quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Romaria a Água Suja (2023)



Refeição Cultural 

Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. 


"Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás,
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
" (Antonio Machado)


Quando peguei a estrada na sexta-feira 11, por volta de duas horas da tarde, imaginei que passaria horas pensando na vida e no mundo.

Quando digo que cada romaria é uma experiência única, não é apenas por dizer uma frase de efeito. Cada experiência é única mesmo. 

Achava que faria longas reflexões sobre a vida e o mundo no qual existimos como parte integrante da natureza porque nas caminhadas preparatórias que fiz foi assim que ocorreu: pensei muito sobre muita coisa.

Na estrada (BR 365), naquele momento do início da caminhada, com aquele calor de fim dos tempos (e de agosto), senti que minha concentração em mim mesmo teria que ser total. Dominar meu corpo era a única meta até o fim. As elucubrações sobre a vida ficariam para depois.


E assim ocorreu. Ao longo de 70 Km foquei em cada passo dado, cada mensagem interna de meu corpo, cada mudança de piso, relevo ou luminosidade do ambiente, e fui indo, indo, indo. Por um instante, vi o efeito da displicência, e ela quase me tirou do caminho... (metáforas da vida) 

Sendo conhecedor antigo do trajeto entre Uberlândia e Água Suja, e sabendo os pontos de referência para possíveis paradas para descanso, fiz cada trecho ser uma etapa vencida da caminhada. Novamente, podemos pensar numa metáfora da vida com isso, etapas a superar, isso é o viver.


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NINGUÉM ANDA O MESMO PERCURSO DUAS VEZES...

Ninguém entra duas vezes no mesmo rio (como nos ensinou Heráclito), ou ninguém anda o mesmo percurso duas vezes... O rio muda, a estrada muda e nós mudamos.

Já faço essa caminhada entre Uberlândia e Água Suja desde os anos oitenta, desde adolescente. Os motivos e as condições nas quais fiz a romaria já foram os mais diversos. Já fiz a romaria sendo muito religioso e a caminhada é um tipo de experiência.


Hoje faço a romaria com outros propósitos como, por exemplo, viver um momento de introspecção intensa. E a experiência também é algo para muito além da razão, pois não se anda 70 Km em um dia só de forma racional, não se anda. O componente emocional e psicológico é fundamental para uma pessoa andar dezenas de quilômetros.

O rio Araguari continua lindo, mas os relevos mudaram ao longo do caminho. Continua-se vendo grandes fazendas, mundo agro pop, muita terra de poucos donos (Brasil injusto e desigual). Quilômetros de desertos verdes, eucaliptais que não acabam nunca. Poucos bichos, pouca diversidade.

Só as sombras são parecidas...

Os caminhantes nunca são os mesmos. A caminhada nunca é igual, nem pra quem está acostumado. O rio e os caminhos nunca são os mesmos, os caminhantes também.

Este caminhante que reflete sobre a experiência é outro, tudo foi diferente das vezes anteriores. A começar que nunca tive tanto receio de não completar o percurso, receio de passar mal, medo de descobrir que não poderia mais fazer o que estava acostumado a fazer. A natureza está em mudança acelerada. Sou natureza.

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OS PREPARATIVOS PARA O CAMINHO

Cheguei a Uberlândia determinado a fazer a romaria até a cidade de Água Suja. Nas semanas anteriores, administrei meus receios e medos de não ter condições de percorrer todo o caminho. 

Na preparação física e psicológica, fiz umas caminhadas progressivas: andei 10 Km, depois andei 20 Km, depois 30 Km e, por fim, na semana anterior, andei 48 Km, o que seria equivalente a chegar até a Antena no caminho de Água Suja. Na última caminhada, decidi qual tênis seria usado.

Trabalhei mentalmente a hipótese de só conseguir chegar até a Antena e ter que voltar de lá. Uma de minhas preocupações era ter queda de pressão e algum apagão por desidratação ou cansaço extremo. Ou até o quadril com desgaste me impedir de seguir adiante.

Um homem na estrada...

Uma peregrinação como essa é uma boa metáfora da vida: é preciso inteligência para ler a realidade e lidar com ela. 

Antes de chegar a Uberlândia, havia planejado sair bem cedo, umas 9h30 da manhã, para andar o dia todo de sol escaldante estando descansado. Já que a caminhada leva cerca de 24 horas, no meu caso atual, achava melhor lidar com o calor intenso ainda descansado. É inevitável ter que andar um dia inteiro de sol e uma noite inteira.

No entanto, a realidade material e objetiva se impõe em nossas vidas. Treinei em SP andar sob um calor de 30º... só que bastou andar menos de 2 Km ao meio-dia de Uberlândia no dia anterior à romaria para perceber que seria loucura me expor ao sol ininterrupto do início da manhã ao fim do dia. O calor de 30º de lá é muito maior que o de onde moro. Imaginem na estrada... O corpo me avisou sobre isso.

Após definir o novo horário de saída - a vida é assim, traçamos objetivos, fazemos planejamentos, definimos estratégias e táticas - tinha outra questão a resolver: se iria sozinho ou se teria a assistência de alguém para me acompanhar de carro ao longo do trajeto e para voltar mais rápido quando chegasse a Água Suja.

Paisagens do caminho... ipês.

Até 2016, nunca tive assistência nas romarias. Saía sozinho e após percorrer o percurso e chegar à cidade, ainda tinha algumas horas pela frente para conseguir voltar a Uberlândia: esperar horas por um ônibus na rodoviária, achar uma van que estivesse oferecendo serviço etc. Numa romaria dessa a gente fica acordado 30 horas. Ir com alguém dando assistência na estrada é um privilégio, pois além de diminuir o peso da mochila, chega-se a cidade e volta para casa mais rápido.

Por saber das dificuldades pessoais de meu cunhado e irmã, que estão lidando com suas cronicidades, estava sem jeito para perguntar se meu cunhado poderia me dar uma assistência. Nas últimas romarias, ele nos fez essa gentileza, digo no plural porque ele já deu assistência até para meu filho e o amigo dele. Imagino que deva ser muito cansativo ficar num carro por 24 horas andando e parando, é cansaço pra todo mundo, pra quem anda, pra quem dá assistência. Mais uma vez, meu cunhado e minha irmã se colocaram à disposição e eu sou muito grato por isso. O receio de fazer o caminho diminuiu muito ao saber que seria acompanhado.

Agora era fazer o caminho e atingir meu objetivo. Na noite anterior à romaria, fiz um texto reflexivo sobre a experiência do caminho, anseios e expectativas (ler aqui).

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O CAMINHO

Neste ano, estava com um marcador de distâncias no pulso. Nunca tive muito entusiasmo por essas modas tecnológicas. Pra se ter uma ideia de como evito muitos aparatos tecnológicos, ainda levo nas romarias meu Aikman de 1987 e algumas fitas cassete. 

No entanto, ganhei da esposa um Huawei Band 8 e o trequinho é bem interessante. Na romaria deste ano, o aparelho contribuiu muito para minhas etapas a superar e no efeito psicológico. 

Nas etapas mais difíceis, cada vibração em meu pulso era um Km superado... gostei do aparelho.

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14,01 Km

Saí do Trevo para Araxá e andei até a ponte do Rio Araguari. Meus pais me levaram até o trevo. Que calor absurdo! A concentração na pisada foi total. Tinha que estabilizar meus pés dentro do tênis e evitar qualquer pisada forte com o pé cozido. Sabia que se não machucasse os pés nas primeiras horas, a tendência era ter pés sãos para a noite toda.



Na mochila levei muita água para não desidratar. Marquei de encontrar meu cunhado lá no Rio Araguari. Deu certo. Andei 3h15 e parei uns 30 minutos. Comi um pão com carne. Coloquei um esparadrapo no dedinho do pé, pois a costura da meia estava incomodando. Saí para a próxima etapa. Iria escurecer logo e queria andar bem na subida do rio.

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9,86 Km

Saindo do Rio Araguari, o romeiro enfrenta um longo percurso em subida na BR 365. Uns quilômetros adiante tem o Trevo de Miranda e 7,8 Km depois um antigo posto de gasolina desativado, que se chamava Posto Triângulo. Ali os romeiros param um pouco, encontram as assistências etc.


Fiz esse percurso em 2h36. O tempo que era marcado no relógio do pulso ao longo da caminhada acabou não sendo o tempo só andando porque com o cansaço a gente esquece de dar pausa quando para para urinar, para pegar uma sopa, um pão etc. Neste dia, tinha muita gente no acostamento dando água e outras coisas aos romeiros.

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8,81 Km

Saí do antigo Posto Triângulo por volta de 22h para andar até o Posto N. Sra. da Guia, este em funcionamento. Até lá eu já teria andado cerca de 36 Km pelas distâncias marcadas num antigo panfleto que carrego comigo.

Pelo relógio da Huawei, quase todas as distâncias tiveram alguma diferença em relação ao panfleto antigo. Andei por 2h10 até o ponto de referência que mentalizei. Meus quilômetros em pisada de romeiro foram entre 13' e 15' conforme o trecho.

A noite de 11 para 12 de agosto foi de breu total. A lua cheia havia sido na semana anterior. Sem um farol de carro indo ou vindo e sem uma luz de lanterna o peregrino não consegue visualizar onde pisa. É tenso! Imaginem só, basta somar o fator pisar no breu com o fator cansaço e talvez com o fator sono... resultado: risco.

DISPLICÊNCIA - O caminho da gente pode ser interrompido por um vacilo, um instante que defina uma vida. Na estrada quase não havia sinal da operadora do meu celular. Foi a 1ª vez que levei celular na romaria por causa dos receios que falei de minha condição atual. Então, andando naquele breu total, num trecho alto da estrada, o celular vibra várias vezes. Por impulso, tiro o celular do bolso e tento ver o que era. Fiz isso andando... em poucos passos, saí do acostamento e meu pé esquerdo caiu na valeta de uns 40 cm ou mais de profundidade... por pouco eu não me quebro todo! A caminhada poderia ter terminado ali. Sou um homem de sorte... I'm Lucky Man... valeu a lição!

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11,72 Km

Saí do Posto N. Sra. da Guia para andar até a barraca de ajuda aos romeiros na Antena pouco antes das duas horas da manhã. Não estava com sono. Fui tomando bastante café no caminho. Meus pés estavam bem. A noite estava incrivelmente quente.

Eu e o cunhado

Este foi o único trecho no qual o odômetro do Huawei marcou mais que a distância que estava registrada no panfleto. Quase um quilômetro a mais. No entanto, o fator psicológico de o relógio vibrar no pulso a cada 1 Km foi muito estimulante. Pensava ao andar: "daqui a pouco andei um terço", "daqui a pouco andei a metade", "faltam só x quilômetros". E o som rolando no meu toca-fita...

Andei 3 horas. Durante o percurso, entrei em algumas barracas de ajuda e comi alguma coisa, sentei uns minutos. 

Barraca da Antena.

Cheguei a Antena melhor do que imaginava. Que bom! Como havia muita gente e não tinha lugar nas mesas, tomei minha sopa em pé mesmo.

Para não acontecer de ficar mal durante o percurso seguinte, decidi ficar um tempo na Antena. Pensei em cochilar uma hora. Não deu certo, não cochilei mais que vinte minutos. Saí umas 7 horas da manhã sem tomar café direito porque o estômago estava embrulhando com qualquer coisa. Comi meio pão.

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A alvorada.

9,86 Km

O trecho até o Posto Santa Fé foi o mais surpreendente desta romaria. Saí 7 horas da manhã pensando em andar mais de 3 horas porque imaginava andar mais de 12 Km e, no entanto, tive a grata surpresa de numa das curvas da estrada ver o posto. Achei que era miragem (risos).

Deu menos de 10 Km pelo odômetro no pulso e eu estava relativamente inteiro. Andei por 2h23 e o calor estava ficando insuportável.

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8,77 Km

E quem disse que seria fácil?

Deste ponto em diante, após andar uns 55 Km, é que começa a etapa mais difícil da romaria entre Uberlândia e Água Suja, é aquele momento do sol escaldante, corpo extenuado, e cada quilômetro andado é mais difícil que vários andados anteriormente.

Antigamente, andávamos 6 Km até o Atalho no eucaliptal. Hoje ele não existe mais. O proprietário proibiu os romeiros de atravessarem por ali. Agora é pela estrada mesmo que se vai. Deu quase 9 Km. Gente, como foi difícil! Foi um esforço tremendo manter o foco para não ficar parando a cada Km.

Os peregrinos andam andam e andam e tudo o que veem é plantação de florestas de eucaliptos. Os pássaros que ouvi cantarem foram os pássaros-pretos. Pouca diversidade ali.

Grato pela galinhada, mas não
consegui comer... estômago ruim.

Cheguei na barraca de ajuda que fizeram para os romeiros na entrada da estrada de terra para a cidade. Estava bem cansado. Não consegui engolir a comida que peguei: uma tradicional galinhada mineira. Nossa, estava uma delícia, só experimentei! Tive que descansar uma meia hora e decidir sair sem comer. Apostei nas barras de cereais que tinha comigo pra não faltar carboidratos no fim.

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6,67 Km

O percurso final é sempre uma etapa à parte da romaria. É um misto de dor e alegria que se vive durante os quilômetros finais. O peregrino deve estar com o corpo repleto de hormônios por ter andado até ali e sua chegada à cidade e à igreja tem todo um componente psicológico.

O terrão vermelho do último trecho, misturado ao sol e ao suor, dão a imagem final ao romeiro ao chegar à cidade. 

Peregrinos chegam à Basílica de
N. Sra. da Abadia de Água Suja.

Depois daquela imensa descida e subida de terra e cascalho, não atravessamos mais o pasto que tinha antes da cidade. Os romeiros agora devem seguir pelas ruas de terra até entrar em Água Suja.

Mentalizei muito nesta etapa final. Administrei a energia vital já que não estava conseguindo comer. Fui bebendo líquidos e mastigando alguma coisinha.

Cheguei umas 15 horas. Completei o caminho. Pelo odômetro do Huawei, andei 70 Km. As maiores paradas foram de 1h30 na Antena e 1h no Santa Fé. Saí de Uberlândia, do trevo para Araxá às 14h20 e cheguei às 15h20. (o vídeo sobre o caminho pode ser visto aqui)

Incrível eu não ter tido nenhuma bolha nos pés. Pela primeira vez em décadas eu sequer fiz o preparo de meus pés com esparadrapos. Nenhuma bolha! Pisei por 70 Km como se fora uma pluma. Como se fora carregado por anjos ou por Deus. Nem vermelhos meus pés ficaram. 

Completei o Caminho.

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SE FAZ O CAMINHO AO ANDAR

A estrofe do poeta espanhol Antonio Machado que abre esta postagem é muito profunda para mim. É de uma simbologia incrível! Quase vejo a minha vida nela. 

Antes de iniciar o caminho, pensei comigo que iria refletir muito sobre a vida porque vinha fazendo isso antes de pegar a estrada para Água Suja. Escrevi que tinha umas coisas pra digerir e queimar dentro de mim.

Entretanto, a realidade do caminho se impôs e tudo o que fiz foi concentrar minha atenção em mim mesmo, dialogar com o meu corpo e fazer com que ele me levasse até o objetivo final. Consegui.

As coisas a digerir e queimar dentro de mim continuam aqui dentro do meu ser, do caminhante, do peregrino. Mas tudo bem. A vida é como uma romaria dessas que fiz. Vamos indo passo a passo até chegar no destino que mentalizamos.

E se não chegarmos, tudo bem. Tudo bem. Cada pessoa chega até onde dá. A vida também é assim.

Vou digerir as coisas que seguem entaladas no meu sistema digestório e que não me permitem sequer me alimentar direito certas horas. A comida não desce...

Aprendi muito nesta nova caminhada, aprendi sobre mim, sobre esse ser que sou neste momento. As coisas estão tão claras pra mim que até fico chocado.

Foi uma experiência muito importante para mim sair de Osasco, ter medo e receio de não conseguir fazer o que fazia antes, encarar meus medos, encarar minhas dores e dificuldades, e chegar!

É isso!

William


Post Scriptum: Ao analisar o aplicativo do aparelho Huawei Band 8, em relação às distâncias percorridas por mim na sexta 11 e no sábado 12, fiquei tentando entender por qual motivo o registro no aplicativo é de 34,73 Km + 44,58 Km, o que daria um percurso de 79,31 Km andados por mim. De fato, essa distância é mais condizente com a realidade do que os 70 Km computados por mim manualmente, pois posso ter deixado de registrar alguma distância percorrida por cansaço, por esquecimento etc. 

Quando eu começava uma etapa, eu clicava o início do "treino" de caminhada ao ar livre e o correto era sempre dar pausa quando parava. Acontece que com o tempo, o romeiro vai cansando, começa a parar e não dá pausa, ou o contrário, dá pausa e esquece de dar play novamente etc. Eu fiquei encafifado com o fato de dar mais de 2 Km de diferença entre a Antena e o Posto Santa Fé na distância que marquei no relógio. No antigo panfleto da Polícia Rodoviária Federal (PRF-MG) consta como 12,5 Km e no meu marcador manual deu menos de 10 Km. Cansado como estava, pode ser que tenha deixado de marcar algum momento do caminhar, em alguma parada que fiz.

Se as distâncias anotadas entre o Trevo para Araxá (saída de Uberlândia) e a igreja de N. Sra. da Abadia de Água Suja, pelo antigo Desvio ou Atalho, davam 73,5 Km e agora o romeiro tem que andar mais uns 3 Km até a nova entrada para a cidade e andar mais um tanto até onde se saía pelo Atalho e ainda seguir só pela estrada de terra até a cidade, o mais provável é que eu tenha andado uns 77 ou 78 Km mesmo e não "só" 70 Km como as marcações manuais que fiz.

É isso, o registro é mais para constar mesmo. Neste blog eu sempre trabalhei com as informações o mais fidedignas possíveis. Aliás, quando faço consulta no meu WIKIpedia do William, conto com a informação cuidadosa postada no blog.


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Romarias a Água Suja

Santuário N. Sra. da Abadia de Água Suja, MG.

Refeição Cultural

Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.


Vou pegar a estrada nesta sexta-feira 11 para tentar andar um percurso de quase 80 Km até a cidade de Água Suja, região do Triângulo Mineiro. Fiz essa romaria por décadas. A última vez que a fiz foi em 2019, antes da pandemia mundial de Covid-19. Estou cheio de incertezas ao iniciar essa caminhada porque não sei se chegarei ao destino final. No entanto, vou iniciar a caminhada com todo o cuidado e muita concentração em mim mesmo como sempre fiz ao realizar longas caminhadas.

Me lembro bem da primeira vez que fiz a romaria de Água Suja. Eu ainda morava em Uberlândia, ou seja, foi antes dos 17 anos de idade. Meu primo e eu decidimos fazer a romaria meio na porraloquice. Vamos? Vamos! E saímos pela estrada sem planejamento algum. Foi uma experiência dura! Antes de chegar ao Rio Araguari, primeiros 25 km saindo do bairro onde morávamos, já estávamos arrebentados, bolhas nos pés etc. Com muito sacrifício, consegui convencer meu primo a seguir até a Antena. De lá, ele desistiu e voltou. Eu só cheguei ao destino no domingo, tínhamos saído na sexta.

Depois da primeira experiência, passei a fazer a romaria sempre sozinho. Uma única vez, ao longo das décadas de caminhadas, fiz a romaria com um grupo de romeiros. Saímos de Uberlândia alguns primos e conhecidos. Foi diferente andar em grupo: interessante ver a reação de cada um durante o percurso. Um dos primos chegou na raiva (risos). Dizendo que nunca mais faria aquilo. Uma prima torceu o pé antes dos 10 Km e seguiu até a Água Suja, e nos ensinou que com fé tudo era possível. Mancou até lá, mas chegou. Como digo sempre, cada caminhada, cada vez, é única.

Até uns quarenta anos de idade, saí a maior parte das vezes da casa de meus pais, o que dá um percurso de quase 90 Km, uns 87 Km imagino eu. Algumas vezes saí do Trevo para Araxá, saída de Uberlândia. Mais recentemente, última década, sempre que faço a romaria, saio do trevo, o que dá uns 75 Km. 

Uma das experiências mais gostosas que tive foi fazer a romaria com o meu filho. Foi muito legal a energia mútua que trocamos durante o percurso.

O Atalho no eucaliptal.

Já teve vez que não tive bolha alguma. Já teve vez que tive tanta bolha e tão grandes que fiquei dias com os pés em recuperação. Já fiz os 75 Km em menos de 19 horas, já fiz os 87 Km em 21 horas. Com o passar do tempo, e nos últimos anos, tenho precisado de um dia todo para fazer o percurso saindo do trevo. E as paradas precisam ser maiores também. E isso não é uma questão de idade, é uma questão de condicionamento físico e saúde, que é algo muito particular, cada pessoa é única. O meu desgaste no quadril acabou com o meu barato nas corridas e caminhadas.

Quando eu comecei a fazer romarias eu era uma pessoa muito religiosa, tinha uma concepção de mundo exatamente igual à concepção de mundo do ambiente onde nasci e cresci: predominância da religião católica apostólica romana mesclada com o sincretismo religioso tão característico do nosso país. Ao mesmo tempo em que era cristão, frequentava centros espíritas e religiões de matriz africana. Fui assim até perto dos trinta anos de idade. Quando passei a ter outra concepção de mundo, materialista, passei a compreender melhor a cultura de meu país e por que as coisas são como são.

Assistência - Mais um registro sobre as romarias para Água Suja. Uma coisa que auxilia muito o romeiro é ele poder contar com uma assistência ao longo da viagem. Isso é muito comum na estrada. Um grupo ou uma pessoa sai para fazer a romaria e alguém acompanha de carro os peregrinos, levando as mochilas, as coisas para comer e beber, até colchões para algum descanso. Eu sempre tive que chegar à cidade e ainda ir procurar condução para voltar, ônibus normalmente. Isso acrescenta muitas horas a mais acordado. Desde que meu filho foi com um amigo, em 2015, passamos a ter a assistência de meu cunhado. Ele já nos ajudou muito nestes anos todos. Somos muito gratos a ele. Este ano, apesar das dificuldades que ele tem, Túlio vai me acompanhar na estrada. Solidariedade é uma das maiores lições que aprendemos nas romarias.

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É isso. Como disse em outro texto reflexivo (ler aqui), não estou em paz. No entanto, sigo perseverando todos os dias quando acordo e percebo que a vida está aí, somos natureza, e a vida é oportunidade.

É com esse espírito que vou acordar nesta sexta, tomar um banho, tomar um café, depois almoçar levemente e passar um dia andando e observando tudo dentro de mim e ao meu redor. Preciso queimar algumas coisas que estão me consumindo por dentro e preciso buscar sentidos para os dias do viver.

A vida não tem que ter sentidos, a vida simplesmente é (um pouco do que já ouvi do filósofo Ailton Krenak), contudo podemos dar valor e significação ao viver, é isso que estou procurando.

William

Um peregrino


Post Scriptum: correu tudo bem na romaria. Consegui completar o percurso em 25 horas, não tive bolha alguma nos pés, e mais uma vez a experiência foi única, me deixou cheio de reflexões sobre a vida e sobre o entendimento das coisas do mundo. O vídeo que fiz pode ser visto aqui e o texto relativo à romaria pode ser lido aqui.


terça-feira, 8 de agosto de 2023

Diário e reflexões de um andarilho



Refeição Cultural

Osasco, 8 de agosto de 2023. Terça-feira.


Durante as dezenas de quilômetros que tenho andado nas últimas semanas, tenho pensado em muitas coisas que poderiam ser base para textos reflexivos ou argumentativos, ou ambos, e, no entanto, os temas que martelam em meus pensamentos são temas espinhosos, que abordam questões incômodas para o próprio escritor e para eventuais leitores.

Já faz semanas que fico pensando na melhor forma de abordar o tema do alcoolismo ou dos problemas terríveis que o excesso do consumo de bebida alcoólica pode trazer para a pessoa que consome essa droga legalizada no Brasil e as consequências do consumo dessa droga para toda a sociedade. Uma das alternativas de abordagem talvez seja colocar a mim mesmo como exemplo. Bebi muito durante anos e me coloquei nas situações comuns e extremamente vulneráveis que pessoas alcoolizadas se colocam... ainda não consegui sentar e escrever de coração aberto sobre essa tragédia do consumo de álcool em excesso.

Outra preocupação que martela na minha cabeça é em relação às perspectivas de presente e futuro para as pessoas que estão chegando à sociedade humana neste momento e para os jovens e adultos. Tenho refletido sobre isso tentando me colocar no lugar dos jovens de hoje para tentar compreender por que as coisas estão como estão. Consigo me lembrar muito bem de como eu via o mundo e o que queria ou o que eu não queria para minha vida quando era adolescente. Consigo. Me lembro de como era meu estar no mundo nos anos oitenta e no início dos anos noventa.

Odiava trabalhar. Hoje entendo que odiava trabalhar por causa dos trabalhos braçais, insalubres e humilhantes aos quais eu me submetia. O conceito de trabalho para mim era aquele conceito clássico de que quem trabalha é o escravo e o servo e os proletários, todos se fodendo em benefício de uns poucos abastados donos do poder e das riquezas. Eu odiava do mesmo tanto trabalhar quanto odiava os ricos, entendendo hoje que meu ódio era contra essa elite canalha e abjeta do Brasil, que explora os pobres com prazer e sadismo. 

Não tenho mais o ódio como sentimento que me conduz, mas sigo de certa forma odiando essa gente desgraçada da casa-grande, hoje claramente parcela representativa do bolsonarismo. Também tenho outros conceitos em relação ao trabalho, afinal de contas foram décadas de viver e de estudos para compreender que o trabalho é o que nos diferencia enquanto animais humanos na natureza.

Eu tento me colocar no lugar de jovens entre quinze e trinta anos e imaginar como eu me comportaria neste mundo tendo exatamente a pouca consciência política que tinha entre meus quinze e trinta anos. Foda isso! Ao me colocar no lugar dos jovens hoje, talvez eu... Esse seria outro tema a desenvolver em um texto, com honestidade intelectual, e talvez o texto fosse chocante demais. É mais fácil escrever sobre o álcool e seus efeitos do que me imaginar jovem neste mundo de hoje.

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E eu mesmo?

Nas minhas andanças e também através das minhas leituras tenho refletido sobre a necessidade de me desligar de alguma forma das coisas que têm trazido muito sofrimento e muita dor ao meu ser. Dor e sofrimento. Esse viver martirizado está sendo um viver muito insatisfatório.

Já escrevi que o passado não nos pertence porque ele não existe mais. Só teríamos o presente. No entanto, pessoas que tiveram um passado de grandes feitos têm muita dificuldade de se desligarem do passado que não existe mais. Esse processo é doloroso e causa muito sofrimento quando vem junto um sentimento de ingratidão do mundo. A pessoa vira uma escrava da dor e do sofrimento.

Os seres humanos são seres sociais, somos no mundo através de nossas relações com o mundo, isso é claro para mim. Apesar dessa clareza, apesar de ser racional, tenho deixado que a dor e o sofrimento pautem o meu presente por não conseguir definir um projeto de vida na atual realidade de minha existência. 

Como fazer a vida valer a pena hoje, neste instante e da forma como cheguei até aqui? Eu arrumei muletas para andar pela vida estando cai não cai à beira de precipícios desde meus tenros doze ou treze anos de vida já intensa me submetendo a trabalhos de merda, bebendo e querendo explodir o mundo que eu achava injusto e um lugar ruim.

Fui vivendo e de vereda em vereda, e com uma sorte da porra, alcancei mais de meio século de vida.

Agora não consigo me desligar dessas veredas por onde passei, não consigo compreender que os caminhos que até ajudei a construir estão fechados e só me resta andar, andar e abrir novos caminhos de viver, já que não existem caminhos, mas que fazemos caminhos ao andar, como nos ensinou o poeta.

Talvez por isso eu precise tanto andar. Preciso encontrar um caminho, fazer uma trilha, achar uma vereda que me traga um pouco de paz, aliás, essa utopia "paz" era a última coisa escrita em uma lista-muleta que havia feito décadas atrás quando listei coisas a conquistar e assim ir vivendo.

Paz... que utopia da porra. Você anda e a paz anda também (risos) e você nunca alcança ela.

Não estou em paz, sequer comigo mesmo.

Andar, andar, andar, quem sabe uma hora vejo um caminho ou abra um e caminhe por ele.

William


domingo, 6 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXXI



Refeição Cultural - Cuba (XXXI)

Osasco, 6 de agosto de 2023. Domingo.


Comecei a ler o 4º capítulo do livro da professora Maria Leite sobre a educação na República Socialista de Cuba - Cuba insurgente: Identidade e Educação (2023). O tema é: "A educação e as novas diretrizes".

Leio sobre Cuba com um sentimento de preocupação em relação ao que pode acontecer ao país e aos cubanos no presente e no futuro porque torço por eles e sei que a cada dia se torna maior o desafio de existir enquanto organização social distinta do restante do mundo organizado através do modelo neoliberal e capitalista.

O capítulo fala de "valores morais"... importante isso: valores morais!

A Constituição de Cuba garante a toda criança escola, comida e vestuário. 

E aqui no Estado mais rico do Brasil, o governador carioca de SP, um bolsonarista, corta de milhões de crianças o acesso ao livro didático impresso...

"A Revolução não roga aos pais que se preocupem pelo comportamento e pela educação de seus filhos colaborando com a escola e com os maestros: a Revolução o exige", disse Fidel Castro na inauguração do curso escolar de 1977. (p. 118)

Depois, ainda sobre direcionamentos no processo "Educação para Todos" vemos de novo o foco "valores":

"(...) procurando fortalecer a educação de valores, como a solidariedade e o patriotismo; manter e elevar os conhecimentos nas asignaturas de Matemática, Espanhol e História..." (p. 119)

Pedagogia: ciência, arte ou técnica?

"(...) a Educação cubana busca inserção na corrente contrária às tendências que reduzem a Pedagogia apenas a uma existência instrumental, mera facilitadora de atividades aplicadas pelos professores, produzidas por outros saberes e outras ciências, relegando à própria Pedagogia um papel subalterno." (p. 124)

A professora Maria Leite explica que Cuba foi aos poucos se libertando dos pressupostos positivistas sobre o que seria ciência.

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Comentário: é noite de domingo, estou lendo sobre a Pedagogia em Cuba, enquanto leio, martela na minha memória os argumentos de Gorbachev explicando as boas intenções da "Perestroika" nos anos 80, reestruturação que não deu certo e que levou ao fim a experiência socialista na URSS... infelizmente, me dá uma "bad" ao imaginar o fim da experiência socialista em Cuba... mas tudo conspira contra a continuidade do regime lá. Que foda!

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FORMAÇÃO INTEGRAL EM CUBA (NOVOS HOMENS E MULHERES)

"Na educação superior cubana, o conceito de formação integral, em termos de paradigma, é definido da seguinte forma: a formação integral dos estudantes universitários deve resultar em graduados com um sólido desenvolvimento político, a partir dos fundamentos da ideologia da Revolução Cubana; egressos dotados de uma ampla cultura científica, ética, legal, humanista, econômica e ambiental; empenhados e preparados à defesa da pátria socialista e às causas justas da humanidade com seus próprios argumentos e competentes ao desempenho profissional e o exercício de uma cidadania consciente (CUBA, 2016a)." (p. 128)

Imaginem só a formação universitária no Brasil... Estamos a anos-luz de atingir uma educação semelhante...

Terminando o item 4.2 que aborda o plano de estudos "E", no qual vemos toda a estrutura do sistema de educação de Cuba, fica a preocupação com os dados relacionados à demografia da Ilha, a população está envelhecendo rapidamente por diversos motivos. 

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(Leitura segue e postagem idem...)

sábado, 5 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Caminhei 48 Km


Av. Dr. Martin Luther King.

Refeição Cultural

Osasco, 5 de agosto de 2023. Sábado.


Acordei com o corpo um pouco pedrado. No entanto, considerando a minha caminhada de ontem, estou melhor do que poderia imaginar. Não tive nenhuma bolha nos pés, nenhuma dor além da dor crônica no quadril. Nesta sexta-feira, andei 48 Km entre 9h30 e 23 horas. De certa forma, sei que foi uma realização pessoal incrível nesta altura de minha vida.

Foi um dia todo andando, olhando ruas e paisagens, movimentos de pessoas, carros, trânsito. Vendo a natureza, ouvindo pássaros. Um dia todo concentrado em meu corpo, em minha energia vital. Um dia todo refletindo sobre a vida, as pessoas, o mundo. Pensei muita coisa sobre o passado para compreender o presente e imaginar o futuro.

Fiquei andando entre bairros da região do Butantã, Zona Oeste, entre São Paulo e Osasco. Vila Iara, Parque Continental, Pq. Colina de São Francisco, região do Campo de Golfe, região ao redor da Fundação Bradesco e Vila Campesina, Prefeitura de Osasco, Jaguaré, Cidade Universitária, Rio Pequeno. Andei por onde ando há meio século... meio século!

Av. Dr. Francisco de Paula V. Azevedo.


Cheguei na fase da vida na qual não tenho certeza se consigo completar uma caminhada de 80 Km que faço há décadas, a romaria entre Uberlândia e Água Suja, a secular festa de Nossa Senhora da Abadia, no Triângulo Mineiro. Naturalmente, tenho sido desencorajado por todos, porque se preocupam comigo.

A última vez que fiz a romaria foi antes da pandemia mundial de Covid-19. De lá para cá, a natureza seguiu atuando e minha condição física não é mais a mesma. Não é uma questão de idade. A vida de cada ser vivo é única e cada um é o resultado do acúmulo do viver. O meu viver foi bem intenso e as consequências estão registradas em meu ser. Eu me conheço.

Nas últimas semanas, me deu aquela comichão de pegar a estrada e sentir aquele turbilhão de coisas que se sente quando se faz uma caminhada como aquela de Uberlândia a Água Suja. Juro, só quem a faz sabe o que é aquilo... Tenha a pessoa o motivo que tiver, religioso ou não, a experiência de fazer a romaria é única e muito pessoal.

Avaliando racionalmente, mesmo após a caminhada de ontem, não tenho a certeza se completo ou não a romaria. O que sei é que fiz um esforço pessoal e andei nos últimos dias 10 Km, depois 20 Km, depois 30 Km e ontem 48 Km. Aliás, como digo sempre, cada caminhada dessas foi única, porque o caminho vale mais que o destino, e muito refleti durante as caminhadas, muito mesmo.

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Av. Dr. Martin Luther King.


QUANTO POSSO AINDA?

A ideia quando saí cedo de casa nesta sexta, dia 4, era andar e sentir o meu corpo e a minha condição física para os momentos decisivos de uma longa caminhada, ou seja, ver como meu corpo reagiria após dezenas de quilômetros andados.

Uma questão central para um peregrino é a condição de seus pés ao longo da jornada. Uma coisa é a pessoa estourar os pés logo no início, outra é estar com os pés inteiros até o destino ou próximo a ele.

Já teve vez que meus pés deram bolhas antes do Rio Araguari, uns 15 Km depois do início. Aí é dureza... a dor e o sofrimento serão imensos por dezenas de quilômetros. Tem vez que não tenho bolha nenhuma... aí a peregrinação é bem melhor, sentindo só as dores do cansaço físico.

Depois que aprendi a preparar meus pés com esparadrapos, a vida de romarias melhorou muito. Os esparadrapos nos locais certos evitam que as bolhas estourem quando o calçado não deu muito certo. Às vezes temos bolhas por causa do calor do chão, às vezes por meias ruins, calçados ruins, pisada forte demais etc.

Como fiquei testando um tênis este ano, apostei em um nas últimas semanas e ontem foi uma questão de adequar meus pés e minha pisada para não me machucar. É sério! Com um pouco de autoconhecimento, a gente consegue pisar diferente e "amaciar" a caminhada para não ir marcando os pés. Deu certo! Mesmo sem esparadrapos, não tive bolhas.

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Av. Antônio de Souza Noschese.


METÁFORA DA VIDA, ETAPAS A VENCER

Outra questão mental para um caminhante é definir metas intermediárias durante o percurso que se pretende andar. Na romaria de Uberlândia a Água Suja é assim. São "x" quilômetros até tal lugar, depois "y" quilômetros até outro ponto e assim por diante, até se chegar à igreja na cidade.

Ontem não foi diferente, andando na Zona Oeste, entre São Paulo e Osasco. Mentalizei que queria andar até chegar a "Antena" (abstração de meus 86 bilhões de neurônios). Antena é onde fica uma das principais barracas de ajuda aos romeiros na BR-365 lá em MG. De onde saio até a Antena são 47 Km. 

Da mesma forma, quando andei 30 Km na semana passada, foi como andar de onde saio, no Trevo para Araxá, até o Trevo para Araguari (30 Km).

1ª etapa: 9,82 Km

É impressionante o odômetro interno que um corredor ou caminhante tem em si. Nunca andei com medidor de distâncias. Agora é que tenho um aparelhinho que faz isso. O percurso que sempre achei ter uns 10 Km tinha exatamente 9,82 Km... fala sério, heim!

Comentário: a primeira etapa numa romaria é fundamental. Acertar a pisada, ver se o pé encaixa bem no tênis para um longo dia e calibrar o objetivo internamente. Diálogo consigo mesmo.

2ª etapa: 3,73 Km

Nesta caminhada de 50 minutos, ao redor do bairro onde resido, foi de efetivação de meus acertos internos e antes de fazer uma refeição melhor para uma etapa mais demorada.

Comentário: Na estrada também é assim. Tem etapas maiores e etapas menores de percursos mentalizados. "Agora vou andar até tal lugar e parar uns minutos..."

Av. Prof. Almeida Prado.


3ª etapa: 13,95 Km

Esta foi uma etapa prazerosa. Saí de casa e fui até a nossa querida Universidade de São Paulo. Foram 5 Km até o portão da Av. Politécnica, depois 4 Km lá dentro, mais 5 Km saindo pelo portão da Av. Corifeu e indo até Osasco, a minha casa.

Monumento a Ramos de Azevedo.
Desde 1975, o arquiteto olha para
a Av. Prof. Luciano Gualberto, na USP.


Comentário: passei pela FFLCH-USP, lugar de grande importância em minha vida. Ali completei a mudança de personalidade que iniciei ao entrar no movimento sindical. A graduação em Letras me moldou assim como ser sindicalista.

Saudosismo. Lá no fim da calçada está a
querida FFLCH-USP, onde fiz o curso de Letras.


4ª etapa: 10 Km

Eu tenho preferência por andar de dia, um míope prefere luz natural. Após andar bem durante o dia e o cansaço estar controlável, saí para andar mais uma volta no Parque São Francisco, desta vez anoitecendo e indo por Osasco e chegando por São Paulo. De manhã, havia feito o inverso.

Comentário: imaginem vocês se o corpo não fica te instigando, insinuando que já está bom e que é hora de parar... nesta hora começa a entrar em ação a mentalização e a definição de objetivos que o peregrino traçou lá no início.

Anoitecer em Osasco.

 

Queria me testar andando uns 47 Km como se estivesse na estrada e buscando chegar à Antena. Fui firme comigo mesmo e andei os 10 Km em 2 horas e meia.

Ponte Metálica de Osasco.


5ª etapa: 10,25 Km

Na etapa anterior, fiquei pensando se passava ou não passava em casa. É óbvio que se passasse, meu cansaço venceria e eu dificilmente sairia para completar o percurso que queria, noite entrada já, corpo sentindo, as desculpas mentais de que já estava bom etc.

Decidi ir direto para um dos shoppings próximos de casa e tomar um café e comer alguns pães de queijo e pensar num roteiro para andar mais 10 Km e completar o objetivo mentalizado cedo. E deu certo!

Já que não tinha barraca de ajuda aos romeiros,
tive que pagar um café com pão de queijo.


Comentário: durante o dia, fiquei atento a não sentir fome e não sentir sede, como me lembrou dias atrás o amigo cronista e caminhante experiente Roberto Buzzo. Mas os finais de caminhadas são sempre os mais perigosos...

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O CANSAÇO NOS TIRA A RAZÃO...

Uma coisa comum em longas caminhadas é a pessoa se descuidar de si mesma nos momentos de muito cansaço e ansiedade para atingir um objetivo e isso pode nos fazer passar do ponto sem parar para descansar ou se alimentar.

Já tive queda de pressão algumas vezes nas romarias porque o desejo de superar cansaço e dores gerais faz com que o peregrino não queira sequer mexer na mochila para pegar uma fruta ou algo para mastigar porque está perto do ponto, porque o destino da etapa está logo ali...

Aonde vou ela vai, aonde ela vai eu vou.


O mesmo se dá até com relação à hidratação. Já aconteceu comigo algumas vezes de mesmo tendo água na mochila, não querer tirar a mochila das costas andando no breu total na estrada na alta madrugada querendo chegar desesperadamente à Antena... então, é óbvio que isso tem consequência... dá merda!

Aí quando o romeiro chega aonde queria, ele desaba, prostra! A pessoa está desidratada, está faminta, e o corpo quebra, não teve as calorias necessárias durante o percurso de grande esforço físico.

Normalmente, um descanso resolve. O peregrino come, se hidrata, fica uma hora sentado ou deita um pouco e já melhora, segue adiante.

Mas é muito comum e muito perigoso fazer isso. Tem que se buscar uma consciência racional que falta na hora do cansaço. Pare! Mastigue algo! Beba água!

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Prefeitura Municipal de Osasco. Mundo de Oz.


QUE A CAMINHADA NO MUNDO DE OZ SIRVA DE EXPERIÊNCIA PARA A ROMARIA

A última etapa ontem foi assim. Já beirava as 23 horas, eu andando pra completar quase 50 Km, já sentia que o corpo pedia para mastigar algo, deveria estar tomando mais água... como faltavam poucos quilômetros para chegar ao objetivo fui adiando... adiando. Não me hidratei e não comi para saciar meu corpo extenuado.

Cheguei umas onze horas e estava eufórico por ter completado o percurso, por ter andado bem e não ter tido bolha, por meu quadril ter me permitido andar 48 Km... Me senti realizado pelo que mentalizei de manhã.

A cidade que escolhi para viver. Mundo de Oz.


Cheguei e vacilei ao não comer um prato de comida logo que entrei. Já perto da meia-noite, percebi que minha pressão arterial caiu assim como já vi acontecer algumas vezes chegando ou a Antena ou a igreja de Água Suja. Só então, já meio mareado, fui comer direito. Pra quê!! Gastei mais de uma hora para voltar ao normal...

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A VIDA É UMA JORNADA, NÃO UM DESTINO

Ao acordar hoje pela manhã, fiquei com muitas dúvidas e até pensei algumas estratégias, caso vá mesmo para a estrada na semana que vem. Talvez eu tenha que dormir umas duas horas na Antena, de forma já planejada, para ver se não chego tão esgotado na cidade de Água Suja. 

Também será de grande importância ter muita atenção para não ficar sem comer e beber nos longos percursos até a Antena, 11 Km, e após a Antena, 12,5 Km, num posto conhecido. São nestas etapas duríssimas que a gente perde um pouco da racionalidade por estar muito cansado.

Finalizo esta reflexão de um caminhante reforçando o que disse no início, que vivenciar o caminho intensamente é mais proveitoso do que só considerar exitosa a jornada se for alcançado o objetivo final. Penso até que, se eu for pra estrada e se chegar até a Antena, e não der mais, paciência! Sou natureza...

Estou assim ultimamente. Mais que nunca o dístico da música do Aerosmith tem feito muito sentido para mim. 

"Life's a journey, not a destination
And I just can't tell just what tomorrow brings...
" (Amazing)

É isso!

Seguimos caminhando...

William


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (10)



Refeição Cultural 

Osasco, 3 de agosto de 2023. Quinta-feira


Hoje foi dia de dedicar meu tempo à leitura de mais alguns capítulos do clássico de Victor Hugo, Os miseráveis, de 1862.


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO 2: A QUEDA

VI. Jean Valjean

A partir deste capítulo passamos a conhecer a história do personagem Jean Valjean, um condenado às galés por ser pego roubando um pão. Ele passou 19 anos preso.

"Jean Valjean era de caráter pensativo sem ser triste, o que é próprio das naturezas afetuosas. Era, afinal, uma criatura bem dorminhoca e insignificante, ao menos aparentemente. Perdera os pais ainda muito novo. A mãe morrera de uma febre de leite mal cuidada; o pai, que também fora podador, morrera ao cair de uma árvore. Jean valjean ficou apenas com uma irmã, mais velha do que ele, viúva, com sete filhos, entre meninos e meninas. Essa irmã criou Jean Valjean, e, enquanto seu marido era vivo, deu casa e comida ao irmão. Morreu o marido. A mais velha das sete criancinhas tinha oito anos, a mais nova apenas um. Jean Valjean acabava de chegar aos vinte e cinco anos; tomou o lugar de pai, amparando por sua vez a irmã que o criara. Isso ocorreu simplesmente, como um dever, apesar de algum enfado por parte de Jean Valjean. Assim, consumira a mocidade num trabalho rude e mal pago. Na região, ninguém nunca soube que tivesse uma 'amiga'. Não lhe sobrou tempo para apaixonar-se." (p. 123)

Um dia, faltou o pão para as crianças e Jean Valjean acabou quebrando a vidraça de uma loja e pegando um pão. Foi pego, preso, julgado e declarado culpado, em 1795, a cumprir 5 anos em galés. Ficou 19 anos.

Ele nunca mais soube de sua irmã e sobrinhos.

O narrador termina o capítulo nos contando que "Jean Valjean tinha roubado um pão. Uma estatística inglesa constata que, em Londres, de cada cinco roubos, quatro têm como causa imediata a fome." (p. 127)

É o capitalismo... é o capitalismo...

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VII. O interior do desespero

"Perguntou-se se a sociedade humana podia ter o direito de fazer sofrer igualmente todos os seus membros, ora com sua incompreensível imprevidência, ora com sua impiedosa previdência, e de manter indefinidamente um infeliz entre uma falta e um excesso, falta de trabalho, excesso de castigo." (p. 128)

O narrador faz impressionante reflexão sobre a dosimetria da pena imposta a Jean Valjean por roubar um pão... 

Valjean reconhece que errou, mas se sente indignado pela iniquidade da pena imposta a ele pela Estado, pela sociedade humana, e com isso a odeia.

"Propostas e resolvidas essas questões, julgou a sociedade e condenou-a. Condenou-a a seu ódio." (p. 128)

Por sua força bruta era apelidado pelos condenados de Jean-le-Cric, (guincho, forte tipo um guindaste).

"A origem e o alvo de todos os seus pensamentos era o ódio contra a lei humana, ódio que, se não for interrompido em seu desenvolvimento por algum acaso providencial, se transforma, após certo tempo, em ódio contra a Criação, e se traduz por um vago, incessante e brutal desejo de fazer mal, seja a quem for, a um ser vivo qualquer." (p. 133)

E então, após 19 anos de prisão, Jean Valjean se tornou aquele "homem muito perigoso", classificação descrita em seu passaporte. 

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VIII. A onda e a sombra 

"Homem ao mar!" (p. 134)

Incrível a descrição de um afogamento, de um homem deixado ao mar para morrer... foda isso!

"Não há mais homens. Onde está Deus? 

Grita. Alguém! Alguém! Grita sem parar. Nada no horizonte, nada no céu." (p. 135)

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IX. Novos agravos

As injustiças da sociedade humana... que dureza!

"A ideia da liberdade o deslumbrara; acreditara na possibilidade de uma nova vida, mas bem depressa deu-se conta do que era a liberdade acompanhada de um passaporte amarelo." (p. 136)

Um homem marcado pela condenação permanente do preconceito...

Primeiro, o Estado o roubou, seu tempo e sua vida, e até seus soldos; agora, empresários safados abusavam dele por ser ex-condenado, pagando soldo pela metade. 

"(...) Agora era a vez de um indivíduo roubá-lo um pouco pequeno. Liberdade não é estar solto. Pode-se sair da prisão, mas não dá condenação." (p. 136)

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Inevitável não associar essa situação de Jean Valjean ao ex-presidiário de "Um homem na estrada" dos Racionais MC, 150 anos depois...

"A justiça criminal é implacável

Tiram sua liberdade, família e moral

Mesmo longe do sistema carcerário

Te chamarão para sempre de ex-presidiário..."

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(Chorei... também foi inevitável...)

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X. O homem acordado 

"(...) Ele havia reparado nos seis talheres de prata e na colher de sopa que a senhora Magloire colocara na mesa." (p. 137)

Neste capítulo, o narrador descreve as tentações que martirizavam a cabeça de Jean Valjean... 

Ele acordou no meio da noite e ficou pensando nos poucos objetos de prata que viu na casa do bispo de Digne.

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XI. O que ele faz

"Jean Valjean, de pé e imóvel no escuro, com o candeeiro na mão, estava assombrado diante da serenidade do velho. Nunca vira coisa semelhante. Tal confiança o espantava. O mundo moral não conhece espetáculo mais grandioso: uma consciência perturbada e inquieta, à beira de uma má ação, contemplando o sono de um justo." (p. 141)

E então, a tentação vence.

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XII. O bispo trabalha 

No dia seguinte, soldados batem à porta do Monsenhor Bienvenu, trazendo puxado pelo pescoço Jean Valjean. 

De forma surpreendente, o bispo de Digne cumprimenta o ladrão da prataria e lhe pergunta por que não levou os castiçais que havia ganho também... 

O senhor Myriel de "Os miseráveis" é o nosso padre Júlio Lancellotti da atualidade, um homem que realmente ama os pobres, os miseráveis.

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XIII. O pequeno Gervais

"Foi seu último esforço; os joelhos curvaram-se bruscamente, como se um poder invisível o oprimisse repentinamente com o peso de sua consciência; caiu esgotado sobre uma pedra, os punhos na cabeça e o rosto contra os joelhos, exclamando: 'sou um miserável!'

Então, com o coração partido, desatou a chorar. Era a primeira vez que chorava em dezenove anos!" (p. 150)

Se já não bastasse o roubo na casa do bispo, Jean Valjean fez aquela maldade com a criança, tomando dela aquela moeda de 40 soldos.

O narrador descreve a luta interna que estava sendo travada no coração de Jean Valjean. O perdão do padre estava liquidando seu endurecimento de anos de maus-tratos e seu ódio.

"(...) Uma voz dizia-lhe ao ouvido que acabava de atravessar o momento solene de seu destino, que já não tinha meio-termo; que, a partir de então, se não fosse o melhor dos homens, seria o pior; que agora precisava, por assim dizer, elevar-se acima do bispo ou ficar ainda abaixo do condenado; que, se quisesse tornar-se bom, deveria virar anjo, e, se quisesse continuar perverso, deveria virar monstro." (p. 150)

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COMENTÁRIO

A leitura de hoje me trouxe lembranças amargas de minha pré-adolescência e parte da vida adulta.

Essa parte final, na qual o narrador descreve a batalha interna do personagem Jean Valjean entre deixar-se derrotar pelo perdão do religioso e "perder" o endurecimento que ele adquiriu em 19 anos de humilhações e maus-tratos por parte do Estado e da sociedade humana e, ou se tornar uma pessoa boa, ou se tornar alguém mais duro e perverso do que vinha sendo até ali, me trouxe lembranças de quando lutei muito comigo mesmo para ser mau.

Foi um período terrível que vivi internamente do início da adolescência até perto dos trinta anos de idade...

Dureza! Não quero falar sobre o meu dilema. Só sei que compreendo o personagem Jean Valjean, quando gritava "Sou um miserável!".

William


Post Scriptum: para ler o comentário anterior sobre a leitura do livro, clique aqui. O comentário seguinte sobre o clássico pode ser lido aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Naruto (02/08/23)



Refeição Cultural

Osasco, 2 de agosto de 2023. Quarta-feira.


INTRODUÇÃO

Ao refletir sobre a leitura de mangás e do mangá do personagem Naruto, me lembrei do intelectual Alberto Manguel nos contando sobre a história das leituras no livro fantástico Uma história da leitura, de 1999 (comentário aqui). As leituras têm uma história.

Por que um cara com mais de cinquenta anos está lendo mangás do Naruto? Posso simplesmente dizer que estou lendo porque quero ou porque gosto, por isso ou por aquilo. Na verdade, não é preciso um motivo específico para ler algum tipo de gênero literário. E o contrário também é verdadeiro, pode ser que estejamos lendo algum tipo de literatura por diversos motivos.

De certa forma, comecei a ver animes e a ler mangás por um motivo sim, para ter contato com um tipo de cultura que jovens gostam, porque sou pai e seria legal conversar e trocar impressões sobre Histórias em Quadrinhos (HQ) e animes japoneses. Minha leitura de mangás tem uma história.

Comecei a ver animes com meu filho entre 2016 e 2017. Eu trabalhava em Brasília, longas jornadas, viajava muito, e me sobrava pouco tempo para estar com a família. O contexto familiar foi ficando bem complicado e eu me sentia mal por não poder mudar aquela situação de pouco contato com o filho.

Naquela época, era comum estarmos cada um num lugar durante semanas. Meu filho estudando no interior de São Paulo, minha esposa em Osasco e eu em Brasília. Foi então que pensamos em compartilhar algo que nos colocasse em sintonia, mesmo separados fisicamente. Decidimos ver anime. 

O primeiro anime que vimos em 2016, meu filho e eu, foi Death Note (comentário aqui). Meu filho é quem sempre escolhia os animes que veríamos. Ele é especialista no tema e tem excelentes sugestões para nós. Foi bem interessante a experiência do primeiro anime. 

Além de adquirir um conhecimento novo, os episódios geravam boas discussões entre nós. Quando não estávamos juntos fisicamente, víamos juntos os episódios: cada um no seu notebook dava o "play" no mesmo instante e víamos "juntos" o anime.

Depois passamos a ver alguns animes os três. Chegamos a ver episódios cada um num local diferente, como disse acima: eu em Brasília ou em algum hotel pelos cantos do Brasil, a mãe em Osasco e o filho em Jaboticabal. Família unida, vendo animes no computador ao mesmo tempo.

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Ao pesquisar sobre essa temática dos animes no blog, encontrei uma postagem saudosa dessa época. Estava sozinho em Brasília, família distante, fim do dia de trabalho na Cassi, passaria o fim de semana sozinho em casa, aí peguei um dos livros de ficção do filho para ler - O azarão, de Markus Zusak (ler comentário aqui). A postagem de 2017 me fez recordar essas lembranças que estou registrando aqui. 

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NARUTO - MASASHI KISHIMOTO


ANIME

Meu primeiro contato com o anime Naruto se deu em 2017. Como expliquei acima, estávamos assistindo animes como forma de nos mantermos unidos mesmo estando distantes uns dos outros.

No final daquele ano, já tínhamos visto 40 episódios do anime. Escrevi à época:

"Para dizer da impressão ou da mensagem que mais me chamou atenção até agora na história do garoto sem família, e que sofre com a forma como as pessoas de sua aldeia o tratam - com preconceito e discriminação - foi que ele não vive de chororô pelos cantos e não deixa que nada o impeça de olhar para a frente e seguir com determinação seu objetivo de ser o melhor ninja da aldeia." (ver postagem toda aqui)

O garoto Naruto é órfão e sua atitude perante a vida é de determinação na busca de seus objetivos. Ele não é um garoto que fica pelos cantos se lamentando pelos infortúnios da vida.

Na época, vimos toda a primeira parte de Naruto, quando ele deixa a Aldeia Oculta da Folha com Jiraiya para um treinamento que durará mais de dois anos.

Naruto Uzumaki é um dos três membros da "Equipe 7", treinada pelo sensei Kakashi Hatake. Seus companheiros de equipe são Sasuke Uchiha e Sakura Haruno.

A experiência de ver o anime Naruto é ampliada pela trilha sonora, que é fantástica. As músicas de determinados momentos da história já fazem parte de nossa experiência com Naruto.


MANGÁS

Agora, muitos anos depois, resolvi ler os mangás que deram origem ao anime e a experiência é bem diferente, e ambas são muito interessantes.

A edição brasileira da coleção de mangás do Naruto saiu pela Panini e contém 72 volumes, sendo a primeira parte até o volume 27, capítulos 1 a 244 e a segunda parte vai até o capítulo 700.  

Levarei muito tempo para ler todos os volumes do mangá, mas tudo bem. E para ficar melhor ainda, estou revendo os animes à medida que avanço nos volumes do mangá.

Nos 4 primeiros volumes, revi a apresentação dos personagens principais: Naruto, Iruka sensei, Sasuke, Sakura e Kakashi, dentre outros da Aldeia Oculta da Folha. É bom citar também Konohamaru, o garotinho neto do Terceiro Hokage.

Os ninjas desenvolvem habilidades a partir de treinamento intensivo e uso de energia vital, seus chakras, e alguns ninjas trazem habilidades especiais herdadas de família ou adquiridas como é o caso do garoto Naruto, que traz em si a Raposa de Nove Caldas, derrotada numa batalha e selada dentro do garoto recém-nascido.

Após Naruto ser admitido na escola de formação de ninjas, eles saíram numa primeira missão com o sensei Kakashi e tiveram que lidar com vilões muito poderosos: Zabuza e Haku. 

Neste momento inicial, Naruto já desenvolveu seu principal jutsu, o Jutsu Clone das Sombras. Ele também tem um jutsu que causa sensação (risos), o Jutsu Sexy, que deixa qualquer homem no chão.

Post Scriptum: meu filho me lembrou de uma questão interessante no jutsu dos clones usado por Naruto: ele nunca teve família e ao criar clones de si mesmo acaba sendo uma habilidade que dialoga com a solidão que o acompanhou ao longo da infância. Tem um sentido psicológico aí...

Enfim, seguimos em contato com todas as formas de cultura e conhecimento. Animes e mangás são de uma riqueza cultural imensa e eu recomendo a experiência para todas as pessoas.

William