sábado, 30 de agosto de 2025

O sentido da vida (8)



"Sentia-me três vezes desgraçado: meu pelo era mosqueado, haviam-me castrado e os homens imaginavam que eu não pertencia a Deus nem a mim mesmo, como é próprio de todo ser vivente, e sim, a um cavalariço." (Kolstomer - História de um cavalo, Tolstói, 1886)


As relações sociais dão sentidos ao viver

Qual seria o sentido da vida, se não há nada dessas abstrações inventivas do animal humano, aquele que dominou a natureza, inventou a linguagem e ao final se perdeu acreditando em suas próprias abstrações?

Passou o dia envolvido com um texto extraordinário do século XIX, criado por um dos maiores escritores da Rússia, Leão Tolstói. No enredo, o narrador nos conta a história de Kolstomer, um cavalo que sofreu preconceito, violência e abandono, algo comum na vida de milhões de pessoas neste mundo cruel.

A leitura definitivamente é uma das invenções humanas que podem contribuir para dar significados à vida das pessoas. Ler literatura, ciências e história permite aos leitores se libertarem da triste sina da ignorância, o principal motivo para milhões de animais humanos serem escravos manipulados por espertalhões. 

Naquele dia, refletiu sobre muitas coisas, todas elas ligadas ao sentido da vida: ao parabenizar seu pai pelo aniversário de 83 anos, agradeceu a ele por tudo que fez para todas as pessoas que ele ajudou a se estabelecerem neste mundo cruel e injusto.

Ainda estava pensativo sobre o sentido da vida do personagem Kolstomer... mas o sentido da vida de seu pai, e de sua mãe, e de sua própria vida era mais compreensível àquela altura da existência. 

É notório o sentido de complementaridade e de interdependência que existe na vida da espécie humana na natureza. A vida de seu pai contribuiu para a existência de muitas pessoas da família, assim como sua própria vida naquele momento. 

O ser humano é um ser social por natureza. As relações nos dão sentido.

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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Instantes (11h20)



Refeição Cultural

Acordei pensando em retomar a leitura do excelente livro de Aline Miglioni, jovem intelectual que se debruçou no estudo da questão da moradia em Cuba. 

É muito gratificante ler um texto que te esclarece diversas dúvidas em relação a um tema de interesse. Admiro Cuba e o povo cubano e a professora Aline me esclareceu muita coisa em algumas dezenas de páginas. 

O olhar de economista dela ampliou minha compreensão sobre a história e a situação de Cuba. Como é bom aprender com pessoas dispostas a compartilhar seus conhecimentos conosco!

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Agora vamos para a rua praticar atividade física aeróbica, pois viver é uma oportunidade de aprender e seguir melhorando como um ser humano que sabe o quanto é incompleto.

A conversa com nossa médica de família ontem foi excelente e devo ter disciplina nas atividades físicas para tentar alongar minha permanência no mundo e com pessoas de minha relação. 

Will i am 

29/08/25

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Livro: Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT - William Mendes



Refeição Cultural

Ler minhas Memórias em formato de livro foi uma experiência bem diferente da leitura dos capítulos no blog. 

O trabalho de equipe da Editora ComPactos tornou a experiência bastante agradável, na minha opinião. 

Escrevi as Memórias entre o final do ano de 2021, auge da pandemia, e agosto de 2023. A base principal de consultas para a confecção dessas Memórias foi os milhares de textos de meu blog sindical: A Categoria Bancária - InFormação e História.

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A importância da História 

Por muito tempo fiquei me perguntando como foi possível as lideranças da República Socialista de Cuba resistirem a décadas de bloqueio e tentativas de mudança de regime por parte do vizinho, os Estados Unidos. 

A compreensão veio após passar a estudar um pouco a respeito da história de Cuba e da Revolução Cubana para visitar o país. Tive a oportunidade de ir a Cuba duas vezes e a experiência me ajudou a formular uma explicação para tamanha resistência: Educação e História.

A educação do povo cubano baseada nos ensinamentos de José Martí há mais de um século e a importância que o governo revolucionário cubano dedica à história são fundamentais para a manutenção do espírito altivo e patriótico das pessoas, geração após geração de cubanos desde 1959. A professora Maria Leite, especialista em Cuba, nos fala de cubanidad e cubanía para expressar esse sentimento que o povo tem de amor à sua pátria.

Sem Educação e sem História um povo não consegue resistir à ideologia do capitalismo e suas ferramentas cada vez mais avassaladoras na captura de corações e mentes. 

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O nascimento da edição impressa das Memórias

Ao aceitar a sugestão de transformar em livro as dezenas de capítulos de memórias que fiz em meu blog sindical durante a pandemia mundial de Covid-19, sugestão da editora Cleusa Slaviero, os textos foram ganhando outra leitura e a sistematização no formato de livro me permitiu ler e reler e reler e fazer textos acessórios para apresentar as minhas Memórias.

Enfim, diria hoje que organizar uma edição de livro é uma oportunidade interessante de manusear e refletir sobre os próprios textos que o autor fez sem aquela intensão inicial de editar um livro.

Um dos motivos para realmente decidir reunir os textos em uma edição impressa é a questão muito atual da guarda de produção cultural da humanidade em "nuvens", em formas digitais e virtuais majoritariamente guardadas nos servidos de poucas big techs que dominaram o planeta Terra em sua área. 

Há tempos venho alertando leitoras e leitores de meus blogs para que não depositem toda a sua produção cultural nessas tais "nuvens" dos inimigos da humanidade, as corporações capitalistas que fizeram da internet e da tecnologia da comunicação uma máquina de manipulação da humanidade.

Imprimir e presentear alguns conhecidos é uma forma de deixar em algumas estantes e locais dispersos do mundo um pouco da história de um militante de uma categoria de trabalhadores que faz parte da luta de classes entre os capitalistas e nós o povo explorado por eles, no Brasil e nos demais pontos geográficos do mundo.

Ao reler pela enésima vez os 39 capítulos e o pequeno livro anexo com a história dos bancários nos primeiros anos do governo do Partido dos Trabalhadores, e com o olhar de estudioso que tenho (não posso negar isso), concluo que ali contém informações relevantes no que diz respeito a um recorte do tempo de nossa categoria bancária, do segmento dos funcionários do Banco do Brasil, da corrente política majoritária no campo cutista e do próprio Brasil durante a fantástica experiência vivida pelo povo brasileiro através dos governos do PT, de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

O trabalho de confecção dessas Memórias, dessas histórias, foi grande. A releitura foi trabalhosa. Mas entendo que foi necessário editar o livro. Os textos não têm só informações históricas, têm momentos de emoção, de alegrias e de tristezas, afinal de contas o autor é um militante, é um ser humano como todos os demais.

Por fim, afirmo a vocês que os textos são sinceros, é o que posso garantir aos leitores que já os leram no blog e aos que por acaso venham a lê-los editados na forma de livro nessas minhas Memórias

O nome comprido do livro é o que tinha que ser, pois o autor realmente é hoje o resultado real de seu mundo do trabalho, um trabalhador que passou a ser outra pessoa depois do convívio com os bancários da maior central sindical do país, a nossa querida Central Única dos Trabalhadores e Trabalhadoras.

Agora que reli o boneco final do livro, é imprimir algumas unidades e lançá-las ao mundo.

William Mendes

Dia dos Bancários

Aniversário da CUT

28/08/25

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Instantes (10h24)



Refeição Cultural

Acordei pensando nas reflexões do personagem Winston, do clássico livro de George Orwell, "1984". Ele refletia sobre o esforço necessário para não se deixar apagar a verdade verdadeira e como resistir à "verdade" de mentira que o regime implantava diariamente, reescrevendo o passado. 

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"Quem controla o passado, controla o futuro;

quem controla o presente, controla o passado."

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Aí pensei no presente do meu tempo. O passado está sendo apagado. O presente está sendo registrado em "nuvens" (dos inimigos) e, com isso, no futuro, não teremos mais nem o passado (o presente), nem perspectivas de futuro. 

Eu fico com dó da gente, dos seres humanos... temos histórias tão bonitas pra contar... a dos bancários, por exemplo, são muitas histórias bonitas da categoria que enfrenta nada mais nada menos do que os donos do capital.

E no meio das lutas de classes diárias, tem as lutas diárias pessoais, dos trabalhadores. Meus blogs e meus registros são isso, memórias de nosso passado coletivo, registros de nossos acertos e erros, sentimentos e ações. 

Onde fui ler que meu pai infartou em fevereiro de 2012, e que o dirigente sindical escreveu um poema na UTI do hospital, decepcionado com as privatizações dos aeroportos brasileiros naquele momento? No meu blog...

Winston reflete sobre a verdade verdadeira e se desespera ao saber que ao morrer, morrerá com ele a verdade, e ficará registrada só a "verdade" mentirosa, reescrita pelo regime. 

Preciso terminar de vez a revisão de meu livro de memórias e imprimir algumas unidades para presentear pessoas conhecidas. Recebi o boneco da edição e relendo os textos me surpreendi com o conteúdo. Não está ruim. São nossas histórias ali, não são só minhas. 

Nosso sindicato e nossas entidades de classe têm histórias bonitas para serem contadas, e devem ser preservadas por nós que as vivemos. Um futuro que não tenha referência no passado coletivo que construímos é um futuro distópico.

Tenho que seguir resgatando o nosso passado, é minha obrigação como ser social, minha e de todos nós da classe trabalhadora explorada e subjugada pelos donos do capital, e dos meios de produção, incluídas as "nuvens" que guardam nosso presente e nosso passado.

William Mendes


Post Scriptum: aqui pode ser lido artigo que fiz em fevereiro de 2012 sobre o tema "1984", de George Orwell.

domingo, 24 de agosto de 2025

O sentido da vida (7)



Buscar e compartilhar o conhecimento

Acordou no domingo bem cedo. O silêncio era tão prazeroso que se negou a bater frutas no liquidificador.  Cortou as frutas no prato e comeu em silêncio. 

Qual o sentido da vida? Da vida humana? Da sua vida? Em termos práticos, ou de forma utilitarista, naquela altura da vida, viver era dar suporte e conviver com pessoas de sua relação familiar.

Que mais? Pensando a respeito disso, o que mais lhe vinha à mente era o amor pelo conhecimento, o desejo de ter sido um intelectual e professor como homens e mulheres admiráveis por dedicarem suas vidas à cultura. 

Pelos motivos do próprio viver, as veredas que foram se abrindo em seu percurso definiram trilhas que o afastaram da realização de se tornar um professor. Não rolou.

Talvez seja por isso que tenham surgido suas páginas de textos na internet, o desejo de compartilhar alguma coisa que tenha aprendido e não possa passar adiante em uma sala de aula.

Enquanto pensava nisso, lágrimas rolavam por seu rosto. A vida acabou sendo do jeito que foi possível.

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sábado, 23 de agosto de 2025

Leitura: Capítulo 1 do livro O que é questão agrária? - Frederico Daia Firmiano



Refeição Cultural

Artigo: leitura do capítulo 1 "Introdução: colocando o problema" do livro O que é questão agrária?, de Frederico Daia Firmiano. Marília: Lutas Anticapital, 2022

Leitura para reflexão antes de uma aula sobre o tema (em 23/08/25)

Aula VI (tarde) - Agronegócio, mineração e produção destrutiva

Objetivo: textos de apoio para o curso de extensão "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado por IBEC, Unesp e demais parcerias

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A postagem é uma espécie de fichamento feito pelo autor do blog. Qualquer interpretação divergente do texto original é de responsabilidade deste leitor que comenta o texto.

Abaixo algumas palavras-chave ou ideias que gostei no referido texto.

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- Muito interessante a mensagem da equipe de produção deste e de outros livros através da Editora Lutas Anticapital

- Enquanto os defensores da reforma agrária ainda apostam no discurso que a questão é uma dívida histórica, os apoiadores do capital vendem a ideia de que a expansão capitalista resolveu a questão agrária nacional

- Firmiano cita como exemplo do segmento de entusiastas do agronegócio, Zander Navarro, que cita diversos motivos para achar que não há mais problemas agrários no país, nem necessidade de reforma agrária porque não haveria demanda de terras, o povo do campo migrou para as cidades

- O autor reconhece que os motivos apresentados por Navarro são tendências atuais, sim, mas questiona se motivos como forte urbanização e domínio da produção de commodities não seriam justamente manifestações da questão agrária no Brasil

- Não podemos confundir "tendências" com "leis", as coisas na sociedade humana são consequências das escolhas humanas e não leis naturais (em linhas gerais, é isso que Firmiano está dizendo aos leitores)

"Mas se virmos esse processo como uma tendência – e não como uma lei – provocada por um conjunto complexo de atividades humanas, então teremos muito o que fazer. Trata-se de uma certa postura teórico-metodológica (e ao mesmo tempo política) diante da história." (p. 18)

- Achei interessante a forma como Firmiano apresenta a questão agrária, ele desmascara a forma determinista e de "fim da história" na qual Navarro se coloca. Somos homens e mulheres e fazemos história, não há evoluções "deterministas" como tentam fazer os capitalistas

"Por isso, falar em questão agrária implica em buscar, no tempo e na história, quais são as determinações de sua existência e para a sua superação." (p. 19)

- A questão agrária é determinada pela história: "é possível afirmar que não existe uma questão agrária idêntica no tempo e no espaço, ou mesmo uma questão agrária genérica, abstrata, 'em geral'. Ela possui forma e conteúdo determinados pela história." (p. 20)

- O livro vai percorrer momentos da história do Brasil para encontrar os determinantes da questão agrária em nossa "formação histórico-social", como diz o autor

- Firmiano já nos antecipa que a ditadura civil-militar (1964-1985) pesou na conformação do que hoje conhecemos como "padrão de desenvolvimento dos agronegócios no Brasil":

"a ditadura civil-militar (1964-1985), quando veremos nascer as condições para o surgimento do padrão de desenvolvimento dos agronegócios no Brasil (FIRMIANO, 2016). Sua consolidação, no pós-ditadura civil-militar, delineará a questão agrária atual no Brasil." (p. 21)

- Aviso final de Firmiano para a abordagem que será dada ao livro:

"Dito de outro modo, sem termos nitidez sobre o que é a nossa questão agrária, não é possível falar em reforma agrária, sob o risco de cairmos naquele grupo, que mencionávamos anteriormente, que advoga sua necessidade história mais por razões morais que por força da realidade objetiva e da consciência da classe trabalhadora." (p. 22)

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Leitura feita por

William Mendes

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Professor Frederico Firmiano

Post Scriptum (após a aula):

Aula: A produção destrutiva do agronegócio e da mineração

O professor Fred nos disse que para essa aula pensou em alguns dados para avaliarmos e termos noções reais da questão destrutiva do agro e da mineração... os dados são chocantes! (estamos f... se nada for feito)

Confesso que a apresentação do professor me tomou a atenção de uma forma que quase não anotei nada na hora. Isso já havia acontecido em algumas aulas anteriores. Repito o que venho afirmando: as aulas do curso são extraordinárias!

A apresentação montada por Fred foi com base numa plataforma de dados chamada MapBiomas, uma fonte de pesquisa conhecida na área.

Logo de cara, nos lembramos mais uma vez da história de nosso país, uma terra pensada e organizada de fora para dentro, como colônia de exploração, as elites do país organizam o Brasil para ser um exportador de commodities, de base monocultora, desde a origem há cinco séculos.

Exemplos das monoculturas deste momento da história brasileira: soja, carne ("proteína") e setor sucroalcooleiro. E minérios, claro!

Nossas metrópoles "parceiras" (contém ironia) só foram mudando de endereço ao longo desses séculos. Fred fez uma referência ao "player global" do momento, a China.

Alguns dados do Brasil em 2024 chamam a nossa atenção:

- Agro: 50% da exportação do BR ano passado. Desse montante do agro, 33% são soja, 15,9% são carne, 12% foram do complexo sucroalcooleiro

- China: comprou 73,4% da soja exportada e 70% do minério de ferro

- Os dados apontam que 2805 de 5570 municípios são de alguma forma "mineradores"

Ou seja, é difícil entender por que o setor de agronegócios é tão poderoso em nosso país?

- A questão da linguagem: O Vale do Jequitinhonha (MG) virou "Vale do Lítio", segundo o governador de lá...

- O monopólio corre solto nesses setores dominantes da economia do país. Muitas vezes, a exploração é feita por apenas uma empresa.

- 400 milhões de toneladas de ferro foram exportadas em 2024. Fica a pergunta: quanto foi extraído para se produzir essa tonelagem e qual o tamanho dos rejeitos que ficaram?

- Minerais críticos e terras raras: nenhum país quer "minerais críticos" para fazer carros elétricos... É para fazer mísseis e bombas!

- Pra onde vamos? (a última imagem da apresentação traz o quadro "O grito", do pintor Edvard Munch...

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No bate-papo com o professor, achei legal a reflexão sobre precisarmos definir as questões necessárias e as questões contingentes na vida nacional e em nossas vidas. 

Pensar o futuro do planeta e da sociedade humana é algo necessário e pensar as eleições 2026 no Brasil, por exemplo, é uma questão contingente, não vamos deixar nenhuma delas, são questões da ordem da estratégia

Como as demais aulas, a do professor Fred foi incrível! Muita reflexão a se fazer e atitudes a se pensar e praticar

William

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Leitura: Capítulo 6 do livro Casa à venda: Turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana - Aline Marcondes Miglioli



Refeição Cultural

Artigo: Capítulo 6 do livro Casa à venda: Turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana - Aline Marcondes Miglioli

Leitura para reflexão antes de uma aula sobre o tema (em 23/08/25)

Aula V (manhã) - Cidade neoliberal, reforma urbana e a questão ambiental

Objetivo: textos de apoio para o curso de extensão "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado por IBEC, Unesp e demais parcerias

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A postagem é uma espécie de fichamento feito pelo autor do blog. Qualquer interpretação divergente do texto original é de responsabilidade deste leitor que comenta o texto.

Abaixo algumas palavras-chave ou ideias que gostei no referido texto.

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- Ao ler a introdução do texto, já fiquei com vontade de adquirir o livro, que é fruto de uma pesquisa acadêmica para tese de doutorado que estudou a questão habitacional em Havana, Cuba. Estive na Ilha socialista nos últimos dois anos, em 2023 e 2024, e as experiências foram inesquecíveis. A leitura do trabalho de Aline Marcondes Miglioli me permitirá compreender bem melhor o que vi e conheci em Cuba

A TEORIA DA RENDA DA TERRA EM MARX E SUA APLICAÇÃO NO ESPAÇO URBANO

- O início do capítulo 6 já explica bastante a teoria marxista sobre o tema:

"A teoria da renda da terra (TRT), tal como foi desenvolvida por Marx em O Capital (2017), pretendia interpretar o papel da renda da terra no modo de produção capitalista, portanto, levava em conta a existência da Lei do Valor e das classes sociais capitalistas: os capitalistas, os trabalhadores e os proprietários fundiários. Nesse modo de produção, os primeiros são proprietários dos meios de produção; os segundos, da força de trabalho; e os proprietários fundiários detêm a propriedade da terra, e por isso podem cobrar dos capitalistas e trabalhadores um preço sobre ela."

- Para diferenciar resultados diferentes de produções em terras de mesmo tamanho e com o mesmo uso de capital e trabalho, lucro maior que o lucro médio de outros produtores, Marx aponta características específicas da terra como, por exemplo, fertilidade e localização

- A autora diz que, em geral, no capitalismo, o capitalista não detém a propriedade da terra, ele arrenda ela do proprietário fundiário. Ao saber das qualidades de solos mais férteis, seus donos cobram aluguéis maiores, se apropriando de parte do sobrelucro dos capitalistas, é a renda da terra

- Marx explica isso: "Por tratar-se de uma renda originada pelo diferencial de produtividade, Marx a denomina de renda da terra diferencial de tipo 1, pois ela depende da produtividade natural dos terrenos."

- Na renda da terra diferencial de tipo 2, há mais questões além das qualidades originais da terra, pois serão avaliados investimentos consecutivos e respectivos resultados adquiridos

- Temos ainda a renda fundiária absoluta, para aquelas terras que não têm o diferencial de produtividade, mas que não são gratuitas:

"Marx responde essa pergunta através da renda fundiária absoluta, a qual corresponde ao rendimento cobrado pelo proprietário fundiário para que ele coloque seu lote à disposição da produção capitalista. A cobrança da renda absoluta garante que em nenhuma situação o preço da terra seja igual a zero, pois existirá sempre um preço que corresponderá ao preço de integrar a terra à produção capitalista."

- Ainda temos a expressão da renda da terra de proprietário fundiário monopolista (no exemplo, uma vinícola):

"O proprietário fundiário pode cobrar do capitalista parte desse lucro extraordinário através da renda da terra. Nesse caso, a renda não guarda relação alguma com a fertilidade da terra, e resulta tão somente do preço de monopólio daquele vinho (Marx, 2017)."

- Em resumo, a renda da terra é contraditória no capitalismo, mas:

"A renda da terra ocupa, assim, uma posição contraditória no capitalismo, pois ao mesmo tempo que a propriedade privada da terra é necessária ao capitalismo, ela representa barreiras ao capital em sua esfera produtiva (Harvey, 2001)."

- Aline explica as adaptações necessárias para interpretar a realidade presente na questão da renda da terra interpretada por Marx no passado e no contexto urbano atual:

"pois diferentemente dos bens agrícolas, os bens urbanos são consumidos no mesmo local em que são produzidos, e sendo construções, tratam-se de bens de consumo de longa duração. Ademais, enquanto na terra agrícola a renda é extraída no momento de realização da produção, nas cidades a renda da terra aparece em dois momentos: quando a produção urbana se realiza, por exemplo, na venda de um imóvel; e quando comercializa-se valores de uso do solo — o residencial, comercial e industrial (Jaramillo, 2003) —, transformando as possibilidades e formas de obtenção de lucro-excedente em cada espaço."

- A autora nos explica o conceito de "construibilidade", que equivale a renda diferencial do tipo 1, pois importa as características do terreno para estabelecer os custos de produção

- A renda diferencial do tipo 2 teria relação com a verticalização nos centros urbanos. A cada pavimento superior, aumentam-se os custos de produção, em linhas gerais

- A renda absoluta nas cidades teria a mesma característica que na produção agrícola ao incorporar-se a produção no espaço urbano

- Por fim, sobre a renda monopolista, Aline nos explica que:

"No que diz respeito à renda monopolista, no espaço urbano encontramos preços de monopólio nas construções localizadas em bairros prestigiados pela burguesia, as quais são vendidas por preços superiores aos de mercado e de produção com o objetivo de restringir o acesso do restante da população àquele imóvel."

- Comércio não gera valor, nos explica Marx. Vejamos a nota da autora:

"De acordo com Marx, o comércio não produz valor, pois não gera-se mais-valia. O que torna-se o lucro comercial nesse caso é a captura, por parte dos capitalistas comerciais, de parte da mais-valia produzida nos setores produtivos. Ainda assim, apesar do comércio não gerar mais-valor, na medida em que contribuem para a abreviação do tempo de circulação das mercadorias, ele pode contribuir para aumentar o mais-valor gerado pelo capital industrial, o que lhes garante o direito a uma parcela do mais-valor gerado pelo capital industrial (Marx, 2017)."

- Aline conclui nesta parte o seguinte:

"Por fim, destacamos que três aspectos da concepção de renda da terra de Marx serão fundamentais para o debate sobre o mercado de imóveis cubano: a necessidade de existir propriedade privada dos meios de produção para garantir o direito de apropriação da renda da terra por uma classe social; a conceitualização da renda da terra enquanto uma parte do sobrelucro gerado em uma atividade produtiva; e a existência da renda da terra no meio urbano em duas formas, pelos diferenciais de “construibilidade” e pelo valor de uso do espaço."

RENDA DA TERRA NO MERCADO DE IMÓVEIS CUBANO

- A autora começa a seção explicando que muitos estudos já foram realizados em relação às possibilidades de haver ou não os efeitos da Teoria da Renda da Terra nas sociedades em transição para o socialismo como URSS, China e outros países

- "Sendo assim, investigar a existência da renda da terra em Cuba significa responder a um conjunto de perguntas: existe um sobrelucro sendo apropriado enquanto renda da terra? De que forma ele é apropriado? Quem o recebe? Qual o seu uso econômico, ou seja, qual seu papel na organização da produção na transição socialista? Qual a consequência da apropriação de sobrelucro sob a forma de renda da terra? Nesta seção buscaremos responder essas perguntas nos baseando na dinâmica do mercado de imóveis havaneiro exposta no Capítulo 5."

- Aline explica que há mais-valia ou mais-valor nas sociedades em transição do capitalismo para outra forma de produção. No caso, caberia ao Estado se apropriar desse valor e distribui-lo:

"Nesse período, ainda que indesejavelmente, segue vigente a produção de mais-valor, mesmo nos casos em que ela se realiza de forma coletiva através da estatização dos meios de produção. Logo, cabe ao Estado apropriar-se desse mais-valor e distribuí-lo 'a cada qual segundo seu aporte'."

- O parágrafo seguinte é importante destacar aqui na resenha, pois explica bem o que compreendi nas duas vezes em que estive em Cuba e conversei com os cubanos:

"Vimos também que é teoricamente possível admitir a propriedade privada dos meios de produção durante a transição socialista, desde que a produção seja centralmente planejada e socialmente distribuída. Em Cuba, a propriedade dos meios de produção esteve historicamente concentrada no Estado, no entanto, nas últimas três décadas houve uma desconcentração para a propriedade privada na tentativa de recuperar e estimular determinados setores econômicos. Ainda assim, o controle sobre a produção do setor privado é realizado de maneira indireta pelo Estado, seja através de seu monopólio sobre as licenças para o trabalho autônomo e privado, ou da reapropriação de parte da produção privada através dos impostos, com os quais busca-se estatizar parte do mais-valor gerado privadamente para distribuí-lo socialmente na forma de bens e serviços públicos."

- A autora também considera a existência do sobrelucro nas relações de produção social em Cuba

- Quem são os agentes proprietários dos meios de produção no setor de turismo em Cuba?

"o Estado cubano; as empresas internacionais, que operam em associação com o Estado; e os trabalhadores cuentapropia, que praticam as mesmas atividades dos outros dois agentes de forma privada e autônoma."

- Os cubanos que trabalham por conta própria são os TCP, na descrição do texto

- Esses três agentes possuem a propriedade privada dos meios de produção: o Estado possui os imóveis e as autorizações onde se instalam os hotéis, os hotéis possuem a marca e a técnica da hotelaria e os cubanos possuem suas casas-negócio, carros, instrumentos musicais etc

- A explicação seguinte de Aline é muito esclarecedora para compreender a economia cubana: quando fico na casa de um cubano, fico lá por motivos turísticos, localização e outras benesses que o local vai me oferecer. Então, não estão todos os cubanos em condições igualitárias para aquele processo de produção social:

"No caso cubano, se analisarmos o mercado de imóveis, não iremos encontrar a exclusividade da propriedade da terra, uma vez que os terrenos são públicos e não há cubanos excluídos do direito a uma moradia. No entanto, a indústria do turismo é uma atividade econômica cuja principal fonte de rendimento é o próprio consumo do espaço. Sendo assim, por mais que todos os cubanos possuam uma moradia, nem todos possuem uma moradia que cumpre o papel de um meio de produção, como fazem as moradias em localização turística. Concluímos, portanto, que frente à propriedade privada das casas-negócio é que emerge a possibilidade de apropriação da renda da terra."

- No caso da instalação do negócio "hotel" o local exótico pesa nesse processo de produção. "Traduzindo para os termos cunhados por Marx, trata-se da captura de um sobrelucro que deriva do monopólio de uma característica específica do espaço, ou seja, da renda da terra de monopólio (Harvey, 2013; Silva, 2010)."

- Aline explica muito claramente as relações de produção na Cuba atual que tive a oportunidade de conhecer. Ao ficarmos numa boa casa-negócio em Havana, entende-se perfeitamente a processo de "renda da terra de monopólio"

- Seguindo com as explicações que Aline fornece aos leitores, fica bem mais fácil entender processos sociais na República Socialista de Cuba como, por exemplo, a canasta básica fornecida pelo Estado ao conjunto da população. Quem financia esse direito social ao alimento na Ilha? Os impostos nas suas diversas formas de arrecadação:

"Com relação à disputa pelo excedente entre o Estado e os TCP, como disposto no Capítulo 4, inicialmente o trabalho autônomo era uma forma provisória de prestação dos serviços não atendidos pelo Estado. Aos poucos, o segmento foi ganhando espaço e protagonismo em outros setores econômicos, e a política tributária passou a servir como limite à acumulação de capital e como forma de recuperar parte dos rendimentos gerados pelos trabalhadores autônomos para distribuí-los socialmente. Com o fortalecimento econômico dessa categoria, Cuba está deixando o modelo de organização econômica no qual o Estado promove diretamente a produção e distribuição do produto social, e avançando para um modelo em que o Estado reúne as contribuições sociais através dos impostos e as distribui socialmente atendendo ao critério da equidade."

- No avançar do texto, a autora nos apresenta as movimentações na última década, entre 2011 e 2021, dos investidores internacionais, no que diz respeito ao interesse de adquirir propriedade na Ilha e obterem lucros com a atividade econômica do turismo

- Fica clara a importância do setor de turismo em Cuba para a manutenção da economia e para a capacidade do Estado de realizar a redistribuição dos recursos econômicos na forma de benefícios sociais ao conjunto da população da ilha caribenha

- Como resumo desta parte do capítulo seis, temos:

"Em suma, o que demonstrou-se no trecho anterior é a emergência de dois fenômenos. Primeiro, evidenciou-se que a forma primária de disputa pelo excedente em Cuba se dá através dos impostos. É no campo da legislação tributária que o Estado controla sua participação nos lucros das empresas internacionais e nos rendimentos dos trabalhos autônomos. Essa conclusão condiz com o novo modelo de socialismo cubano, que pretende financiar as políticas sociais através dos rendimentos da atividade estatal produtiva e de parte das atividades privadas, que é apropriada pelo Estado na forma de imposto.

e

"Em segundo lugar, evidenciou-se que parte desses rendimentos é atualmente apropriada na forma de renda da terra, o que leva à disputa por parte desses sobrelucros através do mercado de imóveis e da tributação. Internamente, o Estado e os proprietários de casas-negócio disputam parte dessa renda através dos impostos: enquanto o primeiro aumenta a quantidade de impostos incidentes sobre as operações de compra e venda, os segundos ampliam e diversificam as formas de evasão fiscal. Destacamos que, apesar do fenômeno apresentar-se como uma disputa, esta não ocorre entre classes sociais, pois se dá internamente na classe de trabalhadores, opondo os trabalhadores proprietários de casas-negócio ao Estado proletário. Trata-se de uma disputa entre estratos de classe: o estatal, representando todos os trabalhadores, inclusive os autônomos, em oposição aos trabalhadores cuentapropia e proprietários de imóveis."

- A seguir, temos um resumo de Aline concluindo a seção em análise:

"Em resumo, retomando as perguntas feitas no início desta seção: 

• Existe um sobrelucro sendo apropriado no mercado de imóveis? Sim, trata-se do sobrelucro correspondente à atividade cuentapropia relacionada ao turismo; 

• De que forma ele é apropriado? Os rendimentos da atividade turística podem ser apropriados primariamente por três agentes: os capitalistas estrangeiros, o Estado e os trabalhadores autônomos. Ao longo do capítulo identificou-se uma apropriação secundária do sobrelucro recebido pelos TCP para os proprietários de casas-negócio através da renda da terra, no momento de venda dos imóveis; 

• Quais as consequências dessa redistribuição de renda para a transição socialista? Ao longo da seção, exploramos a relação contraditória entre a distribuição e redistribuição dos rendimentos do turismo e os propósitos da Revolução. Por um lado, a redistribuição de renda garante a inserção de outros estratos de classe na atividade turística; por outro lado, cria disputas por esses rendimentos entre os estratos de classe. Por fim, também constatamos que a partir da redistribuição secundária desses rendimentos na forma de renda da terra há um novo estrato capaz de ascender socialmente — os proprietários de casas-negócio. Ao mesmo tempo, conforma-se um novo modelo de organização da distribuição dos rendimentos da atividade econômica, baseado na apropriação privada em alguns setores e posterior tributação desses valores."

CONSEQUÊNCIAS URBANAS E HABITACIONAIS

- Um dos problemas antigos em Cuba é o déficit habitacional, fazendo com que muitas vezes resida no mesmo imóvel mais de um núcleo familiar. Com a questão do turismo e as oportunidades de um imóvel residencial se tornar meio de produção de valores, a situação se agrava

- Sobre as migrações internas no país, Aline nos conta que nos primeiros 30 anos da Revolução, não havia migrações importantes do interior para a capital Havana. Na atualidade, há, por causa das oportunidades de trabalho, seja como TCP ou a serviço das empresas que operam na região

- Durante o período especial, nos anos noventa, houve mais controle do governo. Já após os anos dois mil, as migrações das regiões orientais - Santiago de Cuba, Granma e Guantánamo - rumo a Havana aumentaram consideravelmente

- Achei bem interessante conhecer as movimentações migratórias em Cuba, em especial em Havana. Conhecendo um pouco a cidade e a região, é possível visualizar o que a autora nos explica:

"Em suma, apesar das tentativas de manter a população local no Centro Histórico e recuperar as construções históricas sem mudar a função do bairro, inevitavelmente há um processo de remoção dos moradores, os quais são deslocados para os bairros onde encontram-se os principais conjuntos habitacionais estatais. Não é possível conhecer o volume da população deslocada, no entanto, de acordo com o Censo de 2012, havia naquele ano 4.775 moradias temporárias, o que corresponde a 1% do total de moradias da cidade (ONEI, 2012)."

- As consequências do turismo nas partes centrais de Havana, principalmente La Habana Vieja e Centro Habana, no centro histórico da cidade, são as dificuldades para os moradores locais sobreviverem ali, pensando a inflação da região pelo acesso e demanda dos turistas:

"No que diz respeito aos motivos para saída de moradores do Centro Histórico, Gonzales (2019) cita o encarecimento dos produtos nas lojas de produtos importados; a diminuição das lojas estatais de distribuição de alimentos, chamadas de bodegas; e a diminuição dos espaços culturais e esportivos em relação aos espaços comerciais e turísticos."

- A autora informa até que há suspeitas do fenômeno da gentrificação como causa das migrações de cubanos para fora do casco histórico de Havana, onde é maior o fluxo de turistas

- Por outro lado, parte da população, inclusive local, entende que é necessário o processo de reforma e investimento na recuperação dos imóveis locais para favorecer o turismo que, por sinal, é central para a economia e para que o governo possa realizar as ações sociais como distribuição da canasta básica, educação e saúde públicas, lazer e emprego

- Enfim, seria um processo de gentrificação o que acontece em Cuba? A autora diz:

"A partir dessa sucinta explanação sobre o processo de gentrificação tal como foi desenvolvido para explicar o fenômeno em países do capitalismo central, e considerando as diversas especificidades da sociedade cubana, seria possível nomear o fenômeno urbano em Cuba de gentrificação? Para responder essa pergunta é preciso, em primeiro lugar, avaliar as razões da deterioração das moradias cubanas. Vimos no Capítulo 1 que ela é resultado de um plano econômico e social que por um longo período priorizou investir no campo — principalmente para o desenvolvimento da indústria sucroalcooleira — e em políticas sociais universais. Sendo assim, a ausência de investimentos estatais para habitação não corresponde à lógica capitalista de acumulação de capital, e sim à dificuldade cubana de superar o subdesenvolvimento, o que impôs a priorização de outros gastos frente à manutenção e reforma das moradias."

- E tem mais, Aline afirma que:

"Ao contrário, ela vem do Estado e, como argumentamos anteriormente, parece que a possibilidade de incluir trabalhadores autônomos e proprietários de imóveis nesse circuito de renda representa uma tentativa de contornar a falta de postos de emprego estatais, apresentando-se como um instrumento indireto de distribuição de renda. Sendo assim, diferentemente do que acontece nos países capitalistas, em Cuba, a apropriação do rent-gap pelo Estado tem um destino claro: fomentar as políticas sociais da Revolução Cubana, e um objetivo secundário de incluir nesse circuito de renda novos agentes sociais."

- Após Aline deixar claro que não ocorreu em Cuba o processo de gentrificação que ocorre nos países capitalistas, algumas consequências inevitáveis acabam ocorrendo:

"Apesar das diferenças entre a definição de gentrificação — tal como foi elaborada para descrever os processos nos países capitalistas centrais — e o fenômeno que observou-se neste trabalho, é possível dizer que o último compartilha de alguns dos efeitos típicos da gentrificação capitalista. Por exemplo, na atuação da OHCH, apesar da sua preocupação com a preservação da população local, podemos considerar que devido à necessidade de liberar espaço para empreendimentos turísticos, ocorre o deslocamento da população local e a atração de outros grupos sociais para o território — majoritariamente os trabalhadores autônomos. Ademais, após a autorização para a compra e venda de moradias, podemos assumir a existência de rent-gaps, considerando que parte do preço dos imóveis nessas regiões corresponde ao potencial de ganho com a conversão de seu uso residencial para o comercial. Ou seja, apesar das diversas particularidades do caso cubano, existe rent-gap e ocorrem deslocamentos, inclusive com a saída da população local dos bairros reformados para abrigar o turismo."

- Caminhando para as conclusões do estudo, a autora diz que é melhor avaliar o processo urbano e social em Cuba considerando o histórico e estudo que ela apresentou nos capítulos iniciais do livro e não baseado no processo de gentrificação frequente nos sistemas urbanos capitalistas

- Uma das conclusões que Aline apresenta é o efeito real no imaginário das pessoas derivado dos preconceitos e situações sociais em Cuba anteriores à Revolução de 1959, das décadas iniciais do século XX:

"A primeira camada, e mais profunda, é a das estruturas herdadas do sistema anterior, ou seja, as desigualdades territoriais próprias do capitalismo dependente cubano anterior a 1959. Nessa camada encontram-se, por exemplo, as diferentes apreciações sobre o espaço urbano, as impressões e as valorações dos bairros no imaginário coletivo, ou seja, os elementos que ocupam o campo das subjetividades e que tornam os antigos bairros burgueses imageticamente mais aprazíveis e os antigos bairros de trabalhadores os menos desejados."

- Como a capacidade de consumo determina os processos de ascensão social na Ilha, os espaços geográficos pesam nessa questão. Aline explica isso como uma segunda camada em suas conclusões:

"Em resumo, foi sobreposto à estrutura universal de educação e de saúde uma camada de acessos desiguais ao consumo através das diferentes possibilidades de emprego em cada bairro ou município. Essa seria a segunda camada das desigualdades territoriais, em que o território condiciona as possibilidades de mobilidade social."

- Milton Santos criou metáfora usada por Iñiguez para descrever o fenômeno em Cuba como "bairros luminosos" e "bairros opacos", os que oferecem e os que não oferecem oportunidades aos moradores cubanos:

"Estudando esse processo, Luisa Iñiguez (2014) emprega a metáfora criada por Milton Santos (2006) para diferenciar os dois perfis de bairros que emergiram após o Período Especial: os luminosos são aqueles onde instalaram-se os novos empreendimentos turísticos e neles os moradores podem ascender socialmente através do emprego no turismo ou no setor privado; os territórios opacos são aqueles que comportam majoritariamente o setor estatal e que têm pouca capacidade de atender às demandas de emprego e consumo de seus moradores."

- Por fim, a autora cita uma terceira camada de desigualdades em Cuba:

"A terceira camada de desigualdades do território, e a mais recente, foi inaugurada com a abertura do mercado de imóveis, evento que, como expressado anteriormente, marca um novo padrão de mobilidade da população, que reforça os fluxos migratórios e aprofunda a especialização produtiva baseada nos diferentes usos do solo de cada região da cidade. Nesse novo cenário, que iniciou-se em 2011, o perfil de renda e de ocupação dos cubanos passou a determinar o bairro ou município em que se localizariam. Ou seja, pela primeira vez desde a Revolução, o espaço está se reorganizando de acordo com as possibilidades de ascensão social dos seus moradores. O preço dos imóveis é uma evidência dessa nova etapa, pois ele restringe o uso de alguns imóveis — e, portanto, do espaço — a alguns estratos específicos."

- Efeitos da legislação de 2011 que criou o mercado de imóveis em Cuba: realocação da população de acordo com subgrupos sociais:

"Nesse aspecto, identificamos duas tendências: a concentração de TCP no centro de Havana e dos trabalhadores estatais na periferia, composta por municípios com padrões de ocupação e capacidade de consumo semelhantes. Consideramos o mercado de imóveis como responsável por esse fenômeno, pois em primeiro lugar permitiu que os grupos sociais se reorganizassem pela cidade através da compra e venda de moradias e, em seguida, que os preços desses imóveis se transformassem em sinalizadores — e barreiras — para a ocupação de certas localizações por outros estratos de classe."

- Sobre o poder político em Cuba é importante reforçar o que a autora nos demonstra: 

"Cuba possui um sistema de representação política que não corresponde à hierarquia da estratificação socioclassista. Ou seja, as pessoas que pertencem aos grupos sociais identificados como “mais vantajosos” — TCP, empregados no setor emergente e recebedores de remessas — não detêm a maioria do poder político."

- Algumas conclusões do capítulo:

"No caso cubano, vimos a partir do estudo sobre Havana, que a renda da terra corresponde ao sobrelucro das atividades comerciais e de serviço voltadas ao turismo realizadas nas moradias pelos TCP. Concluímos que esse sobrelucro é apropriado por quatro agentes: o Estado, as empresas internacionais, os trabalhadores autônomos e os proprietários de casas-negócio."

- Camadas de desigualdades constatadas na questão urbana em Cuba:

"pudemos distinguir entre três camadas de desigualdade que se avolumam sobre o espaço urbano: 

• Primeira camada: corresponde às desigualdades territoriais herdadas da história cubana pré-revolucionária e que fazem com que bairros e municípios sejam diferentes entre si em termos de infraestrutura urbana e apreciação no imaginário popular; 

• Segunda camada: após o Período Especial criam-se condições de ascensão social que relacionam-se com o espaço. Nesse sentido, alguns bairros e localizações permitem aos seus moradores trabalharem no setor turístico e com isso garantir melhores padrões de consumo; 

• Terceira camada: depois do estabelecimento do mercado de imóveis, o acesso a esses bairros e, como consequência, às oportunidades de trabalho que eles oferecem, passou a depender também da posição da pessoa na estrutura social. Aqueles que possuem família no exterior ou que conseguiram juntar dinheiro para a compra de uma moradia nessas localizações passaram a poder ter acesso a elas."

- A autora conclui no capítulo:

"Em suma, essa nova desigualdade urbana é a expressão territorial da reestratificação social que está em curso desde os anos 1990 e que se apresenta como um desafio a ser equacionado dentro do novo modelo do socialismo cubano."

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Texto lido por

William Mendes

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Professores Aline Miglioni e Ivan Jacob

Post Scriptum (após a aula):

Aula: Cidade neoliberal, reforma urbana e a questão ambiental

A professora Aline nos proporcionou uma aula muito dinâmica, dialogada e demonstrou didática inclusiva e leve. Foi uma aula bem legal. As aulas que estamos tendo neste curso de extensão - "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas" - são oportunidades extraordinárias de novos conhecimentos e reflexões.

Aline nos falou a respeito do estudo de Engels sobre moradias e os motivos pelos quais as moradias eram tão caras na região de estudo, na Inglaterra.

A moradia é uma das necessidades básicas dos trabalhadores e um dos motivos para que ele se submeta à exploração capitalista. Sem vender sua força de trabalho, não há moradia.

Esquema de reprodução de mercadoria de Marx (em linhas gerais e bem resumidamente):

D ($) inicial -- fatores de produção M (Trabalho, Terra, ferramentas etc) -- gera M' (mercadoria) -- D' ($) valor maior final ao ser vendida a mercadoria

No caso da moradia

T (Terra) + MO (mão de obra, materiais etc) = M (casa) -- M' ($) valor maior ao ser vendida a mercadoria casa

Comentário do blog: repito, esquema bem simplificado só para destacar linhas gerais

Ainda no caso das moradias, cujo valor da mercadoria é alto, não é valor que se tenha facilmente como coisas do cotidiano, para realizar esta mercadoria (vender a casa) é necessário outro agente, o banco que financia o imóvel ao comprador.

A professora Aline nos explica a Teoria da Renda da Terra, de Karl Marx: há uma certa disputa entre o proprietário da terra, que arrenda, e o produtor. Quem fica com o sobrelucro? (renda diferencial)

Nos são explicadas as formas de renda: a renda diferencial, a renda absoluta e a renda de monopólio, como está citado na resenha do capítulo 6, que fiz acima.

Temos além da renda diferencial, a renda absoluta, que os proprietários e os herdeiros da terra cobram por disponibilizar a terra e ainda tem a renda de monopólio, quando o domínio do espaço diferenciado por suas características é um privilégio desse proprietário.

A professora cita o famoso vídeo do empresário Silvio Santos reunido com o querido Zé Celso, em tentativa de solução para o terreno do Teatro Oficina. 

Eu avalio que ali tem uma mescla de dois tipos de renda do imóvel do Silvio Santos, poderia ser um exemplo de renda de monopólio e uma renda absoluta. 

Por fim, Aline abordou a questão da gentrificação no mercado de imóveis na lógica capitalista, suas causas e consequências, e citou como exemplo atual o mercado dos apps do tipo Airbnb, que tem causado a expulsão da classe trabalhadora de regiões importantes das cidades.

Aula excelente!

Comprei o livro da professora Aline e já estou lendo. Estou gostando bastante da leitura.

William Mendes

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domingo, 17 de agosto de 2025

O sentido da vida (6)



Buscar sentidos na leitura

Foram vários dias lendo e diagramando quase trezentos textos. O caderno impresso daquele ano ficou com quinhentas páginas. 

A sistematização das quase duas décadas de produção textual ainda levará muito tempo. São mais de cinco mil postagens. 

O desejo é completar essa tarefa trabalhosa que sintetiza quase a metade de sua existência, textos que resumem ao menos sua fase mais produtiva como adulto em convívio social. 

Cumprida a missão, a ideia é dedicar sua vida à leitura e à reflexão filosófica. O foco principal será a literatura. Escrever também está no horizonte. 

Ler os clássicos que não conhece é um sonho ainda realizável. Que a vida lhe dê olhos e saúde mental para isso.

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sábado, 16 de agosto de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 16 de agosto de 2025. Sábado.


COLESTEROL

Subi correndo mais um dia a Av. Antônio de Souza Noschese. Meu percurso dá 2 Km. Como disse dias atrás, preciso voltar a correr para melhorar meus níveis de colesterol, aumentando um pouco meu HDL e diminuindo meu LDL e colesterol total. Nos níveis que eles estão hoje, minhas artérias e meu coração não aguentarão muitos anos.

Após identificar os desgastes no quadril e sistema locomotor, em 2018, vi minha atividade mais prazerosa da vida se tornar uma atividade feita com sacrifícios por causa das dores e incômodos durante e após as corridas. No entanto, essa atividade física me permitiu ter bons níveis de HDL durante décadas de vida estressante e tendente a mudanças nos níveis de colesterol e pressão arterial.

Sem correr com a intensidade que corria e na quantidade ideal, meu colesterol total foi só piorando entre 2018 e 2025: 221, 234, 244, 247 e 282 mg/dL. Um horror! Meu LDL saiu de 155 em 2020 para 199 mg/dL.

O bonzinho (HDL), que era 59 em 2018, chegou a subir para 62 e depois da redução das corridas caiu para os atuais 50 mg/dL. Ainda não é um resultado desesperador porque a referência é 40 mg/dL. Mas a tendência atual é ladeira abaixo...

Eu sei que a melhor forma de alterar a tendência ruim de meus níveis de colesterol é conjugar uma mudança de hábitos na alimentação com a prática de exercícios aeróbicos que façam efeito no meu corpo.

Comer como comi ontem à noite, por exemplo, frango a passarinho e pizza (overdose de gordura saturada) não é a melhor forma de mudar a tendência dos meus níveis de colesterol... (mudança de hábito é foda!)

Enfim, vamos mudando aos poucos.

Na corrida, vou dar preferência por correr pouca distância e em subidas porque o impacto no sistema locomotor é menor: tendo uma boa concentração nos passos, posso reduzir bastante o impacto no meu quadril. No entanto, só distâncias maiores geram HDL, mas uma coisa de cada vez.

Tenho que ficar de olho no meu coração. Meu batimento cardíaco precisa ser acompanhado durante o trote. Quando a pessoa está com melhor condicionamento físico, as faixas de batimento cardíaco máximo são menores de acordo com cada nível de esforço no trote.

Vou observar os números nos próximos meses e ver se melhoro alguma coisa. Não terei preocupação nenhuma em melhorar o tempo nos percursos, meu objetivo é outro.

No mês passado, corri 6 vezes, começando com 1K, depois 2K e, por fim, 3K. Me preocupei com o tempo nessa sequência, mas agora não vou ter esse foco. Meu foco é não ter dores no quadril e tentar baixar o batimento cardíaco máximo.

Entre um trote de 2K e outro, nesta semana, dei mais passos no percurso, justamente para reduzir o impacto na pisada. 2354 (passo médio de 85 cm) - 2486 (81 cm).

A frequência cardíaca média foi a mesma, de 171 bpm, mas a máxima foi 189 hoje e 191 no primeiro trote na subida.

Tenho o privilégio de ter um mínimo de conhecimento em saúde, o que a imensa maioria do povo não tem, pois não é cultura em nosso país educar as pessoas. Todos deveríamos conhecer melhor o nosso corpo humano, é uma questão de vida ou morte.

Sigamos tentando nos manter vivos. Tenho relações sociais importantes ainda e viver é uma oportunidade diária de novos conhecimentos e acontecimentos.

Will i am

14h40

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 13 de agosto de 2025. Quarta-feira.


Durante muito tempo, neste período do ano, especificamente na primeira quinzena de agosto, eu vivenciava uma experiência impactante ao realizar a romaria entre a cidade de Uberlândia e Água Suja, no Triângulo Mineiro. 

Cada romaria é única, o percurso é quase o mesmo, mas a pessoa que vai é outra, sempre. Minha caminhada tinha um percurso que variava entre 73 e 85 Km, de acordo com o ponto de saída. 

Ano passado fui para lá e acabei não fazendo a romaria. Neste ano, já tinha claro que não faria o percurso, um momento de introspecção para o romeiro. Sou um elemento da natureza e meu corpo sentiu os efeitos do tempo e do percurso realizado até aqui.

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Pensando na natureza do meu corpo, e me conhecendo um pouco há décadas, dormi pensando em atitudes e ações que poderia desenvolver para alongar minha permanência por aqui.

Ao confirmar por exames clínicos que meus níveis de colesterol continuam a subir, isso já faz alguns anos, e saber os principais motivos dessas mudanças em meu corpo animal, preciso definir estratégias para lidar com a questão.

A existência dos seres vivos é uma somatória diária de eventos casuais e planejados, uma miscelânea de instantes caóticos, que vai fazendo os seres permanecerem vivos ou deixarem de existir, o tempo todo, todo tempo, com tudo e com todos.

Ao saber por acaso da minha condição de hipertenso há uma década, e seguir os procedimentos da ciência, alonguei a permanência na Terra. Poderia ter infartado.

Correr desde muito jovem e ter bons níveis de HDL pesou de alguma forma para não piorar uma condição hereditária e de exageros que fiz nas veredas do viver.

Aí meu corpo passa a ter dificuldades de seguir correndo, um dos maiores prazeres da minha vida. Sem correr, meu HDL foi pro saco, e meus níveis de LDL seguem crescendo, mas sem o equilíbrio do bom colesterol... que foda!

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Decidi que vou tentar correr do jeito que meu corpo permitir, e vou correr de preferência em percursos com aclives, pois o impacto na estrutura musculoesquelética é menos pior do que em planos e descidas, dependendo da forma como me movimento, claro.

Eu sei também de muita coisa que deveria comer e não comer, beber e não beber, mudanças de hábitos etc, hábitos são difíceis de mudar, não é?

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Tenho refletido sobre outras decisões que preciso tomar, decisões que só competem a mim e a mais ninguém, já que não sou mais uma pessoa com representação de pessoas. Tenho contratos sociais, tenho consciência social, e só. De verdade, não sinto mais pertencimento a grupos sociais como pertenci. Era para pertencer e contribuir com a experiência que acumulei na prática da militância nesta fase da vida. Não aconteceu. Cada vez que vou fazer número em algum evento político, mais me questiono o que fui fazer lá. Sei da importância de fazer volume, já que somos tão poucos na esquerda. Mas preciso chegar a um termo comigo mesmo sobre isso. Para me sentir como me sinto, preciso avaliar a continuidade disso. Não estou acrescentando nada à coletividade fazendo volume nos eventos que participo. Até valeu bastante contribuir nas eleições majoritárias e proporcionais nos últimos anos, mas isso é pouco comparado à contribuição que dei às causas nas quais me envolvi. Enfim... as coisas são como são.

Sigo com a consciência social de minhas responsabilidades e contratos sociais. Sigo fazendo o esforço de permanecer por aqui.

William

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Instantes (17h12)



Refeição Cultural

A vida é um instante, e sendo instantes é recomendável que os seres viventes tenham atenção. O viver se define nos detalhes...

Com atenção é possível dar mais oportunidades à Sorte, essa deusa mitológica. Sorte, azar, acaso; destino, alguns diriam. Atenção ajuda, tanto a sorte, o acaso, quanto o destino.

Um tempo atrás, ao acompanhar meu pai ao médico, tirei um carcinoma basocelular no mesmo dia. Aquela mancha na cabeça chamou a atenção ao cortar o cabelo. Era coisa ruim. 

Meses atrás, ao observar a boca durante a higiene diária, observei uma mancha branca que não estava ali antes. Fui atrás do diagnóstico daquilo. 

A leucoplasia oral que tinha foi removida na semana passada pelos atenciosos profissionais e estudantes da Faculdade de Odontologia da USP e a vida segue. Viva a ciência e o SUS! Sigo sendo um homem de sorte. 

Depois de uma semana de molho, sem comer quase nada, voltei às atividades físicas, aos poucos, claro.

Minha genética e meu percurso de vida me avisam sobre riscos mais comuns a nós brasileiros e adultos do século XXI... infarto e acidentes vasculares é que são foda!

Amigas e amigos leitores do blog, fiquem atentos a manchas brancas na região bucal, manchas estranhas na pele, e claro, colesterol, pressão alta e diabetes, e sobrepeso. (post scriptum: faltou falar da obesidade e da importância da prática de atividades físicas regulares) 

Viver é uma oportunidade diária de aprender coisas novas e compartilhar o conhecimento, fazer o bem aos outros e à coletividade, e sentir o sol da tarde num dia frio do caramba.

William 

11/08/25

domingo, 10 de agosto de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo, 10 de agosto de 2025.


No calendário da cultura brasileira hoje é Dia dos Pais. Ao acordar, fiquei um tempo olhando para o teto do quarto e pensando sobre isso, o Dia dos Pais, ou o fato de ser pai, ou até a respeito de ser filho. Todos somos filhos de pais e mães. Após pensar um tempo, me senti sem palavras neste momento para escrever sobre pais e filhos. Com as palavras vêm os julgamentos, e não sou nada pra julgar ninguém. Aos pais, fica meu desejo sincero que tenham um domingo bom, não adiantaria desejar o lugar-comum, o mundo humano está numa etapa ruim da história da espécie na Terra.

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"Que eu chegue bem ao próximo final de semana. É o pensamento"

Domingo passado escrevi sobre minha ansiedade em relação à semana que se iniciava, seria uma semana diferente no cotidiano. Hoje posso dizer que cheguei bem. Sigo sendo um homem de sorte. Fiz uma cirurgia na boca e sabia que seriam dias de pouca ingestão de alimentos. A sensação de fundura no estômago, roendo o tempo todo, me fez imaginar - o que não é possível -, mas pelo menos tentar imaginar a fome que os donos do poder estão impondo há tempos às maiorias de seres humanos excluídas dos direitos humanos e, em particular, pensei nos palestinos da Faixa de Gaza, um campo de concentração vergonhoso deste momento de fim de mundo. Também me lembrei da tia Alice, que não conseguia mais comer na fase final de sua doença. Sem conseguir mastigar, a gente percebe como é bom ter saúde. No meu caso, por mais que tomasse iogurte, vitamina de frutas, sucos, leite, o corpo não saciava a fome. Foi bom demais poder voltar aos poucos a ingerir coisas com sustância, com sal. Ao mesmo tempo, com a consciência que tenho hoje, fico triste ao ver tanta gente querida detonando sua saúde e a gente não poder fazer nada por alguém que não queira fazer algo por si mesmo. Parece que vou percebendo cada dia mais que as coisas são como são por falta de educação, a tragédia e a miséria humana não são naturais, são escolhas. 

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Por escolha, por tentar fazer algo que seja bom para o particular e o coletivo, faço parte de um grupo de pessoas que estão participando de um curso de extensão universitária com aulas e professores fantásticos, com aulas presenciais aos sábados, com a temática "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado pelo IBEC e Unesp. Ter o conhecimento da realidade do mundo é um privilégio, uma responsabilidade, e um desafio de autoconhecimento para saber administrar o sofrimento que o conhecimento nos dá. Enfim, não gostaria de ser um ignorante, um néscio, um idiota manipulável. Prefiro lidar com a dor e o sabor de acessar o conhecimento e as mais diversas formas de cultura.

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Para a semana que se inicia, desejo coisas simples, na dimensão pessoal. Comer arroz com feijão, pão com manteiga e café. Praticar atividades físicas possíveis. Ler. Escrever. Gostaria de poder fazer algo para salvar a natureza de sua destruição total pelos humanos capturados pela invenção deles próprios, o capitalismo. No entanto, ainda não foi possível convencer maiorias nem no campo popular onde me politizei a lutarem contra o modo de produção e organização social do capitalismo. 

Will i am

(10h40)