domingo, 8 de janeiro de 2017

Leitura: Fausto (1770), de Goethe


A edição que li de Fausto.

"FAUSTO

- Como é teu nome?

MEFISTÓFELES

- Essa pergunta me parece frívola, por parte de quem tem tanto desprezo pelas palavras, que sempre se afasta das aparências, e que olha sobretudo o âmago dos seres.

FAUSTO

- Entre vós outros, meus senhores, pode-se facilmente adivinhar a vossa natureza de acordo com os vossos nomes, e é o que se torna conhecido claramente, quando sois chamados inimigos de Deus, sedutores, mentirosos. Pois bem. Quem és tu?

MEFISTÓFELES

- Uma parte daquela força que ora quer o mal e ora faz o bem.

FAUSTO

- Que significa esse enigma?

MEFISTÓFELES

- Sou o espírito que nega sempre; e com justiça: pois tudo que existe merece ser destruído, e seria melhor, portanto, se não existisse. Assim, tudo que chamais de pecado, destruição, em suma, o que se considera o mal, eis o meu elemento.

FAUSTO

- Chamas-te de parte, e ei-te bem inteiro diante de nós.

MEFISTÓFELES

- Vou dizer-te a modesta verdade. Se o homem, esse mundozinho de loucura, se considera, ordinariamente, como formando um todo, sou, por minha vez, uma parte da parte que existia no começo de tudo, uma parte daquela escuridão que deu começo à luz orgulhosa que, agora disputa com sua mãe, a Noite, sua antiga posição e o espaço que ela ocupava; o que de nada lhe vale, porque, apesar de seus esforços, ela só consegue aflorar à superfície dos corpos que a detêm; ela brota da matéria, por onde escorre e que colore, mas basta um corpo para deter-lhe a marcha. É lícito, pois, esperar que ela não dure muito tempo, ou que se aniquile com os próprios corpos.

FAUSTO

- Agora, já conheço as tuas honrosas funções; não podes aniquilar a massa, e te prendes aos detalhes.

MEFISTÓFELES

- E, para falar com franqueza, não tenho feito grande coisa: o que se opõe ao nada, o algo, esse mundo material, embora tenha me esforçado, não pude desorganizá-lo até agora; em vão lancei contra ele ondas, tempestades, terremotos, incêndios; o mar e a terra continuaram tranquilos. Nada temos a ganhar com essa maldita semente, origem dos animais e dos homens. Quantos eu não tenho enterrado! E sempre circula um sangue fresco e novo. Eis a marcha das coisas; é de enlouquecer. Mil germes avançam do ar, da água, como da terra, no seco, no úmido, no frio, no quente. Se eu não tivesse reservado para mim o fogo, coisa alguma teria de minha parte..."

(Fausto, Goethe)

Refeição Cultural

Terminei a leitura de Fausto, de Johann Wolfgang Goethe. Pela leitura crítica que fiz, o autor alemão passou praticamente a vida inteira revisando esta obra. A tradução que li é baseada no chamado Fausto primitivo, mais próxima dos anos 1770.

Esta edição é ilustrada pelas litografias de Eugène Delacroix.

Já estava muito pensativo com o fim da leitura da obra de Victor Klemperer (ler AQUI) sobre a linguagem do Terceiro Reich, período em que o povo alemão vendeu sua alma a Hitler e ao nazismo.

Eu havia lido Fausto quando era adolescente e meu entendimento foi o possível para a idade. Ao reler obras clássicas, além dos tempos serem outros, nós somos outra pessoa, outro leitor.


Fausto tenta seduzir Margarida. Litografia de Eugène Delacroix.

Após o fim da leitura, saí para correr e caminhar um pouco. Refleti que preciso ler algo mais leve nestes dias longe das guerras do meu trabalho político de gestor de autogestão em saúde porque a gente fica bastante deprê ao aprofundar o conhecimento de mundo que já temos.

Por outro lado, é impossível desligar a chave do conhecimento que temos. A vida de um militante político é diferente da vida das demais pessoas justamente por nossa formação teórica e prática no enfrentamento das questões sociais para as quais nos dispusemos a lidar desde cedo.

Já fiz aqui neste Blog grandes reflexões e estudos de livros lidos. Mas confesso que neste momento de minha vida não posso sentar e me debruçar numa análise técnica ou crítica dos livros que estou lendo como já fiz de outras vezes. Levaria tempo e estou com outras tarefas na atualidade.

O que posso e devo fazer é deixar a referência de leitura, se vale a pena ou não sugerir aos leitores e amig@s que nos acompanham. Aprendi uma verdade no curso de Letras que se renova para mim cada vez que termino uma leitura clássica: é melhor ler os clássicos que não ler os clássicos. O conhecimento novo a partir da leitura nos engrandece. 

É isso. Mais um clássico da literatura universal.

Vamos para as próximas leituras em busca de conhecimento e reflexão para o viver.

William

Post Scriptum:

Para se ter uma ideia do que estou fazendo em meus dias de folga, estou revisando dezenas de textos de meus dois blogs, o de trabalho e o de cultura. Os textos e reflexões não deixam de ser um registro de meu percurso como cidadão do mundo em vários anos de militância social e cultural.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Leitura: LTI - A Linguagem do Terceiro Reich (1947) - Victor Klemperer


(atualizado às 9:48h de 08/1/17)



Refeição Cultural

"A língua conduz o meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais inconscientemente eu me entregar a ela. O que acontece se a língua culta tiver sido constituída ou for portadora de elementos venenosos? Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar"


Victor Klemperer, LTI

Acabei a leitura do livro do filólogo alemão Victor Klemperer (1881-1960). A obra é uma das raras contribuições em forma de testemunho de sobreviventes do nazismo. Este livro traz uma característica a mais, pois ele é o mais profundo estudo filológico e linguístico sobre as mudanças na língua alemã desde a ascensão de Adolf Hitler em 1933 e durante todo o 3º Reich.

Esta obra é profunda, é reveladora. Mostra a técnica utilizada por Hitler e Goebbels, Ministro da Propaganda, para conduzir toda a nação alemã ao nazismo.

Eu vi este livro um certo dia quando flanava por uma livraria paulista no ano de 2010. Na hora peguei o volume, li a capa e as abas e fiquei tomado de curiosidade. Desde então, comecei a ler, com a dificuldade que sempre tive de pouco tempo disponível para leituras pessoais.

Eu não consegui avançar rapidamente, porque cada capítulo de suas mais de 400 páginas me deixava passado, perplexo, sem reação para ler muitos capítulos na mesma sentada. Foi desta forma que fui me apropriando dos ensinamentos de Victor Klemperer, porque o objetivo da confecção da obra era a educação e a contribuição ao povo alemão para "desnazificar" a língua alemã após a catástrofe do 3º Reich entre 1933-45.

Ao mesmo tempo em que adquiri o livro e passei a manuseá-lo, a partir de 2010, fui me apercebendo do que ocorria em meu país, o Brasil dos governos do Partido dos Trabalhadores, primeiro Lula da Silva e depois Dilma Rousseff, em relação às estratégias de comunicação e linguagem dos empresários donos dos meios midiáticos, em monopólio e propriedade cruzada, que chamamos de Partido da Imprensa Golpista (PIG). As semelhanças das técnicas nazistas e da mídia empresarial não são mera coincidência. Nunca foram!

O livro é tão profundo que seria muito difícil eu fazer postagens com citações e comentários como gosto de fazer. Até fiz algumas, é só clicar na aba direita do Blog na categoria "Victor Klemperer" que tem algumas citações.

O que é possível é deixar para vocês a sugestão de leitura, como acontece quando entramos em um curso acadêmico. Eu me lembro de um professor, o PC, de meu primeiro curso superior em Ciências Contábeis (FEAO/FITO) que dizia que na USP o que tínhamos eram listas de referências de leitura e bibliografias a cumprir para discutir em sala de aula. Depois entrei no curso de Letras na FFLCH/USP e experimentei o que ele havia nos dito anos antes.

Quando entrei em férias, dias atrás, decidi pegar e terminar o livro de Klemperer. Li as oitenta páginas que faltavam. Novamente, fiquei passado, perplexo, triste, atento à realidade como alguém que percebe o que está acontecendo em meu mundo, em meu país.

Estamos vivendo num Brasil que sofreu Golpe de Estado em 2016. Os golpistas envolvidos na máquina estatal, dos três poderes, estão em conluio com os seus parceiros empresários dos meios de comunicação cartelizados e de mesma propriedade. O massacre totalitário das comunicações de todos os veículos de massa nos dá náuseas e quase nos destroem. Eu resisto porque tenho formação de vida para isso. Mas é muito difícil.

É verdade que tenho poucos dias para leituras de autoconhecimento antes de retornar ao cotidiano de trabalho, mas é interessante como a vida nos põe as leituras nas mãos. Estou nos dias de leituras "fáusticas".

Eu fui procurar um livro dias atrás, e não encontrando o que procurava, me encontrou o "Fausto" de Goethe. Peguei para ler e vou terminar nos próximos dois dias. O mito do homem que vende a sua alma ao diabo é muito antigo. As reflexões no livro de Victor Klemperer não deixam de ser um estudo de caso sobre isso. Eu acabei saindo hoje e fui comprar "Doutor Fausto", obra monumental do alemão Thomas Mann, lançada também em 1947, abordando o tema: como o povo alemão pôde vender sua alma ao nazismo?

A sociedade humana vai avançando no tempo e neste ponto da história humana estamos vendo novamente a ascensão das ideias e ideais de direita, fascistas, do domínio ideológico de uns poucos indivíduos (1%) sobre todos os demais bilhões no mundo (99%).

Enfim, peço a licença aos nossos leitores amig@s para sugerir a leitura desta obra do sobrevivente do nazismo Victor Klemperer. É boa leitura para aquel@s que gostam do tema de comunicação e linguagem, meios midiáticos e técnicas de convencimento de massas, linguística, política, propaganda e áreas afins.

Sabem de uma coisa? Eu estou muito focado em reler, corrigir, diagramar, categorizar e organizar milhares de postagens em blog, feitas em mais de uma década, porque sempre acreditei em partilhar conhecimento e opiniões de maneira gratuita, como forma de dialogar com o mundo civilizado. Quando vejo que centenas de pessoas do mundo acessam nossos textos, sinto uma responsabilidade imensa em tudo o que escrevo e opino.

Abraços,

William

EXCERTOS:

COMO PERDOAR OS INTELECTUAIS DE TODAS AS ÁREAS DO CONHECIMENTO QUE ADERIRAM AO NAZISMO?

"Durante todos esses anos, principalmente nas semanas em Falkenstein, repeti para mim mesmo a pergunta para a qual não consigo encontrar resposta até hoje: como foi possível que intelectuais perpetrassem tamanha traição à cultura, à civilização e à humanidade? Os agentes da Gestapo eram bestas humanas, apesar de terem patentes de oficiais; é preciso ter paciência com gente desse tipo, que vai continuar existindo. Mas uma pessoa culta como esse historiador da literatura! Atrás dele me vem à memória uma fila de literatos, poetas, jornalistas, acadêmicos. Traição por todo lado..."

USAR PALAVRAS QUE ANESTESIAM E DEIXAM A MASSA SEM CAPACIDADE DE PENSAR

"Hitler conhece com terrível precisão a psicologia da massa que é incapaz de desenvolver um raciocínio próprio e deve permanecer nessa condição. A palavra estrangeira impressiona e é tanto mais imponente quanto menos compreendida for; nesse caso, desconcerta e anestesia, sobrepondo-se ao pensamento..."

Bibliografia:

KLEMPERER, Victor. LTI - A Linguagem do Terceiro Reich. Editora: Contraponto. 1ª edição, 2009.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Diário e reflexões - 050117



Noite de luar em Brasília.

Olá amig@s leitores,

Estou em minha primeira semana de férias de meu trabalho de gestor eleito da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Felizmente, precisei de poucas horas nesta semana acompanhando nossa equipe de trabalho na Cassi. Eu sou grato pela excelente equipe de profissionais que temos.

A gente tenta se desligar um pouco do mundo do trabalho e da política durante esses dias, mas é muito difícil.

Bom, estou me esforçando para caminhar e correr para ver se recupero um pouco da saúde e condição física, abaladas por causa da rotina que levo em defesa da entidade de saúde e dos associados que representamos.

Estou lendo o livro "Fausto" do alemão Goethe. A estória mitológica do homem que vendeu a alma ao diabo é bem propícia para o mundo em caos em que nos pegamos nesta fase do mundo humano. 


Janeiro é um mês de muito verde em Brasília.

Continuo relendo minha produção de textos nos blogs que mantenho. Já reli, diagramei e categorizei dezenas de postagens entre 2013 e 2016 nestes dias de férias. Encontrei muito texto bom. Levo muito a sério meu desejo de partilhar conhecimento e contribuir com reflexões sobre o mundo que vivemos.

Assisti com a família a alguns filmes. Vi alguns episódios de séries. Estou para escrever sobre o anime Death Note. Cheguei ao episódio 26 e fiquei pensativo sobre o que já vi: o mal está vencendo a batalha. A série foi recomendação de meu filho.

É impossível não ficar triste com a destruição de nosso querido País e dos direitos dos trabalhadores e do povo brasileiro por parte dos golpistas que tomaram o Brasil de assalto e estão cometendo crimes de lesa-pátria todos os meses, desde abril de 2016, em favor de corporações estrangeiras e alguns capitalistas que residem aqui (mas odeiam o Brasil e o povo daqui).

Se eu não estivesse no front de batalha pelos direitos em saúde de meus colegas bancários na autogestão que administro, muito provavelmente estaria envolvido nestas causas de nosso País. Foi assim quase que minha vida toda.

É isso,

William

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A igreja do Diabo, conto de Machado de Assis, de 1883


Apresentação do blog

"Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada..."


Às vezes, as estórias e as literaturas nos escolhem a nós. Eu fui procurar um livro numa pilha de uns trezentos em casa e não achando o que queria, achou-me o Fausto, de Goethe. Peguei pra ler.

Aí, nesta manhã, catei a esmo um livro com cinquenta contos de Machado. Estou no meio dele. Inicio um conto e lá está a citação de Fausto...

Caramba! Uns chamam isso de coincidência, acaso. Outros, dão sentido esotérico ou místico ao caso.

A verdade é que o mundo anda um lugar do Diabo. Isso estamos vivendo.

A questão da venalidade vale muito a pena ver a explicação do Diabo, para refletirmos sobre os valores que imperam em nosso mundo cão. 

Outra questão comentada pelo Diabo é a solidariedade, grave obstáculo às causas do demo.

Leiam o conto de Machado. Ele foi escrito em 1883, mas sua atualidade poderia nos dizer que publicaram na semana passada, aqui no Brasil.

Abraços, William




(Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, 12 de fevereiro de 1883. Depois foi reunido por Machado de Assis no livro "Histórias sem data", em 1884)



CAPÍTULO PRIMEIRO

DE UMA IDEIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. 

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. 

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul. 


CAPÍTULO II 

ENTRE DEUS E O DIABO 

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor. 

— Que me queres tu? perguntou este. 

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos. 

— Explica-te. 

— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros... 

— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura. 

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece? 

— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor. 

— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental. 

— Vai. 

— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra? 

— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja? 

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse: 

— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura... 

— Velho retórico! murmurou o Senhor.

— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos... 

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo. 

— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez? 

— Já vos disse que não. 

— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão? 

— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega. 

— Negas esta morte? 

— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los... 

— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai! 

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra. 


CAPÍTULO III 

A BOA NOVA AOS HOMENS 

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas. 

— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... 

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada. 

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. 

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. 

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele. 

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria. 


CAPÍTULO IV 

FRANJAS E FRANJAS 

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo. 

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros. 

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse: 

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Fim.


Fonte: as obras de Machado são de domínio público.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

É urgente salvar o Brasil e os brasileiros da mídia empresarial





Sob o chavão de "liberdade de imprensa", um termo sério em sua origem, mas apropriado criminosamente na contemporaneidade por empresários bilionários de corporações globais para subjugar populações e soberanias dos países a seus meios totalitários de comunicação de massa, o Brasil e o povo brasileiro estão sendo destruídos de maneira quase irremediável, no presente e no futuro.

O Brasil já é um ornitorrinco quando se fala em Democracia e República. Podemos até falar também em relação ao "Capitalismo". Falamos em poder do povo num País que em sua história tem mais golpes de estado e derrubadas de governos do que períodos onde governa quem o povo elegeu. 

Falamos em coisa pública num País que em cinco séculos de exploração de elites várias, nunca teve de fato a separação da coisa privada e da coisa pública. Os governos das elites sempre estenderam seus bens privados se apropriando do público. Um País governado por coronéis, "doutores" e indicados por eles. Na minha opinião, a Casa Grande.

E o que dizer sobre se entender um país capitalista, se fomos os últimos a abolir a escravidão e passarmos décadas sem distribuição mínima de renda do trabalho para que os trabalhadores consumissem os bens produzidos?

O mundo e as sociedades vão mudando com o passar do tempo e hoje o Planeta Terra é hegemonizado pela tecnologia da "informação". As "pessoas" jurídicas suplantaram o poder dos Estados Nacionais e os poderes atuais dos donos dos conglomerados de comunicação os transformaram em deuses e donos do mundo. Donos de nossa vida e nossa pauta.

Eu mal posso começar a desenvolver com profundidade minhas ideias a respeito do tema porque minhas ocupações profissionais e de representação são outras (área da gestão de saúde). Se estivesse na condição de acadêmico e estudioso do tema, adoraria dedicar minha luta contra o totalitarismo da mídia empresarial. Eu já fui dirigente eleito por trabalhadores responsável por setor de comunicação em uma confederação - a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf). 

Tive a felicidade de estudar o tema, de me envolver e participar dos movimentos que lutam e reivindicam regulamentação da mídia no Brasil e sei que o verdadeiro poder de dominação do mundo atual é de quem detém estes meios de comunicação de massa.

O golpe de estado aplicado no Brasil no ano de 2016, mais uma vez teve a liderança e o planejamento central a partir de magnatas da comunicação brasileira como os irmãos Marinho, a família Civita, os Frias e os Mesquita. Como a oposição política e partidária aos governos federais do Partido dos Trabalhadores não teve capacidade de propor nada que dialogasse com o povo brasileiro em mais de uma década, coube aos donos da comunicação concentrada (inconstitucional) se estabelecerem como oposição aos governos do PT e aos programas e avanços históricos para o povo brasileiro.

Quando isso ficou claro, esses meios de comunicação empresarial, o chamado 4º poder, passaram a ser chamados por nós do campo progressista e contra-hegemônico de Partido da Imprensa golpista (PIG).

Iniciamos o "Ano Novo" sem haver ano novo. O ano da destruição do Brasil e da democracia brasileira, 2016, seguirá todos os dias por um longo tempo, em relação às pautas colocadas pelos golpistas, o tal 1% dos donos de tudo (corporações globais e rentistas).

Na minha opinião, é urgente que as lideranças nacionais do campo progressista definam uma estratégia consistente para bloquear essa máquina totalitária desses empresários do PIG.

Essa máquina de manipulação ideológica envenenou o povo brasileiro. Criou uma cultura de ódio e intolerância que não será revertida tão cedo. Mas há que se começar a combater essa máquina totalitária de manipulação.

É isso que penso. Poderia alongar as reflexões entrando na exemplificação de eventos sociais brasileiros que relaciono como efeitos oriundos dessa máquina de destruição do Brasil e dos brasileiros, mas paro por aqui.

O povo e as entidades de representação do povo, que já não estejam sob domínio e influência desses donos de toda a mídia golpista, precisam enfrentar e tomar para si os meios de comunicação, principalmente os de concessão pública, porque o direito à informação é um direito humano.

William
Cidadão brasileiro

sábado, 31 de dezembro de 2016

Diário e reflexões – 311216 (O último dia e o amanhã)


Apesar da organização da prova jogar contra os participantes,
completamos mais uma corrida de São Silvestre.

Esta é a última postagem do ano de 2016 neste Blog de cultura e reflexões, o Blog Refeitório Cultural. Foi um ano marcante em todos os sentidos e para quase todos nós, cidadãos do mundo. Pessoalmente, acho que foi um dos anos que mais trabalhei pelas causas que defendo e que mais escrevi em minha vida, somando os textos e matérias dos blogs de trabalho e cultura, foram 342 postagens em 2016.


92ª SÃO SILVESTRE

Neste último dia do ano, participei da 92ª Corrida de São Silvestre. Foi a minha 9ª participação na prova. Dela, tenho reflexões positivas e negativas. As positivas são relativas à superação pessoal de ter chegado a São Paulo praticamente sem condições físicas para correr os 15 km e ter me surpreendido com a resistência de meu corpo. Apesar de ter castigado minha saúde por causa do trabalho (e também pela tristeza de ver o que fizeram com nosso País), consegui correr a prova, completei sem dificuldades e estou bem. Esta mensagem de meu corpo é um alerta a mim mesmo para que eu me cuide mais porque sou forjado nas lutas e o próximo período será de lutas totais.

As reflexões negativas a partir de minha 9ª participação na Corrida de São Silvestre começam pela minha decisão de que esta foi a última vez que faço tamanho esforço para estar neste evento. Apesar de ter sido coroado com aquela emoção corporal, quando os arrepios inundam nosso corpo ao final da subida da Brigadeiro, o restante da prova e o clima que senti foi de despedida. Eu comparo a relação da organização da São Silvestre com os participantes ao Brasil que nos impuseram a partir deste nefasto ano de 2016.

O desrespeito com os participantes é flagrante, é nojento, é humilhante, da mesma forma que os golpistas liderados pelos empresários donos dos meios de comunicação totalitários tratam o povo brasileiro: feito idiotas, marionetes, gente sem memória e movida a porcarias televisivas e impressas (pão e circo), a telas de celulares e redes sociais. Aliás, ao observar o povo ao meu redor, tenho sentido uma sensação terrível pelo que vejo, ouço e observo. Não sairemos tão cedo do lamaçal em que nos colocaram chafurdando.

As filas para retirada dos kits no Ibirapuera são provas inequívocas da falta de organização da prova. Fiquei mais de 3 horas para pegar o kit na sexta-feira 30. A quantidade de gente que pode se inscrever, somada à quantidade de pessoas que a organização da prova permite participar sem inscrição, acaba dobrando os 30 mil inscritos, número que já não permitiria que os participantes “corressem” porque se vai pisando no calcanhar dos outros da saída caótica na Avenida Paulista à chegada. A Globo manda na prova para passar na programação e fodam-se as dezenas de milhares de participantes.



Multidão desce a ladeira ao lado do Pacaembu.
A surpresa viria lá no fim:
não havia água para os corredores.
Neste ano, não havia sequer água para milhares de pessoas. Foi pavoroso ver aquela massa de participantes pedindo água num calor de mais de 30º sem ter como se hidratar. A inscrição custou 160 reais e tem um monte de patrocinadores. Onde vão parar os 30 mil x 160 reais (quase 5 milhões de reais)? É uma questão de respeito humano!

Para finalizar a minha reflexão negativa sobre a São Silvestre, ver aquela massa de gente sendo humilhada e sacaneada pela organização da prova, tendo como maior preocupação parar de correr e atrapalhar o fluxo cada vez que viam uma porra de câmera e um cinegrafista, gritando que estavam na “Globo”, foi a gota para mim. Que massa humana imbecilizada é essa? A Globo liderou o golpe que destruiu o Brasil, os empregos, os direitos sociais dessa massa de trabalhadores que se acha “classe média” e que estará fodida no próximo período sem empregos e eles amam seu algoz. A minha razão não dá conta disso, é maior que qualquer emoção momentânea.


LEITURAS EM 2016

Para não me estender muito nesta última postagem do ano, não farei avaliação política. Ao reler parte de minhas postagens no Blog de cultura, vi a passagem do ano através da política.

Uma das dimensões da vida humana que me surpreendeu positivamente neste ano foi o resultado do esforço extra que fiz em tentar ler e alimentar meu conhecimento e minha capacidade de reflexão.

Por mais que eu tenha feito uma produção textual imensa (161 textos no Categoria Bancária e 181 textos no Refeitório Cultural); que tenha viajado dezenas de vezes aos Estados brasileiros a trabalho; e que tenha estudado e participado de dezenas de reuniões de trabalho; consegui ler e reler muitos livros neste ano.

Li 18 livros e outros 6 estão em andamento. Segui o ensinamento dos anos de estudo nas Letras, quando o tema era literatura e leituras clássicas. Nos diziam que devemos ter na estante de desejos literários uma mescla de clássicos a reler, clássicos a conhecer e textos novos a experimentar. Fiz exatamente isso neste ano de 2016. Reli:

- O velho e o mar, de E. Hemingway (5ª leitura);

- A metamorfose, de F. Kafka (3ª leitura);

- 1984, de G. Orwell

- Representações do intelectual, de Edward Said

- Libertinagem, de M. Bandeira

- O processo, de F. Kafka (releitura em andamento)

Além das releituras, li ótimos livros. Só do autor goiano, José J. Veiga, li:

- Os cavalinhos de Platiplanto; A hora dos ruminantes; A estranha máquina extraviada; O professor Burrim e as quatro calamidades; Sombras de reis barbudos; Os pecados da tribo; De jogos e festas.

Também li:

- Nove estórias, do americano J. D. Salinger;

- A viagem do elefante, do português J. Saramago;

- Um velho que lia romances de amor, do chileno Luís Sepúlveda;

- Não nascemos prontos, do filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella;

- A tristeza pode esperar, do médico brasileiro J. J. Camargo;

- Dois irmãos, do brasileiro Milton Hatoum.

Sigo em leitura dos livros:

- Las venas abiertas de América Latina, do uruguaio E. Galeano;

- 50 contos de Machado de Assis, organizado por John Gledson;

- Ilusões perdidas, do francês H. Balzac;

- Era dos extremos, do historiador inglês Eric Hobsbawn;

- Memorial de Aires, romance de Machado de Assis.


E O AMANHÃ? DEVE SER DE LUTA!

É difícil desejar “Feliz Ano Novo” com o que está no cenário da classe trabalhadora brasileira e mundial. Estou com aquele pessimismo da razão que se diz por aí. No entanto, mais que desejar tudo de bom para as pessoas etc (e desejo sim), defendo para 2017 mais participação social de nossos pares da classe trabalhadora, tanto da ativa quanto os aposentados, com os quais lido na comunidade BB que represento. O ano para nós das autogestões será muito difícil, mas a Cassi tem perspectivas, se a população de participantes assistidos não cochilar e acompanhar conosco as lutas.

Defendo que os sindicatos e centrais, correntes políticas e partidos do campo da esquerda, tomem jeito e tenham juízo, deixem de vaidade e de personalismo, que construam uma luta unitária pelo que mais interessa à classe trabalhadora brasileira: manutenção dos direitos históricos. Não é possível que essas entidades dos trabalhadores continuem rachadas e disputando internamente estruturas de poder e vaidades várias. Unidade na luta e na pauta deve ser o foco.

Além de sonhar, eu desejo e defendo que o povo brasileiro lute para desfazer o golpe. O povo é vítima dos golpistas e do 1% que organizou o golpe e para quem o golpe tem trabalhado. É necessário fechar a Rede Globo e outros canais que sacaneiam os 99% de brasileiros. Também torço para que devolvam a Democracia ao povo e a presidenta eleita em 2014 ao seu cargo, caso contrário, é necessário que haja eleições diretas para todo o Congresso e a Presidência. E logo após, revisão dos abusos do Judiciário politizado.

Por fim, é imperioso que todos os crimes de lesa-pátria cometidos com o patrimônio público brasileiro sejam revistos. Tudo, principalmente o Pré-sal.

A luta segue, sempre!

William Mendes
Cidadão brasileiro.



Post Scriptum: enquanto eu escrevia este texto, chegou-me a notícia do falecimento neste dia 31/12/16 de um grande companheiro de lutas sociais e sindicais, e que fez parte da coordenação dos trabalhos na campanha eleitoral que participamos pela Cassi, o amigo Jorlando. Registro meu pesar aos familiares e amigos. Estou muito triste. Companheiro e amigo Jorlando, PRESENTE!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Instantes... Gestão em Saúde não é igual a saúde pessoal





Saí da Sede da Caixa de Assistência dos Funcionários agora há pouco. Se eu contar a semana intensa de trabalho da Diretoria para encaminhar temas centrais para a nossa entidade no ano de 2017, seria difícil de acreditar...

Ainda temos questões a deliberar até amanhã, sexta-feira 30.

Estou no aeroporto para ir a São Paulo participar no sábado da São Silvestre.

Pensa um cara cansado. Estou esgotado. Mal parando em pé... Ser gestor de saúde na entidade de saúde dos trabalhadores que represento não tem feito bem pra saúde.

Tenho que avaliar com racionalidade o que vou fazer na Av. Paulista no sábado, 31 de dezembro. Talvez eu vá só apreciar a festa pela primeira vez por não estar em condições de participar da prova correndo os 15 km.

Ano difícil para todos nós...

É a vida. A gente faz o que tem que ser feito.

William

domingo, 25 de dezembro de 2016

Leitura: O peru de Natal - Mário de Andrade


Apresentação do blog


Neste Natal, li em voz alta o conto de Mário de Andrade, O peru de Natal. Ele faz parte dos Contos Novos, publicado em 1947, após sua morte em 1945.

O conto é muito bom. A construção das frases é muito rica. Os críticos literários afirmam que os textos reunidos neste livro de contos de Andrade são muito requintados.

Há um embate entre o mundo patriarcal tradicional e o desejo de libertação das gerações que queriam a modernidade também nos usos e costumes.

Boa leitura!

William Mendes



O PERU DE NATAL - MÁRIO DE ANDRADE

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos...Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

Fim.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Diário e reflexões - 211216





Já estamos às vésperas de uma das datas mais importantes para o mundo ocidental, o Natal.

Enquanto as pessoas que pertencem à comunidade em que vivemos como cidadão e ser social se preparam para a confraternização dessa data, nós tivemos nesses primeiros 3 dias de trabalho da semana pela Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil um nível de estresse que pode levar um corpo humano a algo grave e sério.

Nossos prezados associados da Cassi, com os quais passei a conviver e respeitar de forma crescente desde o dia que iniciei o mandato como Diretor de Saúde e Rede de Atendimento, não conseguiriam imaginar com facilidade o que são os bastidores diários de um representante eleito numa instituição de gestão compartilhada.

A experiência política com a qual cheguei à gestão da área de saúde da maior autogestão do País me ajudou muito a trabalhar a paciência e a manter o foco no que é prioritário sob o nosso ponto de vista, e sou um dirigente dos trabalhadores que põe toda a capacidade naquilo que assume como causa ou tarefa a desempenhar. 

(...) vou mudar de assunto, só de começar a abordar o tema das dificuldades que enfrentamos internamente no trabalho, já me chateei horrores. Pode ser que eu tenha necessidade de escrever ainda antes do Natal no Blog de trabalho sobre questões que interfiram em nossos projetos e compromissos com os associados e com a Cassi para o ano de 2017. Na política, a gente sempre tenta uma solução negociada até o último minuto. Minha manhã da quinta-feira 22 será assim.

Cheguei a casa no início da noite e saí desesperado para caminhar 60 minutos para ver se conseguia cuidar um pouco do corpo que me carrega. Foi impossível tirar toda a chateação da cabeça por uma hora.

Para desempenhar a tarefa revolucionária pela qual estou lutando na área da saúde, acabei permitindo que o trabalho e a intensidade da dedicação me consumisse fisicamente.

Estou inscrito para mais uma corrida de São Silvestre. Comprei passagens de ida e volta para São Paulo, gastei dinheiro com a inscrição. Tenho um encontro marcado anualmente com esta prova deliciosa de 15 km para fechar o ano civil e percebi que não sei o que fazer, porque não estou preparado para correr. Nunca me senti tão maus fisicamente por causa do que vivo atualmente.

É pensar o que fazer até a semana que vem... em relação a este objetivo pessoal, estou completamente sem rumo...

William