terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Desacorçoo




Eu vejo o que fizeram com aquele Brasil que ajudei a construir nos últimos 15 ou 20 anos, eu vejo o escárnio dos golpistas, vejo a hipocrisia e o silêncio dos milhões que foram manipulados pelos meios midiáticos, alguns dos milhões são nossos conhecidos, vejo o silêncio e a não-reação daqueles que deveriam estar reagindo, vejo o ódio que passou a ser o sentimento do povo brasileiro independente da faixa etária origem condição social e de crença... e sinto um desacorçoo terrível.

Me agarro as tarefas que tenho que cumprir, me levanto pelas manhãs, e foco na minha missão revolucionária pela saúde dos trabalhadores que represento. Estou tentando viver nesse mundo iníquo e devastado que se chamou Brasil.


William

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Diário e reflexões - 060217



Um sábado choroso.

Já entramos pela madrugada de segunda-feira. Acabou o final de semana em família e vamos para mais uma semana de lutas pela nossa Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, onde estou Diretor de Saúde e Rede de Atendimento, eleito pelos associados.

Foi um final de semana de muita tristeza no coração por causa do falecimento de Dona Marisa, esposa e companheira do Presidente Lula. 

Eu escrevo faz tempo neste Blog a respeito dos receios que tinha ao se iniciar em nosso País um processo de envenenamento do povo por parte dos donos dos meios de comunicação e partidos de oposição aos governos do PT. A direita fascista iniciou um processo de ódio contra Lula, sua família, o Partido dos Trabalhadores, movimentos sociais e a esquerda. Foi aberta a Caixa de Pandora e hoje o ódio toma conta dos brasileiros.

Além de trabalhar como um louco pela Cassi, de forma ininterrupta e com dedicação canina, tenho procurado escrever e ler com um senso de emergência como se o mundo acabasse amanhã. E não há de fato previsibilidade alguma nas leituras de cenários políticos, econômicos e sociais para o próximo período pelo grau de destruição que os golpistas e fascistas estabeleceram no Brasil só por não aceitarem o desejo do povo em eleger pela 4ª vez o PT para presidir o nosso querido País. Avisaram que se o Partido vencesse as eleições de 2014, não governaria. E assim foi feito através de um consórcio de bandidos e fascistas, com apoio dos Estados Unidos.

Estou com uma sede de ler e terminar dezenas de obras que já iniciei a leitura e que nunca consegui acabar por causa de minhas tarefas cotidianas nas lutas sindicais que liderei e participei até 2014 e pela agenda atual na área de gestão em saúde.


Livro aborda os efeitos profundos do
capitalismo flexível sobre o comportamento
da classe trabalhadora nas últimas décadas.

No sábado, terminei a leitura de um livro leve e descontraído, que ganhei de minha esposa em dezembro, Manual Inútil da Televisão (2016), de Paulo Henrique Amorim. Li em três ou quatro sentadas durante a semana que passou.

Neste domingo, peguei com muita firmeza um livro complexo, de leitura densa, do professor de sociologia da Universidade de Nova Iorque, Richard Sennett - A corrosão do caráter, consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo (1998). 

Eu havia começado a leitura do livro em 2012 e até por causa de minha atuação na área de formação da Contraf-CUT, já havia lido algumas partes do livro algumas vezes. Mas nunca tinha lido mais que meio livro. Desta vez, peguei na leitura com decisão de ir até o fim. O ensaio é de muita reflexão e de grande valia para quem atua com pessoas, como é o meu caso. Não consegui escrever a postagem sobre a obra ainda.


Filmes abrem grandes reflexões sobre
o comportamento animal humano.

Outro momento de grande reflexão neste domingo foi assistir com esposa e filho ao filme Planeta dos Macacos: O confronto (2014). Em sequência ao primeiro, que havíamos assistido no domingo anterior - Planeta dos Macacos: A origem (2011). Gosto muito desta série de filmes, já vi todos os anteriores. Os debates e dilemas são muito estimulantes. E atuais.

Eu vou seguir com muita leitura e estudos para buscar esperança nos humanos e na sociedade, porque se eu não fizer isso, o pessimismo da razão me dominará, frente a tudo que vejo de iniquidade, injustiça e miséria humana ao meu redor.

Não tem sido fácil retomar as corridas, mas no sábado e no domingo, coloquei tênis e saí para uns trotes nas alamedas e no Eixão.

É isso, vamos dormir para iniciar uma semana de lutas pela Cassi, pelo modelo de saúde que defendemos e pelos direitos dos associados que representamos. Eu me esforço para que minhas atitudes sejam sempre o reflexo do que espero de comportamento das pessoas na sociedade humana.

William

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Leitura: Manual Inútil da Televisão (2016) - Paulo Henrique Amorim





"Esse Conselho não vai se instalar.
Se for instalado, não vai funcionar."
"Por quê?", perguntei.
"Porque a Globo não quer."
Antonio Carlos Magalhães sobre
o Conselho de Comunicação Social
para vigiar a televisão, criado pela
Constituição de 1988.
Instalou-se.
E não funcionou.

(Manual Inútil da Televisão, PHA)


Refeição Cultural

Hoje é um dia triste. Esta semana foi uma semana de tristeza. Neste sábado, Dona Marisa Letícia Lula da Silva foi velada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Faleceu em decorrência de um AVC hemorrágico. Seu companheiro de décadas de lutas pelo povo e pelo Brasil, o ex-metalúrgico e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, nosso eterno Presidente, em ato de grandeza e em defesa da vida, autorizou a doação dos órgãos de Dona Marisa.

O Brasil está hoje sob estado de exceção após golpe de Estado em 2016. Estamos vivendo tempos de tristeza, de sofrimento e de pouca esperança para a classe trabalhadora e para o povo que não se situa naquele seleto grupo de pouco mais de 1% de humanos que detém os poderes do mundo. Humanos capitalistas que detêm as riquezas, as propriedades, as empresas, os meios de produção e de manipulação de massas, detêm o poder do Estado Nacional porque seus capitães do mato estão instalados nos espaços institucionais das estruturas estatais - poderes executivo, legislativo e judiciário. Os tempos são de iniquidades contra o povo, os 99%.

Tenho tentado transitar pela vida buscando estratégias para lidar com o sofrimento psicológico e a dor que adoecem as pessoas que pertencem às lutas coletivas e populares em defesa de um mundo com mais igualdade, justiça distributiva, um mundo com valores mais humanistas, com maior liberdade e tolerância às diferenças, um mundo organizado para a solução pacífica das controvérsias e não pela guerra e extermínio do outro. Pertenço a esta pequena parcela das populações, pessoas militantes que se envolvem com lutas sociais. Que se importam e buscam mudar as realidades através de atitudes e ações. 

O conhecimento e a politização dos cidadãos ao mesmo tempo nos liberta da alienação causada pela ideologia da classe dominante, quanto nos causa sofrimento e dor ao ver tanta iniquidade e manipulação de nossos pares da classe trabalhadora e perceber que somos, muitas vezes, impotentes em não conseguir mudar a realidade.

Estou há quinze anos atuando em nome da classe trabalhadora como representante eleito em algum espaço social.



Ler e buscar o conhecimento segue sendo uma ação libertadora para o ser humano

Uma das estratégias que continuo adotando para atuar como representante de trabalhadores e como cidadão consciente e não alienado politicamente é ler, estudar, buscar bons autores e boas referências para ampliar o nível de conhecimento técnico, em nossa área de atuação, e político, buscando conhecimento laico e não estreito numa única área de saber, para não ser uma pessoa monotemática.

Acabei de ler meu primeiro livro de fevereiro, do jornalista Paulo Henrique Amorim - Manual Inútil da Televisão e outros bichos curiosos (2016). Ganhei o livro de presente de minha esposa em dezembro e entrou na lista de leituras gerais para este ano. A leitura é leve e tenho conhecimento de quase tudo que PHA nos conta em seus mais de quarenta anos de carreira. Conheço a maior parte das coisas por causa de minha atuação como cidadão político há quase duas décadas.

Mas soube de coisas novas do mundo do 4º poder, o poder que acaba sendo o poder único, maior, porque os meios midiáticos e a tecnologia da informação conseguiram dar o poder a poucas pessoas no mundo, de forma diversa de outros séculos e de outras histórias da humanidade. Algumas pessoas detêm todo o poder de informação, e acabam manipulando as massas pela concentração dos meios materiais e provedores de comunicação mundial. Vejam o poder dos irmãos Marinho, das famílias Civita, Mesquita e Frias. Eles são donos das pautas e dos desejos do povo brasileiro. Alguém pode discordar, mas eles mandam no seu desejo, mesmo que você tente evitar.

Em janeiro, mês que estive em férias, consegui ler muito, finalizar alguns livros e ler inteiro outros. Isso foi importante e sem dúvida tem algum efeito positivo sobre o meu ser. Nem que seja para eu poder manter a chama de minha consciência sobre o meu papel social e participante daquele pequeno grupo que citei acima, o dos voluntários e militantes sociais de causas coletivas e populares.

1. LTI A Linguagem do 3º Reich, 1947, do alemão Victor Klemperer

2. Fausto, 1770-1831, do alemão Goethe

3. O Rio, 1953, de João Cabral de Melo Neto

4. O sol também se levanta, 1926, do americano E. Hemingway

5. Mar morto, 1936, de Jorge Amado

6. Libertinagem, 1930, de Manuel Bandeira

7. Estrela da manhã, 1936, de Manuel Bandeira

8. Memorial de Aires, 1908, de Machado de Assis

9. Discurso da servidão voluntária, s. VXI, do francês Étienne de La Boétie

10. Paisagens com figuras, 1954/55, de João Cabral de Melo Neto

11. Morte e vida severina, 1954/55, de João Cabral de Melo Neto

12. Uma faca só lâmina, 1955, João Cabral de Melo Neto


Foram leituras muito enriquecedoras para este cidadão que vos fala.

Seguimos lendo e buscando esperanças para as ações, apesar do pessimismo da razão.

William

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Artigo: 'Marisa e Lula', de Saul Leblon


Apresentação do Blog:

Hoje faleceu Dona Marisa Letícia Lula da Silva, em consequência de um AVC. Eu estou deprimido para escrever. Estou com raiva. O que mais odeio no mundo dos humanos é a injustiça e a ingratidão.

Apresento, então, um texto do Saul Leblon, escrito ainda enquanto Dona Marisa lutava pela vida, e com uma entrevista dela em 2002.

O Presidente Lula e sua família, assim como outras lideranças brasileiras do campo democrático popular, estão passando por um processo de perseguição e massacre avassalador por parte dos golpistas (bando de fascistas), que derrubaram o governo de Dilma Rousseff. 

Os principais agentes de todo o processo de golpe e destruição da democracia e do País são os empresários donos dos meios de comunicação monopolizados, liderados pelos irmãos Marinho. Junto com eles, parte da Justiça brasileira e os agentes da política partidária de oposição ao PT.

Não vou entrar no mérito sobre as causas do AVC de Dona Marisa. Mas entendo que o corpo humano tem limites de resistência a grandes cargas de pressão, assédio, sofrimentos, excessos diversos. Somos apenas humanos.

Toda a minha solidariedade ao querido companheiro Lula e família.

Dona Marisa, presente!

William


(Artigo de Saul Leblon, do site Carta Maior)

Aos 25 anos, Marisa abriu a porta de sua casa a uma visitante ilustre, para nunca mais fechá-la: a luta por um Brasil mais justo



Chegará o dia em que o enredo pronto que existe dentro da legenda ‘Marisa e Lula’ merecerá o olhar de um cineasta brasileiro.

Um diretor atento a um Brasil contra o qual a mídia sempre manteve, e intensificou, uma relação depreciativa, mais belicosa e obsessiva que a dispensada agora aos veículos de comunicação por Trump, enxergará neles a personificação de um dos períodos mais generosos e vitais da vida nacional.

O improvável revestirá os passos iniciais na trajetória deste casal de trabalhadores no maior polo industrial do Brasil.

Um homem e uma mulher de origem simples, jovens mas viúvos, apetrechados no máximo de um cristianismo ingênuo a revestir a luta pela sobrevivência, um dia abriram a porta de sua casa a uma visitante ilustre, para nunca mais fechá-la.

Era a história.

E ela os arrebatou.

Surpreendentemente, porém, e nisso reside o magnetismo da trama há léguas de ser uma fábula de seres perfeitos, também foi arrebatada por eles, com todos os riscos inerentes a uma coisa e outra num dos períodos mais turbulento da vida nacional.

Estamos no Brasil de 1974, em plena ditadura militar.

Nesse enredo de carne e osso as cenas se desenrolam quase prontas aos olhos de quem quiser enxerga-las.

É uma história de resistência e luta, de coragem e medo, curtida em derrotas e superação, temperada de doses de grandezas e fraquezas, cuja soma conflituosa afronta a prateleira do previsível e do edulcorado para arrombar a fronteira que dividia o passo seguinte do país.

Contra todas as probabilidades eles não foram derrotados pela avalanche que recobriria seu destino pelo resto da vida.

Marisa e Lula afrontaram a hierarquia inoxidável do mundo burguês, patronal e conservador e também do universo pequeno burguês no qual poderiam ter se acomodado na ampla sala de estar reservada aos mansos.

Para a surpresa de uns –deles mesmos, talvez-- e horror de outros, lograram tomar as rédeas do cavalo xucro da história que passou na sua frente, mudando a direção dele e o enredo de suas vidas

Estão juntos há 43 anos assim. Sem parar o trote agalopado.

Um ano depois de se casarem, em 1975, Lula seria eleito presidente do mais estratégico sindicato de trabalhadores do país, inserido no maior polo automobilístico da América Latina.

Lula assumiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo quando o general Geisel era o ditador do Brasil.

O país ingressava num ciclo vertiginoso de luta por democracia e de levantes operários contra o arrocho econômico e sindical.

O ABC era o coração da impaciência operária. Mas a opressão patronal assegurada pelos militares empurrava velozmente a reivindicação salarial para a confrontação política.

Não era o que eles preconcebiam. Longe disso. Mas era o que se impunha como um efeito dominó a cada passo do embate.

Pois bem, Marisa e Lula não se deixaram encurralar pelos repetidos chamados do toque de recolher que dispara na vida de um casal nas situações de perigo que ameaçam o teto e a prole.

Logo, muito logo, nas mãos de Lula, o sindicato dos metalúrgicos ficaria nacionalmente conhecido como uma das principais fortalezas da frente ampla de luta por liberdades democráticas que se esparramava pelo país irradiando a audiência da voz rouca do mar ao sertão.

As ruas eram uma extensão dessa consciência que se adensava contra o que não era mais tolerável, a censura, a tortura, a repressão, o arrocho, enfim, a interdição do futuro na vida de uma nação.

O lar de Marisa, 25 anos, e Lula, 30 anos, foi arrebatado por esse turbilhão da história que entrou pela sala, logo estava na cozinha tomando sopa de madrugada, esparramou colchonetes e fez dali um acampamento de prontidão permanente por democracia e justiça social.

Era assim a casa de Marisa recém-casada.

Ou melhor, a casa da senhora hoje com 66 anos e uma hemorragia cerebral -- que respira por aparelhos na UTI de um hospital, em cuja entrada o ódio escarnece de seu drama e ergue cartazes em que pede a prisão de seu marido.

Sua casa tornou-se uma arriscada trincheira da luta por democracia e justiça social, num tempo em que erguer cartazes por democracia e justiça social dava cadeia, não raro, pancada e tortura.

O lar dessa senhora em coma induzido era um gigantesco cartaz de audácia operária na noite do Brasil.

O filme à espera de um diretor abriria com a leitura vagarosa dos estandartes de ódio, solitários, mas exclamativos de um sentimento incontido das elites e do seu entorno contra tudo o que se refira àquela casa, à mulher e ao homem que a partir dela os desafiou e venceu.

No ambiente frio da UTI desta São Paulo cinzenta de janeiro de 2017, o silêncio só é entrecortado pelos equipamentos que monitoram o metabolismo fragilizado pelo aneurisma rompido.

O boletim médico informa que o quadro da paciente Marisa Letícia é estável.

O que se luta para preservar ali, porém, é justamente algo que se mexe como a história e que por se mexer opõe-se ao cerco que pretende afoga-lo numa grande hemorragia de demonização e esquecimento.

O alvo é certeiro.

A memória é um pedaço do futuro.

A daquele período, sobretudo preciosa para o presente.

Não apenas para entender o Brasil atual, a partir dos protagonistas ora capturados pela máquina avassaladora de picar e reconstruir reputações e legados deformando-os.

Não só para repor o que está sendo lixiviado, sangrado diariamente na mídia.

Mas ela, a memória, também é crucial para repor o orgulho, a credibilidade, a confiança e, sobretudo, a faísca capaz de religar a esperança que respirava naquela casa onde brotariam as sementes do país que trinta anos depois vicejaria.

Esse que está sendo ceifado agora com rancor inaudito, um Brasil que ainda não somos, mas que poderemos ser no século XXI.

A metamorfose do improvável nas ruas do país naqueles primórdios contradiz o impossível hoje elevado à condição de permanente.

Não é hagiografia filmada.

É uma história real, de gente de carne e osso.

Que se entregou sem se perguntar onde era a porta de saída de volta à rotina, e o fez de peito aberto, pondo na mesa empregos, filhos, o presente e o futuro, numa aposta contra o estabelecido, com os riscos e a violência sabidos.

Gente comum se agiganta em circunstancias incomuns, ao não recuar diante delas.

Esse resgate feito de carne e osso é indispensável para repor a grandeza e as fraquezas da carne e do osso humano na fricção da história brasileira hoje sufocada pela mentira e o ódio.

Carta Maior recuperou uma das raras entrevistas em que a personagem que hoje luta pela vida em uma UTI, assim como lutou pela sua e a de milhões nesses 43 anos, rememora o seu olhar sobre os acontecimentos desse início, cujo epílogo persiste em disputa.

A resistência ao esquecimento é um pedaço dessa disputa.

A entrevista é de 2002, feita durante a campanha que levaria o PT pela primeira vez ao governo.

É atual porque devolve a Marisa o direito de se proteger daquilo que os indígenas mais temem diante de uma câmera: o roubo de alma.

Da alma da mulher que ia visitar o marido preso pela polícia política da ditadura sem fraquejar nem lhe pedir que fraquejasse; da esposa e mãe, sozinha, que, ao contrário de todos os prognósticos, quando o sensato era recuar e sumir, abriu a casa para ser o sindicato quando os três sindicatos de metalúrgicos do ABC sofreram intervenção na grande greve de 1979, coroada pelas lendárias assembleias de 60 mil pessoas no estádio da Vila Euclides; a alma da mulher que organizou com outras mães e esposas uma audaciosa passeata de mulheres e filhos em uma São Bernardo tomada por tropas da repressão, em defesa dos maridos, dos operários e sindicalistas presos; a alma da Marisa que costurou a primeira bandeira do PT; e que se politizou assim, como protagonista de uma história feita com as próprias mãos, sobre a qual nem ela, nem ele, Lula, jamais seriam convidados a opinar se ficassem esperando o convite dos que agora tomaram de assalto a engrenagem e a reescrevem com fel, ferro e fogo.

Repita-se, não é uma elegia à pureza dos oprimidos.

É um enredo de luta entre opressores e oprimidos.

Nessa fricção, virtudes e defeitos se misturaram na implacável máquina de mastigação que é a experiência da política e do poder no capitalismo que eles encararam sem se despir da única armadura que sempre os acompanhou: a consciência de que viver é lutar.

A memória da senhora de 66 anos que hoje trava a batalha pela vida não vale pelo saldo de pureza que ela até possa externar.

Vale pelo legado desse percurso inconcluso.

Feito de instituições e direitos que ajudou a demarcar.

E de possibilidades que contribuiu para esboçar na vida brasileira.

É nesse legado que repousa a possibilidade deste país de presos degolados se tornar um dia uma sociedade virtuosa.

Pautada em pedra e cal por direitos entre iguais e por democracia entre diferentes, que só pode ser democracia se for levada às últimas consequências na repartição do bem comum.

Inclusive para garantir a expressão de quem hoje se posta diante do hospital onde Marisa e Lula travam a batalha de vida e morte para persistirem nessa busca.

E ali destilar a represália dos que rugem contra o enredo de filme à procura de um diretor que se desata aos nossos olhos à simples menção da legenda indivisa: ‘Marisa e Lula’.


Abaixo, a entrevista de Marisa Letícia ao site da campanha do PT de 2002.

(...)

Para Marisa Letícia Lula da Silva, 52 anos, esposa de Luiz Inácio Lula da Silva, 57, o candidato a presidente pela Coligação PT-PL-PCdoB-PC -PMN, a casa nunca foi apenas o refúgio familiar, mas também um ponto de intersecção de alguns dos fatos políticos mais importantes que mudariam a face do Brasil nas últimas três décadas.

As greves do ABC, a repressão do regime militar, a luta pelas Diretas, a fundação do PT e as campanhas presidenciais do marido ganharam as ruas e viraram História, mas antes atravessaram a soleira da porta e transitaram pela sala e a cozinha de Marisa. Em 1975, com um ano de casamento, Lula chegou à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP). Três anos depois, começaria o ciclo histórico de greves no ABC paulista.

A política incorporou-se assim a sua vida como algo natural, quase uma extensão da rotina doméstica frequentemente adaptada para abrir novos espaços à mesa do almoço, ou receber visitantes que desde os anos 70 passaram a ter na casa do líder metalúrgico um ponto de referência nacional.

Lá estiveram senadores, deputados, vereadores, personalidades de todos os matizes. Alguns se incorporaram à família definitivamente. Frei Betto, por exemplo, cansou de dormir no chão da sala durante as greves metalúrgicas dos anos 78/80, designado especialmente pelo então Bispo de Santo André, Dom Cláudio Hummes, hoje arcebispo de São Paulo, para ajudar na segurança de Lula.

Tornar-se a primeira-dama, a partir de 1 de janeiro, portanto, é uma hipótese que não chega a sobressaltar essa neta de italianos, mãe de quatro filhos, avó de dois netos, que começou a ganhar a vida muito cedo.

Aos nove anos Marisa já trabalhava como pajem; aos 13, ainda sem carteira regular de trabalho, empregou-se na fábrica de chocolates Dulcora, em São Bernardo, onde ficou até os 21 anos.

Casada, tornou-se funcionária da rede municipal de ensino, que deixou para cuidar dos filhos.

Nem sempre, porém, o trânsito do país para dentro da casa foi tranquilo. Na greve de abril de 1980, Marisa e Lula acordaram sobressaltados pelos gritos dos agentes do Dops -Departamento de Ordem Política e Social.

Eram cinco e meia da manhã, ainda estava escuro. A residência cercada por homens de metralhadoras em punho foi despertada por berros no portão: - Cadê o Lula? Viemos buscar o Lula, viemos buscar o Lula.

“Foi terrível, mas mantivemos a tranquilidade. Lembro-me que ele ainda disse --calma, vou tomar um café antes de sair, enquanto eu arrumava a mala”. Lula ficou preso 31 dias, saiu duas vezes nesse intervalo. Uma para visitar a mãe agonizante; outra, para o funeral de dona Lindu.

Diante da crescente exposição pública do marido, Marisa preferiu a discrição aos holofotes. Mas por trás deles ajudou a organizar passeatas de mães e filhos de metalúrgicos, em 1980, quando os líderes estavam presos e o sindicato sob intervenção. Foi ela também que de forma pioneira inaugurou o hábito da participação feminina na vida sindical do ABC. Foi Marisa, ainda, quem cortou e costurou a primeira bandeira do PT --feita em sua casa, claro--, quando da fundação do partido, em fevereiro de 1980.

Hoje, ela tenta preservar um pouco mais a fronteira familiar, pelo menos nos raros fins de semana em que o marido está no apartamento onde residem, em São Bernardo. “Proíbo conversa política e filtro as ligações telefônicas. Notícia ruim, à noite, fica para o dia seguinte”, sentencia com a voz firme mas serena. Mais que simplicidade, seu jeito reflete a maturidade de quem aprendeu na prática que tudo tem um tempo e nada vinga sem esforço. “As coisas foram acontecendo aos poucos na nossa vida, ao longo de anos de luta. A projeção do Lula foi a evolução natural de uma pessoa de muita persistência. Quando quer algo, ele consegue”, diz com conhecimento de causa.

Em 1973, viúva, mãe de um filho do primeiro casamento, ela conheceu de perto a tenacidade do galante diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Foi um namoro rápido. Um cerco telefônico e uma manobra ousada de ocupação do terreno do rival definiram as núpcias, sete meses depois do primeiro encontro.

“Lula chegou em casa um dia e avisou meu namorado que precisava tratar um assunto muito sério comigo. Mandou o sujeito embora --pode?”, balança a cabeça ainda perplexa com a lembrança. Perseverança equivalente ela identifica na sua trajetória política. “Em 1980, quando fui a Brasília pela primeira vez, disse a Lula: eles não vão abandonar o poder nunca. Hoje tenho certeza de que ele vai chegar lá. E espero que faça algo pela juventude --tenho certeza que o fará. A violência me assusta. Quando leio os jornais já nem presto atenção nos nomes, fixo apenas a idade das vítimas. É terrível o que está acontecendo com os jovens no Brasil”, desabafa.


Aqui os principais trechos da sua entrevista

Qual a origem da sua família?

Meus pais são descendentes de italianos. O sobrenome do meu pai é Casa; o da minha mãe, Rocco. Meus avós, tanto do lado paterno, como os do lado materno, conheceram-se no navio vindo da Itália. Conheceram-se no mar, casaram-se em São Bernardo e tiveram vários filhos. Foram posseiros e para não dividir as terras faziam casamentos entre eles, algo que naquele tempo era normal. Tenho várias primas-irmãs: os irmãos de meu pai casavam-se com as irmãs de minha mãe e vice-versa.

Em que bairro eles moravam?

Atualmente chama-se bairro dos Casa, em São Bernardo do Campo, antigo sítio dos Casa, onde meu avô fez a capela de Santo Antônio, que está lá até hoje. A maioria dos irmãos do meu pai chama-se Antônio; os de minha mãe também; o meu avô, idem.

Eles plantavam o quê?

De tudo um pouco. Batata doce, batatinha, milho. Tinha gado, tinha galinha, pato. Saí do sítio com cinco anos de idade.

Vocês são em quantos irmãos?

Minha mãe teve quinze filhos. Três morreram ao nascer. Vivos, hoje, somos em nove. Mamãe trabalhava na lavoura, os maiores ajudavam e os menores ficavam num chiqueirinho cavado na terra. Minha mãe deixava a gente ali dentro, para não fugir. Eu tinha uns dois ou três anos. Sou a penúltima dos irmãos. Tenho irmã que poderia ser minha mãe, pela diferença de idade.

Qual é o nome dos seus pais?

Regina Rocco Casa e Antonio João Casa.

Foi uma infância difícil?

Não, em casa tinha fartura. Como minha mãe plantava e colhia e também tinha criação, nunca ninguém passou fome. Ela fazia aquela galinhada, galinha com polenta para o jantar ou a minnestra, um caldo de feijão com muito legume, arroz, carne...

Vocês frequentavam a cidade?

A gente só saía para ir a capela. A cidade era longe. Só por volta de 1955, quando minhas irmãs mais velhas começaram a trabalhar nas tecelagens a gente saiu do sítio, aí em definitivo. Meus irmãos também estavam buscando emprego nas fábricas de móveis. Mudamos para o bairro Assunção. Meu pai comprou uma casa muito grande, com quintal onde ele continuou criando seu porquinho, galinha, horta. Ficou sempre nessa vida. Mas ainda não tínhamos luz, a água era de poço. Minha mãe cozinhava no fogão à lenha. Foi nessa época que comecei a estudar, numa escolinha de madeira. Só na terceira série é que fui para um colégio no centro, o Grupo Escolar Maria Iracema Munhoz.

Qual era teu sonho de vida?

Eu queria dar aula, gostava muito de criança. Meu pai achava que mulher tinha que aprender a lavar, cozinhar e costurar. Educação rígida, à antiga. Aos nove anos as meninas começavam a ajudar dentro de casa. Eu não gostava muito dessas coisas, mas fiz cursinhos de corte e costura, culinária...

Você começou a trabalhar com que idade?

Aos nove anos. Fui ser pajem dos filhos do sobrinho do Cândido Portinari, um dentista muito famoso em São Bernardo, o Jaime Portinari. Ele tinha três filhas. Eu tomava conta dessas meninas porque a mãe dava aula. Ela trabalhava à tarde e eu estudava de manhã, as duas no mesmo colégio. Depois nasceu mais uma menina e eu com nove anos tomava conta de uma recém-nascida. Morava nesse emprego, dormia lá.

Ficou muito tempo?

Saí mocinha para trabalhar em fábrica, na Fábrica de Chocolates Dulcora. Tinha 13 anos. Foi necessário tirar uma carteira especial de menor, com autorização do pai. Tenho essa carteira até hoje. Depois, com 14 anos, você já tirava a carteira normalmente. Eu comecei como embaladora de bombom alpino.

Como era para você trabalhar assim tão criança?

Sempre gostei de ser útil, adorava isso. Era um sonho trabalhar fora, ter o próprio dinheirinho. Fazia com prazer, mas hoje tenho consciência de que lugar de criança é mesmo na escola, com tempo para brincar e aprender. Trabalhei na Dulcora oito anos. Saí para casar.

Seus pais eram bravos?

Meu pai era muito enérgico, minha mãe contornava as coisas. Mas namorar não podia, imagine! Minha mãe inventava historinhas para a gente poder sair, mas era difícil. Das irmãs eu era a mais rebelde. Gostava de participar de tudo, reuniões, centro cívico, festinhas de igreja, meu pai não deixava...

E para namorar?

Namorar naquela época era bate-papo, dava a mão, ele levava você até a esquina de casa e ponto.

Você tem alguma lembrança política dessa época?

Não, nenhuma. A gente não tinha televisão e meu pai proibia falar de política dentro de casa. Ele não gostava. Nunca comentou o porquê. A gente sabia é que os avós tinham passado momentos difíceis na Itália, vieram fugidos por causa de política e proibiam de falar no assunto. Meu pai seguiu a regra. Televisão em casa só entrou quando eu já era bem mocinha. Mas nós ainda rezávamos toda tarde, às seis horas. Paquera então, só longe de casa, na Marechal Deodoro (rua central de São Bernardo), logo após o cinema, à tarde. Comprava-se pipoca e depois era sobe e desce a Deodoro...

Com que idade você teve o seu primeiro casamento?

Casei com o primeiro namorado, o Marcos, aos 19 anos. Casei e continuei trabalhando. Só saí da Dulcora quando engravidei. Marcos era motorista de caminhão, transportava areia. Como a gente queria comprar casa própria, ele pegava o táxi do pai, que só trabalhava à noite, para fazer bicos à tarde e nos fim de semana. Ficamos casados apenas seis meses. Marcos foi assassinado quando eu estava grávida de quatro meses. Trabalhava com o táxi num domingo à tarde quando foi assaltado e morto. Meus sogros queriam demais essa criança, aí praticamente me adotaram. Fiquei morando com eles até o Marcos completar um aninho. Então fui trabalhar num colégio de Estado, como inspetora e substituta, mas contratada pela prefeitura. Aí voltei para a casa de minha mãe, porque ela tinha mais tempo para tomar conta do nenê, enquanto eu estivesse no serviço.

Como você conheceu o Lula?

Eu recebia uma pensão de viúva. Naquela época você tinha que passar em qualquer sindicato para recolher um carimbo e depois receber no INPS. Costumava ir ao sindicato dos marceneiros. Mas houve umas mudanças de local e a sede dos metalúrgicos passou a ficar mais perto para mim. Foi assim que conheci o Lula, que trabalhava no Serviço de Assistência Social do sindicato.

O Lula já conhecia seu sogro?

É o que ele conta. Diz que eles se conheciam porque tomava o táxi do seu Cândido às vezes. Os dois conversavam sobre a nora viúva etc, mas ele não me conhecia, nem houve nenhum arranjo para esse encontro entre nós. Foi pura coincidência a ida ao sindicato.

Ele atendeu você?

Não, foi um menino, um mocinho chamado Luisinho. Expliquei que precisava do carimbo para receber a pensão. Diz o Lula que já havia avisado a esse rapaz: assim que chegasse uma viuvinha nova, era para chamá-lo porque ele também era viúvo (a primeira esposa de Lula, Maria de Lurdes, operária tecelã, faleceu grávida e o filho também morreu).

O tal Luisinho chamou mesmo o Lula?

Exato. Inventou que o carimbo estava com um probleminha, foi lá dentro e quem voltou foi o Lula. Chegou e já senti que havia algo diferente. Percebi logo, porque nunca precisou tanta cerimônia para receber uma pensão que eu já tinha há três anos. O Lula disse que havia mudado a lei, eu teria que deixar o carnê para renovar etc... E pediu meu telefone. Caí que nem uma bobinha. Trabalhava na secretaria de uma escola na época. Desse dia em diante o telefone não parou mais de tocar.

E você não atendia?

Um dia atendi. Ele disse que já podia passar para assinar a papelada. Cheguei, começou tudo de novo. Senta um pouquinho; vou te explicar; aquele papo... Vamos tomar um cafezinho? Foi nessa hora que deixou cair a carteirinha do sindicato e falou: tá vendo, eu também sou viúvo. Respondi: ah é?

Nenhuma simpatia nesse primeiro contato?

Não, naquele tempo, o que uma mulher mais queria na vida era casar e ter um filho. Eu já tinha passado por essa experiência. Mas ele não desisitiu. Telefonava, insistia, por fim, marcamos um almoço no São Judas, no bairro Demarchi (tradicional restaurante do ABC).

O Lula sabia que você era nora do tal chofer de táxi?

Ele diz que ficou desconfiado, porque as histórias batiam. Mas foi tudo coincidência. Jamais foi montado um encontro.

E o namoro como começou?

Eu já tinha um namorado, vizinho da família que eu conhecia desde criança. Uma coisa assim descompromissada. Mas o Lula não queria saber. Um dia descobriu a minha rua. Chegou com um TL azul turquesa. Viu uma senhora, pediu informações. Era justamente minha mãe. Eu estava tomando banho para encontrar o namorado. Quando saio, quem está lá com a minha mãe? O Lula. Pedi que fosse embora porque tinha um compromisso, mas ele só deu uma voltinha com o TL e retornou. Chegou e foi logo dizendo para o meu namorado dar licença, que tinha assunto muito sério a tratar comigo. Mandou o cara embora. Pode? Aí já havia conquistado a simpatia de minha mãe porque era um sujeito mais alegre, mais dado que o outro. Ela ofereceu um aperitivo, o Lula entrou e, bom, tive que acabar o namoro porque ele já não saía mais de casa...

Casaram-se rápido?

Depois de sete meses. Mas não casei grávida não (risos). O Fábio, meu primeiro filho com o Lula, nasceu com nove meses e nove dias depois do casamento. Depois, com um ano de casado, em 1975, ele ganhou a eleição para a presidência do sindicato dos metalúrgicos.

Como foi essa coisa de ele virar uma figura pública?

Eu não estranhei muito porque, como disse, comecei a acompanhá-lo. Levava as esposas dos trabalhadores, organizava festas, projetos sociais. Passamos a reivindicar a presença de mulheres nas chapas. Então foi uma evolução junto.

E quando começam as greves, veio o medo?

Medo a gente sempre tem um pouquinho. Mas o dia a dia vai mostrando tanta força que muitas vezes você se pergunta: será que eu fiz isso mesmo? Por exemplo, nós fizemos aquela passeata das mulheres em 1980, quando os dirigentes sindicais estavam todos presos. Hoje, você pensa, parece uma loucura. Encheu de polícia. Os homens queriam dar apoio, mas nós dissemos, não, e saímos. Fizemos só com as mulheres. Botei as crianças na rua, meus filhos no meio daquela multidão, polícia para tudo quanto é lado.

Como era para eles ver o pai na televisão?

Tive que fazer um trabalho com isso mas acho que ficaram com uma cabeça boa. As coisas foram acontecendo aos poucos, fomos nos adaptando. Quando ele aparecia na tevê eu brincava com os meninos: querem ver seu pai, olha ele aí, porque eles já quase não viam mais o pai.

Você virou mãe e pai?

É, mas foi tranquilo. Tinha reunião de pais na escola, lá ia eu. Tinha joguinho dos pais, lá ia a mãe. Não tinha problema, eu sabia que era importante.

A sua casa também virou uma sucursal do sindicato?

Virou mesmo. Em 1980, tomaram o sindicato da gente com a intervenção. Não tínhamos para onde ir. Desocupei a sala da frente e disse: pronto, aqui é o sindicato. E a secretária era eu. Vinham políticos, almoçavam, alguns dormiam lá em casa. Depois, montamos um fundo de greve na Igreja, para arrecadação de alimentos. Aí desconcentrou um pouco. Quem ajudou muito nessa época foi Dom Cláudio Hummes, que era bispo de Santo André e hoje é arcebispo de São Paulo.

Vocês acabaram conhecendo muita gente nesse processo. O Fernando Henrique Cardoso também?

Sim, sim, em 1978 quando ele foi candidato ao Senado, o Lula apoiou, demos o maior apoio a ele. Foi nessa época também que conhecemos os deputados do PMDB, Suplicy, Geraldinho Siqueira, Sérgio dos Santos... Mas a gente ficava com um pezinho atrás, porque nós éramos sindicalistas e eles, políticos.

E a prisão do Lula, em 1980?

Nossa casa estava cercada há muito tempo. Policiais na esquina, gente rondando à noite. Eu tinha um pouco de medo pelas crianças. Mas tinha consciência de que estávamos mudando alguma coisa importante. Depois, o irmão do Lula, o Frei Chico, já havia sido preso. Preso político. Fomos visitá-lo, conversamos muito. Aquilo tudo foi deixando um sentimento de revolta em mim. Eu sabia que era preciso mudar. E para mudar alguém tinha que enfrentar aquela situação porque se ficasse pensando como meu pai, que não queria nada com política, as coisas não sairiam do lugar nunca.

Quando o Lula decolou como liderança, o que você sentiu?

Achei que era isso mesmo, um momento importante, algo que alguém precisava assumir. Tinha orgulho. Mas também sentia falta dele, claro, sentia falta de ter alguém com quem conversar, discutir...

E a prisão?

Então, a casa estava cercada há várias semanas. Frei Betto, Geraldinho Siqueira, o Jacó Bittar, o Olívio Dutra e vários outros dormiam lá para nos dar alguma cobertura.

Como é que vocês conheceram o Frei Betto?

Olha, foi até gozado. Um dia o Lula avisou: vem um frei almoçar aqui. Para mim, tudo bem, almoçava tanta gente lá que não fazia diferença. Come o que tem. O Lula precisou sair e lá pelas tantas me aparece na porta um jovem. Eu estava esperando um frei, com aquela bata, chinelo, um velhinho, enfim, com roupa toda marrom. Então me aparece um rapazinho e diz: ---Sou o frei Betto, trouxe uma pasta para o almoço. Respondi brincando: você pensa que nesta casa não tem comida? Somos grandes amigos até hoje.

E quando a polícia chegou?

Bom, primeiro, ligaram dizendo que o motorista do deputado Geraldinho Siqueira havia sumido. Saiu para buscar jornais e sumiu. Fomos dormir. Cedinho bateram no portão. Era umas cinco e meia. Tudo escuro. Frei Betto atendeu -Cadê o Lula, nós vamos levar o Lula, nós vamos levar o Lula.... Um bando de homens armados de metralhadora com uma Veraneio que fechou a saída da garagem, onde ficava o nosso Fiat. Meu quarto dava para a rua. Acordei assustada, chamei - Lula, Lula, estão aí atrás de você.

E ele, apavorou?

Nada. Falou exatamente assim - Calma, calma, vou tomar meu café, trocar de roupa, manda esperar. Eu queria que o Frei Betto e o Geraldinho acompanhassem a viatura, mas eles já tinham prendido o motorista do deputado justamente por isso. E barraram a saída do nosso Fiat. Foi uma cena horrorosa, metralhadoras para tudo quanto é lado, mas as crianças não acordaram, graças a Deus. Pegaram o Lula, enfiaram dentro do carro e sumiram. Não falaram nada, na-da. A gente não sabia para onde o levariam. Até o Fiatizinho esquentar, já tinham desaparecido. Então começamos a ligar para Deus e o mundo, e descobrimos que estava no DOPS. Ele e vários outros. Foram pegando todo mundo da diretoria do sindicato.

Lula tomou o tal café?

Tomou, trocou de roupa...

E as crianças?

Não falei sobre a prisão num primeiro momento. Dei um tempo em banho-maria, depois expliquei devagarzinho, direitinho para não assustar. Mas eu tive problemas com o mais velho na escola. O Marcos se recusava a ir à aula. Quando fui saber, eram colegas que acusavam: seu pai é bandido. Está preso, é bandido. O Marcos sentava lá na frente, eles jogavam aviãozinho dizendo essas coisas. Acabei permitindo que ele se afastasse por um tempo, o que o levou perder o ano letivo. No semestre seguinte fui à escola e falei com a diretora. Expliquei o que havia acontecido e disse que elas deveriam esclarecer as crianças. Esse tipo de preconceito não podia continuar. Só então o Marcos voltou aos estudos.

O Marcos era filho do seu primeiro casamento?

É. Eu o ensinei a chamar o Lula de tio, mas ele preferia pai mesmo. Aos nove anos, disse ao Lula que queria ter o mesmo sobrenome dele. E o Lula assumiu isso legalmente com alegria, com a maior satisfação. Hoje ele é Marcos Cláudio Lula da Silva.

Nesse período da prisão morreu a mãe do Lula?

Ela já estava muito mal, com câncer, queria ver o filho. Nós conseguimos que o Lula saísse uma vez da prisão, antes da morte, coisa que pouca gente sabe. Convencemos o Romeu Tuma (diretor do Dops na ápoca) a permitir essa visita. Depois, ele voltou para o velório. Saí do Dops com o Lula. Mas quando chegamos ao enterro os trabalhadores cercaram o carro da polícia. Estavam revoltados. Lula pedia calma. Mas os operários haviam parado as fábricas, eram ônibus e ônibus que chegavam, uma situação tensa, de nervos à flor-da-pele, que exigiu muita habilidade e liderança do Lula.

As crianças foram visitar o pai no Dops?

Foram. Preparei os meninos. Expliquei como era para eles não terem medo. Disse que tinha polícia, mas que o papai estava bem, contei sobre o lugar, enfim, tentei evitar surpresas que assustassem uma criança. Quando chegamos, o Tuma disse: --Olha, dona Marisa, é melhor a senhora ir para a minha sala com as crianças que eu vou buscar o Lula. Quando ele apareceu na porta, o Fábio pensou que a cela era ali e falou -- Papai você não tá preso, você tá num hotel! Tinha quatro aninhos.

Quando você ouviu falar em PT pela primeira vez?

Nesse tempo a discussão já havia começado, em pequenos grupos, lá em casa. No início, muitos políticos diziam: Lula, para que criar outro partido, basta entrar num dos que já existem. Mas ele respondia: quero criar um partido diferente de todos, um partido dos trabalhadores. A primeira bandeira do PT eu é que fiz.

Como é essa história?

Eu tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte guardado há muito tempo. Costurei a estrela branca no fundo vermelho. Ficou lindo. A gente não tinha núcleo, não tinha nada. Minha casa era o centro. Começamos então a estampar camisetas para arrecadar fundos. Vendíamos uma para comprar duas. Estampava a estrelinha, vendia, comprava mais. Foi assim que começou o PT.

Você se lembra da primeira vez em que se falou de Lula na Presidência?

Em 1980, Lula foi julgado no Superior Tribunal Militar, em Brasília. Foi a primeira vez que visitei a capital. Fizemos um passeio e o guia foi mostrando as mansões, aquela ostentação toda. Quando acabou eu disse - Lula, vamos parar com tudo isso: esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca. Eles não vão largar isso aqui jamais. Fazem qualquer coisa, mas não abandonam essa vida...

Você mantém essa opinião?

Não, hoje não mais. O PT cresceu muito e na verdade já começou a mudar o país. Tem prefeituras, tem governos de estado. A mudança começou. Mas ainda vão resistir muito. Vão lutar muito para deixar a gente chegar ao poder. Mas hoje temos chance. O povo está descontente demais. Além do que, existe uma característica do Lula que pesa muito. É algo que vem de berço: o Lula quando quer uma coisa consegue. E ele vai conseguir melhorar esse país. Ele mudou na época da ditadura militar, não mudou?

O que te dá mais medo no Brasil hoje?

A violência. Os nossos jovens são a principal vítima. Quando leio os jornais já não olho nem nome, nada. Me fixo na idade: uns moleques, viu? Só moleques. É o que me dá mais medo, me dá dó, dá pena. Mas eu sei que se essa juventude tiver a chance de uma escola, uma boa educação e trabalho, o país muda.

Muda. Tenho certeza que muda.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Leitura: Morte e vida severina e outros poemas (1953/55) - João Cabral de Melo Neto





Refeição Cultural

"- Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dentro da vida
ao dar seu primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido..."

(Morte e vida severina)


Pois é amig@s leitores, mal sabia a mulher que chama ao compadre que ele estava conversando com o Severino, mais um severino retirante recém-chegado do sertão, que se questionava sobre viver ou não viver mais a vida severina, quando a própria vida responde a tão difícil questão...

Neste domingo, reli este auto de João Cabral de Melo Neto. Também tive o prazer de conhecer mais três obras dele da mesma década: O Rio (1953), Paisagens com figuras (1954/55) e Uma faca só lâmina (1955). 

Para ver comentário de leitura que fiz em 2014, clique AQUI

O livro foi presente do jovem sindicalista Alex, de Arapoti - PR; estávamos em curso de formação da Contraf-CUT, quando eu era o responsável por aquela missão revolucionária de educar e formar trabalhadores para as lutas sindicais e sociais. 

Foram tempos que me marcaram profundamente, pela convivência com os amigos e amigas do Dieese, com a equipe maravilhosa de dirigentes e funcionários da Confederação, à época liderada pelo grande amigo e companheiro Carlos Cordeiro, e marcante pelo contato formativo com centenas de dirigentes sindicais e assessores de entidades de todo o país.

Amig@s, a leitura desses poemas de João Cabral são estimulantes para aqueles e aquelas que não se acostumaram com a injustiça, a iniquidade e com a miséria social. Esses poemas dão sequência à lógica de La Boétie e seu Discurso da Servidão Voluntária (ler comentário AQUI). 

Nós não temos que aceitar como hábito a desgraça e a injustiça social de um mundo para poucos em detrimento de milhares, milhões e bilhões de pessoas em situação de miséria. Isso não é correto. E o ser humano é livre para se rebelar no instante que quiser.

Para seguir vivendo, só vale a pena se for para não aceitar as coisas erradas como estamos vendo. Oito pessoas terem a metade da riqueza do planeta; mais algumas terem a metade da riqueza do Brasil. Isso é iníquo. Isso não é "natural", normal. Isso é político! Isso não é "técnico".

Enfim, isso é uma questão IDEOLÓGICA! De classe!


"Na estrada da ribeira
até o mar ancho vou.
Lado a lado com gente,
no meu andar sem rumor.
Não é estrada curta,
mas é a estrada melhor,
porque na companhia
de gente é que sempre vou.
Sou viajante calado,
para ouvir histórias bom,
a quem podeis falar
sem que eu tente me interpor;
junto de quem podeis
pensar alto, falar só,
Sempre em qualquer viagem
o rio é o companheiro melhor..."

(O Rio)


Vamos lado a lado, o povo deve se rebelar contra os poucos que estão aí, tiranos instalados na estrutura estatal e na máquina totalitária de comunicação empresarial.

Abraços fraternos e de esperança com atitudes diárias para mudar o estado das coisas iníquas de nosso mundo.

William

sábado, 28 de janeiro de 2017

Livro: Discurso da Servidão Voluntária (s. XVI) - Étienne de La Boétie



Refeição Cultural

"E quando vemos, não cem, não mil homens, mas cem países, mil cidades, um milhão de homens se absterem de atacar aquele que trata a todos como servos e escravos, que nome poderemos dar a isso? Será covardia? Todos os vícios têm naturalmente um limite, além do qual podem passar..." (La Boétie)


Ganhei de presente do amigo Sandro Sedrez, companheiro de lutas em defesa da Cassi, autogestão baseada na Atenção Primária e Estratégia de Saúde da Família, este pequeno livro de Étienne de La Boétie (1530-63) - Discurso da Servidão Voluntária -, obra marcante e de grande influência no mundo da política desde quando começou a circular de forma não oficial já no século XVI, a partir dos anos 1550.

Eu tenho grandes lacunas culturais e literárias. Nunca neguei isso porque somos o resultado do percurso de nossas vidas, e a minha foi de trabalho braçal na infância e adolescência até virar bancário e tive pouca oportunidade de leitura durante vários anos centrais da formação de um jovem. Mesmo assim, sempre corri atrás das leituras nas poucas horas livres que pude ter ao longo da vida subproletária e proletária.

As leituras que faço na minha vida têm origens variadas. Tenho centenas de livros que sonho ler e estudar. Quando dá, pego eles para ler. Tem as leituras que vão sendo obrigatórias por razões diversas. E tem as leituras que aparecem pela convivência em sociedade. Agora, conheço mais uma obra clássica, que influenciou a forma de pensar das sociedades contemporâneas ocidentais.

Eu comparo esta obra em importância e influência a outras como Utopia (1516), do inglês Thomas More (ler comentário AQUI) e O Príncipe (1513), do italiano Maquiavel (ler comentário AQUI). Li ambas em 2011.

Não poderia ter lido obra mais condizente com a realidade política de nosso País do que esta sobre a servidão voluntária, pois sofremos um golpe de Estado em 2016 e estamos sob um regime de exceção, com o poder na mão de uma camarilha de corruptos que tomaram conta das instituições estatais do Estado, em conluio com empresários da comunicação e parcelas de capitalistas nacionais e imperialistas norte-americanos.

Das teses apresentadas por La Boétie justificando os porquês das pessoas se submeterem à servidão voluntária, acrescento uma de conceito mais recente em relação ao século XVI: a ideologia.

Gostaria que todas as pessoas envolvidas com os movimentos sociais e lideranças populares lessem esse pequeno texto, que é possível ler em um dia, para reavivarem suas naturezas e sentirem o instinto de liberdade que nos baliza e norteia e, assim, começarem a organizar a resistência e reversão da servidão voluntária aos golpistas tiranos, que destroem tudo em nosso País a cada semana que passa, desde maio de 2016.

Apresento abaixo alguns excertos do livro e, logo depois, uma síntese que está na enciclopédia livre (Wikipédia) e está muito boa.

William

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Excertos

- "Eu não lhe pediria tão vivamente para recuperar a liberdade se lhe custasse alguma coisa. Não existe nada mais caro para o homem do que readquirir o seu direito natural e, por assim dizer, de animal voltar a ser homem..."


- "Para conseguir o bem que deseja, o homem ousado não teme nenhum perigo, o homem prudente não regateia nenhum esforço. Só os covardes e os preguiçosos não sabem suportar o mal nem recuperar o bem. Limitam-se a desejá-lo e a energia de sua pretensão lhes é tirada por sua própria covardia..."


- "É incrível ver o povo, quando é submetido, cai de repente num esquecimento tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão..."


- "Se todas as coisas se tornam naturais para o homem quando se acostuma a elas, só permanece em sua natureza aquele que deseja apenas as coisas simples e não alteradas. Assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito..."


- "Os homens livres, ao contrário, disputam a preferência em lutar pelo bem comum, porque associam a ele seu interesse particular: todos esperam ter sua parte no mal da derrota ou no bem da vitória. Mas os homens submissos, desprovidos de coragem guerreira, perdem também a vivacidade em todas as outras coisas, têm o coração tão fraco e mole que não são capazes de qualquer grande ação. Os tiranos sabem muito bem disso. Por isso, fazem o possível para torná-los ainda mais fracos e covardes."


Bibliografia:

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária. Texto integral. Edição bilíngue. Tradução: Casemiro Linarth. Martin Claret.


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Wikipédia 

Étienne de La Boétie (Sarlat, 1 de novembro de 1530 - Germignan, 18 de agosto de 1563) foi um humanista e filósofo francês, contemporâneo e amigo de Michel de Montaigne (este que em seu ensaio "Sobre a Amizade" faz uma homenagem a La Boétie). Poucos anos antes de morrer, aos 32 anos, Étienne de La Boétie deixou em testamento seus escritos a Montaigne, o qual, mais tarde, destacou os méritos nos Ensaios e em várias cartas, apontando este autor como um importante homem daquele século.

Traduções de obras clássicas greco-romanas eram comuns entre os studia humanitates, por isso entre os trabalhos de Étienne de La Boétie estão as traduções do grego para o francês de obras de Xenofonte e Plutarco - Étienne escreveu também algumas obras originais, a sua obra mais famosa é seu "Discurso da Servidão voluntária", escrita no século XVI, depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal. 


A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária, pois como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade? 

Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária. Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois, caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la. 

Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência - segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.

Graças a suas reflexões profundas sobre a condição humana e a liberdade, La Boétie é considerado um filósofo de tradição libertária e um precursor do pensamento anarquista.

Discurso sobre a Servidão Voluntária

O "Discurso da Servidão Voluntária", escrito em 1548 quando Étienne de La Boétie tinha 18 anos, é uma crítica à legitimidade dos governantes, chamados por ele de “tiranos”. La Boétie explica de que maneira os povos podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la; em seguida, pela religião e pela superstição que se cria em torno da figura do líder. 

No entanto, não são apenas esses dois métodos os elementos necessários para criar a servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação, a saber, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros. Para dominar a meia dúzia, ou seja, os seus cortesãos, o tirano atira-lhes migalhas, e estes, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros. 

Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão. Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesãos, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos ao tirano, estão afastados dessa liberdade. 

O autor quer levar seus leitores a refletir sobre uma questão que está na base da política: o motivo que leva as pessoas a obedecerem. Concretamente, o que está por trás dessa questão é entender a causa que pode levar uma pessoa a abrir mão de sua própria liberdade, já que, para obtê-la, o homem precisa apenas desejá-la. Assim, a servidão voluntária, em La Boétie, se refere à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”. Para ele, é possível que os homens percam a liberdade pela força, mas o que surpreende é o fato de não lutarem para reconquistá-la. 

No livro, são descritos três tipos de tiranos: os que chegam ao poder pela eleição do povo, pela força ou pela sucessão de raça. Mas, independentemente da forma como o tirano tenha chegado ao poder, o que intriga é o fato de as pessoas continuarem a obedecê-lo mesmo quando prejudicadas por ele. O autor defende ainda a igualdade de todos os homens na dimensão política: “Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos”.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A esquerda e a direita, segundo Ariano Suassuna


Comentário do blog

Apresento este belo artigo de Ariano Suassuna, grande escritor, poeta, dramaturgo e líder do movimento armorial que, segundo a Wikipédia, é um movimento que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro. 

O cenário brasileiro e mundial pelo qual passamos nesta quadra da história é momento propício para leituras, análises e reflexões políticas e ideológicas com a necessária tolerância do debate de ideias.

Eu me situo no campo da esquerda, não tenho dúvida alguma sobre isso. São várias as linhas de abordagem para reflexão a respeito do conceito de esquerda e direita. 

Sou um cidadão brasileiro e ator político porque sou representante de pessoas, cumpro mandato eletivo a partir da comunidade dos funcionários do Banco do Brasil. Me esforço muito para valorizar a representação política, que nada mais é que a solução pacífica das controvérsias.

Atuei muitos anos no movimento social e sindical e tenho muito respeito ao debate de ideias e à democracia, que só existe com participação social efetiva.

É isso, o artigo é bem interessante.

Abraços, William 


Foto que ilustra o artigo na Carta Maior.

Fonte: Carta Maior - 24/7/2014

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi Santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e São João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembleia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de São Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”.

Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”.

Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Ariano Suassuna, ícone do Movimento Armorial, faleceu em 23/7/14, aos 83 anos de idade. É paraibano e passou grande parte de sua vida em Pernambuco.


Fonte: Carta Maior, reproduzido do site do MST

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Leitura: Memorial de Aires (1908) - Machado de Assis





Refeição Cultural

Olá amig@s leitores e apreciadores de literatura,

Meu período de leituras nas férias está acabando. Como é prazerosa a leitura de literatura! Principalmente quando feita ao sabor de projetos e percursos literários montados para nos levar a certos tipos de reflexões.

Para este mês de janeiro de 2017, planejei terminar a leitura de ao menos um ou dois livros que já vinha lendo há tempos. Também escolhi ler algum autor estrangeiro e leitores brasileiros do Nordeste. Por fim, faria a leitura de algo mais que aparecesse ao bel-prazer.

Hoje, completei um de meus percursos machadianos: finalizei a leitura de Memorial de Aires, o último romance publicado pelo Bruxo do Cosme Velho, pouco antes de falecer.

Agora, posso dizer que li todos os romances de Machado. Dias atrás, vi um texto alegando que há um décimo romance, descoberto e publicado décadas depois de sua morte, mas formalmente estes são os romances:

- Ressurreição (1972)
- A Mão e a Luva (1974)
- Helena (1876)
- Iaiá Garcia (1878)
- Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
- Quincas Borba (1891)
- Dom Casmurro (1899)
- Esaú e Jacó (1904)
- Memorial de Aires (1908)

Boa parte desses romances saiu primeiro em folhetins, durante meses, para depois sair editada como livros. O autor também publicou centenas de contos ao longo de sua vida. Eu já li vários e continuo na busca de ler todos eles.

O Memorial de Aires é bastante autoral. Machado estava vivendo os últimos anos de sua vida e havia perdido sua esposa pouco antes da publicação. Um amor e companheirismo de quase 35 anos. Em vários momentos, vemos Machado falando através do velho e aposentado Conselheiro Aires.

Quando fui atrás de meu volume para ler (tenho a coleção da Editora Globo, 1997) estava decidido a reler postagens de meus blogs e me bateu uma vontade de ler este romance, pois já conhecia o enredo do livro em formado de diário.

Uma questão bem interessante para quem gosta de história do Brasil é o período abordado neste romance: os anos de 1888 e 1889, no Rio de Janeiro de fim de escravidão e Império. O cenário é pano de fundo das memórias e reflexões do Conselheiro Aires.

Diferente de alguns livros que comentamos aqui, com edições esgotadas, este romance é facilmente encontrado em sebos, até por 5 reais.


FRASES MACHADIANAS

Uma das coisas que adoro são as construções sintáticas e estilísticas de Machado. Exemplos:

- "Já meu cunhado dizia que era seu costume dela, quando queria alguma cousa"

- "e aconselhou-me a ir cumprimentá-los por ocasião das festas aniversárias"

ou

- "Não teve irmãos, mas a afeição fraternal estaria incluída na amical, em que se dividia também"

e ainda:

- "O abraço que lá contei atrás fê-me bem; foi sincero"


OLHA O NOSSO BANCO DO BRASIL

"Lá achei Fidélia, um primo desta, filho do desembargador, aluno da Escola de Marinha (16 anos) e um empregado do Banco do Brasil"


MACHADO PREVIU AS REDES SOCIAIS COMO FACEBOOK E INSTAGRAM

"Eu gosto de ver impressas as notícias particulares, é bom uso, faz da vida de cada um ocupação de todos. Já as tenho visto assim e não só impressas, mas até gravadas. Tempo há de vir em que a fotografia entrará no quarto dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade entrará também"


FAUSTO, DE GOETHE

"Ainda uma vez concordou que era eu, mas emendou em parte, dizendo que a nossa aposta é que ela casaria comigo, e citou a aposta entre Deus e o Diabo a propósito de Fausto, que eu lhe li aqui em casa no texto de Goethe"


O MEMORIAL, HÁ QUE SE CONTINUAR

"Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diário de fatos, impressões e ideias. Talvez seja melhor parar. Velhice quer descanso. Bastam já as cartas que escrevo em resposta e outras mais..."

(...)

"Qual! Não posso interromper o Memorial; aqui me tenho outra vez com a pena na mão. Era verdade, dá certo gosto deitar ao papel cousas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão. Venhamos novamente à notação dos dias"


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Termino a postagem com o mesmo dito pelo Conselheiro Aires em relação ao Blog (Memorial). Dá vontade de interromper o trabalho das postagens, mas temos que registrar o que nos vem à cabeça e o que pensamos dos fatos e acontecimentos. 

Sigamos as notações...

William
Um leitor