sábado, 22 de novembro de 2008

Uma "Advertência" de Machado, de 1882

Este texto é uma "Advertência" - muito interessante - que Machado faz na abertura de seu livro "Papéis Avulsos".

Também é legal o fato dele esclarecer o uso de um vocábulo "reproche", supostamente em resposta a dois leitores que o questionaram a respeito do termo.

É só apreciar:

ADVERTÊNCIA

Este título de PAPÉIS AVULSOS parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder.A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

Deste modo, venha donde vier o reproche*, espero que daí mesmo virá a absolvição.

Machado de Assis. Outubro de 1882.

*Nota A - "Advertência"

Deste modo, venha donde vier o reproche...
- "O alienista"..... p.s/n.,no início da obra.

Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche...

Cerca de dous anos para cá, recebi duas cartas anônimas, escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi notado o uso do vocábulo reproche. Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente, aproveito esta ocasião.

Reproche não é galicismo. Nem reproche nem reprochar. Morais cita, para o verbo, este trecho dos Ined. II, fl. 259: "hum non tinha que reprochar ao outro"; e aponta os lugares de Fernando de Lucena, Nunes de Leão e D. Francisco Manuel de Melo, em que se encontra o substantivo reproche. Os espanhóis também o possuem.

Resta a questão de eufonia. Reproche não parece mal soante. Tem contra si o desuso. Em todo caso, o vocábulo que lhe está mais próximo no sentido, exprobração, acho que é insuportável. Daí a minha insistência em preferir o outro, devendo notar-se que não o vou buscar para dar ao estilo um verniz de estranheza, mas quando a idéia o traz consigo.

Bibliografia:

OBRAS COMPLETAS de MACHADO DE ASSIS. Papéis Avulsos I. Editora Globo, RJ, 1997.

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