domingo, 6 de setembro de 2020

Despedida - Glória Abdo


(reprodução de matéria da Rede Brasil Atual)


Aos 81, morre Glória Abdo, militante histórica da luta dos bancários e do sindicalismo cidadão


Glória Abdo – pioneira da causa feminista no mundo do trabalho, do sindicalismo cidadão, da dignidade da pessoa idosa – é parte das conquistas dos bancários e da luta democrática do Brasil


Glória abominava a expressão "melhor idade". Foi referência em
causas feministas no mundo do trabalho, mãe solteira, duas vezes,
avó orgulhosa e eternamente inquieta em defesa da vida e da dignidade.
Foto: Alessandra Anselmi.

Por Paulo Donizetti de Souza / RBA

Publicado 06/09/2020 - 16h50


São Paulo – A ex-presidenta da Associação dos Bancários Aposentados de São Paulo (Abaesp), Maria da Glória Abdo, morreu neste domingo (6) na capital paulista, aos 81 anos, depois de anos de luta contra um câncer. Glória militou no movimento sindical bancário durante toda sua trajetória profissional no setor, iniciada após ingressar por concurso na Caixa Econômica estadual. O banco de fomento fundado no início do século passado virou banco múltiplo em 1990, transformado em Nossa Caixa. Em 2008, foi adquirido pelo Banco do Brasil. Com o negócio, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou a privatização do banco estadual.

Os aposentados da antiga Nossa Caixa tinham em Glória Abdo uma referência. Fosse em campanhas em defesa da população idosa ou contra ataques a direitos de trabalhadores, da ativa e aposentados – tanto nos governos neoliberais dos anos 1990 quanto no pós-golpe de 2016. Glória gostava de conversar, de namorar e festejar. Toda última sexta-feira do mês reunia companheiros de sua geração no baile dos aniversariantes do mês. Na Abaesp, ficava brava quando frequentadores afoitos passavam da hora de fechar o salão, 18h. Mas ficava feliz quando os mais jovens do sindicato, vizinho à associação, na Rua São Bento, pediam emprestada a mesa de sinuca para depois do expediente.

O movimento bancário foi passaporte para a luta política. Nascida em dezembro de 1938 em Ponta Porã (MS), Glória Abdo radicou-se em São Paulo em 1960. Ingressou no banco por concurso e lá se aposentaria três décadas depois. Começou a trabalhar em 1964 no prédio da Rua 15 de Novembro, no Centro Velho. Filiada ao Partido Comunista Brasileiro, o antigo PCB, em 1980 esteve entre os primeiros integrantes do recém-fundado Partido dos Trabalhadores. Feminista e socialista, Glória combinou ativismo político com a criação de duas filhas nascidas de “produção independente”.


Melhor idade?

Para a ex-bancária, ter sido mãe solteira por duas vezes, uma em 1967 outra em 1980, era motivo de orgulho. Adorava ser mãe e avó. E com o decorrer do tempo, a militância sindical no ramo financeiro foi ficando pequena para sua inquietude. Achava que os sindicatos podiam usar sua representatividade para influenciar a vida dos trabalhadores também fora de seus locais de trabalho. Como cidadãos. Foi, portanto, também pioneira do conceito de sindicato cidadão que marcou a reinvenção do movimento trabalhista após a redemocratização.

Em entrevista ao site do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Glória observava: “Este sindicato é um sindicato que nós podemos chamar cidadão, porque se envolve não só nas questões salariais dos bancários como também se envolve nos assuntos da cidadania e da democracia. Foi um dos que mais lutou contra a ditadura e luta ainda hoje contra este governo que está aí, de uma pessoa que não tem capacidade de governar".

Inquieta

Maria da Glória Abdo fez da Associação dos Bancários Aposentados um ponto de referência da luta em defesa da população idosa. Convidada a ajudar a organizar esse segmento dos trabalhadores nos anos 1990 – por Gilmar Carneiro, então presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo – ela construiu um grande capital político e humano. Abominava a expressão “melhor idade”, eufemismo usado pelo marketing para amenizar o momento mais delicado da vida das pessoas, justamente quando passam a ingressar numa rotina de fragilidade física, intelectual e social.

“Melhor idade?! Melhor idade é quando você passa na frente de uma construção e te assobiam. Isso sim é melhor idade. Atualmente não estão assobiando para mim, mas vão voltar a assobiar, ah, se vão…”, disse numa entrevista concedida à revista digital Longeviver. Glória fala também sobre seu engajamento na causa dos idosos em âmbito local (moradia e lazer) e federal – batalha por formulação de políticas públicas. E também nas causas das mulheres, dos jovens e da inquietude contra as injustiças que marcou sua vida.

“Perdemos uma das pessoas mais lutadoras que conheci. Fica a saudade e o bom exemplo de dignidade”, disse o ex-deputado e ex-ministro nos governos de Lula e Dilma, Ricardo Berzoini, ex-presidente do sindicato. “Lembrarei de você sempre de duas formas: incansável na luta por igualdade social e livre. Como a Glorinha era livre!!! Uma mulher sem amarras”, escreveu a atual presidenta da entidade, Ivone Silva.

Nota do Sindicato dos Bancários de S. Paulo, Osasco e Região

O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região lamenta profundamente a morte, ocorrida na madrugada de domingo 6, de Maria da Glória Abdo, Glorinha dos aposentados.

A despedida será no Velório Tatuapé (Rua David Zeiger, 330), Quarta Parada, das 14h às 17h.


Legado para o movimento sindical e social

Muito querida por todos do movimento sindical e social, Glorinha foi bancária da extinta Nossa Caixa e ainda lá, na década de 1970, liderou a luta das funcionárias pelo direito a creche, que futuramente inspirou o auxilio creche/babá, conquistado e adicionado à CCT (Convenção Coletiva de Trabalho), em 1981.

“Conhecemos a Glorinha, em 1976. Naquele ano, entraram dois mil bancários. Éramos uma molecada cheia de gás e com muita vontade de lutar e ela nos acolheu de pronto. Fazíamos um jornal clandestino chamado de ”O Reunião” e esse jornal era a voz dos funcionários contra a direita do banco. Muitas vezes, nos reunimos na casa da Glorinha para definir e escrever o conteúdo do jornal. Nunca teve ou demonstrou medo. Corajosa, combativa e sincera, foi uma das pessoas mais engajadas na luta da categoria bancária. Não só das mulheres, mas de todos”, lembra Antonio Saboia, diretor do Sindicato e amigo de Glorinha.


Aposentados

Glorinha também foi presidente da Abaesp (Associação dos Bancários Aposentados de São Paulo) e durante sua gestão (2013 – 2017), foi grande batalhadora pelos direitos da classe trabalhadora, em particular dos aposentados, defendeu a regulamentação da profissão de cuidador de idosos e debateu sobre políticas para pessoas idosas na cidade de São Paulo, na gestão Haddad.

Nascida em Mato Grosso do Sul, Glorinha mudou-se para São Paulo. E aqui foi reconhecida pela luta por igualdade e engajamento nos movimentos sociais com o título de Cidadã Paulistana.

O Sindicato agradece o legado e estende condolências a familiares e amigos.

Maria da Glória Abdo, presente!

Fonte: RBA

De homens e cavalos



Leão Tolstói.

Refeição Cultural

Quase nunca lembro sonhos ou pesadelos. Quase. Desta vez, tive um pesadelo e me lembro dele. Foi forte a cena, um horror! Um homem rasgava o próprio pescoço e nos olhava enquanto o sangue jorrava... despertei.

De manhã, ao acordar, me dei conta que o sonho ruim foi ainda consequência da leitura da noite anterior. Fiquei bastante impressionado com o conto de Tolstói: Kolstomer (História de um cavalo), escrito entre 1863 e 1886. Terminada a leitura da história daquele cavalo de raça malhado, fiquei com a cabeça a mil. Eu já havia lido o conto em 2008, mas não me lembrava dele.

"Sim, sou filho de Liubesni I e de Baba. Meu nome de linhagem é Mujique I. Sou Mujique I e, para os da rua, Kolstomer, assim apelidado pelo vulgo em razão de minha marcha ampla, que nunca teve igual em toda a Rússia. Não há no mundo um cavalo de sangue mais nobre que o meu..."

Em linhas gerais, o conto narra a história de um cavalo de raça, que nasce com a cor da pele diferente da de seus pares (nasceu mosqueado, malhado) e sua vida será marcada e definida por isso: a cor de sua pele. E ele terá uma vida desgraçada, mesmo sendo de linhagem nobre.

Tolstói faz várias críticas à sociedade a partir da história do cavalo Kolstomer. O escritor dá voz ao cavalo e as reflexões do animal em relação ao animal humano são profundas, duríssimas e mais atuais que nunca. O animal humano capitalista é colocado em seu devido lugar pelo animal cavalo.

Os humanos levam suas vidas baseadas na lorota, no faz de conta, na palavra e não através de fatos. É aquela lição de Cazuza "Suas ideias não correspondem aos fatos...". As principais palavras na linguagem do animal humano são os pronomes "meu", "minha", "teu", "tua". É a posse de tudo. 

"Minha casa", "minha mulher", "meu cavalo", "minha terra". Mas o sujeito nunca viveu na casa; é outro que fica com sua mulher; não é ele que alimenta e anda no cavalo; e nunca pisou na terra que diz ser sua. Todas essas verdades são apontadas pelo cavalo Kolstomer em suas observações sobre o animal humano.

E o conto é duro e violento como a vida é. A violência é como a violência que sofremos neste instante no país destruído e entregue aos fascistas, genocidas, bárbaros ignorantes, brancos da casa grande, bilionários e capatazes com os poderes nas mãos.

Enfim, o conto me deixou bolado. O final do conto é duro, é o cotidiano de todos que tiveram vidas miseráveis por preconceito, por mandonismo, por falta de oportunidades e liberdades. Dormi bastante impressionado.

Só para lembrar mais um caso de homens e cavalos, nunca me esqueço de um poema de Manuel Bandeira, que faz profunda crítica à sociedade burguesa, comparando seus membros a cavalos, enquanto observa cavalos na pista de corrida. O poema se chama "Rondó dos cavalinhos", do livro Estrela da Manhã (1936).

"Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo..."

Os versos vão se repetindo a cada estrofe, e para o leitor do poema vai ficando claro pela sonoridade das consoantes "nh... n... m... n..." (mmm) que ao olhar os graciosos cavalos correndo lá na pista, o que mais chama a atenção do eu lírico é o mastigar voraz dos animais humanos dentro do salão burguês onde se encontram num possível jóquei clube.

E, por fim mesmo, a história de Kolstomer, a brutalidade animalesca em que nos encontramos no país pós golpe de Estado e dominado pelo mal, tudo isso me fez lembrar do ambiente onde cresci, ainda no final da ditadura civil-militar dos anos 1964-1985, lá em Uberlândia. 

Eu tinha meus doze ou treze anos e via nas ruas de terra onde morava os cavalos e burros amarrados em postes sendo espancados para serem "amansados". Era muito grotesco aquilo. Às vezes, a sessão de tortura durava o dia todo. Cresci vendo aquilo. Mas a molecada também era bruta como seus familiares que espancavam cavalos...

Avançamos para um mundo um pouco mais civilizado nas décadas seguintes, com governos democrático-populares como os do Partido dos Trabalhadores no Brasil, para voltarmos à barbárie de novo agora, por golpe e entrega do poder aos semeadores do caos contra o povo. A humanidade parece não ter jeito mesmo... só acabando.

William


Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira. 14ª impressão. Rio de Janeiro, 2000.

TOLSTOI, Leão. Obra Completa, Volume III. Nova Aguilar, 2004.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

040920 - Diário e reflexões






Hoje foi a vez do aniversário de minha mãezinha querida: 74 anos de idade. Meus parabéns e muitas felicidades, mãe! Obrigado por tudo. Meu pai e minha mãe têm uma semana toda especial porque fazem aniversário em dias próximos e também comemoram a data de casamento deles, que foi no dia 5 de setembro de 1964. Saudades de vocês! Fiquem bem!


Tirando a alegria de poder comemorar a vida de pessoas queridas, o cenário em nosso mundo é causador de sentimentos tristes. A pandemia mundial de Covid-19 segue fazendo vítimas e mais vítimas no Brasil e no mundo. Nesta semana, a mãezinha de minha tia Regina foi mais uma das vítimas dessa tragédia. Nossa solidariedade a toda a família. Nossa solidariedade às famílias das vítimas do novo coronavírus. Não perderíamos tantas pessoas caso o país não estivesse na condição em que está: entregue ao caos e ao regime do mal.

Tenho me esforçado para aprender coisas novas e ganhar novos conhecimentos, assim ocupo a mente e evito que o ódio e a depressão me dominem e com isso evito que os nossos inimigos de classe nos vençam. Se depender de minha disposição, quero estar vivo para ver a mudança. O mal ainda avança, a destruição de tudo segue com o novo regime no comando do país, mas todos os dias são novos dias e as mudanças podem ocorrer tanto pela luta e rebelião dos povos oprimidos quanto pelo imponderável, que faz parte do acaso.

É isso. Sem muitas palavras para registrar hoje neste blog, que registra instantes do que está ocorrendo no "mundo, mundo, vasto mundo", como dizia o poeta Drummond.

William

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

À la Benjamin Button... (6)


4 de julho de 2020. Nesse dia, acompanhava de forma virtual
os bancários de Brasília em seu Congresso da campanha salarial.

Refeição Cultural


Olhar para trás...

Ao olhar para trás, e tentar compreender as coisas do presente, a gente até consegue entender um pouco porque as coisas são como são. Mesmo assim, é difícil compreender que a ciência tenha avançado em todas as áreas do conhecimento e ao mesmo tempo nós tenhamos regredido tanto coletivamente, no sentido inverso do avanço das ciências.

A sociedade humana está doente, está cheia de ódio, de intolerância, de egoísmo e individualismo. As pessoas viraram robôs e agem de forma automática para quase tudo em nosso cotidiano de vida humana. Ao agirmos assim, mudamos a forma de utilizar nossa inteligência, nosso cérebro, que havia se destacado ao longo da evolução das espécies.

Sabemos que os instintos e comportamentos de manada tiveram seus papéis na preservação da vida das espécies também. Mas ao longo do tempo, nosso cérebro passou a fazer diferença e nos desenvolvemos como seres racionais e passamos a dominar a natureza, através da ciência e da tecnologia, ferramentas que os demais seres vivos não têm. Será que vamos permitir que os trogloditas acabem com a ciência e a razão?

Agora estamos andando para trás. Massas humanas são manipuladas por poucas pessoas e seus sistemas de manipulação. E a vida no planeta Terra está em risco sério por causa disso. Aqueles que nos dominam com seus sistemas tecnológicos não pensam no amanhã do planeta, só pensam em si mesmos e no instante presente.

Enfim, estou olhando para trás e ao mesmo tempo olhando para a frente. É verdade que o tempo não anda para trás, como no Curioso caso de Benjamin Button. Enquanto indivíduo, a gente fica pelo caminho a qualquer momento, já que um ser vivo morre a qualquer tempo. Enquanto espécie, quando temos consciência disso, deveríamos agir coletivamente para que outros indivíduos perpetuassem nossa espécie e a vida fosse melhor para todos.

Palavras, palavras, palavras... ao vento, ou registradas em algum suporte material.

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FACEBOOK

A partir das reflexões que tenho feito, chego à conclusão que a empresa Facebook, onde boa parte de nós brasileiros temos um perfil, pode ter tido um papel interessante para seus usuários, mas as coisas foram mudando, ou foram ficando mais claras e agora sabemos que somos manipulados e utilizados para programas de manipulação de comportamento social e destruição de sociedades inteiras, países, relações, instituições.

Fico pensando em como me livrar dessa dependência à porcaria do Facebook. Penso em como minimizar os efeitos deletérios que essa empresa faz com meus dados e minhas informações. Por que escrever no Facebook se eles programam seus algoritmos para que ninguém veja que eu existo, para que ninguém saiba o que estou publicando lá? Tudo o que eles querem são meus dados, os dados de meus contatos e informações comportamentais.

E assim nos destruímos e nos deixamos destruir. Vou andar para trás naquele espaço vil que nos manipula e entorpece e nos robotiza.

William

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Espero um dia não ter mais nenhum dado meu naquela conta da rede social que manipula o mundo com os meus dados e com os dados de meus contatos...

Havia postado lá...

27/7/20

CELSO FURTADO, RODA VIVA, de 9/02/87.

Furtado é uma referência de muitos de nós. Acabei de rever a entrevista dele na TV Cultura. Ele era Ministro da Cultura do governo Sarney.

Fico pensando a reação hoje, em tempos de "cancelamento" de pessoas, ao ouvirem ele dizer que se orgulhava do governo Sarney, um governo que, segundo ele, gerou crescimento e emprego, distribuiu riqueza, e era nacionalista...

Política sempre terá dessas contradições... E elas são importantes, temos que ouvir as pessoas e debater (e não "cancelar" ou acabar com as pessoas que pensam diferente).

Aprendi política assim.

24/7/20

VÍDEO DO HENRY BUGALHO, DE 23/7/20, COM O TÍTULO "JÁ EXISTIA ESSE ÓDIO ANTES?"

Comentei na rede social e nos comentários do vídeo do youtuber:

De onde vem o ódio que destruiu o Brasil? Bugalho, jovem filósofo que gosto muito, faz uma reflexão sobre isso. No entanto, eu fico muito incomodado desses blogueiros de grande alcança aliviarem a culpa da grande imprensa em relação à morte da política e ao envenenamento do povo brasileiro. Escrevi para ele neste vídeo a respeito disso. Abraços e tod@s.

"Olá prezado Bugalho. Em primeiro lugar, quero dizer que aqui em casa somos admiradores seus: eu, minha esposa e filho. Bugalho, às vezes me sinto incomodado ao ver você e alguns blogueiros com grande audiência não serem mais enfáticos em alguns temas relativos à grande imprensa. Neste vídeo, por exemplo, você reflete junto conosco se já existia este ódio atual em nosso país, mas em nenhum momento você se baseia nos ataques orquestrados e executados contra Lula e o PT, CUT, MST, UNE etc, ataques "ad nauseam" pelos barões dos grupos Globo, Abril, Estadão e Folha, muito claramente após a eleição de Lula em 2002, ataques ininterruptos e parciais, abusivos e criadores das chamadas fake news atuais, pois foram anos a fio criminalizando os movimentos sindicais, estudantis, dos sem-terra, sem-teto, partidos de esquerda, principalmente o PT e suas lideranças (existem trabalhos acadêmicos sobre isso, dezenas de capas de Veja, dezenas de horas de JN), construindo julgamentos públicos contra determinado setor da sociedade (a esquerda), o mais progressista, e omitindo qualquer coisa negativa em relação aos seus partidos e grupos empresariais (tucanos, a direita em geral). Pulitzer tem frases famosas dizendo que uma imprensa vil, canalha, tem o poder de fazer seus leitores vis e canalhas. Bugalho, nós não viraremos essa página da história se lideranças e formadores de opinião continuarem passando pano para esses bilionários da mídia que destruíram o povo brasileiro. Você já citou Klemperer em seus vídeos e a linguagem do 3º Reich. O que a Globo e a Veja, junto com Estadão e Folha fizeram em mais de uma década de governos do PT foi muito semelhante ao que Klemperer descreve naquele trabalho fantástico. É isso. É a minha opinião. Acho que vocês deveriam dar mais nomes aos bois, os responsáveis pela transformação dos brasileiros nesses bárbaros são os jornalões e TVs e revistas dessas famílias e banqueiros. Abraços a você e família. William Mendes."

04/7/20

ORGANIZAÇÃO DA CAMPANHA NACIONAL DA CATEGORIA BANCÁRIA

Novos tempos, novas formas de reuniões e encontros. Enquanto acompanhamos os debates virtuais dos companheir@s do Distrito Federal, vemos a lua chegando...

(Com a postagem, coloquei a foto acima, do final de tarde e início de noite daquele 4 de julho)


terça-feira, 1 de setembro de 2020

A banalidade do mal - Datas que marcam




"(...) na Romênia, até a SS ficou perplexa, e às vezes assustada, com os horrores dos pogroms espontâneos, antiquados, de escala gigantesca; muitas vezes eles intervieram para salvar judeus da mais pura barbárie, para que o assassinato pudesse ser feito de maneira que, segundo eles, era civilizada." (ARENDT, 2019, p. 210)


Refeição Cultural

Li mais um capítulo do relato de Hannah Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann no ano de 1961 em Jerusalém. A experiência de acompanhar aquele evento possibilitou à filósofa o desenvolvimento do conceito de banalidade do mal. Como se pode ver, o alimento cultural é indigesto, mas é necessário conhecer as coisas.

Ontem foi dia 31 de agosto, dia que marcou o quarto ano do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (31/8/2016). Dia que oficializou a tomada do poder no Brasil pelo mal. Se houver sociedade civilizada no amanhã, essa será mais uma data como outras que a história registra como marcos de processos que levariam a tragédias humanitárias.

Hoje é dia 1º de setembro. Dia que marca o início da 2ª Guerra Mundial com a invasão da Polônia pelo regime nazifascista de Adolf Hitler em 1939. Há outras datas referidas como início desta guerra, mas esta é uma das mais consensuais pelos historiadores.

Por falar em banalidade do mal e nazismo, o dia 1º de setembro de 1939 também marcou a oficialização da palavra "eutanásia" na Alemanha nazista para assassinatos em massa de pessoas com deficiência e milhares de pessoas que eram consideradas pelos nazistas como indesejáveis de existir: judeus, comunistas etc.

Vejam abaixo uma citação do tema na Wikipediaprograma conhecido como "Aktion T4" (ver aqui o texto completo):

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Em outubro de 1939, Hitler assinou um "decreto da eutanásia" com a data retroativa a 1 de setembro de 1939, que autorizava Bouhler e Brandt a realizarem o programa de eutanásia (traduzido para o português como segue):

"O líder do Reich Philipp Bouhler e Dr. Brandt estão encarregados da responsabilidade de ampliar a competência de certos médicos, designados pelo nome, de modo que os pacientes, baseando-se no julgamento humano [menschlichem Ermessen], que forem considerados incuráveis, podem ser-lhes concedida a morte de misericórdia [Gnadentod] após exigente diagnóstico".

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Ainda sobre a banalidade do mal

No Brasil, a pandemia mundial do novo coronavírus já matou 121.381 pessoas e infectou 3,9 milhões. Isso não era necessário. Países com populações maiores ou idênticas a nossa perderam muito menos vidas porque os governos seguiram as recomendações da OMS e da ciência. Estamos sob um regime de governo de extrema direita, fascista e anticiência, que atua contra o combate à pandemia e que lidera a população rumo ao contágio e morte.

O regime demitiu dois médicos do Ministério da Saúde porque eles defendiam as recomendações da ciência e colocou no lugar mais um dos milhares de militares que tomaram conta dos postos do governo. A estratégia do novo regime é chocar com ações impensáveis para deixar o povo brasileiro com baixa estima e sem ânimo sequer para lutar. Nesta semana, o troglodita nomeou um veterinário para cuidar do tema de vacinação do povo brasileiro e afirmou que ninguém é obrigado a se vacinar.

Encerro por aqui e registro que 57.797.847 pessoas votaram nesses monstros que estão no poder e o apoio ao mal instalado no país segue acima de qualquer expectativa para uma sociedade que sonhasse com a civilidade. As pessoas ao meu redor são bolsonaristas. As coisas ainda vão piorar muito. A história ainda vai cobrar de cada homem e cada mulher a responsabilidade por toda essa destruição e por todo esse mal que tomou conta de nosso mundo.

Bolsonaristas e "isentões", as suas mãos estão cheias de sangue e suas histórias também.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


domingo, 30 de agosto de 2020

300820 (d.C.) - Diário e reflexões



Domingo, 30 de agosto, depois do aparecimento da Covid-19 (d.C.).

Hoje é aniversário de meu pai. Meus parabéns, pai! 78 anos! Sei que a vida não está fácil. Estamos vivos e isso já é alguma coisa. Resistimos até aqui ao coronavírus, mesmo com os abusos que cometemos em relação ao isolamento social: estamos o tempo todo na rua, apesar dos cuidados recomendados. Resistimos até aqui, mesmo com os abusos que cometem cotidianamente contra nós, cidadãos comuns desse país sob golpe de Estado e regime fascista, regime baseado na mentira e privilégio dos ricos. 

Sobrevivemos até aqui aos infartos, aos derrames e acidentes vasculares, depressões, cânceres, raivas e frustrações e outras merdas que nos matam de morte morrida. Que bom que estamos vivos, pois a vida é única e viver é uma oportunidade diária de acontecimentos bons para amenizar a dureza da existência. Ontem vi o nascer do sol. Hoje vi um lindo ipê branco no dia de seu desabrochar. Pai, desejo ao senhor a saúde possível, já que o senhor tem diversos desgastes da passagem do tempo. Também já tenho os meus aos 51 anos. Amo vocês, pai, mãe, irmã e sobrinhos. Se cuidem aí. A pandemia impediu que nos víssemos este ano. Mas estamos por aqui. Saudades de vocês!

Por falar em coronavírus, a pandemia mundial já infectou 25 milhões de pessoas no mundo, sendo 3,8 milhões no Brasil. Já morreram 843.826 pessoas, sendo 120.462 brasileiras e brasileiros. O inumano no poder, seus asseclas e apoiadores nazifascistas afirmam que a Covid-19 é uma "gripezinha". Além disso, o sujeito no poder por fraude e golpe diz que não é coveiro, que todo mundo vai morrer um dia e a posição do governo sobre a situação das mortes pela pandemia é "E daí?". (informações sobre a pandemia: Johns Hopkins University)

Estou às voltas com minhas coisas guardadas, materiais que acumulei para estudar e ter mais conhecimentos em diversas áreas. Nunca pude ler os materiais porque a vida de um proletário se gasta no próprio viver de jornadas de manhãs, tardes e noites na sobrevivência cotidiana. Não tenho coragem de jogar fora, a gente tenta se desfazer e fica com pena de tanta informação e conhecimento nas revistas, nas apostilas, nos livros diversos, nas mídias de cultura. E no fundo, a questão é sobre a utilidade de tudo isso para mim hoje. O que aprendi serviu para o momento que já vivi, para o que eu já fui como ator social. Meu tempo passou para a maioria dos materiais que acumulei, e as coisas são assim mesmo. O que fazer com esse conhecimento à disposição de quem queira conhecimento? Os tempos são de se enaltecer a ignorância, a força bruta, a violência das armas.

Os materiais são fascinantes. Não sei se teria agido melhor como representante de classe se tivesse lido tudo isso, mas a leitura agora tem qual sentido para a minha vida neste mês? Neste ano e nos próximos que eu possa me pegar vivendo? É tudo esquisito.



Li algumas matérias de um jornal de setembro do ano passado - A VERDADE -, que me trouxeram conhecimento novo. Gostei da matéria sobre "Milton Santos, cientista negro, latino-americano". Vi pelo texto que não conhecia absolutamente nada do professor Milton Santos. Eu só sabia que ele era um dos maiores geógrafos do país. Não sabia que ele era natural da Bahia, descendente de escravos emancipados. Formado em Direito e Doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, França. Na ditadura civil-militar de 1964, foi demitido da Universidade Federal da Bahia, onde lecionava, foi preso por 60 dias e se exilou por muito anos. O texto me deu muito orgulho de saber quem foi Milton Santos.

Também li uma matéria grande sobre "Ludwig Feuerbach, filósofo da libertação". Gostei muito da matéria. O filósofo foi referência para Marx e Engels; foi aluno de Hegel e depois se tornou um crítico dele. Em sua obra "Reflexões sobre a morte e a imortalidade", de 1830, ele se opõe à crença na imortalidade e rompe com o cristianismo. Sua principal obra "A essência do cristianismo" (1841) afirmou que Deus seria a projeção das principais qualidades humanas. Mas "Ao se projetar em Deus, porém, o homem não se reconhece mais nele. Deus é encarado como um ser externo, independente do homem e com vida própria. Embora Feuerbach não utilize este termo, ele opera aqui com o conceito hegeliano de alienação (Entfremdung), que também seria apropriado por Marx no contexto de sua crítica ao capitalismo...". Vejam quanta coisa interessante se conhece ao ler, ao estudar materiais que temos em casa.

Enfim, enquanto estamos vivos, temos que buscar ser melhores que antes. Melhores para nós mesmos, melhores para os outros, melhores para o entorno social ao qual vivemos.

William


Fonte da citação: A VERDADE, edição de 05 de agosto a 05 de setembro de 2019, nº 219, ano 19.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Alemanha de Eichmann e o Brasil pós-Golpe





"(...) uma velha lei de 1933 permitia que o governo confiscasse propriedade que tivesse sido usada para atividades 'hostis à nação e ao Estado'..." (ARENDT, 2019, p. 175)

"(...) terceiro, num decreto determinando que toda propriedade de judeus alemães que perdessem sua nacionalidade fosse confiscada pelo Reich (25 de novembro de 1941)." (ARENDT, 2019, p. 175)

"(...) 'o Ministério da Justiça só pode dar uma pequena contribuição ao extermínio [sic] desses povos'. (Essa linguagem aberta, numa carta do ministro da Justiça para Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido, datada de outubro de 1942, é excepcional.)" (ARENDT, 2019, p. 175)


Refeição Cultural

Quatro horas da manhã. Não consigo dormir e me levanto. Pego o livro Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal (lançado em 1963), de Hannah Arendt. Retomo a leitura. Avancei mais dois capítulos: "Deveres de um cidadão respeitador das leis" e "Deportações do Reich - Alemanha, Áustria e o Protetorado".

Abro a janela da sacada e vejo o amanhecer. Nesses dias, o cantar de sabiás atravessa a noite e são eles que escuto ainda no escuro. Vejo os vultos que andam na penumbra lá embaixo. Mais um dia comum se inicia. Outros pássaros começam a cantar ou emitir seus chamados. A região tem joão-de-barro, bem-te-vi e outros mais.

O Estado alemão não trata de forma igual os cidadãos alemães. Segmentos inteiros da sociedade alemã são discriminados, perseguidos e sofrem todo tipo de absurdo. Após o início do governo de Adolf Hitler as coisas vão piorando cotidianamente. Judeus, comunistas, pessoas com qualquer tipo de deficiência física ou intelectual, oposições ao governo, quem pensa diferente, todos são alvo de perseguições.

Judeus não podem mais ocupar funções públicas, ser professores, servidores públicos. Depois não podem mais se casar ou se relacionar com os arianos. Depois não podem mais ter direitos básicos que os demais cidadãos têm. Tudo foi sendo normalizado. E a vida seguia normalmente para aqueles que não eram alvo das perseguições do Estado. Festas, casamentos, comemorações, diversões.

Os anos foram passando. Após 1933, veio 1934, depois 35 e 36 e o Estado nazista foi normalizando tudo. A linguagem alemã foi se adequando a toda barbárie. Matar milhares de pessoas com deficiência sob a denominação de "eutanásia". Depois matar adversários do governo com a mesma "eutanásia". Tomar as propriedades dos cidadãos que o Estado perseguia e considerava como indesejáveis. Tornar impossível a vida das pessoas... prisões, exílio, deportação...

E chegamos aos fornos e execuções em massa por fuzilamento nos diversos campos de concentração nazistas.

A banalidade do mal se dá através de um processo

No Brasil, fomos vendo acontecer absurdos atrás de absurdos após a população eleger para a presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Aqueles que viriam a apoiar o golpe de 2016 começaram a conspirar contra o governo de Lula desde o primeiro ano de seu mandato. As fake news (nome da moda para mentiras) já eram usadas contra Lula e o Partido dos Trabalhadores desde os anos oitenta.

Os barões das mídias e seus lacaios perseguiram por décadas as lideranças populares e dos trabalhadores brasileiros. Lula e o PT eram acusados de crimes absurdos como, por exemplo, o sequestro de empresário (com foto de sequestrador com camisa do PT em horário nobre). O PT era o partido que iria colocar um sem teto ou sem terra na casa de cada pessoa que tivesse uma casa própria. Que iria confiscar a poupança das pessoas (e no fim quem confiscou foi o Collor).

O chamado quarto poder, os meios de comunicação hegemônicos, dominado por algumas famílias de bilionários poderosos, tanto a mídia nacional quanto a local, nos estados e municípios, começou uma perseguição implacável ao partido do presidente Lula, eleito em 2002.

Como militante político, representante de trabalhadores, estudante de Letras, fui vendo tudo o que aconteceu no Brasil entre 2003 e 2020. O processo de envenenamento do povo, destruição da política e da democracia nos trouxe ao momento que vivemos hoje: o bolsonarismo. Sabemos quem são os responsáveis por essa tragédia. E eles estão livres, leves e soltos. 

Transformaram parcelas do povo brasileiro em bestas feras. Colocaram nos poderes constituídos através de eleições, monstros, gente criminosa. Gente má. O mesmo se deu em funções públicas providas por concurso ou nomeação direta. Normalizaram a maldade. 

O que há de pior galgou o poder estatal como consequência do processo de envenenamento do povo brasileiro. E não sabemos o que está por vir. Não se tem como prever os males após a abertura da caixa de Pandora. Falamos isso por anos.

O que sabemos é que o Terceiro Reich e o nazifascismo só acabaram após um guerra que matou dezenas de milhões de pessoas e destruiu dezenas de países na Europa e demais continentes envolvidos no conflito mundial.

O que vimos e temos acompanhado desde que todo esse processo de destruição do país começou, por parte dos poderosos que não aceitaram a democracia na vez de governos populares, o que vimos e vemos é que o Estado brasileiro, através de suas instituições, vem fazendo o mesmo que o Estado nazista fazia com seus cidadãos: perseguia, discriminava, prendia, confiscava bens, invadia a casa de pessoas. E pessoas morriam em consequência de ações do Estado.

O que tem de mais igual na Alemanha de Eichmann e no Brasil pós-Golpe é que o Estado brasileiro tem perseguido e sido injusto com certos segmentos da sociedade; para alguns, o rigor da lei ou até punição sem lei que sustente o ato e, para outros, tudo se é permitido, inclusive o que estaria proibido por lei. E isso vem piorando após o golpe de Estado e após as eleições fraudulentas de 2018. Não sabemos como isso vai terminar.

É impossível não lembrar o que o Estado brasileiro está fazendo com o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Todos os dias, meses e anos dos últimos anos, tudo o que vemos é idêntico ao que o Estado alemão fez com milhões de judeus. Mas cada judeu tinha nome, tinha endereço, tinha família, tinha uma história e o Estado tratava aquele segmento da sociedade alemã como um nada (ou pior, como inimigo). E os alemães assistiram a tudo isso...

Chega por hoje... O sol saiu. Ele está encoberto pelas nuvens da manhã. Mas já são oito horas da manhã de sexta-feira.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

À la Benjamin Button... (5)



Refeição Cultural

Olhar para trás...


Fico pensando na fala daquele relojoeiro que construiu o relógio da estação de trem da cidade com o tempo andando para trás. Ele queria que os jovens que morreram na 1ª Guerra Mundial pudessem voltar a viver, como o próprio filho, que saiu vivo daquela estação e voltou em um caixão. Estou falando do filme O curioso caso de Benjamin Button (2008). Naquele ano, o personagem nasceu com as características de um idoso de uns 80 anos e começou a rejuvenescer.

Fico olhando para trás e tentando entender por que chegamos aonde chegamos. Por que o Brasil foi destruído em tão pouco tempo após se destacar e avançar no início do século XXI, sob os governos do PT? Por que o povo aceitou toda essa destruição? Por que uma parte considerável do povo é miserável e, apesar disso, apoia os bárbaros e a elite que o humilha e maltrata? Por que outra parte do povo não se importa com toda a desgraça (no fundo apoia a situação)?

A vontade que dá é de sumir... mas "a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação", já dizia meu poeta favorito, Carlos Drummond de Andrade.

Olhei para trás no mês de julho na rede social na qual tenho uma conta. As postagens abaixo foram os comentários que fiz em relação à pandemia do novo coronavírus. Hoje, estamos com 117.665 mortos por Covid-19 no Brasil e o povo está em festa nas ruas, sem máscaras, bebendo e comemorando alguma coisa que eu não consegui entender ainda...

Os números da pandemia são impressionantes, tenebrosos. Não temos nada para comemorar. Os tempos são de morte. São 24 milhões de infectados no mundo, e 824.230 mortos. Mas os bárbaros ao meu redor, nas sacadas dos prédios aqui em Osasco, nas praias do Brasil, nos barzinhos, cantam, festejam, vociferam palavras de ordem, quase babam enquanto bebem, bêbados, babando algum instinto selvagem que não compartilhamos...

Os bárbaros animalescos no poder venceram o debate sobre a questão de normalizar as mais de mil mortes por dia. Venceu o lema do governo "E daí?". Estamos perplexos! 

Estamos perplexos, mas estamos vivos! E pode ser que sigamos vivos e algum dia possamos ver essa banalidade do mal ter algum fim e os criminosos serem julgados e condenados. Todos eles, os donos das mídias corporativas que estragaram o povo, os humanos que se apoderaram das funções de Estado para praticar crimes contra pessoas, contra instituições e contra o país.

William

27/7/20

87 mil mortos por Covid-19. Hospitais desassistidos pelo governo. O próprio presidente contaminado, sem máscara, anda em público assumindo o risco de transmitir o vírus para cidadãos sem acesso a planos de saúde...


Nada disso era necessário... essa destruição do país foi planejada pela elite canalha desse país (e seus meios midiáticos) e pelo império do Norte.


Todos esses crimes contra a vida e as pessoas e nosso país serão julgados em tribunais políticos e penais. Essa gente fascista vai pagar por seus crimes!


Vamos assistir a isso ainda!

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22/7/20

Normalizaram na imprensa empresarial 1000 "mil" (mil) pessoas mortas por dia. Toda vida importa. Mas olhem as estatísticas das vítimas... pobres, pretos, periferias, indígenas, baixa renda ou nenhuma renda...

Olhem quantas mortes em países com população do tamanho da nossa ou maiores. Só aqui e nos EUA tanta morte desnecessária...

DESEJO e VOU VER os responsáveis sendo julgados em tribunais internacionais!

(O BoletimCorona da revista Carta Capital, que divulguei na rede social com esse comentário acima, informou 82.771 mortos e 2.227.514 casos confirmados no Brasil. Informou também que o governo federal havia gasto até aquele momento menos de 1/3 da verba emergencial para o combate à pandemia...)

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20/7/20

Expresso minha solidariedade aos familiares e amig@s das vítimas dessa pandemia. Não fosse o comportamento desumano do inumano no poder, teríamos salvo muitas vítimas.

(No BoletimCorona da Carta Capital, que divulguei com o comentário acima, vimos que o desgraçado na presidência havia voltado a recomendar hidroxicloroquina no dia em que o país ultrapassava a marca de oitenta mil mortos. Os números impressionavam: 80.120 mortos e 2.118.646 casos confirmados...)

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17/7/20

77.851 mortos... minha solidariedade às famílias e amigos das vítimas. Isso não precisaria ser assim. Milhares de vidas poderiam ser salvas se a postura dos governantes dessa terra fosse outra.

Saudades dos governos de esquerda de Lula e Dilma, do PT. O povo era a prioridade do governo...

(Esse foi o comentário que postei na rede social com o BoletimCorona... no vídeo, lemos que o inumano no poder havia recomendado à Fiocruz que ela receitasse cloroquina para vítimas de coronavírus e a resposta da entidade foi que não recomenda cloroquina para Covid-19. A OMS dizia que não havia maneira de garantir que a queda das mortes ocorreria por si...)

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16/7/20

Pandemia

Caminhamos para 100 mil mortos (e 1/3 dos humanos neste solo apoiam os responsáveis pelas nossas tragédias...).

Povo bárbaro!

(O BoletimCorona informava que o Brasil ultrapassava os 2 milhões de casos confirmados naquele dia)

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15/7/20

75.366 mortos.

Nada de novo no front...

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14/7/20

Meus pêsames pelos 72.833 mortos pela Covid-19. Não era pra ser assim. Teríamos menos vítimas se os governantes tivessem o povo como prioridade como nos tempos dos governos do PT no Brasil. O povo era mais feliz...

(e talvez não soubesse).

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09/7/20

Pêsames...

Mais 1.220 mortos pela pandemia de coronavírus. 69.184 mortos pelas pandemias (Covid-19 e bolsonarismo).

Meus pêsames também pela democracia, que morre todo dia mais um pouco... mortes, mortes, mortes.

Mas estamos vivos e sonhamos com a democracia, com a unidade da classe trabalhadora e com a conquista da democracia. Sonhamos com a vida!

Enquanto há vida, há esperanças no amanhã.

(O BoletimCorona, da Carta Capital, informava que o primeiro ex-Ministro da Saúde do inumano, um sujeito que odeia o SUS e que tentou se passar por santo no governo fascista, disse naquele dia - se referindo ao sujeito na presidência - que quem aglomerava e não usava máscara contraía a doença...)

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07/7/20

66.741 mortos pelo vírus.

Os inumanos no poder (por fraude de fake news e lawfare) e "empresários" falaram em "uns 7 mil mortos"...

Com mil mortes por dia... serão 100 mil até o fim deste ano...


Meus pêsames aos familiares e amig@s das vítimas dessa tragédia neste país jabuticaba.

(Foi neste dia que disse que o país teria cem mil mortos até o fim do ano... errei feio feio! Neste momento da postagem no blog, estamos com mais de 117 mil mortos neste momento, 26 de agosto, e o mês nem terminou... mas o povo sem máscara está em festa nas ruas, bares e sacadas com churrasco... naquele dia 7 de julho, o BoletimCorona informava que o desgraçado no poder central havia testado positivo para Covid-19 e que ele havia voltado a criticar o isolamento social...)

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03/7/20

8 milhões de infectados pelo vírus Covid-19 podem estar entre nós, todos com risco de morte ou de sequelas em suas condições de saúde...

Apesar de saber que 1/3 desse povo brasileiro miserável está com Bolsonaro e se vê nele, e outro 1/3 não se importa com isso por despolitização e egoísmo (é praticamente mais um grupo que apoia o bolsonarismo), eu me solidarizo com o sofrimento pelos mais de 61 mil mortos.

Somos um povo bárbaro, inculto e miserável.

Sigamos vivos e dispostos ao bem coletivo e ao combate ao capitalismo, ao neoliberalismo e aos fascismos.

(O comentário acima é porque o BoletimCorona naquele 3 de julho informava que um estudo da Universidade Federal de Pelotas dizia que o Brasil poderia ter 8 milhões de infectados porque a subnotificação estaria na casa de 6 vezes mais casos que o número oficial. O prefeito de uma cidade da Bahia havia dito que abriria o comércio morresse quem fosse... o boletim trazia ainda uma imagem da live do desgraçado no poder - era um cubículo com um monte de homens brancos rindo e comemorando a vida [deles] e o poder... O Brasil chegava a 61.884 mortos naquele dia 3 de julho...)

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01/7/20

+180 mil mortos por Covid-19 até dezembro? (mil mortes por dia nos próximos 6 meses).

Esse país jabuticaba, bárbaro, medieval, no qual 1/3 do povo apoia um genocida inumano, no qual os golpistas acabaram com os direitos trabalhistas e previdenciários, acabaram com as categorias profissionais e com a educação e saúde, caminha para que a pandemia e a tragédia de cada morte, cada pessoa, cada ser humano falecido pelo vírus agressivo do novo coronavírus seja incorporada à "normalidade" do cotidiano bárbaro dessa terra.

Na maioria dos países que vivenciaram a pandemia da Covid-19, algumas mortes sensibilizavam as nações, mortes terríveis, as pessoas se afogavam sem conseguirem respirar... a pandemia foi uma tragédia na Itália, França, Espanha, China, Alemanha...

Aqui 1.000 mortos por dia viraram um nada, um número como outro qualquer comentado em meio às privatizações da água, das investigações de crimes da família que colocaram na presidência... do dólar que era alto quando estava 2,50 nos governos do PT e agora não é problema algum estar mais de 5,00 no governo Guedes/PIG/casa-grande.

Pois é, caminhamos para fechar o ano da (des)graça de 2020 com 250 mil mortos vítimas da pandemia de Covid-19, sem isolamento social, sem quarentena, sem recurso financeiro do Estado para que as pessoas desempregadas e sem renda permanecessem em casa.

Brasil... terra de ninguém!

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Fonte das informações sobre a pandemia de Covid-19: site da Johns Hopkins University e BoletimCorona da revista Carta Capital.

Brasil, Eichmann e as categorias privilegiadas




"(...) 'Ninguém veio até mim e me censurou por nada no desempenho de meus deveres, nem o pastor Grüber disse uma coisa dessas', ele repetiu. E acrescentou: 'Ele veio até mim e pediu alívio para o sofrimento, mas não objetou de fato ao desempenho de meus deveres enquanto tais'. Pelo depoimento do pastor Grüber parecia que ele buscava não tanto o 'alívio do sofrimento' quanto a isenção para algumas categorias bem estabelecidas anteriormente pelos nazistas. Essas categorias haviam sido aceitas sem protestos pelo judaísmo alemão desde o começo. E a aceitação de categorias privilegiadas - judeus alemães acima de judeus poloneses, judeus veteranos de guerra e condecorados acima de judeus comuns, famílias cujos ancestrais eram nascidos na Alemanha acima de cidadãos naturalizados recentemente etc. - fora o começo do colapso moral da respeitável sociedade judaica..." (ARENDT, 2019, p. 148)


Refeição Cultural

Categorias privilegiadas... Colapso moral da respeitável sociedade...

Muito do que já li sobre o comportamento dos alemães durante o período nazista, ou seja, durante o regime do 3º Reich, sob a liderança de Adolf Hitler, nos passa a descrição do clima cotidiano que se vivia à época, entre 1933 e 1945, tempo de duração do regime que pensava que duraria mil anos.

O filólogo judeu alemão Victor Klemperer, sobrevivente dos campos de concentração, descreve o cotidiano da Alemanha nazista em seus diários, depois transformados no livro LTI - A linguagem do Terceiro Reich (de 1947). O nazifascismo normalizou a banalidade do mal. Transformou em algo normal e corriqueiro aquilo que jamais seria aceito por qualquer ser humano em qualquer sociedade considerada civilizada.

Ao ler o relato de Hannah Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann, já no início dos anos sessenta, e me encontrar no Brasil do ano de 2020 sob um novo regime de Estado, um regime que se estabeleceu após um processo de golpe de Estado que envolveu praticamente todas as instituições da velha república que havia, é impossível não identificar semelhanças entre os dois períodos: o do nazismo da Alemanha dos anos trinta e quarenta e o nosso mundo, tomado pelo mal de forma institucional e banalizada no cotidiano das gentes.

É por achar semelhanças entre os períodos de ascensão do mal em forma de governo que insisto em registrar algumas coisas, poucas, bobas, para quase ninguém, mas que devem ser registradas. Eu já escrevo neste blog há pelo menos 13 anos. O ideal inclusive seria imprimir e guardar os textos, distribuir cópias para alguns conhecidos, porque uma coisa virtual é mais frágil que uma vida humana. Uma ação qualquer de um terceiro e a coisa não existe mais (como a vida).

As categorias privilegiadas... colapso moral da respeitável sociedade...

Ao organizar o novo golpe de Estado contra a frágil e parca democracia brasileira, as elites privilegiadas desta ex-colônia de impérios não mediram as consequências e não avaliaram os riscos para tirarem do poder um Partido dos Trabalhadores que vinha melhorando a vida do povo "de forma lenta e gradual" e ao mesmo tempo vinha conciliando com essa mesma elite para que o país se desenvolvesse e distribuísse um pouquinho de benefícios aos milhões de brasileiros à margem da cidadania. 

E a consequência do golpe foi o que temos hoje. O crime organizado ascendeu ao poder de verdade. O que há de pior na sociedade ascendeu ao poder. Temos hoje como "normalidade" as coisas mais grotescas que se poderiam imaginar. Coisas que jamais seriam aceitas por qualquer sociedade considerada civilizada. Vivemos a mais dramática banalidade do mal na forma de governo, de Estado, e através de suas instituições. E nada acontece em relação a termos uma reação da sociedade civil. Nada!

As mentiras criadas (fake news e lawfare) para se destruir um partido e suas lideranças, um segmento da sociedade, um governo eleito democraticamente em 2002, 2006, 2010 e 2014, foram sendo repetidas e sustentadas por instituições da sociedade como mídia corporativa, ministérios públicos, órgãos de justiça, dentre outras instituições da sociedade, e agora vivemos o abismo, o colapso total. As vítimas não encontram justiça porque as instituições foram todas envolvidas e para se desfazer uma injustiça seria necessário rever todas as injustiças e mentiras mantidas pelas próprias instituições...

E com isso tudo que descrevi acima, normalizou-se as mentiras, o lawfare, a banalidade do mal, o privilégio das categorias privilegiadas. Estamos todos por nossa própria conta. Sozinhos. Milhões de pessoas que não fazem parte dos que apoiam ou pertencem aos grupos que ascenderam ao poder totalitário do Estado, e não sabemos o que fazer nesta situação.

Não temos mais instituições republicanas funcionando minimamente. Não temos mais leis para todos. O clima estimulado pelas classes dominantes no novo regime é o do ódio, da ignorância, o da carteirada... vivemos sob um novo regime totalitário. Se você não for adesista, se não for um deles, tudo pode contra você e os seus. E não adianta buscar justiça, porque ela é somente para os adesistas.

E teremos que sobreviver no meio disso tudo, e com ética, solidariedade e caráter, dimensões praticamente extintas pelo novo regime.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


sábado, 22 de agosto de 2020

Dilma Rousseff responde agressão do jornal FSP


Presidenta Dilma Rousseff.
Foto oficial da posse em 2011.

(Reprodução de artigo do site Dilma.com.br)


“A FALHA DE S. PAULO” ATACA OUTRA VEZ?


As afirmações do editorial do jornal a respeito do meu governo são fake news. A Folha falsifica a história, num gesto de desprezo pela memória de seus leitores

A Folha tem enorme dificuldade de avaliar o passado e, assim, frequentemente erra ao analisar o presente.

Foi por avaliar mal o passado que a empresa até hoje não explicou porque permitiu que alguns de seus veículos de distribuição de jornal dessem suporte às forças de repressão durante a ditadura militar, como afirma o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Foi por não saber julgar o passado com isenção que cometeu a pusilanimidade de chamar de “ditabranda” um regime que cassou, censurou, fechou o Congresso, suspendeu eleições, expulsou centenas de brasileiros do país, prendeu ilegalmente, torturou e matou opositores.

Os erros mais graves da Folha, como estes, não são de boa-fé. São deliberados e eticamente indefensáveis. Quero deixar claro que falo, sobretudo, do grupo econômico Folha, e não de jornalistas.

Quero lembrar, ainda, a publicação, na primeira página, de uma ficha falsificada do Dops, identificada pelo jornal como se fosse minha, e que uma perícia independente mostrou ter sido montada grosseiramente para sustentar acusação falsa de um site fascista. Mesmo desmascarada pela prova de que era uma fraude, a Folha, de forma maliciosa, depois de admitir que errou ao atribuir ao Dops uma ficha obtida na internet, reconheceu que todos os exames indicavam que a ficha era uma montagem, mas insistiu: “sua autenticidade não pôde ser descartada.”

Quem acredita que as redes sociais inventaram as fake news desconhece o que foi feito pela grande imprensa no Brasil – a Folha inclusive. Não é sem motivo que nas redes sociais a Folha ganhou o apelido de “Falha de São Paulo”.

O editorial de hoje da Folha – sob o título “Jair Rousseff” – é um destes atos deliberados de má-fé. É pior do que um erro. É, mais uma vez, a distorção iníqua que confirma o facciosismo do jornal. A junção grosseira e falsificada é feita para forçar uma simetria que não existe e, por isto, ninguém tem direito de fazer, entre uma presidenta democrática e desenvolvimentista e um governante autoritário, de índole neofascista, sustentado pelos neoliberais – no caso em questão, a Folha.

Todas as afirmações do editorial a respeito do meu governo são fake news. A Folha falsifica a história recente do país, num gesto de desprezo pela memória de seus próprios leitores.

Repisa a falsa acusação de que o meu governo promoveu gastos excessivos, alegação manipulada apenas para sustentar a narrativa midiática e política que levou ao golpe de 2016. Esquece deliberadamente que a crise política provocada pelos golpistas do “quanto pior, melhor” exerceu grande influência, seja sobre a situação econômica, seja sobre a situação fiscal.

A Folha, naquela época, chegou a pedir a minha renúncia, em editorial de primeira página, antes mesmo do julgamento do impeachment. Criava deliberadamente um ambiente de insegurança política, paralisando decisões de investimento, e aprofundando o conflito político. Estranhamente, a Folha jamais pediu o impeachment do golpista Michel Temer, apesar das provas apresentadas contra ele. Também não pediu o impeachment de Bolsonaro, ainda que ele já tenha sido flagrado em inúmeros atos de afronta à Constituição, e o próprio jornal o responsabilize pela gravidade da pandemia. A Folha continua seletiva em seus erros: Falha sempre contra a democracia, e finge apoiá-la com uma campanha bizarra com o bordão “vista-se de amarelo”.

Um país que, em 2014, registrou o índice de desemprego de apenas 4,8%, praticamente pleno emprego, com blindagem internacional assegurada por um recorde de US$ 380 bilhões de reservas, não estava quebrado, como ainda alega a oposição. Na verdade, a destituição da presidenta precisou do endosso da grande mídia para garantir a difusão desta fake news. O meu mandato nem começara e o impeachment já era assunto preferencial da mídia, embalado pelas pautas bombas e a sabotagem do Congresso, dominado por Eduardo Cunha.

Os dados mostram que a “irresponsabilidade fiscal” que me foi atribuída é uma sórdida mentira, falso argumento para sustentar o golpe em curso. Entre 2011 e 2014, as despesas primárias cresceram 3,7% ao ano, menos do que no segundo mandato de FHC (4,1% ao ano), por exemplo. Em 2015, já sob efeito das pautas bombas, houve retração de 2,5% nessas despesas. As dívidas líquida e bruta do setor público chegaram, em meu mandato, a seus menores patamares desde 2000. Mesmo com a elevação, em 2015, para 35,6% e 71,7%, devido à crise que precedeu o golpe, elas ainda eram muito menores que no final do governo de Temer (53,6% e 87%) ou no primeiro ano de Bolsonaro (55,7% e 88,7%).

Logo ao tomar o poder ilegalmente, os golpistas aproveitaram-se de sua maioria no Congresso e do apoio da mídia e do mercado para aprovar a emenda do Teto de Gastos, um dos maiores atentados já cometidos contra o povo brasileiro e a democracia em nossa história, pois, por 20 anos, tirou o povo do Orçamento e também do processo de decisão sobre os gastos públicos. Criou uma “camisa de força” para a economia, barrando o investimento em infraestrutura e os gastos sociais, e “constitucionalizando” o austericídio. O Teto de Gastos bloqueia o Brasil, impede o País de sair da crise gerada pela perversão neoliberal que tomou o poder com o golpe de 2016 e a prisão do ex-presidente Lula. E, a partir da pandemia, tornará ainda mais inviável qualquer saída para o crescimento do emprego, da renda e do desenvolvimento.

Se a intenção da Folha é tutelar e pressionar Bolsonaro para que ele entregue a devastação neoliberal, que tenha pelo menos a dignidade de não falsificar a história recente. Aprenda a avaliar o passado e admita seus erros deliberados, se quiser ter alguma autoridade para analisar um presente sombrio de cuja construção participou diretamente.

DILMA ROUSSEFF

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A paz dos cemitérios (Eichmann, Arendt...)





"(...) 11 milhões de judeus tinham de ser mortos, um empreendimento de certa magnitude - e mais tarde haveria de preparar as atas. Em resumo, Eichmann funcionou como secretário da reunião. Por isso teve permissão, depois que os dignitários partiram, de se sentar perto da lareira junto com seu chefe, Müller, e Heydrich, 'e foi essa a primeira vez que vi Heydrich fumar e beber'. Eles não falaram de trabalho, 'mas gozaram de um descanso depois de longas horas de trabalho', muito satisfeitos, principalmente Heydrich, que estava excitado." (ARENDT, 2019, p. 130)


Refeição Cultural

Acordo nesta sexta-feira fria em Osasco, e pego o relato de Hannan Arendt para ler. Ela discorre sobre a banalidade do mal após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann no ano de 1961. Estou no capítulo sete, "A Conferência de Wannsee, ou Pôncio Pilatos". É tudo muito chocante. Mas é história, não é fake news.

Após a leitura de algumas páginas, parei de ler. A leitura choca. Fiz um chá e tomei em silêncio na cozinha, ouvindo o barulho da chuva lá fora.

Ao ler como se deram as discussões entre os líderes alemães do Terceiro Reich para acharem soluções técnicas de como assassinar perto de onze milhões de judeus da Europa fico estupefato, e ao mesmo tempo fico pensando em nosso cotidiano neste momento da história. Aquela reunião ministerial do novo regime... aquelas falas asquerosas sobre prender opositores, "passar a boiada" (em referência ao tempo de caos da pandemia) para destruir a Amazônia e as terras indígenas...

O novo golpe de Estado no Brasil se deu com novas técnicas, com novas características. Velhos são só os efeitos para o povo e para o próprio país: miséria e destruição.

Desta vez não colocaram os tanques na rua para derrubar um governo popular legítimo, eleito com 54,5 milhões de votos. Não. Conspiraram com as agências do império do Norte. Colocaram no poder lacaios contratados para destruir os direitos do povo e entregar o patrimônio do país. 

O quarto poder, a mídia lava jato, faria o trabalho de limpeza de consciências ao manipular as massas. As massas ignóbeis, ignorantes, incultas, escolheram como heróis os vigaristas que destruíram a vida e o país delas. Foram-se direitos trabalhistas, previdenciários, de educação e saúde, foram-se os patrimônios públicos.

Desta vez a estratégia de golpe contra os brasileiros escolheu e acertou alvos importantes. Destruiu a organização sindical enfraquecendo entidades de trabalhadores da cidade e do campo. Está destruindo os avanços de décadas na educação pública e está desfazendo a estrutura de saúde universal e constitucional. O novo regime está destruindo todas as estruturas de pesquisa e dados históricos do país. A queima de tudo é para reinar nas trevas.

Como se não bastasse o golpe e o enfraquecimento das organizações da classe trabalhadora, um vírus viria coroar os vitoriosos na guerra mundial entre capital e trabalho. Ponto para os capitalistas! O vírus não é coisa de deuses, nem dos diabos. Provavelmente nem dos humanos. A natureza simplesmente é e as coisas são como são. Mas a pandemia foi uma oportunidade extraordinária para os donos do poder, que já estavam sem desculpas para justificar a miséria do necrocapitalismo... Que merda!

Neste momento, alguns humanos (milionários, bilionários) retiram direitos do povo, sugam as finanças dos Estados e receptam patrimônio público roubado e o povo está recolhido, com fome, com medo, com raiva de seus pares (a ideologia é uma benção!), com fé que algum deus o liberte do mal e lhe conceda a graça da salvação.

Vivemos a paz dos cemitérios... e a chuva cai lá fora.

Felizmente, as leis naturais estão aí e a única certeza é a mudança. Tudo muda o tempo todo, inclusive neste instante em que escrevo... são bilhões de eventos nos segundos que passam... a mudança é a única certeza!

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Banalidade do mal, Eichmann e o Brasil pós-golpe





"(...) o programa de extermínio dos pavilhões de gás do Leste brotou do programa de eutanásia de Hitler..." (ARENDT, 2019, p. 123)

"A primeira câmara de gás foi construída em 1939, para implementar o decreto de Hitler datado de 1º de setembro daquele ano, que dizia que 'pessoas incuráveis devem receber uma morte misericordiosa'..." (ARENDT, 2019, p. 124)

"(...) O decreto foi cumprido imediatamente no que dizia respeito aos doentes mentais, e entre dezembro de 1939 e agosto de 1941, cerca de 50 mil alemães foram mortos com monóxido de carbono em instituições cujas salas de execução eram disfarçadas exatamente como seriam depois em Auschwitz - como salas de duchas e banhos..." (ARENDT, 2019, p. 124)


Refeição Cultural

Brasil, ano de 2020, mês de agosto, 5º ano sob o golpe de Estado que interrompeu a democracia brasileira, os governos pacíficos do Partido dos Trabalhadores e os avanços históricos para a classe trabalhadora e o povo pobre.

Entre o início dos anos dois mil e o ano de 2014 o Brasil vivia uma época de felicidade simples do povo brasileiro. A classe trabalhadora tinha emprego, direitos sociais e sonhos. E as oportunidades de ascensão social não eram em conta-gotas, eram com escala nacional (de Estado) porque era o governo federal e seus programas que criavam oportunidades para dezenas de milhões de cidadãos, cuja origem lá atrás, um século e meio antes, eram as senzalas, os quartos de fundo, cortiços e favelas, eram as mães negras e índias e os pais brancos.

Com os avanços sociais, tivemos avanços culturais, avanços nos direitos humanos, e mesmo sem conseguirmos eliminar as mazelas da colonização e dos mais de três séculos de escravidão e exploração do povo, a tendência era de avanços para um povo que nunca teve nada, sequer água e comida, um teto e acesso à educação básica (estão apagando os dados históricos, mas ainda é possível verificar os avanços entre 2003 e 2015). 

Aquela parcela da sociedade que já tinha em si o animalesco, a maldade com requinte, ou a indiferença - gérmen da banalidade do mal -, estava sob uma espécie de controle social - o politicamente correto - porque ao vociferar seus preconceitos e ódios racistas, misóginos, étnicos e de classe o julgamento de seus pares vinha na hora, a reprimenda e até a punição por força de legislação. E devagar, avançávamos para uma sociedade melhor.

Que maçante lembrar isso... aí vieram as manifestações de 2013 capturadas pela casa grande, a operação norte-americana de derrubar governos latino-americanos - Lava Jato -, as mídias comerciais no Brasil e a criação de fake news pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista) dentro do processo de lawfare contra o governo do Partido dos Trabalhadores, o impeachment sem crime da presidenta Dilma Rousseff (eleita com 54,5 milhões de votos) para entregarem o poder do país à camarilha mais vil e repulsiva na história de qualquer república já havida no mundo. E vieram as reformas que acabaram com direitos do povo e bens públicos. E veio a condenação e prisão sem crime algum do líder do povo Lula da Silva: 580 dias numa masmorra, sem crime algum. 

E as fraudes com apoio de parte dos 3 poderes que levaram ao poder um sujeito inominável. E não só ele. Uma base parlamentar - Câmara e Senado - com bestas feras eleitas propondo os maiores horrores que se possa imaginar. E bandos de ultradireitistas nos governos de Estados. Gente eleita comemorando assassinato de líderes comunitários como a vereadora Marielle Franco (RJ). A legião de fascistas e seres abomináveis foi eleita com as mentiras inventadas contra a esquerda e o Partido dos Trabalhadores no mês das eleições: hoje, de conhecimento público que mentiras resultaram em eleitos ilegítimos (zilhões delas), tudo público e documentado pelos órgãos do Estado e pela imprensa (aquela mesma que participou do golpe).

Há que se registrar a banalidade do mal em nosso cotidiano

Com nojo relembrei tudo isso acima. Mas é importante registrar que um trabalhador morreu ontem enquanto trabalhava numa rede de supermercados e cobriram ele com alguns guarda-chuvas por horas para que o comércio não interrompesse o atendimento.

É necessário registrar que já tivemos apresentador de jornal propondo fazer campos de concentração de pessoas por causa da pandemia do novo coronavírus.

Que o governo federal não tem ministro da saúde já faz meses e o país e o mundo vivem uma das maiores pandemias da história.

O vídeo de uma reunião ministerial do governo inumano deixou estarrecido os cidadãos que ainda não sofreram o derretimento cerebral e não aderiram à banalidade do mal vinda dos órgãos do poder estatal. O plano é "passar a boiada" enquanto estivermos sob a pandemia. Traduzindo, seria algo como: façamos todo o mal enquanto estamos em pandemia... (que já contaminou mais de 3 milhões de pessoas e matou 110 mil brasileiras e brasileiros). O governo diz ser uma "gripezinha".

E a gente lê estupefato a descrição de Hannah Arendt sobre o cotidiano dos 12 anos de governo de Adolf Hitler e o jogo de linguagem utilizado para levar uma nação a apoiá-lo nas atrocidades que cometeu.

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"Nenhuma das várias 'regras de linguagem' cuidadosamente inventadas para enganar e camuflar teve efeito mais decisivo na mentalidade dos assassinos do que este primeiro decreto de guerra de Hitler, no qual a palavra 'assassinato' era substituída pela expressão 'dar uma morte misericordiosa'..." (ARENDT, 2019, p. 125)
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Quão longe estamos de vermos "eutanásia" e "morte misericordiosa" aos índios do Brasil, aos camponeses dos movimentos dos sem-terra, aos cidadãos em condições de rua nas cidades, aos pobres e trabalhadores sem planos privados de saúde, aos cidadãos que são nominados e identificados como sendo de esquerda, ou comunistas, ou petistas, ou sindicalistas? Ou "antifascistas"? Quão longe estamos daquele ambiente de banalidade do mal descrito por Hannah Arendt e por Victor Klemperer em seu LTI - A linguagem do Terceiro Reich?

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.