Refeição Cultural
"Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular. ('Saia e vá viver!', dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas..." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 35)
Profunda a percepção de Manguel sobre essa coisa quase inominável que há entre grupos humanos quando pessoas que gostam de ler e estudar e conhecer muito começam a ser foco de alguma forma de isolamento dos demais por bullying ou por escanteamento daquele ou daquela que pode a qualquer momento questionar o líder do referido grupo ao qual pertence.
(Também há grupos sociais que valorizam os leitores e os que sabem muito, claro!)
A partir do momento que um leitor passa a dominar um tema - um saber - que a maioria ao seu redor não sabe, ou que o tema é domínio exclusivo de determinado grupo que usa aquele saber para obter qualquer tipo de vantagem, aquele leitor passa a ser um incômodo ou se torna alguém temido ou rejeitado, a depender da própria condição do leitor no status quo de seu grupo humano.
Isso é claro e notório para os bons leitores e leitoras, aquel@s que leem nas entrelinhas e leem mais que palavras, leem o mundo ao redor.
Se olhasse para trás, conseguiria imaginar momentos no percurso do viver que ilustrariam o excerto acima. Sempre frequentei ambientes nos quais se lia pouco, a começar pelos ambientes da infância e adolescência. E depois na vida adulta. Sou fruto da sociedade humana de onde nasci.
Enfim... se entrei para as estatísticas dos poucos que leem foi por acasos, veredas da vida. Sorte.
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Vi o filme "Dias perfeitos" (2023), de Wim Wenders.
Cara, estou até agora bolado com a história.
Muitas questões colocadas, nenhuma resposta dada... senão seria fácil demais!
E quanto a mim? E meus dias perfeitos? Por que não? Por quê? O que me impede?
...
William
Quando sacamos um livro da bolsa todo mundo já olha torto, quando lemos no ônibus dizem que é pra aparecer. O leitor sempre é perseguido por fazer o que gosta, ler. "Pra que ler o livro se pode ver o filme? Perda de tempo."
ResponderExcluirTive minha mãe de exemplo que sempre me levava a biblioteca, espero passar isso aos meus filhos.
Nova seguidora aqui!
www.finaliteratura.blogspot.com
Olá Emília, tudo bem? Gostei do seu blog e do seu texto sobre Moby Dick! Fraterno abraço!
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