terça-feira, 30 de maio de 2023

Leitura: O governo no futuro - Noam Chomsky



Refeição Cultural

Osasco, 30 de maio de 2023. Terça-feira.


Tive pouco tempo para me dedicar à leitura de livros em abril e maio. Só finalizei três livros: O trono no morro, de José J. Veiga, A impureza da minha mão esquerda, de Henry Bugalho e este do Chomsky. Outros estão em andamento, mas ainda vai um tempo para a conclusão das leituras iniciadas. 

A leitura como prática diária é um esforço, como costumo dizer em meus textos e comentários em redes sociais. Ler é uma necessidade vital para quem deseja manter o bom funcionamento do cérebro humano.

Noam Chomsky é um dos maiores intelectuais vivos de nosso tempo. Meu primeiro contato com seus conhecimentos foi na área da linguística e da linguagem, pois o linguista é um dos estudiosos que revolucionou a ciência das linguagens com a Teoria da Gramática Gerativa. Foram os meus anos do curso de graduação em Letras na USP que me apresentaram este intelectual linguista.

Neste livro - O governo no futuro - Chomsky responde a uma pergunta feita em uma conferência ministrada em 1970, em Nova York. 

A questão "Qual o papel do Estado em uma sociedade industrial avançada?" permite ao intelectual abordar quatro posições idealizadas de comunidades humanas:

- a liberal clássica

- a socialista libertária

- a socialista de Estado

- a capitalista de Estado

De cara, o autor se posiciona e diz ter preferência pelos conceitos socialistas libertários:

"Penso que os conceitos socialistas libertários - uma esfera do pensamento que abrange do marxismo esquerdista ao anarquismo - são fundamentalmente corretos e extensões naturais e apropriadas do liberalismo clássico na atual era da sociedade industrial avançada." (p. 5 e 6)

LIBERALISMO CLÁSSICO

Chomsky aponta Wilhelm von Humboldt e seu livro Limites da ação do Estado (1792) como uma referência na questão.

"Segundo Humboldt, o Estado tende a 'fazer do homem um instrumento para seus fins arbitrários, deixando de lado os propósitos individuais'... " (p. 7)

Com isso o Estado seria "anti-humano":

"e, uma vez que os homens são por essência seres livres que se aperfeiçoam, que buscam, o que se conclui é que o Estado é uma instituição profundamente anti-humana." (idem)

Interessante o ponto de vista do intelectual.

HUMBOLDT E ROUSSEAU

- O atributo central do homem é a sua liberdade: indagar e criar, estes são o centro em torno do qual giram todas as buscas do homem.

Chomsky nos lembra que Humboldt escreveu antes do século 19, antes do auge da implantação do modo de produção capitalista. Se ele visse o capitalismo em ação, entenderia a importância do Estado para preservar a vida humana e o meio ambiente porque o capitalismo sem controle inviabiliza a vida e a natureza.

O autor aproxima as ideias de Humboldt aos primeiros textos de Marx em relação à alienação do trabalho: 

"Creio que seja bastante revelador e interessante se o compararmos com Marx, com os primeiros manuscritos de Marx, particularmente às considerações deste sobre 'a alienação do trabalho, quando o trabalho é externo ao trabalhador, (...) e não parte de sua natureza, (...) [de forma que] ele não se realiza no trabalho, mas nega a si mesmo (...). [e] se sente fisicamente esgotado e mentalmente enfraquecido', a alienação, que 'lança alguns trabalhadores de volta à barbárie de certo tipo de trabalho e transforma outros em máquinas', com isso privando o homem de seu 'caráter de espécie', da 'atividade de livre consciência' e da 'vida produtiva'." (p. 11)

Humboldt não previu que o capitalismo destruiria os ideais liberais em uma democracia:

Chomsky diz que é claro que ele não tinha ideia, ao escrever em 1790, do modo como viria a ser reinterpretada a noção de pessoa privada na era do capitalismo corporativo. 

Ele não previu - e cita o historiador anarquista Rudolf Rocker - que "a democracia, com seu lema de 'igualdade de todos os cidadãos perante a lei', e o liberalismo, com seu 'direito do homem sobre sua própria pessoa', naufragariam nas realidades do modelo econômico capitalista.

"Humboldt não previu que, numa economia capitalista predatória, a intervenção do Estado seria uma necessidade absoluta para preservar a existência humana e evitar a destruição do ambiente físico." (p. 13)

SOCIALISMO LIBERTÁRIO

Chomsky cita sua preferência por Bakunin e Haymarket ao lembrar que "um anarquista coerente deve se opor à propriedade privada dos meios de produção" (p. 19) e que "um anarquista coerente também fará oposição à 'organização da produção pelo governo" (idem): Daí se tem claro um conceito:

"O objetivo da classe trabalhadora é libertar-se da exploração. Este objetivo não é atingido e não pode ser alcançado por uma nova classe dirigente e governante em substituição à burguesia." (p. 19)

Citando um texto de William Paul (1917): "a República do Socialismo será o governo da indústria administrada pelo bem de toda a comunidade (...) representará a liberdade econômica de todos - será, portanto, uma democracia verdadeira." (p. 21)

Chomsky diz: "Proudhon, em 1851, escreveu que o que colocamos no lugar do governo é organização industrial, e podemos citar muitos comentários semelhantes. Esta, em essência, é a ideia fundamental dos revolucionários anarquistas." (idem)

COMUNISMO DE CONSELHOS

Chomsky defende: "Pode-se argumentar, pelo menos eu o faria, que o comunismo de conselhos - no sentido da longa citação que interpreto - é a forma natural de socialismo revolucionário numa sociedade industrial." (p. 12)

Diferenças táticas entre o marxismo de esquerda e o anarquismo, segundo o autor:

"Ora, pode parecer quixotesco agrupar o marxismo de esquerda e o anarquismo sob a mesma rubrica, como fiz, dado o antagonismo em todo o século passado entre marxistas e anarquistas - a começar pelo antagonismo entre Marx e Engels de um lado e, por exemplo, Proudhon e Bakunin de outro. No século XIX, suas diferenças com relação à questão do Estado eram significativas mas, de certa forma, táticas." (p. 24/25)

Chomsky explica que enquanto anarquistas eram a favor de destruir o capitalismo e o Estado juntos, Engels, por exemplo, entendia que o Estado tomado pelos trabalhadores seria "o único organismo por meio do qual o proletariado vitorioso pode afirmar seu poder recém-conquistado, controlar seus adversários capitalistas e realizar essa revolução econômica da sociedade sem a qual toda vitória deve terminar numa nova derrota e numa carnificina em massa dos trabalhadores semelhante à que se seguiu à comuna de Paris." (p. 25)

SOCIALISMO DE ESTADO E CAPITALISMO DE ESTADO

O intelectual dá um resumo geral do que pensa em relação à essas duas formas:

"Em resumo, o sistema democrático, na melhor das hipóteses, funciona dentro de uma faixa estreita em uma democracia capitalista, e mesmo dentro desta faixa estreita seu funcionamento tende enormemente a concentrações de poder privado e aos modos autoritários e passivos de pensamento que são induzidos por instituições autocráticas como as indústrias. É um truísmo, mas um truísmo que deve ser constantemente enfatizado, que capitalismo e democracia sejam basicamente incompatíveis." (p. 38/39)

Logo em seguida, Chomsky nos conta sobre o poder das burocracias não eleitas nas democracias capitalistas. Os diversos escalões da máquina do Estado são indicados e ocupados por representantes dos donos do poder econômico e os eleitos chegam e quase nada podem fazer para alterar profundamente as lógicas da estrutura.

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL - Eu vivi isso numa estrutura nacional burocrática até a medula espinal e como diretor eleito pelos associados numa autogestão em saúde tive que mover rios e mares para cumprir minimamente o projeto apresentado e eleito pelos donos da associação. O presidente Lula enfrentou e enfrenta isso o tempo todo em seus mandatos eletivos.

GUERRA FRIA, SISTEMA DE CONTROLE - Como a conferência de Chomsky é no início dos anos 1970, ele acaba abordando o papel estratégico do conceito de Guerra Fria para as potências - principalmente os EUA capitalista, mas também a URSS:

"(...) Na verdade, acredito que esta provavelmente seja a função da Guerra Fria: ela serve como mecanismo útil para os administradores da sociedade americana e suas contrapartes na União Soviética controlarem o povo em seus respectivos sistemas imperiais." (p. 45)

A economia de guerra dos EUA após a 2ª GM trouxe o maior poder econômico já registrado para um país, o fornecedor de armas para todo o mundo. Guerra é lucro certo para o imperialismo norte-americano. Ontem e hoje! Olha a Guerra na Ucrânia aí para não nos deixar enganar...

CONCLUSÃO DO AUTOR - O SOCIALISMO LIBERTÁRIO É POSSÍVEL

Cito integralmente o parágrafo final com a conclusão de Noam Chomsky sobre a temática abordada neste livro. A palestra foi em 1970, mas guardadas as devidas mudanças do cenário mundial neste meio século, a essência do que ele trata segue a mesma em 2023: modelos de organização econômica, política e social.

"Temos hoje os recursos técnicos materiais para atender às necessidades animais do homem. Não desenvolvemos os recursos culturais e morais - ou as formas democráticas de organização social - que possibilitam o uso humano e racional de nossa riqueza e poder materiais. É concebível que os ideais liberais clássicos, expressos e desenvolvidos em sua forma socialista libertária, sejam realizáveis. Mas se assim forem, o serão apenas por um movimento revolucionário popular, baseado em um amplo estrato da população e comprometido com a eliminação de instituições repressoras e autoritárias, estatais e privadas. Criar esse movimento é um desafio que enfrentamos e que devemos cumprir, se quisermos escapar da barbárie contemporânea." (p. 54)

COMENTÁRIO FINAL

De forma até irônica, quero terminar a postagem sobre a leitura desse livro, fruto de uma conferência de Chomsky sobre o papel do Estado numa sociedade industrial, com a citação que ele faz de Mark Twain, ironizando a democracia nas formas de Socialismo de Estado e Capitalismo de Estado:

"Mark Twain certa vez escreveu que 'é pela bondade de Deus que em nosso país temos aquelas três coisas indescritivelmente preciosas: liberdade de expressão, liberdade de consciência e a prudência de nunca praticar nenhuma delas'." (p. 52)

É isso!

Fim da leitura dessa aula de Chomsky. Foi o 11º livro lido no ano. Neste caso, lido e relido hoje enquanto fiz a postagem.

William


Bibliografia:

CHOMSKY, Noam. O governo no futuro. Tradução de Maira Parula. 2ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2021.


domingo, 28 de maio de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXII (28/05/23)



Refeição Cultural - Cuba (XXII)

Osasco, 28 de maio de 2023. Domingo. (este texto começou a ser escrito em Uberlândia, em 14 de abril, e termino ele agora, após voltar de Cuba, onde passei 15 dias)


Dando sequência aos meus estudos a respeito da história de Cuba e do povo cubano, projeto de leitura que defini para os primeiros meses do ano, terminei o primeiro capítulo do livro Cuba insurgente: identidade e educação (2023), da doutora e mestra em educação Maria Leite.

Os subtemas abordados no capítulo "A sociedade formada por retalhos" nos permitem compreender melhor a história de luta do povo cubano e avaliar melhor como a cubanidad e a cubanía influenciaram decisivamente o povo em sua libertação do jugo imperialista espanhol e norte-americano. O desejo de liberdade conjugado com o desejo de saber são centrais na formação da identidade do povo cubano.

Seguem abaixo os subtítulos abordados no capítulo:

1.1 A nacionalidade cubana

1.2 As insurgências pedagógicas em Cuba

1.3 A mescla de tradições, sonhos e conflitos

1.4 A pedagogia na sociedade do açúcar

1.5 Martí e a insurgência como princípio educativo

1.6 A neocolônia

1.7 Os confrontos ideológicos da primeira metade do século XX

1.8 A educação na República Mediatizada

1.9 Pontos de contato, fontes de conflito

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CUBANIDAD E CUBANÍA

"(...) La cubanidad es principalmente la peculiar calidad de una cultura, la de Cuba. Dicho en términos currientes, la cubanidad es condición del alma, es conplejo de sentimientos, ideas y actitudes." (Ortiz, 2002a, p. 1; nota 4 do livro)

e

"(...) Assim, na concepção de Ortiz (2002a), é possível argumentar que os primeiros lampejos da cubanía estão calcados em uma cultura de resistência, base de um processo de elaboração ideológica transmitido como herança, que assumiu formas de rejeição ao que é imposto sob forma de castigo e de espoliação. Para expressar o modo pleno do 'ser cubano' criou-se o neologismo ortiziano de cubanía, inspirado no vocábulo hispanía criado por Unamuno." 

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28/05/23

Além de ler o capítulo antes de partir para a viagem a Cuba, reli o capítulo após voltar de lá, e me pareceu que ler conhecendo os ares da Ilha deu um sabor diferente na leitura. A gente lê alguma informação contida no livro e se lembra de alguma cena ou vivência na Ilha. Acredito que a sequência da leitura será muito interessante.

Estudantes em Cuba.

Uma das primeiras imagens que me veio à lembrança em relação aos dias passados em Cuba é a imagem das crianças uniformizadas pelas ruas e praças das cidades. A professora Maria Leite nos fala sobre isso no início do livro. Realmente, a educação é foco central na República Socialista de Cuba.

Percebe-se uma altivez no povo cubano que nos faz admirá-los desde o início do contato. 

Por outro lado, me preocupou ver nas ruas e praças tanta gente com a cara na tela do celular como no resto do mundo. As bombas atuais do inimigo são comandadas por essas coisas, redes sociais manipuladas por algoritmos. O ser humano não está preparado para resistir a isso. 

Ouvi de revolucionários antigos que "o maior perigo contra nós é isso", apontando para os celulares...

Enfim, sigamos estudando. Meu objetivo nas leituras e estudos de janeiro até aqui era me preparar um pouco para conhecer Cuba pessoalmente. Lá estive e cresceu em mim a vontade de conhecer mais sobre o país, o regime socialista, os problemas e as vantagens para o povo e as possíveis soluções.

Tenho que pensar objetivos de estudos e cultura para o restante do ano. Vou seguir com a temática "Cuba", mas tenho que pensar outros focos culturais também. E novas viagens.

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Lançamento do livro em São Paulo:

Neste domingo, às 15h, a professora Maria Leite faz o lançamento do livro na Av. Paulista, na Martins Fontes. Convido a tod@s para o evento. É uma oportunidade de adquirir o livro e conhecer nossa educadora estudiosa da pedagogia em Cuba. 

William


Post Scriptum: texto anterior da série sobre Cuba pode ser lido aqui.


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: Identidade e Educação. Editora CRV, Curitiba, 2023.


quarta-feira, 24 de maio de 2023

Viagem a Cuba (V)


Cuba: Patria o Muerte!

Refeição Cultural - Cuba (XXI)

Osasco, 24 de maio de 2023. Quarta-feira.


Estou refletindo a respeito da experiência de viajar para Cuba e lá ficar por 15 dias, conhecendo Havana, a capital do país socialista, e mais 3 cidades: Trinidad, Santa Clara e Varadero (ver aqui a 1ª postagem). 

Estivemos em Cuba entre 27 de abril e 11 de maio. Nosso grupo paulista de 8 pessoas ficou hospedado em casas de cidadãos cubanos e não em hotéis - fomos acolhidos metade na Casa de Isabel e outra metade numa casa próxima -, o que dá outra característica à nossa experiência. Além de tornar a viagem muito mais barata, o contato com as pessoas é de outra natureza.

Nosso domingo começou pegando
o ônibus na Pça. Central, em frente
ao Gran Teatro Alicia Alonso
.

Cada viagem é única e como disse em outras postagens, não acho correto dar hierarquias a viagens e roteiros, dizendo que umas são melhores ou piores que outras. Cada pessoa deve avaliar em qual tipo de roteiro de viagem se sente melhor. 

Eu, por exemplo, não acho que faria hoje uma viagem na porraloquice, sem programação, sem informação alguma, no estilo deixa o vento me levar... viagem assim não é mais pra mim, que já passei dos 50 anos. Acreditem, já fiz muita viagem na porraloquice. Hoje, não mais.

Pai e filho na Praça da Revolução,
La Habana, Cuba.

Nossa viagem a Cuba foi um sucesso, correu tudo como planejado, não passamos nenhum perrengue desses que estragam o passeio, e deu tudo certo porque foi organizada pela companheira Miriam, colega aposentada do BB, e com o suporte da educadora Maria Leite e porque toda a viagem teve a Casa de Isabel como referência em Havana e para as locomoções pelo país. Até o fato de ninguém ter tido nenhum problema de saúde ou alguma ocorrência policial e política tem relação com planejamento. É o que avalio.

Casa de Isabel e Luis, ao fundo em azul,
situada na quadra do Capitólio Nacional.

Eu vejo esses viajantes que têm milhões de visualizações em perfis de YouTube contando suas experiências sobre Cuba e sobre o povo cubano e confesso que fico entre triste e curioso. É triste ver pessoas às vezes despolitizadas e "neutras" igualando as razões ideológicas do governo socialista cubano com os desejos do império de tomar de volta a Ilha para seu bel-prazer e exploração. Fico curioso também para ver o que contam sobre Cuba, afinal sempre tem algo interessante para se saber sobre hábitos e costumes de outros países.

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Monumento a José Martí,
Praça da Revolução, Havana.

30/4/23, DOMINGO, TEMPORAL EM HAVANA

O domingo, véspera do 1er de Mayo em Cuba, foi o dia que o grupo definiu para conhecer a Praça da Revolução, local histórico e conhecido por grandes aglomerações humanas em datas e eventos importantes do país. Discursos históricos já foram proferidos ali pelas lideranças revolucionárias do povo cubano.


Já sabíamos que as atividades do Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras não seriam como nos anos anteriores, com uma manifestação gigante pelas ruas de Havana terminando na Praça da Revolução. 

Dias antes, o governo havia definido que cada província realizaria seu 1er de Mayo porque a questão da falta de combustíveis estava muito séria e o deslocamento de grandes massas para Havana seria muito custoso para a República Socialista. Na capital, o evento seria no Malecón, na avenida beira-mar de Havana. 

(O 1er de Mayo seria transferido naquele domingo 30 para o dia 5, sexta, por questões climáticas e nosso grupo participou dos atos em Trinidad)

Nosso 1er de Mayo foi em Trinidad
porque o governo mudou a data para a
sexta 5, por causa do risco de temporal.

Tomamos o Habana Bus Tour (10 dólares/euro) e descemos na Praça da Revolução. Eu fiquei emocionado por estar lá. Para quem é de esquerda e socialista e estuda um pouco de história, estar na Plaza de la Revolución em Cuba é um momento único na vida. Além das clássicas imagens de Che Guevara e Camilo Cienfuegos (murais), temos o Monumento a José Martí - Torre e Estátua do herói revolucionário. 

Ainda no local, vimos a mudança do tempo, com nuvens negras tomando conta da cidade e meia hora depois caiu uma tempestade imensa. Já estávamos dentro do ônibus na hora da tormenta, para nossa sorte, e ficamos quase duas horas circulando por Havana sob forte tempestade com ruas alagadas e árvores caídas. 

Após a tempestade, almoçamos no La Roca,
restaurante com preços muito bons, perto
do Hotel Nacional de Cuba.

Soubemos após a tormenta que as estruturas no Malecón para o 1er de Mayo foram seriamente comprometidas. O ato do dia seguinte foi transferido para a sexta-feira 5 de maio em todo o país. Em outra postagem falarei sobre a nossa experiência do 1er de Mayo em Trinidad, Cuba. Foi um evento fantástico!

Entrada do Hotel Nacional de Cuba.

Após a tormenta, almoçamos em um dos restaurantes estatais, cujos preços são bem populares e mais baratos em relação aos restaurantes privados. Fomos ao Restaurante-bar La Roca, próximo ao Hotel Nacional de Cuba, que visitamos na parte da tarde. 

Olha o nosso querido grupo voltando
para nossas hospedagens após as
aventuras do dia em Havana.

Terminamos o passeio pegando o ônibus de volta ao Capitólio Nacional, região onde estávamos hospedados.

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Vista do Malecón, a partir do
Hotel Nacional de Cuba.

VIVA A REPÚBLICA SOCIALISTA DE CUBA!

Uma observação sobre o tema comunicação e informação:

Desde o início do ano, tenho lido algumas notícias de Cuba diretamente nas páginas de internet disponíveis para qualquer pessoa no mundo. Sites como Granma.cu e Cubadebate.cu e mais alguns. É notório que o ponto de vista das notícias é o do governo socialista do país.

Se alguém de fora do Brasil der uma "googlada" sobre o nosso país, os algoritmos das big techs disponibilizarão aos leitores as notícias e os pontos de vista dos veículos de comunicação de nossos inimigos de classe, as páginas da mídia empresarial e da casa-grande brasileira, manipuladora e mais canalha que tudo na sociedade humana.

Aí algumas pessoas de boa-fé vão avaliar que em Cuba não há liberdade de imprensa e que no Brasil há... é um longo e legítimo debate a ser feito, diria eu, que já fui secretário de imprensa em confederação de trabalhadores e que mantenho blogs há mais de 15 anos na internet.

Enfim, como disse, tenho lido sobre Cuba e o povo cubano. E me interesso mais a cada dia e torço para que o povo cubano resista aos ataques do imperialismo e do capitalismo. 

O capitalismo está destruindo o planeta Terra e as possibilidades de manutenção da vida humana e das demais formas de vida.

Seguimos refletindo sobre Cuba, o socialismo, o capitalismo, o imperialismo, e o destino dos povos do mundo.

William


Post Scriptum: para ler o texto anterior, é só clicar aqui. O texto seguinte pode ser lido clicando aqui.

Post Scriptum II: um amigo escritor me disse dias antes de ir que se tivesse oportunidade de ir a Cuba iria perguntar ao povo se eles eram felizes. Fiquei pensando nisso... cara, é impossível destrinchar essa coisa de pegar alguém e perguntar "você é feliz?". Quem é feliz? Se sim, em que circunstância, onde, como, por quê? Aliás, qualquer pessoa pode se aproveitar de contextos específicos para conseguir respostas diametralmente opostas, do mais feliz ao mais infeliz momento da vida. Enfim, pensei nisso, mas não rola perguntar algo assim para as pessoas, na minha opinião sincera.


domingo, 21 de maio de 2023

Diário e reflexões (21/05/23)



Refeição Cultural

Osasco, domingão de 21 de maio de 2023.


A leitura de cada frase do livro da professora Maria Leite - Cuba insurgente: identidade e educação (2023) -, sobre a pedagogia em Cuba, sobre José Martí, me faz parar e pensar o Brasil, Lula, nós povo brasileiro, o PT, a CUT, a Articulação Sindical, esse mundo complexo que as religiões e as mentiras simplificam... 

Estudar determinados temas e conhecer a cada dia do viver a nossa ignorância geral e a nossa dificuldade em alterar a realidade material é obrigação de alguém politizado. Mesmo sentindo certa impotência por não conseguir no tempo de uma vida humana alterar significativamente o rumo da sociedade, sei pela razão que devemos seguir todos os dias com certa ética que nos formou como seres humanos humanistas.

Abaixo, alguns excertos que me puseram a pensar, extraídos do item "Martí e a insurgência como princípio educativo", do livro da professora Maria Leite:

Martí sobre a liberdade:

- "El mundo tiene dos campos: todos los que aborrecen la libertad, porque sólo la quieren para sí, están en uno; los que aman la libertad, y la quieren para todos, están en otro. (José Martí)"

Martí e sua reflexão após ver o julgamento dos anarquistas de Chicago, em 1886:

- "Uma vez reconhecido o mal, o ânimo generoso sai a buscar remédio. Uma vez esgotado o recurso pacífico, o ânimo generoso recorre ao remédio violento." (me lembrei de Mandela ao chegar à mesma conclusão na luta contra a violência do regime Apartheid)

Martí após questionar o mito do eurocentrismo e da picaretagem de dizer que o colonialismo incluiu as Américas na História:

- "A inteligência americana estava no penacho indígena e quando se paralisou ao índio, se paralisou a América." (Acosta)

Martí e as bases da criação do conceito de Nuestra América:

- "(...) ele então projeta um horizonte humanista para a região que denominou Nuestra América. A originalidade desta proposta é a autoctonia, com suas raízes políticas e culturais próprias, sintonizadas com a identidade latino-americana."

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IMPULSOS ELÉTRICOS NO CÉREBRO

- O homem José Martí era originário de um país colonizado por povos imperialistas da época. Espanha na época de suas lutas e suas ideias libertárias, depois Estados Unidos, após sua morte e entrado o século seguinte. Martí já sabia que os EUA iriam tomar o lugar da Espanha no imperialismo e colonialismo... Décadas depois, Fidel Castro, um martiano, liderou o povo cubano na libertação do país das garras da águia do Norte. Desde então, o império atua para matar de fome o povo que escolheu a liberdade... e os homens do mundo, do tipo G7, aceitam numa boa esse genocídio.

- Lula falou ontem em Hiroshima (Japão) sobre paz no encontro do G7, uma sigla para lembrar do imperialismo desta época. O homem Lula foi um preso político do imperialismo para que a ex-colônia Brasil voltasse a ser colônia do imperialismo atual. Os animais humanos são tão cínicos que os homens do G7 se reuniram na cidade destruída pela bomba atômica para organizar nova guerra total contra a Rússia e a China... e o cristão do Lula querendo paz entre os povos...

- Após conhecer Cuba - por poucos dias, é verdade - só aumentou a minha perplexidade em saber que até hoje, até este momento, o povo cubano e seu regime político - uma república socialista - resiste aos ataques violentos e perversos do imperialismo para derrubar o governo e fazer de Cuba um Haiti "capitalista". O bloqueio norte-americano a Cuba é genocida. Minha suspeita é que a resistência do povo cubano até agora é por causa da educação dada desde a mais tenra idade e desde 1959. Na verdade, desde antes, já que a pedagogia cubana vem de Martí e outros educadores desde meados do século XIX...

- No Brasil capitalista não temos uma educação cubana. Cada povo e cada cultura é uma experiência única, mesmo num mundo globalizado. Após uns 40 anos lendo e estudando alguma coisa dentro das possibilidades às pessoas de minha origem, fora da classe dominante, fica fácil entender como se dão as coisas no Brasil. A casa-grande e os banqueiros e coronéis do Agro deram o golpe, entregaram tudo de valor ao império, e fizeram as reformas trabalhista, sindical, previdenciária e da educação. O novo ensino médio, que o Lula não quer peitar, é para nunca termos aqui um povo cubano...

São tantos impulsos elétricos em meu cérebro, essa máquina de 86 bilhões de neurônios, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis, tantos impulsos que dá até preguiça para seguir escrevendo... pra quê?

Paro aqui e vou pedalar um pouco pelas ruas de Osasco e Butantã, meu mundo colonizado.

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EI, QUAL A CONCLUSÃO DO TEXTO?

Espera aí, meu! Pra quê você citou os excertos sobre Martí se não alinhavou nada de seus impulsos elétricos com os conceitos ali contidos?

Verdade, tenho que alinhavar o texto: 

Acho que não adianta estar do lado daquele grupo que defende a liberdade pra todos se não soubermos utilizar essa liberdade para libertar a mente das pessoas. Os governos do PT, o Lulismo, não libertaram a mente de nosso povo pobre e trabalhador. Não deu tempo ou não era estratégico peitar a casa-grande e libertar a mente de nossa classe através da educação. 

Durante os 13 anos deixamos a formação de nossa gente ser a formação colonizadora dos donos do poder... óbvio que a inclusão pelo consumo sem mudar as ideias daria no que deu. Nos tiraram do poder sem guerra e sem resistência. 

Enfim... vamos repetir isso? Me respondam vocês que estão dentro do NOSSO governo, porque estou de fora e não sei quais são as estratégias para não repetirmos a história de nosso fracasso após a experiência positiva de estarmos no governo por 3 mandatos em mais de 5 séculos de dominação deles.

Qual a nossa estratégia em relação ao povo que precisamos para nos apoiar no enfrentamento aos nossos inimigos de classe?

William


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: identidade e Educação. Editora CRV, Curitiba, 2023.


sábado, 20 de maio de 2023

Viagem a Cuba (IV)


Centro Fidel Castro Ruz.

Refeição Cultural - Cuba (XX)

Osasco, 20 de maio de 2023. Sábado.


Aproveitamos a manhã de sábado em Havana, nosso 3º dia na cidade, para visitar o Centro Fidel Castro Ruz, no bairro El Vedado, um bonito bairro arborizado e com casarões onde morava parte da gente endinheirada antes da Revolução de 1959. Esses ricos fugiram e deixaram tudo para trás. 

Local que nos deixou
emocionados. Viva Fidel!

Hoje El Vedado abriga muitos órgãos estatais e de delegações estrangeiras e estabelecimentos comerciais. Também moram lá muitas famílias cubanas. Aliás, por toda a cidade vemos o povo cubano morando em imóveis situados em áreas de monumentos e pontos históricos da cidade. Exemplo: ao lado do Capitólio tem dezenas de casas com famílias.

¡Hasta la victoria siempre, Fidel!
Notícia do diário Granma.

A experiência da visita guiada ao Centro Fidel Castro Ruz é incrível, vale muito a pena! As visitas guiadas acontecem às 9h e 11h da manhã e duas na parte da tarde. Ao pesquisar para fazer a postagem, me emocionei ao ver o vídeo na página do Centro de Estudos: ver aqui. A entrada é gratuita.

El Malecón. São mais de 7 Km
de estrutura: muro e calçamento.

Após a visita, nosso grupo saiu andando pelo bairro El Vedado. O objetivo era conhecer a famosa sorveteria Coppelia. A sorveteria estatal foi criada em 1966 a pedido de Fidel Castro e um dos objetivos era disponibilizar ao povo cubano sorvetes de boa qualidade e a preço baixo. 

Pai e filho caminhando pelo Malecón...

Eu e o filhão decidimos caminhar mais e enquanto o grupo entrou na fila para experimentar os sorvetes cubanos, nós demos uma bela caminhada até El Malecón, a avenida beira-mar de Havana.

Hotel Nacional de Cuba. Exuberante!

Chegamos ao Hotel Nacional, um marco da construção hoteleira de Cuba, construído nos anos 30. Ele é imenso! É como uma fortaleza olhando para o mar. Cumprimos nosso objetivo da caminhada, andamos alguns quilômetros pelo Malecón, até chegarmos ao Capitólio e à Casa de Isabel.

Brasileiros e cubanos
celebram o 1er de Mayo.

A Casa de Isabel faria para nós um almoço no dia 1er de Mayo, na segunda-feira. Neste ano, porém, a família de Isabel e Luis fez o almoço no sábado e foi uma tarde deliciosa e de confraternização entre nós brasileiros e cubanos.

Terminamos o dia assim,
vendo essa imagem...

Enfim, nosso dia em Havana foi muito legal. Muita cultura e história e muita confraternização entre nós da classe trabalhadora.

Para ver a postagem anterior, é só clicar aqui. A postagem seguinte pode ser lida aqui.

William


Post Scriptum:

Como se dá a produção de uma postagem como esta? Estou revivendo os dias que passamos em Cuba, uma experiência marcante em nossas vidas. Ao ver as fotos do dia, recordo nossa agenda e comento alguma coisa a respeito daquilo que nos impressionou. 

Pode não parecer, mas cada frase do texto demanda uma pesquisa anterior para tentar escrever corretamente sobre o local e sobre o país. 

Para falar sobre o bairro El Vedado, li a respeito, depois idem para El Malecón, depois o Centro Fidel Castro Ruz, sorveteria Coppelia etc. 

Ou seja, ganho eu com a pesquisa e ganha a pessoa que ler uma postagem feita com respeito e honestidade intelectual. 


quinta-feira, 18 de maio de 2023

Viagem a Cuba (III)


Havana, vista a partir da Fortaleza
San Carlos de la Cabaña
.

Refeição Cultural - Cuba (XIX)

Osasco, 18 de maio de 2023. Quinta-feira.


Terminamos o nosso segundo dia em Havana vendo o pôr do sol a partir da Fortaleza San Carlos de la Cabaña

A cidade de Havana já conta com cinco séculos de existência, ela foi fundada em 1519, e até meados do século XVIII era cercada por uma muralha enorme e com diversos portões.

Parte de muralha preservada
em Havana, Cuba.


Além de apreciar o magnífico pôr do sol em Havana, nós fomos até a fortaleza para assistir ao "Cañonazo de las nueve", uma cerimônia secular que é preservada até hoje no país. Todos os dias, às 9 horas da noite, a cerimônia rememora os tempos nos quais a população era alertada sobre o fechamento dos portões da cidade, sendo abertos somente na madrugada do dia seguinte.

Muralha da fortaleza que
protegeu a cidade por séculos.

Na cerimônia, jovens soldados vestidos com roupas de época executam os ritos cerimoniais, com marchas, tochas e danças para a preparação do tiro de canhão. É belíssimo o espetáculo! Quando chega a hora, o disparo é feito e nos ensurdece. É grandioso o evento! Recomendo vivenciar essa experiência a quem estiver na Ilha ou visitá-la.

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Parque de la Fraternidad, em frente
ao Capitólio de Havana.

Nosso dia começou com um recorrido por Habana Vieja, tendo o senhor Luis como nosso guia, lembrando que nosso suporte em Havana foi a Casa de Isabel, na qual Isabel e Luis nos acolhem com carinho e presteza. 

Sugestão: sai muito mais em conta ficar hospedado nas casas de cidadãos cubanos do que em hotéis. As diárias variam até uns 30 dólares/euros com café da manhã. Em hotéis são várias vezes mais caras as diárias.

Durante a caminhada por Habana Vieja, conhecemos diversas praças, edifícios e monumentos históricos com as explicações do senhor Luis. Vocês não imaginam quanta cultura e história adquirimos nessa caminhada que fizemos. 

Estátua de Eusebio Leal em frente ao
Palacio de los Capitanes Generales,
atual Museu da Cidade.

Ao saber sobre o senhor Eusebio Leal Spengler, o historiador da cidade de Havana, pude compreender melhor os motivos por perceber em Havana a quantidade de imóveis reformados, em reforma ou preservados sem serem demolidos pela especulação imobiliária como ocorre no Brasil. 

Ele foi muito importante no aconselhamento ao governo socialista para o tombamento de milhares de imóveis em Cuba preservando a história de séculos da Ilha. Como faltam recursos materiais ao país por causa do bloqueio e por outras prioridades da cidadania, é muito comum vermos imóveis aguardando reforma.

Pátio interno do Capitólio.

Na parte da tarde, nós fizemos a visita guiada ao Capitólio, que passou por reforma e restauração recentemente. Que construção magnífica! Recomenda-se muito que os visitantes conheçam esse edifício espetacular.

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Informações a turistas: o valor da entrada na fortaleza para ver o espetáculo do Cañonazo é bem barato, são 200 pesos (menos que 2 dólares). O caro no momento (maio/2023) é o transporte para lá porque os taxistas estão cobrando valores abusivos para se andar pequenas distâncias na cidade, a desculpa é a falta de combustíveis. 

Dos poucos lugares onde se pode pagar com tarjeta, o Capitólio é um deles, são 20 dólares (ou euros) a entrada. O ônibus que percorre os pontos turísticos da cidade ao longo do dia também se paga com cartão, são 10 dólares e a pessoa pode subir e descer para ver os pontos turísticos da cidade. 

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Gran Teatro de la Habana
Alicia Alonso.

Cuba preserva sua história

Uma certeza se tem ao visitar a única república socialista de Nuestra América: o foco na educação é notório e também a importância da cultura e da história das lutas do povo cubano por sua liberdade e por sua autonomia em relação aos países imperialistas.

Cuba é um país que valoriza as pessoas que se dedicaram às causas coletivas de seu povo. José Martí é figura central na história de Cuba e quando o povo alcançou sua independência ao libertar o país do ditador que era um representante do império, em 1º de janeiro de 1959, Martí já era uma referência para os revolucionários liderados por Fidel Castro.

É isso! Seguirei revendo as imagens que captei na viagem, lendo e estudando sobre Cuba e o povo cubano e refletindo sobre Nuestra América e o Brasil de Lula, que busca a reconstrução nacional após o desastre que vivenciamos após o golpe de 2016.

Clique aqui para ver a postagem anterior.

William


Post Scriptum: o texto seguinte pode ser lido aqui.



terça-feira, 16 de maio de 2023

Viagem a Cuba (II)


Capitolio Nacional de La Habana,
a partir da sacada da Casa de Isabel.

Refeição Cultural - Cuba (XVIII)

Osasco, 16 de maio de 2023. Terça-feira fria, com a madrugada congelante.


Preparação básica para ir a Cuba

Nossa viagem a Cuba foi organizada com bastante antecedência, o grupo foi criado e começou os contatos desde meados de 2022, e a companheira Miriam, que vez por outra eu chamava carinhosamente de "nuestra comandante en jefe" atuou incansavelmente para que tudo desse certo no planejamento. Desde o início, soube que a professora Maria Leite era o nosso suporte para auxiliar no roteiro de viagem e a Casa de Isabel era a nossa referência em Havana. 

Saímos de São Paulo no dia 26 de abril em voo da Copa Airlines e retornamos na madrugada de 12 de maio. O voo teve conexão no Panamá. Para os leitores e leitoras que pretendem ir a Cuba é bom saber que é necessário ter passaportes, visto de entrada e saída em Cuba - chamado tarjeta - que é de fácil aquisição, tanto na embaixada de Cuba no Brasil quanto no próprio aeroporto na hora do embarque, certificado de vacina contra febre amarela, seguro-viagem que tenha Cuba no rol de países com cobertura e um endereço onde se hospedará no país.

Para as pessoas que vão pela primeira vez é bom saber que é necessário levar uma certa quantidade de moeda estrangeira, euro ou dólar, e também será necessário fazer câmbio na Ilha para ter em mãos o peso cubano (CUP) para pagar as despesas diárias como refeições e bebidas. Recomenda-se evitar fazer câmbio na rua e com desconhecidos, a variação é enorme: de 120 a 190 pesos o dólar/euro. Outra informação importante é ter em mãos um cartão de crédito habilitado para ser usado no exterior.

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O capitólio visto na madrugada.
Alumbramento...

O primeiro dia

Chegamos de madrugada e o voo atrasou um pouco, não muita coisa. Nosso grupo com oito pessoas foi muito bem recebido nos dois endereços nos quais ficamos. Começamos ali a ver como o povo cubano é acolhedor e hospitaleiro.

Meu primeiro "deslumbramento" foi ver o Capitólio Nacional de Havana, que se vê da sacada da Casa de Isabel de forma deslumbrante e total. Fomos recebidos pelo senhor Luis, que também seria nosso guia por duas vezes para conhecermos a história e lugares importantes de La Habana Vieja.

Almoço em La Bodeguita Del Medio.

A manhã do 1º dia foi para descansarmos e almoçamos em um ponto turístico da cidade, La Bodeguita Del Medio. Descobrimos como funcionam os preços das refeições e bebidas nos primeiros dias e depois passamos a entender quando o lugar era caro, razoável ou barato. Os preços em La Bodeguita são bons, tanto para comer como para apreciar uma bebida local. Experimentei um Mojito, feito à base de rum. 

Detalhe: achei que usaria mais vezes o cartão de crédito (tarjeta), mas não foi possível, usei cartão raramente para as refeições. Andem por Havana com pesos no bolso.

Estátua de José Martí.

Andamos pelas imediações, vimos a estátua de José Martí no Parque Central, depois passamos em frente ao Terminal Sierra Maestra (área portuária, que é limpa e segura) e tomamos uma limonada na Praça de São Francisco de Assis.

Plaza de Armas.

Depois passamos em mais locais históricos e culturais como o Museu Nacional de História Natural de Cuba e a Plaza de Armas, uma fortificação secular entre as ruas Obispo e O'Reilly.

El Floridita.

No final deste primeiro dia, um dia descontraído, fomos ao famoso bar El Floridita, conhecido por ser um local onde o escritor Ernest Hemingway tomava suas biritas. Experimentei uma Cuba Libre. O preço das bebidas é mais caro que no lugar onde almoçamos. Em Cuba, o turista pode pagar até 200% mais nas bebidas e comidas conforme o local escolhido. Uma cerveja nacional pode custar de 150 a 600 pesos (CUP).

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Estátua de Hemingway...

Impressões ao andar pelas ruas de Havana

Ao andar por las calles y plazas em Havana Velha na tarde do primeiro dia, uma quinta-feira de muito sol e calor, pudemos ter as primeiras impressões sobre Cuba e os cubanos e sobre o sistema político do país, uma república socialista cuja constituição atual é de 2019 e cujo Legislativo - Asamblea Nacional del Poder Popular de Cuba - foi eleito faz poucas semanas, um legislativo composto por 470 deputadas e deputados. 

No entanto, ao andar por Havana, também se percebe os efeitos nefastos oriundos dos mais de 60 anos do embargo (bloqueo) imposto pelos Estados Unidos, embargo que não permite que o povo cubano tenha coisas básicas do cotidiano de um país no século XXI, coisas como medicamentos, agulhas para injeções, sabonetes, pastas dentais, leite em pó, papel higiênico de qualidade etc. 

Aliás, embargo que impede que Cuba tenha até combustível e eletricidade suficiente para a vida do povo cubano! Sabiam disso? A Ilha está passando por uma grave crise de falta de combustíveis e a vida cotidiana está muito difícil! É aí que vemos a característica do povo cubano que descrevi na primeira postagem: um povo altivo. Um dos lemas deles é resistência e criatividade!

Aqui onde moro, na grande São Paulo, temos mais de 30 mil pessoas sobrevivendo nas ruas e praças, são homens, mulheres, crianças, idosos, famílias inteiras sem emprego, sem um lar e sem uma cesta básica para não morrer de fome. 

As populações de Cuba (11 milhões) e São Paulo (12 milhões) têm tamanhos parecidos. Cuba é socialista e a São Paulo dos banqueiros da Faria Lima é capitalista. Nesta madrugada paulistana congelante (menos de 10º), milhares de famílias estavam nas ruas e praças e passaram muito frio e se tiverem comido alguma coisa - um ovo, por exemplo - foi por causa de pessoas e entidades que fazem doações e caridade. Não há garantia alguma de que se vá comer ao menos um ovo, um pão, uma sopa, ao longo de um dia, semanas, o mês todo.

Em Havana, percebemos que muitas pessoas oferecem de tudo para os turistas, principalmente corridas de táxi, charutos e algumas pessoas nos pedem alguma coisa, um regalo qualquer (presente), mas já no primeiro dia, foi possível perceber a diferença nas ruas entre uma metrópole socialista como Havana, com seus dois milhões de moradores que têm teto e uma cesta básica, e a São Paulo de milhares de pessoas em situação de rua, com fome e frio e futuro incerto, a cidade que conheço há cinco décadas. 

A carência absoluta de milhares e milhões de pessoas é na rica São Paulo capitalista - a miséria das maiorias no capitalismo excludente -, e não na carente Havana com falta de recursos materiais e essenciais para um país do século XXI, também por causa do bloqueio econômico criminoso imposto a Cuba, de um povo que só quer ser feliz e viver em paz.

Se Cuba tem carências materiais por diversos motivos econômicos, tenho a consciência clara de que a carência material no país caribenho é de outra natureza em relação à miséria das multidões em meu país dominado por uma casta de 1% da população que detém a metade do PIB do Brasil.

Essa foi a impressão da primeira tarde andando por Havana e refletindo agora, em casa, após a madrugada fria em São Paulo. O capitalismo não é a melhor forma de organizar uma sociedade humana.

Vamos refletindo aos poucos sobre a nossa visita a Cuba. Para ler o texto anterior é só clicar aqui.

William


Post Scriptum: o texto seguinte pode ser lido aqui.



domingo, 14 de maio de 2023

Viagem a Cuba (I)


Monumento a José Martí,
Praça da Revolução.

Refeição Cultural - Cuba (XVII)

Osasco, 14 de maio de 2023. Domingo. Dia das Mães.


Estive em Cuba por 15 dias e voltei nesta sexta-feira ao Brasil. A viagem foi uma oportunidade para conhecer de perto um país cujo povo optou pelo socialismo como forma de organização da sociedade. 

Durante uma viagem como essa, tudo é muito corrido para se poder cumprir minimamente um roteiro cultural, histórico e visual a respeito do país caribenho e o que temos durante a estadia são impressões. 

Na tranquilidade de casa, posso agora rever o roteiro percorrido, as fotos e contatos feitos e refletir um pouco sobre a experiência vivida.

A OPORTUNIDADE DE IR A CUBA

O desejo de conhecer Cuba e a experiência socialista em Nuestra América era um desejo antigo, desejo que tive desde meus vinte e poucos anos. Mas as oportunidades foram poucas e o tempo foi passando sem que eu conhecesse a Ilha mesmo tendo sido dirigente sindical por quase duas décadas.

Em meados do ano passado, vi uma colega aposentada do Banco do Brasil, a companheira Miriam, postar em rede social que estava organizando um pequeno grupo para ir a Cuba e foi assim que surgiu a oportunidade da viagem que realizamos entre o final de abril e início de maio. Nosso grupo iria para um roteiro que incluía o 1o de Mayo em Cuba.

Quando reflito sobre a vida, tipo aquelas perguntas "O que é a vida?", gosto de pensar que a vida é uma oportunidade e por mais que estejamos num momento difícil ou complexo de nossas vidas pessoais ou coletivas, viver é sempre uma oportunidade a cada amanhecer do dia. Ir a Cuba com o grupo que fomos, meu filho e eu, foi uma oportunidade. Sou grato por isso.

Capitólio Nacional de Cuba.
Qual lugar teria melhor vista
que essa, da Casa de Isabel?

Não acho que se deva dar hierarquias em tipos e roteiros de viagens, dizendo que umas são melhores que outras, acho que cada viagem é uma experiência única e com pontos positivos e negativos na experiência. Algumas viagens têm roteiros bem turísticos como aquelas fechadas em pacotes de agências de viagem, outras têm mais liberdade de escolha durante o roteiro da viagem. Todas são interessantes na minha opinião.

Nossa viagem não foi por pacote turístico, não ficamos em hotéis, ficamos nas casas de cidadãos cubanos. O roteiro foi feito pelo próprio grupo. Estivemos em 4 cidades e tudo correu bem. Tudo correu bem porque contamos com pessoas que atuaram o tempo todo para que tudo corresse bem. E aí acho importante agradecer e registrar essa solidariedade e doação pessoal de algumas pessoas para que a viagem fosse tão prazerosa e exitosa como foi.

Começo agradecendo à companheira Miriam Goes Shibata, que aceitou a mim e ao meu filho no grupo. Pude perceber o quanto a viagem foi proveitosa tendo Miriam como organizadora do grupo. Também deixo nosso agradecimento à educadora Maria Leite, doutora e mestra da Unisantos e estudiosa da Pedagogia em Cuba. Maria Leite mantém uma página no Facebook - Casa de Isabel - na qual dá dicas para as pessoas que querem viajar a Cuba. 

Isabel e Luis, da Casa de Isabel.

E tenho certeza de que todas as pessoas que vão a Cuba e ficam na Casa de Isabel, acolhidas e cuidadas por Isabel e Luis, são gratas a eles por tanta simpatia e apoio que nos dão para tudo que precisamos: além da hospedagem, o senhor Luis apresenta a cidade com muita história de cada lugar e monumento, dicas importantíssimas para quem é de fora e não conhece o dia a dia em Cuba etc. Com a crise de combustíveis que o povo cubano está enfrentando com altivez e criatividade, só conseguimos viajar até as 3 cidades que fomos por causa do apoio de Isabel, Luis e Maria Leite.

Pensa num grupo legal... esse aí!

Por fim, quero enviar um abraço fraterno a nosso grupo de viagem: que pessoas amáveis e solidárias que tivemos no grupo! Nos demos muito bem, desde que nos conhecemos virtualmente, depois pessoalmente no aeroporto e até nos despedirmos ao chegarmos ao Brasil. Professoras e bancários aposentados e um estudante, que grupo legal!

IMPRESSÕES GERAIS

Ao longo de algumas postagens, tanto aqui no blog como no blog de imagens, pretendo refletir um pouco sobre a viagem a Cuba, tanto baseado na experiência dos dias que lá estivemos quanto pelo que já li e estudei a respeito de Cuba e do povo cubano nos últimos meses.

Inicialmente, é preciso registrar algumas impressões gerais que saltam aos olhos ao passarmos alguns dias em Cuba.

Estudantes na Praça da Fraternidade.

A educação em Cuba é uma prioridade absoluta, qualquer pessoa atenta percebe isso ao andar pelo país, seja em Havana, onde ficamos a maior parte dos dias, seja nas demais províncias e cidades do país. Nós conhecemos Trinidad, Santa Clara e Varadero. Em todas elas, pudemos ver as crianças e adolescentes em seus cotidianos de ir e vir à escola, com seus uniformes escolares. É algo lindo.

A professora Maria Leite inicia seu recém-lançado livro Cuba insurgente - Identidade e Educação (2023) contando aos leitores que uma das coisas que mais a impressionaram quando esteve a primeira vez na Ilha nos anos oitenta foi a imagem das crianças uniformizadas em todos os cantos da cidade. Ao ver as fotos que fiz, uma me pareceu muito o que a professora descreveu: as palmeiras reais e o céu azul e as crianças de uniforme escolar...

Outra impressão que se tem logo de início de jornada é a característica do povo cubano de ser um povo altivo, de olhar para a frente, mesmo perante as dificuldades que estão enfrentando por causa do bloqueio unilateral imposto à Ilha pelos Estados Unidos há 6 décadas. É um povo que me lembrou o povo brasileiro de décadas atrás, povo que tem um sorriso fácil, acolhedor, pacífico, que quer viver em paz. Já conheci povos de outros países e alguns me pareceram muito arrogantes. Não é o caso em relação ao povo cubano.

Enfim, essa é a primeira postagem sobre a viagem a Cuba. Eu vinha lendo a respeito de Cuba e do povo cubano desde o início do ano. Fiz algumas postagens sobre leituras feitas. A última pode ser lida aqui.

Talvez eu faça algumas postagens recorrendo o dia a dia que tivemos em Cuba, os roteiros e as cidades que visitamos. Alguns momentos foram de profundo impacto para mim como, por exemplo, o Mausoléu de Ernesto Che Guevara... indescritível! A visita ao Centro Fidel Castro Ruz também, e o Memorial da Denúncia. Vamos aos poucos...

William


Post Scriptum: o texto seguinte pode ser lido aqui.