segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (9) - Epigrama, Cecília Meireles



EPIGRAMA - CECÍLIA MEIRELES


A serviço da Vida fui,

a serviço da Vida vim;


só meu sofrimento me instrui, 

quando me recordo de mim.


(mas toda mágoa se dilui:

permanece a Vida sem fim.)


Do livro Vaga Música, de 1942

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COMENTÁRIO:

Este Epigrama de Cecília Meireles é danado! Danado!

Quanto mais leio, mais me identifico com ele. 

É muito conceito em tão poucas linhas! Abrangente.

Seis versos! Muitas vidas!

Fiquei vendo minha vida passada num filme rápido, como aquele delírio de Brás Cubas, que viu todos os séculos em instantes.

Dos dez aos vinte, dos vinte aos trinta, dos trinta aos cinquenta... servir servir servir às vidas dos outros, pra sobrar quase nada pra nós, pra 99% de nós todos.

A gente até que tenta ter nossos momentos, momentos de olhar pra nós mesmos... 

Mas logo em seguida, a prioridade em nós mesmos se vai, e volta a servidão total aos outros, às coisas sem importância, às futilidades.  

Certas classes, certas castas, são ambientadas desde pequenas a servir. Outras, a sorver a servidão dos outros. 

Nossos eus são engaiolados num viver para servir, de maneira que não nos sintamos à vontade quando o sentido do viver sejamos nós mesmos, nossos sonhos e prazeres. 

Quando nos damos conta, já estamos no servir aos outros, às coisas, ao invés das coisas nos servirem.

Nisso, o tempo todo, voltamos à "Vida sem fim", sem um fim consciente e desejoso do fundo de si.

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CONHECENDO CECÍLIA MEIRELES

Ganhei de presente a coleção completa dos poemas de Cecília Meireles. Já li os 7 primeiros livros dela. 

Vaga música é seu 8° livro de poesia.

Sigamos lendo poesia neste mês de dezembro. 

William Mendes 


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


Frei Betto: una biografía (3)



Refeição Cultural 


A profundidade do conteúdo do livro biográfico sobre o dominicano Frei Betto é incrível! Ganhei o livro de presente do próprio autor numa oportunidade histórica que tive neste ano de estar com ele por três dias na 32ª Feira Internacional do Livro em Havana, Cuba, evento realizado em fevereiro de 2024.

A leitura do livro tem sido lenta - é um estudo -, é feita na exata medida de tempo necessária para refletir a quantidade enorme de informação histórica contida a cada dez ou vinte páginas. A história da vida de Frei Betto se confunde com a nossa história de vida do povo brasileiro, história das lutas da esquerda por independência e protagonismo político e por uma vida melhor para o povo.

No capítulo que iniciei a leitura hoje "Movimiento popular y campañas presidenciales de Lula", aprendi sobre a participação central de Frei Betto na articulação, junto com os movimentos organizados no país, da criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Central dos Movimentos Populares (CMP), através da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais (ANAMPOS), na qual ele era o secretário geral.

É muita história!

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Conceitos que me chamaram a atenção

"acontecimentos biográficos"

Logo no início do capítulo, fiquei pensando a respeito dos chamados "acontecimentos biográficos". 

Quais seriam os acontecimentos biográficos em minha vida? Sem dúvida, a entrada para o movimento sindical brasileiro, em 2002, foi um acontecimento que mudou minha vida.

No livro se explica que "acontecimentos biográficos" são "eventos fundacionales que marcan una nueva etapa en la vida." (p. 293)

"Construtor de pontes"

Também fiquei pensando na grandeza do papel de pessoas que são construtoras de pontes entre grupos sociais e segmentos representativos de setores da sociedade humana. Sem dúvida, o presidente Lula e Frei Betto são dois grandes exemplos humanos de pessoas que constroem pontes.

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Livros

Fiquei com meus botões pensando nas minhas lacunas culturais... eu ainda não li livros centrais nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Dois deles são os livros do Frei Betto "Batismo de sangue" e "Fidel e a religião".

Quem sabe um dia eu os leia. O tempo disponível para tudo que quero aprender e conhecer é limitado em relação ao desejo de saber, mas pelo menos me esforço para estudar e ler todos os dias de minha vida, ainda hoje, retirado do movimento sindical e com mais de 55 anos de idade. Sigo tentando aprender algo todos os dias de minha existência. 

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ANAMPOS: bloco combativo x Unidade Sindical 

Da leitura que fiz, achei interessante essa parte:

"En los años siguientes, la disputa política entre los dos bloques se intensificó, lo que tornó inviable la formación de una entidad intersindical como se previera y aprobara en la CONCLAT. En agosto de 1983, el bloque combativo, con un importante apoyo de la ANAMPOS, fundó la CUT. Meses después, en noviembre, Unidad Sindical lideró la creación de la Coordinación Nacional de la Clase Trabajadora (CONCLAT), que en 1986 daría origen a la Central General de los Trabajadores (CGT). Quedaba sellada la división del sindicalismo brasileño." (p. 297/298)

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COMENTÁRIO FINAL

Enfim, da quantidade enorme de informações lidas hoje, achei interessante a questão sintética de que a ANAMPOS teve importância primeiro na criação da CUT, através da CONCLAT, e depois na criação da CMP.

Os debates e diferenças entre os diversos grupos e movimentos que participaram dessas construções passaram por pontos como a necessidade de independência das organizações em relação a partidos e governos. Isso eu aprendi assim que entrei para o movimento e me tornei um estudioso de nossas histórias de lutas.

O que eu não tinha uma noção mínima era a questão do papel desse intelectual militante dos movimentos, o dominicano Frei Betto.

A gente tem muito que aprender, isso eu tenho claro!

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HISTÓRIA DO BRASIL

Segue abaixo um excerto que gostei sobre a ANAMPOS e as lutas do final dos anos setenta e dos anos oitenta e noventa no Brasil.


Documento de Monlevade (reunião de 7 a 9 de fevereiro de 1980)

"Al finalizar la reunión se divulgó el Documento de Monlevade, que reunía un conjunto de propuestas para el fortalecimiento del movimiento sindical. Las más importantes eran el combate al régimen dictatorial, que no podría hacerse ni por vía de la 'transacción política' entre el gobierno y la oposición parlamentaria, ni por la del 'vanguardismo político' desvinculado de las bases populares, sino por intermedio de la movilización de la clase trabajadora; la acción sindical, cuyo norte debían ser principios como la convivencia democrática con las oposiciones; la desvinculación entre el sindicato y el partido político; la ampliación de los vínculos intersindicales; la democratización de la estructura interna del sindicato; y el estímulo a la articulación entre las luchas sindicales y las del movimiento popular." (p. 295/296)

O papel de Frei Betto na organização:

"Al término de la reunión, Betto fue electo secretario general del grupo." (p. 296)

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Sigamos lendo e aprendendo.

William Mendes


domingo, 8 de dezembro de 2024

Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva (4)



Refeição Cultural 

"Eu deveria vingar a morte do meu pai? Comprar um revólver e ir, de um em um, atirar na cabeça? Com dezessete, dezoito, dezenove anos eu não era maluco o suficiente para partir pra guerra. Era da paz. Era um pacifista. Alguns nomes dos torturadores envolvidos já tinham sido divulgados nas declarações oficiais do próprio Tribunal Militar. Bastava consultar o catálogo telefônico do Rio de Janeiro e ir de um em um, sabe quem eu sou?, pá, sabe de quem sou filho? pá, olha pra mim, pá. Mas lutar pela democratização seria uma vingança mais efetiva, e esperar que a Justiça numa nova democracia fizesse a sua parte. O que espero até hoje." (p. 194)


Demais essa declaração do Marcelo Rubens Paiva! Tiro o chapéu para ele.

Estou na terceira parte do livro. Marcelo fala bastante de sua mãe, Eunice Paiva. Nessa parte falou também de seu período de estudos universitários. 

Toda vez que é abordada a progressão do Alzheimer em sua mãe, eu fico muito abalado. Acho uma sacanagem da natureza alguém ter essa doença. 

A cada página contando a história de Eunice e Marcelo e suas irmãs, mais aumenta meu respeito e admiração por todos eles.

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Li notícia hoje que está parado há dez anos os pedidos de julgamento dos responsáveis pelo assassinato de Rubens Paiva. Alguns acusados estão vivos, livres, leves e soltos entre nós...

A família espera por justiça até hoje! Todos nós esperamos por justiça para esses casos de crimes praticados pelo Estado brasileiro. 

William Mendes 


A Comédia Humana - Honoré de Balzac (5)



Refeição Cultural 

"Balzac [...] nos dá, em A comédia humana, a história mais maravilhosamente realista da société francesa [...] descrevendo sob forma de crônica de costumes, quase de ano a ano, de 1816 a 1848, a pressão cada vez maior que a burguesia ascendente exercia sobre a nobreza que se reconstituíra depois de 1815 e que, tant bien que mal, na medida do possível, levantava outra vez a bandeira da vielle politesse française..."* (p. 49)

* Carta de Friedrich Engels a Margaret Harkness em Londres, abril de 1888. (N.E.)


Hoje retomei a leitura de Balzac, iniciada meses atrás. O Volume 1 de minha coleção começa com uma biografia do escritor, feita por Paulo Rónai. 

Na parte que estou, Rónai descreve o quanto Balzac era de direita e conservador. Mesmo assim, sua condição pessoal não prejudicou ou interferiu na qualidade de sua produção textual. 

Uma prova disso é a avaliação que o marxista Engels faz da monumental obra A Comédia Humana, décadas depois do falecimento de Balzac. 

Enfim, vamos terminar o ano lendo e aprendendo mais sobre literatura. 

William Mendes 


Leitura de poesia (8) - Tó pra vocês!, Maiakóvski



TÓ PRA VOCÊS!* - MAIAKÓVSKI


Daqui a uma hora, pelas vielas obscuras,

vocês despejarão suas flácidas gorduras,

e eu tantas prendas de versos lhes ofereço,

eu, que desperdiço e disperso palavras a qualquer preço.


Homens, restos de couves nos bigodes, 

sobra de sopas malcozidas e insossas;

mulheres, sob crostas de alvaiade,

como ostras na concha das coisas.


Ante a borboleta que é o coração dos poetas,

atolem-se na lama, com ou sem galocha.

A turba se enfurece, se esfrega e desabrocha, 

o piolho de cem cabeças eriça suas patas.


E se hoje, bárbaro rapace,

não quero provocá-los com facécias,

posso rir e cuspir com todo o apreço,

cuspir em sua face,

eu, que disperso e desperdiço palavras a qualquer preço. 


Poema de 1913

Tradução: Augusto de Campos


*O título do poema, nate! (lê-se: "natie"), tem o significado genérico de "Tomem isto!", "Essa é pra vocês!". O tradutor alude aqui a uma frase de Décio Pignatari inscrita na capa de Teoria da Poesia Concreta (1965), acompanhada da imagem do "amigo da onça", personagem famoso do cartunista Péricles, da revista O Cruzeiro, "dando uma banana" e, dentro do balão, escrito: "Tó pra vocês, chupins desmemoriados!" ("Tó", abreviação de "Toma").

Vocabulário:

Alvaiade: maquiagem tóxica do passado, feita à base de carbonato de chumbo, conhecida como "Cerusa Veneziana".

Facécias: gracejos, pilhérias.

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COMENTÁRIO:

Hoje não foi fácil escolher um poema para postar e comentar algum sentimento ou interpretação. 

Li quinze poemas de Maiakóvski para escolher "Tó pra vocês!". Fiquei entre esse e "Ruidinhos, ruídos e ruidaços".

Para mim, a leitura dos poemas desse poeta não é fácil. Não sou bom leitor de poesia. Tenho que ler, ler e ler várias vezes cada poema para senti-los melhor.

Gostei das imagens do poema, do cenário das vielas obscuras com homens e mulheres se esfregando como se bichos fossem. 

E, no fundo, somos isso mesmo: uma turba que "se enfurece, se esfrega e desabrocha".

Enquanto isso, alguns de nós insistem em seguir dispersando e desperdiçando palavras a qualquer preço. 

Sigamos assim!

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


sábado, 7 de dezembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (17) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Vi ali moedas gregas (tetradracmas de prata, didracmas áticas, dracmas, óbolos, calcos e leptons de bronze), romanas (denários de prata, sestércios de latão, dispondios ou assarius, semis e quadrantes) e, naturalmente, todas as divisões da moeda judaica (denários, maas e pondios, todas de prata, e asses, musmis, kutruns e perutás de bronze, entre outras)." (p. 161)


O cenário é Jerusalém no ano 30, dia 2 de abril. Jesus de Nazaré está com seus discípulos nos arredores do santuário dos judeus. 

O narrador, Jasão, está acompanhando presencialmente, como pode, os acontecimentos descritos nos livros sagrados. Ele viajou no tempo numa operação chamada "Cavalo de Tróia".

Logo veremos, como leitores dos relatos, a treta que rolou entre Jesus e os cambistas no templo. Jasão disse que a passagem histórica será no dia seguinte, dia 3.

É isso. Seguimos na releitura desta narrativa incrível. Li o livro na adolescência e décadas depois ainda me surpreendo com a verossimilhança com que Benítez nos conta a história de Jesus. 

William Mendes 


Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (11)



Refeição Cultural 

"(...) Essencialmente, o jogo foi reduzido ao embate entre vinte e dois homens semirrobóticos, que colocam em prática estratégias táticas e comandos definidos por simulações rodando em supercomputadores rivais, que se digladiam continuamente no ciberespaço..." (p. 186)


Depois de semanas sem ler o romance de Nicolelis, li hoje o Capítulo 11 "Uma declaração de guerra numa partida de futebol".

Estou lendo vários livros ao mesmo tempo. Como faço pequenas postagens da leitura, retomo facilmente qualquer livro em andamento. 

Da leitura deste capítulo, no qual os homens e jogadores do futuro próximo, 2036, estão com diversas parafernálias tecnológicas implementadas em si, fiquei pensando no ano de 2024...

Só para ficar no tema do capítulo - futebol - vivemos no momento a morte do esporte mais popular do mundo. 

Além da desgraça do VAR ter acabado com a graça e encanto do futebol, do momento do gol, temos as BETs, cassinos virtuais que corromperam os resultados do esporte no mundo todo.

É isso... o escritor inteligentíssimo usou de sua percepção da realidade para desenhar um futuro logo ali.

Sigamos na leitura. 

William Mendes 


Post Scriptum: clique aqui para ler o comentário seguinte.


Leitura de poesia (7) - Llaneza, Jorge Luis Borges



LLANEZA - JORGE LUIS BORGES

           A Haydée Lange


Se abre la verja del jardín

con la docilidad de la página

que una frecuente devoción interroga

y adentro las miradas

no precisan fijarse en los objetos

que ya están cabalmente en la memoria.

Conozco las costumbres y las almas

y ese dialecto de alusiones

que toda agrupación humana va urdiendo.

No necesito hablar

ni mentir privilegios;

bien me conocen quienes aquí me rodean,

bien saben mis congojas y mi flaqueza.

Eso es alcanzar lo más alto,

lo que tal vez nos dará el Cielo:

no admiraciones ni victorias

sino sencillamente ser admitidos

como parte de una Realidad innegable,

como las piedras y los árboles.

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COMENTÁRIO:

Fiquei dias pensando neste poema de Borges. Na minha interpretação, o poema fala de pertencimento:

"que toda agrupación humana va urdiendo."

Cada verso, cada imagem, vai nos fazendo sentir o acolhimento que eventualmente o leitor ou leitora sinta ao chegar no ambiente ao qual pertence: 

"bien me conocen quienes aquí me rodean,"

Por outro lado, se sente também o amargor de não se ver mais pertencente a um ambiente que te compõe "cabalmente en la memoria".

Me lembrei de uma cena de cinema, do filme "Highlander" (1986), do banimento de Connor MacLeod de seu clã sem que nada de errado tivesse feito para merecer a proscrição do mundo ao qual pertencia.

Ao ler o poema "Llaneza", de Borges, senti uma "nostalgia" no sentido espanhol da palavra: "tristeza o pena que se siente al estar lejos de las personas y de los lugares queridos" (Señas, Martins Fontes, 2001)

As reuniões de família na casa da vó Deolinda, da vó Cornélia, da casa de meus pais; o pertencimento ao movimento sindical. As pessoas conheciam a gente, nossos anseios e fraquezas, mas éramos admitidos como parte daquela realidade...

Hoje não tenho mais pertencimento (me falta alcançar o mais alto...). 

Nostalgia...

William Mendes 


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (6) - Ai Jesus!, Álvares de Azevedo



AI JESUS! - ÁLVARES DE AZEVEDO 


Ai, Jesus! não vês que gemo,

Que desmaio de paixão 

Pelos teus olhos azuis?

Que empalideço, que tremo,

Que me expira o coração?

               Ai Jesus!


Que por um olhar, donzela,

Eu poderia morrer

Dos teus olhos pela luz?

Que morte! que morte bela!

Antes seria viver!

               Ai Jesus!


Que por um beijo perdido 

Eu de gozo morreria 

Em teus níveos seios nus?

Que no oceano dum gemido

Minh'alma se afogaria?

               Ai Jesus!

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COMENTÁRIO:

Amores reais ou platônicos, em sociedades do passado ou do presente, entre iguais ou divergentes, amores, humanos sentimentos, abstrações criadas pela mente humana. 

Ao ler sobre o poeta brasileiro Manuel Antônio Álvares de Azevedo, fiquei pensando na vida do autor. O paulistano morreu aos 21 anos de idade! Mal teve vida adulta.

Ele viveu suas duas décadas de vida naquele Brasil dos anos 1831 e 1853, entre São Paulo e Rio de Janeiro. São Paulo, a cidade no morro, lá em cima no planalto, que tinha cerca de 15 mil habitantes, ladeiras de barro pra lá e pra cá. 

Pelo que li na seção de informações da edição que tenho - "É Help" - quase toda a criação poética e literária de Álvares de Azevedo foi reunida e publicada após sua morte.

Os críticos classificam sua criação poética no período do Romantismo brasileiro. 

A leitura de poemas como os da poética de Azevedo é uma leitura gostosa por causa das rimas, da sonoridade. 

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É isso! Seguimos lendo poemas neste mês de dezembro. Não tenho muita coisa nova em casa, vou continuar a leitura dos livros dos autores que tenho e que iniciei neste mês.

O tempo é curto também. O importante é um pouco de contato diário com poesia. Só para atiçar a mente e o coração.

William Mendes


Bibliografia:

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Coleção Vestibular, O Estado de São Paulo. Klick Editora: São Paulo, 1999.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Diário e reflexões


Foto feita por Sandro Sedrez, adaptada por mim.


Refeição Cultural

Osasco, 5 de dezembro de 2024. Quinta-feira.


Estamos nos aproximando do fim de mais um ano em nossas vidas. Que poderia registrar nesta página pública de pensamentos, reflexões e troca de informações entre o autor do blog e seus leitores e leitoras?

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OS VÍRUS ESTÃO POR AÍ

Poderia começar falando a respeito de saúde e prevenção de doenças. Estamos todos em casa com Covid-19, apesar de só termos feito o teste em um de nós. Todos estão com os sintomas, cada um com seu efeito corporal. Felizmente, nossa família não é negacionista e desde o início da pandemia mundial tomamos cinco doses de vacina.

Provavelmente, eu fui o primeiro que contraiu o vírus no voo de ida para Ushuaia, Argentina. O passageiro atrás de mim espirrou sem parar. No segundo dia, lá na Terra do Fogo, comecei a ter coriza e espirrar muito e tive uma crise de rinite. Achei que era coisa do quarto do hotel. 

A forma como se contrai o coronavírus é sempre incerta, é uma hipótese ou suposição. O certo são os resultados dos exames, e deu positivo quando minha esposa fez o teste ontem, pois ela havia perdido o olfato.

Ela passou a ter os mesmos sintomas que tive uns três dias depois de mim, ainda em Ushuaia. Eu ferrei minha audição nos voos de volta por estar com as fossas nasais constipadas, estou meio surdo até hoje. Minha companheira veio achando que estava gripada. Chegando em casa, o filho começou com os mesmos sintomas. Feito o teste ontem, deu positivo para Covid.

Ninguém fala mais sobre a pandemia. Quase ninguém usa máscara. Eu sempre uso quando pego transporte público com muita gente. Infelizmente, não usei no avião: vacilo e preguiça. E nos passeios lá em Ushuaia, cheios de estrangeiros de tudo quanto é lugar, também não usei. Mas as cepas dos vírus de Covid continuam entre nós. Fiquem atentos a lugares com grandes aglomerações.

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SÓ O CONHECIMENTO LIBERTA

Aqui no blog falo sempre de educação, cultura, de compartilhamento de conhecimento. Paulo Freire diz que só se educa gente. Temos que educar as pessoas, temos que achar uma forma de fazer o que Frei Betto está dizendo faz tempo, e quase toda semana, que temos que desenvolver um projeto nacional de educação política e libertadora para o povo brasileiro. O dominicano disse recentemente que temos que tirar Paulo Freire da gaveta se quisermos salvar o Brasil e evitar o pior nas eleições de 2026.

Durante dezesseis anos como dirigente da classe trabalhadora, procurei fazer a minha parte neste projeto emancipador de educar e politizar as pessoas, no meu caso, eu estudava todos os dias - todos os dias - e trocava informações e conhecimentos com os bancários e bancárias que eu representava nos mandatos políticos que exercia. Se era negociador, estudava tudo sobre o banco onde trabalhava; se fosse falar de história das lutas, comia História antes. Quando fui gestor de autogestão em saúde, estudei até quase secar os miolos, como o senhor Alonso Quijana que virou Dom Quixote.

Na época que representei, inovei na comunicação virtual para somar a nova ferramenta de comunicação - blogs - ao trabalho presencial que fazia. Vejo os registros de meus diários e ainda me surpreendo ao ler o quanto eu trabalhava para cumprir agendas diversas, pois ao mesmo tempo que um sindicalista tem atividades práticas nas bases - paralisações, reuniões políticas etc - eu estudava tudo que entendia ser necessário para ser um bom representante dos trabalhadores.

No filme "Eles não usam Black-tie" (1981), de Leon Hirszman, com Gianfrancesco Guarniere e Fernanda Montenegro, o personagem explica ao filho o que é ser um bom representante sindical e liderança dos trabalhadores. Diz ao filho que havia furado uma greve que ele tinha que estudar e ser bom no trabalho que fazia, e não ser um pelego e puxa-saco de patrão. O pai era líder porque era bom funcionário, além de ser um bom companheiro de seus colegas na luta.

Enfim, eu ainda quero aprender coisas novas todos os dias. E quero compartilhar conhecimento com as pessoas para melhorarmos o mundo, melhorando as pessoas.

Leiam, estudem, façam o mundo um lugar melhor para a coletividade e não só para o seu umbigo.

Além de meus estudos diários, de linguagem, de literatura, de história e política etc, estou estudando temas diversos como associado do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Acredito no potencial do projeto que o ICL significa. É revolucionário quando penso que é quase gratuito tudo o que há disponível na plataforma do instituto.

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MEUS BLOGS CONTÊM CULTURA, HISTÓRIA E PERCEPÇÕES DA SOCIEDADE HUMANA

Estou trabalhando na revisão e organização de meus blogs: são mais de cinco mil postagens das mais variadas temáticas da vida humana.

Modéstia à parte, ao reler textos e temáticas antigas no blog, às vezes me pego pensando como foi que fiz aqueles textos... alguns são bons e envelheceram bem. Interessante isso.

Eu sonhei em ser professor. Não fui. As veredas pelas quais andei me levaram para outros destinos. Escrever com honestidade o pouco que sei e que aprendi em algum estudo é uma forma de passar adiante conhecimento. É minha contribuição ao estilo "wiki" (What I Know Is...)

Fico por aqui.

William Mendes


Post Scriptum (dia seguinte): li no ICL que os testes positivos para Covid subiram de 9 para 17,5% em um mês no Brasil. Tem uma nova cepa circulando, uma tal XEC, identificada primeiro na Alemanha. Se cuidem.


Leitura de poesia (5) - Martín Fierro (I), José Hernández



EL GAUCHO MARTÍN FIERRO - JOSÉ HERNÁNDEZ

I

Aquí me pongo a cantar...

(...)

Cantando me he de morir,

cantando me han de enterrar,

y cantando he de llegar

al pie del Eterno Padre;

dende el vientre de mi madre

vine a este mundo a cantar.

(...)

Soy gaucho, y entiendanló

como mi lengua me explica:

para mí la tierra es chica

y pudiera ser mayor;

ni la víbora mi pica

ni quema mi frente el sol.

(...)

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COMENTÁRIO:

Martin Fierro é um clássico! Esse eu conheço. É uma leitura deliciosa! De uma sonoridade cativante, o leitor não consegue parar.

José Hernández publicou a primeira parte do poema em 1872 e a volta sete anos depois. 

A arte e as diversas manifestações culturais das comunidades humanas são provas de nossas possibilidades enquanto seres dotados de inteligência. 

Por que a tendência dos donos do poder é atuar de forma violenta e opressora para emburrecer e tornar as pessoas ignorantes e estúpidas?

Espécie contraditória essa nossa. Poderíamos ser como deuses se todos fossem educados. 

Comprei a edição que tenho em Buenos Aires em 2012.

William Mendes 


Bibliografia:

HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. - 1a ed. - La Plata: Terramar, 2007.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (4) - O Albatroz, Baudelaire



O ALBATROZ - BAUDELAIRE 


Às vezes, por prazer, os homens de equipagem

Pegam um albatroz, enorme ave marinha, 

Que segue, companheiro indolente de viagem, 

O navio que sobre os abismos caminha.


Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,

Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado, 

Deixa doridamente as grandes e alvas asas

Como remos cair e arrastar-se a seu lado.


Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!

Ave tão bela, como está cômica e feia!

Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo, 

Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!


O Poeta é semelhante ao príncipe da altura

Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;

Exilado no chão, em meio à corja impura,

As asas de gigante impedem-no de andar.


Recriação de Guilherme de Almeida 

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COMENTÁRIO:

Charles Baudelaire é outro clássico que não conheço bem. Esse poema fantástico "O Albatroz" já conhecia por tê-lo visto em sala de aula na USP.

A imagem do albatroz no convés do navio todo desajeitado por não ser ali seu ambiente de glória, os céus, comparado ao poeta que não se sente à vontade fora de seu mundo idealizado é incrível!

Claro que Baudelaire pertenceu a uma escola de arte, a uma época específica, que não representa a totalidade dos poetas. 

Para muitos poetas, estar no seio do povo (a corja) seria estar como o albatroz soberano nos céus. 

Seguimos lendo poesia neste mês de dezembro. 

William Mendes 


Bibliografia:

ALMEIDA, Guilherme de. Flores das "Flores do Mal" de Baudelaire. Introdução de Manuel Bandeira. Carvões de Quirino. Ilustrações de Rodin. Clássicos de Bolso, Ediouro/20349.


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (3) - Prelúdios, T. S. Eliot



PRELÚDIOS - T. S. ELIOT

I

O entardecer de inverno se acomoda, 

Cheiro de bife que entre as casas passa.

Seis da tarde. 

As pontas desses dias de fumaça. 

E agora a chuva repentina inunda

A escória imunda 

Das folhas murchas postas aos teus pés 

E dos jornais do terreno baldio;

A chuva cai mofina

Em persianas rotas, chaminés, 

E preso a um coche logo ali na esquina, 

Ferve um cavalo inquieto no frio.


E logo cada poste se ilumina.

(...)


Poema de 1917

Tradução:

Caetano W. Galindo

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COMENTÁRIO:

Eliot é mais uma de minhas lacunas culturais. A lista de autores dos quais nunca li nada é enorme. Confesso com humildade. 

Após ler os primeiros poemas de seu primeiro livro "Prufrock e outras observações", de 1917, escolhi postar a parte I do poema "Prelúdios". É a que mais gostei até agora. 

Seu poema mais famoso é "A terra devastada", de 1922.

Ao ler algumas páginas do excelente "Posfácio" feito por Galindo fiquei perplexo com as curiosidades da vida do autor, que foi um bancário e depois editor.

T. S. Eliot foi contemporâneo a Ezra Pound, Virginia Woolf, James Joyce e outras celebridades do mundo das artes e cultura de sua época. 

Ele ganhou o Nobel de Literatura. Eliot nasceu nos Estados Unidos e desenvolveu boa parte de sua carreira na Inglaterra. 

É isso. Contatei nesses três primeiros dias de leitura de poesia poetas que não havia lido ainda: Jorge Luis Borges, Maiakóvski e T. S. Eliot. 

Vamos ver o que invento para amanhã. 

William Mendes


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (2) - Porto, Maiakóvski



PORTO - MAIAKÓVSKI


Lençóis de água sob um ventre pando.

Rasgam-se em ondas contra dentes brancos.

Amor. Lascívia. Como o uivo que escorre 

das chaminés por gargalos de cobre.

No berço-embocadura barcos presos

aos mamilos de madres de ferro.

À orelha surda dos navios agora

rebrilham brincos de âncora. 


Poema de 1912

Tradução: Haroldo de Campos

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COMENTÁRIO:

Consegui ler os primeiros poemas de Maiakóvski num silêncio meio raro em casa*.

Li algumas vezes as duas traduções do poema "Noite". Depois li o poema "Manhã".

Ao ler o poema "Porto" compreendi um pouco melhor a poética do autor. O mesmo quando li "Eu".

Maiakóvski brinca com as imagens: orelha de navio com brinco de âncora, barcos presos aos mamilos do porto etc **.

Não são poemas como aqueles que estou acostumado a ler. Legal.

* Além de estar um ambiente silencioso no momento, estou surdo faz uns quatro dias, após um voo com as fossas nasais congestinadas.

** No livro (p. 35), Boris Schnaiderman diz sobre esse poema: "(...) a estranheza aparece sublinhada pelo contraste entre as imagens ousadas e os elementos tradicionais na construção do poema..."

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O desafio de ler poesias neste mês será interessante. Vou experimentar o novo, o diferente, e quando for poeta que conheço, poemas que não tive contato ainda. 

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


domingo, 1 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (1) - El Sur, Jorge Luis Borges



EL SUR - JORGE LUIS BORGES


Desde uno de tus patios haber mirado

las antiguas estrellas,

desde el banco de sombra haber mirado

esas luces dispersas 

que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar

ni a ordenar en constelaciones,

haber sentido el círculo del agua

en el secreto aljibe,

el olor del jazmín y la madreselva,

el silencio del pájaro dormido,

el arco del zaguán, la humedad

- esas cosas, acaso, son el poema.


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COMENTÁRIO:

Ler este poema de Jorge Luis Borges, tendo voltado esta semana de Ushuaia, na Argentina, me fez pensar no céu que se vê de lá. A foto que ilustra a postagem é um instante do céu de Ushuaia, no Extremo Sul da Argentina.

Pretendo ler poesia neste mês de dezembro, ao menos um poema por dia. Comecei com Borges por ainda estar encantado com a viagem que fizemos à Tierra del Fuego, ou Terra do Fim do Mundo.

El Sur, é lá que estivemos. 

William Mendes


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges - Alianza Editorial. Publicado originalmente em 1981. Décima reimpresión: 2005.