, irmão e amigos. E até o dono do ferro velho que compra tudo que Gen consegue nos escombros dá um jeito de explorar e pagar valores irrisórios ao rapaz.

A história é muito dura! Mas é uma narrativa importantíssima em tempos de autoritarismo, de ascensão da extrema-direita no mundo e de guerras de extermínio como temos visto na Palestina, com centenas de milhares de crianças, mulheres e civis árabes palestinos sendo dizimados impiedosamente pelas bombas dos sionistas do governo Netanyahu.

O cenário de destruição, morte, fome e sede que estou lendo em Gen Pés Descalços é o cenário do cotidiano de dois milhões de palestinos na Faixa de Gaza. 

O mundo viu as consequências para o povo japonês das decisões políticas do imperador ao se aliar aos nazistas e fascistas. Viu as consequências por décadas do lançamento da bomba atômica sobre uma população civil e as mortes instantâneas e por câncer décadas seguidas.

Guerra é uma merda! Nazifascismos e autoritarismos antidemocráticos são uma merda!

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Chama muito a nossa atenção na história e cenário de Gen Pés Descalços a condição das vítimas da guerra, em especial a condição das crianças e das mulheres: pessoas mutiladas, desamparadas, adoecidas e maltratadas pelos homens naquele contexto rude do pós-guerra.

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Para as pessoas que estudam, sabemos disso olhando o passado. E a sociedade humana não aprende nada com a história, estamos caminhando para a repetição de tudo que o mundo viveu com as guerras do século passado.

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PEDRAS NO CAMINHO

Simbolismo: além da marca simbólica do sol nos desenhos de Nakazawa, apontando a passagem do tempo, o símbolo do país - terra do sol nascente - e a própria bomba e o calor de mil sóis, vemos algumas vezes neste volume o tropeço ou o chute em uma pedra no caminho de Gen ou de Ryuta. Há que se resistir às pedras no caminho...


Vamos para o próximo volume de Gen Pés Descalços. Caso haja interesse das leitoras e leitores do blog em ler os comentários anteriores sobre essa leitura de Keiji Nakazawa, é só clicar aqui para ler o primeiro texto e os seguintes. 

Para ler sobre o volume 7 é só clicar aqui.

William Mendes


domingo, 26 de maio de 2024

1 de 100 dias



1. A mão estava formigando. Já não bastam as dores no quadril? Já não basta a falta de bunda pra ler e escrever por algumas horas ao dia?

Como sou um dos privilegiados no país que tem um plano de saúde, comecei a fazer uns exames. Vou fazer a minha parte já que ainda tenho pessoas que dependem de mim.

Fui num capitalista dermatologista para ver se algumas suspeitas minhas de manchas na pele não eram nada sério. Não eram. Uma pomadinha numa delas e tudo bem. No fim de 2021 me tiraram um carcinoma basocelular do topo da cabeça. Sou um cara de sorte. A coisa ruim foi descoberta por acaso.

Fui fazer uma consulta com um capitalista especialista em quadril. Faz mais de cinco anos que descobri desgastes na estrutura do quadril. Foi uma descoberta muito triste. Uma merda. O médico que fui agora me explicou alguma coisa sobre uma possível cirurgia, quando e se necessário. Vou fazer uns exames de imagem para ver o estrago atual. É recomendado fazer musculação na região. Eu sei disso desde criancinha... mas não faço o que deveria.

Tive uma sarcopenia acentuada nos últimos anos. Quando crianças somos parecidos nas etapas do desenvolvimento e crescimento, em condições normais, claro. No envelhecimento, somos únicos, cada um traz uma genética, uma vida percorrida, uma condição do viver registrada no corpo. Apesar de ter praticado algum tipo de esporte a vida inteira, eu resumiria o percurso do uso do meu corpo como algo absurdamente extravagante. Meu corpo sofreu violências e excessos muito acima da média da minha espécie. Agora é hora de colher os efeitos do abuso.

Não tenho mais objetivos semelhantes aos que tinha quando estava nas outras etapas da existência, pessoais ou coletivos, não desempenho mais os papéis sociais que desempenhei - fui um cara de sorte e tive a oportunidade da formação política durante minha vida laboral -, não sonho mais um monte de futilidades que sonhava quando era pouco politizado. Eu poderia ter um papel um pouco mais produtivo coletivamente, mas não tenho. Cansei de me sentir disponível para contribuir num mundo onde cagam para uma hipotética contribuição minha. Já me senti muito mal por isso. Foda-se.

Quando desci para a academia do condomínio para fazer uns exercícios para fortalecer meu quadril, o aparelho principal estava desmontado, em manutenção. Acabei saindo para correr no parque e fiz uma atividade forte para minha condição atual, diminuí dois minutos o tempo que faço naquela distância que corri (5,6K). Minha frequência cardíaca foi a 203 no auge. Um pouquinho a mais que o teto quando corro. Enquanto corria, pensei de novo em como mudar alguma coisa em meu cotidiano insatisfatório, ruim, que me coloca abaixo do chão. Vou experimentar alguma coisa diferente. Tenho que viver o dia como se fosse o último, até porque pode ser mesmo o último, meu e de todo mundo.

O que poderia fazer nos próximos 100 dias? Como poderia ajudar algumas pessoas que ainda fazem parte de minha relação do viver? Não se pode ajudar quem não queira ajuda. Como poderia ajudar a coletividade? Como superar o mal-estar que sinto em relação à política em meu mundo? "Meu mundo" seria algo como o movimento sindical e político ao qual não faço mais parte, algo como o próprio país onde nasci e vivo, e para o qual militei por mais de duas décadas como um político com mandato de representação. Estou tão fora de tudo e tão sem pertencimento a algo, que sequer posso votar no Daniel Kenzo num eventual PED do PT Butantã e na Luna Zarattini para um mandato de vereança em São Paulo. Sou de Osasco e eles da capital paulista.

Talvez deva diminuir meu contato virtual e presencial com esse mundo político ao qual não faço mais parte. De alguma forma, isso me lembra o tempo todo que não faço mais parte daquilo. Eu não esqueci o que sei, mas isso não faz diferença alguma. Preciso fazer algo por mim para seguir procurando algo de útil onde me encaixe. 

Minha cabeça política atual fica martelando revoluções que não vou fazer, com um corpo definhando fico cobrando uma revolução pau a pau com os inimigos armados e não é coerente de minha parte essa atitude. Se acho que o meio político de onde vim é cuzão, eu sou um cuzão. Óbvio isso! Minha formação política é toda a partir da conciliação de classes. Se tenho a leitura política que acabou o tempo de conciliação, não é coerente cobrar que o grupo que nunca foi revolucionário passe a ser de uma hora para outra. Estamos danados... de onde vim não vai sair enfrentamento algum à extrema-direita da forma como minha mente fica arrotando hoje. Não vai.

Enfim, tenho que procurar meu caminho. Tenho que fazer a minha parte e adiar o fim do meu mundo único, meu corpo, para estar disponível para algumas pessoas de minha relação. 

Bem provável que vá diminuir minha pouca presença nos espaços políticos aonde ia. Sei que é importante ser mais um até para fazer volume na parca luta da esquerda. Tenho toda a admiração do mundo pela militância que faz mais que os comuns. Mas estou me sentindo mal faz muito tempo com a situação na qual me peguei nos últimos anos. O esforço de escrever o que sei, estudo e penso até tem me mantido. Sem essa atividade, talvez já tivesse virado pó e micróbios.

Vou viver de 100 em 100 dias. Hoje saí e corri para sobreviver. O que será que consigo fazer no campo pessoal em 100 dias? Não sei. Minha vida foi tão diferente do que imaginei um dia, que não sei nem por onde começar. E sou um cara de sorte, como sou!

Vou pensar em algo para perseguir por 100 dias a partir de hoje.

Nunca fui "acabativo" na vida. Sempre fui "iniciativo". Comecei milhares de coisas, terminei poucas delas. Deveria ser mais acabativo. Não sei nada do amanhã, que dirá dos próximos 100 dias.

William